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Title: Fialho d'Almeida
Author: Moura, Visconde de Vila
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Fialho d'Almeida" ***

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                               VISCONDE

                                  DE

                              VILLA-MOURA


                            FIALHO D'ALMEIDA

                  (COM UM DESENHO DE ANTONIO CARNEIRO)


                    EDIÇÃO DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»



                           Direitos reservados



                            FIALHO D'ALMEIDA



DO AUCTOR:

A Moral na Religião e na Arte, 1906.

A Vida Mental Portuguesa, 1909.

Vida Litteraria e Politica, 1911.

Nova Sapho (romance), 1912.

Camillo Inédito annotado, 1913.

CONTOS E NOVELLAS:

I--Doentes da Belleza, 1913.

II--Bohemios, 1914.

Antonio Nobre, 1915.

Grandes de Portugal (em collaboração com Antonio Carneiro), 1916.

Fialho d'Almeida, 1916.



                        VISCONDE DE VILLA-MOURA

                           Fialho d'Almeida



                               EDIÇÃO DA
                        «RENASCENÇA PORTUGUESA»
                                 PORTO



I

CUBA E VILLA DE FRADES


Eu estive já, por duas vezes, em Villa de Frades, no largo da
Misericordia, onde foi aquella «casinha de taipa, construida por
pedreiros da gente de Fialho»--como elle nos conta na _Autobiographia_
do seu livro--_Á Esquina_.

Fui ali quando das minhas jornadas pelo Baixo Alemtejo, em excursão de
curioso pelo mais da sua gente e paizagem.

A primeira vez que visitei a residencia de Fialho, que não é já hoje a
casita de taipa que os seus construiram, mas uma das melhores da
terriola,--foi por uma tarde de agosto, uma daquellas tardes de
rescaldo que erguem, á volta de nós, serpentes de fogo, e lhe ensinaram,
a elle, a sua pintura deslumbrante, á maneira de Rubens, em que a
propria côr queima!

Não foi sem um certo alvoroço, confesso, que bati ao portão da antiga
casa do Escriptor.

Veio alguem abri-lo, deixando a descoberto, a meio de uma segunda porta
fronteira, um homem alto, vestido de negro, de aspecto recolhido, quasi
ecclesiastico, e que, num instante, me encarou e desappareceu,
abandonando-me no jardim, ao sol, com o meu remorso de indiscreto.

Desapparecera tambem o creado, ou quem quer que fosse, que me tinha
introduzido no pateo.

Esperei instantes, e, como não visse alguem, dirigi-me para a entrada da
primeira casa, que logo vi ser a cozinha, encarando, pela segunda vez,
aquella mesma figura quasi sombra, que depois soube que era o irmão
de Fialho.

Disse alto o que queria:--falar ao dono da casa e pedir-lhe o favor de
me deixar ver a antiga residencia do Artista.

Sahiu a attender-me uma mulher nova, figura doente e franzina, que logo
se deu a explicar-me que era ella a actual dona da antiga casa do
Escriptor, de quem era parenta, vivendo ali com o marido e seu primo, o
irmão de Fialho d'Almeida, que, já ao tempo, mais familiarizado comigo,
me fitava serenamente.

Dei-me tambem a vê-lo melhor.

Não me lembro da edade que me disse ter; quarenta e sete annos podia
talvez apparentar.

--Que era um temperamento impressionavel, a espaços dado a medos e
hysterias, sempre melancholico, informou ainda a sua parenta.

Deparou-me, pois, o acaso, nem mais nem menos, do que um novo documento
a instruir a historia do genio do Artista, na pessoa do irmão, que me
dei a ver como uma figura-symbolo de familia, em que, não sei porque,
presenti a elegia viva da Arte mais exquisita e morbida de Fialho,
qualquer coisa da neurilidade extravagante dos seus doridos, aquella que
animou os seus personagens tão suavemente fataes e androgynos, toda a
belleza maravilhosa, e não raro inconsequente, da sua obra de
apontamentos, onde tão extranhamente exuberam os noctambulos e toda a
sorte de mysteriosos!

Corrêra, de certo, enferma a adolescencia do irmão de Fialho, que viera
até ali, aos quarenta e sete annos, ou mais que podia ter, porventura
ainda innocente, como por milagre da sua mesma frouxidão de alma, a que,
a cada momento, sua prima alludia, ao referir-me, perto delle, as
sinistras manhans das suas torturas de neuropatha.

Entretanto que a dona da Casa me convidava a passar á primeira sala,
chegou o marido della, tambem primo de Fialho, que, a meu pedido,
mandara chamar, e que logo se dispoz a acompanhar-me, apontando-me, por
miudo, o mobiliario e antigos aposentos do Artista.

Fôra este seu parente a quem Fialho recorrera, quando, na vespera da
morte, veio a Villa de Frades, ordenar os papeis do seu gabinete, como
quem se decide a dispor tudo, antes de seguir...

--Quando chegou deu pela falta da chave do escriptorio, me explicou o
snr. José Fialho. E apontando uma porta:--tentou ainda abri-lo,
quebrando o vidro daquella bandeira; por fim, resolveu-se a chamar-me,
e, como é cá da minha arte este serviço, pois sou carpinteiro,
immediatamente arranjei tudo; e, elle entrou, demorando-se aqui até á
hora da partida.

Insisti na supposição, que mais se radicou em mim, depois da minha
derradeira estada no Alemtejo, do provavel suicidio de Fialho,
confirmando-me o seu parente que, de facto, se tinha aventurado tal
suspeita, logo apoz a sua morte, mas que os medicos que, por ultimo, o
haviam soccorrido, tinham negado o facto, e, elle, por si, coisa alguma
sabia dizer a tal respeito...

Entretanto, encarou-me mysteriosamente, quando lhe disse que alguem da
familia Carapeto, que lhe assistira á morte, na Cuba, tinha como certo o
seu envenenamento; que, na vespera, elle tratara do arranjo definitivo
de tudo, e nomeadamente do seu testamento, lavrado numa das dependencias
da Tabacaria Fonseca, onde costumava passar parte das noites; que
soubera, ainda na Cuba, dos seus aborrecimentos de doente, afóra outras
razões que a minha admiração tinha reunido para reconstituir o drama
duvidoso do seu desenlace.

Mas deixêmos este caso ao tempo, que é quem definitivamente aclara tudo,
e voltemos á sua casa de Villa de Frades.


Como acima informei, actualmente pouco deve ella ter da construcção
primitivamente gizada pelo pae do Escriptor, antigo mestre regio da
freguezia.

É sabido que Fialho casara com uma senhora de fortuna, de quem tambem
ficou herdeiro, pelo que tanto aquella Casa, como a de Cuba, sua
residencia predilecta, foram por elle reformadas, com todas as melhorias
em uso nas boas construcções da região.

Mas não se infira dahi que se trate de edificios luxuosos; são, pelo
contrario, casas sem interesse, e, ainda, no ponto de vista artistico,
valem tão sómente pelo caracter que lhes advém do facto de obedecerem ao
desenho do mais das habitações daquellas paragens,--quasi todas ellas
tijoladas, cozinhas brancas de telha van, eirados sobre a planicie, e os
jardins tão intimos das casas e pateos, á maneira arabe, como que
continuando-se das salas.

Villa de Frades, pequena povoação do concelho da Vidigueira, com um
censo de dois mil habitantes proximamente, tem um certo relevo, em
contraste com o resto da formidavel planura sul-alemtejana, e, o que é
mais, foi uma das poucas terras, se não a unica do districto, que
encontrei verde, no agosto em que a visitei. Tudo o mais, ao largo, era
desolação e secca.

    [IMAGEM: Fialho d'Almeida. Desenho de Antonio Carneiro]

Para lá da matriz, logo ao sahir do povoado, corriam as obras das
escolas que o Escriptor garantira com o seu testamento, e que,
confesso, pouco me detiveram, dado o meu aborrecimento por construcções
do seu desenho, entre gaiolas e penitenciarias, com destino á futura
infancia de Villa de Frades, de mais, ao tempo, sobremaneira
antipathicas, como todos os edificios por concluir.

O que devéras me prendeu, foi a chamada antiga Casa da Aula, pela qual
perguntei ao primo de Fialho e immediatamente saiu a apontar-me.

É fronteira á Egreja, e um edificio tosco, sobre o comprido, áquelle
tempo escrupulosamente caiado, de aspecto simples e o ar abstracto de um
templo abandonado.

Era quasi noite. A matriz bateu não sei que horas, com aquella
solemnidade triste, que é do dobrar dos sinos de todas as villas...

Dei-me a imaginar a infancia de Fialho, partilhando daquella
melancholia, pelas grandes tardes morrinhentas de Villa de Frades, com
todo o primeiro mundo da sua inicial e subconsciente comparticipação da
Vida...

Ali, de facto, naquella humillissima escola, cursara elle as primeiras
lettras, de par das primeiras contrariedades, ao lado do pae, o mestre
escola da terra, «aquelle typo de santo austero, n'uma alma de sonhador,
sempre calado», explica o Artista, annos depois.

E, em verdade, tanto como a casa onde nasceu, mais ainda, talvez, se me
prendeu da alma aquella capellita das suas primeiras canseiras.

Ahi deveria, porventura, estabelecer-se o Museu-Fialho, uma vez que uma
dezena de amigos, refiro-me sobretudo aos seus amigos de leitura, se
concertasse para juntar em tal logar, com os seus livros, tudo o que
pudesse considerar-se como reliquia da sua obra ou memoria.

Da casa de Fialho, em Villa de Frades, hoje quasi vazia do peregrino
espirito que a encheu, lembrarei especialmente o quarto do Artista,
onde, por acaso, quedam algumas arcas com revistas que excluiu da sua
livraria, destinada á Bibliotheca de Lisboa, legando-as a um amigo que
ainda as não levantou, e, nas paredes, duas telas da sua auctoria.

Propositadamente trazemos a publico a noticia, que cremos em primeira
hora, daquellas telas, ambas más, de figuras religiosas, de tintas
empastadas e peior desenho, pelo interesse de documentar o seu esforço
de plastico, que o fez pintor, em segredo, a elle, o critico
impertinente dos maiores pintores do seu paiz!

Esta, porventura, tambem a nota mais interessante que me foi dado
conhecer por informação da Familia-Fialho, e me fez lembrar o caso
de Hugo, identicamente desenhista e, mais ainda, entalhador, e cuja
obra, no genero, decora, ao presente, a sua antiga residencia, hoje
Museu, na _Place des Vosges_.

Finalmente, resta-me apontar, o trecho fronteiro á casa, systema absorto
de outeiros verde-suaves, que se me depararam conhecidos, como se, de
sempre, os houvesse visitado.

E, de facto, era quasi assim. Conhecia-os, havia muito, de algumas das
paginas mais luxuriantes do Escriptor, onde elle, o magnifico colorista,
a espaços se deu a pintá-los daquella tinta intima que lhe veio, pelo
tempo fóra, das suas memorias e impressões de infante.


Despeço-me, á pressa, da sympathica terriola, como quem foge do tumulto
de lembranças que me vem da casa, daquelles outeiros, dos primos de
Fialho, do Irmão, irreprehensivelmente estatual no seu papel de symbolo
rigoroso; e parece-me receber das mãos deste fios da tragedia, ainda
viva, das primeiras desfortunas do Artista, as que lhe advieram da quasi
miseria da sua segunda infancia, e cuja recordação o obrigava talvez,
mais tarde, a fugir dali, (onde viveu sempre o menos tempo) por
morphinizar-se do aborrecimento em commum por terras de mais convivio.


A Casa da Cuba, que em geral preferia, quando estava no Alemtejo, é um
edificio melhor que o de Villa de Frades, tambem terreo e de
compartimentos amplos.

Nesta casa fui encontrar enferma, na mesma alcova em que o Artista
agonisara, a sua antiga legataria,--uma senhora de edade da Familia
Carapeto, a quem devo o offerecimento dos retratos de Fialho que
illustram a presente noticia e alguns dos seus esclarecimentos.

Pouco me detive nesta sua antiga morada, e o tempo que ali quedei foi no
terraço, velho miradouro de gosto mourisco, donde se abrange, numa
extensão de leguas, o mais das terras seccas que circumdam a Comarca.

Cuba é das povoações mais incaracteristicas e sem interesse que
encontrei no Baixo Alemtejo. Lembra, pela monotonia do seu casario
reverberante, certas povoações de Hespanha, da Mancha, sobretudo, e que,
em vez de quebrarem a aridez das chans, servem como que a memorá-las,
tão irmans da estepe parecem crescer da terra.

Avalio, com tristeza, do viver do Escriptor na villa, quando, obrigado
pelas mil coisas desagradaveis da sua vida, em que parece não ter
figurado pouco a intriga politica da ultima hora,--se recolheu aos seus
telheiros.

Fez o acaso que me defrontasse com o proprietario da Tabacaria, em que
passava uma parte das noites, a conversar, por distrahir-se e illudir a
monotonia que o cercava.

Deu-se-me logo o snr. Fonseca, não afianço o appellido, como tendo sido
muito da intimidade de Fialho, propondo-se reproduzir factos e retalhos
seus de conversa que, é claro, lhe sahiam pouco authenticos...

--Conheceu-o pessoalmente? me perguntou elle, a meio das suas tiradas.

E, á minha negativa:

--Pois olhe que era melhor ouvi-lo, do que lê-lo!

Os livros valem pouco, accrescentou, em comparação com o que elle aqui
nos contava...

E logo continuou a palavrear ácerca do Artista, emquanto eu me explicava
a sua vida final, o suicidio provavel, os caixões de revistas que vira
em Villa de Frades, e com as quaes elle, por ultimo, quasi obrigado a
viver ali, bem por certo, de volta a casa, iria feriar-se daquellas
noites mal conversadas com quem, por falta de ouvidos, não podia
ouvi-lo,--a elle que fora em Lisboa, o primeiro de um cenáculo de que
haviam feito parte, entre outros, artistas como Ramalho e Bordallo, ao
lado de curiosos, ás vezes, valha a verdade, bem inferiores ao
sympathico negociante, que, ao menos, herdara do seu convivio a devoção
supersticiosa da sua memoria!


Como quer que seja, pois que Fialho passou em Cuba os ultimos annos da
sua vida, importa-me naturalmente escrever da pequena cabeça da
comarca o pouco que della apontei de más lembranças.

Como acima referi, não tem ella, para mim, a bem dizer, outro interesse
alem do que lhe advem do facto de ter sido o derradeiro exilio do
Escriptor, que se dava a disfarçá-lo, administrando directamente as suas
herdades.

Especie de villa improvisada, sem paizagem que pudesse entreter, por
momentos, o espirito, aliaz exigentissimo do Artista; sem edificios de
valor; com repartições inferiores; avenidas lugubres, no geito da
Alameda, sobranceira ao Caminho de ferro, e sombria como uma rua de
cemiterio; habitações mesquinhas, servidas de ruas mal calçadas; a
Estação, a distancia, quasi que fugida da terra que a fizeram
servir--tal é, de facto, Cuba, cujo casario abre sobre a campina
formidavel do sul como uma aguarella infima!

E, entretanto, foi ali que Fialho quiz ficar, e mandou que lhe erigissem
o mausoleu, que visitei na ultima tarde da minha estada em Cuba, depois
de dolorosos transes para arrancar duma adega o chaveiro do Cemiterio.

Ah! como Fialho tinha razão, ao informar-nos no conto--_A Ruiva:_--«Ha
uma coisa peior que um cão damnado: é um coveiro bebado!»

Comtudo, ao lado dum tal coveiro segui eu até ao cemiterio de Cuba, em
que, aliaz, coisa alguma de notavel fui encontrar.

Todos os cemiterios, a meu ver, se parecem; o da Cuba vale o
_Père-Lachaise_, como o de _Montmartre_ ou _Montparnasse_, por nomear os
trez mais notaveis de França (onde os homens passam por mais
reconhecidos)--como os de todas as terras, ainda os das muito
civilizadas e extremas.

Imagine-se um cercado alto, com o ar de casa, á qual o vento
arrebatasse o telhado, arruamentos de capellas e arcas com lettras de
pedra, uma especie de convento de ossos, onde todos os dias ha camas de
terra revolvidas e cruzes novas;--a frieza dos brancos e solemnes livros
de marmore, das flores, ali casuaes e tranzidas, dos esguios arvoredos,
como de todo um pequeno mundo de symbolos;--uma lage-obstaculo em cada
campa, e, como a fechar mais os que jazem, gradis, linhas de cimento
juntando as cantarias, mais um complicado e diabolico systema de
cremalheiras e cadeados!

Eis o cemiterio de Cuba, cujo desenho é, de facto, o de todas as grandes
ou pequenas cidades de mortos, dos quaes os vivos se vão desquitando,
mais ainda do que cobrindo-os daquelles obstaculos,--quasi esquecendo-os
para ali, onde perpetuamente terão de ficar, afastados de tudo, onde
jámais chegará o proprio carinho selvagem dos temporaes, sós, entre os
silencios negros da sua noite immensa, velados dos elementos, a par das
esculpturas somnambulas dos tumulos, tambem de si indifferentes,
abstractas, e, como por acaso, ali dispostas, ainda por erguerem
(paredes-meias dos cinerarios) o formal e glacido tributo da sua agonia
fria e lapidar!

Ora, isto me ia eu recordando, ao seguir, mais o coveiro, pelo cemiterio
de Cuba, do mesmo passo que, sem querer, lembrava certas passagens da
Obra de Fialho, que, de momento, quasi me falavam, e, eu sentia, como
que batidas de vento, ao meu ouvido...

Como no caso das grandes paginas de presagio da sua
monographia--_Manuel_, começára de anoitecer, e os sinos tocavam!

Ainda mais, lembro-me de ouvir, ao longe, nitidamente,
distinctamente, representando-se-me como um relampago vermelho á meia
treva, o uivar daquelle cão, que, quando, em taes paginas, o Artista se
dá a dialogar com o Coveiro a probabilidade de Manuel ser enterrado
vivo, como toda a sua afflicção pela farça material dos tumulos--como
que o chama á realidade desse mundo que fica para alem do proprio
pezadelo hystero-epiletico da sua tortura de superemotivo, e lhe queda,
a dobrar, na alma, o timbre vivo e sinistro da hora horrivel que já não
conta, e, eu, de momento senti ali, perto delle, bater tragicamente,
lugubremente, como um echo do seu sentido, ainda doloroso, embora já
distante, vago, erradio...

Porque, para mim, esse typo de _hysterico_ e _fragmentado_,
_contradictorio_ e _presciente_ que figurou no _Manuel_, é
fundamentalmente elle proprio, desdobrando-se por escrever a sua
mesma «duplicidade cerebral» e gritar contra a desgraça do _outro_, «o
que morrera», e agora, eu sabia ali, sem que ao menos pudesse precisar
onde!

Onde?

Eis o que o coveiro, depois que o instei, se deu a contar-me, moendo as
palavras, que, aliaz, lhe sahiam cavas e aos gorgolões, como se me
falasse ainda da adega á qual, minutos antes, o fôra arrancar.

Afinal pouco tem que ver a futura Casaforte dos ossos de Fialho,--no
começo da primeira rua do cemiterio, e a poucos passos do portão, como
do logar em que nos encontravamos.

Imagine-se uma especie de cofre em marmore branco, sem arestas,
escrupulosamente polido e goivado á volta, quasi sem ornatos, uma porta
grossa cruzada da fecharia,--todo elle de um desenho facil, e, por sobre
a cupula, ainda de pedra, dois gatos de bronze, dormindo abraçados o
velho somno dos symbolos! Eis tudo...

Este, repetimos, o mausoleu que lhe servirá em breve.

Porque provisoriamente, e a avaliar das informações que apontei, o
Escriptor, descança ainda, de momento, ao fim do cemiterio, perto da
ultima parede, num pedaço de chão mal tijolado e de emprestimo, em
sepultura rasa...



II

A INDOLE DE FIALHO


Não é facil escrever de momento, e directamente, ácerca dum artista como
Fialho, tal o occultismo das suas predilecções, como, mais propriamente,
da obra que deixou, e tomaremos ainda como indice da sua singularissima
neurilidade.

Assim, começaremos por esclarecer que Fialho d'Almeida era filho de um
homem da Beira e de uma mulher do Alemtejo, por melhor caracterizar
algumas das suas extranhezas e contrastes, como o seu conflicto em
materia de assumptos e realizações artisticas, que, antes de tudo,
parecia advir-lhe do ser encontro de duas raças.

Da mesma maneira que cumpre ter presente a influencia da provincia
em que nasceu, e que, na infancia, a edade impressionavel por
excellencia, lhe deu aquelle amor pela tinta mais propria, ou seja a que
os seus olhos receberam directamente da paizagem; como a sua grande
intimidade com a natureza, com quem aprendeu a exprimir-se, e que tão
fundamente foi penetrada pelo seu genio.

De facto, nenhum elemento mais cioso da transmissão do caracter do que a
terra. O que Fialho prova, á saciedade, a par dos nossos maiores
impressionistas.

Desenvolvemos noutro logar[1] a indole da zona mais meridional
do Alemtejo, onde se incluem Cuba e a pequena villa em que nasceu Fialho.

Resulta daquelle estudo um campo ethnico á parte na geographia intima
de Portugal região embaraçada da herança arabe, que semelhantemente
se vê na cultura, nos seus barros e azulejos, nas suas casas, como nas
manifestações mais simples da vida vulgar dos seus habitantes.

Ora Fialho, que ali passou parte da infancia jámais destruirá a
recordação do primeiro espectaculo natural que feriu a sua retina de
colorista, e, depois, pela vida fóra, mais se lhe foi insinuando pela
mesma fatalidade de sangue e nascimento que á sua terra o prendia. É
isto, apesar da herança de tristeza que tambem desta lhe provinha, e a
que se refere, ainda doridamente, annos depois da sua estada ali, no
capitulo autobiographico do _Á Esquina_.

De facto, é sempre presente, na sua obra, aquelle primeiro campo de
observações. Ahi ha a ver a intriga das passagens mais violentas das
suas narrativas, as tintas das suas combinações de painelista, os
dialogos e personagens brutaes da sua tragedia mais popular; e, para
alem, ainda, da paizagem, como das figuras, a razão culminante do seu
genio de origem, em que migra o sonho luxurioso, mais que dum artista e
dum povo,--duma civilização perdida!

Importa insistir: a herança arabe se não vingou entre nós, como em
Hespanha, a ponto de que, ainda hoje, quasi tudo o que tem de grande se
não foi della, nella se filia--nem por isso deixou de influir no genio
de Portugal, onde logrou a sua invasão pelo Sul, e, onde, repetimos, se
conserva evidente.

É ali viva, manifesta em todas as coisas, e, sobretudo, nos homens, a
quem as mesmas condições da terra naturalmente defenderam das fusões com
outras raças.

Ora, assentes estes factos, e tendo presente os ensinamentos que do seu
conhecimento derivam, chegamos logicamente a entender melhor o caso,
na apparencia extranho, das manifestações, por vezes distantes e tão
intensivamente artisticas do Sul, e mais, em especial, de certos
capitulos da obra de Fialho d'Almeida.

Em verdade, eu não encontro para explicar-me o exuberante exquisito de
algumas paginas do Artista, mais do que o segredo das colorações, como
dos labyrinthicos e caprichosos desenhos de certos e admiraveis
exemplares da civilização arabe na Peninsula, dentre os quaes me veem á
lembrança, quasi sem o querer, os velhos monumentos da Andaluzia,
tambem, porventura, da melhor intimidade de Fialho, e que o deviam ser
de todos os artistas, muito particularmente dos de Portugal e Hespanha.

E, de facto, qual o artista, verdadeiramente curioso de civilizações
mortas, que não percorreu ainda Alhambra,--a Alhambra monumental dos
grandes Paços de Luz, redosos e filigranados, cujos marchetes e esmaltes
se nos defrontam, mais do que como obra paciente e custosissima, quasi
dolorosos á nossa admiração, pela mesma regularidade do seu maravilhoso,
tão distantemente extranho!

Pois paga a pena a sua visita, sobretudo á luz de certas horas, quando,
pelo estio, a tarde transfigura os monumentos, quasi os move!--e
Alhambra inteira exulta á claridade frouxa dos seus crepusculos.

Como, de egual sorte, surprehende o desenho interior dos phantasticos
paços, ainda pelo que abrigam de inaudito, no espectaculo das suas
casas-retabulos, aliaz tão intimamente caprichosas, como se fossem
ampliações das covas naturaes que, no Monte Sacro, lhes são fronteiras.

É que ninguem como o povo arabe teve o segredo dos recantos, soube
estudar e praticar as sombras, quasi medir a penumbra das arcarias; da
mesma forma que tambem ninguem mais, como elle, conseguiu dominar pontos
de vista, aperceber horizontes, toda a natureza, moldurá-la dos seus
monumentos, por vezes verdadeiros filtros de luz,--viver, sentir a côr,
e, o que é mais, orchestrá-la na sua obra, de uma fina grandeza sem egual.

Dahi tambem o não se saber que mais admirar dos encantados paços, bem de
molde a servirem a luxuria religiosa de tão lendario povo, se o
labyrinthico desenho das suas paredes, como dos seus tectos e azulejos,
se o mesmo diabolismo e imaginativa do seu alçado!


Ora, derivando dos monumentos attribuidos ao genio arabe, á razão de
sangue que flue na gente do sul da Peninsula, chegamos facilmente á
averiguação do grande valor da tutela semita no nosso movimento
tradicional, mercê daquella herança--tutela sobremaneira documentada, no
mais do nosso lyrismo, como, em regra, em toda a nossa obra artistica.

E, assim, nos encontramos, muito naturalmente com o caso de Fialho
d'Almeida.

De facto, dentre os grandes plasticos da Peninsula, quem mais que o
grande Artista conseguiu ainda praticar um semelhante ou equivalente
embrenhado de esmaltes e de linhas, o segredo da luz e da côr, identica
riqueza no processo de exprimir Arte, toda aquella ancia de vida
luxuriosa que ergue o mais da obra arabe, e, em que domina sempre, ao
lado do culto do individuo, considerado na sua religiosidade como no seu
luxo,--a preoccupação alacre do supremo culto da Natureza!

E, entretanto, não foi, ainda, sob um tal ponto de vista que
principalmente nos demos a estuda-lo.

A verdade é que fiamos pouco do rigorismo dos methodos geralmente
considerados como mais logicos, por mais naturalistas, os que tudo
explicam pela razão exclusiva da procedencia e do meio--quando se trata
de comprehender emotivos da estatura de Fialho, cuja obra precisa, a
nosso entender, principalmente ser considerada sem opinião previa, ou
seja a toda a luz dos seus livros, e onde ha, a par das admiraveis
fatalidades das suas taras de artista do Sul, o conhecimento, os
commentarios, como a presença ou suggestões de tudo o que nesse rodopio
de Arte, que foi a segunda metade do outro seculo, podia considerar-se
de mais interessante ou notavel.

Mas caminhemos vagarosamente. Em primeiro logar, convem ter presente
que ha nos recursos de Fialho d'Almeida um grande numero de facetas e a
tal ponto imprevistas e admiraveis, que, a elle proprio, o offuscaram,
perturbando-o, e impedindo até que realizasse o que para todo o auctor
deve ser o primeiro fim--a obra de conjuncto, que, exactamente, resulta
do ajustamento ou systematização de todo o seu trabalho, de molde a
levantar a figura do Artista se elle é um temperamento, ou o objectivo
da sua Arte, quando elle tenha de desapparecer, em sacrificio á sua mais
propria missão.

O tempo é ainda um material ao dispor dos artistas, embora, quanto a
nós, o peior dos materiaes.

Fialho devotou-se-lhe, talvez, excessivamente. Pois que tinha auscultado
a miseria do povo, no seu instincto, por desventura apurado nos
primeiros annos da sua vida de acaso, não raro deixou falar o
coração, para alem da sua mesma canseira de Artista.

Quantas vezes elle, que foi um espirito alto e pairante, se deu a
desmedir o grito dos que a propria miseria, confinada da cobardia
congenita das desgraças populares, havia tornado quasi aphonos, e que
ainda, por uma razão de indole, eternizou vivo e plebeu,--tal como lhe
sahiu, ao primeiro golpe, nas paginas formidaveis dos _Gatos_!

Foi isto um delicto de Arte, seria um bem?

Foi um facto. E este facto vale o melhor da sua obra de pamphletario
que, antes de qualquer outra, convem ter presente.

Ora, neste rumo de trabalhos, seguiu elle, naturalmente, o exemplo de
todos os pamphletarios;--isto é, deu-se a compor paginas do material
commum, o que vale dizer de aspirações e casos, não raro menos
claros de que vulgares!

Dahi partiu, e logicamente foi até ao fim: a servir a propria plebe
politica--a peior das plebes!

Houve tempo em que não socegou. Numa canseira pertinaz, diaria, quasi
tomou por seu dever perseguir a vida constituida, onde quer que ella
surgisse ou se se lhe afigurasse.

Ora, este foi, tambem, porventura, o seu mal, assente como está que, em
materia de vida conjuncta, peior do que qualquer instituição crapulosa
ou gasta, é a sua substituição á doida, á sorte, como infelizmente,
entre nós, elle a ajudou a preparar!


Acabo de percorrer os _Gatos_, onde reuniu o melhor da sua Arte de
pamphletario.

Do primeiro ao ultimo opusculo, que serie de estudos, de commentarios,
de almas e acontecimentos tratados pelo seu riso!

Tudo o que elle tinha de imprevisto, como tudo o que da inferioridade de
uns poude reunir e editar para servir a inferioridade dos outros, está
ali, nos seis volumes que hoje formam a Obra, e ficará como documento
dos seus violentos e extremadissimos recursos.

Pois que foi a civilização quem categorisou o riso, transfundindo-o,
filtrando-o até á ironia, uma das grandes forças da demolição
moderna,--importa ainda considerar o riso de Fialho.

A ironia de Fialho, se assim podemos escrever daquella sua indole--era
ainda, como não podia deixar de ser, um caso mais do seu temperamento de
violento, aggravado do tempo e meio em que, por acaso, reagiu.

Assim, nada tem de commum, por exemplo, com Eça e Camillo, por falar dos
humoristas mais discutidos da lida contemporanea.

Camillo era a graça a flux, com os seus laivos de razão intima, muito
para alem dos castellos politico-litterarios de momento, golfando risos
ao acaso da sua natural interpretação sinistra de Humanidade.

Eça deu-se scepticamente a lapidar costumes e figuras infimas, no geral
de uma banalidade exhaustiva, á conta do prazer do seu riso frio, que
logo se fez moda, como tudo o que nos vinha de fóra, por seu intermedio.

É ver o successo das _Cartas de Fradique Mendes_, «um Acacio a serio»,
informa Fialho, e cuja prosa relata o apontoado symetrico das notas dum
civilizado, ali paciente e cuidadosamente estylizadas pelo seu sentido
de mundano.

    [IMAGEM: Fotografia de Fialho d'Almeida.]

Ora, nada de premeditado encontramos em Fialho, e nomeadamente nas
notações dos Gatos, por cujo entrecho natural é que comecemos o exame á
sua obra.

A razão desta preferencia incide, é claro, na mesma indole dos folhetos
que reuniu debaixo daquelle titulo, e, onde, de facto, encontramos, a
despeito dos seus propositos, o Fialho definitivo, quer sob o ponto de
vista do estylo e inauditismo de Arte, quer ainda pela acção demolidora
que tanto foi de seu empenho e naquella obra rajou desesperadamente, a
paginas plenas, como em nenhum outro dos seus trabalhos.

    [1] Terras do Sul.



III

O PAMPHLETARIO


Abre os _Gatos_ o aviso-cartaz de que o auctor se propõe tratar
criticamente os homens e os acontecimentos, explicando,
humoristicamente, o nome da publicação.

O primeiro folheto da serie tem a data de Agosto de 1889, e inaugura por
um capitulo, pleno de paixão artistica, com seus esmaltes de
irreverencia, e a que elle chamou:--_Bric-á-bracomania, como cultura e
como doença._

No desenvolvimento da curiosa these encontra-se naturalmente com o caso
do testamento de D. Fernando. Este caso foi um dos mais antipathicos e
escandalosos do tempo, pois que accendeu nos Paços, com o odio da
rainha pela condessa d'Edla, uma questão de familia burgueza, em que se
discutiu tudo, desde a imaginada loucura lucida do principe, ao tempo
das suas ultimas disposições, até ao valor e direito dos _bibelots_ e
quadros do seu espolio!

Veio a questão para a rua, e, ainda dessa vez, rua e Paço se deram as
mãos, na roda de insultos dirigidos á viuva de D. Fernando, sem attenção
pela memoria deste principe, cuja probidade foi tratada sem sombra, não
diremos já de justiça, mas de delicadeza.

Em nome dos republicanos dirigia, no _Seculo_, a campanha Rodrigues de
Freitas, valha a verdade, serenamente. Por parte do Paço, e vestindo,
mais uma vez, a innocente pelle do povo--. escrevia Emygdio Navarro,
tratando cynicamente D. Fernando, em quem diagnosticara dois scirrhos--o
da cara, que o levara á morte, e o do coração, que elle, Emygdio
Navarro, se propunha sarjar publicamente, fazendo-lhe a historia na
praça das _Novidades_, e isto, affirmava, por dignificar a memoria do Rei!

Fialho que, de facto, era um delicado, e, por accidente, se fizera
politico, e, bem por certo, lhe repugnava toda aquella griteira, tratou
tambem do caso moderadamente, chegando a lembrar até a arbitragem para
resolver os direitos do espolio controvertido.

Ainda, por egual forma, trata a figura de D. Fernando, cujo perfil
surprehende, sobretudo, á luz da sua aventura de amoroso e homem de Arte.

Assim visto, não podia elle deixar de lhe ser sympathico, e dahi tambem
o seu elogio, mal disfarçado, como as attitudes em que o focou, e donde
mal sobresahe o vulto, ao tempo tão acintosamente discutido, do Rei!

Quer dizer, em verdade, é ali presente a homenagem do Artista ao
Artista, para lá de todo o convencionalismo critico, como de toda a
exigencia publica.


Começa o segundo opusculo por um capitulo dedicado ao violoncellista
Sergio, e que, neste proposito a que nos obrigamos, de mero indiciador
das suas passagens de mais interesse e que melhor o mostram--mal podemos
tratar condignamente.

Registe-se, no entretanto, o extremado capitulo, como um dos mais
notaveis da sua obra, e, alem de tudo, a forma como elle, sempre tão
presente nos seus livros, sabia, embora excepcionalmente, apagar-se,
quando as circumstancias lhe conferiam Arte que um tal sacrificio valesse.

É o caso do violoncellista. Para no-lo descrever, Fialho quasi se apaga
no café-concerto da Mouraria, em que o apresenta, e, onde, de facto,
elle costumava ir, ás noites, transfigurando-o da sua Arte, cuja
referencia é, ainda, como que a sombra resoante da alma tão
extranhamente regressiva do Musico.


Paginas adiante, é tambem com paixão e valor equivalentes que, a
proposito das exequias de D. Luiz, trata a figura da Rainha.

D. Maria Pia resalta do seu exame como uma resurreição dos grandes
dramas reaes de Shakespeare, ou seja como um verdadeiro prodigio de
alma, genialmente estatuada da sua tristeza de soberana-viuva,
equilibrando-se no orgulho profissional da sua creação de princeza de
raça, acaso abordada ás praias portuguezas.

Inegualavelmente soberba, de facto, a sua maneira de tratar a
lendaria Rainha que surprehende nos funeraes do Rei como um alabastro
solemne!

Assim a tinha sonhado, tanto como o Paço, a propria Rua que, entretanto,
lhe perdoava tudo, ainda os mais custosos dispendios, tomando-a, mais do
que como Rainha--como uma figura de luxo, especie de marmore vivo, por
boa fatalidade, a soldo no Museu Real das Necessidades.

Tambem, por seu lado, ella cumpria escrupulosamente o papel a que, por
sua mesma prosapia, se compromettera (fôra cheia de protocolo a sua
escriptura de esponsaes)--e dahi o vê-la toda a gente mais do que
cerimoniosa, theatral, quasi memoria, seguindo sempre, de par da sua
lenda, de que ninguem, nem ainda os mais ousados, tentaram algum dia
separá-la!

Quando endoideceu (a natureza é logica; que outra doença devia
segui-la?) logo os jornaes vieram contar as parabolas da sua
loucura, nos Paços de Cintra; corriam historias de _toilettes_ que
jámais usara; e, por fim, enterneceu a sua retirada de Portugal, quando,
na Ericeira partiu, tão magestosa e alheadamente, como annos antes,
tinha chegado...

A differença dos dois espectaculos, estava, unicamente, no tempo, que
daquelle passo final da sua vida tinha urdido mais uma tragedia!

Chegara solemnissima, recebida por toda a ordem de festas e alegrias
officiaes; retirou, á opportunidade da primeira revolução, como uma
rainha usada, que já não serve, e segue, á pressa, devolvida, ao paiz de
origem.


Despedimo-nos com pezar destas paginas, que tão fundamente, por si,
bastariam a vincar a alma do Artista, acaso nellas mal casada á sua
preoccupação de pamphletario,--para derivar a outras que, na sua obra,
dão o contraste da violencia, talvez, mais inopportuna e abrupta, que
ainda instigou critica portugueza!

Reportamo-nos ao caso grosseiro das suas diatribes contra Guilherme de
Azevedo que justiçou depois de morto, e declara analysar sobre uma pedra
de autopsia, ainda sem piedade por si, como pelos leitores, e quando
aquelle, já longe, havia ganho, ha muito, o esquecimento publico!

Na sua quasi diabolica sanha de deprimir vê-o primeiramente no seu logar
de escrivão de fazenda em Santarem, onde o surprehende a passear os seus
aleijões, de par das suas canseiras de lyrico e apaixonado ridiculo.

Depois examina-lhe, publicamente, os defeitos, as suas fraquezas e
purgueiras de estrumoso, como a sua obra, na parte mais rebuscada,
indo até pracear-lhe os papeis unhados pela lida do chronista!

Por fim, como que convida o publico a assistir-lhe á morte, em Pariz,
numa casa de saude!

E, para o caso de que o publico falte, redige elle mesmo a informação da
agonia do Artista, passada, esclarece, entre sujidades!

Ora eu não sei de outra hora tão extranhamente infeliz para um escriptor!


Do mais dos artistas contemporaneos, e, especialmente, dos pintores, é
sabido o que escreveu de desalentador para elles que já, contra si,
tinham tudo:--a rua, o mundo politico, o meio pobre em que trabalhavam,
o paiz de origem, e toda a serie de prejuizos que, para mais, Fialho
conhecia intimamente como ninguem!

Comtudo, nem Columbano escapou a esta sua impertinencia, por vezes de
uma irritação doente, quasi atrabiliaria e descomposta, á conta da sua
faina de exigir do mundo plastico, mais do que representações da
natureza, verdadeiras telas vivas, porventura, a capricho, illuminadas
das suas mesmas composições escriptas.

Dahi a sua injustiça para com o grande pintor que, no seu juizo facil da
primeira hora, qualificou de mero artista hesitante, como que estagnado,
«perdido, na monotonia cadaverica dos seus quadros de imitação!»

E, de identica maneira, tratava os outros.

Não lhe era facil fugir á fatalidade do seu genio, sempre em duvida, e
que mascarava de desdens; para mais acossado pela circumstancia de
viver, o mais do tempo, em Lisboa, onde os Artistas teem _ateliers_
paredes-meias, e a Arte anda sempre ao de cima das sympathias duma tal
Cidade, ainda, como nenhuma outra, de entre as nossas, aberta a
intimidades, mettediça, e pretenciosamente futil!

Dahi tambem a sua maneira, quasi mesquinha, de tratar a Politica e, em
especial, os politicos.

A Carlos Lobo d'Avila, por exemplo, processa-o como degenerado.

Lopo Vaz é, para elle, um mero «preboste regio». A Barjona toma-o como
um conselheiro de negocios, anecdotico e sujo. Hintze é uma especie de
empresario de Portugal--feitoria-ingleza, figura dependente e quasi
irresponsavel ás ordens da dynastia, e assim os outros.

A paixão do pamphletario céga-o a qualquer vislumbre de justiça para
com politicos e assim tambem para com o Rei, que, ainda á maneira
popular, considerava como figura enkystada no corpo governativo da
Nacionalidade.

Dahi tambem o atacá-lo systematicamente, afeiando-o de todos os
delictos, em que não deixou de figurar a pecha das mais ruins
ingratidões, as já classicas ingratidões dos reis!

Quer dizer, consciente ou inconscientemente, foi, como todos os
pamphletarios, um Orpheu da Rua, pelo menos até se sentir sacudido por
ella.

E fossem lá insinuar ao seu aferro pelas chamadas reivindicações
democraticas, que atraz da ingratidão dos reis, está sempre a ingratidão
dos povos; que a França, por exemplo, politicamente radical, no curso de
dezenas de annos, conserva no _Père Lachaise_ a ossada de Balzac, ao
passo que carreou, ha muito, para o Pantheon Carnot e outros menores!

De que lhe serviria, de momento, o aviso? O que sempre enche a obra do
pamphletario é a philosophia facil do odio ao Constituido, onde quer que
elle se encontre. Emquanto ha reis, a culpa de tudo o que existe de mau,
ou por tal passa, é dos reis; como é dos padres emquanto ha padres; dos
validos emquanto ha validos; em ultimo logar, dos parlamentos; de tudo,
emfim, o que o povo, em nome dos seus direitos, nunca até hoje
definidos, organiza e desorganiza, menos a seu talante, do que ao acaso
de uma esperança ou das gerações por apparecer!

E, comtudo, não falta nunca quem se dê a orchestrar a sua voz, por mais
vaga, ou dissonante que ella seja.

É preciso que o escriptor tenha, mais do que talento, uma sensibilidade
propria e escrupulosamente cerrada ao gosto publico, melhor ainda,
religiosamente isenta, para que possa afastar, com desprezo, o applauso
geral, repulsando, para longe, o titulo de dirigente, ou seja o de
encantador das multidões, pelo qual, principalmente, o maior numero dos
apostolos se bate.

E, em todo o caso, como aquella isenção é rara!

Ainda os de melhor fé e que se julgam de posse duma missão necessaria,
raro chegam, por si, a conhecer do erro de excesso, em materia de
reverencia e culto pelo publico!

O que, a miudo, se dá, é a inutilidade da sua faina, e isto pelo mesmo
uso daquelle prestigio, ainda sujeito, como tudo, á acção do tempo que
sómente, não consome as obras de sentido definitivo.

Este foi tambem o caso de Fialho que durante annos destruiu, sem
treguas, confundindo, propositadamente, os principios e os homens,
batendo, de toda a maneira, um systema que, sobretudo, foi erro não
termos reformado dentro das nossas melhores tradições; e que elle,
Fialho, como os demais contemporaneos escriptores politicos, reputaram
fóra de toda a razão nacional.

É claro que deste erro se confessou mais tarde repeso--ou tenha sido
quando as suas palavras offereciam menor echo--ao ver que, para os
logares mais responsaveis, quando o antigo regime cahiu, o paiz,
democratizado á força, não encontrou, de momento, para substituir o
corpo official expulso, mais do que gente ousada, que mental e
moralmente valia menos do que a anterior, que de si já estava muito
abaixo da geração que a havia antecedido, e cuja herança nem sequer
soubera defender!

É de justiça lembrar que tambem Fialho foi dos primeiros a corrigir os
impetos dos pretendentes que, de todos os lados, surgiram com a sua
conta de serviços; embora o facto valha unicamente a justificar a sua
boa fé.

Era tarde. Á sombra das suas paginas, como das de Ramalho, Junqueiro,
Eça e Bordallo, por lembrar os maiores, se tinham elles organizado de
vez, entretanto que a alvorada do regime abria logicamente por um banquete!

Para mais, quasi todos os demolidores, companheiros de Fialho, tinham
desapparecido. Ao acaso do tempo ficara, unicamente, Ramalho--velho,
surdo a louvores como a insultos, fechado na sua cella de valetudinario,
em Lisboa, de facto uma especie de santo de nicho do _bairro alto_, a
quem já, a bem dizer, ninguem recorria, de cujos milagres ninguem mais
queria saber...

Bordallo morrera, providencialmente, antes do bôdo.

Alem de que, quem se atreveria a continuar-lhe a obra? Onde o artista da
sua coragem, á altura de um jornal nos moldes do _Antonio Maria_? Onde o
redactor graphico do seu estylo, e, mais ainda, onde as
personalidades-motivos a enchê-lo?

Como quer que seja, Fialho, leal ao que, de começo, se impuzera, tentou
ainda o ultimo esforço, contra o muito do que succedera e lhe repugnava
tanto como á consciencia, á sua sensibilidade, acuradissima, de Artista.

Era tarde, repetimos. Já ninguem o ouvia, demais que elle proprio tinha
perdido o vigor das suas primeiras investidas!


E, entretanto, o Artista crescera ainda, depois das novas provações, ou
antes tinha-se accrescentado daquella razão de amargura que a vida
empresta sempre, cedo ou tarde, aos temperamentos da sua
impressionabilidade, e que nelle deu a transfiguração notavel de um
ousio artistico sem egual, e de que é, sobretudo, exemplo essa obra
trasbordante da sua derradeira colheita--«_Barbear e Pentear_».


Este livro, sublinhado pela explicação amarga--_Jornal dum vagabundo_,
que aliaz emprega noutras obras, attinge, effectivamente, o maximo da
sua perfeição exquisita.

É ali que verdadeiramente elle trata a mulher-fada, tão de sua
predilecção, e de quem se dá a referir a _toilete_, á luz dos móres
recursos, escrevendo da sua razão de vestir, como arte maxima; das joias
que redundam do seu imaginar em preciosos esmaltes vivos, especie de
insectos inertes, quasi pedras mornas por não arrepiarem a carne-seda
das animadas estatuas que são chamadas a guarnecer;--de tudo, emfim, o
que do abraço caprichoso da arte e da natureza elle poude aventurar de
imprevisto na ideação dum espectaculo para embriagar sensibilidades!

E, de facto, chega ás maiores extranhezas de gosto na inventiva daquelle
livro, e especialmente no seu capitulo:--_Juizo do Anno_, quer pelo
turbilhão de côr que delle entorna, quer, sobretudo, pelo seu empenho de
phantasia e _nuance_ ali expressos, como ainda pela circumstancia de
considerar a mulher o que, porventura, virá um dia a ser, um caso de
perfeição sómente, quando a natureza mais accordada com o homem, sahir
de sua attitude esphingica, e isto ainda por viver com elle uma
futura vida luxuriosa, sem medos e sem pecados...


As _Pasquinadas_ e o _Á Esquina_ subordinam-se á mesma rubrica:--_Jornal
dum vagabundo._

Nesta ultima obra ha de tudo:--paginas notaveis e criticas de menos folgo.

São do melhor interesse as que abrem o livro e
titulou:--_Autobiographia_; e devem ter-se como supremas aquellas em que
nos descreve os _Ceifeiros_, como as que referem as suas impressões da
Atalaya e Exposição-Bordallo.

Tambem este livro inclue umas notas a que deu a epigraphe:--_Problema
taurino_, e que, já agora, glosaremos, embora de fugida.

Neste capitulo lança o Escriptor á balha a idéa do toureio a serio nas
praças portuguezas, o que vale informar:--a opinião da morte do
touro, com os demais episodios sangrentos dos curros hespanhoes.

Ora a proposta, se foi sincera, destoa, a nosso ver, da sagacidade do
critico, acaso perturbada pela paixão do aficionado e homem do sul,
paredes-meias da Hespanha e seus costumes.

O portuguez habituou-se facilmente á morte pela associação politica;
aceita, como de direito, o assassinato por adulterio, e toda a ordem de
morte por um delicto sectarista ou passional; o que elle jámais
decretará é a morte por uma razão de Arte, e isto pelo mesmo facto de
não comprehender outro sacrificio que não seja para sagrar ou colher
interesse.

Ora, para elle, o toureio, ainda como exposição de vida e educação de
raça, não tem interesse.

As _Pasquinadas_ reunem uma serie de artigos de impressão
rapida--instantaneos dos acontecimentos e pessoas de occasião.

Entretanto, como se tenha dado o caso de ter sido obrigado a tratar de
figuras da categoria de Camillo e Sarah Bernhardt, este livro inclue, a
seu proposito, paginas que, bem por certo, ficarão ainda como documentos
da sua desproporcionada maneira de considerar os grandes artistas!

Insurgia-se elle, a espaços, contra as lettras, friamente rigorosas, dos
modelos mais classicos e academicos.

E, de facto, importava-lhe sahir não só das velhas disposições, como
ainda dos recursos em uso, por inteiro alheios ao genio, mais que
revolucionario, desmedido, daquelles dois vultos, que, por isso mesmo,
tratou, não só fóra de todos os moldes, mas, mais ainda, fóra do tempo.

A _Lisboa Galante_, outro livro de voga, comprehende, em geral,
episodios e aspectos de cidade, por entre apontamentos de casos minimos,
por communs, a todos os logares de accumulação.

Entretanto, ainda ahi Fialho incluiu phantasias e situações admiraveis,
haja em vista o conto--_Amor de velhos_; e, sobretudo, a _Chavena da
China_, porcellanas da sua maior delicadeza e inventiva.


Passaremos á pressa sobre o livro--_Saibam quantos..._ não só porque
literariamente o não accrescenta, como pela circumstancia de nelle ter
reunido cartas e artigos politicos que valem, meramente, como actos de
sua contrição.

Archivemos, no emtanto, do capitulo--_A morte do Rei_, o seu leal
proposito de homenagem a D. Carlos, a cujo caracter, por fim,
concede as mais complexas facetas, e a impossibilidade de falar destas
em paginas resumidas, como as que, de momento, lhe consagra; e, mais
ainda, como fecho dellas, o seguinte:--«Pobre D. Carlos! quando se pensa
que afinal era mais intelligente e teve talvez virtudes superiores ás
dos seus adversarios, e por não dizer ás dos seus cumplices...»

Eis, finalmente, palavras suas, ácerca de D. Carlos, alinhadas, talvez,
sobre a impressão da morte brutal do rei, á hora, quem sabe? em que o
seu cadaver, abandonado de todos, presidente do Conselho incluso, lhe
dava a lembrar a calumnia, tanta vez pelo pamphletario, contra elle,
escripta, de primeiro responsavel da desordem a que o paiz descera!

É que talvez já ao tempo elle bem claramente visse que aquelle que tão
violentamente responsabilizara como primeiro culpado do desastre a
que a nacionalidade havia chegado, era afinal um rei que consumira um
reinado a procurar Alguem, no fundo, bem da alma, elle proprio, com a
Rua, que era, de facto, quem mandava, sem que, ao menos, governasse,
como ao presente, e que ora o applaudia, mais á rainha, ora o insultava,
até que se decretou a montaria com que, por fim, deu fecho á Realeza.


Mas, deixemos o rumo de taes considerações que, indevidamente, é de uso
considerar politicas, e que, ao acaso, nos occorreram, a proposito
dalgumas paginas do _Saibam quantos..._ ultimo passo na vida de Fialho,
e ainda á conta da sua velha lida de pamphletario.

Finalmente, pois que, por esta obra, chegamos ao termo da sua jornada de
agitador, resta-nos, ao presente, e logicamente, insistir no mais da
sua melhor canseira--isto a proposito, não só dalguns trechos já
marcados, como ainda doutros, onde mais intencionalmente se deu a urdir
obra de Arte pela Arte.

Assim visto, este será, em nosso entender, o Fialho definitivo, cujo
elogio desde já promettemos levar a cabo quasi sem rasuras criticas, ou
seja sem restricções, no capitulo a seguir...



IV

O ARTISTA

FIGURAS NOTAVEIS DA SUA GALERIA. INTUITOS E SUPERIORES FATALIDADES DO
SEU TEMPERAMENTO. UMA GRANDE E ADMIRAVEL REVOLUÇÃO ESTHETICA. A SUA OBRA.

    [IMAGEM: Fotografia de Fialho d'Almeida.]


Nenhum outro documento mais interessante, se bem que mais difficil de
ler, do que o primeiro livro dum Artista.

Toda a obra de Arte tem a sua infancia que importa ver na prova-estreia
do auctor, atravez dos seus defeitos, como das suas virtudes.

Ora essa difficuldade eu senti ao ler os _Contos_ de Fialho, quer pela
exuberancia de vida episodica de que esta obra se enreda, quer pelo
tumulto dos recursos que já ali o auctor revela.

Exemplificando.

Abre elle este seu primeiro livro por uma historia, em parte de sua
observação, e em parte de phantasia,--_A Ruiva._

Pela intriga deste seu trabalho, vê-se que elle não chegou a realizar
uma novella, no rigor geralmente attribuido ás composições deste nome.
Bem pelo contrario, o que conseguiu foi uma serie de biographias, ou,
mais propriamente, de exquisitas telas.

Fialho, muito do Sul, é, como já vimos, um pintor; ou melhor, um
painelista, no geito dos pintores da Hespanha meridional, logrando, pela
penna, conforme o seu poder de descriptivo, dar a côr, tonalidades e
almas tão distantes e irreaes e, no entretanto, tão signaladamente
intimas e perfeitas, como só as encontramos nas prodigiosas collecções
dalguns auctores da Andaluzia,--isto a averiguar da impressão das suas
manchas, como das suas madonas e dos seus aleijados, ou seja de quasi
toda a sua galeria de excelsas e de sinistros!

Assim, a _Ruiva_, principal figura do conto em analyse, é uma especie de
hyena de amor, transportando-se, quando os guardas do cemiterio saem, á
casa do deposito, onde entra para escolher cadaveres!

É pela calma mysteriosa e calada que elle descreve a necrophila
Carolina, misto de miseravel e viciosa, tacteando os mortos
adolescentes, quasi possuindo-os.

Exquisita figura de virgem, a suave e brutal filha do coveiro, que
Fialho trata com enthusiasmo, quasi carinhosamente, ainda na sua faina
de amante de formas mortas!

A Marcellina é o typo vulgar da harpia, velha e sabia, que tendo
aprendido da miseria tudo o que de mau ella ensina, volvera a sua
experiencia num capital que lhe ia servindo para viver...

Para o caso, ella é a alcoveta que vende a _Ruiva_ a um rapazola, o
João, um precoce torpe, typo de bambino operario, official de
marceneiro e fadista, que um momento a possue e quasi logo a abandona.

É filho dum bebado e duma desgraçada que elle, ainda creança, vae
encontrar, pela ultima vez, na _morgue_, depois que a acabaram os maus
tratos do marido.

E, tambem, dahi a sua historia, que em si resume a vida natural de todos
os tresnoitados pelos portaes e escadas.

Por fim, fecha o conto o relato da faina livre de Carolina (a _Ruiva_),
primeiro assalariada numa fabrica, depois pelos quartos andares,
vendendo-se a todos os vicios, até que, roida da tuberculose, chega ao
hospital, donde sáe aos pedaços, como um gesso em cacos!

O seu enterro descreve-o o Artista no primeiro capitulo, como para
impôr, logo de começo, o conto, de tal arte iniciado, á maneira
romantica, pelo seu episodio mais pio e sinistro.

É ahi que apparece a figura do coveiro, pae da Ruiva, uma especie de
Antonio Pedro no _Hamlet_, acaso transportado á taberna do _Pescada_,
onde o Contista o apresenta, bebado, a commentar a morte da filha!


Eis a noticia-summario do que temos pela estreia de Arte de Fialho, em
1878, ou tenha sido do tempo de quando elle, intencionalmente realista,
com suas tintas de Hoffmann, se deu a iniciar a sua obra por uma figura,
aliaz nada casual--a _Ruiva_, cuja caveira nos aponta, ao fim do livro,
sobre a sua banca de contista-medico, não se sabe bem, se como um
despojo de estudioso, se como um cofre de osso de que antes, por
capricho, se dera a extrahir uma novella...

Como quer que seja, esta realiza menos o que pretende ser--a biographia
da filha do coveiro--do que a primeira galeria de figuras da sua maneira
extranha de pintar, e onde a _Ruiva_ acaso surge como que sombreada
daquella maceração e tinta de luar que Zurbaran parece ter composto já
da eternidade para espectrar as figuras tão suavemente doentes dos seus
monges!

E, entretanto, como ali está, naquella simples novella todo o seu
original processo, desde o poderosissimo descriptivo que lhe anima o
melhor da obra, até á sua pintura, ainda narrativa, de costumes; a
hesitação do Artista no papel violento ou declamatorio dos personagens;
a sua maneira dispersa e fragmentaria; o dialogo; a imprecisão de
traços; a preoccupação das grandes telas; a falta de peças no esqueleto
do seu trabalho; a paixão de certas figuras, como de certos logares;
a sua dolorosa e sensual sanha de necrographo, de par dos seus carinhos,
como dos seus sustos pela morte; o monstruoso dos typos, desgarrando,
autónomos, um drama proprio; o sentido da vida no que ella tem de mais
intimo, como no que pode suggerir de mais esparso; a falta de
ajustamento e equilibrio no curso da acção; e, para alem destas
qualidades e defeitos, dos typos, como das situações, o Auctor,
exuberante da sua razão de belleza a esmo, desmedindo, revolucionando a
Arte, por servir a Arte; no seu intimo medroso, e instinctivamente
avesso, se não inimigo de todo o methodo;--e, entretanto, sempre elle,
comsigo mesmo, fazendo valer o defeito pelo que nelle nos dá de grande e
imprevisto; creando das suas desproporções, uma Arte propria; arruando
de graça a cidade amoral dos seus viciosos; enscenando a vida do
verde-amarello da sua biliosa de pamphletario;--e tudo como quem
empresta a sua fatalidade de exotico aos homens e coisas a tratar; e
sempre para alem de todas as convenções, como de todos os moldes
academicos!


Particularizemos, ainda um pouco, este seu processo, não tanto por
firmar principios, como por tratar do seu ousio de Artista, ou seja das
suas figuras de imaginação, visto que esta não é, nos emotivos do seu
destino, mero delirio do sentido, mas, pelo contrario, uma força ainda a
avaliar das suas creações.

Effectivamente, bem errada e mesquinhamente trabalham os que se dão a
encaixar a vida num preceito!

Pois que esta é, de si, infinita, recurso algum, por minimo, deve
escapar ao seu apercebimento.

Ora este cuidado tinha Fialho bem affecto da sensibilidade, cuja ancia
de representação, jámais deixou de archivar tudo quanto a vida real ou a
phantazia lhe importavam, embora, ás vezes, á doida,--fosse numa pagina,
ou numa simples linha.

Assim, naquelle mesmo volume--_(Contos)_, ha um capitulo, _Os dois
Primos_, em que apparece a sombra de Albertina, uma actriz, e que vale
menos pela belleza real da sua figurinha de exigua, que pela sua
presença artificializada de quasi-dahlia--ao acaso cahida num palco de
Lisboa, onde elle, o Artista, a surprehende, á luz da sua _toilette_, á
qual, por fim, de todo, attribue o successo feliz da sua linha de
_cocotte_!

Este ainda um exemplo do seu occultismo de Arte,--do seu segredo e
poder de imprevisto.


Tambem a mesma graça quasi infantil, de tratar a phantasia a que deu o
nome de _Chavena da China_, como todos os seus objectos e figurinhas do
mais delicado relevo, usa elle já no conto--_Os dois patifes_, do mesmo
volume, ao escrever ácerca de dois gatitos, verdadeiras porcellanas
vivas e mexidas, e de cujas correrias elle logrou a deliciosa
tragicomedia do arrasamento duma cidade de cartão, prenda de annos do
pequeno Arthur.

Lê-se dum folgo a linda historia, como essa outra--_Ninho d'Aguia_, de
que, por egual, o Artista tira o partido, já notavel, do seu engenho de
considerar figuras suaves e innocentes, e em que, tambem, as pobres aves
do conto são tratadas como barros vivos, a que sempre alligou
carinhos que jámais o vimos dispender no capitulo humano da sua Obra.

E propositadamente nos referimos a estas suas pequeninas obras primas,
menos por feriar-nos da historia magoante dos seus nevroticos--figuras
quasi-anjos, ao lado de mulheres e bambinos quasi-flores--do que por
mostrar as delicadezas da sua Arte, tão sinceramente desegual, quanto,
por vezes, exhaustiva, á conta de certas insistencias e mal escolhidos
episodios.


Comtudo, verdadeiramente grande é só mais tarde, quando, muito para alem
daquelle livro, sae a moldar do seu genio adulto, então notavel de
extremos recursos, a vida monstruosa dos grandes e desafortunados typos
do seu fabulario. Reportamo-nos ao tempo da _Madona do Campo Santo_,
do _Anão_, da monographia-_Manuel_ e principalmente dos _Pobres_.

E, pois que mal poderiamos concluir do seu grande poder de plasticizar
da Imaginação, sem nos referirmos a estas obras, tratemo-las, embora
passageiramente, menos para as ver que para as apontar.


O _Manuel_ é, sem contestação, a mais sincera figura da sua galeria de
_Nocturnos_. É um ser que da sua propria alma o Escriptor edita; e, de
si, nos dá como um ex-voto á sua tortura de humano quando, penitente da
propria escravidão da sua Arte, della se entrega a versar o que de mais
inquietante ella tem:--o indefinido da sua universalidade dolorosa e
reveladora. Quer dizer, é ainda menos do que uma obra de Arte, um
espelho doloroso, em que elle se transfigura dos seus medos, como
dos seus sonhos,--dando-se ahi, de facto, como melhor nos não podia
surdir:--no espectaculo da sua figura de receio, ou seja no esgar
caricatural e dramatico da sua afflicção de presciente.

Mas reconstruamos, tanto quanto possivel, por palavras suas, a sinistra
figura de _Manuel_, ainda por melhor a esclarecer.

Primeiramente a creança:

--«Era aos nove annos como uma figurinha de aguarella, fina de carnes,
os cabellos sem pigmento, as unhas longas, a voz avelludada e com
demoras sentimentaes em certas inflexões--amando a solidão e as musicas
plangentes, colleccionando estampas de castellos, terrivel no amor como
no odio, e duma volubilidade tal na phantasia, que era impossivel
prende-lo a uma lição por meia hora, sem elle cortar o assumpto com
extravagancias de mimo e _enfant gaté_.»

Mais:--«Tinha a feminilidade da igreja, o nervosismo do incenso, paixões
quasi physicas por imagens, sentido este que nunca se lhe apagou de
todo, e que a reclusão de Campolide exasperou a um mysticismo de fazer
inquietações aos proprios padres.»

Quando já homem, «no typo de algarvio, branco de cera, idealmente puro
como a afilada gravação dum camafeu, a sua belleza tinha transcendencias
extaticas, uma pacificação de tinta lurenta, macerada, esfallecida de
insomnia; e dava a impressão dum destes insexuaes no gosto da Seraphita,
cujo mysterio desorienta,--por terem tudo o que faz sonhar, sublinhado
por tudo o que faz soffrer.»

Esta a epoca em que o Escriptor melhor fixa o drama de _Manuel_, que já
daquelles retratos, resulta menos uma figura autonoma do que uma imagem
de especial e entranha vocação, especie de seraphim de egreja, dahi
fugido por viver a vida emprestada do Artista que o elegeu.

Mas sigamos, ainda mais vagarosamente, o graphico doloroso das suas
grandes azas de anjo bohemio...

_Manuel_ chega a Lisboa quando--diz o Artista--«a bem dizer já ninguem
esperava por elle», isto é, «quando decrescia no Martinho a terrivel
phalange dos revoltados á Byron, e entrava a achar-se um tic pulha nas
attitudes procuradas, nas vozes de chibato, nos olhares revoltos, e mais
artificios de que até ali os homens de lettras se revestiam em publico,
por fugir ao molde burguez da outra gente.»

Era uma figura «toda nervos, altivo como se viesse de berço real», a
preceito recortado pelo Artista, do seu album intimo,--o que lhe
reproduzia as sombras carinhosas dos «bellos seres de excepção do
seu cyclo, os da extranha lumininosidade interior» que ante a sua
«mysantropia moral» conseguiam impor-se, pela mesma razão do seu
genio,--de que elle via chispar, a par de extravagantes «inauditismos»
«maravilhas minusculas» da mais emotiva Arte.

Chegado a Lisboa, ei-lo, primeiramente perplexo, o pobre _Manuel_, no
papel de anjo despregado, e, como que por acaso, transferido da Egreja
da sua aldeia ao museu vivo duma cidade tão falha de interesse que nem
sequer tem torpeza propria;--depois vivendo o expediente dos
sem-recursos, longe dos seus, luctando entre o seu pudor de Artista e a
intranquilidade do seu genio atrabiliario e dispersivo.

Esta inadaptação é a mesma que depois lhe dá a Tragedia--aquella
«_tragedia dum homem de genio obscuro_», que Fialho extrae da sua
caprichosa maneira de reagir, tal como devia sahir-lhe, lavrada de
ironias--como daquella philosophia e tristeza que enchem a obra a que o
Artista dá o nome de--«_Esculptura_ em fragmentos» pois que «dos seus
avulsos bocados» ninguem poderia tirar mais do que «mutilações de uma
grande estatua...»

Ora, dessa estatua nos apresenta elle, a par de bocados infimos, com
extranhezas caricaturaes e laivos dum rir doente, _boutades_ e dôr
inferior, por demais fragmentada, quasi sem significação de
Arte,--trechos formidaveis, como certas passagens da «_Noite de Alcacer
Kebir_», aliaz tão lugubres e intensivamente trabalhadas como raro
encontramos outras, ainda na obra de Fialho.

E, entretanto, não é a Arte de _Manuel_ o que mais interessa da sua
biographia.

O que melhor vale, e della resalta, é a sua mesma reacção, ainda mais
que de encontro ao meio alheio, quando do ruflar do seu genio no
intimo de si proprio!

Esta lucta fóca-a o Artista da sua lente amarello-lugubre, desde a
primeira infancia do bohemio até á edade da «fixação do seu typo de
adolescente» que estatua da «hereditariedade», desenvolvendo-se,
determinando-se, sobretudo, na vida de collegio--na sua reclusão de
Campolide, onde toda a ordem de factores apropriados, ajustando-se-lhe
«como serpes» se porfiam «a esfuriar nesse corpinho espurio» todos os
instinctos do seu genio de tarado, e que de si erguem o perfeito modelo
morbido que, effectivamente, chega a realizar.

Na sua vontade lassa nada mais governa que o proprio instincto do luxo,
do inesperado, da extravagancia da sua ideação frouxa e admiravel,--como
a inclinação bohemia da sua vida de acaso, á qual se dá, sem que
alguma vez se interrogue.

Ainda por dessedentar os nervos, logo de começo perros ás suas
exigencias, entrega-se á embriaguez.

Tinha necessidade de excitar-se, de viver violentamente os seus
delirios, ainda como por melhor escutar a sua nevrose, de tal arte mais
nitida á sua sensacional expectação.

Intermittentemente cahia em marasmos; tinha «syncopes de intelligencia»
que eram como que sombras daquella sobrexcitação e o derivavam do seu
tumulto ao que Fialho chamou os seus «crepusculos intellectuaes com
sobrelaivos de perseguição e delirio religioso.»

«De resto na sua esthetica, como na sua vida, sobresaltos de louco!»

Depois dum maior exgottamento de vida nervosa, adoeceu gravemente, e
tão gravemente, informa o Escriptor, que não era difficil «marcar
na sua intelligencia o accesso vesperal da sua ennublação».

A partir deste momento deu-se a errar...

A sua enfermidade era como que uma obsessão de si proprio, sempre alerta
contra o _outro_, isto é, contra aquelle que a sua duplicidade mental
dava como presente aos seus menores actos--e lhe embaraçava tudo o que
deliberasse!

Novos dias e elle cada vez mais doente, erratico, somnambulo, com a
paixão do alcool e o susto de tudo.

Certa madrugada accordou horrorizado com a idéa de que o estavam a
enterrar vivo e o desejo «de que o deixassem apodrecer fóra da cova»...

A partir deste dia a sua vida torna-se pavorosa; é a creatura sem rumo,
equilibrando-se, ao justo, no acaso geral do arranjo commum.

É, sobretudo, como expoente de vontade que o homem vale; ora elle
perdera absolutamente a vontade, mantendo-se como que, provisoriamente,
a dentro do seu corpo, ao tempo já desconjunctado de fantochino, e que
lhe sobrevivia por milagre, como num assomo de quasi extravagante apego
pelo que fôra...

O resto adivinha-se:--é a convulsão das ultimas horas; são restos de
sonho; os derradeiros phantasmas, nos seus derradeiros dias; é elle
gritando a sua agonia doida, numa casa de saude, a pelejar a morte, como
se, de minuto a minuto, lhe rompessem cordões nervosos; finalmente elle
ainda, mas com a vida a fugir-lhe e como que afilando-se-lhe até
perder-se na noite rehabilitante da sua podridão...

E, entretanto, a sua historia não acaba ahi!

Como noutro logar affirmamos, ha, para alem da sua vida de symbolo,
o caso vivo, em aberto, duma real figura da qual o bohemio «um duplo»,
se accrescenta e desdobra, e que, a nosso ver, é, nem mais nem menos, do
que o seu proprio revelador,--o Artista que, na alludida monographia,
sinceramente, lugubremente, trata o caso da morte de _Manuel_ como se a
espreitasse em si proprio!

Passaremos adiante a miuda informação daquelle desenlace, ainda logico
dentro da extravagante «_Tragedia de um homem de genio obscuro_», por
ver, de relance, o Artista, ao pretexto do admiravel estudo em analyse.

De facto, qual a figura que surde para alem da mascara de _Manuel_?

É, affirma-lo-emos ainda uma vez, nem mais nem menos do que o Auctor,
embora transfigurado da sua Arte:--isto é o artista «_violento e
contradictorio_» que dahi resulta; ou seja o escriptor atavicamente
«_presciente do raro em arte_», com o mais extranho «_senso pictoral de
certos aspectos sociaes_», de par do maior «_poder amplificador dos
grotescos_»; o artista, a um tempo «_fragmentario e dispersivo_»; o
transfigurador; a creatura perdida «_em assumpções de genio_» e logo
baixada dos «_fulgurantes cimos da intelligencia_», como que distrahido
por casos minimos; o «_de filiação hysteriça e infancia convulsiva,
terrivel no amor como no odio_», o «mystico» e necrographo, de «_vontade
frouxa, com antipathias invenciveis pelos grandes fanfarrões da
sociedade e escriptores lançados_»--o emotivo, emfim, que no _Manuel_
não faz mais do que esmaltar de picaresco e lugubre a sua propria
figura, errando nelle o seu drama de morbido, e parabolando-lhe, nas
attitudes, como na desgraça, os seus grandes pavores da morte, de
par da duvida que lhe advinha da sua mesma Obra, que, no fundo, julgava
irremediavelmente episodica e fragmentaria![2]

Por isso, tambem, ao deixar o quarto, do _outro_, agonisante, elle põe
na boca do indio, o Pratas, velho confidente dos dois, como que o echo
do seu pensamento intimo:--«O ideal seria que a alma delle não morresse,
e nós ainda a encontrassemos, intacta e genial, num outro mundo
insubmisso»!

Ainda uma vez mais, elle formula o seu velho sonho:--não acabar! Em
ultima analyse:--o seu drama em duas palavras[3].

Finalmente nada mais haveria a escrever de commentario ao extraordinario
capitulo da obra de Fialho que principalmente nos demos a desarticular
ainda por compor a figura que nelle foi--se não tivessemos de incluir um
tal trabalho na parte que reservamos das suas melhores provas.

Como demonstração de Arte, mal poderiamos deixar de alludir ás paginas
que fecham a tragedia, em parte verdadeira, de _Manuel_--e que tambem,
de si, são, ainda de uma precisão e valor notaveis.

De facto, velou elle o doente de duas figuras que mal apparecem no curso
da acção e, no quarto do moribundo, apresenta silenciosas,--duas
esphinges de odio que o encaram e ao Pratas, o segundo companheiro de
_Manuel_, como se fossem elles os verdadeiros culpados da sua desgraça!

A primeira é um velho, o pae do doente que, depois de lhe ter negado os
recursos, tomando á conta de extravagancia todos os seus dispendios,
como o seu irremissivel alcance de saude, vem assistir-lhe á morte.

A segunda, e mais notavel das duas figuras, é aquella que o Artista
designa na folha-cartaz da monographia por--_essa mulher de negro!_

«É, segundo informa, quasi velha, com um vestido negro e uma gollilha
bordada, em grandes bicos. Sobre as orelhas ha já cabellos brancos, tem
a pallidez macerada duma santa, as mãos reaes, queixo voluntario...
Emtanto essa rigidez guarda uma boca pura de creança, e sae dessa
magua, uma obra prima de martyrio.»

«Tóco, narra, por fim, as mãos do agonisante, um marmore molhado. Está a
amanhecer lá fóra, e os cinzentos azues dessa madrugada de inverno
entram no quarto, com albescencias funeraes que me espantam. Pelas
quatro horas Pratas que lhe sustinha o pulso, dá de repente um grito: é
o momento: e o velho erguendo-se, em vez de correr ao filho morto, é
contra nós que parece crescer, rigidamente...»

Eis o final do drama!

Mas quem é aquella _mulher de negro_?

Eis o que mal nos diz. O que della se sabe é unicamente que fôra uma
rara figura de dedicação, envelhecendo no sonho de ser noiva do bohemio,
que lhe escrevia, e elle amara vagamente...

De momento, aponta-a o Artista como um regelo de amor, acaso um
symbolo assomado ali ainda por enscenar as ultimas horas do bohemio.


Derivando, no exame das suas obras primas, ás paginas que, dentre as
citadas, maior contraste offerecem com aquella monographia,
encontramo-nos com o seu admiravel conto,--o _Anão_.

Este demonstra, alem de tudo, de par da mais frisante extravagancia
imaginativa, o seu grande poder caricatural.

Trata-se duma ligeira farça que o auctor compõe, mais que dos
personagens, das suas situações.

Por outro lado, o drama é um jogo de riso, em cujo taboleiro Fialho
incluiu uma pedra dolorosa--o Carrasquinho, o _Anão_...

Este é uma figura minima, minuscula a ponto de se perder na copa
dum chapeo de pello, e no bolso da madrinha quando do seu casamento; é
um quasi monstro de fabula, entre humano e herbivoro, de «focinho
aguçado e movel, mascando sempre, com as bosseladuras da testa de
tendencias conicas para chibato, sensivel e espantadiço aos rumores
dispersos do campo, a quem os bodes reconheciam um ar de familia, e por
quem as cabrinhas amorosamente se roçavam» quando elle, o pobre
cabreiro, se misturava com ellas no redil.

Casou com a Rosa «um cavallão da mais desmedida estatura, que a mãe
trouxera vinte e sete mezes no ventre e levára seis dias a expulsar!»

O Anão dansava o fandango e era videiro. De principio tudo lhe foi bem;
a boda correra-lhe alegre, bem folgada, depois da qual o manageiro de
Torres, o Jacinthinho, se installou por metade de cada dia em casa
da Rosa.

Esta a desgraça! Quando o _Anão_ chega a mulher bate-lhe e o manageiro
obriga-o a dansar...

A seis mezes do casamento a Rosa dá-lhe um rapagão, forte como «um boi
bravo».

Tudo no conto são confrontos e confusões de animaes armados...

O Anão, cada vez mais chibato, lá vae vivendo, ora em casa, ora entre os
sementões, sempre lamentando-se, na sua «voz balada», até que um dia,
tendo-o a mulher enfaixado (por confusão com o filho) e conduzido á
missa, lá o povileo toma-o pelo proprio diabo, e logo um devoto bebado o
arremessa da torre abaixo, e era uma vez o pobre Carrasquinho,
esborrachado contra as lages sepulcraes do adro!...

Tal o esqueleto da historia que o genio do humorista vae depois
folhando das situações mais ridiculas, e que, de tal arte, lhe decorre
viva, hilariante pelo imprevisto e desproporcionado dos personagens, e
em que o pobre «_grão de milho_», mal sobresae como uma figurinha de
amuleto, errando ao acaso vida emprestada.

E, entretanto, é num tão exiguo personagem que, principalmente, o Auctor
se dá a desenrolar aquella aventura, toda ella uma farça de dolorosa
escravidão!

O mesmo sestro que levara Fialho a apolegar a gente miuda, por attingir
a expansão maxima do seu inegualavel empirismo de Arte, de semelhante
forma lhe pautou a solução da vida em riso, que a breve trecho e
involuntariamente derivava em farça. Ainda mais, deliciou-se da união
dos elementos mais difficeis, como impossiveis até, quando, pelo drama
convulso da sua polypersonalidade, se deu a parabolar da vida real
o mundo imaginativo das suas extravagantes suggestões de artista.

Dahi as phantasias, no genero daquellas, ao lado de outras em que
sobresaem mulheres como a _Madona do Campo Santo_, a quem dota da
galantaria e gestos nobres dos cysnes, figurinha de suave illuminura, e
que, mais ainda que do seu vicio de comer flores, elle parece alimentar
do pão azymo da sua Arte!


Mas não nos antecipemos á referencia que della nos deixou.

Reunamos os fragmentos da estatua da _Madona_:--«restos, diz o
Escriptor, da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, e que,
soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith.»

    [IMAGEM: Fotografia e assinatura de Fialho d'Almeida.]

Ora a _Madona do Campo Santo_, foi tambem uma das creações mais tratadas
pela suave idolatria de Fialho, e que elle, antes do apaixonado Albano,
se deu a estatuar numa hora de quasi divina loucura!

E não é ainda casualmente que escrevemos da sua idolatria.

A verdade é que o grande Artista foi, alem de tudo, um pagão, embora por
fatalidade da sua arte de Extranho, por amor daquella Arte que ainda, de
egual maneira, o fez religioso ou, melhor, sectario de toda a Belleza,
como jámais conhecemos outro.

É ver as paginas que dedica á _Madona do Campo Santo_, ao lado de outras,
como as que abrem o _Paiz das Uvas_, e a admiravel _Symphonia_ da
_Cidade do Vicio_!

Em todas ellas, que de adoraveis espectros de faunos e de
sylphos:--creações phantasticas do genio mysterioso da grande
jornada humana immemoravel; e que a elle, ao Poeta, o levam a cantar (a
sua obra é ali um hymno)--um quasi amor contra a natureza, de tão
extravagante e brutal!

E, entretanto, é ainda á «vibratilidade dolorosa do sol» que elle
escreve e nos diz da «vida allucinada» que lhe vae em roda.

Dahi, tambem, a sua litteratura, na apparencia difficil e desajustada,
como um romance da Mythologia, gritada de Evohés, com palmas á belleza e
á ebriedade, pompas sem rito, casos de flora animada e fauna monstruosa,
com a sua multidão de satyros e dryades, formando junto a Baccho--o Deus
da boca fogueirada de risos, acaso os mesmos que, por vezes, parecem
tingir da sua cambiante algumas das paginas mais notaveis, ainda por
menos verosimeis, do transfigurador!

É dum folgo que se leem estas passagens que quasi nos suggerem a
esperança dum suave mundo de deuses reaes, pleno de sentido novo, e em
que exuberem, a esmo, os fructos, e cresçam divinamente os marmores!

Ora, dum tal poder de imaginação, e influencia de tudo, facil nos é
derivar ao mais do seu _atelier_ de estatuario do Exquisito; e, mais
propriamente, ao caso da _Madona do Campo Santo_, a cujo proposito
trouxemos aquelles recursos.


A _Madona_ é, na verdade, uma das suas obras primas de mais justificado
renome:--typo de mulher-insecto, dentando flores, amando por instincto,
comendo com dôr, tocada, ainda por uma razão de belleza, do susto humano
de morrer, gracil como uma ave, de resto frouxa e luarada como convinha
a uma creatura do outro mundo...

E tão deslocada fôra, tão doutro mundo ella era, que Fialho, querendo
apontar-nos, no final da novella, a estatua que da sua memoria desbastou
Albano, é assim que a descreve:

«Era uma maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os
braços para invocar Deus, por um assombro de equilibrio lançada na
attitude de quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma
labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de extranha
belleza, era ao mesmo tempo um prodigio de audacia, palpitava, falava,
sentia-se soffrer e respirar, como uma creatura.»

Notavel trecho, de si eloquente até ao excesso, e bem de molde a
resuscitar a pobre Judith!

Entretanto, permitta-se-nos, ainda a tal proposito, um breve
parentheses, ou seja o glossario de faceis considerações, á conta
da sua esculptura.


É tão somente para frisar que, ainda em Fialho, como para o mais dos
plasticos portuguezes, a estatuaria é sobretudo narrativa.

O marmore da _Madona_ não é, effectivamente, um mero acaso da imaginação
do contista; bem pelo contrario, estava na logica da sua educação, pois
que lhe proveio directamente da mesma causa romantica, que ainda, ao
presente, determina o grande numero dos nossos estatuarios.

Ainda mais, o movimento liberal, que, entre nós, começou em 1820, deu á
Arte portugueza um motivo de ornamentação tão extranho como
detestavel,--a estatuaria rhetorica, se assim podemos defini-la e que,
de logo, começou a animar os nossos terreiros publicos, onde mais
ou menos todas as memorias discursam!

E, a tal ponto a nossa exuberancia de latinos, ligou ao gesto o seu
sentido de eternidade que, ainda hoje, reputariamos inverosimil, entre
nós, a estatua, á maneira ingleza, como significado de mera presença,--a
figura-marco, tal como surde, nas praças de Londres, menos como ficção
de vida, do que, pelo contrario, como uma forma abstracta, e a que o
Artista procura dar sempre aquella attitude quasi sagrada que,
definitivamente, volve em symbolos as memorias!


Comtudo, dado o facto do supremo poder de Fialho, como plastico, força é
admittir que bem foi para a memoria de Judith a sua estatua, tal qual
elle a trabalhou, como todo o drama de que circumscreveu a sua
prodigiosa e raphaelesca figura, a cuja decomposição, por fim,
assiste, indifferente, depois que ella, já morta, de «face marbreada de
roxo» e a «expressão carrancuda» por lhe terem arrancado a
mascara,--começa a abater, da sua gracil e suave forma de noiva dos
«esponsaes da eternidade...»


Finalmente, o ultimo conto das suas apontadas obras--_Os Pobres_,
comprehende um trecho curto, e, no entretanto, ainda mais notavel que os
anteriores.

E tão notavel que só a custo poderemos desarticular essa singularissima
peça de Arte, tal a selvageria que dá cohesão á novella, concebida para
alem de todas as ficções litterarias!

Trata-se dum casamento de monstros numas ruinas, de «duas virgindades
adormecidas», informa o narrador, que num momento vingam o amor
abstemio de tantos annos, e celebram, á cumplicidade de uma noite
tenebrosa, o seu brutal noivado.

Elle, o macho, é um ser desprezivel, vivendo de restos, especie de
cyphotico, aleijado pelo lapis de Velasquez; valente pela sua vida de
carreira, ao ar livre; humilde; torto e forte como um azinho; animal
corrido de todas as mesas, piolhento que as raparigas enjeitam e
escarnecem nos serões:--figura, emfim, perdida no «immenso irradouro»
que é, para elle, o mundo.

Segue da Vidigueira para Pedrogão ao acaso do vento, que o esfarrapa,
confundindo-o com a urze.

Leva-o o mesmo fim de sempre:--pedir, errar...

Vae por entre a esteva que o açouta; «o vento fala-lhe»; e, no emtanto,
elle nada ouve, caminhando á ventura, como um elemento deslocado da
mesma noite sinistra que o persegue...

Entra, por acaso, numa ruina, onde o guia primeiramente um resto de
brazido, depois um farrapo de oração, que sae dum canto, por fim o
cheiro da femea, uma sombra que escabuja a seu lado, e, num momento,
desdobra para elle fios occultos de uma voluptuosidade instinctiva, toda
animal.

Elle presente-a; e ella fala-lhe, numa voz que é um rôgo, de que elle
não sabe deslindar-se, até que começam de tecer-se novos fios do desejo
dos dois, do impulso mutuo que subito os impelle um para o outro, como
duas forças dum mesmo systema que a luxuria move e dão de si o ruido de
corpos escamosos, «rimando urros», diz o Artista, numa especie de
noivado de potestades, com ferezas e grunhidos de varrascos!

Tal o relato-impressão que do estupendo conto nos ficou, e pelo qual
chegamos, naturalmente, e, por ultimo, ao fim dos maiores recursos de
Fialho; e que, a partir deste momento, nos permittem averiguar da sua
obra em conjuncto, atravez das paginas exemplificadas, como daquelles
seus mais caracteristicos personagens.

Ora, o que, dumas e doutros, de logo se nota é que o mesmo titulo de
_Doentios_, que indica o seu primeiro livro, inculca tambem o grande
numero das suas figuras-motivos.

Entretanto, o que mal pode explicar-se, fóra do seu caso de raça, é o
segredo da sua forma, ainda tão exoticamente plastica,--como o seu
grande conhecimento da Arte pairante alem-fronteiras, e que,
cumulativamente, exerceu de par dos móres diabolismos, ainda e sobretudo
ao pretexto da nossa comedia publica. Como quer que seja,
propositadamente guardamos, para final do presente estudo, a analyse
generica destes recursos, de que, já agora, partiremos para a revolução
artistica que da sua penna levantou, sobretudo contra o pantano
classico, e rhetorica do momento.

A todos os formalismos, de facto, elle deu batalha, não só vencendo,
mas, mais ainda, trazendo á Arte novas intenções, de par de melhores
impulsos e novos rumos.

Houve contemporaneos, como João de Deus e Bordallo, cujo inauditismo é
tanto mais para admirar, quanto mais occulta nos deixaram a sua razão de
Arte.

Não é este o caso de Fialho, cujo genio reagiu sobre uma cultura
intensa, procurada como num anceio de quasi exhaustação.

Desde Balzac, o mais notavel dos mestres do pensamento novo, até aos
exquisitos Goncourts, lavrantes quasi diabolicos dos mil nadas mundanos,
apostolos da graça, como do mais extravagante japonesismo litterario,
todos os grandes contemporaneos elle conheceu e estudou; do mesmo passo
que o seu espirito, com escala por todas as representações de
Arte:--museus, revistas, theatros, escolas, industrias de luxo, por todo
o espectaculo, emfim, onde houvesse que aprender,--se repartiu, talvez
menos por enriquecer-se dos seus ensinamentos, que por colher as
suggestões que do seu interesse mais tarde desenvolveu.

Ora duma curiosidade de tal forma animada foi que, naturalmente, sahiu a
editar o melhor da sua obra, como tudo o que da sua sympathia pelo raro
elle poude discorrer atravez da sua dolorosa fadiga de
supersensibilizado!

Assim, tambem, talvez nenhum dos escriptores do seu tempo conseguisse
surprehender a Arte dos etherisados e extranhos cumes donde elle se deu
a vertiginá-la.

É ver as paizagens, quasi irreaes do seu lapis de crayonista; as suas
figurinhas hystericas de branda genealogia biblica; os seus aleijados;
as suas porcellanas, como todo o mundo phantastico da sua inegualavel Arte!


Tambem é de costume, tratando-se de Fialho, escrever do que vulgarmente
se considera a sua obra critica.

Não o faremos nós, ainda em attenção ao criterio proprio de que Fialho
não foi um critico, mas um impressionista.

E, a proposito, vem recordar o caso de Ramalho que, depois de uma vida
longa, perscrutando a canseira extranha, talvez menos pelo trabalho
de a corrigir que pelo vicio de a desfiar; depois duma fadiga insana por
ver do trabalho alheio, no proposito de deixar definitivas as suas
notações de pedagogo, sáe, por fim, a desculpar-se, na pagina derradeira
do seu papel de critico, denunciando a publico a sua aspiração até ahi
occulta,--imagina-se lá de que!--nem mais nem menos do que de poeta
lyrico...

E, comtudo, como é de estimar, a nova triste daquelle velho, figura
rigida de portuense, com suas tintas de trato inglez, escrevendo á
garrocha no couro endurecido de Portugal do tempo, afinal sobre o motivo
constante e commum a todos os criticos,--ácerca dos mais versateis casos
de gosto burguez!

Porque, fundamentalmente, foi o gosto burguez que elle tratou, embora
como uma especie de jogador de penna contra os cenaculos havidos
então como tradicionaes, e de que um acaso de civilização o fizera
transfuga.

Entretanto, é bem de archivar aquella sua pagina de contrição, ainda
como desfecho do seu ingrato mister. É que, de facto, elle era um
artista, e dahi o ter vindo a publico indultar-se, como em final
provação, dos seus cançados propositos criticos, se não legar-nos, á
hora da sua agonia litteraria, uma derradeira ironia...

Contrariamente outros dos seus melhores contemporaneos, e entre
todos:--Fialho, Eça, Bordallo e ainda Junqueiro (a despeito da sua
escravidão politica)--haviam sido mais do que reformadores da
Arte,--seus verdadeiros revolucionarios, isto no melhor sentido da
desacreditada palavra.

Vejamos, a traços rapidos, a acção que de um tal confronto advem, pois
que obteremos, assim, a par da divergencia dos temperamentos de
maior interesse na vida artistica do tempo,--a sua systematização e um
fim commum, ou tenha sido a notavel revolução litteraria que das suas
provas resultou.

Comecemos por Bordallo, bem por certo, ainda hoje, o menos estudado.

Raphael Bordallo, que conseguiu tornar poderosa uma arte, entre nós
desacreditadissima, mercê da chusma dos habilidosos:--a Caricatura, foi,
de facto, o genio em bruto, um oleiro de amalgama, misturando, na sua
masseira de Jove do tempo, toda a sorte de civilização, por mais
desencontrada; trabalhando, ora de phantasia, ora dos seus apontamentos
de rua; e, finalmente, editando-se, tal como Fialho, ainda por seu
innato valor.

Eça, talvez o de menos influencia, se bem que tambem o unico que
logrou admirações incondicionaes, foi, de facto, dentre todos, o menos
original, que não o menos brilhante.

No seu _atelier_ não faltou petrecho algum dos mais necessarios ao
arranjo dos seus livros de Arte, aliaz sempre duma belleza meditada, a
bem dizer medida, e em que perpassa todo um methodo opiado de ironias,
por entre as suas demais preoccupações de consciente marmorista e
penitenciario da prosa.

Finalmente, Junqueiro foi dentre as figuras litterarias do momento o
mais sagaz e ajustavel á sua extranha confusão.

Por isso tambem, logo que appareceu, se fez mister consagrá-lo, de par
dos seus alexandrinos, ainda undisonos e revoados, á Hugo, e que os do
tempo immediatamente se deram a ouvir, mais do que com attenção devida a
uma obra de Arte, religiosamente, como se nas suas rolantes e
evocativas estrophes o Poeta orchestrasse a propria musica do mar...


Mas deixemos propriamente o caso da acção politica por parte da geração
a que pertenceu Fialho para o vermos, a elle, tal como tem de ficar,
nessa outra revolução litteraria que sobreleva aquella, e á qual devemos
mais attento exame.

Fialho foi, bem por certo, sob tal ponto de vista, o maior do seu tempo,
pois que realizou um verdadeiro revolucionario da Arte, que, partindo da
admiração dos typos classicos, das paginas mais academicas, seguiu
directamente o filão popular, colhendo e escrevendo, sem o corromper, o
sentimento plebeu, sempre que este sentimento lhe poude expressar uma
verdade, ou refundir da phantasia situações e estados litterarios
novos.

E não se imagine que, ainda no capitulo menos original e mais facil da
sua obra, como pamphetario, elle deixasse de mostrar os melhores
ensinamentos e boa fé.

É ver o que nos diz duma possivel Lisboa monumental, á sua maneira; dos
seus propositos de substituição duma cidade á moderna, como a
fizeram,--facil e incaracteristica,--por uma cidade-memoria!

Ainda mais:--antes delle creara-se uma especie de constitucionalismo das
Lettras, aliaz sempre, mais ou menos regradas ao gosto classico, o
que, de egual maneira, satisfazia leitores e auctores...

Ora Fialho foi um dos raros que, entre nós, com melhor ousio praticou o
direito da escripta a flux, sem medos, como sem os bardos aramados
da covencional Litteratura anterior.


Muito justas as suas paginas de theatro onde versou a nossa
miserabilissima flora dramatica, e onde nem sequer teve a descontar á
auctoridade com que a viu a pecha dalguma vez a ter tentado. O que elle
nos diz dessas peçasinhas de acaso, que lá fóra seriam inverosimeis num
theatro de suburbio, e que, entre nós, tão facilmente são alçadas,
segundo a categoria jornalistica ou politica dos auctores, a peças de
grande effeito, por um publico, ás vezes educado, mas sem coragem para
patear ou sahir a meio da semsaboria em que, por via de regra, nos
nossos palcos, as peças decaem!

Da Hespanha do Sul, sua visinha, vimos como soube orchestrar a luz,
tanto do seu pincel, de par do mais da vida natural que, como ninguem,
teve o poder de aperceber.

Tambem elle, se vivesse em Hespanha, onde a sua intenção revolucionaria
seria inopportuna, teria completado, talvez, o capitulo mais desfalcado
de quanto escreveu:--referimo-nos, sobretudo, á sua maneira de tratar
figuras e seus demais esboços de novellista.

Entre nós, dados os multiplices acasos da mesquinhez publica, que
affecta a nossa vida de livraria, e onde a maior parte dos auctores, de
olhos fitos na _coterie_, raro sabe trabalhar independentemente,--elle
que começou por demolir, e demolir _à outrance_, gastando, a paginas
plenas, talento e nervos, deixou-se, talvez, desviar, demasiadamente,
pelas reclamações que do seu valor o publico exigia; e dahi
aquellas faltas, de que, por fim, a visão clara da derradeira hora lhe
deu os mais angustiosos clarões!

E, entretanto, se onde quer que está, chega a memoria do que vae
passando,--com que surpresa ha de sentir (se lá ha surpresas) tudo isso
que para ahi ficou após de si!

É que, bem péor do que no seu tempo, os Artistas são hoje, para o grande
numero dos mentores officiaes, meras figuras de acaso, cujos agoiros
elles, os revolucionarios de hontem, por cautela, se dão a amordaçar; e,
isto sómente, porque se não perturbe a troça a que a Nacionalidade
desceu,--ou seja uma ceia de politicos, pela cerrada noite fóra, que vem
de longe, e onde um teclado de dentes, instrumentando o desforço de
fomes velhas, nem sequer deixa ouvir, por attenuar, a voz dos
_baccarats_...

Mas abandonemos, por uma razão de sensibilidade, a noticia do
inopportuno festim.

E pois que, sobre uma tal noite, acertou de baixar escuridão mais
tragica, a que ameaça de subverter a raça, que, ainda por sua admiravel
fatalidade, terá de triumphar,--vamos nós inventariando tudo o que ao
presente de grande existe e futuramente possa servir-nos.

Ora, no extranho conjuncto da nossa obra escripta, já hoje
extrema,--têem, como acabamos de ver, o maior interesse, as paginas de
Fialho, quer no seu valor intrinseco, quer pelo que representam em
confronto com os demais e alheios padrões de Arte.

Uma obra, unicamente, elle não teve de seu intento; e, conseguintemente,
não logrou escrever, como a não escreveram, talvez, por a supporem então
menos necessaria, os que o precederam, e que, no entretanto, de
momento, se torna preciso, quanto antes, compor, ainda por servir
aquelle resurgimento.

Reportamo-nos, (quem ainda o não sentiu?) á falta de um _Manual de
Sensibilidade_, o que equivale a informar--duma nova Cartilha, com
destino á futura mocidade portugueza, e onde caibam as delicadezas
porque sempre nos affirmamos, ainda atravez do mais accidentado da nossa
jornada historica; e que hoje, mais do que nunca de opportunidade é que
desde já occupem quem, para alem de todos os sectarismos--sinta, mais do
que por si, pela Nacionalidade, a carinhosa obrigação de as versar!

Trata-se, de resto, dum livro facil, pois que nos não é preciso mais do
que editá-lo dum bem orientado sentido popular, ou seja do nosso velho
espirito de generosidade e isenção, aliaz, de si, ainda latente,
quando não expresso, na obra dos nossos maiores auctores,--tambem,
quanto a nós, os melhores, se não, até hoje, os unicos interpretes da
verdadeira alma de Portugal.


_Ancede_, novembro de 1916.

    [2] Propositadamente, e á sua maneira, _pelas suas proprias
    palavras_, e tambem «como quem junta uma esculptura de bocados»,
    entendemos dever reunir, ainda por melhor o revelar, aquellas suas
    mais entranhas e quasi confessadas caracteristicas.

    [3] E não se infira destes seus receios o argumento simplista da
    improbabilidade do seu suicidio, pois que, muito ao contrario,
    aquella versão pode denotar, quem o sabe? como que o seu
    aprestamento, com as costumadas alternações de desespero
    e intimidades com a Morte, de facto habituaes á maior parte
    dos que voluntariamente a provocam.



INDICE


    I
                                    Pag.
    Cuba e Villa de Frades           7

    II

    A indole de Fialho              33

    III

    O Pamphletario                  51

    IV

    O Artista                       79



                      ACABOU DE SE IMPRIMIR
             NA TIPOGRAFIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA»,
                 RUA DOS MÁRTIRES DA LIBERDADE, 178,
                    AOS 14 DE FEVEREIRO DE 1917.





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