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Title: O descobrimento da Australia pelos portuguezes em 1601
Author: Major, Richard Henry, 1818-1891
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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                       O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA

                            PELOS PORTUGUEZES

                                 EM 1601

    CINCO ANNOS ANTES DO PRIMEIRO DESCOBRIMENTO ATÉ ENTÃO MENCIONADO

   COM ARGUMENTOS A FAVOR DO PREVIO DESCOBRIMENTO PELA MESMA NAÇÃO NO
                         PRINCIPIO DO SECULO XVI

           COMMUNICADO Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES

               PELO SR. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.

                         E POR ELLE OFFERECIDO

                Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA

                  TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA

                          PELO SOCIO EFFECTIVO

                           D. José de Lacerda


                                 LISBOA
                         TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA
                                  1863



                        DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA

                            PELOS PORTUGUEZES



                       O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA

                            PELOS PORTUGUEZES

                                 EM 1601

    CINCO ANNOS ANTES DO PRIMEIRO DESCOBRIMENTO ATÉ ENTÃO MENCIONADO

   COM ARGUMENTOS A FAVOR DO PREVIO DESCOBRIMENTO PELA MESMA NAÇÃO NO
                         PRINCIPIO DO SECULO XVI

           COMMUNICADO Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES

               PELO SR. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.

                         E POR ELLE OFFERECIDO

                Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA

                  TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA

                          PELO SOCIO EFFECTIVO

                           D. José de Lacerda


                                 LISBOA
                         TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA
                                  1863



O DESCOBRIMENTO DA AUSTRALIA PELOS PORTUGUEZES EM 1601

COMMUNICADO
Á SOCIEDADE DOS ANTIQUARIOS DE LONDRES

PELO SR. RICHARD HENRY MAJOR, ESQ. F. S. A.

E POR ELLE OFFERECIDO

Á ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA

TRADUZIDO DE ORDEM DA MESMA ACADEMIA

PELO SOCIO EFFECTIVO

D. JOSÉ DE LACERDA



                                                 Meu presado sir Henry.

Se podesse haver logar a alguma duvida ácerca da importancia de
colligir, e metter no corpo da nossa litteratura, as reliquias dispersas
das primeiras relações dos descobrimentos geographicos, a duvida acharia
condigna resposta na inquieta curiosidade com que os mais esclarecidos
anglo-saxões, habitantes da America, voltam a attenção para as
particularidades, ainda de menos monta, que respeitam ás primeiras
narrações historicas da sua terra adoptiva.

Um vasto campo de colonisação, inferior sómente á America, se está
desenvolvendo com rapidez no sul; e podemos presumir naturalmente que se
ha de tornar questão de não pequeno interesse para os que tiverem
escolhido a Australia como terra natal de seus filhos, o conhecer
quaes foram os primeiros descobridores de um territorio tão vasto nas
suas dimensões, tão importante nas suas condições essenciaes, e cujo
verdadeiro modo de existir se conservou todavia em segredo por milhares
de annos.

No anno de 1859 tive a honra de publicar para a sociedade Hakluyt uma
obra intitulada _Primeiras viagens á terra Austral_, comprehendendo uma
collecção de documentos e de extractos dos primeiros mappas
manuscriptos, tendentes a esclarecer a historia dos descobrimentos sobre
as costas daquella vasta ilha, desde o começo do seculo XVI até ao tempo
do capitão Cook. Na minha introducção áquella obra coube-me fazer vêr
que, na primeira parte do seculo XVI, havia indicações, nos mappas, de
ter sido já descoberta a Australia, mas sem documentos escriptos para o
confirmar; emquanto que, no seculo XVII ha documentos auctorisados para
demonstrarem que as suas costas foram visitadas pelos hollandezes em
grande numero de viagens, posto que não se encontrem documentos que as
descrevessem immediatamente. As primeiras viagens dos hollandezes foram
feitas em 1606, e ficou para todos manifesto, como ponto historico fóra
de questão, que, n'aquelle anno, o primeiro descobrimento authentico da
Australia foi feito pelos hollandezes.

É meu objecto n'este escripto annunciar que, nos dias ultimamente
findos, o Musêo Britannico me deparou um documento, que, sem hesitação,
transfere aquella honra da Hollanda para Portugal, por tal modo que dá a
este ultimo paiz uma vantagem sobre o primeiro de cinco annos de
indisputavel prioridade. O facto de que a Australia foi na realidade
descoberta mais de sessenta annos antes, e com toda a probabilidade
tambem por portuguezes, não diminue a importancia d'este outro
facto--que desejo agora recordar como pela primeira vez revelado--que a
primeira viagem conhecida á Australia, a que se póde marcar data, e o
nome do descobridor, foi feita pelos portuguezes em 1601. Comtudo, se eu
houvesse de limitar-me á simples enunciação do facto, sem mostrar a
posição que tem de tomar na historia do indicado e authentico
descobrimento da Australia, receio que a noticia por mim annunciada
fosse para vós tão destituida de interesse, como a mim proprio me
deixaria descontente. A fim, por tanto, de estabelecer com clareza a
minha questão, julgo que devo apresentar-vos um summario do que mais
amplamente já escrevi na introducção da minha obra _Primeiras viagens á
Australia_, declarando, que por amor da brevidade, tenho omittido as
circumstancias de menos momento, e algumas vezes modificado a minha
linguagem; porém não me atrevi, por mera ostentação, e quando não ha
com isso a ganhar, a fazer alteração no que primeiramente havia
escripto. Um tal procedimento affigurou-se-me pouco delicado e menos digno.

Fallei das suppostas indicações da Australia, porque, assim como em
relação á America, assim tambem em relação á Australia, podem
assignalar-se suspeitas da existencia d'aquelles differentes territorios
nos escriptos dos antigos, nos monumentos geographicos da idade média,
e, testimunhos ainda mais positivos, com respeito á Australia, nos bem
delineados mappas manuscriptos da primeira parte do seculo XVI.

Entre os primeiros escriptores, a citação mais notavel que posso
offerecer com referencia ao continente austral, é a que se encontra no
Astronomicon de Manilio, liv. 1.º, v. 234-238, onde, em seguida a uma
extensa dissertação, diz:

    Ex quo colligitur terrarum forma rotunda:
    Hanc circum variae gentes hominum atque ferarum
    Aeriaeque colunt volucres. Pars ejus ad arctos
    Eminet, Austrinis pars est habitabilis oris,
    Sub pedibusque jacet nostris.

A data em que Manilio escreveu, posto que não possa fixar-se com
exactidão, suppõe-se, com fundamento nas conclusões deduzidas das provas
internas que nos suggere o seu poema, que foi no reinado de Tiberio.

No ultimo periodo, a crença da existencia de um grande continente
austral anterior aos descobrimentos dos portuguezes no oceano Pacifico,
demonstra-se pelos mappas manuscriptos e outros monumentos geographicos,
colligidos pelas investigações do meu chorado amigo, o fallecido
erudito, e laborioso visconde de Santarem no seu _Essai sur l'Histoire
de la Comosgraphie et de la Cartographie du Moyen Age_. No vol. I, pag.
229 d'esta obra, informa-nos de que «D'autres cartographies du moyen-âge
continuèrent à représenter encore dans leurs mappemondes l'Antichthone,
d'après la croyance qu'au delá de la ceinture de l'océan Homérique il y
avait une habitation d'hommes, une autre région temperée, qu'on appelait
la terre opposée, ou il était impossible de pénétrer á cause de la zone
torride.»

A mais antiga _asserção_ do descobrimento de uma terra que tem posição,
no primeiro mappa, analoga á da Australia, foi feita a favor dos chins,
que se suppoem terem tido conhecimento daquellas costas muito antes do
periodo da navegação européa ao oriente.

Thévenot, nas suas _Relations de divers voyages curieuses_, part. I,
pref. París, 1663, diz: «La terre Austral, qui fait maintenant une
cinquième partie du monde, a été découverte á plusieurs fois. Les
chinois en ont eu connaissance il y a longtemps; car l'on voit que Marco
Polo marque deux grandes isles au sud-est de Java, ce qu'il avait appris
apparemment des chinois».

A relação de Marco Polo descreve um territorio na direcção da Australia,
que contêm oiro, elephantes e especiarias, descripção que se vê
claramente não poder applicar-se á Australia. Sem duvida houve erro na
direcção da indicação suggerida, e parece certo que a terra que se
pretendeu descrever era a Cambodia. Não me detenho a dissertar sobre os
varios erros crassos a que esta relação deu origem, em presença dos
primeiros mappas hollandezes, gravados, que appareceram na derradeira
parte do seculo XVI. Fallei d'elles circumstanciadamente no meu
_Hakluyt_. São interessantes em relação ao importante territorio a que
parece terem referencia, e na realidade recrêam pela sua natureza,
variedade e numero.

O primeiro descobrimento da Australia, reclamado por alguma nação, é o
de um francez chamado Binot Paulmier de Gonneville, natural de Honfleur,
que deu á vela d'aquelle porto em junho, 1503, de viagem para os mares
do sul. Depois de ter dobrado o cabo da Boa Esperança, foi assaltado
d'uma tempestade que o lançou sobre uma terra desconhecida, na qual foi
tractado com hospitalidade, e d'onde, depois da demora de seis mezes,
voltou á França, trazendo coinsigo o filho do rei d'aquella região.
Infelizmente o diario de Gonneville, na sua tornada, cahiu nas mãos dos
inglezes e perdeu-se; porém um ecclesiastico, descendente d'um dos
naturaes d'esta região austral, que fôra casado com uma parenta de
Gonneville, havia colligido das tradições, e papeis avulsos da familia,
e egualmente d'uma declaração judicial, feita perante o almirantado
francez em data de 19 de junho de 1505, materiaes para a obra que foi
impressa em París por Cramoisy em 1663, intitulada _Mémoire touchant
l'établissement d'une mission chretienne dans la terra Australe; par un
ecclesiastique originaire de cette même terre_. O auctor, de feito,
estava animado do ardente desejo de prégar o Evangelho na terra dos seus
antepassados, e consumiu a vida em diligenciar obter dos que tinham a
seu cargo as missões estrangeiras o enviarem-no para alli; e demais
d'isso, preencher d'alguma sorte, a promessa que fôra feita pelo
primitivo navegador francez de que visitaria novamente aquella região. O
trato amigavel com os naturaes, descriptos por Gonneville, que falla
d'elles como tendo feito alguns progressos na civilisação, é
absolutamente incompativel com o caracter desleal e barbara crueldade
que vemos attribuida aos naturaes da Australia-Norte por todos os mais
recentes viajantes. «Considere-se toda a narração desprevenidamente, diz
Burney, e a idea que de prompto e muito naturalmente ha de occorrer é
que a India Austral, descoberta por Gonneville, foi Madagascar. Tendo
rodeado o Cabo, foi arrojado pelos temporaes para as latitudes
pacificas, e tão proximo d'esta terra que para alli foi encaminhado pelo
vôo dos pássaros. Outro ponto que merece ser conhecido, a recusa da
tripulação de proseguir até á India Oriental, difficilmente póde crer-se
que tivesse logar, a estarem tanto ávante para o nascente como a Nova
Hollanda.»

Reclamação mais razoavel do que a precedente, ao descobrimento da
Australia nos principios do seculo XVI, pode ser produzida pelos
portuguezes, fundando-se no testimunho de varios mappas manuscriptos
ainda existentes, pois que a tentativa, feita recentemente, de
accrescentar a honra d'este descobrimento a Magalhães, na famosa viagem
do Victoria ao redor do mundo em 1520, é, como procurei mostrar, de todo
o ponto insustentavel. A reclamação d'esta honra para a Hespanha, é
defendida nos seguintes termos no _Compendio Geographico Estadistico de
Portugal y sus posesiones ultramarinas_ por Aldama Ayala, 8.º Madrid,
1855, p. 482: «Os hollandezes reclamam o descobrimento do continente da
Australia no seculo XVII, com quanto haja sido descoberta por Fernando
de Magalhães, portuguez, de ordem do imperador Carlos V, no anno de
1520, como se prova com documentos authenticos, taes como o Atlas de
Fernando Vaz Dourado, feito em Goa em 1570, n'um dos mappas do qual está
traçada a costa da Australia. O dito magnifico Atlas, illuminado com
perfeição, conservava-se antigamente na livraria da Cartucha em Evora.»

Similhante reclamação foi tambem feita por um seu distincto conterraneo,
embora a viagem fosse emprehendida em serviço da Hespanha, em um
almanack publicado em Angra, na ilha Terceira, pela imprensa do governo
em 1832, e composto, segundo se suppõe, pelo visconde de Sá da Bandeira,
actual ministro da Marinha em Lisboa.

Na investigação d'este assumpto tive por fortuna o auxilio do dr.
Martin, de Lisboa, editor do _Mariner's Tonga Islands_, cujo exame do
mappa de Dourado me dá o convencimento de que o tracto descripto no
mappa como descoberto por Magalhães, é de feito um memorandum ou
nota-marginal carthographica do real descobrimento da Terra do Fogo por
Magalhães, e que, em consequencia da sua inexacta collocação no
pergaminho, foi ao depois applicada erradamente por Mercator áquella
parte do mundo agora conhecida como Australia, e d'ahi a reclamação de
que se tracta.

Agora porém passo a uma indicação mais plausivel do descobrimento da
Australia pelos portuguezes na primeira parte do seculo XVI, que decorre
entre os annos de 1512 e 1542. Esta indicação acha-se por fórma
similhante em diversos mappas manuscriptos, todos francezes, onde,
immediatamente abaixo de Java, e separado d'aquella ilha sómente por um
apertado braço do mar, está traçado, na margem dos differentes mappas,
um largo territorio que se vai estreitando para o sul. Este territorio é
chamado a grande Java. No maior numero d'estes mappas, o largo
territorio continúa sempre ao longo da porção sul do globo, formando a
grande terra Austral, em que desde tempos immemoriaes tão largamente se
tem acreditado, e juntando-se novamente com o mundo conhecido na _Tierra
del Fuego_. Mas n'um d'estes mappas occorre uma excepção, muito para
notar, a esta regra; o traçado da costa dos dois lados, oriental e
occidental, da grande Java, termina em pontos que offerecem fundado
argumento de que representam os actuaes descobrimentos. Por exemplo, o
ponto mais austral em que termina o traçado da costa occidental é o grau
35, latitude real do ponto sudoeste. O traçado da costa oriental não é
tão correcto, mas estende-se muito por baixo do ponto mais ao sul da
terra de Van Diemen; comtudo pela sua distante posição teria de ser a
parte de menos provavel investigação, e, posto que incorrectamente
delineado, concorda com o facto geral de que a inclinação sul do traçado
oriental da costa é muito maior que o da linha occidental. Com respeito
á longitude da grande Java, póde affirmar-se que, apesar de todas as
discrepancias que se notam nos mappas, não ha outro territorio que
demore dentro das mesmas parallelas e na mesma extensão, entre a costa
oriental da Africa e a costa occidental da America; e que a Australia
realmente jaz entre os mesmos meridianos que a grande massa de
territorio ali traçada. Relativamente ao contorno da costa, basta um
mero relancear dos olhos para descobrir a geral similhança no lado
occidental, embora no oriental as discrepancias, como era de esperar,
sejam mais consideraveis.

Na totalidade das inscripções particulares d'estes mappas occorrem
alguns nomes de bahias e costas, que Alexandre Dalrymple, hydrographo do
almirantado e companhia das Indias Orientaes, primeiro de todos advirtiu
assimilharem-se a nomes dados pelo capitão Cook ás partes da Nova
Hollanda, por elle mesmo descobertas. Na memoria concernente a Chagos
e ilhas adjacentes, 1786, p. 4, fallando d'este mappa, diz: «A costa
oriental da Nova Hollanda, como nós lhe chamamos, está designada com
algumas circumstancias curiosas por condizer com o manuscripto do
capitão Cook. O que o mappa chama bahia das Angras (Bay of Inlets)
chama-se no manuscripto bahia Perdida; bahia das Ilhas (R. de beaucoup
d'Isles); o logar onde tocou o Audaz (Endeavour) coste Dangereuse. De
sorte que podemos dizer como Salomão, nada ha novo debaixo do sol.»

Esta mal cabida insinuação houve, com prazer me recordo, judiciosa
refutação da penna d'um francez, M. Frederico Metz, em um artigo
impresso a p. 261, vol. XLVII da _Revue ou Décade Philosophique,
Litteraire et Politique_, Nov. 1805, que mui maliciosamente observa. «Se
Cook teve conhecimento dos mappas em questão, e pretendeu appropriar-se
dos descobrimentos de outrem, é preciso suppol-o muito pouco atilado por
ter conservado a estes descobrimentos os mesmos nomes, que haviam de
denunciar o seu plagiato, a todo tempo que se tornassem conhecidas as
fontes que tinha consultado. A «costa Perigosa» foi assim chamada,
porque, por espaço de quatro horas elle proprio se achou ali em perigo
imminente de naufragar. Devemos portanto suppôr que se expôz a si e á
sua tripulação a morte quasi certa, a fim de ter plausivel desculpa de
applicar um nome similhante ao que a mesma costa havia já recebido do
navegador, desconhecido e anonymo, que precedentemente a descobrira.
Entretanto nomes taes como «bahia das Ilhas» «costa Perigosa» são muito
conhecidos na geographia. Achamos uma «bahia das Ilhas» na Nova
Hollanda; e na costa oriental da ilha de Borneo ha uma «costa das
Hervagens.»

O bom senso d'este raciocinio, sem fallar da questão de honra com
relação a um homem do elevado caracter do capitão Cook, devia parecer
decisivo; com tudo esta similhança de nomes, segundo eu proprio estou
informado, tem sido notada por pessoas de alta posição que tem muito
conhecimento d'esta região, posto que sem nenhuma intenção de affrontar
o capitão Cook, como prova da identidade d'aquelle territorio com a
Australia. A similhança de «côte des Herbages» com o nome de «Botany
Bay» dado a uma parte correspondente da costa pelo capitão Cook, tem
merecido particular attenção, com quanto se saiba que esta bahia,
chamada originariamente _Stingray_, e depois _Botany Bay_, não foi assim
chamada por causa da fertilidade do solo, mas sim por causa da variedade
das plantas, novas para a sciencia botanica, as quaes foram descobertas
em um solo que aliás nada promettia. É claro que os primeiros
navegadores deviam assignar uma denominação tal como a «côte des
Herbages,» a uma praia digna de reparo pela rica producção da relva ou
de outra qualquer vegetação, antes do que pela apreciação d'algum
descobrimento botanico[1]. Se a similhança dos nomes «rivière de
beaucoup d'Isles» e «côte Dangereuse» com os nomes de Cook «bahia das
Ilhas» e o logar «onde o Audaz tocou» descriptivos de indisputaveis
realidades, fossem apresentados por Dalrymple como prova de grande
probabilidade de que o territorio representado no primeiro mappa era a
Nova Hollanda, sem pretender arriscar nenhuma insinuação contra o
merecimento do seu rival, nós receberiamos esta plausivel observação com
deferencia e justo assentimento.

Que a Nova Hollanda era o territorio assim representado, é asserção
sustentada com varios argumentos por mais de um dos nossos visinhos
francezes. M. Coquebert Montbret, em uma memoria impressa no num. 81 do
_Bulletin des Sciences_ de 1804, cita a injuriosa observação de
Dalrymple, e tacitamente concorda em ter ella produzido o seu effeito
deceptivo no espirito de leitores incautos.

Um atlas, que se acha ao presente na mão de sir Thomas Phillipps, e
contém indicações similhantes ás que deixo descriptas, veiu á mão do
principe de Talleyrand no principio d'este seculo; e attrahindo a
attenção do celebrado geographo M. Barbié du Bocage, d'elle tirou uma
larga noticia, que foi lida n'uma sessão publica do Instituto em 3 de
julho de 1807. N'esta diz que «devemos chegar á conclusão de que estes
atlas foram copiados dos mappas portuguezes, e por conseguinte que o
descobrimento da Nova Hollanda pertence aos portuguezes. É esta a
opinião» continua elle «de M. M. Dalrymple, Pinkerton, De la Rochelt, e
de varios outros; e não creio que possa allegar-se nenhuma boa razão
para refutar uma opinião tão bem fundada.» Entretanto M. Barbié du
Bocage soltou esta expressão do seu convencimento tentando fixar o
periodo do descobrimento, em cuja tentativa cahiu em erros que me propuz
refutar, porém a que seria fastidioso aqui alludir.

A prova que subministram estes mappas, de terem tido por base os
descobrimentos portugueses, é a seguinte. Todos elles são francezes; e
que todos são repetições, com ligeiras variações, de uma unica origem,
mostra-se pelo facto de que os defeitos sao os mesmos em todos. As
indicações portuguezas occorrem em alguns nomes, taes como «terre
ennegade» forma afrancezada de «tierra anegada» isto é «terra coberta
d'agua» ou «baixios»; «Graçal» «cabo da Formosa.» Levanta-se por tanto a
questão, julgando por taes provas, se foram os francezes ou portuguezes
os descobridores? Em resposta offereço a seguinte exposição.

No anno de 1529 João Parmentier de Dieppe fez uma viagem a Sumatra, e
durante a viagem morreu. Parmentier era poeta, douto classico, e
igualmente navegador e bom hydrographo. Acompanhou-o n'esta viagem seu
intimo amigo o poeta Pedro Crignon, que, regressando a França, publicou
em 1531 os poemas de Parmentier, com um prologo que contém o seu elogio,
no qual diz que Parmentier foi «le premier françois qui a entrepris à
estre pilolte pour mener navires à la terre Amérique qu'on dit Brésil,
et semblablement le premier françois qui a descouvert les Indes jusqu'à
l'Isle de Taprobane, et, si mort ne l'eust pas prévenu, je crois qu'il
eust ésté jusques aux Moluques». É de pêso esta auctoridade n'este
ponto, porque vem de um homem de distincção, o segundo do navio, e
intimo do mesmo Parmentier. Assim pois os francezes não passaram, nos
mares do sul, além de Sumatra antes de 1529. A data do mais antigo dos
mappas citados não é anterior a 1535, pois que contém o descobrimento de
S. Lourenço por Jacques Cartier n'aquelle anno; porém ainda quando não o
supponhamos mais antigo que o de Rotz, que tem a data de 1542, se
perguntamos de quaes viagens dos francezes nos mares do sul temos
conhecimento entre os annos de 1529 e 1542, nem o abbade Raynal, nem
nenhum moderno escriptor francez, nem tão pouco os antiquarios que
investigaram com maior indagação a historia dos descobrimentos
francezes, como, por exemplo M. Léon Guérin, auctor da _Histoire
Maritime de France_, París, 1843, 8.º; e _Les Navigateurs Français_,
París, 1847, 8.º, nenhum apresenta a mais leve pretenção de que os
francezes navegassem para aquellas paragens na primeira parte ou no
meiado do XVI seculo.

É certo, comtudo, que a França estava n'aquelle tempo muito pobre, e
muito implicada em cuidados politicos para entremetter-se em longinquas
investigações nauticas. Se assim o tivesse feito, toda a America do
norte e o Brasil poderiam agora pertencer-lhe. Todavia sabemos ao mesmo
tempo, que os portuguezes tinham anteriormente a 1529 estabelecimentos
nas ilhas das Indias orientaes; e a existencia de nomes portuguezes nos
territorios de que fallamos, como se acham delineados n'estes mappas
francezes, é de si mesma o reconhecimento de terem sido descobertas
pelos portuguezes; como sem duvida a opinião dos francezes, com respeito
á cobiça e exclusivismo dos portuguezes, não só devia ter tornado os
primeiros mais diligentes em reclamarem tudo que lhes fosse possivel em
materia de descobrimentos, mas tambem devia ter estorvado a gratuita
introducção de nomes portuguezes em regiões tão remotas, se elles
proprios as houvessem descoberto. No tomo 3.º da Collecção de Ramusio,
na noticia do «Discorso d'un gran capitano di mare francese del luogo di
Dieppa, etc.,» que sabemos agora ser a viagem de João Parmentier a
Sumatra em 1529, e com toda a probabilidade escripto pelo seu
companheiro e elogiador o poeta Pedro Crignon, encontra-se esta
expressão: «Io penso che li Portoghesi debbano haver bevuto della
polvere del cuore del re Alessandro..... e credo che si persuadino che
Iddio non fece il mare nè la terra, se non per loro, e che l'altre
nationi non siano degne di navigare, e se fosse nel poter loro di
mettere termini e serrar il mare del Capo di Finisterre fin in Hirlanda,
gia molto tempo saria che essi ne haveriano serrato il passo.» Mas,
demais d'isto, pois que tira d'ahi muita força este argumento, não
devemos deixar de ter em conta o ciume dos portuguezes, que vedavam a
communicação das informações hydrographicas relativamente aos seus
descobrimentos n'aquelles mares. Humboldt affirmou, _Histoire de la
Geographie du Nouveau Continent_, tom. 4.º, p. 70, sobre a auctoridade
de cartas de Angelo Trevigiano, secretario de Domenico Pisani,
embaixador de Veneza na Hespanha, que os reis de Portugal defenderam,
sob pena de morte, a exportação de cartas maritimas que revelassem a
derrota a Calecut. Achamos igualmente em Ramusio, _Discorso sopra el
libro di Odoardo Barbosa_, e _Sommario delle Indie Orientali_, tom. 1.º,
p. 287 b, imposta similhante prohibição. Diz elle que estes livros
«estiveram occultos por muito tempo, e não se consentiu que fossem
publicados por convenientes razões, que não devo aqui manifestar.»
Tambem falla da grande difficuldade que elle mesmo tivera de obter uma
copia, posto que imperfeita, em Lisboa, «Tanto possono» observa elle
«gli interessi del principe.»

Póde formar-se alguma idéa do conhecimento que possuiam os hespanhoes no
meiado do seculo XVI ácerca da parte do mundo de que tractamos, pelo
seguinte extracto d'uma obra intitulada _El Libro de los Costumbres de
todas las Gentes del Mundo y de las Indias_, traduzida e compilada pelo
bacharel Francisco Thamara, Antuerpia, 1556: «A treynta leguas de Java
la menor, está el Gatigara a nueve y diez grados de la Equinocial de la
otra parte azia el sur. Desde aqui adelante no ay noticia de mas
tierras, porque no se ha navegado por esta parte mas adelante, y por
tierra no se puede andar por los muchos lagos y grandes y altas
montarias que por aqui ay. Y aun dizese que por aqui es el parayso
terrenal.» Ainda que isto não foi escripto originariamente em hespanhol,
porém traduzido de Johannes Bohemus, não é facil de crêr que fosse
apresentado aos hespanhoes, se entre elles houvessem mais exactas
informações a este respeito.

Os factos assim reunidos levam-me á conclusão de que a terra descripta
como «la Grande Java» nos mappas francezes a que tenho feito referencia,
não póde ser senão a Australia; e que foi descoberta antes de 1542,
quasi que póde acceitar-se como certeza demonstrada; porém, quanto tempo
antes, não é claro. Creio tambem que tenho conseguido fazer sentir a
grande probabilidade de terem sido os portuguezes os seus descobridores.

Em um mappa destinado a servir de esclarecimento ás viagens de Drake e
Cavendish por Jodocus Hondius, é apresentada a Nova Guiné como uma ilha
perfeita, sem uma só palavra que faça nascer duvida ácerca da exactidão
do desenho; emquanto que a terra Austral, separada da Nova Guiné apenas
por um estreito, tem um perfil notavelmente parecido ao do golpho de
Carpentaria. Estas indicações dão a este mappa um interesse especial,
principalmente porque se mostra que é anterior á passagem de Torres pelo
estreito de Torres, em 1606, pois que tem as armas da rainha Elizabeth,
antes que o unicornio da Escocia expulsasse o dragão dos Tudors.

No artigo _Terra Australis_, na obra de Cornelio Wytfliet,
_Descriptionis Ptolemaicae Augmentum_, Louvain, 1598, encontramos o
seguinte passo: «Australis terra omnium aliarum terrarum australissima
tenuique discreta freto Novam Guineam orienti objicit, paucis tantum
hactenus littoribus cognitam, quod post unam atque alteram navigationem,
cursus ille intermissus sit, et nisi coactis impulsisque nautis ventorum
turbine rarius eo adnavigetur. Australis terra initium sumit duobus aut
tribus gradibus sub aequatore, tantaeque a quibusdam magnitudinis esse
perhibetur, ut si quando integrè delecta erit, quintam illam mundi
partem fore arbitrentur.» A declaração que fica citada foi impressa,
convém recordal-o, antes d'algum descobrimento da Australia de que
tenhamos noticia authentica.

Porém quando se examinam estas indicações do descobrimento da Australia
no XVI seculo, é natural perguntar quaes explorações haviam sido feitas
pelos hespanhoes n'aquella parte do mundo, no decurso do dito seculo?
Depois do periodo da viagem de D. Alvaro de Saavedra ás Molucas em 1527,
cessamos de encontrar a actividade do espirito de investigação por parte
dos hespanhoes nos mares do sul. Embaraçados pela sua situação politica,
e pelos apuros do thesouro, o imperador, em 1529, renunciou
definitivamente as suas pretenções ás Molucas a troco de uma somma de
dinheiro, posto que manteve a sua reclamação ás ilhas descobertas pelos
seus vassallos, ao nascente da linha de demarcação limitada agora aos
portuguezes. Em 1542 foi mal succedida a tentativa de formar um
estabelecimento nas ilhas Philippinas que fez Ruy Lopez de Villalobos;
porém tendo-se attribuido o mau resultado á falta de direcção, foi
enviada com igual intento nova expedição em 1564 sob o mando de Miguel
Lopez de Legaspi, que obteve completo exito, e uma colonia hespanhola
foi estabelecida em Zebu. Não é impossivel que este estabelecimento
désse occasião ás viagens de descobrimento feitas n'este tempo pelos
hespanhoes, das quaes nenhuma noticia foi publicada. Em 1567 Alvaro de
Mendanha deu á véla de Calláo para uma viagem de descobrimentos, na qual
descobriu as ilhas de Salomão e varias outras. Ha grande divergencia nas
differentes relações d'esta viagem. Em 1595 fez segunda viagem ao Perú,
na qual descobriu as ilhas Marquezas, e o grupo depois chamado por
Carteret ilhas da rainha Carlota. O objecto d'esta expedição era fundar
uma colonia nas ilhas de Salomão, que elle descobrira na precedente
viagem, mas que pela inexactidão dos seus calculos não foi capaz de
encontrar. Tentou estabelecer uma colonia na ilha de Santa Cruz, mas não
o conseguiu, e falleceu n'esta ilha. N'esta segunda viagem teve por
principal piloto Pedro Fernandez de Quiros, que póde ser considerado
como o ultimo dos distinctos marinheiros de Hespanha, e cujo nome
reclama especial menção em uma obra que tracta das primeiras indicações
da Australia, posto que elle mesmo nunca visse as praias d'aquella
grande ilha continental[2].

O descobrimento da ilha de Santa Cruz suggeriu ao espirito de Quiros que
o grande continente sul estava emfim descoberto, e encontramos em duas
memorias por elle dirigidas a D. L. de Velasco, vice-rei do Perú, o
primeiro debate circumstanciado ácerca d'esta grande questão
geographica, a qual, posto que elle proprio não estava destinado a
demonstrar por via d'algum descobrimento actual, não obstante póde
dizer-se que, directamente mediante elle mesmo, foi posta no caso de ser
resolvida. É certo que, nutrindo estas vagas hesitações com respeito á
existencia de um continente sul, se torna difficil fazer distincção
entre a Australia propriamente dita e o grande continente descoberto
no presente seculo, vinte ou trinta graus ao sul d'aquella vasta ilha.
Dalrymple, que, ha perto de dois seculos, advogava com energia a causa
sustentada por Quiros, fallando d'este navegador, diz: «O descobrimento
do continente sul em qualquer tempo, e por quem quer que tenha de ser
effeituado completamente, de justiça é devido a este nome immortal.»
Deveria advertir-se, que, de feito ha tres motivos de duvida
relativamente ao nome d'aquelle navegador, o que convém notar, porque
podem transviar o juizo do leitor superficial da historia da navegação
d'aquelle periodo, quanto á sua connexão com o descobrimento da
Australia. Em primeiro logar, com quanto geralmente seja reputado
hespanhol, é descripto por Nicolau Antonio, auctor da _Bibliotheca
Hispana_, que era hespanhol, e não deixaria de querer, como deve
suppôr-se, reclamar um tão distincto navegador para seu concidadão, como
«lusitanus, eborensis, ut aiunt lusitani» (portuguez, que os portuguezes
affirmam ser natural d'Evora), e o estylo dos seus escriptos justifica a
supposição. Em segundo logar, Antonio de Ulloa, no seu _Resumen_, p.
119, cita uma relação da viagem de Quiros, que se diz dada na _Historia
de la Religion Serafica_, de Diogo de Cordova (obra que eu não tenho
tido a boa fortuna de encontrar), onde se menciona o descobrimento de
uma larga ilha no vigesimo oitavo grau de latitude sul, a qual latitude
fica mais ao sul do que de qualquer modo se sabe terem chegado Quiros ou
os seus companheiros. Em terceiro logar, as memorias impressas de Quiros
têem o titulo de _Terra Australis Incognita_, em quanto que a terra
Austral sul, descoberta pelo mesmo Quiros, e por elle denominada «del
Espiritu Santo» não é senão a «New Hebrides» dos mappas de hoje.

A Quiros e Dalrymple somos de feito devedores indirectamente da primeira
designação que dá algum sentido á nomenclatura moderna que se refere á
Australia, a saber, em relação ao estreito de Torres. Que Quiros,
portuguez, ou hespanhol por nascimento, estava ao serviço de Hespanha,
não padece duvida nenhuma. O vice-rei do Perú favoreceu com ardor os
seus planos, porém considerou a execução d'elles como fóra dos limites
da sua propria alçada. Em consequencia, instou com Quiros para que
puzesse a questão na presença do monarcha hespanhol em Madrid, e lhe deu
cartas para recommendar a sua pretenção. Se Philippe III foi movido
pelos argumentos de Quiros relativamente ao descobrimento do continente
do sul, ou antes pelo desejo de explorar a estrada entre a Hespanha e
America pelo nascente, com a esperança de descobrir as opulentas ilhas
que demoram entre a Nova Guiné e a China, não precisamos deter-nos a
disputal-o. É possivel que pesassem ambos estes motivos, porque
Quiros foi enviado ao Perú com plenos poderes, dirigidos ao vice-rei,
conde de Monterey, para pôr por obra o seu plano, e foi assistido
amplamente com dois navios bem armados e uma corveta, com cujas forças
deu á vela de Calláo a 21 de dezembro de 1605. Luiz Vaez de Torres
commandou o _Almirante_, ou segundo navio, d'esta expedição. A viagem
foi considerada como da maior importancia, e Torquemada, na relação que
faz d'ella na _Monarchia Indica_, diz que os navios eram os mais
alterosos e bem armados que se tinham visto n'aquelles mares. O objecto
era fazer um estabelecimento na ilha de Santa Cruz, e partir d'ali para
procurar a Tierra Austral, ou continente sul.

Depois do descobrimento de varias ilhas, Quiros chegou a uma terra que
nomeou Australia del Espiritu Santo, julgando fazer parte do grande
continente sul. Á meia noite do dia 11 de junho de 1606, em quanto os
tres navios jaziam ancorados na bahia a que deram o nome de São Philippe
e São Thiago, Quiros, por motivos ignorados, e sem dar signal nem aviso,
ou foi arrojado por uma tempestade, ou largou do porto, e achou-se
apartado dos outros dois navios.

Subsequentemente á separação, Torres achou que a Australia del Espiritu
Santo era uma ilha, e então continuou a derrota para o poente,
proseguindo as suas investigações. Pelo mez de agosto de 1606 cahiu
sobre uma costa no undecimo e meio grau de latitude sul, que chamou
principio da Nova Guiné--apparentemente a parte sudoeste da ilha, ao
depois chamada Luisiada por M. de Bougainville, e que se sabe hoje ser
uma cadéa de ilhas. Como não pôde passar para a parte do vento d'esta
terra, Torres margeou na extensão do lado sul, e elle mesmo deu a
seguinte relação do rumo que seguiu. «Navegámos trezentas leguas de
costa, como já disse, e encurtámos a latitude 2 1/2 graus, o que nos
trouxe a 9 graus. Dahi achámo-nos sobre um banco de tres a nove braças,
que se estende ao longo da costa por espaço de cento e oitenta leguas.
Proseguimos, acompanhando a costa, até 7 1/2 graus de latitude sul; e
o seu termo é em 5 graus. Não podémos ir mais além por causa das muitas
restingas e fortes correntes, de sorte que fomos obrigados a navegar ao
sudoeste, n'aquelle fundo d'agua, até 11 graus de latitude sul. Todo
aquelle espaço é um archipelago de ilhas sem numero pelas quaes
passámos; e no fim do undecimo grau o banco torna-se mais areento. Ha
aqui mui grandes ilhas, e outras apparecem mais ao sul. São habitadas
por negros, corpulentos e nús. As suas armas são lanças, settas, e
massas armadas com pedras mal affeiçoadas. Não podémos obter nenhuma das
suas armas. Colhemos em toda esta terra obra de vinte pessoas de
differentes nações, a fim de podermos, por via dellas, dar melhor
informação das coisas a Vossa Magestade. Dão larga noticia de outro
povo, posto que não se fazem entender com facilidade. Detivemo-nos sobre
este banco dois mezes, ao cabo do qual tempo nos achámos em vinte e
cinco braças, 5 graus de latitude sul, e dez leguas de distancia da
costa; e, tendo caminhado quatrocentas e oitenta leguas, a costa corta
ao nordeste. Não a examinei, porque o banco torna-se muito baixo. Assim,
pois, navegámos para o norte.»

As grandes ilhas vistas por Torres no undecimo grau de latitude sul, são
evidentemente os serros do cabo York; e os dois mezes de difficil
navegação foram consumidos em passar o estreito que separa a Australia
da Nova Guiné. Uma cópia da carta de Torres foi guardada felizmente nos
archivos de Manilha, e até que foi tomada aquella cidade em 1762 pelos
inglezes, não se sabe que este documento fosse descoberto por Dalrymple,
que pagou merecido tributo á memoria do distincto navegador hespanhol,
dando a este perigoso passo o nome de _estreito de Torres_, que desde
então ha conservado.

Quiros chegou ao Mexico a 3 de outubro de 1606, nove mezes depois da sua
partida de Calláo. Tomado profundamente do sentimento da importancia dos
seus descobrimentos, dirigiu varias memorias a Philippe III,
manifestando vehemente desejo de investigações ulteriores n'aquellas
regiões desconhecidas; porém, depois d'alguns annos de frustrada
perseverança falleceu em Panamá no anno de 1614, deixando após de si um
nome que, no merito, com quanto não no resultado, foi o segundo sómente
depois de Colombo; e com elle expirou o heroismo naval da Hespanha.
«Raciocinando» como diz Dalrymple «segundo os principios da sciencia, e
com profunda reflexão, affirmou a existencia do continente sul, e
votou-se durante o resto da vida, com diligencia infatigavel, posto que
mal apreciada, a fazer vingar esta concepção sublime.» Em um documento
dirigido ao rei d'Hespanha por frei João Luiz Arias, dá-se noticia do
teor energico com que se houve Quiros para resuscitar as empresas
hespanholas nos mares do sul, e com especialidade em relação ao grande
continente sul.

Comtudo, em quanto a gloria das empresas navaes hespanholas assim
declinava, essa mesma nação que a Hespanha tinha esmagado e perseguido,
preparava-se para supplantal-a na carreira da audacia e da prosperidade.
A guerra da independencia tinha excitado a energia das provincias dos
Paizes-Baixos, que se haviam libertado do jugo hespanhol; ao passo que
as crueldades, perpetradas nas provincias que os hespanhoes tinham
conseguido novamente subjugar, levavam ao exilio um numero de familias
quasi incrivel. A maior parte d'estas estabeleceu-se nas provincias do
norte, e por conseguinte, levou para ali o influxo de prodigiosa
actividade. Entre os emigrados havia numerosos commerciantes
emprehendedores, principalmente de Antuerpia, cidade que por largos
annos teve quinhão muito consideravel, posto que indirecto, no commercio
transatlantico de Hespanha e Portugal, e que de sobejo conhecia as suas
immensas vantagens. Estes homens estavam naturalmente animados com o
odio mais rancoroso dos desterrados, exacerbado pela differença da fé, e
pela memoria de muitas injurias. A idéa que tomou vulto entre elles foi
privar a Hespanha do commercio transatlantico, e por este meio
acanhar-lhe os recursos, accrescentar os dos protestantes, e d'esta arte
resgatar eventualmente as provincias do sul dos Paizes-Baixos do poder
dos seus oppressores. Esta idéa, ao principio praticada vagamente entre
poucos, tornou-se geral quando os hespanhoes prohibiram aos navios
hollandezes o empregarem-se em qualquer sorte de trafico com a Hespanha.
Esse trafico existira apesar das guerras, e havia subministrado aos
hollandezes os principaes meios de as sustentarem.

Vendo-se expulsos com tal violencia do quinhão que lhes cabia no
commercio transatlantico, os hollandezes determinaram rehavel-o com
juros. A geographia e hydrographia tornaram-se então objecto do estudo e
applicação mais desvelada; e este periodo distinguiu-se pela apparição
de homens como Ortelius, Mercator, Plancius, De Bry, Hulsius, Cluverius,
etc., que somos agora obrigados a considerar como paes da moderna
geographia. D'estes, o mais ardente em transformar os recursos da
sciencia em arma contra os oppressores da sua patria, foi Peter
Plancius, ecclesiastico calvinista, que abriu em Amsterdam uma escola
nautica e geographica, com o expresso designio de ensinar os seus
concidadãos a acharem o caminho da India, e outros mananciaes d'onde a
Hespanha derivára a sua força. Não nos detemos em apreciar os seus
esforços de achar pelo norte vereda para o oriente. O conhecimento do
caminho que levava directamente áquella opulenta porção do mundo,
accrescentou-se notavelmente com o apparecimento da grande obra de João
Huyghen van Linschoten (Amst. 1595-1596). Linschoten havia vivido
quatorze annos com os portuguezes nas suas possessões do oriente, e
colligira ali abundante cabedal d'informações. A companhia hollandeza da
India oriental foi estabelecida em 1602; e em 1606, encontramos um navio
da Hollanda fazendo o primeiro descobrimento authentico do grande
territorio sul, a que deram o nome de Nova Hollanda. No nosso tempo,
aquella designação foi trocada por indicação de Matthew Flinders, a quem
somos devedores dos conhecimentos da hydrographia d'aquelle paiz, pelo
distincto e apropriado nome de Australia.

Dos descobrimentos feitos pelos hollandezes nas costas da Australia,
pouca noticia tiveram os nossos antecessores ainda ha cem annos, e os
proprios hollandezes. O que então era conhecido, conserva-se na obra
_Relations de divers Voyages Curieux_ de Melchisedech Thevenot (Paris
1663-72, fol.); em o _Noord en Oost Tartarye_ de Nicoláo Witsen, (Amst.
1692-1705, fol.); na de Valentyn _Oud en Nieuw Oost Indien_ (Amst.
1724-26, fol.); e na _Inleidning tot de algemeen Geographie_ de Nicolau
Struyk, (Amst. 1740, 4.º). Temos obtido, todavia, depois d'isso varios
esclarecimentos, por via de um documento que chegou ás mãos de sir
Joseph Banks, e foi publicado por Alexandre Dalrymple (áquelle tempo
hydrographo do almirantado na companhia da India oriental), na sua
collecção concernente a Papua. Este curioso e interessante documento é
cópia das instrucções dadas ao commodoro Abel Jansz Tasman para a sua
segunda viagem de descobrimentos. Aquelle distincto commandante já tinha
descoberto, em 1642, não só a ilha agora do seu nome chamada Tasmania,
mas tambem a Nova Zelandia, e, rodeando o lado oriental da Australia,
mas sem o vêr, navegou na viagem de volta ao longo da praia-norte da
Nova Guiné. Em janeiro, 1644, foi enviado a fazer segunda viagem; e
acompanhou as instrucções assignadas pelo governador geral, Antonio Van
Diemen e pelos membros do conselho, de um preambulo, no qual, segundo a
ordem chronologica, se referem os precedentes descobrimentos dos
hollandezes.

Por esta narração, combinada com um passo de Saris, inserto em
_Purchas_, vol. I, p. 385, sabemos que: «Em 18 de novembro, 1655, o
hiate hollandez, Duyfhen (o Pombo), foi enviado de Bantam para examinar
as ilhas da Nova Guiné, e navegou ao longo do que se pensava ser a parte
occidental d'aquelle territorio, até 19 3/4 graus de latitude sul».
Este extenso territorio achou-se pela maior parte deserto; mas em alguns
logares era habitado por negros selvagens, bravios e crueis, que mataram
alguns homens da tripulação, por cujo motivo não se póde saber coisa
alguma ácerca da terra e das aguas, como se pretendia; e por falta de
provisões, e de outros objectos necessarios, foram obrigados a deixar o
descobrimento incompleto. A extremidade mais saliente da terra tem nos
seus mappas o nome de cabo Keer Weer, ou «Torna-viagem» segundo observa
Flinders. «A navegação de Fuyfhen da Nova Guiné foi para o sul, ao
longo das ilhas do lado occidental do estreito de Torres, para a parte
da terra Austral um tanto ao poente e sul do cabo York. Porém pensava-se
que todas estas terras eram continuadas, e que formavam a costa
occidental da Nova Guiné.» Assim que, sem ter d'isso advertencia, o
commandante da Duyfhen fez o primeiro descobrimento authentico de uma
parte da grande Terra-Sul pelo mez de março de 1606; porque se mostra
que tinha regressado a Banda no começo, ou antes de junho d'aquelle anno.

A honra d'aquelle primeiro descobrimento authentico, como até aqui a
historia o tem acceitado, estou agora no caso de a disputar. Ainda ha
poucos dias descobri no Musêo Britannico um Mappamundi Ms. em o qual, na
extremidade noroeste de um territorio, que ao presente poderei
demonstrar sem nenhuma duvida ser a Australia, occorre a seguinte
legenda: «Nuca antara foi descuberta o anno 1601 por mano (sic) el
godinho de Evedia (sic) por mandado de (sic) Viço Rey Aives (sic) de
Saldaha» (sic) o que quasi não precisava de ser traduzido. «Nuca Antara
foi descoberta no anno de 1601, por Manuel Godinho de Eredia, por
mandado do vice-rei Ayres de Saldanha».

A desgraça é ser este mappa sómente uma cópia, porém creio que seria
capaz de responder, fundado nas provas internas, que nenhuma duvida póde
padecer a authenticidade da informação que n'elle se contém. O original
foi feito pelo anno de 1620, depois do descobrimento da terra de
Eendraght (Eendraght's Land), na costa occidental da Australia, pelos
hollandezes em 1616, porém antes do descobrimento da costa sul por
Pieter Nuyts em 1627. Longe do auctor suspeitar a existencia da costa
sul, persevera no antigo erro, que prevalecera pelo decurso de todo o
seculo XVI, representando a terra Austral como um vasto continente,
cujas partes, as que tinham sido realmente descobertas, se prolongam
para o norte até á parallela, em que jazem respectivamente áquelles
descobrimentos. Assim, pois, temos n'este mappa a Australia, como foi já
descripta, ao lado direito do mappa; e a ilha de Santa Cruz nas Novas
Hebridas (New Hebrides), alli chamada Nova Jerusalem, descoberta por
Quiros, ao lado esquerdo, porém ligadas ambas e formando parte de um
grande continente sul.

[Ilustração: Fac simile de uma porção do mappa Ms. que se acha no Musêo
Britanico.]

Agora pode objectar-se com respeito a este mappa, que não sendo senão
cópia tirada no começo do presente ou ao fechar do seculo passado, a
exposição que dá materia a este escripto pode ter sido inserta
fraudulentamente. Porém para que pese uma tal consideração é preciso
apresentar um motivo, e o mais razoavel é assignar a honra do primeiro
descobrimento authentico a Portugal em vez de o attribuir á Hollanda.
Para isto é necessario suppormos que o falsificador foi portuguez. Tenho
a responder que, ao passo que tudo que está escripto no mappa é em
portuguez, a cópia foi tirada por pessoa que não só não era portugueza,
mas demais a mais ignorava o portuguez. Por exemplo, a legenda em
questão, breve como é, contém não menos de cinco erros crassos que
provam ignorancia da lingua; assim pois as palavras «por Manuel» estão
escriptas «por mano el» «Eredia» está escripto «Evedia» «do» está
escripto «de» «Ayres» está escripto «Aives» «Saldanha» está escripto
«Saldaha» sem o til para indicar a abbreviatura.

Mais ainda: se ha de attribuir-se a supposta falsificação ao intento de
reclamar ulteriormente para os portuguezes a honra do primitivo
descobrimento, d'onde nasce que nunca esse intento foi posto em
execução? Nunca, até hoje, aquelle facto se fez publico, e os mais
interessados na antiga gloria da nação portugueza, ignoram o
descobrimento que este mappa declara ter sido feito. Em quanto a não se
ter tornado este objecto do dominio da historia, póde explicar-se pela
comparativa pequena importancia que no tempo seria dada a um tal
descobrimento, e tambem pelo facto de que, não estando já então os
portuguezes no apogêo da sua prosperidade, não tomaram este objecto em
maior conta, repetindo as expedições áquelle territorio, como pouco
depois os hollandezes realmente começaram a fazer.

Além d'isto, póde aventurar-se a conjectura de que, sendo o mappa uma
cópia, a data do descobrimento pode ter sido transcripta menos
cuidadosamente; assim, por exemplo, 1601 podia facilmente estar escripto
no original 1610, e haver-se copiado erradamente. Por felicidade a
exactidão da data póde ser provada sem hesitação. Declara-se
distinctamente que a viagem foi feita de ordem do vice-rei Ayres de
Saldanha, o periodo de cujo vice-reinado abrange sómente de 1600 até
1604, e por este modo fecha-se a porta á possibilidade do erro
imaginado, pois que termina antes do periodo dos primeiros
descobrimentos dos hollandezes.

Ainda mais; póde objectar-se, que é possivel que um territorio indicado
tão vaga e incorrectamente não seja a Australia. A resposta é tão
indisputavel como a que fixa a data do descobrimento. Immediatamente por
baixo da legenda de que se trata, segue-se outra assim concebida: «Terra
descuberta pelos Holandeses a que chamarão Enduacht (sic) au Cõcordia»
(terra descoberta pelos hollandezes, a que elles chamaram Endracht ou
Concordia). Eendraghtsland, como todos sabemos, foi o nome dado a um
largo tracto da costa occidental da Australia, descoberto pelo navio
hollandez o Eendraght, em 1616.

Todavia, se a legenda de que fallamos não é cópia genuina de um
antigo mappa genuino, como conseguiu o moderno falsificador ter
conhecimento do nome de um cosmographo não imaginario, que viveu em Goa
n'um periodo que se ajusta com o estado dos descobrimentos geographicos
representado no mappa, do qual porém nenhuma producção manuscripta ha
sido impressa no tempo em que o supposto mappa ficticio foi traçado ou a
legenda ficticiamente inserta?

Penso que estes argumentos concluem, e estabelecem a legitimidade da
cópia moderna do antigo mappa. Com respeito ao descobridor Manuel
Godinho de Eredia (ou antes Heredia, como escrevem Barbosa Machado e
Figanière), encontro a seguinte obra de que elle é auctor: _Historia do
Martyrio de Luiz Monteiro Coutinho, que padeceu por ordem do Rey Achem
Raiamancor no anno de 1588, e dedicada ao illustrissimo D. Aleixo de
Menezes, arcebispo de Braga_; cuja dedicatoria é datada de Goa, em 11 de
novembro de 1615; fol. Ms. com varias notas.

Barbosa Machado chama-lhe distincto mathematico; e Figanière um
cosmographo residente em Goa. Segue-se, como consequencia natural, que o
mappa original foi executado por elle mesmo. A cópia veiu de Madrid, e
foi comprada pelo Muséo Britannico, em 1848, ao sr. de Michelena y
Roxas. Será materia de interesse descobrir algum dia a existencia do
mappa original; mas, se aquella estava na livraria de Madrid, ou em
alguma outra parte, deve ser assumpto de futuras investigações.

N'um pequeno volume intitulado _Informação da Aurea Chersoneso ou
Peninsula e das ilhas Auriferas, Carbunculas e Aromaticas, ordenada por
Manuel Godinho de Eredia, cosmographo_, copiada de um antigo Ms. e dada
á luz por Antonio Lourenço Caminha, em uma reimpressão das _Ordenações
da India, do Senhor Rei D. Manuel_, Lisboa, Imprensa Regia, 1807, 8.º,
encontra-se um logar que pode ser traduzido como segue:

«_Ilha do Ouro._ Em quanto os pescadores de Lamakera, na ilha de
Solor[3] estavam occupados na pesca, levantou-se um tão
grande temporal que se lhes tornou absolutamente impossivel o regressar
á praia, e por tanto tiveram de ceder á força da tormenta, que foi tal,
que por espaço de cinco dias os deteve fora da ilha do Ouro, a qual jaz
no mar na costa fronteira, ou contra-costa de Timor, que propriamente se
chama costa do Sul. Quando os pescadores abicaram á terra do Ouro, não
tendo comido durante os dias da tormenta, saíram a procurar
provisões. Foram tão felizes e bem succedidos, que, em quanto
inquiriam o terreno, buscando inhames e batatas, encontraram-se com tão
grande quantidade d'ouro, que carregaram o bote a ponto de não poder
levar mais. Depois tomando agua e os necessarios bastecimentos para
voltarem á terra natal, padeceram outra borrasca, que os arremessou para
a ilha do grande Ende[4]; alli desembarcaram todo o ouro, o
que excitou grande inveja entre os endes. Estes mesmos endes
determinaram por tanto, como os pescadores lamacheres, repetir a viagem;
e quando estavam promptos para desaferrar, endes e lamacheres,
apoderou-se d'elles tão grande temor, que não se atreveram, por causa da
sua ignorancia, a atravessar aquelle mar do Ouro.

«Parece na verdade, ser acto providencial do Altissimo que Manuel
Godinho de Eredia, o cosmographo, tivesse recebido com missão do conde
almirante, vice-rei da India dentro e além do Ganges, para que o mesmo
Eredia podesse ser meio de se accrescentarem novos patrimonios á corôa
de Portugal, e de tornar-se rico o dito conde e a nação portugueza. E
todos por tanto, e especialmente o dito senhor, houveram de reconhecer
com gratidão este serviço assignalado, o qual obtendo completa
realisação, merecerá ser considerado como um dos mais ditosos e
afortunados acontecimentos do mundo para gloria de Portugal. Em todo o
caso, pois, o descobridor deve, por muitas razões, ser assistido
efficazmente na empreza do ouro. Primeiramente, por se haver de ter
attenção á primeira posse do ouro pela corôa de Portugal. Em segundo,
pela facilidade da descoberta do ouro. Em terceiro, por serem as minas
do ouro as maiores do mundo. Em quarto, porque o descobridor é um
instruido cosmographo. Em quinto, porque póde verificar ao mesmo tempo a
descripção das ilhas do sul. Em sexto, por causa da nova christandade.
Em setimo logar, porque o descobridor é um capitão experimentado, que se
propõe prestar muito grandes serviços ao rei de Portugal, e ao
felicissimo D. Francisco da Gama, conde da Vidigueira, almirante e
vice-rei das Indias dentro e além do Ganges, e senhor do ouro,
carbunculos e especiaria do mar do oriente que pertence a Portugal.»

Desprovido da relação especial da viagem, mediante a qual foi feito o
descobrimento, que dá principal assumpto a este papel, quasi que não
podemos contar para ulterior confirmação da sua verdade, senão com o
que nos subministra o extracto que deixamos transcripto. Manuel Godinho
de Eredia é alli designado como um douto cosmographo e habil capitão,
que tinha recebido commissão especial para fazer a exploração das minas
de ouro, e para verificar a descripção das ilhas do Sul. A propria ilha
do Ouro é descripta «como situada na costa fronteira ou contra-costa de
Timor, que propriamente se chama costa do Sul». É muito provavel,
conforme a esta descripção, que seja a mesma Nuca Antara do nosso mappa
Ms., que demora sobre a costa sul em frente de Timor. É tambem, além
djsso, de notar que o periodo da commissão dada a Eredia se approxima na
data, como prova grande numero de factos, do descobrimento que se lhe
attribue da Australia. O vice-rei, Francisco da Gama, que deu aquella
commissão, foi o immediato predecessor de Ayres de Saldanha. A duração
do seu governo abrange sómente de 1597 a 1600, e o attribuido
descobrimento foi feito em 1601, posto que não saibamos o mez.
Difficilmente póde esperar-se mais cabal confirmação de um
descobrimento, que não se acha mencionado senão n'um mappa provavelmente
unico.

Apresentando esta carta á sociedade dos Antiquarios, que veneram o
passado, não a fecharei sem uma palavra de reverencia e acatamento para
com as antigas glorias de uma nação n'outros tempos poderosa. Os
verdadeiros heroes do mundo são os iniciadores dos grandes feitos, os
gastadores dos grandes descobridores. Taes foram os portuguezes nos dias
em que o mundo quasi que não estava senão meio e mal conhecido. A
Portugal devemos não só um Gama, porém, não menos, um Colombo, sem o
qual o magestoso imperio d'aquella em cujo dominio nunca se esconde o
sol, não fôra acaso senão um sonho, em vez de uma realidade. A
Inglaterra, cujos atrevidos marinheiros têem feito caminho por todos os
mares, conhece quanta justiça deve ser feita á intrepidez dos seus
nobres predecessores, que, em frageis caravellas, e atravez dos
incommensuraveis páramos do oceano, poderam abrir estrada, não sómente á
gloria da sua propria nação, mas tambem á civilisação e prosperidade do
mundo inteiro.

                                       Fico sendo,

                                             meu presado sir Henry,

                                                     vosso de veras

                                                             R. H. MAJOR.

A sir Henry Ellis, K. H. etc., etc., etc.


    [1] Esta razão irrespondivel foi-me suggerida pelo fallecido
    distincto dr. Brown, que não só, como Humboldt o descreveu, era
    _Botanicorum facile princeps_, porém de si proprio tinha
    conhecimento da localidade de que fallava.

    [2] Com respeito á noticia d'esta viagem vê-de a carta de Quiros a
    D. Antonio de Morga, cap. VI, pag. 29, na obra _De Morga's Sucesos
    en las islas Philippinas_, Mexico 1609, 4.º; e obra de Figueiroa,
    _Hechos de D. Garcia Hurtado de Mendoza_, quarto marqués de Cañete,
    Madrid, 1613, 4.º, liv. 6, p. 238.

    [3] Os habitantes da costa de Solor são designados especialmente
    como pescadores por Crawfurd no seu _Dictionary of the Indian
    Islands_.

    [4] Esta é a ilha das Flores. Em uma «Lista das principaes minas de
    ouro, obtida por curiosidade de Manuel Godinho de Heredia,
    cosmographo, residente em Malaca por espaço de mais de vinte annos»
    publicada tambem com as «Ordenações da India», Lisboa, 1807,
    conta-se a mesma historia, porém a ilha Ende é chamada ilha do
    Conde.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O descobrimento da Australia pelos portuguezes em 1601" ***

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