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Title: A Guerra - Depoimentos de Herejes
Author: Lima, Jaime de Magalhães, 1859-1936
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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disponibilizada pela bibRIA.



JAIME DE MAGALHÃES LIMA


A GUERRA

DEPOIMENTOS DE HEREJES


F. FRANÇA AMADO, EDITOR
COIMBRA. 1915.



A GUERRA



Composto o impresso na Tipografia França Amado,
Rua Ferreira Borges Coimbra.


JAIME DE MAGALHÃES LIMA


A GUERRA

DEPOIMENTOS DE HEREJES



COIMBRA
F. FRANÇA AMADO, EDITOR
1915.



Prologo


Um direito o nosso tempo conquistou plenamente--o direito de heresia.
Muitos outros tentou proclamar, desde o meiado do século XVIII até hoje.
Pela sua vitória se esforçou e sacrificou. Mas, se muitos quiz e por
momentos imaginou possuir, quasi outros tantos surgiram e se apagaram
com a rapidez e mágoa com que invariávelmente se desfazem ilusões e
esperanças mal fundadas.

O direito de heresia, o direito de discutir, contestar e negar todas as
ideias por qualquer modo dominantes, todas as convenções estabelecidas,
todos os dogmas, todos os principios e todos os preceitos da religião,
da filosofia, da arte, da sciencia, da politica, e de quanta afirmação o
nosso pensamento sonhe ou imponha, quer na vida concreta, quer na vida
puramente especulativa, o direito que implica a faculdade de regeitar no
govêrno da nossa actividade espiritual e material toda a autoridade
independente de restricção e de crítica--êsse logrou, porêm, prevalecer
atravez de todas as vicissitudes a que o tiveram e teem sujeito
multiplos e vigorosos despotismos, sempre fáceis em renascer das
próprias cinzas. Abolidas as divindades, as sagradas como as profanas,
as que se adoram nos templos como as que se lisongeiam nos palácios, é
legítimo duvidar da crença religiosa como da crença política, podemos
sem ofensa dos homens e respeitando a nossa consciência desconfiar de
muito civismo e de muito patriotismo envelhecidos e envilecidos por
diversa corrupção, podemos duvidar da justiça, e até da dignidade, de
muito orgulho nacional, pervertido por íntima ruindade. É isso tão
legitimo, de uma tão genuina fidelidade à razão, como o desdem das iras
olimpicas de Jupiter, ou a revolta contra as fogueiras da Inquisição, ou
a libertação da tirania de todos os cesares, sejam êles coroados por
direito divino ou aclamados pela insensatez e pela ingenuidade da
soberania popular. «Libertamo-nos dos abusos do velho mundo; carecemos
de nos libertar das suas glórias», disse Mazzini. E isso, que algum dia
poderia parecer blasfemia do revolucionário, encerra hoje apenas uma
modesta e incontestada insinuação e autorização de livre exame. Muito
heroismo houve que o passado glorificou e o futuro converterá em
ignominia, muito fraqueza vilipendiada o tempo nos tornará em
merecimento e honra, muita virtude foi crime, muito crime foi santidade,
muita prudência foi loucura, muita loucura foi acerto.

O cataclismo de 1914, turvando em ansiedade todos os corações, onde
corações encontrou, ainda os mais débeis, foi um ensejo tremendo dêsse
direito de heresia que uma lenta e progressiva insistência anterior
havia constituído e estabelecido firmemente em o nosso espirito; foi um
ajuste de contas correspondente à magnitude sem precedentes da guerra
que êle soltou. Verdadeiras religiões politicas e sociais, como a ordem,
a riqueza, o nacionalismo, o socialismo, o resplendor militar, as
egrejas, o império, e até o próprio cristianismo, foram chamadas a uma
revisão sevéra dos respectivos valores e a uma determinação dos seus
caracteres e responsabilidades; e dessa revisão sairam profundamente
alteradas na sua nobreza, na sua razão e pureza, e na sua mais humilde
utilidade. Palavras que eram um paládio transfiguráram-se em espéctros,
muito resplendor se apagou, muita treva se iluminou, muito poder se
arruinou, muito fetichismo se desfez.

De algumas dessas heresias, que tenho por fundamentais e destinadas a
uma influência incalculável no futuro das sociedades humanas, colhi
nestas folhas umas breves notas, na esperança, senão na certeza, de que
não pouco poderão esclarecer, e sobretudo fortalecer, nestas horas de
angustia, os que as meditárem.

Umas foram já impressas no _Diário de Noticias_, de Lisboa; outras, o
maior número, vem agora a público pela primeira vez. E de tal modo me
alarguei ceifando em seára alheia, que, constituindo as notas que se
referem à _Arte de Gastar_ uma versão quási completa do magnífico
opúsculo do sr. E. J. Urwick, julguei-me obrigado a solicitar do editor
sr. Humphrey Milford a autorização necessária para a tradução, que êle
bondosamente me concedeu, com uma gentileza pela qual confesso aqui o
meu reconhecimento.

Não vão os tempos para profecias. Tão profundo é o tumulto em que o
mundo se atropela desvairado, que todas são perigosas e se arriscam a um
desmentido rápido e radical.

Foi a guerra iniciada em nome da liberdade dos pequenos povos e do
respeito da justiça entre os homens e as nações. Mas não teremos que nos
surpreender se, chegada a hora da paz e da vitória, forem os primeiros
despotas aqueles mesmos que clamaram pela libertação dos oprimidos e no
seu clamor conduziram os exercitos às batalhas.

Não teremos de que nos surpreender, se esse for o epílogo desta inaudita
desgraça. Em primeiro logar, a guerra é só por si uma escola de
despotismo para vencedores e vencidos; é, como agora aconteceu em todos
os paises interessados no conflito, sem excepção, a suspensão absoluta
de todas as liberdades e direitos individuais, a absorpção de todas as
forças e de todas as actividades sociais, uma violência sem limites,
involvendo vidas e bens em uma temerosa vertigem do estado. De uma tal
situação ficam resíduos; de semelhante incêndio restarão, pela força das
cousas, ruínas fumegantes. O que era temporário tornar-se-á facilmente
permanente, máu foi ter-se fundado; o que se decretára para salvação da
republica, astuciosamente se continua para vantagem das dinastias e das
oligarquias. Houve uma fermentação cuja vitalidade reanimou muitos
elementos mortos e dormentes e cujos efeitos vão muito alêm do periodo
que a levantou, compreendendo por simples contágio muita cousa que lhe
era estranha.

Depois, convém não esquecer que a torrente dos impulsos económicos
pesará duramente na vida das nações empenhadas na guerra.

A ruina foi de uma vastidão insondável. A riqueza que por diversos modos
se aniquilou na guerra, excedeu quanto os cálculos podem atingir e
quanto os números podem somar. Não há arimética possível para volumes
desta largueza e complexidade.

Finda a guerra, êsses valores perdidos hão-de, naturalmente, procurar
uma restauração pura e simples, uma reintegração de posse, por processos
e em termos inteiramente conformes com o estado anterior ao desastre. E
êsse estado económico, que foi uma das causas mais poderosas desta
calamidade que nos aterra, é fundamentalmente despótico, e nem por outro
modo tem probabilidades de subsistir. Um publicista de grande autoridade
na imprensa inglesa, o professor L. P. Jacks, escrevendo no _Hibbert
Journal_ sôbre «a tirania das cousas que são meramente cousas», mostrou
como a mecânica e os maquinismos, «primitivamente destinados ao serviço
dos homens, se tornaram a muitos respeitos o seu senhor.» «O militarismo
e o industrialismo, como hoje existem na Europa, teem a sua origem em
uma fonte comum. Ambos esclarecem a inclinação dada ao espírito humano
pelo culto do maquinismo, que tão extensamente se tornou dominante na
vida espiritual do mundo ocidental.» «Ganha terreno a suspeita de que o
industrialismo deve afinal ser contado, em si e por si, entre as causas
positivas da guerra. Acrescentando a riqueza, a ostentação e o orgulho
dos povos, não servirá para acentuar as suas rivalidades, para cavar
mais fundas as suas invejas, e para inflamar as suas paixões
predatórias?»

Ora não é de crêr que o industrialismo, causa de guerra e dos seus
despotismos, abdique de boa mente do seu império e renuncie às armas com
que o sustenta, mórmente depois de ter sido o soldado mais forte da
guerra, que se fez mais nas fábricas e nas fundições monstruosas do que
nos campos de batalha, onde os soldados empregáram os engenhos de morte
que as oficinas e os laboratórios criavam e lhes mandavam.

Se ao industrialismo, de sua natureza despótico, que com grande cópia de
alegações ha-de reclamar o antigo logar, juntarmos as urgências
financeiras, ansiosas por uma organização económica fácil e
abundantemente colectável, se houverem de ser consideradas as
necessidades fiscais dos estados esmagados com dívidas fabulosas que se
contraíram rapidamente, mas que levam anos a saldar, muitos anos e muito
penosos, não será de estranhar que a guerra, no seu seguimento imediato,
robusteça aquela constituição do trabalho que, seguramente, por uma já
longa e amargurada experiencia, sabemos ser a mais perfeita negação da
liberdade, a mais fatal das opressões.

Todavia, embora quaisquer profecias se achem evidentemente sujeitas a
formais desenganos, ousarei dizer que alguma cousa é certa desde já nos
resultados da guerra. Podem as instituições políticas e os sistemas
económicos ser arquitetados e fundados como melhor convenha aos
caprichos dos reis, à fortuna dos homens, à sapiência diplomática e aos
seus sortilégios cabalisticos. Póde ser que, afinal, a guerra pareça,
nos seus efeitos concretos, radicalmente contrária aos sonhos de
liberdade que inflamaram os seus incendios e precipitaram as suas
hecatombes. Mas determinou uma renovação da consciência, uma filosofia,
uma moral, um modo de ser economico, um renascimento íntimo, que são de
durar e crescer, invulneráveis às artes dos imperadores e ao poder dos
vendilhões, superiores ao seu domínio.

A catástrofe de 1914 «não foi na realidade um acontecimento que mudou o
mundo. Foi uma grande mudança do mundo que rematou em um grande
acontecimento, cujo final ainda não é conhecido de homem algum[1].» Foi
essencialmente uma agonia espiritual perante a qual importam pouco e
serão transitórias as alterações ou a persistência da ordem material do
mundo.

O poder de revelação deste cataclismo excede muito a força de destruição
das edificações materiais que pulverisou. «A verdade é que entramos em
relações com um novo mundo que até aqui nos foi desconhecido. Poderes
espirituais até hoje invisiveis aparecem no seu ambiente. Digo
«invisiveis», sómente porque a sua acção se ocultava aos homens emquanto
êles andavam imersos nos cuidados do bem-estar material. E agora, neste
mesmo momento em que o mundo se alaga em sangue, e uma tormenta de fogo,
destruindo tudo na sua passagem, ameaça converter em pó e cinzas o nosso
bem-estar--eis que os cegos vêem e os surdos começam a ouvir.
Obscuramente pressentimos a aproximar-se a vitoria do espírito sôbre o
cáos. Quasi podemos dizer que uma scentelha desprendendo-se da
tempestade universal nos revelou subitamente um novo aspecto do mundo...
Além do inferno que se desencadeou sôbre a terra, distinguimos a
presença de um Poder mais alto, sôbre o qual o inferno não prevalece; e
é a êste poder mais alto que o futuro pertence. A sua acção é sempre a
mesma--no indivíduo, na nação e na humanidade. Afirma a vida contra a
morte e a integridade daquilo que vive contra as forças que o
dissolveriam. Vimos êste Poder incarnando em uma longa sucessão de
aparições que nos surpreendem. É precisamente nesta antecipação da sua
conquista final no futuro que encontramos a inolvidável significação da
guerra presente[2]».

Progresso, só no espírito existe. O materialismo de que a Alemanha foi
neste momento um estupendo representante, esplendido em seu género,
valerá tanto ou tão pouco nas cousas da terra como nos reinos do puro
pensamento. «Parecia dominar como filosofia na hora presente. Tinha a
seu favor uma certa força. Estamos em um mundo material, e os que
estudam o organismo corporeo andam sujeitos a virem gradualmente a uma
espécie de conclusão de que êle é a existência inteira. Por isso erram.
A matéria é muito importante, mas por modo algum é a totalidade do
universo. Há dois aspectos do universo, o espiritual e o material, e um
tem de ser aproveitado pelo outro. Não póde admitir-se que o aspécto
material domine; tem de servir as necessidades do espírito. A nota do
universo material é repetição; a nota do universo espiritual ou psiquico
não é, porêm, repetição, mas progresso. Isto se vê na história do nosso
próprio mundo--primeiro os animais inferiores, depois os animais
superiores, e por fim o homem. O que depois disto virá, não o sabemos
ainda, mas estamos longe da perfeição. Deve ser qualquer cousa melhor. O
próprio homem se tornará melhor sôbre a terra. E, assim como para o
indivíduo, o progresso da evolução não tem fim. Temos de compreender que
somos todos seres eternos, que temos um destino infinito deante de nós,
ou para cima ou para baixo, conforme o nosso caracter e atributos. Esta
é a nota do universo espiritual. O seu resultado é a vida, e a vida cada
vez maior. A soma de vida no universo parece crescer continuamente,
emquanto a soma de matéria e energia não cresce; esta é constante. A
inteligência póde crescer; póde crescer a felicidade; póde o
conhecimento espiritual atingir alturas presentemente inacessiveis[3]».

Apliquemos à crise presente êstes princípios, que são universais.
Procuremos um balanço exacto e consciencioso das alterações que a guerra
trouxe e nos deixou. Logo veremos a profundeza do seu alcance e os seus
lucros positivos um desenvolvimento de sensibilidade moral e religiosa
nas sociedades cultas, como jámais se viu, uma acentuação de tendências
de liberdade, de justiça, de amor e de religiosidade que acrescentáram
em proporções assombrosas os tesouros da vida do espírito, único
progresso possível, único que importa o domínio da matéria, mesmo quando
a materialidade se reputa fortalecida e inexpugnável pela solidez das
suas filosofias e sistemas, pelo poder das armas e da riqueza, e pela
prepotência triunfante e orgulhosa sôbre as infinitas escravidões que a
servem e são a sua mais funda aspiração e o seu mais eficaz instrumento
de reinar.

Mais prolongada no tempo e nas conseqùências, sobretudo infinitamente
mais fecunda do que a breve e incerta jornada militar, política e
económica em que tiver de rematar os combates, será a jornada moral e
religiosa a que a guerra nos conduziu. Não há poderes do mundo que a
perturbem. Porventura será mais activa quando êles menos a favorecerem.
A necessidade de reacção acelera-a e fortifica-a.

Talvez então, quando fôr a seu termo, as guerras nos pareçam, além da
«futilidade» que hoje são, uma infantilidade cruel, de que nos
lembraremos com a mesma opressão do coração que nos mortifica, se na
mente nos passa a recordação dos ninhos que na meninice destruimos e das
vidas que por capricho sacrificamos. E na humanidade chegada à edade da
razão a _Eneida_ será porventura um conto para crianças, e os herois que
nos exaltaram perder-se-ão em trevas distantes como aquelas em que
entrevemos a rudeza da edade da pedra.



Convulsões dum enfêrmo


Quando em 29 de julho de 1914 a Alemanha enviou à Russia uma declaração
de guerra, o mundo, acordando tragicamente da sordidez indolente e
gananciosa dos interesses baixos e das corrompidas comodidades, enervado
por longos anos de paz empregados em abrandar a fúria insaciável dos
seus prazeres e complexas sensualidades, julgou no auge da indignação
que um pensamento monstruosamente scelerado meditára e consumava um
«crime contra a civilização», o maior e o mais odioso que jámais se
sonhára e praticára na história da humanidade. Declaradamente se
armavam, havia quási meio século, os grandes poderes militares da
Europa; engrandeciam os exércitos, acrescentavam as armadas, acumulavam
os canhões, amontoavam munições e edificavam fortalezas por modo nunca
visto. Mas a confiança na autoridade e eficácia do velho preceito que
nos mandava preparar para a guerra se queriamos a paz, sustentava uma
segurança profunda e a tranquilidade, como certeza, de que tão
dispendioso e aturado forjar dos arsenais era apenas um côro de louvores
à glória da paz, soberana, possuindo o mundo, conquistando-o dia a dia
pela sua fascinação e ainda pelos engenhos de guerra que prometiam uma
inviolabilidade formidável a quem os soubesse fabricar e usar.

Depois, não estava demonstrado que a guerra importava a ruina de
vencedores e vencidos, e era de todo incompatível com a sustentação e
prosperidades das riquezas industriais e mercantis que a custo e com
enorme esfôrço haviamos criado e nos absorviam? Os pensadores, os
economistas e os homens de boa fé e melhor razão não tinham provado que
só por demência, e jámais por conveniência ou glória de uma nação, fôsse
ela qual fôsse, se poderiam desencadear ou consentir tão insensatos e
pavorosos cataclismos? A paz era reconhecidamente o mais lucrativo dos
negócios, emquanto as armas significavam a mais sólida das garantias da
amizade entre os povos. Apesar dos vaticinios de profetas tenebrosos
impenitentes, que tambêm os havia e não cessavam de agourar desgraças,
tendo por fatal a hora terrível de uma guerra europeia, o mundo ia
remexendo os seus oiros e os seus estercos, os seus bens e as suas
devassidões, convencido de que a bonança, uma perene bonança orgiaca,
era de ora em diante a lei da vida.

De facto, a guerra, lançando o fogo subitamente a todos os paioes,
surpreendia-o. Era a subversão das suas melhores crenças. Não podia
crê-la.

Quem ousava lançar a terra inteira nessa insondável voragem?!...

A guerra, no primeiro momento dêsse aflitivo e desvairado despertar, era
unicamente o fruto amargo da soberba lugubre dos que governam as nações,
alimentada na obscuridade das chancelarias, moralmente obtusas e
empedernidas e ignobilmente ávidas e crueis, de todo desprendidas do
zelo e respeito da fortuna dos povos que um desapiedado egoismo lhes
fazia ignorar; e a traição aos arrebatamentos da ventura em que viviamos
era executada e proclamada pelo braço e pela bôca de três imperadores,
um caduco na senilidade própria dos seus anos, o outro demente de raça e
de vaidade, e o terceiro não muito são, sujeito a acessos de melancolia.
Eram êles que na mais atroz loucura gerada de imaginárias ambições
lançavam uns contra os outros homens de todos os continentes, por igual
escravos do trabalho, que realmente se amavam e não tinham motivos para
se desamarem, e antes sentiam razões poderosas para se auxiliarem e
unirem. Eram êles os reus da atrocidade estupenda que ia cobrir de
desolação e de cadáveres o chão que Deus nos dera e nós queriamos para
criar e cultivar o pão, e os filhos e a arte e a religião, toda a
fortuna, toda a dignidade e toda a glória da nossa espécie.

Poucos dias, porêm, haviam decorrido desde a primeira hora de espanto e
aversão, e uma vaga consciência começou a mostrar que sob o impulso e
comando dos imperadores e dos generais, sob as cobiças das castas
militares e dos seus chefes, inflamando-as e explicando-as, senão
legitimando-as, entre o estrépito dos cavalos e dos canhões, havia o
conflito das raças, uma diversidade e uma incompatibilidade de
aspirações que se excluiam e por condição estavam sem remissão
destinadas a chegarem à agudeza dos combates em que se encontravam.
Bastaram as primeiras batalhas e as primeiras vitórias dos alemães na
Bélgica para que uma luz súbita mudasse todos os apectos. As primeiras
atrocidades que os exércitos da Alemanha cometeram, perante o
desrespeito dos tratados confessado com um extremo impudor e a perfídia
cínica em sua hedionda nudez, perante a hospitalidade traída,
construíndo fortalezas ocultas e pondo espiões onde com amizade eram
acolhidos, perante o morticínio de velhos e crianças, o insulto e
injúria das mulheres e a destruìção e saque dos mais preciosos tesouros
do espírito humano, mal se revelou a animalidade barbara que alimentava
a fúria germanica, compreendeu-se a que tremendo duelo eramos chamados.
E, assistindo à ressurreição dos sentimentos e processos que ha longos
séculos tinham movido as hordas teutónicas, de tenebrosa e amaldiçoada
fama, e se julgavam para sempre condenados e banidos, e confrontando-os
com o espírito religioso de abnegação e bondade que animava o slavo, com
o respeito, decôro e dignidade que é honra e brazão do mundo britânico,
e com a gentileza e rectidão que em toda a conjunctura caracteriza o
espírito gaulez, estremados assim fundamente os campos ao fim de um mês
de hostilidades, a experiência estava feita e o desengano acabado, e o
primeiro ministro da Inglaterra, Asquith, no discurso magistral que
pronunciou no Guildhall, podia dizer com o aplauso retumbante da Grã
Bretanha e de todo o mundo culto:--«Não é um conflito meramente
material, é tambêm um conflito espiritual. Das suas últimas
conseqùências se verá que mais tarde ou mais cedo dependem tudo o que
contêm promessa e esperança, que conduz à emancipação e mais completa
liberdade de milhões que constituem a massa do género humano».

Quem tinha olhos para ver, entendimento para considerar e sôbretudo
coração para sentir, logo sem a menor sombra se convenceu de que,
envolvido no tropel das ambições políticas e das rivalidades militares,
o que rialmente as precipitava em um embate temeroso era a
incompatibilidade, irreconciliável e ardente, entre a fôrça e o direito,
entre a brutalidade e o respeito, moderação e tolerância, entre as
cobiças da sordidez e o desprendimento da nobreza, entre o cinismo e a
crença, entre a liberdade e o despotismo, entre a boa fé e a
deslealdade, entre o orgulho e a modéstia, entre a candura e a
corrupção, entre o Deus do sacrificio à caridade e à bondade e o Deus
das batalhas, da avareza e do ódio. Nem sequer era uma disputa de
doutrinas e de sistemas; era e é uma oposição violenta de temperamentos,
uma divergência de modos de ser sociais, morais e religiosos entre si
antipáticos até à exclusão mútua. Era Tolstoi contra Strauss, Ruskin
contra Bismarck, Voltaire contra Treitschke, o monismo degradante de um
Ernesto Haeckel contra o dualismo espiritualista, nobre, credor
inflexível de responsabilidades, de um Alfredo Wallace; era a fé, a
graça, a justiça e a liberdade contra o scepticismo, a bruteza e o
despotismo, embora os primeiros se apresentassem desprotegidos de
previsão e astucia e os últimos viessem servidos pelo estudo, pelo
metodo e por subtil engenho.

Aos pensadores e erúditos não foi difícil esclarecer-nos, demonstrando
que vinham de longe as incompatibilidades cujas energias contrárias,
agravadas e acumuladas no correr dos anos, chegavam em uma hora
angustiosa a um combate de vida ou de morte. Reeditaram-se e notaram-se,
com a aureola das profecias, palavras de Ruskin nas quais a intuição
penetrante do génio muito cedo apontou a distância que havia entre o
carácter germânico e as tendências britânicas. Já em 1859 Ruskin falava,
em carta a um amigo, do «intenso egoismo e ignorância do pintor alemão
moderno (na sua obra)» que «era indizível no que tinha de ofensivo. A
eterna vaidade e vulgaridade mascarando-se de piedade e poesia, a surdez
profunda a toda a beleza rial, inchada em abomináveis caricaturas
daquilo que êles imaginam ser o carácter germânico, a absorpção de todo
o amor de Deus ou do homem na impaciência de aplauso» feriam-no e
repugnavam-lhe. Na França ainda êle achava certa paixão de beleza,
embora não fôsse senão na faina de um açougue ou na concupiscência; «mas
o alemão era por demais vão para se deliciar no quer que fôsse».

Nem tinha mudado de sentir em 1874, não obstante muito haver mudado a
reputação do valor alemão nas coisas do mundo. Então escrevia:--«As
bençãos são apenas para os dôces e misericordiosos, e um alemão não pode
ser uma coisa nem outra; nem sequer compreende o que essas palavras
signifiquem». «Egoista nos mais puros estados de virtude e moralidade»,
«não ha sôma de saber que possa jámais fazer modesto um alemão». De modo
que, quando os alemães se apossam da Lombardia, bombardeiam Veneza,
roubam-lhe os quadros (de que não podem compreender nem um traço), e
inteiramente arruinam o país moral e físicamente, deixando atraz de si
miséria, vicio e ódio profundo, onde quer que os seus malditos pés hajam
pisado. Foi precisamente o mesmo que fizeram em França--esmagaram-na,
roubaram-na, deixaram-na na miséria do desespero e da vergonha, e fôram
para casa a lamber os beiços e a cantar «Te-Deus».

O almirante Von Tirpitz, interrogado pelo senador Beveridge, homem
público muito popular nos Estados Unidos da América, disse-lhe que «o
povo alemão se tornára feliz e prospero pelos velhos métodos de duro
trabalho, vida limpa e pensamento claro. Tomára os mercados da
Inglaterra, porque o inglês insistia nas suas férias, nos seus dias
livres em cada semana e nos sports». Querendo glorificar o temperamento
alemão e explicar as suas conquistas, depreciando ao mesmo tempo a vida
inglesa, estabelecia um confronto no qual se definiam admiravelmente o
caracter e tendências dos dois povos em guerra. Vive um para enriquecer;
nisso se absorve e consome absolutamente, empregando um talento e arte
que são maravilha. Quer o outro férias que lhe são indispensáveis para a
contemplação e intimidade da natureza e para cultivar aspirações
apolineas; e disto fez uma religião.

Renovaram-se as lições do passado; e pelos factos presentes
compreendem-se hoje em toda a extensão os clamores, escritos e pregações
dos profetas, guias e educadores da Alemanha moderna, entre os quais
ficará de triste celebridade a obra de Bernhardi, cujo pensamento
fundamental é de uma simplicidade incomparável:--«A Alemanha tem nos
destinos do mundo uma alta e divina missão, espalhar a sua cultura,
levar a cabo o renascimento dos homens e das sociedades na cultura
germânica e pela cultura germânica, e o processo único de cumprir êsse
destino religioso é o ferro e o fogo, o poder militar e a aniquilação
radical de todos os povos que não sejam da opinião do missionario
vencedor ou não se sujeitem à sua despótica vontade e império. A
cultura, no seu derramamento, começaria esmagando a França que, sendo a
inimiga mais inquieta e perigosa pela agilidade e fascinação do seu
espírito, é a primeira que à Alemanha cumpre suprimir para capazmente
desimpedir o caminho.

Rematava nisto o bismarkismo, talvez interpertrado muito àlêm ou fora
dos seus princípios. Concluia pela prussificação de toda a Alemanha,
afagada, soprada e insinuada no sangue teutónico e nos afins por
nascimento ou inclinação, por todas as universidades, todos os prélos e
todos os mestre-escolas, e divulgada aos quatro ventos, em todo o globo,
por enxames de caixeiros viajantes transportados em navios sumptuosos
com matrícula em Hamburgo.

Levou tempo a fazer e deu muito trabalho essa nova Alemanha. Para isso
foi necessário arrazar, como alegremente se arrazou, até aos alicerces,
aquela outra Alemanha gloriosa, dos tempos em que militarmente era
vencida, a Alemanha de Kant, de Lessing, de Goethe e de Beethoven, do
tempo em que, toda impregnada de idealismo, de sabedoria, arte,
ingenuidade, simplicidade e anceios de liberdade, tinha menos sciência
de laboratório e mais sciência do coração, e não sabia mentir, intrigar,
corromper e oprimir. Mas isso se fez completamente. Não falta entre os
seus filhos quem, vendo maguadamente e sem paixão a situação, termine
por confessar que os alemães «deixaram de ser uma nação de pensadores,
poetas a sonhadores e agora só procuram o domínio e exploração da
natureza... Conservaram um harmonioso equilíbrio entre o desenvolvimento
económico e o desenvolvimento moral como algum dia sucedeu com os
gregos? Não; com o enorme crescimento da riqueza negras sombras caíram
sôbre a vida nacional. Na nação como no indivíduo, vemos com o
crescimento da riqueza o decrescimento do sentimento moral».

Nem mesmo Nietzsche, que, isento de sentimentalismos e branduras, não
adorou pouco a fôrça e uma robustez pagã, nem êsse poupou à cultura
alemã o mais amargo desdem, insurgindo-se contra essa sua «obscuridade»
e «nausea», que «todos os deuses aprenderam a temer. Se alguem quizesse
vêr a alma germânica demonstrada «ad oculos», que observasse o gosto
germânico, as artes e os modos germânicos. Que grosseira indiferença
pelo gosto!» Para «todo o leitor que tivesse um «terceiro» ouvido»,
dizia, eram «uma tortura» os livros escritos em alemão, «sem tom, sem
ritmo nem cadência». O próprio alemão lia «mal», negligentemente
arrastado.

Para ser lógico, o alemão tinha de descer a toda essa dureza e de varrer
do espírito tudo o que não significasse meramente a fôrça e poder de
subjugar físicamente. Outra coisa não era de prevêr. As virtudes da
caserna aborrecem e cortam o desenvolvimento dos subtis e eternos
encantos das academias, embora êsse comércio de sentir e pensar e dizer,
que só em si se alegra e alimenta e se atribui a delicadeza da vida e
muito da sua grandeza, valha muito no conceito dos homens e na sua
felicidade, sem embargo de ser ignorado pelo militarismo, mercê da sua
natural rebeldia no conhecimento de qualquer coisa estranha à arte da
brutalidade e da chacina sábiamente organizadas e condecoradas. E esta
Alemanha bismarkina, militarisada até à medula dos ossos, materialisada
em todo o sentido, purgada, em absoluto, de influências idealistas,
fazendo da disciplina, obediência, ordem e comodidades a razão última da
nossa existência, reduzida a um rebanho de animais bem ensinados e bem
mantidos, de pêlo luzidio e músculos titânicos, prontos à voz e dóceis
ao chicote, esta Alemanha edificada de fresco e tendo posto na caserna a
bandeira que arriou da catedral gótica e dos paços da cidade, tingindo-a
de novas côres, surpreende-se, muito sincera e candidamente, se o mundo
lhe significa pela inimizade que detesta a sua cultura.

Não sabe a Alemanha explicar que haja nações civilizadas contra ela
unidas com os povos da Rússia, semi-bárbaros no seu conceito. Como
sujeitam a Europa ao risco da sua invasão e predomínio, chamando-os e
admitindo-os, em pé de igualdade, de portas a dentro dos seus velhos
palacios?!... Pasma desta infidelidade à sua cultura e outra cousa não
compreenderá, pois, destituída de todo o sentimento verdadeiramente
cristão, não percebe os laços que juntam os povos educados no Evangelho,
fazendo do Evangelho a razão suprema da existência; e outros não há que
mais profundamente o sigam e nêle creiam do que a Grã-Bretanha e a
Rússia, apezar de viverem sob instituìções políticas opostas em
larguíssima escala. Porque deixou apagar todos os impulsos íntimos do
amor, trocados pelos regalos do estomago, não atinge que aquilo que os
povos aliados seus visinhos e inimigos correm a combater, é exactamente
a cultura alemã, esta aspiração que reduziu a fortuna e contentamento da
humanidade a comer bem, beber melhor, dormir quente e descansado, andar
agasalhado, ter uma velhice farta e tranquila, remédios, médicos e bons
hospitais nas doenças, habitações esmeradas, e gaz, electricidade,
caminhos de ferro, muitas oficinas, cinematógrafos, telefones e
gramofones, e quanto, e sómente quanto, se paga a dinheiro nos mercados
e se encomenda nas fábricas, sendo tudo isso regido por uma política e
por uma mecanica administrativa que na precisão matemática em nada
difere das máquinas de aço e que pelas suas potentes alavancas reduziu o
homem à mísera condição de matéria prima, questão de número, volume e
qualidades físico-químicas, tal qual o minério que se tirou das
profundezas da terra. Não concebe que foi o extremo fastio dessa
cultura, em que tudo foi cultivado menos a liberdade e o amor entre os
homens, êsse reino incontestado da alma, o que impeliu para a guerra as
raças que o adoram, outro não suportam e o vêem ameaçado: não concebe
que entre exércitos que, como o alemão, deixam, por onde passam, uma
esteira infinita de garrafas vasias, e os que, como o da Russia, proìbem
o alcool entre as suas gentes, sacrificando para isso os melhores
rendimentos do tesouro pùblico, não concebe que só isso seja informação
suficiente de que interesses morais estão em jogo no que aparentemente
os incautos tomarão apênas pela guerra das ambições dos reis e das
castas políticas e militares. Nem por sombras imaginará que estas lutas
de vida ou de morte são as convulsões de uma civilização enferma de
inanidade religiosa e de gôso, cansada do peso da cultura absurda das
materialidades, caída em um desespero febril de libertação dos germens
mórbidos que lhe invadiram o sangue e lhe converteram a vida em
tormento.

Se me quizerem contraditar, dir-me hão que a religião, e muito em
especial o cristianismo, tem na Alemanha os seus historiadores mais
profundos e os estudiosos mais penetrantes. Não pouco terão êles
concorrido para manter acesos, ao abrigo dos vendavais da filosofia
racionalista, os fachos do mais sublimado idealismo.

O que é incontestável, reconheça-se. Simplesmente convêm advertir e
ponderar que a «sciência» religiosa alemã, aliás assombrosa, é uma
cousa, e a «emoção» religiosa inglesa e o «ascetismo» russo são outra
cousa; e o que nas margens do Reno é um valor intelectual, conclusão de
silogismos, demonstração de textos e arquivos, elemento de compreensão
do mundo e dos homens, é fora dali, em terras suas inimigas, um valor
moral, fundamento e motivo de proceder nas relações individuais e
sociais. De modo que o que algures se tornou objecto de curiosidade, sem
duvida salutar e benéfica, que se cultiva de mistura com todas as outras
culturas, é em paragens próximas uma fôrça tão misteriosa como
soberanamente poderosa, obedecida superiormente a todas as outras fôrças
a que o homem está sujeito. E ai estará a razão pela qual a Alemanha,
sendo país de muita religião e teologia escolástica, práticamente pouca
religião encontrou, e essa muito acanhada e escassa, fértil em
disciplina e activa em política, mas tão pobre de fé que autorizou e
reclamou, em proclamação dos seus sacerdotes mais graduados, a vingança
a que a Áustria devia sujeitar a Sérvia porque um principe fôra
assassinado.

Um nosso prelado que conhece o sertão africano e aí tem exercido a sua
missão sacerdotal com uma dedicação exemplar, contava-me há pouco que o
negro prefere o domínio português ao domínio alemão, porque, no lúcido
instinto que o não engana, considera que, quando o preto tem culpa,
ajoelha, põe as mãos, e o branco, se é português, perdôa, e, se é
alemão, castiga sem dó nem piedade, como se perdão não lhe houvesse
implorado.

Isto compreendeu o negro e não o compreendeu o alemão no aviltamento
moral da sua maravilhosa cultura, em que a misericórdia não teve lugar;
e por isso é bem de crêr que o negro compreenderia o que o alemão não
alcança, quando lhe dissessem que a guerra que se espalhou no mundo e o
inunda de sangue e de dôr, é a guerra entre os que perdoam, quando os
delinqùentes ajoelham, e os que não sabem perdoar, nem mesmo em face da
mais submissa humildade e contrição.

Alguma cousa nos diz que não estão em êrro aqueles que anunciam como
fruto desta guerra tremenda uma renovação de todo o nosso modo de ser
social. Ousarei até acrescentar que essas conseqùências últimas da
guerra, mais do que esboçadas, acentuando-se já clarissimamente em
pontos essênciais, são certas e inevitáveis, independentemente da
vitória das armas. Desde a lição formidável da queda do império romano,
abdicando das suas velhas fôrças morais, das que considerava fundamentos
da sua austéra e cruel grandeza, e entregando as rendidas a um poder
mais alto, à inspiração cristã, desde então nunca mais o materialismo,
culto ou inculto, e o idealismo, ingénuo ou refletido, se encontraram em
conflito sem que, tarde ou cedo, o idealismo, erguendo-se de todas as
derrotas, não acabasse por arrastar os homens e os conduzir à alegria e
à felicidade em reinos superiores à sordidêz do mundo, mesmo quando essa
sordidêz fôsse abundantemente doirada e inteligentemente regrada. Desde
que esta alma acorde, confundirá, por fôrça ou por arte, pela
irresistibilidade que é a sua essência, aquela outra alma de baixa
servidão terrena que lhe repugna.

Anunciam os augures políticos que esta guerra traz comsigo a libertação
das pequenas nacionalidades. Mas, entrevendo em semelhante empreza mais
do que uma conquista de meras liberdades políticas e de independência
dos povos, recordando a dissolução do império romano, seguida da
fragmentação medieval, e aproximando-a da revolução iminente dos
impérios modernos nas suas tendências descentralisadoras, já amplamente
e brilhantemente exemplificadas na Inglaterra, não estará muito afastado
da realidade quem supozer a política levada neste pendor pelo surdo
impulso de fôrças morais e religiosas, pela pressão das exigências da
mentalidade característica da nossa era. Á liberdade do pensamento,
emancipada de toda a espécie de dogmatismo, exaltada e avigorada pelo
estudo, pela experiência e pela reflexão, corresponde a pulverização das
crenças e das aspirações, a infinita variedade do modo de ser
intelectual, moral, religioso e estético do nosso tempo, demandando com
a legitimidade da revisão e contestação de toda a fé a legitimidade e
direitos de tolerância de todo o espírito nas suas manifestações
especulativas e concretas. Dentro de grandes linhas psicológicas
fundamentais, a diversidade é extrema e reclama liberdades correlativas,
a assegurar-lhe a expansão. Quando, por exemplo, e o mais vulgar, uns
pedem «Deus, Pátria e Rei» e outros exigem «Liberdade, Igualdade e
Fraternidade», podemos estar certos de que de cada lado não se apuram
algumas centenas de homens que vejam Deus no mesmo altar, que amem na
pátria as mesmas feições, que dêem ao rei o mesmo trono, que encerrem a
liberdade nos mesmos limites, repartam pela mesma medida a igualdade e
sintam pelo mesmo coração a fraternidade. Ora à desagregação do
pensamento tem de corresponder, naturalmente, a pulverisação dos poderes
políticos que não podem subsistir na antiga integridade e extensão sem a
unidade de tendências mentais, constantemente contrariados, minados e
traídos por obscuras mas indomáveis rebeldias. Se vêmos um estupendo
império, como o da Grã-Bretanha, englobando sob a mesma bandeira,
irmãmente querida e amada, as raças mais diversas e as mais diversas
aspirações, é porque para êsse milagre político, sem precedente na
história, se criou um povo em cujo génio, por uma arte que é maravilha
de espontânea perfeição, se conciliam praticamente as maiores e
desusadas liberdades com a coincidência em uma unidade, para a qual
provavelmente só se encontrará justificação na comunidade de amor à
própria liberdade e no propósito íntimo de a manter e defender.

Sendo, porêm, excepcional este modo de ser e sendo ao mesmo tempo
evidente que não conseguiu êle até hoje reproduzir-se, particularmente
no continente da Europa, onde à extrema desagregação do pensamento, de
todo carecido de unidade, se junta a extrema opressão dos impérios, de
todo avessos a suportarem independências, o conflito tem de seguir seus
trâmites para abolir uma unidade forçada que a unidade psicológica não
autoriza; e para satisfazer a diversidade pela liberdade há de encontrar
as soluções convenientes. Os ingleses não exageram, quando dizem que
combatem tanto pela Inglaterra como pela Alemanha. De facto, preparam a
vitória de princípios, por cujo triunfo anseiam todos os povos chegados
à idade da razão.

O que êsses povos vão fazer déssa liberdade, até onde a levam, para que
a querem e em que a aplicarão, o que ela vai demolir e o que ela vai
construir, não é fácil prevê-lo, como não é fácil prever que destino as
estações reservam à planta que hoje nasce bafejada do sol e ámanhã se
verga e esmorece açoitada do temporal. Mas dêsde já se torna manifesto
que estamos em vésperas de uma profunda reacção, pois que por efeitos de
reacção chegámos à convulsão presente. Desde já se adivinha que a
negação da cultura alemã, e negada está seja qual fôr a sorte das armas,
sendo ela a cultura e a ambição meditada e tenaz de toda a especie de
materialidades, implica um largo desprendimento de infinitas
materialidades com que agora sobrecarregamos e afligimos a vida. O dr.
Inge, prégando há pouco em Londres, na abadia de Westminster, e
discorrendo sobre as conseqùências da guerra, definiu o que entre os
pensadores começa a distinguir-se nitidamente, dizendo: «Teremos de nos
contentar no futuro com uma vida mais chã e, espero, com um mais alto
pensar. Se assim fôr, veremos a verdade daquêle velho e belo proverbio
espanhol, de que «Deus nunca bate com ambas as mãos». As nossas perdas
seriam ganhos.»

Mesmo entre nós, alguma coisa se passará de conseqùências talvez
larguissimas, e porventura altamente benéficas, apezar da crise dolorosa
a que nos sujeitam.

É sabido que os rendimentos das alfândegas chegaram a baixar em
proporções assustadoras. Significa isso a privação de muita coisa que
sempre nos será indispensável e que por qualquer modo teremos de criar
ou substituir, e significa tambêm a abstenção de muita outra coisa que
sempre nos foi supérflua, só por vício se divulgou e é urgente suprimir.
Se esta situação persistir, a que modificações obrigará a economia do
pais e respectivamente a economia de cada um? Acontecerá que por
urgência das pressões económicas cheguemos a um nacionalismo e a uma
simplicidade aos quais nenhum incentivo moral póde levar-nos, e em favor
dos quais se esfalfaram em vão a arte mais sã, o mais bem inspirado
patriotismo e mais modesto bom senso?

Evidentemente, a alma dos povos não se vence e aniquila e transmuda com
aquela prontidão que os canhões mostram ceifando os exércitos e
arrazando as cidades. Não consente mutações instantâneas.

Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que
comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no
seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes,
como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos
ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo
com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo
com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o
idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não
morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.



Ganhos e perdas


Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para
reconhecerem e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as
conseqùências militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de
se desenhar a divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a
distribuição da fôrça e dos canhões, muito antes disso e
independentemente dos seus destinos e designios já as aspirações e
crenças dos homens definiram e anunciaram tendências e propósitos que da
guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propício, já marcaram
no seu rol vencedores e vencidos, já proclamáram suas determinações
inflexiveis.

Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da
conflagração tremenda em que o mundo se agita.

Dela sai já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e
desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos
fez prosélitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões,
apaixonou as multidões, dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis
e os sapientes, toda a grandeza e autoridade política e moral, o saber,
a virtude e a fôrça.

Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como,
por que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a
abastança assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára
para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se
o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as
crueldades. Não nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma
injuria; a todo o morticinio, a toda a opressão e a todo o insulto o
temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulsão, escravo
dedicado de um patriotismo todo constituido e só constituido de cobiças
e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a
fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o
Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo económico moralmente
acanhada, reduzindo a vida a uma repartição de comodidades e a uma
cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o
socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de
previdência, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago
e grandes regalos, mas era uma mecanica que só considerava o corpo,
deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração,
consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a
guerra soltou; até mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente,
senão contente, à prolongada cultura dessa ruindade, que as obsessões de
grandeza política reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados
sonhos.

Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um
despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na
omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer
despotismos seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas
suas afirmações, menos a palavra liberdade.

Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a
apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é
pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o
despotismo e a opressão militar, passa-o ao bando das traidores e
herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos
Réclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente à
desgraça presente e à ruina, mais do que nunca confiadas em que só a
gloria da sua crença poderá resgatar-nos da mortificação. Quantos
apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, seja qual fôr a
fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a
coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e
na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a
felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no
imperio da consciência moral isenta de toda a violência e
constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na
vitória que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus
adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a
ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolação, com uma impiedade
inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforço irado
dos exércitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas.
Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, o anarquismo, na sua alta
expressão filosófica, que não nas suas aberrações criminosas, vê de
súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando
sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do
socialismo.

Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o
problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as
imprecações impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em
risco bens e grandezas.

Há vinte anos, António de Serpa,--um talento culto, homem de superior e
nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus
contemporâneos fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a
esquecer,--escrevia um opusculo sobre «O Anarquismo».

Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com
o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa,
mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se
tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás
muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em
advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o
imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O
estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi
nesse incidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos
ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento
das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência,
determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e
lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um
espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse
passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido
nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de
funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era
grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o
ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem
por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe
o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o
engrandeciam.

Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e
contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de
espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para
durar--Oliveira Martins.

A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e
querido socialismo do Estado, grande progresso fabricado nas
universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das
sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria
Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de
negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres
antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não
foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração
pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O
socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição
política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais
como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade,
perdoando-lhe os agravos.

Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos
as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem
com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos
seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de
blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia
de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e
até nem sempre isenta de injustiça.

Outros e inesperados aspéctos se nos deparam.

Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária
insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo,
reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma
horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as
deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos
converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e
emprega.

O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a
redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno
político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza,
conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades
modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução
Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de
Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos
andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do
absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e
ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida,
ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando
em esperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência
que foram a obra sinistra dos seus inimigos.

O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo
prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo
baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas,
e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo
zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e
Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças,
fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo,
levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e
sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza.
Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos
para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja
navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior
segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de
prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.

Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso,
emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da
Religião que arruinára, segundo ela cria, os edifícios de outras eras
tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal
insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não
é dêste mundo.

Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a
terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela
liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela
aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo
reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do
espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e
cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de
sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a
ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e
exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e
errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do
império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de
almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que
dolorosamente nos dominavam e turbavam--dêsse romantismo que, em obras
de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco
mas jámais vil.

Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que
afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem
hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da
capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o
senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos
que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução
Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada
passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas.
Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção.

Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças
militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e
ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do
século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se
encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo
desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e
acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes
muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido
e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidas da Europa a Revolução
Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.

Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para
onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta
cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais
poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio
alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao
inimigo.

Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória
nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de
ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais
eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e
seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer
armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina,
prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em
bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos
não-combatentes, homens, mulheres e crianças--estes homens trabalharam
durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E
o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento e
justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na
nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses)
esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo
tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do
império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o
coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o
corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas
não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã».

«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por
Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe
deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e
magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das
cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade.

E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos,
confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações
do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará
ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas
tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos
diversos dos que as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador
fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é
Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga
que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma
crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta
guerra a sustentam».

O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina
política do mundo--a doutrina do estado predatório como encontrou a sua
expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em
resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os
progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo
antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e
organização, como Roma nunca possuiu».

«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não
é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda
a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder
militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no
Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção
do direito a uma altura que é universal, «Fez o direito independente e
superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou
missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam
representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A
doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito,
foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da
civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação
mais alta.

Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua
história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa
psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza
da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no
absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela
que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e
desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos
da raça humana, aprendeu a grande lição universal--isto é, que há uma só
raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber
queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da
responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêsses dos
estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da
humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele
«intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que
Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra
nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa
democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados
direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no
conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da
«caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a
sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e
vagamente profética.

Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o
desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário,
amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de
intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e
instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em
que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na
imprensa--e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de
governo e a mais engenhosa arte de governar os homens e os trazer
contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de
estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar
a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma.
Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na
sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina
menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se
emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha
afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e
altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos
arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo
o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só
dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a
procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços.

De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão
pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em
acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos
das coisas, nunca ninguem soube tão completamente as suas qualidades, e
nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e
sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada
e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava
preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas,
nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas
oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de
previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as
necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os
confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de
toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos
indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro,
impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela,
lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao
maior e mais angustioso dos sacrificios.

Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza
porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade
apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza.
Foi isso que êle odiou, foi isso que o ofendeu e fez lançar no combate,
incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa
necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da
filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas
multíplices traduções práticas.

Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de
presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada
animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com
todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O
resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o
sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para
largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela
sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda
aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem
nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e
definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos
de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito
menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor,
muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta
civilização confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente
e fraca, embora erguida em dourados baluartes.

Facto singular e notável--há muito a Alemanha se queixava de pobreza de
homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em
capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que
mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era
confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a
situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência
concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se
lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade
suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma
pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à
altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia
nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e
carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de
batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.

Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus
apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou qualquer factor
essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza,
equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições,
mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma
expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida
presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das
humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a
mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na
sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico,
renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que
vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de
lhes restituir, na educação das novas gerações.

Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela
psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de
justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política
que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia,
romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia
da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e
só pela guerra alcançariam manter a energia.

A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda
da necessidade e benefícios das guerras.

No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma
pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um
mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já
próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o
advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e
fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra
significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, a _grande
ilusão_; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma
futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que
mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de
tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os
primeiros fumos dos canhões atoldaram.

Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição
imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores
que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os
instintos que a alimentavam. O presente era a demonstração clara da
subsistência dessa doutrina de morte.

Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com
aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a
insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que
alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e
fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi
certo--facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda
há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita
unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma
monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e
abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.

Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua
defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não
esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos
séculos; todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo,
avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o
sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a
adversidade, para a tristeza e para a dôr, desenvolvia a obediência ao
dever, semeava a coragem, a dedicação e a generosidade? Nem assim
conseguia restaurar o império perdido! Poderes mais altos lentamente se
haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro a piramide, que parecia
invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os tumulos dos faraoos,
esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do
sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e insignificante para
julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto
era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava
encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre
amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o
desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o
esfôrço, a consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram
virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjecção, não
careciamos, para as possuir, de as cultivar no ódio, na cobiça, na
brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinárias; o
trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e
do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam
para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que não
cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em
prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de
outra eramos capazes. O _Cavador do Millet_, no seu campo safaro, só com
a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus
pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente
apregoára que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas.

Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da
largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida
e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril
crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de
proscrição no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus
trágicos horrores.

Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o
último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de
civilização que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e
pretende justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem
em que agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e
governos, com todos os seus enganos, traições e angústias, com todas as
suas fadigas, prazeres, ruins ambições e opressões; póde, claudicante e
ignorando a própria miséria, continuar incerta e cega na jornada dos
seus muitos e lúgubres progressos até de novo naufragar na imensidade
dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou um inimigo que não lhe
perdoará; despertou a consciência das suas terríveis enfermidades, e com
ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade
que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de facto, porque
os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é tenaz e
seguro nas conquistas.

Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos
poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi
unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que
muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de
tudo isso, um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração,
por muito distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto
dos exércitos; mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e
ventura, foi o castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um
profundo _peccavi_ cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes
e cuja absolvição temos de procurar em um mundo fundado em uma outra
alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente
nos haviamos entregado. Outras aspirações, outras crenças e todo o seu
modo de ser externo terão de nos inspirar para nossa fortuna e alegria.
Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que
supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre.



Revisão de valores


O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem
dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem
as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente
aproveita e emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a
rapidez dos movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se
perdem nas nuvens tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se
ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo,
para as imaginações infantis, mas difere do que antigamente se fazia
apenas naquelas minguadas proporções em que os brinquedos das lojas de
Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo
vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automóvel não serão cousa muito
diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, igualmente
insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de Cesar com
seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo
sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que
hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e
engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto
das multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores
e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e
possuídos por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão
despejadas e poderosas que não carecem de registo, nem de garantias
especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas
no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhámos, não
ostentamos ambições e talentos superiores aos muitos e famosos que
fizeram a guerra quási exclusivamente fiados na fôrça do seu braço; e
nem tão pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que
aqueles de estreme e insaciável cobiça que exaltaram os generais de
outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre foi desde que se
conhece história, um assassino cruel e sordido.

Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve
alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com
uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a
astúcia, a dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser
ferido tomaram em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem,
pela firmeza de ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e
lealdade da luta a peito descoberto. O carácter de negócio, conta, e
cálculo e previsão, aliás de supremo alcance, apagou muita beleza da
imprudência, da ousadia e do desprendimento. «As batalhas não são já o
heroismo espetaculoso do passado», disse um general celebre pelos seus
escritos, Homero Lea. «Os exércitos de hoje e os de ámanhã são uma
sombria máquina gigantesca destituida de heroismo melodramático... uma
máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a
uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e
irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de
trevas, um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima,
acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa
magnanimidade, raro conduz a revelar quem ofereça com uma clara
abnegação a própria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao
inimigo da sua pátria e da sua crença. Entre a guerra moderna, intima e
exteriormente mascarada de couraças, e a guerra dos tempos heroicos,
fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia que vai de um
arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de um negócio
a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio e a
baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a
isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses
diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das
batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a
insinuação de um certo materialismo que invariavelmente prefere a
torpeza lucrativa às contingências de uma franca e determinada
honestidade.

Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da
guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em
couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma
multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra
escoltada de infâmias, em regra mais rendosa para a ignomínia do que
gloriosa para a dignidade.

Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a
guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a
apontar, e êsse de incalculável magnitude--a amizade em que no dia de
Natal se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente
se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais,
por espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no
tempo como douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e
afeição, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares
de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade
sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os
soldados voltaram às fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de
novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructível se
edificára e permanecia de pé, inviolável; uma luz se acendêra, que não
podia apagar-se, de paz, de comunhão e de carinho; uma saudade se
ateiára precipitando as nações e os exércitos em caminhos novos, para
outros combates.

Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali
venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuízos, que
lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, e por
vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a
amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos
lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade.
Foi todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em
uma altura superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada;
foi a consagração de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do
que a insânia sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte
lançado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a
repetir-lhes que os homens não querem a guerra e a aborrecem, e
unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e
iludem são arrastados às batalhas que o coração amaldiçôa. Foi a
confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia incalculável, das
determinações de uma consciência que sente dissipar-se a divisão das
raças e das nações--não porque a suprime, mas exactamente porque,
reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a
ama no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de
interesses e afeições por aquilo que é o nosso comum amor, em vez de nos
massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da
individualidade étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde
distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos
separar e tornar inimigos.

Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira
impressão, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando
calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das
mulheres e das crianças até à ruina das catedrais--que jámais poderão
ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver
os bafejos dos alentos místicos que em extasis divinos as sonharam e
ergueram e pelo sangue de mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam
dado a aureola de uma arte e tradições irreparáveis, das que vivem uma
só vez, filhas de uma só alma, e não renascem, se as ultrajou a malvadez
dos homens atónitos na turbação de um ímpeto sinistro!--os menos
desconfiados dos incitamentos da primeira impressão de pronto descreram
dos sinais de paz que há pouco viam com alvoroço no horisonte. Logo se
abandonaram ao desalento e tiveram como não subsistentes a solidez e
progressos daquele internacionalismo que era a vitória da consciência
dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas
diversas tendências, necessidades e divergências, e conduzindo a uma
lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, paulatinamente
mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se traduzia
em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral
cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas
reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas
hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em
campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais
altos do que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza
milagrosa dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa
de novo se fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios
a convicção dos que antes da guerra encontravam na expansão do
internacionalismo os fundamentos e a esperança do renascimento político
e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos
valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dirá por
outra forma e por outras palavras o que a trégua e os sorrisos do dia de
Natal não lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela
análise da história, pelo exame dos factos políticos e pela verificação
das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que porventura lhes
haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes do
coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no
conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando
não é a desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de
desarmar exércitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes,
indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma
obra de extermínio.

O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes,
e é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por
um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos,
corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e
crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do
patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo
por que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa
derivar de que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do
patriotismo e são alheios às faltas da religião». Compreenderam-se em
uma só divindade e apostolado as virtudes e as degenerações e
deformidades do patriotismo; porque «o patriotismo pode tornar-se não
moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas,
podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos de infalibilidade, e
daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à perda conseqùênte
da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode pedir a sua
moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais;
o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao Deus da
verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de
ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não
pode encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma
mais profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No
fundo de todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio».
«O verdadeiro patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em
todos, que respeita a nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde
quer que a encontre. Não fomos suficientemente patriotas no passado.
Realmente, não acreditamos no patriotismo». É insensato, mesquinho e
despiedoso o patriotismo que antes de bem combater não soube bem viver,
que só na guerra sente as obrigações e todas as esquece e desconhece na
paz. «Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que nós chamamos
os anos caquéticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e
crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e
tocas nesta linda Inglaterra», (como de resto em todo o mundo), «que é
nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual não estamos
prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os pobres, rebaixados os
humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus o clamor de
milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos divertimos. E
imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a chacina da
guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das
doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se podia
atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da
pobreza, da embriaguez e vicio».[4]

Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de
antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista--miséria e orgulho dos
govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal
responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na
guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para
sempre convencida de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e
à riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua
corrupção e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou,
perdeu o prestígio dos seus conciliábulos e segredos, e são mais os
incrédulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. Há muito
suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinações,
isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, embora fôsse o meio
de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as cobiças, a
sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou
menos consciente e nunca escrupuloso--agora, ao dar conta pública das
suas façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas
anteriores.

Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos
homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o
movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar
anti-diplomático, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento
inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente
aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do
secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada
posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante cinco
anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço
diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da
Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se
para discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus
beneficios e seus males e agravos.

Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, _O Camelo
e o Fundo da Agulha_, severo estudo da degradação que a posse da riqueza
importa, e a _Decadência da Aristocracia_, onde pôs a claro a fraqueza
da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e
talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou
_Democracia e Fiscalização dos Negócios Estrangeiros_. Aí procurava
acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade
da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspirações e esforços das
democracias. «Não creio», escrevia então, «que na época presente haja
questão mais importante do que a consideração do problema que resolverá
como é que a opinião pacífica, moderadora e progressiva da democracia
póde penetrar tanto nos negócios internacionais como nos negócios
nacionais, e como é que um estado democrático póde descobrir os meios
próprios para se exprimir no governo da nação».

Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a
importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas
políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um
redactor de _The Christian Commonwealth_, pôde renovar o seu pensamento
com a autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado
por factos de uma trágica evidência.

Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O
desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a
guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve
quebra na boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As
narrações pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relações
afetuosas entre êles e o «inimigo» no dia de Natal mostram claramente
que a guerra não é entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e
facilmente seriam amigos, se os que os governam não estivessem em
guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; a guerra não foi
causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse contra o povo
de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a
moralidade internacional e que é realmente a moralidade
intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua
crítica é principalmente política. Contesta que haja uma quebra moral da
parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomático e
garantir a fiscalisação democrática nos negócios estrangeiros, o que só
por intermédio do parlamento póde fazer-se. «Diplomacia aberta» é em
certo modo uma frase que não convém. Do que o país carece é de conhecer
inteiramente os seus compromissos e obrigações com os países
estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política que
se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de
interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma
tradição de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado,
que nos veio de idade-média e que tem por efeito deixar as cousas
inteiramente nas mãos de homens públicos ciumentos de toda a intervenção
estranha. O que mais lastima, todavia, é a política do silêncio oficial
sobre materias que se tornam de uma importância vital. Um completo
segrêdo é em nossos dias praticamente impossível. O povo sustenta-se de
palestras ociosas, rumores e falsas referências dos jornais. Não está
sem informações mas está mal informado.» A culpa não é dos ministros, é
dos próprios parlamentos que se movem em um círculo vicioso: porque os
seus membros não são informados dos negócios externos, poucos se
interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas mãos dos grupos
que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes grupos, e a
ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram de tal
modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão destinadas
a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a
consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da
democracia, prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a
direcção dos negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos
ministros ou que deixe de haver negociações que necessitem de reserva
emquanto proseguem. «Mas carecemos de mais bastas oportunidades de
discussão, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e
obrigações, de democratisar o serviço diplomático.» Porque a exiguidade
da retribuição dêsses serviços tornaram-nos praticamente o apanágio de
reduzidissimas classes abastadas, e «homens de talento, criados na fé
democrática, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular,
são excluidos justamente por não possuirem aquelas qualificações
adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»

Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia.
Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são
indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da
humanidade, e essas relações não podem deixar de ter seus interpretes
próprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está
inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande
perda de vidas e bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres.
Mas está humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua
insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior
do coração terá de dar o lugar a quem a substitúa com menos soberba,
mais modéstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspirações
dos povos que a sua arte está destinada a servir e que ela cegamente
sacrificou às ambições pervertidas de reduzidas aristocracias e à
voracidade insondável das oligarquias mercantes.

Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada
que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus
palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que
arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este
campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas
aspirações e das tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De
soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigações políticas e morais
que são a condição da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver
nobremente, em paz e dando a paz.

Um artigo do _Daily Chronicle_, procurando as razões por que a
Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem
anos, emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava
explicação insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco
que unem os povos dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para
essa extraordinaria fortuna, é certo que a identidade da raça dos
Estados Unidos e da Inglaterra está profundamente limitada e prejudicada
pela insinuação de sangue estranho, e não póde dar razão bastante de tão
sólida e prolongada amizade. Causa mais eficaz poderá encontrar-se
«nestas ideias de liberdade pessoal, direitos civis, obediência à lei e
confiança nos métodos judiciários, que são a herança comum do passado do
povo americano e do povo britânico. Ambos êsses países realisaram os
processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e estão por
conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a
experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos.
Ambos êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do
militarismo que escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes
foram, indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem
anos.

«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais
importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de
facto, a Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade
governados pela opinião pública.»

E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica,
conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu
direito de assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter
que brilhantemente revelou onde tem podido dominar.

Na verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o
internacionalismo nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças
superiores das quais dependem, como todos os demais elementos da
constituição social das nações e as suas afirmações. O internacionalismo
dissemina-se e avigora-se, e a diplomacia muda de modos, gestos e
processos, aparentemente; no fundo não são senhores dos seus destinos,
jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que os autorisa ou condena
e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos os seus aspectos
muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e
desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não
desperte e não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu
invencível poder e a sua indomável expansão. E esta guerra mais
evidentemente do que nenhuma outra o demonstrou.

«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente
grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira
guerra de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da
nossa religião. Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que,
se as nações são cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o
souberam Atanasio e Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo
de Constantino até agora esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua
protecção a igreja e, largamente, sob o seu governo, no acontecimento
conhecido como a conversão de Constantino, muitos dos princípios do
Evangelho se obscureceram. Durante séculos, a igreja estava pronta a
abençoar exércitos e armadas. Shakespeare julgou apropriado fazer
proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam Henrique V a
declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa, instado
para abençoar as armas, respondera:--«Dou a minha benção à paz.» E um
arcebispo--_alterius orbis papa_--solenemente declarava toda a guerra
«obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente
que toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro
efectivo. Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o
cristianismo nunca foi aplicado às relações internacionais. O que faliu
foi uma civilisação que não era cristã»[5].

Romain-Rolland, nos artigos que publicou no _Journal de Genève_ e
correram mundo vertidos em diferentes linguas, anunciados como um pregão
profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra
mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes
apóstolos rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de
repente nos mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães,
e Frank, morto em combate, por amor do militarismo, ele que era o
campeão da união franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à
disposição dos seus governos e lhes coadjuvaram as mentiras e os odios
«tendo a coragem de morrer pela fé alheia, os que não tiveram animo de
morrer pela sua própria fé.» «Os representantes do Principe de Paz,
sacerdotes, pastores e bispos, foram para as batalhas aos milhares, a
levar-lhes, mosquete em punho, os divinos mandamentos:--Não matarás e
amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de austriacos, alemães ou de
russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada um tem o seu Deus e
cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o defenderem e
destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte mil
sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os
cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem
qualquer expressão de pasmo, a scena paradoxal na estação do caminho de
ferro de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços
ordinandos que iam para os seus regimentos, cantando todos juntos a
marselheza.» Pio X, a quem o rompimento de guerra apressou a morte,
segundo se crê, que «não poupou os seus anatemas aos sacerdotes
inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra do modernismo, que fez
êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes cuja ambição
desmedida votou o mundo à miséria e à morte?»

Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo,
porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta
de resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se
associou, atiçando-o em vez de o apagar.

Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de
Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o
cristianismo e as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência
da organização das igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do
império de um princípio cuja expansão e penetração teem sido constantes
desde a hora da sua revelação, cujo poder mais do que nunca nos domina e
fascina, e cuja lei cada vez mais lucidamente se mostra a solução unica
e a unica redenção dos males e angústias que afligem a humanidade.

Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão
de ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas
cristãs veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por
todo o mundo associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e
deshumano; tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo,
abençoando-os bastas vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito
dos fiéis, de ordinário prontas em promover o culto da riqueza e do
podêr; quási invariavelmente afastadas, senão inimigas, do
desenvolvimento da democracia que, sendo a tradução política dos seus
princípios, elas insistiram em desconhecer, aceitando-a em último
extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina, subversão, opressão
e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe dúvidas, temores e
embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e partilhando-lhes
do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes, e
amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação
das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno
impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da
autoridade civil, subsistente durante longos séculos e por diversos
modos efectiva, expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no
forum e no templo; mais combatentes, coercitivas, do que apostólicas,
mais amigas de mandar, e de facto mandando, entre erários e espadas, do
que confiadas em cativar pela pobreza, pela isenção de toda a violência,
pela verdade e pelo amor; de uma scéptica complacência com o fariseismo
e hipocrisia que se lhes roja pelos altares, inteiramente descuidadas em
corrigir as superstições dos seus rebanhos; afeiçoadas a uma caridade
realmente abundante de deligências, desinteresses e esmolas, mas
intimamente e logicamente inseparável de todas as aristocracias e
hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e de quanto
possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a intervenção;
não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para depois
lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em
paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos
predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo
cuja suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de
expressão da alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar
regras e manter uma disciplina estreita e mecanica do que exaltadas em
respeitar, defender e propagar a pureza dos princípios; desatentas ao
inimigo que lhes invadia os domínios, não percebendo ou tomando em pouco
o que o desenvolvimento da imprensa diária lhes importava, pois,
trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que cada um escolhe
ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o procurávamos, nos
dias de descanso das fadigas profissionais:--as igrejas, no geral,
decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando, por
desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira
de aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da
adoração dos homens, que para as servirem as tinham edificado e
cimentado com o seu sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e
teem. Faltaram-lhes crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma
conjuntura como a presente, porque crentes não tinham, quedaram-se
impotentes, com grande copia de bons desejos, palavras excelentes e
muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de acção.

«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o
preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os
fundamentos e desvairou as gentes. Da corrompida interpretação dêsse
princípio veio que, devidido o mundo e a consciência em duas metades,
uma para Deus e outra para Cesar, completamente se perdeu a noção da
dependência em que Cesar estava de Deus, e impensadamente se dispensou a
observância das obrigações correlativas; não mais se cuidou de
subordinar Cesar a Deus, (os imperadores contam com o auxilio de Deus
para os seus negócios e invocam-no como quem está seguro da honestidade
e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino seu, próprio e para
todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o desregramento,
a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de que, se
Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma humanidade
redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação do
mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a
fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no
rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa,
excelente e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle
adaptada, sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua
sumidade, por vezes propensa a indulgências com a cobardia religiosa,
sem mesmo hesitar em abençoar exércitos que, sendo portadores do ódio e
da morte, são a negação de Cristo, e até mesmo pondo sob a protecção da
cruz as máquinas dos caminhos de ferro que são levitas e servidores
horrendos de desapiedadas cobiças.

Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade
religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e
infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas
e domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por
isso cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez
mais inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o
reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão
sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos
primeiros dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos,
manter. «Os horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem
do cristianismo e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e
esta espécie de cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como
aquela de que estamos sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da
natureza da impostura. Mas, por muito más que as cousas sejam, não há
necessidade de desesperar. Um novo cristianismo e uma nova cultura
surgem--o cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a cultura dos
profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa religião,
não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam o
logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que
Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora
presente.

De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades
modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada
sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência
do cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde
durante prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos
os altares e espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer
na solução dos problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso
tempo resulta é a vitória da religião e do cristianismo em toda a
latitude, como promessa unica de salvação. Cresceram fóra das suas
igrejas, com diferentes nomes e diferentes rubricas, sob diversissimas
invocações, mesmo sob as que se propunham nega-los e, inscientemente,
imaginando afugenta-los, destrui-los e substitui-los, os propagavam e
defendiam; cresceram, porêm, continuamente e, sendo divinos, nunca como
agora se mostraram necessidade terrena mais urgente e remédio mais
seguro das nossas enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior
altura, erguidos não só pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre
foi todo o seu ser e substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da
logica, pela meditação e pela reflexão, pelas conclusões da inteligência
e pela investigação das leis da vida, pelas demonstrações da
experiência, pelas lições da história desapaixonada e isenta de toda a
obsecação de sectarismo.

A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em
iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e
discordia em auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no
reconhecimento da mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação
do mesmo mistério, na justificação do mesmo amor e no respeito da mesma
regra que dêsse princípio deriva. Religião, sciência e filosofia que
fôram atrozmente irreconciliáveis, resolvendo nas fogueiras, nas
masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas divergências e conflictos,
caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se amparam para uma mesma
jornada. Já a ninguem surpreende que um publicista de superior reputação
se detenha a proclamar o «valor religioso do livre pensamento»,
significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade do
espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a
sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu
inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade.
Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma
igreja infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O
pensamento não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda
menos, por modo algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava
que essa fé podesse definir-se como um estudante a definiu--«aquela
qualidade pela qual cremos em cousas que sabemos serem totalmente
destituídas de verdade.» Mas a igreja de hoje, no seu melhor modo,
acolhe bem o pensamento porque com êle está mais segura de si.
Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que lhe resta
está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra, considera
o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr que
voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as
profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade
foi auxiliada por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal
da realidade da nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para
o campo largo da razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e
a sciência, levadas para qualquer cousa como um terreno comum.

«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias
de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos
dogmas, vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida;
mas as cousas grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na
sabedoria e no amor de Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em
o nosso dever com os nossos irmãos, são, pensa ele, mais profundamente
sentidos e mais sinceramente possuídos do que nunca. A sciência abdicou
da sua velha arrogancia e está preparada para se apresentar de cabeça
curvada, como um humilde investigador nos palácios do Oculto.»

São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e
no govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião
e o seu valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma
torrente, no meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se
um homem da estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida
de apostolado político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se,
confessa publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a
política e se consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas
suas palavras, não o desengano de um profeta mas a desilusão de uma
época que, ardentemente empenhada em livrar a terra e os homens dos
martírios que os crucificam, errou a estrada e foi procurar em
mesquinhas artes e em artificios estreitamente humanos uma salvação que
êles não continham. São a condemnação final de toda a idolatria
materialista dos valores económicos e a certeza de que só a inspiração
religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza da nossa
inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de fundar.

Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo
director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno
livro, de sumo interesse e eloquente clareza, intitulado _O Sermão da
Montanha e a Política prática_. Pretendia que «não podemos realizar
imediatamente os ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da
sua realização, e os nossos movimentos podem estar de harmonia com as
leis da natureza humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram
supremamente compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas
pelos que adoram Mamon e Belial».

Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma
lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da
terra, e em particular na política, examinando a possibilidade de
aplicação das bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à
simplicidade, à misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por
engenhosos sistemas e subtis abstrações mas pelos exemplos históricos
mais vulgares, vinha por fim a afirmar que é possivel governar uma nação
pelos princípios estabelecidos no Sermão da Montanha e que é sómente em
quanto assim procedemos que a sociedade póde elevar-se dos tipos mais
baixos aos mais altos. Podemos ir para diante no espírito do
cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião é que
vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e dos
demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu
de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens
públicos podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma
legislação humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste
o facto de que essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará
lembrar o que a legislação social e política tem sido desde o comêço do
século desenove--o que ela fez protegendo as crianças, de que infernos
vem arrancando os trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a
dignidade, que lutas titânicas sustentou para isso, que barreiras
formidáveis de prejuízos e vis interêsses lhe foi necessário transpôr e
vencer. E que princípio, que fôrça realizava êsses milagres senão o
cristianismo que dos livros sagrados se derramára nos códices das
doutrinas e das instituições políticas?

Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores,
seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância
daquele valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem,
sobretudo para o fazer repassar mais profundamente a consciência dos
homens, definitivamente convencidos da necessidade de um predomínio
maior ainda, infinitivamente mais profundo, dos princípios do Evangelho
considerados na sua influência prática, na sua ilimitada aplicação à
disciplina e conduta da vida.

Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra,
Filipe Snowden, dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as
fôrças unidas da democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado
a catástrofe da presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se
por tal forma que as fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas
não tiveram tempo de mobilisar-se antes que as intrigas dos
militaristas, monarcas e diplomatas soltassem as fúrias da guerra.
Sempre acreditára e confessára que, se as nações da Europa continuassem
na política internacional dos ultimos quinze anos, provocando
hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de armamentos, o
resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a causa da
guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a
responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais,
deixaram que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os
militaristas e os diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas
aspirações democráticas e levados por interesses económicos e outros
opostos aos trabalhadores do mundo. Tivessem-se os trabalhadores
apossado do govêrno das relações internacionais, e debalde se teria
provocado a guerra e as suas calamidades, de cuja responsabilidade os
trabalhadores não podiam livrar-se.

Sem dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar
no podêr da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está
longe de se conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio
dos partidos socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as
nações. Mas para os estranhos às artes da actividade política prática,
medianamente propensos a esperar das suas tramas a fortaleza que só no
vigor das tendências do espírito encontram, o mais provável será que não
fôsse a deficiência de direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a
guerra; antes teria acontecido que a insuficiência do espírito
anti-militarista entre os trabalhadores não permitiu que êles se
acautelassem e defendessem o mundo contra essa inqualificável
monstruosidade. Para os que mais esperam da inspiração interior que do
engenho prático, a responsabilidade dos trabalhadores está amplamente
atenuada pela sua miséria material e indigência moral correlativa. A
civilização moderna, fazendo-os escravos de uma escravidão de que a
custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes podia ensinar
menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas revoltadas.

Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos
sórdidos das chancelarias, dos palácios e das casernas. Teria sido a
debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um simples erro
de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição perante
poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de
iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a
guiar e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja
suficiente para a substituir.

Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu
Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor,
quando o génio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de
todo isento de ira injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr
termo a esta peste da guerra, _não há senão um remédio_, e é «o geral
abandono dêste sistema de vivermos do trabalho dos outros», poderá
parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a proporções demasiado
mesquinhas um conflicto de proporções gigantescas que é uma dôr e uma
agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do
filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com que êle pretende
fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma
anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos,
ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmação
do profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem
os seus vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em
renascimento assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das
relações sociais, desde a ínfima humildade de um servo que nos comove
até á soberba das potestades da terra que nos ameaçam.

Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros,
negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre
as nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram
para isto as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e
colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores
podessem subsistir; e são a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir
concessões de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o
trabalho de gente de côr seja explorado até ao extremo mais amargo;
apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas
gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) possam realisar
dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros productos
industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho
destas avidas e deshumanas ambições:--tais são os fins das guerras de
hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós,
porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes
capitalistas e comerciais, que hoje são os representantes das nações, se
funda em o mesmo princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é
encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho
valoríse o que nós podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e
sem vergonha é a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos
animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente
velada todavia por uma aguada de sentimento «cristão» e por uma rede de
instituições filantrópicas para suposto benefício das muitas vítimas que
nós espoliamos.

«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra
intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos
cobre o corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros,
sem considerar aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois
que admirar se por fim resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto
teatro do drama das nações, e nas letras vermelhas da guerra e do
conflito, escritas através dos continentes? De nada serve dizermos com
uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o
militarismo, animando nós entretanto em nossa própria vida e em a nossa
igreja, ligas do império e outras instituições, o mais sordido e egoista
mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, apenas uma guerra
de um género muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que
se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos
canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma
comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra[6].»

Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se
reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre--uma derrogação do
princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a
qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e
que o hábito nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em
uma tal simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola.
Acusados e pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o
cristianismo significa na hora presente, até onde chegam as suas bençãos
e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que
influências imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e
latentemente se criaram, e que espécie de revolução, ou, melhor, de
resurreição nos anunciam.

Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo
tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida
fortaleza, deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem
edificá-la. E aquilo de que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento
da inteligência na humanidade, o conhecimento da história e a observação
minuciosa e exacta da evolução das sociedades, todo êsse honesto labor
das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos
por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas,
tudo isso que é um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi
vão para evitar as provações a que um destino sinistro nos conduziu.

Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse
que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na _Grande Ilusão_, largamente
comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e
renovado no _Prussianismo e a sua Destilação_, isso bastava para que a
paz e a guerra fôssem um pleito findo.

Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos
essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e
conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos,
o pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a
grande ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida,
aquelas que representam os fins das sociedades humanas, só podem
alcançar-se pelo desenvolvimento da fôrça política e militar dos
estados, pela extensão do seu território e pelo domínio dos seus
govêrnos. Esta doutrina, proeminente e característica na Prussia,
tornára-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorável
contágio. Para a debelar não bastavam combinações diplomáticas e a
revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de espírito, só por
tendências opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as
academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a propagaram; e só
por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. Não seria
pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa
sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da religião;
debalde sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram sustentar as
crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a liberdade,
quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e a
estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua
comparação, demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos
altares. Assim acontece e se verifica que «o combate pelos ideais não
póde mais tomar a forma de combate entre as nações, porque as questões
morais estão dentro das próprias nações e cruzam as fronteiras
políticas. Não há estado algum moderno que seja completamente católico
ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático ou democrático,
socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo
moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma cooperação
intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros
estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e
economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a
estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões
nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas
pela coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty,
citado por Norman Angell, «ignorar a significação dos congressos
internacionais não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo,
do feminismo, de toda a espécie das artes e sciências, que tão
claramente marcam os seus sinais nas épocas de férias. A nacionalidade,
como fôrça de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a
aproximar-se uma situação em que a fôrça da nacionalidade será
distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as classes se
organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua
fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a
associação atravessa os limites dos estados, que são puramente
convencionais, e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do
género humano em estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em
respeitar um _mujik_ russo porque pertence a uma grande nação, ou em
desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação
pequena». «Viremos a compreender que as divisões reais psíquicas e
morais não são entre as nações, mas entre as concepções opostas da
vida».

Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente
obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre
os povos será em breves anos uma realidade. E a acção dessa lei
efectua-se com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra
tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A
certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do
que em todas as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez
anos do que primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os
desenvolvimentos de uma geração?».

Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a
natureza humana não é susceptível de mudar. A história é a negação
radical de semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de
retardatários. Do canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos
autos de fé à liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao espírito
militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se
exteriormente é bem diferente do que foi na sua origem, intimamente
anima-a um espírito que desconhece e repele aquele de pura animalidade
que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de bandos famintos,
devastadores e crueis, passou à comunidade moral e religiosa, e a
civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do espírito
militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater,
cresce-lhes a tendência para trabalhar, e é trabalhando juntos, e não
combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma
terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e
decaíndo, continuamente se sustenta.

De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento
de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais
sãos e corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a
procriação das novas gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria
Inglaterra, apezar de toda a resistência do espírito da sua raça, corre
o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo
póde prejudicar-se na diligência de o vencer pela adopção das suas armas
e pelo abandôno das virtudes que a tornaram grande, «a aptidão de
iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a sua obstinada resistência
à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua impaciência com a
burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o que se
involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada
para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca,
promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura
substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo modo
uma fórma de parasitismo, promove o retrocesso».

A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que
ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão
económica--usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa
do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar,
consideração social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia
um mundo em que as cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo
os grandes espíritos da antiguidade não acreditavam que o mundo podesse
ser laborioso, senão quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo
uso da fôrça física, isto é, pela escravatura. Tres quartas partes dos
que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora é a Itália,
eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados à
noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, acorrentados aos
portais. Era uma sociedade de escravos--escravos para combate, escravos
para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta
Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo nas
cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos
espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepção de
uma condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo
impulso económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade,
quando disse que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por
si», a escravidão seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de
chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o
impulso de uma causa abstracta chamada interesse económico, e êles
considerariam semelhante asserção como a de meros teóricos sentimentais.
Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se ha sessenta anos
afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre
êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por certo se
riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de aceleração
a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, mas
principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia,
esta substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais
seguro e rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas
tambêm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que,
por isso mesmo que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o
espírito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fôrça
universal em todo o sentido.

Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres
competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E
todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o
coração purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar
êsse prodigioso renascimento.

Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios
poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos
êsse espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda
se ergue como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para
combater o inimigo, a satânica sensualidade que fundou o mundo moderno
em ambições tôrpes e em materialidades e que, é evidente, não abdicará
do seu reino passada a tormenta? Como é que um pensamento religioso só
por si ha-de destroçar os poderes da terra enriquecidos, armados e
incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes
diplomáticos, pela redução dos armamentos, por todos êsses «retalhos de
papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a Alemanha rasgou o
compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Bélgica?!...
Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo destinado
a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em
suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e sujeita-los à
lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas intenções há-de
tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua regra?

Ferrero, o historiador da _Grandeza e Decadência de Roma_, diz-nos no
último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a
pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o
futuro, dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em
tentativas contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro
por si mesmo se fazia no grande império, e muito diferente daquilo que
se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para
reorganizar em Roma o govêrno aristocrático, acontecia que por si
mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços de milhões de homens
inconscientes do resultado final, as regiões do império que mais
diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, mútuamente
se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta;
interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais
estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma
ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho
interior, invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento
acidental dos territórios feito pela conquista e pela diplomacia se
tornava verdadeiramente um só corpo, animado de uma vontade única».

Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da
constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma
grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra.
Dedicado à _Workers' Educational Association_, e por isso posto em
termos de ser compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos,
colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e
Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na sedução de abstrações
e idealismos, procura êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a
crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito
manifesto muito instrue os menos versados nas questões políticas, mas
nem por isso menos interessados e dedicados na determinação final de uma
situação das nações da Europa, que terá de ser de larguissimas
conseqùências na fortuna ou na desgraça dos povos que elas compreendem.

Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio
da lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois
processos.

Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em
tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de
tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e
em muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da
sua fé como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na
impossibilidade de serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a
perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem,
onde estão os exércitos que tornam soberanas e uma realidade as decisões
dos tribunais? Quando uma nação, armada e grande, afrontar as obrigações
dos _retalhos de papel_ e os rasgar, quem tornará de bronze a vontade
dos tribunais e converterá em mármore a precária consistência do papel?
Um revoltado bastará para atraiçoar as intenções mais firmes e felizes,
e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fôgo.

Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e
preparar o caminho para progressos ulteriores, mas só por si não podem
dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação satisfatória para
o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários govêrnos soberanos e
em bem das suas nações».

Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem,
nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário,
merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir
valôr que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as
suas faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos
beneficios; pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito
colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo
que póde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, não em a
maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos
para desafiar a violência. Pressupõem um mapa do mundo traçado
definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações nacionais dos
povos. Pressupõem um _status quo_ que se mantem, não simplesmente, como
o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação seria
inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente
equitativo. Pressupõem uma base democrática de direitos civis e
representação idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem,
finalmente, uma opinião pública educada, incomparavelmente menos
egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos
estreitamente nacional do que aquela que até aqui tem prevalecido».

O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de
extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a
velha estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos.
Espera resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos,
mas do crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das
próprias nações no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o
estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente
uma refutação definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua
das nações. Espera a expressão do govêrno do mundo na ordem externa,
daquilo que podemos chamar o _princípio da República_, do grande
princípio de lord Acton, do estado composto de nações livres, do estado
como um corpo vivo, que vive pela união orgânica e livre actividade dos
seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de acção no
alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis entre os povos
das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo patriotismo
foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme fundamento
das mais antigas lealdades».

«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem
ser resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e
guerra; só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de
cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigências mais
altas do que os seus interesses seccionais--as exigências de direitos
civis comuns e do interêsse da civilisação. Nisto, na união e
colaboração das diversas raças e dos diversos povos, é que o princípio
da República encontra o seu campo peculiar de operação. Sem êste
princípio... o mundo será o caos que hoje é»[7].

Eis aí a lei suprema da história--a preponderância da actividade
interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações, aos
decretos, às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e
dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes
movimentos da humanidade. Roma e a constituição jurídica e moral do
mundo latino que dela nasceu e é seu espelho, foi apenas o maior exemplo
da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raças, duas vezes
repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade política da
civilisação, e depois refazendo-a, quando, decrépita, carecia de ser
renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas
sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas à mesma
lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de
fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes.

Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo,
será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes
do resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que
ninguêm tem consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação.
Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto
a sua vitória a isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou
roubar o seu domínio.

Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e
desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua
obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito
correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir.
Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só
produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde
ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo
inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho
subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o
haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os
pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as
multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e
de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de
agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças,
conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as
amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis,
que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a
vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão
libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão
então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados
serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o
respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as
nações.



Da arte de gastar e suas responsabilidades


«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam;
hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que
nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos.
Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja
impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que,
começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o
caminho de melhores hábitos.

«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar
desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte,
quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas
despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus
rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação
que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a
produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise
o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu
gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos
inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem
maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles
que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por
conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por
que hão-de usar êsse poder.»

A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o
titulo de _Spending in War Time_, o professor E. J. Urwick publicou, em
Oxford, na colecção de _Papers for War Time_, dirigida por W. Temple.

Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação
dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do
ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se
arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas
angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é
simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a
ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções
por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e
as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos
entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e
de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em
tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer
«a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a
confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no
método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à
missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e
instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.

Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de
aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e
fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos,
virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que
o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e
o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a
solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com
uma dolorosissima evidência.

O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a
exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e
extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar
para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são
reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para
o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios
indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de
facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e
êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso
com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus
haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão
sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.

E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente?
Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades
em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus
regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para
acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as
somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de
indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que
lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades,
disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por
longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram
inaptos para outras profissões?

A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os
que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos
ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações,
alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e
causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos
ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam
dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.

A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos
causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a
toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas
sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam,
constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela
perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam
as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se
escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre
acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem
sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela
presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da
lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos
possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a
distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos
e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe
discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências
ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como
obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos
trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência
social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia
de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros
obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e
traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o
comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos
emprego a muitos braços.

Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam
o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes
ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso
escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a
consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de
capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição
económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz
padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por
exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras
empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a
situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de
trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro,
cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital
que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na
maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e
cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se
suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São
infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de
retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia
que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos
acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos
casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados,
porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o
afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades,
compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o
género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes
pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a
produzir.

Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick,
«crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um
assinalado serviço à indústria, _beneficiando o comércio e dando
emprego_. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas
é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade
reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que
agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É
indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a
inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos,
estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a
proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra
cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido
rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem
espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos.
No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme
de dinheiro se está gastando em panos de _khaki_, resultando daí que
correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital
(incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a
produção dos uniformes de _khaki_. Ora esta direcção do trabalho e do
capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem
para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a
que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente
especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por
conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é
mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente
rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos
fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos
fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com
todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital
altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles
operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro
trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser _khaki_; o ourives
hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para
construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais
dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos
dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e
dependem literalmente de nós, neste sentido--fômos nós que os convidamos
a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as
nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este
modo. São, por conseguinte, os _nossos_ trabalhadores, os _nossos_
dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no
momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão
arruinados».

De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom
dizer:--«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as
despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:--«E os
trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas
supérfluas de que hão-de viver?...»

«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma
perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de
uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do
indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os
trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica
de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não
saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem
fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente
se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de
todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e
processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem
imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria
riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando
dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou
consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem,
a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e
indústria são em geral sustentados só por um modo--pela criação actual
de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e
criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os
trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos
sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto
aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o
conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer
riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a
consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são
exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os
comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar,
a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de
comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a
preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha.
Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou
podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a
conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada;
mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se
obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence
êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está
inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos
gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na
proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente
realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no
quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se
pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no
facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que
gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos
outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o
quer que seja a êsse bom resultado.

«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas
vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso
onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os
trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e,
com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a
soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada,
mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo.
E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum
individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão
total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma
verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras
que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos
nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa
comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas
vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco _shillings_. Ora nos
tempos _bons_, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de
longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os
rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a
relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros,
suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como
antigamente».

Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve
e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido
por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o
seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de
gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no
caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o
sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido
habitos maus, está provado pelo facto--e êsse é o sinal de todo o habito
máu--de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal
sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes
é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e
parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide
da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena
classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».

Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos
dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela
nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se
imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem
moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal.
Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar,
a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa
e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no
dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela
primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade.
Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está
mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões
individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem
que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas
sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a
maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por
sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as
soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente
conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.

Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura;
mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que
a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e
delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a
justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa
a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua
honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu
contentamento e felicidade.



O Cavador e o Profeta


Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada,
porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de
assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter
irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e
do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia
infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de
estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o
amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a
consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o
domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a
sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há
insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a
teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e
estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as
raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.

Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à
velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma
destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do
rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores,
e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem
sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e
acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas
infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e
repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis
ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se
êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai
no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não
permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e
outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar
seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se
atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu
cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a
aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas
vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e
aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra
injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna
e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo
vago será talvez um dos bordões da humildade.

E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A
melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o
lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a
riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses
caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as
sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em
nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o
seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E
depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras,
e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de
perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da
pobreza.

Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque
tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como
diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses
malfadados passos.

Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito
que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a
brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a
sua conseqùência.

Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência,
dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não
havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava
maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de
facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão.
Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a
poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as
inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas
terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez,
serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor.
Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um
fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição
e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus
criados e servidores.

Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade
e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por
elas não se afreimava.

Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha
a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava
claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a
mais penetrante arte de persuadir.

Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado
desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava
no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos
animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo
terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era
escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até
onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo
ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a
afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes
superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.

Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos
ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham
levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia,
consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto
rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que
no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o
tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.

--«Porque?»

--«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de _o_ ganhar, precisa
de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».

E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda
trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem
para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma
indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso
essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência
na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e
económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe
outra cousa.

Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a
poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia
e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua
lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da
taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe
parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros
na pastagem.

Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para
êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe
com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é
apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.

Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas
provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A
vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade,
uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma
independência de todos os instinctos na suma vibração das suas
energias--uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e
aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas
grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito
misterioso.

Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito
aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de
vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que
eu não sou capaz de saber.

Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre
de sangue o mundo?

--«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem
trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem
agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo
comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de
costa direita, quer comer sem trabalhar».

Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há
mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus
apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores,
_caveant consules_! tomem nota os generais e os seus imperadores,
andam-lhes inimigos na fortaleza.

Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias
inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito
longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá
ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos
incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes
pedir impostos e os filhos para a guerra».

Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o
génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas
palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta
ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e
identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e
consubstanciação em uma única visão?!...



Aparições

Mazzini


É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o
que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da
salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento
e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles
importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de
uma fortuna fácil e prolongada.

Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais
remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu
destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes
incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela
morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra
haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam
os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o
pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas
que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o
seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das
cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em
que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou,
sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e
esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos
cara, e esperança da glória a que nos conduzem.

Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa
o nome de Mazzini.

Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela
obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado
os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o
assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades.
Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam
ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de
homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini
jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e
confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a
legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores
rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o
fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa
fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos
da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.

Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na
hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do
mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à
contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.

Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e
atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.

Que dizia?[8] Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...

Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si,
independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O
universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus,
uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia
divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o
triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza
das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência
impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as
realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único
consistente, de todas as edificações que tentassemos construir.

Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu
tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu
que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos
estados--«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho
disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e
de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através
do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia».
Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam
uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto,
de todo perturbaram a fortuna da Europa.

Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a
vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma
certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de
crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as
estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e
mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a
todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder,
viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso
único dever».

A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história
como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do
presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos
precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem,
sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder,
não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus
e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a
insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que _há um
só Deus e todos os homens são filhos de Deus_. Foi a promulgação destas
duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem
soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma
alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão
a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção
quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras
sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no
cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal
compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque _da
maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma
mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e
cada um de nós membros uns dos outros_. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c.
XII, vv. 4, 5). _E haverá um só rebanho e um só pastor_ (Evangelho de S.
João, c. X, ver. 16)».

A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em
toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção
religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de
egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de
ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre
o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa
onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada
externamente; povos que dizem que _a verdade é uma cousa e a utilidade
uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática_. Êsses
países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento,
opressão e anarquia».

A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua
substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.

«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria
fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação
opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao
indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por
conseguinte, não só porque é uma _necessidade_ da nossa vida, mas tambêm
porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros
e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam
antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma
educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as
faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e
mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da
humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais
rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e
intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por
isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser
inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a
natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos
necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades
mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.»

Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu
valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e
produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a
_instrucção_, desacompanhada de um gráu correspondente de _educação_, é
um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um
mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos
entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina».

Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma
família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo
pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu».
Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver
toda a verdade que nela se encerra.

«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo,
mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no
próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do
Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor
da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para
os sacerdotes a comunhão nos _dois géneros_».

«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação
superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado
morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela
ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir
naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a
negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião
eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto
de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de
sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre
os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material,
tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e
nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os
finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do _fait
accompli_». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude
republicana».

Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à
sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão
que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois
«a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós
temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente
dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades
humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem)
aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e
todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela
porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma
realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção
divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender».

Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes
ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da
família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a
salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina».

«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação
europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e
trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da
sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa
sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a
ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande
missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou
compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da
vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do
govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o
elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos
semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura
pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da
linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma,
as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a
fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de
misericórdia»--tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da
egreja.

Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há
desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época,
estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a
de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em
inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais
sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma
religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo
«podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa
dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis,
aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única
escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande
e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor.
Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela
representava, e não se encontraria entre eles um só mártir».

«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como
scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias,
desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos
altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados.
Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida
quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra,
para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias
estranhos a toda a concepção religiosa».

A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição
da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas
relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no
espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes
trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo
e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para
aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o
quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa
alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de
concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira
para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo
não podem exercer os seus direitos».

O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se
passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar,
por _desenvolvimento_, pela _modificação_ perpétua dos elementos que
manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas
épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos,
deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não
teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de
uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou
além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são
os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando
os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de
todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como
sempre fôram os instinctos da humanidade».

E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento»,
sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a
deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer
organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e
estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos
modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser
qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade
nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e
indestructiveis. «Algum dia fomos _escravos_, depois _servos_, depois
_assalariados_; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres
produtores e irmãos na _associação_--associação livre e voluntária, por
nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se
conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela
autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições
individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que
como seres de livre e espontânea vontade».

Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das
sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é
eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um
homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde
só respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as
reformas são inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um
sepulcro branco, nada mais». «Só os princípios edificam». «Onde
quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revoluções, temos
sempre de ir ao conhecimento e à pregação dos princípios. O verdadeiro
instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor
_moral_». Não suprimiremos o factor económico nem é possível suprimí-lo,
mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do govêrno da sua
influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias do
individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta
perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão dos _apetites_
da espécie humana». A cada estado do progresso devia corresponder «uma
melhoria positiva da condição material do povo»; mas sustentava que «os
interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, dependem dos
princípios, não podem ser a _mira_ e o fim da sociedade. Porque sabiamos
que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos lembramos
que, quando o factor _material_ começou a apossar-se de Roma, e o dever
com o povo se reduziu a dar-lhe _pão e jogos_, Roma e o seu povo
apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na
Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada,
precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil
que separa dos princípios o bem-estar material».

São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma
revolução é a passagem de uma ideia da _teoria_ à _prática_. Digam os
homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca
causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a
tributação opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são
mais ou menos ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem
a sua origem no espírito, nas próprias raizes da _vida_; não no corpo,
no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma
filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição
histórica da humanidade».

Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras
de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos
na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens
as emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão _tornando-se, êles
mesmos, melhores_; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão
_merecendo-os_ pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os
procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido,
alcançá-los hiam; mas, se os procurassem em nome do _bem-estar_ que os
materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos
momentaneos, seguidos de desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles
que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambêm
êsses procuravam o seu _bem-estar_ e para o obterem queriam unir-se com
eles, como um elemento de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer;
mas, logo que com o seu auxílio tivessem obtido o bem estar,
abandoná-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista.
Era essa a história do último meio século e o nome dêsse meio século era
_materialismo_».

As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e
organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no
conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento.
Por vezes, vêem a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a
considerá-la uma triste _necessidade_, e deixam às gerações futuras o
cuidado de lhe encontrar remédio. A indiferença e o esquecimento são
doces para o homem que se sente no santuário da sua família, cercado de
faces sorridentes, emquanto lá fóra sopram as rajadas do inverno e a
neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças da janella dupla. Esperareis
erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expressão
da _situação económica_ e do que deva substituí-la em uma sociedade bem
organizada? Esperareis arrancá-los do seu repouso egoista meramente pela
análise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram?
Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitárias; não lhes
peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? Falam-lhes em nome
de _interêsses_. Não é o gozo o primeiro dos interêsses? E êles gozam».

A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será
tambêm um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais
habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela
delimitação do território, pelo agregado e conjugação das fôrças
económicas e por qualquer combinação de actividades políticas. «A
nacionalidade é a crença em uma origem e um fim comum. Se hoje fôr
fundada em um interêsse, pode ser derrubada amanhã por outro interêsse
mais ousado e mais poderoso». «Só quando o evangelho da fraternidade de
todos os homens de uma nação fez da alma santuário de virtude e amor,
quando a grande concepção da nacionalidade deixou de se encontrar
reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para base dos seus
direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse que
sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será
possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».

O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso
correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o
grito eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício,
por instrumento os povos, e por fim a humanidade». «O pensamento
religioso é o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e
alma, o seu espírito e o sinal externo. A humanidade só existe na
consciência da sua própria origem e no pressentimento dos seus próprios
destinos». Fora do trabalho da reforma moral «toda a organização
política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se «do nosso trabalho
banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os povos». «O
elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande revolução
está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».

Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto
vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação».
Acreditava em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de
existir, que compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma
influência continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm,
no seu aspecto físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para
Mazzini, era por igual essencial e simples.

«Cristo disse:--«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com
afeição fraterna». E disse tambêm:--«Entre vós será o primeiro aquêle
que fôr o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se compreende
nestas palavras. Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana,
actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifício, a afirmação da
doutrina da igualdade, a abolição de toda a aristocracia, o esforço de
perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a
perfeição podem existir--tudo assim se resume naqueles dois preceitos».

«Toda a revolução social é essencialmente _religiosa_. Toda a época tem
a sua _crença_. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar a
humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que
superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o
_sentimento religioso_, é desconhecer a significação dessas palavras,
querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como
fôrem as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em
seu coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».

Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais
traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta,
talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com
que opôz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se
combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que
provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens,
arrastados de escravidão em escravidão, de miséria em miséria, de
tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os
transviava e perdia; ignoravam que «o unico padrão da vida é a ideia do
dever, santa, inexorável, dominante».

«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os
estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e
uma destruição perante os povos. O fim da política era a aplicação da
lei moral à constituição civil de uma nação na sua dupla actividade,
doméstica e estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à
organização do trabalho no seu duplo aspecto de produção e
distribuição».

«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas
representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim
de todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos
deveres cumpridos; podiam resumir-se em um só direito--que os outros
cumpram comnosco o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a
soberania está em nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é
sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, é
impotente ou nula e não representa outra cousa senão tirania.» «A
sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu, é apenas uma sociedade de
seguros mútuos». Partindo da filosofia da liberdade individual,
destituiu de fecundidade êste _princípio_ baseando-o, não sôbre um dever
comum a todos, não sôbre a definição do homem como uma criatura social
por essência, não sôbre a concepção de uma autoridade divina e de um
designio providencial, não sôbre o laço que une o _indivíduo_ à
humanidade do qual êle é um factor, mas sob a simples _convenção_,
confessada ou subentendida».

«Carecemos de ensinar não o _direito_, mas o _dever_, acordar para
melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo
decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da
missão dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até
agora está esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de
crença, de pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não
procurou êle salvar pela crítica um mundo moribundo. Não falou de
interêsses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos
interêsses. Prégou no santo nome de Deus certas verdades até então
desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito séculos depois
da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, mudaram a face da
terra».

«Três cousas eram sagradas--tradição, progresso, associação».

A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância
presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente
devida a uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde
podemos deduzir e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade
encontrar-se hia no «estudo severo da tradição universal que é a
manifestação da vida na humanidade». A humanidade, dizia, invocando e
desenvolvendo o pensamento de Pascal, «é um homem que aprende
continuamente. Os indivíduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem
que produziram, não se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os
homens que passam sôbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de nós
nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças que são a obra de toda a
humanidade antes de nós; cada um de nós traz inconscientemente algum
elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe
segue. A educação da humanidade cresce como aquelas piramides orientais
a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia,
chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a
educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu
inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente,
continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé,
passo a passo, a humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida,
da sua missão, de Deus e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se
completam e consubstanciam, «onde encontramos a voz permanente da
humanidade harmonisando-se com a voz da nossa consciência, aí teremos ao
nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade».

O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É _pensamento_
e _acção_. As teorias podem modificar o primeiro; não podem criar o
ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em Mazzini
confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, o
poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os
juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as
inumeráveis e prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália
unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma,
inspiração, e o seu braço executor, não houve risco a que se esquivasse,
não houve penas que não experimentasse, desde o aturado exílio que em
condições de pobreza, às vezes extrema, o apartou da família, da pátria
e dos amigos, até à condemnação à morte e porventura à tentativa de
assassinato que o perseguiram como milhafres. Não houve contrariedade ou
ameaça que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de
martírio. «Particularmente aborrecia o egoismo, tão popular com a gente
de hoje. Não gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que
lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e à cultura para lhe
salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito e da alma, mas era sempre
do espírito e da alma dos outros». E «foi conspirador porque era muito
fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vêr atraiçoados, muito
honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que
aceitasse a paz sem honra»[9].

Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica
inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes
perigosas nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos
que com o seu dinheiro não faziam bem». Um instinto seguro os advertia
de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversário perigoso
dos apanágios e privilégios que ensoberbeciam as aristocracias políticas
e eclesiásticas. Cavour e Luiz Napoleão Bonaparte eram irmãos nos
sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia
com o conflito de ideais que o amor do apóstolo e a ambição do
aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O
profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o cristianismo é a
negação radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias,
divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos homens teem
inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as suas
cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e
económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o
monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução,
em diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa
que caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e
inumeráveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas,
no coração e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta
religião os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e
mostrando-nos uma outra razão da vida, adjudicando toda a nossa
actividade intima e externa a um outro espírito. Não faz sentido ter e
invocar como princípio de acção e dedicação o meu senhor», ou êle seja
rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão de industria, quando senhores e
vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e
seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos igualmente
humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei de
comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu
só porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as
comunidades bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos
e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente
se fundaram e viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou
religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por
muitos modos e em diversos lugares, se persistem e são uma fôrça
espiritual efectiva aquêles sentimentos de fidelidade, lealdade,
dedicação e sujeição que eram seus vínculos e instrumentos, se essa
ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando já
terminou a religiosidade íntima que era a sua essência e alma, é sómente
porque, convertida em tradições políticas, estéticas, morais e
eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou,
póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prática,
um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o remanescente
de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é a
primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o
império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os
que são coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos
cofres à prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é
de efeitos práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma
escravidão eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu
aquela outra consciência de escravidões mortais, condicionadas,
contingentes e transitórias, por longos séculos decisivas e supremas.
Mazzini, que por ser fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou
as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes
senão anatemas.

Assim devia ser. Vinha antes da sua hora. E condição do profeta. Tinha
de ser apedrejado e consagrado pela aversão e pela ira dos fariseismos
absolutistas e demagógicos que disputavam o domínio do seu tempo.
Amaldiçoado dos despotismos, por isso que pedia a liberdade, não podia
ser amado do demagogismo, por isso que invocava Deus, religião e dever
perante aqueles que em sua estreiteza e cegueira sómente viam e queriam
o mundo, a materia e os direitos do homem, quanto a sordidez sugere e
aponta, e na sordidez e nos seus enganos e dôres tripudia, mente e se
desfaz.

Quando morreu, a 10 de março de 1872, deixava a terra inteira, e
sobretudo a Europa, atónita e prostrada na adoração daquêle materialismo
da fôrça e da riqueza que vencera em Sédan e nas escolas e academias,
cimentando os alicerces de um grande império e aí se oferecendo à
imitação das nações, emquanto se insinuava nos laboratórios e nas
bibliotecas e aí endurecia o coração e envenenava o espírito das novas
gerações. Nesse momento, Mazzini era um vencido; com o seu débil corpo
se sepultavam as suas ilusões. Liberdade, religião e o povo que
inconscientemente as guarda e serve, iam de tropel calcados e esmagados
no culto de multíplices escravidões, no desprendimento de Deus e da sua
lei, na fé vil de que o mundo era um banquete do qual só ao nosso ventre
tinhamos a dar contas.

Dêsse banquete do materialismo robusto e convicto, reflectido, astuto,
sabedor e previdente, tão abundante de servos envaidecidos da própria
servidão como pródigo de vitualhas e orgias e orgulhoso dos seus
anfitriões desvairados na grandeza do mando e dos bens, Mazzini viu as
primeiras horas gloriosas. Então, o apóstolo era apenas uma sombra que
se afundava naquêle crepúsculo em que o romantismo sonhador anoitecia,
escarnecido satanicamente dos fortes que o apontavam à irrisão e
condenação das multidões, por muito ter amado a liberdade e os homens.

Quarenta anos vão passados. O banquete degenerou no ajuntamento trágico
das fúrias da morte e da ruina. E eis que Mazzini volta, na auréola da
sua glória, a repetir-nos que sem Deus e sem dever e sem amor a terra
será eternamente o inferno ensanguentado a que descemos.

FIM.


    [1] Artigo do _Manchester Guardian_.

    [2] Principe Troubetzkoy, professor de Direito na Universidade de
    Moscou, no _Hibbert Journal_.

    [3]_Millgate Monthly_, março de 1915. Notícia de um discurso de
    Oliver Lodge, em Bradford.

    [4] Percy Dearmer. _Patriotism._ Humphrey Milford: Oxford Unversity
    Press, 1915.

    [5] William Temple. _Cristianity and War._ (Humphrey Milford; Oxford
    University Press, 1914).

    [6] E. Carpenter, _What will Stay the Plague?_ Artigo publicado em
    _The Christian Commonwealth_, de 9 de dezembro de 1914.

    [7]_The War and Democracy_, por W. Seton--Watson, J. Dover Wilson,
    Alfredo E. Zimmern e Arthur Greenwood. (Londres; Macmillan, 1912).
    Pag. 374 e seg.

    [8] O pouco que sei do pensamento e vida de Mazzini colhi-o
    principalmente, quasi exclusivamente, em dois volumes da _Everyman's
    Library_. (Londres; J. M. Dent & Sons), um que contêm versões dos
    escritos de Mazzini, _The Duties of Man and Other Essays_, e o outro
    que é a narração da sua vida e a crítica das suas doutrinas,
    intitulado _The Life of Mazzini_, escrito por Bolton King. Esses
    dois volumes constituem só por si uma lição moral e política e uma
    inspiração de dignidade e nobreza de um altissimo valor. Quem os
    divulgasse em linguagem portuguesa, prestaria excelente serviço às
    letras pátrias, e sobretudo à educação das novas gerações, tão
    desiludidas das seguranças e presunções materialistas que encontram
    no ocaso, como apressadas em descobrir novos e mais serenos
    horizontes para que se encaminhem.

    [9] H. Demarest Lloyd. _Mazzini and other Essays._ Pag. 4 e 6.



Indice


    Prologo

    Convulsões dum enfêrmo

    Ganhos e perdas

    Revisão de valores

    Da arte de gastar e suas responsabilidades

    O Cavador e o Profeta

    Aparições



DO MESMO AUTOR

    _Vozes do meu lar_, 1 vol.

    _Na paz do Senhor_, romance, 1 vol.

    _Reino da Saudade_, romance, 1 vol.

    _Via Redentora_, 1 vol.

    _Apostolos da Terra_, 1 vol.

    _Sonho de Perfeição_, romance, 1 vol.

    _S. Francisco d'Assis_, 1 vol.

    _José Estevão_, 1 vol.

    _Alexandre Herculano_, 1 vol.

    _Rogações de Eremita_, poemetos em prosa

    _Salmos do Prisioneiro_, 1 vol.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Guerra - Depoimentos de Herejes" ***

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