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Title: Paginas Archeologicas - III - Situação conjectural de Talabriga
Author: Pereira, Félix Alves, 1865-1936
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Paginas Archeologicas - III - Situação conjectural de Talabriga" ***

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                            FELIX ALVES PEREIRA


                           PAGINAS ARCHEOLOGICAS

                                    III

                      SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA



                                  LISBOA
                            IMPRENSA NACIONAL
                                   1907



                       *      *      *      *      *

                      SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA


                Obra composta e impressa na Imprensa Nacional

             Edição e propriedade do Museu Ethnologico Português

                       *      *      *      *      *



                            FELIX ALVES PEREIRA


                           PAGINAS ARCHEOLOGICAS

                                    III

                      SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA



                                  LISBOA
                            IMPRENSA NACIONAL
                                   1907


                       *      *      *      *      *



                                     Ao

             Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Conselheiro


                    _Luis Cypriano Coelho de Magalhães_

                                 _O. e D._

                                                   _O autor._

                       *      *      *      *      *



Separata d'«O Archeologo Português», XII, n.os 5 a 8 de 1907



SITUAÇÃO CONJECTURAL DE TALABRIGA


Summario

1. Estado da questão.--2. Autores antigos--3. Itinerario--4. Exame do
mappa--5. Topographia e onomastico da região--6. Os castros do trajecto
da Via--7. Região mineira--8. Localização de Talabriga--9. Opinião de
Gaspar Barreiros--10. Geographia arabica--11. _Strata maurisca_--12. Ria
de Aveiro e o Vouga--13. Historia de Talabriga.


I

Algum tanto sem o presentir, ao fazer o estudo da ara de Estorãos,
(_Arch. Port._, XII, 36) encontrei-me no limiar de um problema que, de
modo definitivo, não se resolverá senão com a verificação _in loco_ de
vestigios archeologicos incontrastaveis.

É o problema da trajectoria exacta da via romana entre Aeminium e Calem,
da qual não se conhecem milliarios decisivos e sufficientes,
especialmente da sua passagem por Talabriga.

O assunto, parcialmente considerado, tem sido alvo das principaes
referencias na pugna litteraria em que os paladinos de Agueda, de Aveiro
e de Coimbra patrioticamente articulavam preeminencias genealogicas, que
é da praxe mencionarem-se em monographias locaes, mas que hoje, quanto a
Coimbra (e Condeixa-a-Velha) estão sentenciadas, em prejuizo até
heraldico de Agueda[1].

Propositadamente, porém, o problema não foi ainda estudado debaixo do
seu aspecto geral; apenas por incidente tem sido versada a localização
de Talabriga. Não venho com o proposito de o dar como resolvido, é
certo; mas desejo englobar neste estudo um certo numero de
considerações, que podem preparar o desenlace d'este ponto controvertido
da geographia protohistorica da Lusitania, no campo adequado, e quiçá
orientar pesquisas.

Onde foi Talabriga? Até hoje nenhum d'estes indices peremptorios que
marcam inilludivelmente a situação das antigas cidades, como para
_Conimbriga_ (Condeixa-a-Velha), _Aeminium_ (Coimbra), _Bracara Augusta_
(Braga), _Olisippo_ (Lisboa), _Pax Julia_ (Beja), etc., se nos antolha
para dar resposta nitida áquella pergunta.

Guiados pelas indicações geographicas do Itinerario e de Plinio, os
nossos escritores teem querido alternadamente que Aveiro, Cacia,
Esgueira occupem hoje o logar que outrora se chamou _Talabriga_. De
facto, o Itinerario, ao contar as milhas que de _Aeminium_ vão a _Calem_
(Gaia ou Porto?) pela via militar, devia ter especial valor para este
problema; mas a comprehensão da necessidade de verificar rigorosamente
as indicações d'aquelle documento, a consulta de edições criticas,
tomando-se por base a decisão do problema de Aeminium, e talvez o
desaffecto de uma ou outra solução é que teem, no meu humilde entender,
faltado a todos os autores que mais modernamente do assunto se teem
abeirado[2].


II

A geographia classica não é de todo omissa a respeito d'esta antiga
povoação. O testimunho de Plinio, que é o A. mais expresso, vem a ser o
seguinte: _A Durio Lusitania incipit. Turduli veteres, Paesuri, flumen
Vagia[3], Oppidum Talabrica, Oppidum et flumen Aeminium,
Oppida Coniumbrica, Collippo, Eburobritium._ (C. Plinii Secundi, _Nat.
Hist._, ed. de Detlefsen, IIII, 113). Isto tem o ar de uma sêca
enumeração chorographica, que se desdoba do norte para o sul, a contar
do Douro, e que, restringida ao nosso caso, nos dá esta sequencia:

    _a_) rio Vouga;

    _b_) cidade de Talabrica;

    _c_) cidade e rio de Aeminio (Coimbra);

    _d_) e as cidades de Conimbrica (Condeixa),

    _e_) Collippo (Leiria) e

    _f_) Eburobricio (Obidos, Vejam-se _Relig. da Lusit._, II, 31).

Se não fôr certo, como não me parece, que Vouga é ao norte de Talabriga
e este oppido ao sul do mesmo rio, pelo menos conclue-se que Talabriga
vizinha de um lado ou outro aquelle estuario.

Não trago nenhum outro autor antigo, porque elles não adeantam o
problema chorographico. Na _Cosmografia_ de Ravennate (ed. de
Pinder & Parthey, p. 307) _Talabrica_ apparece transformada
em Terebrica e fica na seguinte localização relativa:
_Olisipona--Terebrica--Langobrica--Cenoopido--Calo_...


III

Vamos pois ao _Itinerario_[4] e á discussão das suas
indicações. Encontra-se nelle, que nos sirva:

    Eminio         mp. X
    Talabriga      mp. XL       (= 59:240 metros)
    Langobriga     mp. XVIII    (= 26:658   »   )
    Calem          mp. XIII     (= 19:253   »   )
                                  105:151   »

A equivalencia que sigo é a de 1 milha = 1:481 metros (Saglio &
Daremberg, s. v. _Milliarium_).

A trajectoria d'esta via desde Coimbra (Aeminium) a Gaia (Calem)
deixaria de ser ponto controverso se, como succede noutras estradas
romanas, alguns milliarios sobreviventes escalonassem os seus vestigios.

Não ha porém, neste particular, mais que isto:

1.º Um fragmento de milliario com 2,04m de alto X 1,40m de circuito,
que appareceu na Mealhada ao norte de Coimbra e só tem M.XII.

2.º Outro que foi encontrado mesmo em Coimbra e aponta M.IIII.

Nem aquelle nem muito menos este servem ao meu intento; o traçado
litigioso no nosso caso é para norte da Mealhada e Anadia, e não entre
Mealhada e Coimbra. (Vid. Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, p.
82; Hübner, _Notas archeologicas sobre Portugal_, p. 67, trad. cit.:
_Catalogo dos objectos existentes no Museu de Archeologia do Instituto
de Coimbra_, p. 6; A. Filipe Simões, _Escritos diversos_, 1883).

3.º Um pretenso milliario descrito por Fr. Bernardo de Brito na
_Monarchia Lusitana_, II, V, p. 3. Este vicio de origem obriga-me a pôr
ainda de parte este monumento como comprobativo da directriz; Hübner
fulmina-o com a sua desconfiança (_Corpus_, II, 55 a *) dizendo que
Brito queria demonstrar com elle a existencia de _Vacua_. Não lhe darei
porém eu maior valor que o proprio monge, que, como por prevenção,
confessa que as letras da pedra eram «mal distinctas e muy quebradas».
Assim a sua interpretação deve desinteressar-nos, visto que não ha meio
de contraprovar a leitura de Fr. Bernardo de Brito, duvidosa para elle
proprio. Para este, a lapide era porém um padrão de estrada, o que pouco
vale por entretanto para nós; mas provinha do Castello de S. Gião, ao
que parece, _castro_ rico em ruinas de muros, etc. Isto, cuja
importancia só modernamente se aprecia, é que não se inventa e dá visos
de que com effeito alguma cousa lá pudera ter apparecido. Mas Brito, com
o dizer que a lapide era padrão de estrada, contrariava sem o advertir a
propria crença de que a via romana seguia pela beiramar e _Talabriga_
era em Aveiro. (_Mon. Lusit._, id., p. 130).

Não obstante, ponha-se de parte a exactidão da epigraphe do supposto,
mas rehabilitavel, milliario do castro de S. Gião, e fique,
provisoriamente, apenas um facto--o achado de um padrão de via romana
num castro das margens do Caima.

A opinião de que Aveiro fôra o assento da antiga estação do Itinerario
tinha ainda por si, alem do mappa de Abr.ão Ortelius (_Theatrum orbis
terrarum_, Antuerpia, CIC.IC.CIII) o pensar de Florez (_España Sagrada_,
tomo XIV, p. 73), que lêra Plinio e uma edição antiga do Itinerario
romano. E póde dizer-se que foi essa a corrente que dominou até hoje, se
com Aveiro abrangermos o aro circunjacente. (Vejam-se Adolfo Loureiro.
_Os portos maritimos de Portugal_, II, p. 3; Marques Gomes, _Districto
de Aveiro_, onde restringe[5] a Cacia o _ubi_ de Talabriga;
Borges de Figueiredo, _Oppida restituta_, 1885; Pinho Leal, _Portugal
Antigo e Moderno_, s. v. _Aveiro_; Gaspar Barreiros, _Chorographia de
alguns lugares_; D. Nunes de Leão, _Descripção do reino de Portugal_;
Francisco do Nascimento Silveira, _Mappa breve da Lusitania antiga_,
etc.)[6].

Regressemos porém ao _Itinerario_, e vejamos se será possivel concluir
algo que um dia a pesquisa e exploração persistente do archeologo possa
contraprovar. É o meu sonho.

Que a medição total do _Itinerario_ relativa á via _ab Aeminio Calem_
está notavelmente exacta, demonstra-o esta verificação facil: a somma
das milhas que se contaram de Eminio a Gaia, reduzida a kilometros,
(unidade mais pratica e mais exacta que a de leguas, até agora adoptada)
era de 105:151 metros, como vimos; a distancia computada actualmente na
Carta do Estado Maior d'esta região pela directriz da _estrada real_ é
de 105:100 metros[7]. Não podendo ser mais breve a distancia
d'esta estrada, como se verifica olhando os traçados rectificados ao
lado do mappa junto, em que a distancia em linha recta e a rectificação
exacta da extensão effectiva da estrada fazem pequena differença, o que
mostra que os desniveis ou as inflexões do traçado são assaz reduzidos,
conclue-se que a via romana, desde que marca igual extensão kilometrica,
não poderia seguir caminho mais longo que ella, nem portanto muito
distanciado d'ella.

Esta coincidencia de medições é suggestiva e não permittiria, só por si,
que a trajectoria da via romana e da actual estrada real divergissem
muito. Se esta desenhasse uma inflexão pronunciada no seu trajecto de
Coimbra a Gaia, claro é que era possivel, sem exceder a mesma extensão,
encontrar outra curva symetrica que tocasse em pontos intermedios
diversos e afastados, e coincidisse apenas nos respectivos extremos, o
que nada util me seria; mas nas circunstancias que se dão e já
salientei, e que me permittiram estudar sobre uma carta este problema, a
coincidencia effectiva das duas vias de communicação deve em grande
parte quasi corresponder á coincidencia theorica, agora expendida.

Isto oppõe-se a que a via romana passasse em Aveiro, ponto muito
afastado e divergente do trajecto theorico[8].


IV

Vou porém demonstrar por partes como isto assim deve ser. É preciso
partir do principio já demonstrado, embora para o total da distancia,
que as medições do Itinerario não contém erro. Qualquer inexactidão nas
milhas marcadas para cada uma das secções da via militar alteraria a
somma, desde que, por um acaso unico, não fosse compensada por outra
inexactidão.

Ora a via romana de Eminio contém tres troços ou secções; o 1.º de
Eminio a Talabriga; o 2.º de Talabriga a Langobriga; o 3.º de Langobriga
a Cale. Se uma sequer das distancias correspondentes do Itinerario
contivesse erro, a somma total accusá-lo-hia; mas nós já vimos que a
distancia de 105 kilometros corresponde a uma realidade. Comecemos pelo
extremo norte da via. Isto conduz mais claramente ao meu fim; e descobre
mais prontamente o erro em que até agora me parece que tem laborado os
escritores. Tomemos o mappa[9].

Se traçarmos um arco de circulo, cujo centro seja Gaia e o raio igual á
distancia de Cale a Langobriga, isto é, a 19 kilometros (veja-se a
escala), teremos obtido uma curva theorica (LL no mappa) que no terreno
representa uma faixa de tolerancia, mais ou menos larga, dentro da qual
e numa zona d'ella que seja compativel com um trajecto ininterrupto da
via, cuja extensão já definida se não póde exceder, o archeologo deverá
procurar os vestigios de Lancobriga.

Esta zona, ou este segmento, não poderá pois, em principio, afastar-se
consideravelmente da directriz da estrada real.

Consultemos de novo o Itinerario. Entre Langobriga e Talabriga medeiam
26:600 metros. Ignorando ainda qual o ponto preciso que na curva _LL_
marca o primeiro d'aquelles oppidos, deveremos traçar um arco de circulo
parallelo ao antecedente e á distancia que a escala indica. Como o
terreno não é propriamente uma carta celeste[10] em que os
pontos podem ser rigorosamente indicados, a nova curva deixada pelo
compasso é representativa de uma segunda faixa de tolerancia,
susceptivel de maior ou menor elasticidade, mas confinada, quanto á sua
extensão, pela continuidade do trajecto viario em direcção a Aeminium,
trajecto cujo comprimento tem limite determinado de milhas.

E assim temos o arco _TT_.

Nesta curva, que não é mais que uma zona media, deverão surgir ao
appellido do archeologo as ruinas do que outrora foi Talabriga. Esta
conclusão emerge logicamente das bases que tomei: o acerto evidente do
Itinerario no total e muito provavel nas secções; a coincidencia das
extensões da via antiga e da estrada moderna.

Se agora, por contraprova, apontarmos o compasso a Eminio e girarmos com
um raio de 59 kilometros, verificado segundo a escala, obteremos outra
curva, a terceira, tangente á segunda e que tem a missão de indicar a
zona util, o segmento dos arcos, correspondente á area provavel da
situação de Talabriga. Porque o que não póde haver, é um hiato, uma
interrupção de trajecto de Cale a Aeminium[11].

Esta primeira phase da minha demonstração, porém, já torna incompativel
a actual situação de Aveiro com vestigios de Talabriga. E mais do que
isto; vem levantar um equivoco de Plinio, que parece suppôr aquelle
oppido ao sul do Vouga; se assim fosse, não seria possivel encontrar o
ponto de reunião do caminho que descia de Cale a encontrar Lancobriga
aos 19 kilometros e se prolongava na direcção do sul até mais 20
kilometros, onde devia beijar a Talabriga do Itinerario sem encontrar a
de Plinio[12]. O hiato resultante fica, parece-me, fechado e
annullado, desviando Talabriga de Aveiro e aproximando-a de Albergaria,
ao norte do Vouga; isto é, a hipothese que proponho é a que se concilia
em todos os pontos com o Itinerario.


V

Mas não se concilia só com esta fonte documental: é a mais plausivel em
face das condições topographicas e historicas da região de
Entre-Vouga-e-Douro.

A actual directriz da estrada real é a que mais ou menos devia ter
seguido a via romana que procurasse unir Eminio a Cale, dado o traçado
que ella já trazia desde Lisboa.

Em primeiro logar: as condições topographicas d'aquelle grande delta do
Vouga não eram senão de molde para difficultar a abertura de uma estrada
na epoca romana, em concorrencia com traçado mais firme e duradouro,
mais economico, mais util e mais commercial. Aquellas planuras deviam
existir já então, como um presente do Vouga, segundo se tem dito, creio,
do Nilo.

Se eram naquelle tempo pantanos, ou bosques intransitaveis[13]
ou veigas retalhadas, como hoje, por um dedalo de canaes e
esteiros, não me cabe a mim defini-lo. De qualquer d'estas fórmas, uma
via romana não iria atravessar uma região em que a falta de pedra é
quasi absoluta, e a multiplicidade de trabalhos de architectura civil ou
de obras de arte uma consequencia inevitavel. Era preciso combater por
um lado a pouca firmeza do terreno, por outro contar com o custo da
empresa[14], ou os impecilhos da viagem.

Por isso os mesmos motivos que na idade media afastaram a construcção,
ou melhor, a conservação de uma estrada velha para longe da costa,
obrigando-a a passar nas pontes que ainda existem, devem ter sido os
mesmos que desviaram os engenheiros romanos de lançarem a via militar
através de campinas encharcadas, só para irem buscar a embocadura do
Vouga, antes de attingir Calem.

Depois preciso é notar que havia outra directriz ao alcance da
administração do Imperio, directriz que não podia admittir confrontos
com a traçada através do delta do Vouga. Essa directriz levava a estrada
romana pela orla fóra do terreno firme e accidentado e da região povoada
de castros e abundosa de minerios, região que ainda hoje podemos ver
acompanha-la pelo trajecto da estrada real. As vias de communicação teem
muitas vezes uma directriz fatal e tradicional através de longos tempos
e povoadores successivos[15].

Póde soffrer destruição o caminho, sem estancar a arteria de communicação.

A actual estrada real ou de macadam foi ainda, por assim dizer,
decalcada pela anterior, a medieval, cujos restos subsistem nas pontes
antigas de que os chorographos fallam. Esta orientou-se pela
comprehensão das conveniencias, e afastou-se da embocadura do Vouga,
seguindo a directriz mais economica e mais util; não direi ainda a
directriz romana porque é o que pretendo demonstrar, mas a que era
directriz tradicional, como vou explicar.


VI

Os castros ou montes habitados encontram-se precisamente no seguimento
da via romana; os oppidos referidos pelos AA. antigos, as _brigae_, e as
cidades romanizadas não são mais que uma evolução d'aquellas estancias,
consoante as denominações que lhes applicaram[16]; era por
essa corda alem, que o terreno baixo e plano da zona maritima começava
de elevar-se. A estrada romana desenrolava-se por entre esses centros da
habitação, abandonando ao lado um país chato, pouco firme e talvez quasi
invio.

Do sul para o norte _Anadia_ está situada nas abas de um monte de
_Crasto_ (Pinho Leal e M. Gomes).

_Agueda_ está tambem perto de um _Crasto_ (Pinho Leal).

Nas margens do Vouga, naquelle logar onde subsiste ainda a ponte
medieval (Pinho Leal), encontra-se na aldeia de _Vouga_ um morro que foi
castro (Brito e P.e Carvalho, II, 161); explica Francisco do Nascimento
Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p. 239) que _Vacca_ existia em
sitio forte por natureza, entre as pontes de Vouga e Marnel, porque alli
se vêem vestigios de muros antigos e sinaes de uma majestosa grandeza;
existem ainda tijolos, cantarias, muralhas em _Lamas de Vouga_ (_Arch.
Port._, V, 50 e VII, 191)[17], e havia ahi a _civitas Marnele_ (_Port.
Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», n.º 819)[18], cuja origem deve ter
sido outro castro.

Na carta geodesica vê-se, junto ao rio, um _Castello_ (111). Isto é
ainda do concelho de Agueda[19].

Na freguesia de Serem, tambem concelho de Agueda, outra _civitas_
(Viterbo, s. v. _Cidade_); ha lá sitios elevados a norte e a sul (Cfr.
M. Gomes).

Na freguesia da _Branca_ ha um logar de _Cristellos_ (M. Gomes e _Arch.
Port._, II, 313).

Na serra de S. Julião, mesma freguesia, _onde passa a estrada real_, diz
o Sr. M. Gomes que ha ruinas de muralhas e fossos: acreditava-se (_Arch.
Port._, loc. cit.) que ahi era a antiga _Langobria_ (sic). Não sei se é
precisamente o mesmo local a que Brito (_Mon. Lusit._, II, V, p. 3)
chama castello de _S. Gião_, onde havia ruinas de muros e elle encontrou
o tal padrão suspeito e onde presume _Lancobriga_, não na Feira, diz,
mas entre Albergaria e Bemposta, defronte de Pinheiro. Significativa
confusão! Aquelle logar de _Cristello_ vem na carta geodesica entre
Estarreja e a estrada real[20].

Na freguesia de Ul ha outro castro (_aldeia do crasto_), de que porém
não conheço o _ubi_. Tem uma cintura de muralha de pedra solta ou cousa
que o valha. (Pinho Leal, s. v. _Ul_).

Nas proximidades de Azemeis parece que não são escassos estes monumentos
(_Quatro Dias na Serra da Estrella_, por E. Navarro, Porto 1884, p. 174).

Em _Ossella_ ha um castro com ruinas de muralhas (Brito, _loc. cit._).

Entre _S. Martinho_ e _S. Tiago_ vê-se na carta geodesica um _crasto_, a
O. da estrada real; isto é no parallelo de Ovar. Será aquelle a que
Pinho Leal chama Castro Troncal ou Francal (s. v. _C. de Cucujães_)?

No _Arch. Port._, VI, 68, diz-se que ha em Oliveira de Azemeis um logar
de _Lações_, onde foi a antiga Lancobriga (_sic_), porque ahi se ajustam
as medidas do Itinerario e não na Feira ou Bemposta. Este sitio é
elevado e estrategico; a sua cota é de 287 metros e fica na fronte de um
promontorio fechado por duas ribeiras e no extremo de uma chapada em
cujo prolongamento se conta ainda a altitude de 274 metros. É, pelo que
se vê, um _castro_. _Lancobriga_ e que não.

Em _Macieira de Cambra_ ha um castro (_Arch. Port._, VII, 54)[21].

Em _Romariz_ informa o Sr. M. Gomes que ha um _Crasto_, onde appareceram
antiqualhas da epoca romana; o que é presumivel e prova ter recebido a
influencia dos seus conquistadores.

Os antigos chorographos portugueses não teem dado valor aos cabeços
elevados, onde se encontram os vestigios do que póde ter sido um castro,
uma citania, emfim uma estacão archeologica pre-romana, e isso não
admira; mas o facto é esse e constitue uma deficiencia na descrição dos
logares, que actualmente seria imperdoavel, e que, num caso como o que
estou versando, sonega lamentavelmente elementos aproveitaveis de estudo.

Junto ao mar, e bastante para o norte, em Esmoriz, encontro menção de um
castro, especializado hoje pelo erudito estudo que d'elle fez
documentalmente o meu erudito amigo Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
III, 137). Era o castro de _Aville_, _Ouvil_, _Ubile_ e _Obil_,
denominações que se applicavam á lagoa que ainda existe, e que elle
dominava. Crê o distincto publicista que aquelle castro é o mesmo
outeiro a que o parocho depoente de 1758 chamou _Monte do Murado_,
pertencente á freguesia de S. Martinho de Mozellos. Fico porém em
duvida, pois que estando o castro _prope litore maris_ (Docs. de 1055,
1076) bem como a lagoa (Docs. de 1057 e 1090), Mozellos parece um pouco
afastado para o interior. Confessando que, sem a inspecção dos logares,
a base é instavel, em todo o caso affiguram-se-me aqui dois castros
distinctos.

Em S.ta Maria de _Fiães_ apparece outro castro ou «povoação de Mouros»
(_Arch. Port._, IV, 250).

E d'ahi para o norte, são frequentes na faixa atravessada pelo caminho
romano. Será algum d'estes castros o jazigo de Langobriga?

Este inventario, tendo origem, como tem, exclusivamente bibliographica,
não póde deixar de ser omisso. A averiguação local e a informação
competente accrescentá-lo-hiam, se eu d'estes dois factores me tivesse
soccorrido. Para o meu intento, o pouco que joeirei, era colheita bastante.


VII

Alem d'estas averiguadas condições de habitabilidade que se encontravam
no trajecto da via romana e que, em meu entender, conjugadas com as da
elevação e relevos de terreno, que para as populações ante-historicas
constituiam uma necessidade vital, concorreria tambem, não sem ligação
com ellas, a existencia de jazigos metalliferos.

Nem todas as minas que enumero seriam conhecidas na antiguidade, mas em
algumas ha vestigios da remota laboração e o que tudo attesta é que a
região era mineira e portanto centripeta de populações.

Os locaes explorados são Telhadella, Albergaria, Palhal, Milheirós,
Cucujães, Nogueira, Ossella, Palmás, Carvalhal, Pindello, Silva Escura,
Ul, Talhadas, Braçal, Coval da Mó, Malhada.

Os minerios são cobre, tão procurado na antiguidade, chumbo, prata, etc.

D'estes jazigos, aquelle em que são mais importantes os vestigios de
antiga lavra, é o da Malhada, uma das concessões das chamadas Minas do
Braçal. As madeiras de entivação, que foram encontradas dentro da mina,
denotam tal antiguidade que parecem fossilizadas, em consequencia da côr
negra que adquiriram. Os trabalhos antigos attingem a profundidade de 45
metros (_Catalogo Descriptivo da Secção de Minas_, pelos Srs. Severiano
Monteiro e J. Augusto Barata, p. 188).

A respeito dos outros, a noticia de antiga exploração é muito vaga para
que me seja licito insistir. Nas minas de Palhal tambem ha vestigios
antigos. (Cfr. Marques Gomes, _Districto de Aveiro_).


VIII

Que se póde concluir das considerações que até aqui tenho encadeado?

Por um lado, o estudo do Itinerario levou-me a aventurar na carta
geographica, largamente circunscritas, as zonas em que o calculo faz
presumir que se devem encontrar as ruinas de Talabriga; por outro lado,
a inquirição topographica e onomastica da região, tanto quanto era
possivel com a escassez de elementos, indicou-me alguns logares de
archaicas estações archeologicas do genero da que deve ter sido
Talabriga, como castro ou oppido submettido ao poder de Roma.

Quero lembrar que _briga_ só póde corresponder a uma posição elevada, a
um outeiro ou cabeço fortificado; por onde Talabriga nunca pudera ser
Aveiro ou arredores (Vid. _Arch. Port._, XII, 42).

Relançando novamente o olhar ao mappa, poder-se-há notar que a zona
attribuivel á situação de Talabriga[22] não está erma de
castros, antes nella se dão varias circunstancias que não posso deixar
de aproveitar para a minha these conjectural.

_Branca_ é uma freguesia cuja séde fica na margem direita de Caima e que
é cortada pela estrada real; ha nella um logar de _Cristellos_, que só
pelo toponimo demonstra a existencia de um castro ou oppido. Mas alem
d'este, infere-se do Sr. Marques Gomes, de Fr. Bernardo de Brito (_loc.
cit._) e d-_O Arch. Port._ (II, 313, «Mem. Parochiaes») que ha um local
sito na serra de S. Julião, atravessado pela estrada real e que Brito
mais claramente chama _castello_ de S. Gião (_castello_ por _castro_),
no qual, segundo aquelles tres testimunhos, ha ruinas de muralhas e
fossos, que o Sr. M. Gomes presume serem ruinas de uma _atalaia_ e que o
parocho das _Memorias_ tambem capitula de vestigios romanos,
acrescentando muito singularmente (note-se bem o que isto póde
significar) que ahi esteve... _Langobria_ (_sic_). Foi aqui que Brito
diz ter encontrado a tal pedra de _letras mal distinctas_ de que não
affiança a leitura, mas que lhe pareceu _padrão de estrada_.

E aqui tem cabimento o que já atrás deixo dito, para absolver de fraude
consciente a noticia archivada em Fr. Bernardo de Brito.

Parece-me pois ser neste aro, se não neste mesmo ponto, que se deverá
procurar o jazigo, não de Langobriga, mas da nossa Talabriga, e é
precisamente a estas immediações que o compasso me levou ao medir sobre
a carta a primeira secção da via romana de Coimbra a Gaia[23].

Não desconheço quanto de problematico isto tem antes de serem
perguntados pelo archeologo os logares, as ruinas, os vestigios e os
montes e as vozes da região, mas nem por isso o meu espirito deixa de
ficar demonstrado, até o possivel, que as cinzas de Talabriga nunca
podem estar guardadas em Aveiro. As coincidencias que acabo de notar,
não são bases frivolas.

Só pois a inspecção directa do terreno, nas immediações da Branca,
poderá concorrer para confirmar ou destruir a minha conjectura.

D'esta região para o norte, a via romana seguiria até Cale, mais ou
menos proxima do actual leito da estrada real; só alguns vestigios ou
referencias de documentos, como os de Grijó, e a inquirição dos logares
e tradições poderão concorrer para precisar a trajectoria d'aquella
antiga via de communicação; o caso em si, porém, é indifferente para a
questão primacial que motivou este estudo. O que é certo, é que a
estrada romana sulcava a faixa comprehendida entre a estrada real e a
linha ferrea até o vertice de Gaia.

Ao sul de Branca e Albergaria, a directriz da via militar sente-se
escalonada nos vestigios medievaes que deixei explanados nas paginas
anteriores. _Albergaria_ denota bem que o sitio era de assiduo e antigo
transito (Viterbo, _Elucidario de palavras_, etc. s. v. _Albergaria_)
ponto necessario de passagem para quem do sul buscava o norte do país.
As _mansiones_ tinham o caracter de pousadas.

Em tempos de lazer para obras de piedade, é que a instituição caritativa
se fundou, como implemento de uma necessidade que já existia.

As pontes de Vouga e Marnel são indicios bem importantes da frequencia
das viagens através d'esta parte da região, afastada da costa baixa e
paludosa. São decerto obras da idade media, dos _mouros_, diz Pinho Leal
(s. v. _Marnel_ e _Vouga_). Mas os indicios pre-romanos e romanos
soletram-se nessas ruinas de muralhas, pedras lavradas, vestigios de
edifícios e toponymia, que os cabeços de Vouga e Marnel nos conservam,
segundo descrevem Brito, Pinho Leal e os parochos do sec. XVIII nos
extractos publicados pelo _Archeologo Português_.


IX

O sentimento de Gaspar Barreiros (_Chorographia de alguns logares_,
MDLXI, p. 48 sgs.) era que a situação de Talabriga devia ser a actual
Cacia, especialmente na igreja de S. Julião, onde apparecem vestigios
antigos. Varios autores o seguem.

As razões d'este illustre escritor do sec. XVI merecem alguma discussão.

Barreiros funda-se no Itinerario e conta, no sentido d'este roteiro, as
milhas de Conimbriga para o norte. E por confirmação d'este argumento,
traz o passo de Plinio que eu já transportei a este estudo, mas com uma
differença que elle tomou de um archetypo Toletano (p. 51), declarando
porém que alguns exemplares de Plinio não são accordes com aquelle. A
lição citada é pois esta: _A Durio Lusitania incipit, Turduli veteres,
Pesuri, flummen Vacca, oppidum Vacca, oppidum Talabrica, oppidum et
flumen Minium_, etc. Esta variante demonstra a existencia de uma cidade
_Vouga_, que G. Barreiros colloca na Ponte de Vouga (p. 50 _v_). Algumas
cartas antigas reflectem esta indicação. Isto posto, G. Barreiros leva a
contagem de Conimbriga para Talabriga por espaço de 50 milhas, o que é
exacto, espaço que elle computa equivalente a 12,5 leguas e enumera:

    De Condeixa a Coimbra         2,5 leguas
    De Coimbra á Mealhada         3,5     »
    Da Mealhada a Avellãs         2       »
    De Avellãs a Agueda           2       »
    De Agueda á Ponte de Vouga    1,5[24] »
    De Ponte de Vouga a Cacia     1       »
                                 12,5

«Na qual villa & igreja de sanct. Juliã nas ribeiras do Vouga situadas,
se acham vestigios antigos, s. os fundam[~e]tos de h[~u]a torre que na
memoria dos hom[~e]s inda staua quasi inteira, onde era outro tipo
segundo ficou fama de h[~u]s em outros chegauam nauios da foz do mar,
porque inda ali se acharam pedaços d'elles & anchoras iuncto da dicta
torre em h[~u]a lagoa Afora muitos vestigios & ruinas d'argamassa que
dentro em seu ambito cõprehende h[~u]a milha pouco mais ou menos» (p. 50).

A não ser que tenhamos de recorrer a uma mudança da primitiva situação,
nós temos de procurar em Talabriga a cidade preromana, que no sec. II a.
C. Decimo Junio Bruto reduzia á miseria e á impotencia, segundo narra
Appiano. E esse oppidum teria que possuir condições estrategicas
identicas ás dos outros castros preromanos, taes como elles nos acenam
que foram escolhidos pelas populações proto-historicas; teria que
justificar o proprio designativo de caracter celtico _briga_--altura
fortificada.

Creio poder affirmar que nada d'isto se encontra em Cacia. Alem d'isto o
proprio G. Barreiros, no dizer que, entre os vestigios antigos,
sobresaía uma torre, que ainda andava lembrada, e se topavam «ruinas de
argamassa», quasi estabelece uma chronologia, porque taes vestigios não
podem ser anteriores aos romanos; poderão attribuir-se menos á sua epoca
que ás posteriores. Para a contemporaneidade, teriamos que admittir e
demonstrar uma deslocação do primitivo assento de oppidum, como vimos;
se esses vestigios se affectam ás epocas successoras dos romanos, o
facto sae para fóra do problema e d'elle me não posso occupar.

O principal estorvo, porém, que a opinião de Barreiros encontra, é
aquelle que eu quis descobrir e evitar, quando ajustei a medição do
itinerario a contar de Cale para o Sul e não de Aeminium para o Norte.
Evitei assim o erro de cair em Aveiro, em Esgueira e agora em Cacia,
onde muito bem podia ir passar com o roteiro romano nas mãos.

Isto illumina-se á luz da carta. Barreiros vem seguindo, com os ouvidos
na tradição do seu tempo, o leito do caminho romano (dito mourisco) pela
Mealhada, Agueda, até á ponte de Vouga, e até aqui bem elle vem; chegado
porém a esta altura, desnorteia-se e inflecte para Oeste para fazer a
primeira estação de Itinerario em Cacia, imaginando-se em Talabriga.
Kilometricamente, creio não haver que lhe objectar. A distancia da ponte
de Vouga a Cacia é proximamente igual á que entre o mesmo ponto se nota
e a linha-zona _TT_, que eu determinei. Portanto não falseava o illustre
chorographo quinhentista a tabella do Itinerario, isto é, as 50 milhas
desde Condeixa (Conimbriga).

Mas a precaução de começar a contagem de Cale para Talabriga, obsta ou
impede aquella inflexão e obriga a trazer o caminho numa directriz mais
desempenada para a ponte de Vouga. Volvendo os olhos á curva _TT_ do
mappa, ver-se-ha que Cacia lhe fica a distancia grande porque, com este
desvio da trajectoria normal, a medição romana perdeu espaço, atrasando-se.

Se não fosse este meio de verificar o erro, era possivel a desorientação.

Creio, pois, ter demonstrado pela ethnographia e pela geometria
topographica que Talabriga não póde ser collocada em Cacia, quer se olhe
á Talabriga preromana ou protohistorica, quer á romana ou historica; á
Talabriga de Appiano e D. J. Bruto ou á da epoca imperial e do Itinerario.


X

Como, segundo se infere de Appiano (vid. adeante), o oppidum de
Talabriga continuou a ser habitado depois da sua rendição no sec. IV a.
C. e emfim ainda existia no sec. IV d. C., poderia succeder que elle
conseguisse resistir á vinda dos barbaros, e chegar ao dominio dos
arabes. Convinha pois consultar a geographia arabica, e o nome de
Edrisi, geographo do sec. XII, impunha-se-me logo.

O que das suas differentes traducções se conclue, não é nada claro para
mim que ignoro o arabe, mas poderá auxiliar o estudo da questão por
parte dos arabistas.

Ha uma edição de 1619 (Paris) com o titulo de _Geographia Nubiensis_,
que quero pôr em confronto com a traducção de Amédée Jaubert
(_Géographie d'Edrisi_, Paris 1840).

Edrisi descreve dois caminhos de Coimbra a Santiago de Compostella: um
por terra, outro por mar.


Caminho por terra

    _Ed de 1619_ (trad. lat)

    «Iter autem terrestre a _Colimria_ ad _S. Jacobum_ est hujusmodi: a
    _Colimbria_ ad oppidum _Aba_ stationis habetur intervallum. Ab _Aba_
    ad oppidum _Vatira_ statio. Ab hoc ad primos terminos regionum
    Portugalliae, statio, pergit que iter secans terram Portugalliae
    spatio diei, ibique conspicitur oppidum _Bonacar_ ad ripam fluminis
    _Durii_, quod est flumen Samorae, atque illic trajiciendum cymbis ad
    hoc paratis. Ab oppido ad amnem Minio, indeque ad castellum Abraca
    LX M. P. duae videlicet stationes. A castello _Abraca_ ad castellum
    _Tui_ stationes duae».

    ---

    O editor de 1619 diz que não ha medida certa para as _stationes_,
    expressão que se referia a pousada dos viandantes. As _stationes_
    justas eram de 25 milhas, mas algumas tinham mais, outras menos.
    Parece que seria o espaço que se poderia percorrer em um dia.


    _Ed. de 1840_ (trad. fr.)

    «O itinerario por terra de Colomria (Coimbra) a S. Tiago é como
    segue: de _Coimbra_ a _Abah_ (Ribadavia) (!) aldeia, uma jornada. De
    _Abah_ a _Uetaria_ (Huctaria) (?) aldeia, uma jornada. D'ahi á
    fronteira de Portugal, uma jornada. O caminho vae através das terras
    de Portugal durante uma jornada, ao fim da qual se chega a
    _Buna-Car_, aldeiasinha nas margens do _Douro_, que é o rio de
    Zamora. Passa-se o rio em barcos proprios para isto. D'este logar ao
    rio _Minho_ ou antes ao forte _Abraça_ (insua de Caminha) (?) 60
    milhas ou duas jornadas. Depois _Tuia_ (Tuy) cidade pouco notavel,
    mas bella e numa região fertil, duas jornadas» (II, p. 232)

    ---

    No texto francês, ao vocabulo _statio_ corresponde _journée_, que eu
    traduzi por _jornada_ (de um dia).


Temos aqui duas traducções do texto arabe, uma em frente da outra, e a
verdade é que sufficientemente se correspondem. O principal para o meu
fim seria a localização das estações de Edrisi; neste ponto o traductor
francês apenas conserva intemeratamente as tradições dos estrangeiros
quando, fallando ou escrevendo, debicam na nossa geographia.

Nem ao diabo lembra que a Coimbra se siga... _Ribadavia_!

A primeira estação ao deixar Coimbra é _Aba_ (ed. 1619) ou _Abah_ (ed.
1840). Poderá corresponder a _Agueda_? Jaubert desejaria falar em
_Riba-d'Agueda_! É provavel.

A segunda estação foi interpretada por _Vatira_ (ed. 1610) e _Uetaria_
(ed. 1840). Não sei identificar esta localidade, assim desfigurada.

Em seguida a isto, se na versão latina parece haver uma incongruencia,
ella desapparece na traducção francesa. Através das terras de Portugal,
chega-se com um dia de viagem ás margens do Douro. Isto parece ser bem o
tradicional caminho que entesta na foz do Douro.

Não diz o geographo arabe em que ponto da margem do Douro ficava _Bona_
ou _Buna-car_, expressão que não sei reconhecer, mas parece-me que deve
ser a embocadura d'este rio, e é a seguinte a razão. Diz Edrisi que de
_Bona-car_ ao rio Minho são 60 milhas; ora, numa pagina anterior (p.
227) elle conta da foz do Douro á do Minho as mesmas 60 milhas. Portanto
creio que _Buna-car_ era aproximadamente em Gaia, onde depois o rio se
atravessava em barcos[25].

Descrevendo o mesmo _caminho por mar_, isto é, a viagem de Coimbra a
Santiago, o primeiro ponto onde diz que se abica, é a foz de
_nahr-Budhu_ (rio _Vadeo_, traduz A. Jaubert!) que corresponde ao Vouga,
rio, acrescenta, consideravel, onde entram embarcações grandes e
pequenas (II, 227). Esta aclaração parece indicar que naquelle tempo a
foz do Vouga e o lago interno serviam a uma navegação bastante activa.
Quanto ao relacionamento da antiga Talabriga com alguma das estações do
caminho medieval descrito por Edrisi, nenhuma conclusão posso tirar com
segurança.

Com muita probalidade porém se infere d'isto que o caminho frequentado
então devia ser o que hoje corresponde á estrada real com a passagem nas
pontes medievaes de Vouga, mas emquanto não se fixarem estes dois ponto;
duvidosos, localização muito verosimil de _Aba_ ou _Abah_ em Agueda e
incerta de _Vatira_ ou _Ueturia_, o testemunho do geographo arabe apenas
serve seguramente para localizar as testas d'este caminho, estabelecer
com grande plausibilidade a tradição do caminho historico pela orla das
montanhas e revelar-nos o movimento commercial da foz do Vouga.


XI

Tratando-se pesquisa dos vestigios da via romana _ab Aeminio ad Calem_,
o testemunho de Viterbo (_Elucidario_, s. v. _Estrada mourisca_) devia
ser ponderado. Diz este illustre antiquario que, nos documentos de
Grijó, se fazia larga menção de propriedades que ficavam umas da parte
de cima, outras da parte de baixo da estrada mourisca. No anno de 1148,
Trutesindo doa ao celebre mosteiro o que possuia em Brantães e em S.
Felix _subter illam Stratam Mauriscam, discurrente riuulo Cerzedo_.

Acrescenta o sabio antiquario que a estrada era mourisca por ter sido
aberta pelos Mouros, que abandonaram a romana que vinha ali a passar
entre Lancobriga e o mar, pois que com o rodar dos annos a costa se
entupira e alteara por causa das areias e os rios estagnados não só
esterilizaram os campos, mas fecharam a passagem dos caminhos. E mais
depõe Viterbo que a estrada mourisca ia do Porto a Agueda por Azemeis,
Albergaria, Vouga, etc.

Antes de mais: notemos esta opinião corrente, esta tradição, tão
concordante com o que eu já procurei accentuar, de que a tal estrada
_mourisca_ descia do Porto a Agueda precisamente por Azemeis, por
Albergaria e por Vouga.

Que Viterbo lhe chamasse _mourisca_ não é de espantar; era a voz popular
que ainda hoje nos falla de Mouros sempre que tem de referir-se a povos
muito antigos, preromanos, romanos, barbaros, etc[26].

Mas o documento de 1148 já tratava de mourisca uma obra que não podia
ser dos Sarracenos, a esse tempo ainda no sul de Portugal. Creio não se
poder sustentar que a estrada que passava em Cerzedo era construida por
arabes; aproveitada sim, porque sendo o caminho que elles ainda
encontravam á sua disposição, devia ser aquelle que inundavam do terror
das suas algaras.

Em que elementos se estribava Viterbo para dizer ainda que a mesma
estrada mourisca tocava em Oliveira de Azemeis, Albergaria, Vouga e
Agueda? Confesso que não os conheço, a não ser que a memoria e o uso
d'este caminho tradicional se perpetuassem através de tantos seculos e
tão profundas transformações sociaes.

Informa Pinho Leal que na freguesia da Trofa (concelho de Agueda) ha
ainda o logar de _Mourisca_, á margem da estrada, e que o nome lhe veio
d'esta. Traduzindo _mourisco_ em _romano_, póde ser acertada a
supposição. Isto transcreveu-o elle de Viterbo, s. v. _Estrada_.

Mais expressivo é o tópico de um sitio, perto de Lamas e junto da
estrada real; chama-se elle _Fundo da rua_. Tal rua não é outra senão a
via romana. Esta explicação affere pela que dá o _Corpus_ (II. p. 363)
com referencia a uma freguesia de Santo Estevam da Rua, onde passava uma
estrada romana (_oppido quod a via romana nomen duxit_). A 3:500 para O.
da Feira ha um sitio chamado _Rua Nova_. Aqui é que só a inspecção dos
logares poderia indicar-me o significado d'este tópico.

Num escritor estrangeiro do sec. XVIII, lê-se uma descrição litteraria
do caminho através do campo de Aveiro, que só se entende se o
suppusermos encostado ás montanhas de leste, permittindo que se
descortine para a banda do mar toda aquella immensidade de terras
feracissimas que aquelle autor olhava como planicie encantadora
(_Annales de l'Espagne et du Portugal_, Alvares de Colmenar, Amsterdam
1741, p. 253).

Isto demonstra que a estrada real de hoje é um caminho velho e
tradicionalmente batido para ligar Coimbra ao Porto.

Nos _Port. Mon. Hist._ não se encontram referencias mais claras do que
esta de Viterbo e as que adduzi em nota, á antiga via romana. Compulsei
bastantes documentos d'aquella publicação e nella encontrei variadas
referencias a caminhos, mas em termos d'onde não se podia concluir cousa
alguma que indicasse o conhecimento da existencia de uma estrada da
epoca romana, considerada como tal[27].


XII

Um esclarecimento dá Viterbo que é exacto e tem importancia para a
historia d'esta região tributaria dos esteiros vacuenses.

Retiro-me ao «entupimento» da costa que com o rodar dos annos se foi
alteando e ao «estagnamento» dos rios que esterilizava os campos e
fechava os caminhos. Esta acção do mar na costa de Aveiro tem sido um
problema technico e administrativo extremamente complicado para os
governos portugueses, não só pelas condições commerciaes de Aveiro, mas
pelo estado sanitario de toda esta região. O coração d'este problema é a
barra do Vouga.

É difficultoso dizer o estado d'esta embocadura nos tempos que
interessam ao presente estudo. Tenho lido que, na epoca romana, entravam
a foz do Vacua embarcações de grande arqueamento (_Os portos maritimos
de Portugal_, pelo Sr. Adolfo Loureiro, II, 3). Não sei que fundamentos
póde ter esta asserção, que em todo o caso é relativa á tonelagem dos
antigos navios.

Os geographos antigos que se referem a este rio lusitanico, não dizem
cousa d'onde se possa inferir a sua capacidade para grandes embarcações,
como aliás se tem escrito.

O mais explicito é Estrabão (_Geographia_, liv. III, III), que vertido a
latim, diz: _Deinceps post Tagum nobilissima flumina sunt Muliadas,
parvas habens navigationes. Itidem Vacua fluvius, post quos Durius longo
fluens cursu_, etc. O geographo grego iguala o Mondego (_Muliadas_) rio
de navegação diminuta, ao Vouga, da mesma fórma (_itidem_) estuario de
diminuta navegação. E tanto mais é esta a natural hermeneutica, que o
contraste é frisante com a importancia do Douro, _longo fluens cursu_.
Estrabão escreveu no sec. I a. e d. de C.; como póde affirmar-se que no
tempo dos romanos entravam o Vouga embarcações de longo curso e a sua
foz era um porto de grande commercio e muita prosperidade?

Ora isto vem ao intento de eu pretender que no surgidouro do Vouga não
havia nos primeiros seculos, pelo menos da epoca romana, povoação de
vulto que determinasse uma passagem forçada na via militar e um desvio
da natural directriz _ab Aeminio Calem_. E para um porto de tamanho
trafego, era pouco um simples _vicus_.

Temos pois a affirmação estraboniana[28]. E antes?

Menos ainda. Diz-se que em algumas minas da região metallifera de
Entre-Vouga-e-Caima tem apparecido vestigios de antigas laborações.
Apesar da falta de precisão chronologica nesta noticia, póde presumir-se
o facto até para a epoca preromana. E neste caso, a via fluvial seria a
mais pronta saida do mineiro para o commercio externo.

Mas um óbice encontro agora. Seria consequente que este trafico
determinasse a formação de um povoado á beira-mar ou na enseada
interior. A essa gente faltaria, porém, uma cousa, que se lhes tornára
tão indispensavel, como o pão para a boca: era a segurança pessoal, era
o ninho de aguia. Com as planuras não se queriam elles. A não ser que
deroguemos os conhecimentos adquiridos no que até agora se tem encontrado.

Alem disto, que motivos ha para tirar effeíto tambem retroactivo á
noticia de Estrabão?

Um primorosissimo escritor[29], filho de Aveiro, evita, com
exemplar abnegação patriotica, o problema archeologico da origem
preromana da sua terra natal, mas propende á presumpção de que algum
povoado assentaria antigamente na foz do Vouga os seus lares. E enfeixa
o illustre homem de letras duas razoes: 1.ª, a geographica; 2.ª, a da
exploração do sal. Aquella parece-me menos conciliavel com a
ethnographia dos povos a que se deseja alludir, como notei. E esta? Para
o commercio, quer interno quer externo, temos ainda o mesmo senão. Os
marnôtos d'aquelle tempo onde se acoitariam[30]?

Que, posteriormente a Estrabão, as _parvae navigationes_ crescessem em
numero e tonelagem não é impossivel, porque a vida social começava já a
fervilhar nas planicies.

E a industria do sal, cuja utilização aliás já data dos tempos
neolithicos, poderia commercializar-se (perdão para o neologismo) d'essa
epoca em deante, se tomarmos por base da hypothese o caracter latino da
technologia[31] e o que sabemos por aquelle geographo da
importancia das salgas (_Geographie de Strabon_, por Am. Tardieu, 1886;
III-IV-2). Mas então já a via militar _ab Aeminio ad Calem_ lá estaria
antes de ser necessaria, se necessaria se pudesse considerar por motivo
do commercio externo, num porto afastado da linha natural de
communicação e posto em duvida pelo silencio dos textos, como vimos.

Do que o Vouga seria na idade media possuimos o testemunho do geographo
arabico Edrisi (_Géographie d'Edrisi_, trad. de P. Amédée Jaubort. Paris
1840 II, 227).

O nosso rio foi transposto para aquella lingoa por uma palavra que A.
Jaubert representa na graphia francêsa por _Boudhou_ (ou==u); e assim
conforme o texto arabico vemos que o _nahr-Budhu_ é um rio consideravel
onde navegam embarcações grandes e pequenas, e a navegação se estende a
70 milhas da sua foz. Agora já começamos a entrever uma população
occupada no trafego maritimo.

A diplomatica tambem proporciona alguns elementos de estudo
relacionaveis com este, mas propriamente esta epoca já não interessa á
questão posta.

Há porém, uma cousa que não posso omittir.

É o documento n.º LXXVI dos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chartae», onde
se lê a fórma medievica de Aveiro, a qual é _alauario_, o que só por si
desmorona as hypotheses etymologicas a que varios chorographos se tem
apegado, mas revela pela primeira vez a existencia de uma povoação onde
hoje é Aveiro (assim tambem _Talabario_ e _Táveiro_. Doc. CXXVIII).

O trabalho do mar e das aguas na desintegração de um subsolo brando e a
força do vento nos areaes movediços devem ter sido causa perenne e
inflexivel dos açoreamentos e obstrucção da navigabilidade[32]. O factor
é antigo, tão antigo quanto o póde ser, por maneira que aquella região
nunca teve, fóra das epocas geologicas, outra face topographica muito
diversa da dos nossos dias[33]. É presumivel que elevadas florestas
forrassem com sombras impenetraveis toda essa immensa orla limitada pelo
mar a Oeste e pelas montanhas a E., na região e na epoca de que me
occupo[34] como em outros pontos suppôe o Sr. Alberto Sampaio
(_Portugalia_, II, 215, art. cit.); mas isso não importa acreditar a
possibilidade da via romana por terrenos de tal especie.

Informou-me o distincto engenheiro Sr. Mello de Matos, que, ao
proceder-se aos trabalhos de construcção de uma ponte nas proximidades
de _Vagos_, se encontrou encastoado nas areias o cavername de um navio,
que infelizmente não foi estudado. Na _Esgueira_, achara-se outro.

Narra Pinho Leal que ha annos em Vagos se descobriu uma ponte sobre um
ribeiro que a areia das dunas entupiu completamente. Escusado é
acrescentar que a ponte foi logo capitulada de _romana_, nada menos.

Estes factos não tem sido apenas recentemente verificados. Já vimos num
trecho, que desatei do nosso Gaspar Barreiros (p. 50) que pelas alturas
de Cacia se tem encontrado, submersos na terra, cascos de navios e
ancoras, o que radicou a crença de que as embarcações chegavam ate ahi
em tempos antigos. Esta apreciação já é do sec. XVI.

D'este millenario ha um mappa, publicado por Abrahão Ortelius, onde se
reconhece nitidamente a bacia de Aveiro. (Vide _Theatrum orbis
terrarum_, já citado a pag. 132).

Estes factos esclarecem o assunto e reatam a tradição de que os fundos
da ria se vão alteando com a obstrucçâo nos esgotos das correntes
fluviaes. Fr. Bernardo de Brito (_Monarchia Lusitana_, II. V. p. 130)
diz que, do tempo d'elle, Aveiro, muito concorrida de gente de mar e
pescarias, era cidade florescente[35].

O Sr. Cons.º Luis de Magalhães tambem entende que, tendo ahi embarcado
para uma jornada de Africa os terços da Beira, é porque o porto
consentia a arqueação das caravelas.

D'esta epoca ha mais elementos concordantes no movimento commercial de
Aveiro e portanto no estado da sua barra. (Vid. _Os portos maritimos de
Portugal_, pelo Sr. A. Loureiro, II, 3).

O que Barreiros conta relativamente a Cacia, encontra-se repercutido num
local situado muito mais acima sobre o Vouga. No sec. XVIII corria que
em eras passadas ainda os navios subiam aquelle estuario até a antiga
cidade de _Vacua_[36], onde depois foi a villa de Vouga e
agora mero cabeço de Vouga (_Arch. Port._, VII, 191), que aliás tende a
desapparecer, como desappareceu a de Marnel pelo impaludismo (Pinho
Leal, _Port, Ant. e Mod._, s. v. _Vouga_).

Esta noticia, porém, deve interpretar-se com uma informação mais
minuciosa que encontro em uma obra de 1741 (_Annales de l'Espagne et du
Portugal_, por Alvares de Colmenar, Amsterdam). Diz este A. que Aveiro é
uma cidade bastante consideravel, situada na testa de um pequeno golfo
que a maré estabelece na embocadura do Vouga. Este rio fórma um porto de
limitadas dimensões, onde os navios mediocres, que não demandam senão 8
ou 9 pés de agua, podem entrar na preamar, com a direcção de pilotos do
sitio. Este A. já falla na grande producção de sal e nas fortificações
constantes apenas de uma muralha flanqueada de algumas torres.

Na lagoa de Esmoriz, de que falla um doc. do sec. IX, (_Port. Mon.
Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º XII), havia uma barra por onde entravam
as caravelas em antigos tempos e depois se entupiu (_Arch. Port._, IV,
144).

O caso do cavername encontrado perto de Vagos liga-se com a noticia do
sec. XVIII, transmittida pelas _Memorias Parochiaes_, segundo as quaes o
braço da ria que existe entre Aveiro e Ilhavo dava antigamente fundo
para caravelas e agora é vadeavel (_Arch. Port._, IV, 329).

Em Mira, numa lagoa de agua doce, conta um informador que nella se
encontram vestigios de casas, moedas e alicerces de uma parede ou
caminho que a atravessou pelo meio. Alem disto, pelo norte e poente,
tem-se açoreado (_Arch. Port._, V, 297).

Quanto se póde deduzir d'estas noticias, o extenso delta vacuense tem
sido invadido com trabalho successivo pelas areias que causam a
obstrucção dos esteiros e a diminuição da navegabilidade. De nenhuma
noticia, porém, se póde concluir que na epoca romana o aspecto
topographico e a constituição orographica da região fosse tão diverso do
que é actualmente, que a via romana lá pudesse passar preferentemente ao
trajecto mais interno, na base da montanha, através dos castros e das
minas.


XIII

De Talabriga temos uma das paginas da sua historia escrita por um autor
do meio do sec. II d. C., Appiano de Alexandria.

É certamente este um caso particular, mas não deverá deixar de ser
considerado como uma amostra de dramas analogos que succederam com os
oppidos lusitanos, no embate das cohortes romanas.

Talabriga, escreve Appiano, era uma das cidades (da Lusitania) que mais
frequentemente se revoltava. Esta falta de resignação, este, direi eu,
germen de patriotismo ou melhor de municipalismo, não podia
tranquillizar Decimo Junio Bruto, que julgou que o caso era de reclamar
a sua presença no local da cidade. Partiu com numerosa gente, e ao seu
apparecimento responderam os irrequietos Talabrigenses com supplicas e o
seu incondicional abandono á discrição do conquistador. Então J. Bruto
foi energico e insaciavel, mas ao mesmo tempo teve um lanço inesperado
de generosidade. Quis fazer-lhes sentir primeiro a dureza cruel do seu
braço de guerreiro, e para isso impôs-lhe a immediata entrega dos
transfugas das hostes d'elle, certamente alliados dos romanos, a dos
prisioneiros, a de todo o armamento e ainda por cima exigiu refens.
Depois chegou a ordenar-lhes que abandonassem a cidade com suas mulheres
e filhos. Parece que o prestigio militar de J. Bruto não valia menos que
seu tino de politico e conquistador. Os Talabrigenses aprontaram-se para
obedecer alli mesmo. Mas o capitão romano queria compor-lhes um quadro
que lhes impressionasse perduravelmente a imaginação. E ia espreitar o
effeito produzido.

Desdobrou em circulo as suas tropas e, agglomerando dentro a chusma dos
habitantes humilhados, arengou-lhes. Fez-lhes perceber que não receava a
sua turbulencia indomita, porque quantas vezes desertassem, outras
tantas elle viria combatê-los e reduzi-los com a necessaria firmeza,
incutido assim o receio e a convicção de que no momento adequado, J.
Bruto cairia sobre elles com toda a energia, o general romano quebrantou
a sua ira, satisfeito com estas objurgatorias. Mas não sem que lhes
tomasse os cavallos, os mantimentos, os dinheiros da cidade com todo o
outro material publico[37]. Isto era claramente deixá-los na
impotencia e até na penúria. E por fim J. Bruto, contra tudo quanto os
Talabrigenses podiam já esperar (_pratter spem_), restituiu-lhes a
cidade para nella continuarem a habitar. Isto passava-se já meado o sec.
II, antes de Christo (138 a. C).

Feito isto, o conquistador regressou a Roma.

Esta pagina da conquista da Lusitania é tanto mais importante quanto é,
com igual individuação, a unica que nos resta de historia escrita dos
oppidos lusitanos, e, embora narre um só episodio da guerra da
conquista, não deixa de ser elucidativa.

Quando li este trecho de Appiano (_Appiani Alexandrini Rom. Historiarum
quae supersunt_. Parisiis. F. Didot. MDCCCXL), confesso que senti
amargura por não podermos ainda ir conversar na região do Vouga com as
ruinas da cidade onde estes successos crueis se desfiaram, e segredar ás
cinzas d'aquelle abrasado patriotismo que o mesmo sentimento, que
chammejou nesses lusitanos insoffridos, ainda se não arrefentára com o
soprar sobre ellas de vinte vezes cem invernos, e em mais de um dia, já
da nossa existencia nacional, elle se tem ateado em protestos bem
tumidos de calor.

Talabriga continuou a existir e refazer-se, atravessando a epoca
imperatoria, como nos attesta: 1.º, a data a que pertence a ara de
Estorãos, sec. III-IV; 2.º, a sua inscripção no Itinerario (sec. IV).

Que seculos lhe trouxeram o ultimo acto das suas tragedias? Os do mal
afamado frankisk barbaro ou os do pavor sarraceno mais verdadeiro e real
que aquelle, sobretudo no territorio portugalense?

Entrevejo pois para a archeologia portuguesa este problema: sondar o
jazigo de Talabriga, verdadeiro simbolo do nosso sentimento de
independencia territorial e figura-se-me que mostrei onde com toda a
probabilidade elle se deve encontrar. Espero ter eu mesmo ensejo de
averiguar se o simples e frio raciocinio me guiou, sem desvio, até as
trincheiras historicas, que occultam os miserandos restos de Talabriga.

Conservar-se-ha ainda evolucionado este toponimo? Responderá o
onomastico, paternalmente assistido pela philologia, não se dando o caso
mais provavel do verso susodito de Vergilio:

    _Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae!_

Março de 1907.


_P. S._ No mappa do _Ortelius_, de que me soccorri a pp. 132 e 155, vejo
nova _Lancobriga_, pelo sul de Scalabis; teremos tres? (Ver _O Arch.
Port._, XII, 42).


    [1] O brasão de Agueda ostenta num lemnisco o mote Aeminium. Mas
    Coimbra tem hoje uma lapide, quo lhe dá irrecusavelmente o foro de
    _civitas aeminiensis_.

    [2] Um dos autores que se destacam por tentar a determinação de
    Talabriga e Langobriga (e ainda outras estações da via ab _Olisipone
    Bracaram Augustam_) por um processo exacto é o Sr. J. Henriques
    Pinheiro, fallecido professor do Lyceu de Bragança. Mas talvez em
    consequencia de trabalhar sobre uma carta (a de Folque) muito
    reduzida e de se servir da reducção de milhas a leguas, localiza
    Talabriga em _Aveiro_ e Langobriga na _Feira_. Em todo o caso, não
    podendo conciliar as distancias relativas a Langobriga, conclue que
    ha erro nos Codices (_Estudo da Estrada Militar Romana de Braga a
    Astorga_, por J. Henriques Pinheiro, Porto, 1896, p. 129).

    [3] O Sr. A. Coelho diz que a fórma verdadeira é a de Estrabão, como
    o prova a moderna _Vouga_ e _Vauga_ dos documentos em baixo latim
    anteriores ao sec. XII (Mélanges Graux, 1882). Vid. _Religiões de
    Lusitania_, II, 28.

    [4] Nas _Noticias Archeologicas de Portugal_, de Hübner, trad. do
    Visconde de Juromenha, vem um extracto do Itinerario segundo a ed.
    de Parthey & Pinder (1848). Prefiro a lição _briga a brica_ de
    Wesseling, ed. dos _Vetera romanorum Itineraria_, MDCCXXXV.

    [5] Não pude haver á mão as _Memorias_ d'este mesmo senhor.

    [6] Como preciosidade estrangeira, desejo referir que o aliás
    eminente celtista D'Arbois de Jubainville, num estudo erudito sobre
    «Les Celtes en Espagne» (_Revue Celtique_, XIV, § 8) diz, de
    passagem, ser Talabriga a actual povoação de Sousa, conc. de
    Alenquer! Presumo que esta incongruencia é proveniente do que
    escreveu _C. Muller_ em uma nota da _Cl. Ptolemaei Geographia_ (I,
    137) a respeito de Talabriga: _Oppidum haud longe a Vouga, fluvio
    circa, hod. Souza alicubi steterit. Accuratius locum definire non
    licet._ Como ha mais Marias na terra, d'ahi proveio a confusão.
    Veja-se Sousa a O. de Vagos.

    [7] Por partes temos:

        De Gaia á Feira                        21:900 metros
        Da Feira a Oliveira de Azemeis         10:900 metros
        De Oliveira de Azemeis a Albergaria    18:000 metros
        De Albergaria ao rio Vouga              6:800 metros
        Do rio Vouga a Agueda                   9:000 metros
        De Agueda á Mealhada                   22:000 metros
        Da Mealhada a Coimbra                  16:500 metros
                                              105:100 metros

    [8] Escreveu o autor do _Portugal Antigo e Moderno_ que a via romana
    seguiria pouco mais ou menos o trajecto da linha ferrea. Assim era
    preciso, se Talabriga fosse Aveiro, quer no troço ao norte, quer no
    troço para sul, em attenção ás condições topographicas. Neste caso,
    porém, a distancia de Coimbra a Gaia seria necessariamente pelo
    menos a que hoje é por aquelle caminho; nada menos de 115
    kilometros, o que está bem longe dos 105 kilometros da via romana e
    da estrada real. Num diagramma da carta indico a differença das
    distancias entre Cale e Talabriga e Gaia e Aveiro pela via ferrea
    (45:800 metros e 59:000 metros).

    [9] No mappa com que documento este estudo, lancei só os elementos
    que me eram uteis. Tudo o mais ficou no original, a que até accresci
    alguma cousa a mais por assim convir á minha demonstração.

    [10] É força porém attentar na exigua differença que no caso
    presente existe entre a recta, que unisse os dois pontos extremos
    (Coimbra e Gaia), e o desenvolvimento da distancia effectiva pela
    estrada real, entre os mesmos pontos. Bem sei que differentes
    parcellas podem dar a mesma somma, mas difficultoso seria crer que,
    acertando o Itinerario na distancia total entre Aemiuium e Cale,
    delinquisse nas parcellas, que vem a ser as tres secções da via
    militar. Veja-se o diagramma.

    [11] Pela linha ferrea de Coimbra a Aveiro são 56 kilometros: pelo
    caminho romano de Coimbra a Talabriga eram 59 kilometros.

    [12] Nada mais possivel do que um erro de informação de Plinio. Mas
    poderia tambem haver aqui uma confusão entre a Talabriga do roteiro
    romano e a Vacua, de que parece existirem ruinas no Cabeço de Vouga
    (Cit. _Oppida restituta_, 1885). Mas o Itinerario omitte-a, o que é
    apenas argumento negativo. Ainda se poderia dar o caso de _Vacua_
    não ser _mansio_ do caminho romano. Havia um codice de Plinio que
    nomeava Talabriga e _Vacca_ e uma cosmographia antiga que refere
    _Vacca_ (_sic_) e não Talabriga, que aliás deveria ter conhecido
    pelos AA.

    Jorge Cardoso, no _Agiologio_, II, 65, quer que Vacua tenha sido em
    Viseu. Peor!

    [13] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. & Chart.», vem um documento
    (n.º 815 do anno de 1095) cujo teor nos não prende, mas onde se
    lê:.... _Ista igitur auctoritate confissus ingressus sum et ego
    densissimam silliam_ (silvam) _que ab antiquis temporibus
    habitaculum erat bestiarum_.... Trata-se de arredores de Ilhavo.

    [14] Nos arredores de Aveiro ha pontos com as cotas de 15, 27, 46,
    57, 48, 38, 23, 16, 24 e 10 que correspondem a relevos suaves. Todos
    estes pontos estão situados na margem esquerda do Vouga. Mas na
    hipothese de Talabriga, a estação do Itinerario, ser Aveiro ou
    proximidades, a estrada romana, chegada ahi, ver-se-hia forçada a
    atravessar o Vouga desde Eixo para baixo, em direcção ao Norte. E
    digam-me se todo esse trato de terreno, comprehendido entre a margem
    direita do Vouga, desde a ponte de S. João de Loure, como vertice
    meridional, e os sitios de Froços, Angeja, Formelã, Canellas e
    Salreu, não eram de fazer recuar o engenheiro romano que por ahi
    tentasse obter saida para o norte, em direcção a Cale, tendo outra
    incomparavelmente melhor?

    [15] Tenho sempre especial satisfação quando vejo que conceitos meus
    foram já formulados por escritores de outro cunho. Assim na _Revue
    des Études Anciennes_ (1905, p. 389), Cam. Jullian, referindo-se a
    caminhos de epocas prehistoricas, diz: _Et il résulte bien.... que
    beaucoup des grandes lignes de circulation actuelle ne sont que les
    héritiers des pistes tracées il y a des milliers d'années._

    [16] Para os leitores habituaes do _Archeologo Português_, seria
    ociosa esta nota; para os que porventura o assunto do presente
    estudo desperte de-novo, é uma prevenção necessaria. Quando se falla
    em _castros_ com supposta referencia á epoca romana, não se trata
    dos _castra_, acampamentos ou abarracamentos (Saglio & Daremberg)
    fortificados que as forças militares de Roma construiam em campanha:
    nunca vi ruinas de nenhum d'estes _castra_, nem me consta que as
    haja verificadas no pais. E comtudo os _castros_, ou _crastos_ no
    fallar do povo, são abundantissimos entre nós... porque são cousas
    muito differentes. Estes _castros_ são apenas uns montes com
    vestigios de habitação _ante-romana_ e quasi sempre de obras de
    fortificação de terra ou de muralha. Assim os castros são outeiros,
    cabeços habitados e fortificados, não pelos romanos, mas contra os
    romanos, pelo menos, e pertencentes aos antigos habitadores do país.
    Os _castros_ devem pois aos romanos, não o seu principio, mas a sua
    decadencia e o seu fim, porque foi a conquista e foi a civilização
    romana que os tornou desnecessarios naquelle tempo. Como se lhes dá
    então este epitheto que não vem senão causar confusões? O epitheto
    encontramo-lo na toponimia local; foi o povo que conservou até hoje
    esta designação que nós vamos encontrar com frequente emprego nos
    documentos da idade media. É que no singular _castrum_ significou
    secundariamente um castello, uma fortaleza; cita Rich o capitulo VI
    da _Eneida_, onde se lê (_vv_. 771 a 776):

        Qui juvenes quantas ostentant, aspice, vires!
        At qui umbrata gerunt civili tempora quercu,
        Hi tibi Nomentum, et Gabios, urbemque Fidenam,
        Hi Collatinas imponent montibus arces,
    775 Pometios, Castrumque Inui, Bolamque, Coramque:
        Haec tum nomina erunt, nunc sunt sine nomine terrae.

         (_Oevres de Virgile_, par E. Benoist; vol. I, Hachette, 1882).

    (Trad.) _Contempla como são grandes as forças que aquelles mancebos
    ostentam! Pois d'entre os que trazem a fronte sombreada pelo
    carvalho civico, uns construir-te-hão Nomento, Gabios e a cidade de
    Fidena, outros assentarão em montanhas as fortalezas Collatinas,
    Pometios, o castello de Inuo, Bola e Cora_ (antigas povoações do
    Lacio): _estes serão os nomes d'aquelles lugares, que estão agora na
    terra sem nome._

    Foi certamente d'esta accepção que derivou para o latim corrente, e
    em seguida para o fallar medieval das nossas populações, a
    denominação de _castro_ ou _crasto_.

    Na _Revue des Études Anciennes_ (IV, p. 43, 1902) vem uma serie de
    citações para demonstrar que no fim do Imperio pela palavra
    _castrum_ se designavam frequentemente as cidades fortificadas; de
    entre todas extraio a seguinte de Isidoro (_Origines_, XV, 2, 13):
    _Castrum antiqui dicebant oppidum loco altissimo situm_. Com
    referencia a sitios nossos, temos, bibliographicamente, o conhecido
    _Portumcale castrum_, de Idacio.

    Mas a par d'aquella, outras se formaram, como _castello_,
    _cristêlo_, _crastêlo_ e _castrêlo_. _Castellum_ (cfr. cit. _Rev.
    des Ét. Anc._) na lingua latina, era um deminutivo de _castrum_ e
    applicava-se tanto a um reducto transitorio, como a um forte
    permanente, quasi sempre situado em logar elevado (Saglio &
    Daremberg, s. v. _Castellum_). Depois, é explicavel que a linguagem
    popular prescindisse da origem não romana d'estes pontos
    estrategicos, e applicasse o termo a alguns castros, talvez aos mais
    deminutos. Aos mesmos montes se vêem tambem applicadas as
    designações de _cividade_, mais ou menos pura, _cidadêlhe_, _coroa_
    e outras ainda. Os autores antigos usam o termo _oppidum_ applicado
    a alguns d'estes centros de população (_oppidum Aeminium_). E ainda
    se encontra junto ao nome originario da povoação, a modo de suffixo,
    o termo de origem celtica _briga_, que tambem quer dizer castello,
    altura fortificada (_Talabriga_).

    Os romanos, no nosso caso, traçando a via militar através d'estes
    montes habitados, não fariam mais do que seguir um caminho historico
    e uma directriz frequentada.

    [17] O parocho de Segadães (1758) informava que a antiga cidade de
    _Vaca_ (_sic_) fôra assolada pelos _mouros_. Os Leitores conhecem
    estes _mouros_... (_Arch. Port._, VII, 191).

    [18] Varios outros documentos d'esta região de Entre-Vouga-e-Douro
    compulsei eu nesta collecção, que se reportavam a _castros_, mas não
    pude localizar as referencias com a presteza que era necessaria. Até
    se me deparou a fórma rara _crésto_ (_cresto ualanes_, doc. DXLIX do
    anno 1077), da qual conheço outra actual no concelho de Valdevêz.

    [19] Na fé de Nascimento Silveira (_Mappa breve da Lusitania_, p.
    226), em Mancinhata, nos cruzeiros ha inscripções que ainda ninguem
    entendeu.

    [20] Nos _Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.», n.º CCCCLXXI, vem um
    documento que diz: _Cesari... subtus monte castro calbo..._ Cf. o
    n.º CCCCLXX. Não pude averiguar se é um _Monte Calvo_ que vejo perto
    de Romariz. _Cesári_ (gen. de _Cesarius_, _-ii_) deu Cesár, como
    _Severi_ (_Port. Mon. Hist._, «Dipl. et Ch.», _passim_, e _Arch.
    Port._, II, 252, art. do Sr. P. de Azevedo) deu Sever.

    [21] Virá de _Calambria_? pergunta A. Herculano (_Historia de
    Portugal_, III, 423). Cfr. _Arch. Port._, art. do Sr. A. Cortesão,
    IX, 232. Teremos aqui alguma _Calambriga_? Um thesouro de 16 argolas
    de ouro é de lá. (_Arch. Port._, II, 87).

    [22] Eu não me occupo especialmente da _Langobriga_ do Itinerario,
    mas é facil ver que identicos raciocinios lhe são applicaveis e em
    consequencia, a situação d'este segundo oppido deveria ser na faixa
    de terreno vagamente indicada pela curva _LL._ um pouco ao norte da
    Feira. No meu estudo da ara de Estorãos, assentei que esta não é a
    actual _Longroiva_, cuja fórma medieval era _Langobria_, (_Port.
    Mon. Hist._, «Dipl. et Chart.» CCCCXX). Do que deponho a p. 141,
    parece que é a algum dos castros de _Obil_ ou do _Monte do Murado_
    que deverá convir a localização de Langobriga. Este fica a 6:000
    metros para leste da lagoa.

    Para _longo-_ e _lango-_ como para _brica_ e _briga_, não encontram
    difficuldade os celtistas. (_Élém. celt. dans les noms de personnes
    des inscr. d'Esp._, por A. Carnoy. Luvaina 1907).

    [23] A legitimidade do processo que segui, empregando o compasso e a
    escala para determinar a zona em que, segundo as indicações do
    roteiro romano, deve encontrar-se o jazigo de Talabriga, tem uma
    averiguação facil, apesar da estranheza que possa causar. Se eu,
    collocado em Eminio, quisesse determinar a situação de Cale, cujo
    anorteamento já conhecia previamente, e para isso adoptasse identico
    systema, o compasso levar-me-hia a uma zona de terreno, onde não me
    seria impossivel encontrar localizações compativeis com uma estação
    d'aquella natureza.

    Creio todavia que nem com todos os terrenos assim se póde proceder.

    Comprova tambem a plausibilidade do resultado a circunstancia de
    fazerem pequena differença a distancia em linha recta entre Coimbra
    e Gaia e a rectificação da estrada entre os mesmos pontos.

    [24] ... por ser tam grande como todos sab[~e], de [~q] á prouerbio
    no pouo. (_Ibid._ p. 50). Já não é só pois grande a legua da Povoa!

    [25] O escritor espanhol Eduardo Saavedra, num artigo intitulado «La
    geografia árabe de Portugal» in _Revista Archeologica e Historica_,
    I, 49, suppõe que o trajecto descrito por Edrisi vae de Coimbra a
    Viseu e Braga «por um caminho muito frequentado», fazendo o primeiro
    descanso em Avô, 45 kil. a NE. de Coimbra; o segundo em S. Miguel do
    Outeiro, 10 kil. a O. de Viseu no caminho de S. Pedro do Sul; depois
    chega-se ao Douro, que se passa em embarcações defronte de uma
    aldeia, que é Villaboa de Quires, a E. de Penafiel. D'aqui duas
    jornadas a Braga e outras duas a Tuy.

    Salvo o devido respeito, isto parece uma viagem... _à vol d'oiseau_!

    [26] Nos _Port. Mon. Hist._, «Diplom. de Chart.», apparecem mais
    documentos em que se encontra esta mesma designação. Estes por
    exemplo:

    N.º 67 do anno 953:... _et inde per carraria mourisca..._ (Isto era
    nas vizinhanças de Villa do Conde).

    N.º 614 do anno 1083:... _et inde per via maurisca:..._ (territorio
    de Arouca).

    Póde não se tratar nestes dois documentos de vias militares romanas,
    como não se trata; mas nem por isso a designação deixa de ser
    inexacta no seu sentido proprio. Eram antigos caminhos, anteriores
    aos arabes. Aliás teriamos que admittir que os filhos do Islam
    andaram por terras de Villa do Conde e de Arouca a abrir estradas em
    fórma, por serem invios os territorios.

    Demonstra isto que os amanuenses do secs. X e XI já não sabiam
    estremar romanos (e visigodos) de serracenos. Era pois, como hoje, o
    fallar do povo.

    É tambem este o sentimento do Sr. Pedro de Azevedo (_Arch. Port._,
    III, 137 sgs.). Este facto é bastante expressivo. Não passára um
    seculo ainda depois da expulsão dos arabes naquella região, e a
    interrupção de tradições locaes tinha sido tão intensa que a mera
    conjectura tomara o logar d'aquellas, attribuindo aos muçulmanos as
    obras de viação de que elles apenas tiveram a utilidade (Veja-se
    _Hist. de Portugal_, por A. Herculano, III, 421). Em França não se
    dava isto. Ruy de Pina na _Chronica do sr. rey D. Affonso V_ (p.
    569) diz: «E na cidade de Nimis leixou El-rey _a estrada romam_, que
    vay a Avinham».

    [27] Seria longo transcrever os trechos respectivos d'esses
    documentos; e nem sempre é possivel acertar a que especie de
    caminhos se referem as expressões usadas nos documentos. É commum o
    termo _strada_, _strata_; algumas vezes adjectivada _strata
    ueredaria_ (Dipl. et Chart., n.º 174) em opposição a _alia carrale_
    (id.); _estrata de uereda_ (id. n.º 13); _in estrada qui discurrit
    via de uereda_ (id. n.º 24) ou _strata maiore_ (id. n.os 563, 378 e
    549). Tambem se encontra a expressão _carreira antiqua_ (id. n.os
    620 e 639), _karraria antiqua_ (id. n.os 888), _carraria antiqua_
    (n.os 639 e 287), _carera antiqua_ (id. n.os 366). _Via de strada_ e
    _strada de uiminaria_ lêem-se no doc. n.º 817 (_ob. cit._) Ainda hoje
    se póde dizer _caminho de estrada_. _Carreira_ é termo agora quasi
    só locativo, mas ainda se ouve no norte applicado ás largas entradas
    de algumas casas antigas, precedidas de uma alameda plana;
    certamente _carreira_ inclue a ideia de carro, como _carrale_. Outra
    denominação que encontrei foi a de _via publica_ (_ob. cit._, n.º
    676), que parece corresponder a caminho publico.

    _Karraria antiqua_ era certamente uma estrada carreteira antiga já
    naquella epoca e portanto tradicional, mas d'aqui não se póde
    concluir que essa estrada fosse _via militar_ romana. Assim o doc.
    n.º 570 do anno 1079 refere-se á freguesia moderna de Paçô, no
    concelho do Valdevêz (_uilla Palatiolo_), onde nunca passou via
    militar e onde a _carreira antiqua_ poderia bem attingir a epoca
    romana.

    Alguns d'estes documentos foram indicados pelo erudito conservador
    do Archivo Nacional e meu amigo o Sr. Pedro de Azevedo; outros
    rebusquei-os propositamente com o auxilio do valioso trabalho do Sr.
    Gama Barros, _A administração Publica em Portugal_, entre os que
    pertencem á região de Entre-Vouga-e-Douro.

    [28] No mesmo pensar encontro-me com o Sr. Alberto Sampaio na
    _Portugalia_, II, 216 (_As povoas maritimas do norte de Portugal_).
    Assim se exprime: «As unicas povoações, vizinhas do mar, existentes
    então (no tempo dos romanos), eram Calem e Portucale».

    [29] É o Sr. Conselheiro Luis de Magalhães, em _A arte e a natureza
    em Portugal_, vol. IV. A descrição da ria immensa de Aveiro, com as
    salinas espelhadas que a cobrem, com os seus cones alvissimos de
    sal, que marchetam a planicie sem fim, é um d'estes primores de
    prosa gracil e diaphana, que mais ninguem poderia escrever com igual
    coração e com pulso comparavel. Parece que a seducção d'esse
    panorama não me será mais intensa, quando com os olhos o vir, do que
    quando o adivinhei naquellas tão poupadas paginas.

    [30] A grandíssima maioria das povoações d'estas epocas era nos
    altos; ahi tem sido encontrados os seus vestigios. Para a alguma se
    attribuir situação aberta como a de Aveiro, necessario seria
    documentar a excepção.

    Não repugna absolutamente admitti-la no nosso caso, mas é hypothese
    pura. E depois, lá temos o distinctivo _briga_. O nome da cidade
    comsigo traz a natureza do seu assento. No Algarve, _Ossonoba_ e
    _Balsa_, não demoravam em outeiros. (Vide _Religiões da Lusitana_
    II, 85).

    [31] _Portugalia_, II, 220, «As póvoas marítimas do norte de
    Portugal», pelo Sr. Alberto Sampaio.

    [32] Explicação geologica d'estes phenomenos: «C'est après avoir
    traversé les marécages du Vouga, que l'on entre dans les terrains
    anciens; ce sont d'abord des schistes luisants, généralement cachés
    par des dêpots superficiels: sables des dunes, graviers pliocènes et
    graviers kaoliniques appartenant au Crétacique. Ces derniers ne
    montent pas plus haut qu'Estarreja et le Pliocène est rarement
    visible depuis la voie ferrée. Parfois ce soubassement de roches
    solides n'existe pas, ou du moins ne se trouve qu'à une certaine
    profondeur au-dessous du niveau de la mer; dans ce cas, la côte
    subit des alternances d'accroissement et de décroissement qui
    peuvent être funestes à l'homme trop empressé de s'approprier le
    terrain que les sables ont gagné sur la mer; tel est le cas à
    Espinho». _Promenade au Gerez (Souvenirs d'un géologue)_, por Paul
    Choffat, 1895, p. 1.

    [33] Poderia aqui investigar-se das alterações da costa que possam
    ter modificado o aspecto do surgidouro do Vouga. Um apello,
    publicado no _Arch. Port._, II, 301, teve em resposta o silencio.
    Não tratando dos factos de periodos geologicos ou indeterminados
    (_Arch. Port._, VII, 274 e X, 193) pouco é o que se tem recolhido e
    ás vezes antagonico. Açoreamentos em epocas historicas foram notados
    na Povoa de Varzim, Villa do Conde, Fão, Esposende, Vianna, em
    Setubal, no Algarve (_Portugalia_, I e II. _passim_), e eu mostro
    que na faixa de Esmoriz a Mira elles se deram tambem em epoca que
    não posso precisar. Num mappa que illustra o _Hisp. & Port.,
    Itinerarium_ de Martin Zeiler (1656) Aveiro é situada ao norte do
    Vouga. E não é o unico mesmo de datas mais recentes.

    [34] Ha um documento do sec. XI que faz uma referencia aproveitavel
    debaixo d'este aspecto: é o n.º DCCCXV do anno 1095 (doação á sé de
    Coimbra da igreja de S. Christovam, junto a Ilhavo)... _Ista igitur
    auctoritate confissus ingressus sum et ego densissimam silliamm_
    (silvam) _que ab antiquis temporibus habitaculum erat bestiarum..._

    [35] Entre as cartas antigas que folheei, desejo destacar uma do
    sec. XVII, assinada por N. Sanson. _christ. Gall. regis geografo_
    (_Hispaniae antiquae tabulae_, 1641). O mappa de Portugal antigo
    individúa, na região que andei estudando, _Conimbrica_ em Condeixa,
    _Aeminium_ na margem norte do Mondego; _Talabriga_ ao N. do Vouga,
    um pouco afastada do estuario, a 20 ou 25 _milliaria_ da foz do
    Vouga (isto é, na altura onde eu localizo esta povoação); e,
    seguindo no mesmo rumo, _Langobriga_. É na Bibliotheca Nacional, um
    grosso volume _in-folio_, recentemente encadernado com o
    dístico--Mappas--e sem frontispicio.

    [36] Esta lenda porém reproduz-se em mais localidades, fóra d'esta
    região.

    [37] ... _pecuniis publicis, cum reliquo publico apparatu, ademtis_.
    Isto dá bem a entender que havia uma perfeita organização politica,
    e n'ella se estribava a organização de uma defesa militar contra a
    invasão romana.



DO AUTOR


ESTUDOS DO ALTO-MINHO (SERIE 1.ª)


Publicados

I--Epigraphia christiano-latina (uma inscripção inedita).

II--Um passeio archeologico no concelho dos Arcos de Valdevez (visita ás
antas da serra do Soajo).

III--Machados de duplo anel.

IV--Ainda a inscripção christã de S. Pedro de Arcos.

V--Uma primicia de epigraphia funeraria romana.

VI--O portico da matriz de Monção.

VII--Um castro com muralhas.

VIII--Um erro de amanuense nas inquirições de D. Affonso III (C. Sancti
Salvatoris Darcus).

IX--Um Grovio autentico (cippo de Villa-Mou).

X--Ara celtiberica da epoca romana (um novo «Genio»).


PAGINAS ARCHEOLOGICAS (SERIE 2.ª)


Publicadas

I--Estatueta ithyphallica.

II--Cemiterio da epoca romana em Vianna do Alemtejo.

III--Situação conjectural de Talabriga.





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