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Title: Aquela Família - Tipos, caricaturas e episódios provincianos
Author: Patrício, Ladislau, 1883-1967
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Aquela Família - Tipos, caricaturas e episódios provincianos" ***

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                            Ladislau Patrício


                             Aquela família...


               (Tipos, caricaturas e episódios provincianos)



                             1914--COIMBRA
                             MOURA MARQUES
                            Livreiro editor
                     19, Largo Miguel Bombarda, 25

                     *       *      *      *      *


                             Aquela família...



                     *       *      *      *      *

                          TIPOGRAFIA PROGRESSO
                      DE DOMINGOS AUGUSTO DA SILVA
                       Rua Dr.  Souza Viterbo, 91
                              Porto--1914

                     *       *      *      *      *



                            Ladislau Patrício


                             Aquela família...


               (Tipos, caricaturas e episódios provincianos)



                             1914--COIMBRA
                             MOURA MARQUES
                            Livreiro editor
                     19, Largo Miguel Bombarda, 25

                     *       *      *      *      *



Aquela família...


Aquela família...

A princípio eu ia só, numa carruagem de _segunda_, o que me permitia
desfrutar o panorama e gozar uma relativa comodidade. Mas mais adiante,
numa estação qualquer, mal o comboio parou, a portinhola abriu-se e o
meu compartimento foi invadido de assalto por uma família inteira que
atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível, com malas,
embrulhos e cestinhos,--uma infinidade de volumes!

O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma
senhora pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um
garoto, de marinheiro, magrinho, linfático e triste.

Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas a subir. E quando a
máquina apitou e o trem se pôs em marcha com um ranger de molas e de
engates, ainda nós todos dispúnhamos a bagagem amontoada nas proporções
dum Himalaia.

Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente,
o dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor,
pediu-me licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó.

--Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a
exigir tanga...

Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm,
ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim
uma índole comunicativa, inquiriu satisfeito:

--O cavalheiro vem de Lisboa?

--Não senhor. Eu sou da Beira.

--Da Beira!... Então é de Vizeu?

Sorri de novo, discretamente, respeitando as noções corográficas do
viajante simplório, que o acaso colocára assim na minha presença.

Apressei-me por isso a confirmar:

--Sou de Vizeu...

--Nesse caso conhece lá o Gastão?

--O Gastão?!

--Sim, o Gastão Vieira, dos Impostos.

Achei divertido conhecer o Gastão. Recordei-me:

--Ora se conheço! Estou doido! Conheço perfeitamente...

Mas depressa caí em mim, reflecti que podia ser colhido na mentira. Foi,
portanto, para eximir-me a perguntas que ferviam já nos lábios do
companheiro que eu perguntei do meu lado:

--E V. Ex.ª? V. Ex.ª é daqui dêstes sitios?

--Sim senhor. Mas agora vamos para banhos. Isto que o sr. aqui vê (com
um gesto circular indicava a família) pertence-me. O rapaz é fraquito,
tem escrófulas (apontava o pescoço do fedelho) olhe!--Dizia-me o dr.
Maia... Conhece?

Declarei que não.

--Pois admira... Espere, agora me lembro: deve conhecer. Êle até costuma
ir muito a Vizeu. É irmão do padre Levi, Levi da Maia, duma
família muito ilustre que tem uma irmã viscondessa. O sr. conhece com
certeza...

E como eu insistisse na negativa:

--O padre Levi, homem! o que escreve no _Vouga_... Não conhece o senhor
outra coisa!

Tive de lhe dizer que sim.

Havia-me insinuado já no ânimo duma das meninas com quem entretinha
desde a última estação um namôro matreiro: e apontava-lhe como flechas
os olhos amorudos, dardejando-me ela os seus, redondinhos, negros,
sertanejos...

--Pois o dr. Maia,--tornava o pai--dizia-me muita vez: «Alves, leve você
o rapaz ao mar; leve você o rapaz ao mar que se cura.»--Mas ó doutor,
veja lá, tenho agora tantos afazeres (e tinha) se o rapaz fôsse coisa
que se pudesse aí endireitar, que demónio, tomando umas drogas...«--Não,
não, sem banhos não se põe direito.»--Que havia eu de fazer? Que fazia o
senhor nas minhas condições?

Esperou resposta; e como lha não désse:

--Saía, não é verdade?

--Pois claro!

--Foi o que eu fiz. Mando arranjar as malas, tranco a porta, meto toda
esta tropa no comboio... e cá vamos!

--Faz muito bem.

--Acha?...--poisava a sua mão sapuda na minha côxa, todo familiar.--Acha
então o cavalheiro que faço bem?...

--Mas isso nem se pergunta! aplaudi sem reservas.---Mesmo que não
houvesse precisão, que infelizmente há; bastava só a ideia de irem gozar!

--Gozar! Mas olhe que se gasta um dinheirão!

--Pois gasta. E isso que tem? A gente não vive só do que mete no
estômago. É preciso ver, dar de comer aos olhos.

--Dar de comer a quê?

--Aos olhos...

--Huum! mugiu.

Não percebêra. Suava com o calor, nas fontes, nas bochechas, mórmente
nos refêgos do cachaço, duma grande riquêsa de tecidos celulares...

Entrou depois a divagar sôbre economias expondo-me numa franqueza saloia
o orçamento da viagem; e tentou por último explicar pela hereditariedade
a compleição mórbida do filho:

--Isto é de familia! O avô dêle, meu pai, tambêm assim era: sempre
doente, sempre com remédios. Mas a avó, é curioso! robusta, còrada,
parecendo que vendia saúde... Eu, aonde me vê, nunca tive uma dôr de
cabeça! Mas já um tio que nos morreu há três anos...--Voltou-se para uma
das filhas:--O tio Aristides...

--Ah!

E relatou o que era êsse tio, com os seus achaques, suas mazelas, seus
ungùentos e seus tumores supurativos, em salvo lugar...

Alves dispunha-se em suma a fazer-me seguir todas as ramificações
patológicas da sua ascendência! Passei a não lhe responder, dizendo-lhe
a tudo _que sim_, com a cabeça.

E a rapariga, de lá, muito meiga...

No meio desta felicidade, porêm, a certa altura--na altura de
Ovar--passou-se um episódio triste, de que fui vítima, o qual produziu
profundo desgôsto em todos nós. Fôra o caso que, sobranceira ao meu
lugar, ia uma cesta; senão quando, aí se põe ela a mijar sôbre mim, no
meu chapéu mole, qualquer gorduroso líquido em fio... Ergo-me dum pulo.
Houve um alvoroço no compartimento. Alves gritou: «oh, demónio! oh,
demónio!»

Entretanto alguêm explicava que tinha sido o môlho do peixe que se
entornára...

O môlho do peixe!

Eu tinha então já tirado o meu chapéu e olhava desolado a nódoa negra,
enorme, que alastrava, se embebia no feltro da aba, inutilizando-o sem
remédio!

Côro de lamentações e desculpas:

--Ora esta!

--Uma assim!

--Só a nós é que acontece...

E de coração alanceado, com ancias de espancar aquela gente bárbara, eu
ainda ganhei fôrças para lhes dizer:

--Não faz mal; não se incomodem. Até tem graça! Pelo amor de Deus!...

Ocorreu todavia aqui uma coisa galante que me cativou: essa das duas
meninas que me havia já endoidado o coração, num movimento impulsivo e no
mais aceso da balbúrdia que se estabelecêra, tira do seio o lencinho de
assoar e veio enxugar com êle a nódoa indelével.

Esquivei-me desvanecido:

--Oh, minha senhora...

E com o lenço enrolado à laia de esponja, ela ia chupando, chupando...

--Se calhar era novo...--disse-me, a meia-voz.

Respondi:

--Era novo.

--E bom?

Fiz um gesto de grandeza:

--Dezoito tostoes!

Alves voltou-se espantado para a espôsa, que segredou a importância a
outra filha, a quem o irmãosito--que viera à janela do vagom a ver a
máquina--pedia choramigando e arregalando um dos olhos que lhe
tirasse um _algueiro_...

Daí a momentos o comboio parava:

--Espinho!

Era a estação onde êles se apeavam. Alves foi o primeiro a levantar-se;
tirou a carteira e entregando-me um bilhete ofereceu-me os seus «fracos
préstimos», pedindo mais uma vez desculpa do desastre. As senhoras
cumprimentaram igualmente e quizeram tambêm que eu as desculpasse. Eu
desculpei-as. E a mãozinha da minha efêmera namorada, ao despedir-se,
tremia como um passarinho, quando lha apertei numa pressão
significativa. Segui-a com a vista até desaparecer pela porta da
estação; e numa derradeira vez que ela se voltou a olhar-me, não sei,
mas ia jurar que lhe vi lágrimas...

Encostei-me então a um canto, sorumbático, a fumar. O meu espírito
oscilava como um pêndulo entre a suave lembrança daquela trigueira (eu
ainda lhes não disse que ela era trigueira) e a ideia negra do meu
chapéu manchado. Ambos perdidos já agora para mim! ambos, pela
fôrça do Destino! Pela distância que ia separar-me dela para não mais
talvez a tornar a ver; pela mácula que dêle me apartava para nunca mais
porventura o poder usar!

Encarava eu filosoficamente a situação por êste lado, quando á janela do
compartimento assomou de novo o focinho do Alves, a farejar-me, a dizer:

--V. Ex.ª faz-me um obséquio? Não se esquece, quando regressar a Vizeu,
de me recomendar muito ao meu amigo Gastão. Eu, tambêm, quando lhe
escrever, hei-de falar muito de V. Ex.ª e da simpatia que nos inspirou a
todos. Criado de V. Ex.ª...

Ouviram-se os sinais da partida. Estendemos as mãos cordialmente; e ao
pôr-se o comboio em andamento, Alves, com a minha dextra apertada, lembrou:

--Ah! E que lá recebi as pêras... Diga-lhe tambêm isso, sim? Deliciosas!
Deliciosas!

Corria junto da carruagem, ao longo da _gare_, gritando ainda a plenos
pulmões:

--Deliciosas!

      *       *      *      *      *



A bôca do sapo


A bôca do sapo

    _Interior caseiro, modestamente mobilado. CARLOS e MARIA CELESTE
    conversam sentados, junto duma mêsa. A voz dêle tem um timbre
    imperativo e enérgico; a dela é aveludada, melodiosa, humilde._

    _Tarde de novembro. Ameaça chover._

CARLOS

Compreendes que me seria muito desagradável que alguêm soubesse o que
tem havido entre nós...

MARIA CELESTE, _como se despertasse_:

Ah!... o que tem havido...

CARLOS

Ou o que possa porventura haver ainda... Porque eu, apesar do que vai
acontecer, não quero romper comtigo duma maneira absoluta. Não se
vive impunemente três anos com uma mulher. És uma rapariga de
coração--não to digo para que mo agradeças; e sinto que não devo
abandonar-te...

MARIA CELESTE

Não, Carlos, enganas-te; eu nunca mais serei tua, haja o que houver.
Nunca mais!

CARLOS

Endoidecêste?!

MARIA CELESTE

Creio que não endoideci. Vamos separar-nos, hoje, por toda a vida. Se
alguma vez nos encontrarmos já não serás o mesmo homem... nem eu a mesma
mulher. Não nos conheceremos.

CARLOS

Ora! ora!

MARIA CELESTE

Afirmo-to!

CARLOS

Terás essa coragem?!

MARIA CELESTE

Se terei essa coragem!...

CARLOS, _após uns momentos de reflexão, conciliador_:

Bem, não compliquemos as coisas: deixa-te de criancices.

MARIA CELESTE

Criancices?!

CARLOS

Decerto. Não consegues convencer-me que essa tua resolução seja inabalável.

MARIA CELESTE

Verás.

CARLOS

Ou nunca me tiveste amor.

MARIA CELESTE

Seja: nunca te tive amor...

CARLOS, _apreensivo_:

E talvez. Se fosses minha amiga não te resignavas facilmente a
perder-me. Havia de custar-te a suportar um abandono, quanto mais...

MARIA CELESTE

Por isso mesmo,--porque sou tua amiga...

CARLOS

Palavras...

MARIA CELESTE

Não quero tornar-me um fardo para ti.

CARLOS, _que principia a indignar-se_:

Palavras! Palavras!

    _Faz-se silêncio. Os dois ficam absortos, sem se olharem._

CARLOS, _com uma serenidade forçada, momentos depois_:

Não queres certamente atribuir-me a responsabilidade do que sucedeu...

MARIA CELESTE

Nem tenho êsse direito.

CARLOS

Sabes muito bem como as coisas se passaram.

MARIA CELESTE

Sei.

CARLOS

Não ignoravas que um dia eu havia de me casar.

MARIA CELESTE

Não ignorava.

CARLOS

Tive a franqueza, a lialdade de to confessar muito antes de me pertenceres.

MARIA CELESTE

Tiveste.

CARLOS

Tentei até por varios meios evitar a tua falta. Lembra-te que fôste
minha por tua livre e espontânea vontade!

MARIA CELESTE

Lembro, lembro...

CARLOS

O teu acto foi, portanto, premeditado...

MARIA CELESTE

Pois foi.

CARLOS

Não representa o cego impulso dum momento de paixão que eu ateasse, com
a mira numa conquista. Eu disse-te: «Maria Celeste, pensa,
reflecte, olha o que te póde suceder... esquece-me». É isto verdade?

MARIA CELESTE

É.

CARLOS

Só tu fôste nêsse caso responsável. Fôste tu que assim o quiseste...

MARIA CELESTE

Fui eu que assim o quis.

CARLOS

Pois bem. E agora, quando podia abandonar-te sem remorsos, apenas com a
amarga saùdade do que tens sido para mim; e que venho oferecer-te,
desinteressadamente, a promessa de continuar a ser para ti um amigo, um
protector... alguêm...

MARIA CELESTE, _com tristeza_:

Alguêm!...

CARLOS

Sim! E repeles-me, afastas-me como se eu fôsse o pior, o mais grosseiro,
o mais indigno dos homens!

MARIA CELESTE

Carlos!

CARLOS, _fóra de si_:

Oh! a ingratidão!... A ingratidão!

    _MARIA CELESTE cala-se, sucumbida. Os olhos arrasam-se-lhe de
    lágrimas; e ficam assim os dois numa nervosa hostilidade, êle a
    passear na sala, resmungando censuras, e ela chorando, muda e
    convulsivamente, sôbre o lenço molhado._

MARIA CELESTE, _dominando a comoção_:

Não quero que me consideres uma despeitada. Justifico a tua cólera, as
palavras severas que me diriges, tudo, emfim, porque te
compreendo... porque te estimo. Ainda bem que reconheces que eu não fui
para ti uma amante vulgar. E não fui. Amei-te com um amor verdadeiro,
livre, sem condições. É certo que me aconselhaste, que me preveniste a
tempo, mas... de que servia? Só quem não ama sabe interpretar conselhos
e ouvir razões... Quantas vezes, comigo, no isolamento do meu quarto,
calculei a profundidade do abismo em que cairia se me deixasse levar
pelo coração. Pobre de mim! Mil vezes deliberei não te receber, mil
vezes não te falar mais, nunca mais! Mas apenas subias aquelas escadas e
ouvia o ruido dos teus passos... oh! então, o meu juizo turbava-se, as
minhas mãos arrefeciam, a minha alma, o meu corpo, a minha vida inteira,
fugiam para ti! E pensava: é o Destino...--Uma tarde, uma noite, sabes
bem o que se passou... Era o céu, era a felicidade que se me deparava.
Sabia que isto não podia durar sempre, que tudo acabaria depressa... que
havias de te casar: tu disséras-mo!... Mas achava-me tão bem, tão
contente de viver assim, que não pensava, não queria pensar que
essa hora amarga chegaria breve! (_Comovida_:) O que me prendeu a ti,
sobretudo, foi a tua franqueza, êsse mixto de compaixão e indiferença
que por mim professavas, os melindres da tua consciência, a previsão do
que poderia resultar, na certeza de lhe não dares remédio... Tudo isso
me tentou, me seduziu como uma coisa terrível que se teme--e que
irresistivelmente nos atrai...

CARLOS, _condoído_:

Fui para ti--pobre dòninha inconsciente e louca!--uma espécie de bôca do
sapo, queres dizer...

MARIA CELESTE

Fôste o meu único, o meu exclusivo amor na vida! (_Fita-o nos olhos
penetrantemente_). Anda, diz'-me lá se isto não é assim, se isto não é
verdade?!...

CARLOS, _impressionado_:

Ouve-me, Maria Celeste, escuta...

MARIA CELESTE

Não, não! não posso... não teimes.

CARLOS

Sê razoável...

MARIA CELESTE

Não teimes. Quero conservar-me sempre digna de ti.

    _Há um silêncio concentrado._

CARLOS, _numa ideia repentina_:

E se eu desistisse de casar? Ou antes, se te dissesse para casares
comigo?...

    _Olha-a com ansiedade._

MARIA CELESTE, _resolutamente_:

Não aceitaria.

CARLOS

Quê!?

MARIA CELESTE

Não aceitaria. Pelas cinzas de minha mãe, acredita!

CARLOS, _abismado_:

E porquê?!

MARIA CELESTE

Porquê?...

CARLOS

Sim.

MARIA CELESTE

Porque tens uma noiva, porque empenhaste a tua palavra. Depois...

CARLOS

Depois...

MARIA CELESTE

Porque me não amas, Carlos...

CARLOS

Mentes!

MARIA CELESTE

Como queiras... (_Pausa_) Eu fui para ti apenas isto: uma pobre rapariga
que te interessou: uma curiosidade, uma aventura...

CARLOS

Uma aventura! Mas devo-te o que não devo a ninguêm!

MARIA CELESTE

?!

CARLOS

A tua honra. Déste-me a tua honra!

MARIA CELESTE, _com simplicidade_:

Pois nada mais tenho que te dar...

CARLOS

Como dizes isso!

MARIA CELESTE

Digo o que sinto.

CARLOS, _depois duma longa pausa_:

E que has-de fazer agora? Queres continuar a viver como vivias?

MARIA CELESTE, _encolhendo os ombros_:

Sei lá!...

CARLOS

Podias ter sido feliz com outro homem...

MARIA CELESTE, _convictamente_:

Não o podia ser com mais ninguêm.

CARLOS

Sacrifício inutil...

MARIA CELESTE

Não há sacrifícios inuteis nêste mundo, meu amigo... Demais, tu fôste
para mim o que tinhas de ser... Não és culpado do meu infortúnio.
Estou satisfeita, crê,--recompensada. (_Tentando convencê-lo_): Tu não
fizeste mais do que aproveitar uma mulher que se te oferecia...

CARLOS, _enternecido, toma-lhe as mãos, que beija_:

És uma santa! (_Com uma infinita saùdade a transparecer-lhe na voz_) E
lembrar-me que amanhã tenho de deixar-te!...

MARIA CELESTE

Paciência...

CARLOS

... que nunca mais tornarei a ver-te! que nunca mais porei aqui os pés
em tua casa!

MARIA CELESTE

Nunca.

CARLOS

Nem que um dia precise de ti?

MARIA CELESTE

Nem que um dia precises de mim.

CARLOS

É o fim de tudo, visto isso?

MARIA CELESTE

De tudo.

CARLOS, _num movimento impulsivo, de protesto_:

Não, Maria Celeste, não é! Renuncia a êsses teus propositos. Eu não
posso, não quero deixar-te.

MARIA CELESTE, _incrédula_:

Não queres...

CARLOS

Não quero. Duvidas?

MARIA CELESTE

Duvido. O que te impressiona agora é a minha presença. Quando saíres
daqui tudo se desvanecerá como fumo...

CARLOS, _sucumbido_:

Tudo se desvanecerá!

MARIA CELESTE

Sim. Repara que eu fui para ti simplesmente--uma amante...

CARLOS

E então?

MARIA CELESTE

Acabou tudo nêste dia em que começo a tornar-me um embaraço para a tua
felicidade...

CARLOS

Maria Celeste: juro-te!

MARIA CELESTE

Não jures. Tu no fundo sentes isto mesmo, mas não tens coragem de mo
dizer... És bom, tens dó de mim. Mas nem todo o teu dó, nem toda a tua
bondade conseguem dar-me a ilusão de que sou amada!...

A que horas partes amanhã?...

      *       *      *      *      *



Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1906)


I



Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1906)


I

Nasci em 74--eu, Teotónio Mendes, de muito boa família.

Tenho, portanto, actualmente (1906) trinta e dois anos.

A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali
aperta sempre muito.

Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados)
no verão a que se referem êstes acontecimentos, mal se respirava. As
fontes secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes
nuvens de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol.

Horrível!

Ha quatro mêses que não chovia. Moviam-se préces ao Altíssimo,
celebravam-se procissões, missas--_ad petendam pluviam_--mas do céu
afogueado e sêco... nem pinga!

_Cumulus_ de trovoada, no horisonte longínquo, relampejavam em noites
caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo môrno de canículas.

Dizia-se, farejando as alturas:

--Isto é que vai ser! isto é que vai ser!

Os dias sucediam-se no emtanto ronceiros, bocejados, com um firmamento
implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.

O termómetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Êste Anselmo,
farmaceutico, grande influente político na localidade, era com efeito
uma figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em
questões de pêso, dava as leis e orientava a mentalidade sertanêja da
vilota.

Mesmo os mais orgulhosos e independentes, senhores do seu nariz,
sofriam a sugestão infalível daquela poderosa vontade.

--Ali, na Turquia...--dizia por exemplo êle.

E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois
passos, que podiamos lá chegar se quiséssemos,--a pé!

Anselmo todavia nunca viajára. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três
dias, e viu a Galvâni no Coliseu.

--Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.

--Um rouxinol!

Já essa noite no club, o fidalgo da Véla, homem na verdade muito
entendido de música, recomendava:

---É preciso ir a Lisboa... à Galvâni. Diz o Anselmo que é um rouxinol.

Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de
amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fóra,
caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que
trouxesse marca de tão abalisada procedência, dava sempre coisa
que se visse, convertia-se logo em rialidade: fôsse uma árvore, um
baile, o itenerário num cortejo, um espectáculo--um urinol.

Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo
professava pela espôsa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguêm
diante dêle referisse factos menos edificantes ou alarmasse a
assistência com a nova dalgum moderno escandalo em supuração, comentava
ruborisado e colérico:

--Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o
que todo o homem limpo deve fazer.

Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons
sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a
sua enorme fealdade--uma «fealdade específica», como diz
Camilo--prestava fiança idónea.


Além do termómetro havia tambêm na farmácia um barómetro. E todos os
dias amigo Anselmo informava a vila e arredores com aquele rigor
meticuloso, scientífico, aquela probidade verdadeiramente spartana, que
era um dos ornamentos hereditários do seu caracter...

Ninguêm saía da terra, ninguêm projectava uma viajem, um passeio, que
não fôsse primeiro consultar o Anselmo:

--Que diz você?

E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia:

--Póde sair, homem; vá descançado que não chove.

Ou então:

--Deixe-se ficar; o barómetro desceu e temos água.

Sei até de pessoas que atribuiam tamanha autoridade a Anselmo em
assuntos meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a
observar-lhe:

--Demónio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fôsse
coisa que se pudesse arranjar, sr. Anselmo...

Êle não se perturbava, não achava aquilo de mais, respondia:

--Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha paciência.

Quem é que sentia frio ou se queixava de calor emquanto Anselmo não
manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio?--Anselmo batia
o dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo
transpirava? As janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as
brazeiras...

Não era só respeito--era mêdo!

Nessa altura, por exemplo, o boticário decretára que havia um calor
excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era de mais, que uma tal
temperatura se não aturava, uff! que havia um calor excessivo...

Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que «talvez andando nu...». Pois
surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se
como êle dizia...

Pela uma hora Anselmo examinava o termómetro (chamava-lhe: _a coluna_)
primeiro à sombra, metódicamente, em seguida aos raios directos do sol,
na soleira da porta.

Freguês que após esta operação penetrasse na farmácia era antes de
mais nada avisado pelo Anselmo dos graus que atingira a temperatura
ambiente:

--Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar!

Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo
pano com que enxugava as garrafas dos remédios.

A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:

--Já viu o termómetro? Quantos marcará hoje o termómetro do Anselmo?

E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fóra:

--Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termómetro do Anselmo!

Desapertavam-se os colêtes...

De facto, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas
ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor.
Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente
exalações pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos
jornais, as janelas do quarto entre-abertas, o pavimento borrifado
com água; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de
papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconisára.

Saía só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a
respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os
homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito
lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos--da transpiração diurna.


Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo
Felizardo--Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto--convidando-me a ir
passar com êle uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia
nêsse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito
conhecer-me.

No verão iam sempre para lá, dois mêses, a regalarem os pulmões viciados
do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais
intensa da vida agricola.

Adorável amigo!

Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em
par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e
pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar,
senhores! Eu ia emfim ver êsse Minho pitoresco de que ouvira sempre
falar com tanto entusiasmo.

Fui ao telégrafo e expedi para _dr. Vieira Leite_ o seguinte aviso:
«Chego àmanha».

As delícias do progresso!

Jámais apreciára como nêsse jovial momento esta coisa cómoda e vulgar
que se chama--o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda
vinha a parafusar nas belezas da Civilisação,--contente, reconhecido...


De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me
dobrára em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do
boticário. Nunca balançára com mão subserviente o turíbulo da Fama com
que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor sombra de
prosápia e sem querer censurar ninguêm,--apenas para estabelecer a verdade.

Eu sou um apóstolo da Verdade!

Mas que razões me déra Anselmo que justificassem, até à data, a minha
frieza, o meu desdêm, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal,
portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte
caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortêsmente se queria alguma
coisa «para êsse Minho»?

Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um
enxame de moscas poisava na gaze suja que revestia o candieiro de metal
suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sôbre o pano fundeiro, lia-se no
vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo
dum emblema galénico:

    LABORATORIO

Avancei, anunciei-lhe o objecto da minha visita. O boticário ergueu a
fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho,
rosnou por entre dentes:

--Boa viagem!...

Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai
não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes,--das minhas...

Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.

Dei umas voltas fóra do balcão, meio acobardado, com um terror
supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.

Coisa esquisita!

Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só
coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu!
teria rialmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das
trovoadas?

Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que
mais não fôsse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro
duma rajada acintosa, sôbre a minha cabeça ímpia.

Mas...--protestava uma voz do fundo de todo o meu ser
angustiado--o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha
humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que
o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sôbre o
meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!

Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e
varonil, a liberdade de pensar e de procedor de toda uma pequena aldeia
de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da
evidência e da subtil análise, o que êsse insignificante valia por
dentro--como homem e como divindade!

Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento,
quebrando-me as forças, jugulando-me,--nem que alguma poderosa mão
invisível estivesse ali sôbre mim suspensa e pronta a estrangular-me à
primeira voz.

--Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!

E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava
indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sôbre um pedaço de mármore
polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais
cariciosa das maneiras:

--E que me diz o meu amigo do tempo?...

Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me
pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a
surpreza que a pergunta lhe causára. Vi-o sorrir; e mirando o barómetro
(ou o termómetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador.
Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da
reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe
na intimidade... Que bom! Que pechincha!

Nessa altura porêm, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta a
dentro com os braços no ar, exclamando:

--Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?

Fitámo-lo surpresos.

Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.

--Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem
encobrir o seu mau humor.

E o outro, com muitos gestos, esbaforido:

--O ministério! caiu o ministério!

E sentou-se por já não poder.

Anselmo largou a espátula:

--Que me diz?!

--Olhe, veja!...--murmurou sufocado.

E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho:
«ministério em terra, chamado João Franco, parabens.» Não era preciso mais!

Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha
da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça,
doido com a história.

--Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó
Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!

E esfregava as mãos de contente.

--Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que
se vai ver o que é governar!

O boticário quase não queria acreditá-lo. «Ficára banzado!» E o Menezes,
vociferando:

--Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer,
tudo! E eu, e você, e os mais,--os que trabalhâmos--a pagarmos para
aqueles piratas!

Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que
prosseguia irado, numa linguagem perversa:

--Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!

E já frenético, em altos gritos:

--É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!

Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta,
enxotava, explicando:

--Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se
embora!

Um dos garôtos porêm, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para
dentro, pelos vidros da outra porta,--a ver se via o ministério no
chão...

A Anselmo continuava no emtanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim
tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria
balela?

O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze
fartára-se lá de fazer asneiras, e antes dêle toda a gente sabia que
quem governava não era o Zé Luciano: era a mulher.

Tomou fôlego, prosseguiu:

--Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o
outro... (fez um gesto com o polegar na direcção da raia) o de Espanha,
nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se
apresentar! Uma vergonha!

Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.

--Olha o Teotónio! Você aí!--disse, dando por mim.--Desculpe, não tinha
reparado... Então que diz a isto?

--Eu?...

--Sim, que diz você a isto?

Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E êle:

--Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas
alturas foi a sorte grande para o país!

Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:

--É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a
câmara. Creio que agora...

--Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmaceutico, modesto--o que eu
quero é que me deixem. Teem aí muita gente...

Menezes não via, não achava:

--Muita gente! Aonde?...

Foi então que eu, Teotónio, julguei oportuno intervir:

--Se me dão licença, direi que sou tambêm do parecer do amigo Menezes...

--Diga, diga! aprovou êste.

--É impossivel na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o sr.
Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade e
proficiência o papel de presidente do município.

--Apoiado!

--Haja em vista,--justifiquei, voltando-me para êle,--o que V. Ex.ª fez
da outra vez por ocasião da gréve das leiteiras!

--Ora, ora...--desdenhou Anselmo.

--É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes.--Está na memoria de
todos. De todos!--repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.

--Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes
acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos
de dias!

--Um alimento de primeira necessidade...--avolumou o jornalista.

--Vai então o sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu.
Lembro-me como se fôsse hoje da memorável sessão a que assisti e em que
V. Ex.ª sossegou a população, declarando que uma gréve dessa natureza
seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite,
fôsse feita pelas próprias vacas...

--Sim senhor...--confirmou o Menezes.--Lembro-me perfeitamente; eu
tambêm lá estava. Por sinal que estreei um fato nêsse dia...

--Emfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o
melhoramento entre nós do carro do lixo?

Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:

--A êle!

--A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?

--A êle!

--A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?

--A êle! a êle só!

--Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me!--bradou o boticário
rialmente confundido, levando as mãos ao crâneo--Eu sou um humilde
trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os
amigos. Nada mais!

--Êsse pouco...

--Mas quanto a política, francamente, confesso--estou farto; estou farto
dela até aos olhos!

--Isso diz êle agora, isso diz êle agora, murmurou o Menezes,
piscando-me o ôlho.--Olha quem, o régulo!

Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás
afogueado:

--Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termómetro?

Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto,
num gesto omnipotente, informou:

--Desce!

--Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!

E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.


Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e
preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a
opinião autorisada e justa...

Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com
efeito um extravagante acontecimento.

Eu nunca fôra, porêm, um político interessado. A dizer a verdade, não
sabia mesmo se aquele facto, na aparência sensacional, representava uma
vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrára jámais
inclinado para êstes ou para aqueles. A ser um franquista, um
progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma--que é
para o que eu me sinto rialmente com vocação...

Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha
animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que--seja
dito de passagem--significava uma grande segurança para a
inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão.

Todas estas considerações eu adusi a Anselmo, que me fitava e sorria
satisfeito.

--Mas porque caíria o Hintze? indaguei.

Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:

--O rei, entende? que tem um medo dos rèpublicanos que se fina (isto
aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que
os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguêm mais
nas condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se
lhe constar, _verbi gratia_, estando aqui, que lá fóra a uma esquina há
um homem com um cacete á espera dêle--acredite--é quando lá passa mais
depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!

Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E
quando Anselmo terminou:

--Efectivamente, o João Franco...

Anselmo benzeu-se:

--Ah! meu amigo: é um colôsso!

Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada
preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar
o hino da carta.

--Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?

--Era; mas passou-se para os nossos há-de haver um mês. É um convicto.

--Parece.

--E brioso; um cavalheiro.

--Parece.

--Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fóra do têsto...

--O Souto? Ah! sim... Mas êsse é um trampolineiro!

--É. O sr. fala-lhe?

--Ás vezes, por cortesia...

--Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no club, diante de
quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicára não era do
Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine!--do Navarro, do
Emídio Navarro!

--Patife!

--... que tinha vindo nas _Novidades_ já não sei há quantos anos, e que
o Menezes o fôra copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.

--Patife! patife!

--O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos--êle que é um
esturrado!--agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma
destas coças...

--Bem feito.

--De manhã já o Menezes aqui me tinha dito a mim, furioso:
«Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um
côrno».--Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.

--Anda-me.

--No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai
o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cór, homem!

Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.

E com pesar:

--Já não vai; paciência!

--É pena.

--Mas digo-lhe o final, descance, que êsse é daqui...--e beliscava o
lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o
polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma
pontinha de malicia nos olhos: «Diz D. Bazílio que da calúnia alguma
coisa fica. Não temêmos, porêm, etc., etc., etc....» Repare agora: «Os
aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço.»
(Anselmo sublinhava: _como zagalotes no aço..._). «Todo o mundo sabe que
só usamos o que nos pertence...» (_Piscadela de ôlho do Anselmo_)
«Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos
ou as joias das amantes: _Meneses dos Santos_».

--Isso é medonho! comentei.

Emquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:

--«O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes»! Refere-se á mulher do
notário... Genial! genial!

Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao
procedimento do Souto, que fôra indecente.

A conversa decaíu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o
com a vista, distraído.

--Então sempre vai amanhã? perguntou-me.

--Sempre vou amanhã.

--Pois o tempo está firme. A _coluna_ desceu, mas descance que não há-de
haver novidade. Isto conserva-se.

Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:

--Pode ir descançado...

--O sr. Anselmo não quer para lá nada?--perguntei.

--Não; quero que tenha muita saúde.

Fitou-me carinhosamente:

--E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um
abraço.

Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me;
e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.

--Até à volta!

--Até à volta!...

O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo
à porta, dizia-me adeus de lá,--com a mão...

      *       *      *      *      *



Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1912)


II



Sr. Anselmo


(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)


(1912)


II

Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em
Lisboa o movimento revolucionário de outubro.

Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens
hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, rôxas como canelas de
perdiz, pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança
bárbara, grotesca, entre uivos e assobios.

O filho mais velho do caseiro fôra a Moimenta pelos jornais e por
tabaco, e a encomendar a carne do dia imediato, que era dia de
matança na vila.

Não devia tardar.

D. Ermelinda arranjára a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas
assadas, raras naquela região e muito frêscas,--nem que Nagosa fôsse um
braço de mar e as houvessem ali pescado nêsse instante... No fim, para
assentar, chá,--um cházinho de cidade, loiro e aromático, dando a nota
apurada da civilização após aquele _menu_ de cavadores.



Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não
espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com
a notícia de que estalára a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e
incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo
funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em
deligência, espalhára a novidade e disséra que Lisboa, a essa hora, era
um mar de sangue!

Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desânimo por tudo
isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente,
mentiroso e gabarola, fôra a última trave que ruira do desmantelado
edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, êle, Anselmo--homem de
processos sóbrios--veementemente reprovára, deixára o país em alvorôço,
debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente
tímida, com um rei no trôno «que não era rei nem era rainha», figurita
débil e epicena de maricas.

--Havemos de ir longe! profetisava com melancolia.


A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da
noite, por um labrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não
o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobresalto.--Qual
seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o govêrno? Venceriam os
insurrectos? E depois: a intervenção extrangeira?...

Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos
horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens,
violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, prêso, fusilado a uma
esquina! Êle estava dispôsto todavia a declarar, sob sua palavra de
honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a
mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...

--Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu
rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E
confirmada a notícia, comentou:--Pois bem... Nós cá não temos nada com
isso; lá é com êles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. Rèpública ou
Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa
noite!


Havia lua cheia.

Anselmo antes de se ir deitar saíu para o terraço da casa a respirar um
pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à bôca.
Murmurou arreliado:--«A mania de comer a esta hora há de acabar.»

O arzinho do campo, porêm, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe
o rosto afogueado.

Sentou-se num banco, á fresca, de colête desabotoado e a fumar.

De dentro, atraves duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou
esganiçada:

--Ansèlminho, olha a bronquite!

Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em
relevo as silhuetas da paisagem larga, beirôa, de vegetação sombria e de
penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas
scintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...

Murmurou, regalado:

--E é que já daqui não saio, emquanto a coisa se não decidir...


A 5 de Outubro estava a Rèpública definitivamente proclamada em
Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho de Anselmo
começava a ferver nas dornas.

De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importancia
da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os rèpublicanos tinham já
içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delirio na
população. E o brazileiro de Cabaços deitára meia dúzia de foguetes que
se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns
novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no oiro vivo do
sol outonal.

Anselmo debruçou-se sôbre o lagar, farejou o môsto, teve um sorriso
feliz de proprietário favorecido, e chamando o caseiro:

--Ó Jose, o vinhito êste ano parece-me bom, hein?

--Parece que sim, meu padrinho...

Era afilhado.

--A uvazita fundiu... dizias que não.

--Houve mais que eu sei lá!

--Pois sim, mas...

Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.

Tirou do bôlso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na
ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas
pitadas de tabaco francês; limpou depois êle próprio as mãos sujas do
rebordo da dorna a que se agarrára, a umas palhas que ali topou a geito,
e pôs-se a fazer um cigarro, trauteando a _Portuguesa_.


O primeiro desgosto sério que êle sofreu depois da Rèpública, foi com a
_lei da Separação_.

A mudança de regimen, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a
realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças
assoberbavam êste pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio,
vingança, perseguição, fanatismo. Impressionára-o bem, ao começo, o
facto de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos,
quem guardára, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente
endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de
substituirem as antigas côres constitucionais pelo vermelho e pelo
verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra _verde_ com
intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a
mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos
sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no
edificio da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo
republicano.


Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no
país, pouco a pouco, outros, menos tranquilisadores e festivos.
Tinham-se efectuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos,
antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes;
principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva
Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organisar um
exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho
ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe:--«Vamos!» tudo
marcharia à uma sôbre as cidades e daí sôbre Lisboa, engrossando,
rolando, com a fôrça duma vaga e o barulho dum trovão!

O Govêrno Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no emtanto as
suas medidas de defeza, ordenava prevenções rigorosas nos quarteis. As
redacções dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens
armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo,
espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas
janelas, no meio da rua.

E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de
efervescência, que o govêrno se lembra de perseguir os bispos!

Anselmo indignava-se:

--O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir
semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.

Alguêm lhe ponderou que não, que o govêrno não pensava em perseguir
ninguêm; que não era êsse o espírito da lei; que o Estado o que não
devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotónio
Mendes, republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e
firmêsa estas sensatissimas explicações.

--Cale-se! vociferava êle, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não
diz se não asneiras. A Rèpública tem de ser tolerante se quizer viver!
Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que
se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública
está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!

Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.

--Pódem-me prender, se quizerem, que eu direi sempre a verdade. A
verdade é só uma!

E cheio de provas, revoltado:.

--Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na
miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão
(emendava): com família numerosa.

Em volta houve um silêncio aprovativo.


Tudo mudára, na verdade...

Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia, as mãos atrás das
costas, a meditar no futuro do país. O barómetro marcava tempo sêco--e
lá fora chovia! A _coluna_ indicava uma temperatura alta, e Anselmo
tinha a certeza de que era falso. Aquilo queria dizer que andava tudo às
avessas, que ninguêm se entendia neste país, que a indisciplina
reinava--até no tempo!

Não havia doentes: há 15 dias que o movimento farmacológico era
insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos
acontecimentos, gerando nos cérebros ideias insubmissas...

--V. Ex.ª é que é o sr. Anselmo Nogueira?--perguntou a meia voz um
desconhecido que entrou, descobrindo-se.

--Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja?

Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do
sujeito e se prepara para se pôr a salvo, no caso de perigo.

--Não se assuste, disse-lhe o recem-chegado, observando aquele
gesto,--eu não sou quem pensa... pelo contrário.

--Ah!

--Sou dos _fieis_. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...

E levou a mão ao bôlso. Anselmo segurou-lhe no braço, palido:

--Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela.

E foi à porta espreitar. Não havia ninguêm. Chovia.

--Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.

E encostando a porta de vidro fôsco do laboratório:

--Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós.

Todo êle tremia.

O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima
incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua
seriedade insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e
munições. Assinava a carta, em nome de Paiva Couceiro, «um amigo da
Religião e da Pátria.»

Anselmo gaguejou:

--Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas,
desde já lhe digo, meu caro sr., que as pistolas não... Escusam de
contar comigo para semelhantes aventuras. A minha casa é muito
freqùentada, tudo meche e remeche... não há esconderijos...

--Nesse caso...

--Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem
contar apenas com o apoio moral.

O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança;

--Ah! olhe: e estricnina e sal de azêdas, à descrição...

O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.

--Diga-me cá, inqueriu ainda Anselmo interessado, com a mão dêle
apertada,--o nosso Paiva Couceiro como ficou?

--Bem.

--E o rei, tem-no visto?

Não o tinha visto. Estava em Londres.

--Coitado! aquele tambêm... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados
meus, sim?

O indivíduo misterioso prometeu, saíu da botica.

--Oiça, oiça! A Ermelinda, minha mulher, tambêm se recomenda. E à D.
Amélia. Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente.

Fez-lhe uma mesura aparatosa:

--Meu caro senhor...


Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios
fronteiros, a ver se alguêm teria dado pela visita, e tornou ao
laboratório, ruminando o caso, arreliado por se ter esquecido na
perturbação que o invadira, de perguntar o nome do tipo. «E a gente às
vezes a supôr que ninguêm nos conhece, que não consta, que se não sabe
lá por fóra! Ai Anselmo, ai Anselmo!...»

Tirou do bôlso a carta comprometedôra, levemente amarrotada; acendeu um
fosforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência,
reduzindo-a a cinzas.

O documento!

Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia, a correr, sem chaile, a
pedir linhaça para o sr. administrador que estava a morrer com uma cólica.

Anselmo estremeceu. Para o sr. administrador? Fingiu que ia servir a
mulher, e de repente:

--Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça.

--Não tem linhaça?!

--Não tenho. Acabou-se-me.

--E agora?

--Agora... deve chegar amanhã.

--Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!

Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia
trair-se, não podia mais.

--No outro mundo?!

--Sim, no outro mundo; se o sr. o visse!

Anselmo, porêm, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: «mas se êste é
dos tais que a monarquia não poupa quando voltar; se êle está fatalmente
condenado pela revindicta... Deixá-lo ir já!»

--Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...

--El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão,--o
que o sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há
mais boticas!

Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguêm,
fazendo escândalo:

--É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia,
o talassa, e esquece-se das obrigações...

O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas emfim, tudo eram
sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros
viriam--se viriam!--com larga usura e gratidão...

--Talassa! Talassa!...--gritava a mulher.

--Pois sim...


A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores
assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a
existência do novo regimen. Fugiram. A notícia do fracasso voou
por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela
criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios,
gemeu, disse à mulher que mandasse vir o médico.

--E para a farmácia, quem vai?

--Vai a senhora, rosnou, de mau humor.

E abafou-se na roupa.

O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do
caso. Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a acção nos
mínimos detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último,
convencido da derrota, da inanidade daquele esfôrço ridículo, perguntou:

--E dos _nossos_, quem foi?

--Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber.

--Sim, dos rèpublicanos: quem é que o govêrno mandou a correr aquela
tropa fandanga a ponta-pé?

O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença:

--Não sei; creio que ninguêm; nem se pensou em tal, ilustre
correligionário...


Á tarde, Anselmo poude sair. Não tinha febre. O intestino desatou a
funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.

--Mas que ideia aquela, dizia êle, no club, a uma roda de amigos
embasbacados,--que ideia aquela da restauração! São doidos!... A
Rèpública tem, não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a
reconhecê-lo; mas tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar
para que as novas instituições sejam aquilo para que as creámos.--Não é
isso, Teotónio? rematou, voltando-se para mim, que o escutava transido.

E com descaramento:

--Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no
tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por
histórico.

Eu, moita.

--Você não fala? não diz nada?

Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar de indignação
contra aquele farçante; mas ao mesmo tempo sentia--como sentíamos todos
aliás, diante dêle--que nem que fizesse ou dissesse o dôbro do que dizia
e fazia, algum de nós teria a coragem de o desmentir!


Assim se consumou pois a adesão solene do sr. Anselmo a Rèpública. Tudo
o que veio a seguir, gréves, intentonas, zaragatas, a incursão de
julho... tudo, numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e
jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que
se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos _democráticos_. E o
ódio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e
de noite.

Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotónio e
o administrador (aquele administrador que êle quis matar) e o Menezes
jornalista, que tambêm já era _democrático_. Assistiu ao jantar, fez um
brinde condenando o Clero, «êsse Clero infame a que pertencêra, não se
sabe porque caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo bispo daquela
terra!». Falou depois de Viriato, e terminou com um viva à Rèpública que
atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava.

O ministro, sensibilisado, ergueu-se para agradecer. Discursou
pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a
todos que o acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira,
«figura prestimosa da Rèpública, homem de bem às direitas, livre
pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda.--Hip! hip! hip!
Hurrah!».

As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotónio, batendo com
a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:

--Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da
propaganda, ouviste? Que desafôro!

O administrador comentou:

--E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e
de opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!...

Eu puz-me a considerar, palitando os dentes.

--Então e nós? indaguei por fim, despeitado.

--Nós? nós? Essa agora! Nós não saìremos nunca da cêpa torta, meu
velho... Este Anselmo, êste farmaceutico, que ali vês recostado numa
cadeira, é o modelo do político português. Maioral no tempo da
monarquia, maioral se vai tornando dentro da Rèpública. Era de esperar!
Pois se os monárquicos é que prepararam isto com os seus erros, se êles
é que deitaram a monarquia a terra, não achas justo que quem plantou a
vinha pense tambêm agora em comer os cachos?...

      *       *      *      *      *



Candidinha Cerdeira


(Novela romântica)



Candidinha Cerdeira


(Novela romântica)

    «Pasmei, como a gente pasma até certa idade, das maravilhas que se
    fazem no coração das raparigas.»

                                                            CAMILO.

Em casa da D. Leonor, viuva do juiz Cerdeira,--que era irmão do afamado
cónego Amorim Cerdeira, vigário geral na diocese d'Angra--falou-se muito
toda essas noite na vinda do novo professor do liceu.

Chamava-se Hipólito e trouxera a irmã, Alzira, rapariga loira que usava
uns chapeus enormes e punha beladona detrás das orelhas para fazer os
olhos bonitos...

Era uma excêntrica. A história da vida e obras de certa princezinha
otomana, filha dum velho imperador de Constantinopla, extravagante
até à loucura em matéria de garridice, lida num volume que o irmão lhe
emprestára, pô-la em termos de aspirar a utopias: desejaria banhar-se
num lago d'aguas perfumadas, ungir o corpo d'óleos aromáticos, ter um
jardim suspenso e uma multidão de escravas que fossem todas as manhãs
colher o orvalho das flôres... para ela refrescar o rosto.

Custára-lhe imenso a deixar Lisboa e vir assim encafuar-se numa
aldeia,--porque era positivamente uma aldeia aquele feio e triste burgo
d'aspecto desolado e monótono, onde não conheciam ninguêm.

Emfim, para quem trazia os nervos combalidos dos sobressaltos e
incertezas das grandes horas da Revolução, aquilo até certo ponto
convinha. Tinha amenidades de paraiso a paz pôdre, o sossêgo vegetativo
e pacovio daquela terra pequena, com sua vida imutável, seus hábitos
conservadores e sedentários, um modo bisbilhoteiro de vir às portas e às
janelas espreitar, e certo _centro_ palreiro de maledicência e política,
que logo lhes disseram ser ali a loja do _amigo Palma_.

Quem pôs a cidade ao par de toda a biografia do professor e da irmã foi
o Malafaia, o grande bacharel Malafaia, de quem o dr. Marim, médico do
partido, dizia: «--Êste não se formou: formáram-no...»--Conhecia-os de
lhe terem sido apresentados há anos na Figueira da Foz. Alzira
confessou-lhe agora, quando os visitou, que gostava muito da cidade.

--O quê! sério?

Sério. Dava-se bem com os ares, que eram puros, saudáveis, e com a água,
magnífica! Apenas uma única coisa a contrariava devéras: ter de viver
num hotel..

Malafaia reconheceu que havia em todas aquelas referências uma pontinha
de malícia.

--No hotel? disse.--E porque é que V. Ex.^as não arrendam uma casa?

--Porquê? Ora essa; o doutor nem conhece a sua terra... Porque as não há!

Rialmente não as havia. Que aborrecimento!

--Eu não sei o que os senhores fazem ao dinheiro...--tornou Alzira,
achando móle e carregando.

--Tambêm o não há...--respondeu o bacharel.

Todos riram com a resposta. O professor declarou no emtanto achar-se
resignado, contente... Apesar dêsses pequenos defeitos--e qual era a
terra que os não tinha?--aquele meio era delicioso.

--Só esta pacatez!...

E abeirou-se da janela, encheu os pulmões do ar puro que vinha das altas
montanhas distantes.

--Quer saber? murmurou,--minha irmã, a primeira noite que aqui ficámos,
não conseguiu pregar ôlho...

--Então? Porquê?

--Por causa do silêncio!


D. Leonor vivia com a filha, Maria Cândida,--a Candidinha--que andava
agora nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de
congestão cerebral. Reunia aos sábados. Iam quase sempre o juiz da
comarca e a mulher; o sr. Xavier--o _Xavier das massas_--solteirão
abastado e artrítico; o dr. Marim e às vezes uma D. Josefina, tambêm
viuva, que fôra operada por êle duma doença d'útero. Tudo gente de
idade. Maria Cândida aborrecia-se daquela vida. A mãe andava sempre a
dizer-lhe:

--Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes.
Endireita-te! Que há de dizer a outra gente.

O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta,
interessante, em tudo revelando um carácter diferente da vulgaridade.
Dedicára-se-lhe por isso com um entranhado amor de pai, em certas
ocasiões surpreendendo-se a chamá-la, a acarinhá-la como se ela
rialmente fôsse do seu sangue... Tambêm, a cachopinha, logo de tenra
idade correspondia àquele amor; e quando o médico, a brincar, lhe
perguntava se queria ir com êle, fugir da mãe para longe, a petiza
saltava-lhe ao pescoço, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,--lá no
fundo a desejar que êle a levasse... D. Leonor sorria; intimamente
porêm desgostava-se. Desenvolveu-se à pressa, espigou dum dia para o
outro, Maria Cândida. Todos diziam:--«Está uma senhora!» E deu então em
andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a mãe se alarmar,
perguntando ao médico o que seria. O médico ria-se, receitava:

--Banhos... Água p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a saír, não a prenda
em casa, que estas idades querem sol...

Maria Cândida tinha-lhe dito um dia:

--A mamã quer-me para freira, não há dúvida. Tem medo que eu saia,
proíbe-me que chegue a uma janela, não me deixa mecher se não nos livros
do tio Cerdeira, que são todos em latim. É pior!

O médico ficou a ruminar a gravidade daquele comentário; «é pior!»;
distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decoração
da sala, onde D. Leonor recebia aos sábados. A rapariga tinha rasão:
educar, pensava êle, é formar seres conscientes, livres, não é torcer
aptidões e tendências naturais por forma a amoldá-las ao próprio
interesse de quem educa. Dizer a alguêm: «has de ser isto ou has de ser
aquilo, porque eu quero, porque convêm, porque é assim», e não admitir
sequer que êsse alguêm raciocine, ou sinta, ou queira doutro modo,--é um
absurdo. Tão grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado momento,
exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer...

O médico, por fim, demorou os olhos sôbre um enorme quadro exposto numa
das paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental:
palmeiras, filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino
barbinêgro, prosternado, osculando o solo poeirento, onde poisára o
cajado de larga crossa e as babuchas de palha de arroz...

O dr. juiz nunca via aquilo que não exclamasse:--Lindo!--e encavalava a
luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre.

Maria Cândida sentou-se ao piano. Imprimia ao que tocava um movimento de
embalo, vagaroso e triste, que tanto podia traduzir a influência
duma vida pendular, claustral e monótona, reflectindo-se-lhe nos
sentimentos, como a aspiração vaga e inquieta duma alma que procura no
ritmo da música o ritmo do vôo...

Conheceu Hipólito num domingo, à saída da missa, onde o professor fôra
acompanhar a irmã. Malafaia, que aparecia em toda a parte por um
maravilhoso dom de ubiqùidade, mal os avistou, fez as apresentações.

D. Leonor não gostou. Aconselhára-a o sr. Xavier que não quisesse
relações com semelhante gente: «gente de Lisboa, sabe? uma educação
muito livre.» E torceu o nariz, fez o gesto vago de quem prevê calamidades.

Durante a missa Maria Cândida notou que o professor a fitava com uma
curiosidade insistente. Tinham ficado todos, casualmente, em cima, no
côro. Através dos balaústres ela via o padre ao fundo, oficiando; e
atrás, enchendo a comprida nave, o povinho das aldeias que vinha aos
mercados semanais.

Hipólito ficára junto de Alzira, que trazia como sempre um chapéu
escandaloso, e observava os menores gestos de Maria Cândida. Viu-a abrir
o livro, persinar-se, bater no peito devotamente quando o padre
consagrou a hostia e ergueu o cálice e, no silêncio religioso da igreja,
o som da campainha vibrou, duas vezes, com solenidade e cadência.

Um raio de sol filtrou a sua luz pura por uma das altas janelas da nave
e foi refractar-se nos pingentes dum lustre de cristal pendente da
abóboda, incidindo por fim, já irisado, no cabelo, nas faces, no manto
azul duma Senhora das Dôres, que chorava no altarzinho duma das capelas
laterais... Maria Cândida resou-lhe uma oração fervorosa e a Virgem
pareceu sorrir por entre as lágrimas, agradecer, no seu banho de luz--no
que Maria Cândida viu um sinal de bom agoiro...


Quando lhe apertou a mão, cá fora, e a poude observar à claridade crua
do meio dia, perto de si, Hipólito ficou encantado. Era o tipo sonhado,
inédito, da beleza inculta, da simplicidade provinciana. Tinha na fala
o sotaque da pronúncia beirôa, autêntica, sibilante de _ss_; e
nos olhos um ar assustadiço, implorativo e meigo, de herbívora.

A caminho de casa, Alzira disse ao irmão:

--Se um dia te desse para o casamento, gostava que casasses com uma
rapariga assim...

E êle:

--Quem havia de dizer que numa terra destas!...


D. Leonor guardava a filha como um dia santo. Não a votava decerto,
estèrilmente, ao celibato, mas reservava-lhe um destino a seu gôsto. Não
a tinha trazido no ventre? Não a tinha criado, educado, sofrendo por ela
penas e reveses? Sabe Deus!

--Quando se tem a tua idade, prègava-lhe, não se pensa, não se reflecte,
deixa-se a gente levar pelas aparencias; mas depois... Teu pai, quando
casámos, não tinha vintêm,--e diziam que era esperto... Ao princípio
vi-o muita vez a chorar, a arrepelar-se, a pensar em morrer. De que lhe
servia a esperteza? Serviu-lhe mas foi o irmão, que era um homem de tino
e de fortuna, com amigos a valer que lhe arranjaram o despacho...

Maria Cândida escutava sem retorquir. Percebêra que a mãe queria casá-la
com o Xavier.--O Xavier! Um velho! um antipático que usava meias de lã
ásperas como urtigas, que desabotoava o colete depois de jantar e,
sobretudo, que podia ser avô dela! Metia-lhe horror e repugnância tal
ideia. Nunca! Nem que tivesse de ficar solteira, como as tias de
Freixinho...

Uma amiga do colégio--a Matôso--tinha-lhe jurado que o professor andava
com boas intenções; que aquilo não era um passatempo; que lhe afirmára o
Malafaia--sabes? o Malafaia que agora me faz a côrte...--que o casamento
era infalível.

Ela punha-se com evasivas:

--Pois sim... Eu então já ouvi dizer que era comtigo...


Entretanto o namôro progredia. Não era segrêdo para ninguêm que se
carteavam e que tinham entrevistas do mirante do jardim. Em toda
a parte se comentava isto: a paixão do professor do liceu e da
Candidinha Cerdeira.

E amiudava-se o caso, referiam-se pormenores excitantes. Havia quem
tivesse visto o professor, feito Romeu, trepar por uma escada de corda
para o muro do quintal! Méra invenção, claro. Mas o Matos do govêrno
civil tambêm vira--porque via sempre tudo e jurava ser verdade por duas
filhas que lá tinha em casa.

D. Leonor deu conta que Hipólito lhe passava repetidas vezes à porta,
que se pespegava horas e horas no estabelecimento da esquina a olhar
para as janelas. Estremeceu de angústia! Deu terminantes ordens à filha,
que passou a habitar os aposentos interiores do prédio. O sr. Xavier
tinha-lhe abertamente declarado, submetendo-se a tudo:

--Arranje a sr.ª cá e chame-me quando fôr preciso...

Era o momento!

Mas, sendo mulher, fraca, portanto, e irresoluta, quis estribar-se na
opinião do médico, pessoa tambêm da sua inteira confiança.

--A minha opinião? disse-lhe êle.--Mas alguêm tem que dar para aí a sua
opinião?

Ela encarou-o com espanto, sem compreender.

--Entendo que um casamento deve ser feito à vontade dos que se casam,
explicou o médico.--Casam bem? casam mal? Lá é com êles...

--Perdão, interrompeu a viuva.--Eu, que sou a mãe, tenho naturalmente
que intervir dalgum modo na orientação, ou na escolha...

--Conforme, minha sr.ª, conforme... Se se trata apenas de orientar, de
dirigir a sua filha nêsse passo, está bem; mas propriamente a _escolha_,
é a ela só que pertence. Os filhos não são--como muita gente póde ainda
erradamente presumir,--uma legítima propriedade dos pais... Os filhos
são pessoas independentes, com direitos, com atribuições...

--De maneira que o doutor condena a minha atitude? Entende que eu devo
desinteressar-me por completo do futuro da minha filha?...

--Por completo!? Mas quem pensa nisso? Por completo, não, evidentemente...

--Bonita doutrina, não haja duvida, murmurava D. Leonor sem o ouvir,
fula, mordendo o beiço, batendo nervosamente com o leque no joelho,
repetidas vezes.--«Casa-te, casa-te p'r'aí, rapariga, com o primeiro que
te apareça...» Haviamos de vê-las bonitas, se assim fôsse!...

O médico desistiu de discutir.

--Bem! rematou, erguendo-se,--para terminar: quer V. Ex.ª um conselho,
um conselho de amigo, de pessoa que conhece um bocado a vida e que tem
levado muito ponta-pé e aprendido à sua custa o pouco que sabe? Quer?

D. Leonor não respondeu.

--Não obrigue sua filha a casar com semelhante homem.

--Ora essa! Com quem quer o doutor então que ela case?

--Sei lá! Mas naturalmente com quem ela quiser...

E pôs termo.


D. Leonor não desanimou. A manobra do casamento com o velho seguiu seus
trâmites. Na cidade a indignação era geral. Para mais havia constado a
scena da entrevista com o médico, as suas discordâncias, o ligeiro amuo
subseqùente...

--Víbora! víbora! dizia-se.--O dr. Marim bem a conhece...

E formulavam-se as piores insídias: que o ilustre Xavier era amante da
D. Leonor e que impunha agora o casamento com a filha sob pena dum
escândalo.

Havia quem gostasse disto, havia quem não gostasse; a maioria dizia:

--É bem feito! aquilo não se faz...

No cúmulo da revolta, Malafaia, em verdadeiros comícios nas lojas,
lembrava que era preciso salvar aquela criança custasse o que
custasse... E com teatral entono, instigava:

--É preciso ir lá (fazia o gesto de quem aponta uma Bastilha) arrombar
as portas e pôr a infeliz no ôlho da rua!

A coisa estava neste pé.


Certo dia o dr. Marim recolhia a casa, cedo, para almoçar. A criada, uma
velha servente encarquilhada e sêca como uma casca de noz, a coxear da
sciática, disse-lhe, mal êle se poz a desdobrar o guardanapo:

--Então, já sabe? A menina Candidinha parece que já não casa com o sr.
Xavier. Está desfeito.

O médico teve um gesto de mau humor irreprimivel:

--Lá esta você! Todos os dias novidades! Quando é que esta criatura se
cansará de dar novidades?

E desatou a rilhar o bife sem vontade. A velha rodou sôbre os
calcanhares, saíu da sala.

--Pois é tudo cheio cá na cidade, insistiu quando voltou.--A menina
julgo que sempre confessou...

--Confessou o quê, mulher?

--Olha o quê! O que já corria: que é amante do professor...

O médico ergueu-se de golpe, lívido, transfigurado, fazendo
recuar até à porta a pobre velhota espavorida de o ver assim:

--Crédo! santo nome de Deus! mas que tem? murmurou, supondo que o médico
fôra acometido de loucura.

--Você ouviu isso?

--Ouvi, sim senhor.

--A quem? Aonde? Diga.

--Por aí, diz-se em toda a parte; é tudo cheio...

Êle levou ambas as mãos ao crânio. Esteve assim, sem se mover, sem dizer
palavra, por espaço de alguns minutos. Depois arremessou o guardanapo,
empurrou a cadeira, pediu o chapéu e a bengala para saír--e saíu,
deixando a mulher boquiaberta, sem perceber coisa nenhuma.


Quando, uma ou duas horas depois, subia as escadas da casa de Hipólito,
o dr. Marim ia cabisbaixo, taciturno, como se uma grande dôr o tivesse
trespassado mortalmente.

Estivera com D. Leonor que lhe confirmou entre recriminações e prantos a
tremenda nova da desonra da filha. Fôra ela, a dissimulada, quem
se denunciára--com um descaramento, uma serenidade, um cinismo, calcule
o doutor, que deixava a perder de vista as maiores desavergonhadas da
terra! E era sua filha! D. Leonor não sabia dizer como se contivéra e
porque a não estrangulára... Sua filha, tinha dito? Não! Maria Cândida
morrêra! Essa que ainda ali conservava, a dentro do seu lar, por uns
restos de comiseração, mas que nunca mais quereria ver, não era sua
filha: era uma mulher perdida!

E o sr. Xavier? Ah! êsse então, coitado, tinha ficado como morto.
Compreende-se... Porque Maria Cândida levára a sua audácia até ao ponto
de dizer tudo diante dêle, diante das criadas e dos convidados,--era um
sábado--alto e bom som, para que não se perdesse pitada: «A mãe queria
casa-lá com o Xavier das massas, por dinheiro; pois bem, ela afirmava
ali terminantemente que não casaria: primeiro, porque o detestava;
segundo, porque tinha um amante, o professor!»

--Veja o meu amigo, agora, o que foi fazer! comentou o dr. Marim,
voltando-se para Hipólito, a quem acabava de expor a situação com esta
nitidez.--Que cabeça a sua! Que responsabilidades!

Hipólito sorriu ligeiramente, murmurou:

--Até que ponto nos podem levar os desvarios do amor, doutor, não é assim?

--É assim mesmo, concordou o médico.--Mas um homem nunca tem nada a
perder com estas coisas; agora uma rapariga!...

--Perde tudo.

--Sim, tudo!

Houve um silêncio.

--O sr. não andou bem, Hipólito, confesse, não andou bem...

--Eu?...

--É claro.

--Na sua opinião, pelo menos, doutor... Já me cheguei a convencer de que
sou rialmente um canalha... pois que como tal procedo...

--Leviandades, leviandades...--atenuou o médico.--Eu habituei-me a ver
em Maria Cândida uma espécie de filha, desde muito nova. Não
admira. Tive-a nos braços quando nasceu, pequenina, vi-a depois medrar,
crescer, fazer-se mulher à minha vista--afeiçoei-me. Que quer?
Emfim...--limpou uma lágrima que lhe rolou ao comprido da face--coisas
da vida!

Depois, apreensivo:

--O sr. o que pensa fazer agora?...

Hipólito ficou sem responder, um bocado, com o espírito absorvido num
pensamento cruel e longínquo, que o fazia empalidecer.

--Vou confiar-lhe um segrêdo, disse, por fim, numa resolução
firme.--Devo-lhe muitas atenções e custar-me-ia sinceramente que o
doutor ficasse formando de mim um conceito menos lisongeiro...

--Fale, meu amigo, fale, disse o médico ancioso por o
ouvir.--Prestar-lhe-ei, creia, toda a atenção. Fale...

Hipólito hesitou; aprumou-se, procurando dar às suas palavras um tom
solene, de grande sinceridade.

--Maria Cândida não está culpada; Maria Cândida não é, nem nunca foi
minha amante!

--Que me diz?!

--A verdade! Maria Cândida é tão virtuosa, hoje, tão pura e imaculada
como na hora em que pela primeira vez a encontrei. Não me acredita?
Juro-lhe.

O médico fitou-o, desconfiado, surprezo.

--Conhece esta letra? disse Hipólito.

E colocou-lhe diante dos olhos um papel cuidadosamente retirado da
carteira.

--Conheço. É a letra de Maria Cândida.

--Pois é. Leia!

O médico obedeceu. E quando terminou, os olhos arrasados de lágrimas,
deixou-se caír sôbre uma cadeira, p'ra ali, varado de espanto.

--É assombroso!

Hipólito arrancou-lhe das mãos, trémulas pela comoção, a carta, cujo
final releu em voz alta: «... Pois bem. Afirmarei, ou darei a perceber a
todo o mundo que sou tua amante; dêste modo nenhum outro homem me
quererá...»

--É assombroso! repetia o médico estonteado.--E é uma criança! é uma
criança que faz disto!...

Emquanto Hipólito, a chorar, concluia:

«Se me desmentes... mato-me. E tu bem sabes--sim, tu bem sabes!--como eu
sou capaz de cumprir fielmente o que prometo...»

      *       *      *      *      *



Eureka!



Eureka!

    "--Je vous demande pardon: vous étes bien monsieur Boubouroche?"

                                                         COURTELINE.


ACTO I

    _No escritorio dum advogado._

O CLIENTE

Chamo-me Teodorico da Silva, negociante, com estabelecimento de bebidas...

O ADVOGADO

Sim senhor. Faz o obséquio de sentar-se.

O CLIENTE

O meu caso é simples, conta-se em breves palavras. Sou casado, e minha
mulher... minha mulher engana-me, descaradamente, com o primeiro
caixeiro da casa.

O ADVOGADO

É então uma acção de divorcio que o senhor deseja intentar?...

O CLIENTE, _presuroso_:

Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (_Pausa_). Eu me
explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou
tambêm um temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso,
por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha
vida--e já tenho cincoenta anos--peguei numa arma! Isto tudo vem para
lhe explicar o motivo porque não matei minha mulher ontem à noite quando
entrei em casa e a vi com _êle_, em doce colóquio amoroso, mais que
amoroso! sôbre um canapé de estimação...

O ADVOGADO, _interessado_:

Sim senhor.

O CLIENTE

Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes,
preciso evidentemente dar uma satisfação ao mundo, que seja, ao
mesmo tempo, uma satisfação à minha consciência. Posta de parte, pois, a
ideia duma solução violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex.ª se
referiu há pouco, isto é--o divorcio.

O ADVOGADO, _interessadíssimo_:

Sim senhor...

O CLIENTE

Mas o senhor não sabe--porque não é casado--o que são vinte e tantos
anos passados com uma mulher...

O ADVOGADO, _impressionado_:

Faço ideia...

O CLIENTE

Não. V. Ex.ª não póde fazer ideia. É tudo a prender-nos, sabe? É a
companhia, as inclinações, o paladar... Emfim, em conclusão, o divorcio
por coisa nenhuma deste mundo.

O ADVOGADO, _cofia a barba e medita apreensivamente no caso_.

O CLIENTE

Pensei então noutra coisa...

O ADVOGADO, _ancioso_:

Diga!

O CLIENTE

Pensei então em despedir o caixeiro. (_Sinal de aprovação do advogado_).
Mas aqui outro grave obstáculo se levanta! O caixeiro é um antigo
empregado da casa, muito conhecedor do assunto; é êle, póde dizer-se, a
alma do negócio! Despedi-lo seria ver fugir a freguezia, ver ir tudo por
água abaixo... sem apelação!

    _Ficam os dois calados. Ouve-se a respiração alta do cliente, como
    um estertor._

O ADVOGADO, _erguendo-se_:

Pois meu caro amigo, visto isso, não sei; não sei o que deva
dizer-lhe... (_Estende-lhe a mão pesaroso_). O melhor de tudo é ter
paciência: a paciência é uma virtude...

O CLIENTE, _desalentado_:

E o mundo? E então o mundo o que dirá? o que dirá?

O ADVOGADO

O mundo dirá que o meu amigo é uma excelente pessoa, que sua mulher foi
uma ingrata em lhe fazer o que lhe fez...

O CLIENTE, _com uma lágrima a borbulhar ao canto do ôlho_:

E foi. Palavra de honra que foi.

    _Despede-se abatido._


ACTO II

    _Numa rua concorrida. Mêses depois. Ao dobrar a esquina encontram-se
    o cliente e o advogado._

OS DOIS, _ao mesmo tempo_:

Oh!... oh!... Por aqui?

O CLIENTE

Ora ainda bem que o encontro.

O ADVOGADO

Muito folgo em o encontrar...

O CLIENTE, _com o ar alegre, o semblante desanuviado e risonho; sem
rodeios_:

Sabe que achei uma saída admirável para aquilo?...

O ADVOGADO, _surprêso_:

Sim?

O CLIENTE

É verdade. Não matei minha mulher, não despedi o caixeiro, não me
divorciei, não tive que ter paciência... e dei emfim uma satisfação ao
mundo e a mim próprio.

O ADVOGADO, _abismado_:

Devéras?!

O CLIENTE

Devéras. Lembra-se de eu lhe ter contado como tudo se passou?

O ADVOGADO

Lembro.

O CLIENTE

Que os encontrei em cima dum canapé e tal?

O ADVOGADO

Lembro.

O CLIENTE

Pois bem: vendi o movel...

O ADVOGADO

O...?

O CLIENTE

Vendi o canapé!!


CÁI O PANO... DAS NUVENS

      *       *      *      *      *



O crime...


O crime...

    "C'est ainsi qu'une faute est irreparable."

                                    J. PAYOT.

Helena fitou-o então nos olhos e inquiriu sem motivo:

--Estás zangado?

--Não. Porquê?

Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Êle manifestou-se
contra aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem
que um dia descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho
racional a seguir: abandoná-la.

Helena calou-se.

--Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou êle, à laia de
vaticínio.--De que serve andar a encobrir, um dia e outro,
semanas e mêses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?

Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas
palavras. E porque a fitava êle assim? Porque começava a sentir êsse
desejo forte, essa terrivel necessidade de a observar, sondando os
mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a
conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?...

Chamou-a brandamente, disse-lhe:

--Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui
alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não
negues... leio-to nos olhos!

Ela baixou instintivamente a cabeça.

--Alguma coisa?!...--disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se
por manifestar estranhesa e não conseguindo senão comprometer-se ainda
mais, aumentando aquelas desconfianças.

Êle tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe
restava, para lhe dizer com serenidade:

--Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter
presumido portanto que os factos aqui ocorridos, desde que cheguei,
tenham despertado o meu reparo.

--Os factos?! Quais factos?!--dissimulou.

--Tudo; o que se está passando...

--Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim
desconfiado, acredita.

--Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas
palavras... o teu rosto! Anda cá...

Pegou-lhe numa das mãos e diante do espêlho da sala:

--Vê aí o teu rosto!

Ela esquivou-se, revoltada:

--Deixa-me! É de mais!

--Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter.--Vais-me dizer
tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o
que houve?

--O que houve!?--exclamou aterrada.

--Sim, o que houve!

--Deixa-me! deixa-me!

Não poude mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz,
intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e
latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível:

--Fala! anda... diz-me tudo!

Os seus olhos faíscavam, tinham relâmpagos de cólera.

--Larga-me!--implorou Helena.--Não olhes para mim dessa maneira... Tenho
medo!

--E porque tens tu medo de mim?!

Aquilo já não era uma altercação, uma scena de ciumes desagradável, uma
simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que
cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com
energia, de forma a fazê-la gritar:

--Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magôas,
deixa-me!

Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o
desespero em que se debatia, mais o enfureciam: _quase_ lhe davam provas
do que se passára!... Mas o que se passára?

E baixinho, ao ouvido, como quem insinúa uma calúnia, disse-lhe tudo o
que a sua mórbida fantasia arquitectára a êsse respeito, desde que a
suspeita entrára no seu cérebro e aí gerára a mais tremenda acusação que
podia pesar sôbre a honra duma mulher.

Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de
pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encrusilhada deserta. Deu um
grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar.

Alberto--nessa perfeita lassitude d'ânimo que sucede sempre a uma grande
catástrofe,--pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma
tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande
banho morno de indiferença e de tédio...

Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava,
arrepelava-se. E o marido sorria àquela dôr como se estivesse gosando as
delícias dum drama de sensação em que sua mulher fôsse uma sublime
artista e êle próprio, por desdobramento, um actor de mérito,
representando o papel de marido ciumento com a mais pura e
meticulosa arte!

No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...

Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto.
Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia
ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar:
«Bravo! Bravo!»; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava
para saír da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera--porque era
afinal uma ópera!--pessoas que passavam, suas conhecidas, que êle
cumprimentava e lhe diziam:

--«Gostou?

--«Muito!»

Helena atravessou-se-lhe no caminho:

--Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo porque é que me não
perdoas?...

Só então deu acôrdo de si. Um assômo atávico de ferocidade o dominou.
Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.

--Mata-me! mata-me!--gritou ela.

Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombára desmaiada
sôbre o soalho. Quando se viu no páteo parou. Abriu a porta devagarinho
e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns
instantes a respirar, a arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos.
Desceu então o último degrau e começou a caminhar ao longo da rua--sob a
inclemência do vento e da chuva que caía.

      *       *      *      *      *



Casa maldita


(Tragédia rústica)


    FIGURAS:

    TÓNIO...........}
    MANOEL..........} _irmãos_.
    MARIA JOANA.....}
    FRANCISCO....... _noivo de Maria Joana._
    O MÉDICO.

    Beira-Baixa, época actual.


Casa maldita[1]


(Tragédia rústica)

    _Cozinha com lareira numa casa de quinta. Noite d'inverno. Vento e
    chuva desabridos._

FRANCISCO, _da porta, chamando_:

Maria Joana!

MARIA JOANA, _que vem de dentro, do interior da casa, com uma candeia
acêsa, voltando-se_:

Crédo! Meteste-me um susto! (_Pendurando a candeia_). Entra!

FRANCISCO, _entrando_:

O pai? está melhor?

MARIA JOANA, _abatida_:

Na mesma...

FRANCISCO

Na mesma?!

MARIA JOANA

Ou pior... sei lá! A outra noite já o nem julgávamos. Um febrão!

FRANCISCO

Basta que sim.

MARIA JOANA

Sempre a variar... a dizer tolices... (_sente-se, dentro, gemer_).
Ouves? Lá está...

FRANCISCO

É verdade! Diacho, mas ontem parecia melhor...

MARIA JOANA

Sim, tem disso.--«Alembras-te» da minha mãe?

FRANCISCO

«Alembro».

MARIA JOANA

Não me sái da «'maginação» que é o mesmo mal.

FRANCISCO

Ágora!

MARIA JOANA

Um dia melhor, outro pior, té que por fim... (_Comovida_) É o mesmo mal.

FRANCISCO

Ora!

MARIA JOANA

Verás. Já d'ali se não ergue.

FRANCISCO

Sabes lá bem...

MARIA JOANA

Diz-mo o coração. E olha que para adivinhar...

FRANCISCO, _depois dum silêncio_:

Porque não mandam vocês à cidade, chamar o médico?

MARIA JOANA

P'ra lá foi o Tónio à bocado. Não tardam aí.--Pois que horas são?

FRANCISCO

Oito. Déram agora...

MARIA JOANA, _calculando_:

É isso. Foi com de dia. Não tardam.

FRANCISCO, _depois dum novo silêncio_:

E que diz o mestre Lourenço?

MARIA JOANA

O barbeiro? Olha o que há-de dizer! Que já se não entende com o mal, é
claro.

FRANCISCO

Sangrou-o?

MARIA JOANA

Sangrou.

FRANCISCO

E «óspois»?

MARIA JOANA

Cuidávamos que ficava. Fez-se muito branco, muito branco... os olhos a
encovarem-se-lhe... (_Tápa o rosto com as mãos, horrorisada_). Se tu o
visses!

FRANCISCO

Devia ter sido há mais tempo, talvez...

MARIA JOANA, _desiludida, encolhendo os ombros_:

Oh!

FRANCISCO

Há quantos dias adoeceu?

MARIA JOANA

Há treze.--É mau «númaro», não é?

FRANCISCO

Ora adeus! Fias-te nisso?

MARIA JOANA

Fio.

FRANCISCO, _levemente trocista_:

Esta bom.

MARIA JOANA

Quando a minha mãe morreu, um cão esteve a uivar aqui toda a santíssima
noite...

FRANCISCO

Foi o acaso.

MARIA JOANA

A Tereza Bógas casou a filha a uma terça feira e dia treze...

FRANCISCO

Bem haja ela...

MARIA JOANA

Ao cabo dum ano o marido deu-lhe cinco facadas... e matou-a!

FRANCISCO

Milagre fôra se a deixásse com vida...

MARIA JOANA

Que mais queres?

FRANCISCO

Nada, co'os démos: estou «'stifeito». Tira-me essas manias da cabeça;
dás em maluca.

MARIA JOANA

Se fôsse só isso!... E os palpites? Olha que tenho palpites tão certos,
«Fracisco», tão certos! E sonhos?... Ha dois dias sonhei que antes do
nosso casamento havia de se dar nesta casa uma grande fatalidade...

FRANCISCO, _nervoso_:

Bem; se continúas, vou-me.

MARIA JOANA, _rindo_:

Oh! «home»! julguei que eras mais forte do que isso!...

FRANCISCO

Não é; não gósto...

MARIA JOANA

Bem, bonda, não te zangues...--És meu amigo?

FRANCISCO, _amuado_:

Não sei...

MARIA JOANA

És, bem vejo.

FRANCISCO

P'ra que mo «prècúras», nesse caso?...

    _O vento assobia nas frestas, sacode os troncos das árvores, ululando._

MARIA JOANA, _num pressentimento_:

E se eu morrêsse?... Casavas com outra?

FRANCISCO

Mau, mau, mau! bem digo eu... Faz favor de te calares, ou então...

MARIA JOANA

Esta dito. Eu hoje estou assim... Não é por mal.--Escuta!

    _Poem-se os dois a escutar._

FRANCISCO

Parece que vem gente...

MARIA JOANA

Ná. É o vento.

    _Abre-se a porta de repente, com um empurrão sêco, e MANOEL entra,
    embuçado; traz uma velha arma caçadeira que coloca a um canto. MARIA
    JOANA, assustada, expele um grito quando o vê. FRANCISCO ergue-se
    tambêm assustado._

MANOEL, _sorrindo, semblante mal encarado de facinora_:

Meti-vos medo, p'los modos!?... Eu não sou o diabo, socegai!...

MARIA JOANA, _mal refeita ainda do susto_:

D'onde vens tu, «home», assim, a estas horas?

MANOEL

Que te importa? Mete-te lá com a tua vida! Ora o «estapor»! (_A
Francisco_) Um cigarro!

    _FRANCISCO oferece-lhe um cigarro._

MANOEL

Olá! Êste é dos de cu aberto! Bravo, rapaz, estás um «fedalgo»!

FRANCISCO

Déram-mos.

MANOEL

Só a mim ninguêm me dá raça de nada! Tudo me rouba. Aqui então, nesta
casa... é tudo deles,--_dessa_ e do outro...

MARIA JOANA

Intrujão! Não no acredites, Francisco, é um intrujão.

MANOEL, _crescendo para ela_:

Intrujão? E tu, minha porca? E tu que és?

FRANCISCO, _para o serenar_:

Olha o pai, que ouve...

MANOEL

Quero cá saber do pai! Julgas que me consultaram agora para vir o
médico? Bem te digo eu: isto é deles! Não vem cá por menos d'uma libra!
Pois hão de êles pagá-la, se quiserem; nanja eu. (_Beija os dedos em
cruz_). Juro!

MARIA JOANA

Ninguêm to pede...

MANOEL

Uma libra! Nem que ma arrancassem com uma enxó, do peito...

FRANCISCO

Deixa lá! Vão-se os aneis mas fiquem os dedos. P'ra mais, livra-se uma
pessoa de remorsos.

MANOEL

Livra!... Livra-se mas é do dinheiro. Eu cá digo: quem tem de morrer,
morre. Todos hemos d'ir, paciência... É a obrigação.

MARIA JOANA

Eu dava a camisa do corpo por ver o pai com saúde.

FRANCISCO

Ouves?

MANOEL

O corpo dava ela por menos disso...

FRANCISCO

«Manel»!

MANOEL, _refilão_:

Que há de novo?

FRANCISCO

É tua irmã, bem vês...

MANOEL

Parabêns. Olha a princesa!

MARIA JOANA

Desalmado! (_Ouve-se dentro a voz do pai a gemer_). Pai! pai! Aí vou!

    _Sai correndo._

    _FRANCISCO segue-a até a porta e fica a escutar. Pausa dalguns
    instantes. A chuva bate com fôrca nas têlhas._

FRANCISCO

Que noite!

MANOEL, _à lareira, põe-se a cantar_:

_Não sei que quer a «desgrácia»
Que atrás de mim corre tanto..._

FRANCISCO, _interrompendo-o_:

Parece mal, «home»; cala-te!

MANOEL

Pois sim...

_... Que atrás de mim corre tanto...
Hei de parar e mostrar-lhe
Que de vê-la não m'espanto..._

FRANCISCO

Até é pecado.

MANOEL

Pecado e êles fazerem-me o que me fazem.

FRANCISCO

Estás doido. Que é que te fazem?

MANOEL

Desde muito novo eu tenho sido aqui um engeitado. Minha mãe quase me não
criou como filho. Vedou-me antes dos seis meses; nem os peitos me quis
dar!...--Já lá está, a pagá-las!

FRANCISCO

Ora! Vá a gente a ouvir-te. Tu és um doido.

MANOEL

Sou?--Porque dizes isso?...

FRANCISCO

Porque tenho rasões.

MANOEL

Talvez. Eu odeio-vos a todos!

FRANCISCO

A mim tambem?

MANOEL

A ti. Queres-me roubar...

FRANCISCO, _pálido, recuando_:

Eu?!

    _Ouve-se fóra ruido de passos e vozes de gente que se aproxima._

MARIA JOANA, _de dentro, a gritar_:

Lá veem! lá veem! Abram a porta... (_vê Francisco arquejante, afogueado;
pára diante dêle_). Que foi?

TÓNIO, _de fora, ao mesmo tempo, chamando_:

Maria Joana! ó Maria!... Abram lá isso! Abram! (_Batem com força_).

    _Francisco corre a abrir a porta. Há confusão, reboliço._--«Santo
    nome de Deus!» _diz Maria Joana. Entram o médico e Tónio._

O MÉDICO

Ora até que emfim!... Boa noite!

VÓZES, _a um tempo_:

--Bôa noite.

--Viva!

--Passe vossa senhoria bem...

TÓNIO

Chegue-se vossa senhoria ao lume que deve vir gelado. O frio é muito.

O MÉDICO, _aquecendo-se_:

Aceito. Venho gelado.

    _Faz-se silêncio. O doente grita._

O MÉDICO

É o doente?

MARIA JOANA

Saberá vossa senhoria que sim. O que aquela alminha tem sofrido, santo
nome de Deus! Se vossa senhoria o aliviasse daqueles tormentos,
por amor da sua senhora e dos seus filhinhos, se os tem...

MANOEL, _do lado, chasqueando_:

Êle não e casado, mulher!

O MÉDICO, _voltando-se, reparando em Manoel_:

Sou, sim senhor... Quem lhe disse a vocemecêe que eu não sou casado?

MANOEL, no mesmo tom:

Digo eu...

O MÉDICO, _para Maria Joana_:

Quem é êste homem?

MARIA JOANA

É meu irmão (_segreda-lhe qualguer coisa ao ouvido_).

O MÉDICO

Bem.--Vamos ver o doente. (_Indicando uma porta_) É por ali?

MARIA JOANA

Por ali; tenha a bondade... Vossa senhoria há de desculpar, é uma casa
de «probes»...

    _Desaparecem os dois falando, no interior da casa. Fora ficam os
    tres homens: TÓNIO, o irmão e FRANCISCO. Nenhum deles diz palavra.
    Um cão põe-se a uivar, perto._

FRANCISCO, _nervoso_:

Olha o diabo do cão! É o vosso?

TÓNIO

É. Chama-o.

FRANCISCO, _vai á porta a assobiar-lhe_:

Eh! _Farrusco!_ Quieto! Venha cá! Quieto!

    O cão cala-se, mas d'aí a pouco põe-se a uivar outra vez.

FRANCISCO

Não há meio! Se fôsse meu dava-o, ou vendia-o... Punha-o com dono.
_Farrusco!_ (_assobia-lhe de novo_).

MANOEL

Deixa lá o animal! que mal te faz o animal? Tambem com êle te metes?
Aquilo foi desde que entrou o médico: cheirou-lhe a defunto...

TÓNIO

Bruto!

    _Os dois irmãos entreolham-se ferozmente. Passa entre êles uma
    labareda d'ódio. Depois, MANOEL põe-se a cantarolar._

TÓNIO, _a meia voz_:

Farçola! o que tu merecias...

MANOEL, _que ouviu bem_:

Tanto sopras no fole, que o fole um dia estoira...

TÓNIO

O quê? que dizes?

MANOEL

É cá comigo...

TÓNIO

Escuta. Quem paga ao médico sou eu, do meu bôlso, ouviste?

MANOEL

Bom proveito.

TÓNIO

As vinte moedas que ali estão (_indica um arcaz_) são da Maria Joana.

MANOEL, _erguendo-se, encandieirado_:

De quem?

TÓNIO, _enérgico_:

Da Maria Joana, já disse! O pai assim o quer. Cumpra-se a sua vontade,
mando eu!

FRANCISCO, _intervindo_:

Tónio, bem vês... A Maria Joana há de vir a ser minha mulher. Eu não
queria que por via disso... de dinheiro...

TÓNIO

Tá, tá, tá... não tens que «agarcer»; são dela. Eu é que mando aqui: sou
o mais velho.

MANOEL

Juro que te arrependes, Tónio! Cego seja eu de gôta serena.

TÓNIO

Pois cego sejas tu.

FRANCISCO, _interpondo-se_:

Olhem o médico! Tenham juizo, ó menos...

O MÉDICO, _da porta, falando para dentro_:

Sim senhor, tudo se há de arranjar, esteja socegadinho... isso pássa
(_entrando_). Pobre homem!

TÓNIO, _avançando para o médico_:

Está pronto, não é verdade? Já d'ali não «arrinca»... Morre?

O MÉDICO, _querendo animar_:

Vamos a ver; emquanto há vida...

FRANCISCO

Sim, emquanto há vida, Tónio, há esperança! Tem por dizer...

TÓNIO, _desiludido, ao médico, abanando a cabeça_:

Na. Póde vossa senhoria desabafar; eu cá sei o que vai haver esta
noite... Adivinho!

FRANCISCO

Ó «home», que genio! que fraqueza! Não vês êste senhor a dizer-te que
não. Êle é que sabe, que estudou...

TÓNIO

Pois sim. Estâmos sem pai, «Fracisco»!

MARIA JOANA, _que vinha entrando e que ouviu o irmão dizer aquilo_:

O quê! Morre? (_Pausa. Ninguem responde; dirige-se ao médico_). Morre?
meu pai morre? (_o médico cala-se_) Não me respondem! não me dizem nada!
(_levando as mãos á cabeça num desespero_) Ah, meu pai! Ah, meu
pai! Que não tenho outro...

FRANCISCO, _confortando-a_:

«Atão», Maria Joana, vem cá, vem cá. Olha que êle ouve.

MARIA JOANA

Deixa-me! Deixa-me!... Eu quero morrer tambem. Quero morrer, «Fracisco».

FRANCISCO

Nosso-Senhor ainda pode muito, cachopa!

TÓNIO, _ao médico que está preparado para, saír_:

Quanto ao trabalhinho de vossa senhoria, há de perdoar, nós lá iremos...

O MÉDICO

Descansem, quando puderem, não tenho pressa; arranjem cá a sua vida.
Agora o que é preciso é ir embora... Faz-se tarde.

TÓNIO

Pronto! (_a Francisco_) Ó «Fracisco», tu agora vais aqui com o sr.
«doitor», se te não custa, eu não posso... E trazes os remédios,
pelas almas. É um favor.

FRANCISCO

Vou e ponho-me aí num foguete, verás. Dentro de duas horas estou de volta.

MARIA JOANA, _num gemido_:

Leva a arma!

MANOEL, _que tem estado sempre calado até aqui_:

Leva-a, se a quiseres... Empresto-ta.

    _Todos se voltam, admirados da generosidade._

FRANCISCO

Não é preciso; levo antes esta (_mostra um marmeleiro ferrado_) é mais
certeira... Bem hajas!

    _Dão as boas noites. Sai êle e o médico. Uma lufada d'ar entra,
    quando se abre a porta, apagando a luz._--«Fechem a porta!» _ouve-se
    dizer no escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o
    vento. TÓNIO, dentro, ás apalpadelas, procura a candeia, que
    acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a
    atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma rodilha, a um canto, a
    soluçar._

TÓNIO

Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...

    _MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do
    lenço da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água.
    MANOEL nem palavra: fuma._

TÓNIO

Para onde vai isso?

MARIA JOANA

É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes?
(_Tónio encolhe os ombros_) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito:
«filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de
beber. Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle
pedisse. Dou?

TÓNIO

Se êle o disse...

MANOEL, _de troça_:

Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...

TÓNIO, _furioso, agarra num banco e avança para o irmão_:

Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (_Os seus olhos
chispam lume_).

MANOEL, _erguendo-se_:

Experimenta e verás o trôco... (_Diante dêle_): Sim! sim!

MARIA JOANA, _suplicante, entre os dois_:

Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!

TÓNIO, _cedendo_:

O que te vale...

    _Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita
    um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no
    quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante._

    _Grande silêncio!_

    _Súbito, um grito, depois outro,--lancinantes, desesperados, dentro
    do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados._

MARIA JOANA, _à porta, num paroxismo_:

O pai! o pai!... Morto! (_volta como louca à cabeceira do cadaver_).

    _TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da
    irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade,
    olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o
    braço nervosamente no fundo; tira tudo,--roupas, farrapos, misérias,
    remeche,--procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as
    vinte moedas!_

TÓNIO, _que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama_:

Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã!

    _Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual
    de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes--como dois liões!_

MARIA JOANA, _sòzinha, brada, abrindo a porta, para a solidão dos campos
ermos, na chuva e na ventania_:

Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!

    _Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da
    outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto,
    alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por
    duas veses o prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a
    espingarda e alveja-o._

MARIA JOANA, _interpondo-se, num salto ágil_:

Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!

MANOEL

Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...

    _Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão,
    dispára-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga._

TÓNIO, _vendo a irmã caída num lago de sangue_:

Mataste-a!

MANOEL, _poisando a espingarda e com um sorriso cínico_:

Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...

    _Recomeçam a luta._


    [1] O autor não quis nesta novela, a que deu indiferentemente a
    forma dialogada, tentar um género de literatura dramática como
    êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses (não sabe
    se com grande ou pequeno exito) com o titulo de _Grand-Guignol_,
    importado directamente de França. Género macabro, terrorista,
    insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções nervosas
    pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente
    extravagantes.--Esta _tragédia rústica_ é um ligeiro estudo do
    caracter supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre,
    inculta, miserável gente das aldeias beirôas, em cujo seio os
    instintos, bons ou maus, falam ainda a linguagem espontânea e
    bárbara das primitivas idades.

      *       *      *      *      *



O pai da criança


(Conto carnavalesco)



O pai da criança


(Canto carnavalesco)

Êste padre Borregana, cónego da Sé, tem uma história.

Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma
história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.

Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou
oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande
_queda_ para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e
timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa
cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem levava a
caldeirinha e o hissope entoando o _Bemdito_ com o Senhor; quem dizia
_ora pro nobis_ atrás do pálio nas procissões; quem informava as beatas
dos ataques hemorroidários do sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate...

--Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a
justificá-lo; ninguêm se faz...

E não.

Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje
diziam que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham
conhecido para o sacerdócio--para a castidade sobretudo,--o que aos seus
olhos de peccadores inconfessáveis o tornára particularmente famoso,
votado sem esfôrço ao sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de
vontade como era, e então com um apelido que lhe assentava como uma luva...


Quando,--já depois de ordenado--desceu o estribo do comboio na estação
do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado, hesitante,
como uma criança que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear
confuso da multidão que se acotovelava a saír da _gare_.

--Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...

Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito
alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito
largo para o receber. Padre Borregana trepidou.

--Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde!

O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto,
aquele ar de pessoa importante e abastada!...

--Tu! Pois tu!...--murmurou o padre.

E abraçaram-se enternecidamente.

Emquanto iam saíndo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido,
tinha trepado, formára-se... arranjára um casamento rico e uma boa
colocação...

--Sim?!

--É verdade.

Padre Borregana estacou, admirado.

--Mas ouve cá, disse, como demónio conseguiste tudo isso? Tu, demais a
mais,--desculpa que te diga--mas nem eras dos mais atilados...

O outro sorriu, superiormente:

--Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na
vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguêm neste mundo: á
custa de muito ponta-pé!...

E separaram-se.


Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismático, no
encalço do moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a
ponta duma bengala tocar-lhe discretamente no ombro:

--Psst!... Borregana!

Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a
sua presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria.
Repetiu-se, _mutatis mutandis_, a mesma scena: tambêm êste
trepára, tambêm êste vencera, tambêm tinha uma linda posição...

--É boa! E tudo isso...--balbuciou.

--Á custa de muito ponta-pé!

--!!


Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava.
Desta vez o velho amigo era um ministro--e ministro da Justiça!--que lhe
abriu os braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os
outros lhe confessou que tinha subido, trepado--á custa de muito
ponta-pé!...


Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo
depois da missa, chamando de parte o sacristão, lial companheiro e
confidente, segredou-lhe:

--Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...

O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas,
muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou,
comovido e modesto:

--Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar...
Cá por mim só se não pudér...

--Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço...

Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a
bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada,
revirou-lhe o nédio cêsso, exclamando:

--Férras-me aí um ponta-pé!...

--Quem, eu?

--Já disse, Cristóvam: um ponta-pé.

O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar
decidido do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade,
encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...

--Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha
flagelação parecia dever enchê-lo de infinito gôso--isso não é nada!

--Ó sr. prior, mas eu...--tartamudiou o Cristóvam, condoído.

E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas:

--Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, Cristóvam!

--Êle é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e despresando
escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e
gemer:

--Ui!

--Ah, já?...--e atirou-lhe segundo.

Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja.

--Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dôres,
estorcendo-se.

--É para o sr. prior, esta carta...

--Para mim?!

Era um telegrama.

O prior precipitou-se, rasgou todo trémulo a obreia do sobrescrito: «Por
ordem de S. Ex.ª...» (turvou-se-lhe a vista)... «nomeado cónego.»

Caiu sôbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de
comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope o prior
estava triste... Em volta houve um alarido, um espanto, mal constou o
milagre... Porque fôra um milagre! Tudo quis ver e visitar o sr. padre
Borregana, feito cónego--a ponta-pé. Não recebia? Porquê?... Talvez
dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a brutalidade da
operação. E invectivava-se o Cristóvam--bruto! verdugo!--que se
desculpava, dizendo:

--Pois sim, pois sim, mas se não fôsse eu...

Tinha rasão.

A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de
arnica, de unto de cobra e semi-cúpios de malvas, para aliviar as dores
e a tristeza do prior, cujos nadegueiros--já agora uns nadegueiros de
cónego--entumesciam e grelavam...

Dizia-lhe a criada:

--Parece que ficou a modos triste, sr. cónego?...

--E fiquei, pudéra, se não tenho de quê, cachopa!--queixava-se.

--De quê?! Hom'essa! Depois duma nova assim!...

--Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-pés arranjei a ser
cónego, mas se aquele alarve se não demora e me préga logo uma dúzia
deles, quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!...
Se não hei-de estar aborrecido...


O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a
atestar o dedo da Providência na ferradura do Cristóvam. A religião,
vigilante, viu logo na pessoa do padre virtudes canonisáveis...

Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu--um
doido!--zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o
padre Borregana tinha tido um cónego pelo traseiro, e que o pai da
criança era o sacristão!

      *       *      *      *      *



Índice


Índice

Aquela família                                                           5

A bôca do sapo                                                          17

Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1906)--I        37

Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1912)--II       85

Candidinha Cerdeira (Novela romantica)                                  89

Eureka!                                                                113

O crime                                                                123

Casa maldita (Tragedia rústica)                                        133

O pai da criança (Conto carnavalesco)                                  165





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Aquela Família - Tipos, caricaturas e episódios provincianos" ***

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