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Title: Um contemporaneo do Infante D. Henrique
Author: Pimentel, Alberto, 1849-1925
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Um contemporaneo do Infante D. Henrique" ***

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UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

Carta a MR. MATHIEU LUGAN

POR

ALBERTO PIMENTEL

PORTO
_Livraria Internacional de Ernesto Chardron_
CASA EDITORA
M. LUGAN, Successor

1894

Todos os direitos reservados



UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE



PORTO: TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

Rua da Cancella Velha, 70



UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

Carta a MR. MATHIEU LUGAN

POR

ALBERTO PIMENTEL

PORTO
_Livraria Internacional de Ernesto Chardron_
CASA EDITORA
M. LUGAN, Successor

1894

Todos os direitos reservados



    L'histoire d'Alvaro Vaz de Almada est généralement peu connue hors
    du Portugal; et en Portugal même la biographie de ce grand homme est
    environnée de details contradictoires.

                                    FERDINAND DENIS--_Portugal_, pag. 85.



                                                      Meu prezado amigo:

Vivendo entre portuguezes ha muitos annos, quer v. corresponder á estima
e consideração que d'elles tem justamente recebido, associando-se, como
editor de obras litterarias, á commemoração solemne com que a cidade do
Porto vai celebrar o quinto centenario do nascimento do infante D.
Henrique, o Descobridor.

É nobre a acção, que v. se propõe praticar. E, procedendo assim, segue o
exemplo de muitos estrangeiros, a quem Portugal deve gratidão pelo
interesse que tem tornado em evidenciar á luz da verdade e da gloria os
feitos d'este pequeno povo, que tamanhos serviços prestou no seculo XV á
sciencia e ao commercio, á humanidade e á civilisação, especialmente no
momento historico em que o infante D. Henrique apparece em scena para
emprehender e estimular os descobrimentos maritimos.

Entre esses estrangeiros a quem devemos ser gratos, avulta, certamente,
um compatriota de v., o illustre Ferdinand Denis, que tanto amou, com
especial dedicação, o passado de Portugal nas suas gloriosas tradições e
nos seus triumphos por mar e por terra, na guerra ou na paz.

Estamos, pois, habituados á sympathia de estrangeiros, e não é, por
isso, de estranhar a deliberação de v. Mas é para agradecer e louvar.

Acceitando a missão de auxiliar o nobre alvitre de v., e achando-me
collocado em frente do periodo mais brilhante da historia de Portugal,
que o infante D. Henrique personifica, lembrei-me de que o assumpto,
comquanto vasto, ha de ser amplamente tratado por muitos escriptores
portuguezes, que mais ou menos se encontrarão n'um ponto de partida
commum: a vida do infante, e a sua influencia na successão dos nossos
descobrimentos maritimos.

Assim, pois, pensei que, sendo já conhecida, nas suas linhas geraes, a
biographia do infante, eu poderia, sem atraiçoar a intenção de v., tomar
outro rumo, estudando, dentro dos estreitos limites de uma carta, a
feição proeminente de uma época, de que D. Henrique foi a culminação,
mas que se assignalou pelo concurso de um grupo de homens colossalmente
prestigiosos.

Como na vida de todos os heroes, ha manchas, claro-escuro na vida do
infante Descobridor. Encarado em si mesmo o homem, teve defeitos,
commetteu erros, mas não é esta a hora propria para os relembrar. O
principe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção
benefica na historia da humanidade, e marca o periodo que, elevando
Portugal, aproveitou ao mundo todo.

Mas, quanto á época, é justo, sem nunca perder de vista o infante,
procurar medir a estatura dos portuguezes do seculo XV, que com elle
collaboraram, nas viagens ou nas campanhas, e que constituem os
elementos de caracterisação do espirito arrojado, leal, cavalheiresco,
épico, dos inexcediveis heroes d'esse tempo.

A alma portugueza era então um mixto de poesia e valor, sobretudo de
poesia no valor. Feita de bronze, não conhecia perigos, difficuldades,
resistencias. O infante, estimulando a coragem para as emprezas
maritimas, era a expressão do sentir de heroes, que avançavam sempre,
contra o _Mar Tenebroso_, contra os moiros, os inimigos exteriores, ou
contra as agitações da politica interna, sem medirem os percalços do
commettimento.

A pureza dos costumes, nos homens e nas mulheres, dava um como perfume
de santidade impeccavel ás ideas e aos sentimentos da época. A religião
era mais alguma coisa do que o culto de Deus nos templos: era a lei por
onde cada um regia as suas palavras e acções, os seus pensamentos e
feitos, nas suas relações com Deus ou com os homens.

O fanatismo religioso levava a vêr inimigos n'aquelles que, não
commungando na mesma religião, não poderiam attingir o gráo de perfeição
moral em que todas as crenças se purificavam. Era um preconceito do
tempo, eram as idéas da época. Mas ha n'esse sentir, que hoje se nos
afigura barbaro, uma noção mal comprehendida, posto que sincera, de que
o catholicismo era a unica expressão possivel da civilisação dos costumes.

Alongados os descobrimentos maritimos pela costa occidental da Africa,
iniciado, com chave de oiro, o periodo dos factos gloriosos, que nos
deram farta participação nos progressos da civilisação universal,
fechava-se, simultaneamente, a porta do espirito cavalheiresco que
dominára o coração dos portuguezes da idade-média.

Depois d'isso fomos guerreiros, mas não eramos já cavalleiros. Fomos
ainda conquistadores, mas não eramos já impulsionados por um mobil limpo
de ambições mesquinhas.

O joven rei D. Sebastião, voltando da sua primeira jornada a Africa,
quiz desembarcar no cabo de S. Vicente, por uma noite de lua, e alli se
demorou nove ou dez dias, como elle proprio contou, meditando
ambiciosamente na grandeza de uma época, que dos rochedos do Algarve,
como uma águia, havia no tempo de D. Henrique arrancado vôo para ir
assombrar o mundo inteiro.

Tinha pena o joven e valoroso rei de não ser d'essa época. E com razão.
Mas Portugal havia começado a descer: Alcacerquibir, o abysmo cavado
pelas mãos do imprudente monarcha, breve se transformaria na sepultura
de um seculo de gloria.

Não trarei, meu amigo, novos subsidios á biographia do infante
Descobridor, de quem tantas pennas illustres se irão por certo occupar;
mas procurarei desenhar, na vasta tela da sua época famosa, o vulto de
um homem, que é um elemento importantissimo de caracterisação e de
synthese, de um homem sem o qual essa enorme e brilhante conjugação de
heroes, apostados em glorificar o nome da patria, ficaria incompleta.

Refiro-me a Alvaro Vaz de Almada, que foi contemporaneo do infante D.
Henrique, e que bem se póde chamar o ultimo cavalleiro portuguez.

Herculano escreveu d'elle no _Panorama_: «D. Alvaro, caindo morto, era o
symbolo da cavallaria expirando».

O proprio infante D. Henrique dizia de Alvaro Vaz de Almada que não
sómente Portugal, mas tambem toda a Hespanha, podiam ter grande gloria
de crear tão famoso cavalleiro.

E o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique de Aragão
diziam que tinham encontrado em Portugal _bom pão e bom capitão_. _Bom
capitão_: Alvaro Vaz.

Tal era o homem.

      *      *      *      *      *

Resumirei, quanto me fôr possivel, o quadro genealogico de Alvaro Vaz de
Almada.

D. Sueiro Viegas Coelho, fidalgo de velha estirpe, teve dois irmãos e
uma irmã. D'elles, o mais velho foi frade; o outro, Gonçalo Magro,
continuou-se n'um filho bastardo, Lourenço Gonçalves, que casou com D.
Thereza Godins.

D'este casamento houve dois filhos, um dos quaes, Vasco Lourenço, teve
por successor João Annes de Almada, que foi chamado o _Grande_, e foi
védor da fazenda d'el-rei D. Pedro e d'el-rei D. Fernando.

É com este cavalleiro, que por seu bom conselho, reflectida experiencia,
alta posição politica e apparatosa apresentação[1] mereceu o cognome de
_Grande_, que principia, na sua familia, o appellido de _Almada_, pelo
facto d'elle ser natural d'aquella villa.

Diz D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, que João Annes fôra por duas
vezes enviado ao estrangeiro como embaixador, e que por lembrança sua
mandára o rei D. Fernando começar a cêrca nova de Lisboa[2].
Ferdinand Denis tambem se refere a este facto[3].

Casado com D. Urraca Moniz, deixou um filho, Vasco Lourenço de Almada,
que foi o instituidor do morgado da sua familia na villa do mesmo nome,
e que morava em Lisboa nos seus paços de Valverde[4], junto
ao Rocio.

Este Vasco Lourenço teve um filho e uma filha.

O filho, João Vaz de Almada, casou com D. Joanna Annes, de quem houve
uma filha, e dois filhos: Pedro Vaz de Almada, primogenito; Alvaro Vaz
de Almada, que por morte do irmão herdou o morgado instituido pelo
avô[5].

Merece chronica a vida de João Vaz de Almada, pai de Alvaro Vaz.

Foi feito cavalleiro por D. João I depois da batalha de Aljubarrota[6].

Em 1400 enviou-o D. João I a Castella, com o arcebispo de Lisboa e o
doutor Martim Docem para negociar um tratado de paz ou treguas, e em
1404 a Inglaterra, tambem com Martim Docem, para tratar do casamento de
D. Beatriz, filha natural do rei, e irmã do duque de Bragança, com o
conde de Arundel e de Surry[7].

Mais tarde, quando D. João I se apercebia para a conquista de Ceuta,
enviou João Vaz de Almada outra vez a Inglaterra para levantar
quatrocentas lanças ao serviço de Portugal.

Parece que João Vaz levou comsigo seu filho Alvaro, porquanto ha
noticia de uma carta de Henrique V, rei de Inglaterra, ás auctoridades
do porto de Londres, ordenando-lhes que deixem sahir livremente os
homens de armas e trezentas e cincoenta lanças que Alvaro Vaz havia
contratado para o rei de Portugal[8].

Não foram estes os unicos auxilios que D. João I mandou buscar a
Inglaterra com o mesmo fim. Tambem Pedro Lobato trouxe d'aquelle paiz
trezentas lanças «para o muito poderoso principe o infante D. Henrique,
filho do dito seu tio--diz Henrique V n'uma carta aos seus
almirantes,--_a fim de fazer a guerra aos incredulos e aos inimigos da
fé catholica_[9].

Pormenor interessante: Este mesmo Pedro Lobato trouxe n'essa occasião
uma armadura completa para o infante D. Henrique.

Vieram ainda mais sessenta lanças, com os respectivos cavallos e
armaduras, a bordo de dois navios portuguezes, de que eram mestres João
Affonso e Egydio João.

João Vaz de Almada acompanhou D. João I na viagem a Ceuta.

Conta Fernam Lopes que, tendo alguem visto um grande bando de pardaes
sobre o castello d'aquella cidade, dissera:

--Não vêdes como aquelles pardaes alli estão assocegados? Que me matem
se Salat-bem-Salat com todos os outros não é partido d'alli, e deixou o
castello vazio, cá se assi não fosse, não estariam alli aquelles pardaes
assi de assocego.

Foram dizer isto ao rei D. João, que respondeu:

--Pois que assi é, vão chamar João Vaz de Almada[10],
que traz a bandeira de S. Vicente, e digam-lhe de minha parte que a vá
logo poer sobre a mais alta torre.

Chamado immediatamente João Vaz, foi, com alguns outros, caminho do
castello, levando o estandarte de S. Vicente, padroeiro de Lisboa.

Tentavam forçar as portas da fortaleza, quando sobre o muro appareceram
dois homens, um biscainho e o outro genovez, que lhes disseram em
castelhano:

--Não filheis trabalho em quebrar as portas, cá não tendes nenhum
empacho em vossa entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui e
sómente ficamos nós ambos que vos abriremos as portas quando quizerdes.

--Ora pois, respondeu João Vaz de Almada, filhai lá esta bandeira e
ponde-a sobre esse muro, até que nos vamos.

Este mesmo episodio é contado por mestre Matheus de Pisano[11],
estrangeiro erudito, que foi chamado a Lisboa para escrever
em latim a historia da guerra de Ceuta, como quer Herculano[12],
ou para ser professor de D. Affonso V.

João Vaz de Almada levou a Ceuta os seus dois filhos, Pedro e Alvaro,
que, depois da victoria, ahi foram armados cavalleiros: Pedro pela mão
do infante D. Duarte, herdeiro da corôa[13]; e Alvaro por
mão do infante D. Pedro.

Foi certamente n'esse dia que principiaram a estabelecer-se entre D.
Alvaro Vaz de Almada e o infante D. Pedro, como consequencia tradicional
d'essa cerimonia, os laços de lealissima amizade, que os uniu durante
toda a existencia, e que não deixou sobreviver um ao outro mais do
que alguns momentos.

D. João I deu a capitania e guarda da fortaleza de Ceuta a João Vaz de
Almada, que a teve até á partida d'el-rei para o reino, ficando depois a
cidade entregue a D. Pedro de Menezes, que foi o primeiro capitão d'ella.

Recolhendo a Portugal, João Vaz de Almada, malquistado, por motivos
desconhecidos, com Gonçalo Pires Malafaia, esperou-o ás portas da
Relação e maltratou-o corporalmente[14].

Malafaia, que já tinha sido escrivão da chancellaria de el-rei D.
Fernando, seguiu, por morte d'este rei, a causa do mestre de Aviz,
exercendo depois, e em annos successivos, os cargos de védor da
fazenda real, e o de regedor (presidente) da Casa do Civel, além de
receber por doação as propriedades confiscadas, no termo de Lisboa e
Santarem, a João Fernandes Pacheco e a Fernam Gomes da Silva.

Como Malafaia foi nomeado regedor do Civel em 1457, mais de vinte annos
depois da morte de D. João I, entende um escriptor moderno ser
inverosimil a noticia d'aquelle conflicto como causa determinante da
emigração de João Vaz de Almada, por isso que os codices dão Malafaia
como exercendo o referido cargo n'essa occasião[15].

O facto dos chronistas lhe declararem a qualidade de regedor do Civel
não invalida, a meu vêr, a noticia do conflicto, porque muitas vezes os
escriptores antigos, referindo-se a um acontecimento qualquer,
intromettem circumstancias que se deram antes ou depois, especialmente
quando mencionam titulos ou actos de um mesmo individuo.

O conflicto causou escandalo e irritou D. João I, que, collocado entre
dois homens a quem devia serviços e dedicações, cortou a direito, quiz
fazer justiça contra o aggressor.

João Vaz de Almada teve de fugir para Inglaterra, onde já era conhecido;
e levou comsigo os seus dois filhos, Pedro e Alvaro.

Fosse esta ou outra qualquer a causa determinate da sahida do fidalgo
portuguez e seus dois filhos legitimos para Inglaterra (o auctor da
_Historia Serafica_ limita-se a dizer: «os quaes ausentando-se do reino
por razões, que para isso tiveram», parecendo comtudo querer occultar
assim um motivo desagradavel), o que não padece duvida é que João
Vaz de Almada emigrou para aquelle paiz, d'onde, tendo fallecido, vieram
mais tarde os seus restos mortaes, bem como os de seu filho Pedro, para
a capella de familia, que possuiam em S. Francisco de Lisboa[16].

Duarte Nunes de Leão diz que João Vaz de Almada acompanhára o rei de
Inglaterra, que devia ser Henrique VI, até Rouen. Sendo assim,
assistiria ao sacrificio de Joanna d'Arc (30 de maio de 1431). E que
fôra agraciado com a ordem da Jarreteira__[17].

Pela minha parte não ouso confirmar estas noticias, mas apenas acceitar,
como authentica, a morte de João Vaz de Almada em Inglaterra.

      *      *      *      *      *

Fallemos agora de Alvaro Vaz de Almada, o _bom capitão_, o heroe famoso
de um cyclo de heroes, que deu honra e gloria a Portugal.

O snr. Oliveira Martins figura Alvaro Vaz acompanhando o seu dilecto
amigo o infante D. Pedro de Alfarrobeira logo ao principio da sua
celebre viagem, logo que, como dizia o povo, começou a _correr as sete
partidas do mundo_.

Á sahida de Castella, onde o infante fôra visitar D. João II, galopava a
seu lado, segundo a expressão do snr. Oliveira Martins, o seu fiel
Achates, Alvaro Vaz de Almada, fadado para um destino igualmente cruel.

Outras affirmações faz ainda o snr. Oliveira Martins. Precisamos
conhecel-as.

«D'esta Jornada, agora começada, principia a amizade constante que
ligou em vida Alvaro Vaz a D. Pedro, etc.»

«Dois annos haveria apenas que Alvaro Vaz voltára ao reino coberto de
gloria. Batalhára pelos inglezes em Azincourt, no proprio anno da tomada
de Ceuta, e o rei Henrique V dera-lhe o condado de Avranches, na _marka_
franceza, com a ordem da Jarreteira. Essas guerras de França, começadas
havia tres annos, tinham de durar meio seculo, e talvez os viajantes
partissem com idéa de tambem intervir n'ellas. Alvaro Vaz, cavalgando ao
lado do infante, contar-lhe-hia os casos de bravura presenciados no dia
famoso de Azincourt; e D. Pedro, em volta, lhe diria como fôra a jornada
de Ceuta n'esse proprio anno»[18].

A amizade do infante e de Alvaro Vaz principiára antes da partida de
D. Pedro para o estrangeiro. _Elles eram irmãos de armas_, circumstancia
que, segundo o espirito da época, impunha deveres sagrados de reciproca
amizade e lealdade[19].

Quando, annos depois, o duque de Coimbra, vendo aproximar-se a hora do
combate com as tropas d'el-rei seu sobrinho, pergunta a Alvaro Vaz se
está disposto a todos os sacrificios, incluindo o da morte, tem em
resposta:--Não sou eu vosso irmão de armas?[20]

Eram. Porque ambos haviam sido armados cavalleiros no mesmo dia, em
Ceuta, depois da victoria.

Alvaro Vaz tinha estado em Inglaterra com o pai, mas devia regressar
pouco antes de partir D. João I para Africa.

Como já sabemos, João Vaz de Almada teve razões para refugiar-se mais
tarde em Inglaterra levando comsigo os dois filhos legitimos[21].

Isto passou-se depois da tomada de Ceuta, onde pelas chronicas sabemos que
estivera João Vaz de Almada, e onde seu filho, Alvaro Vaz, fôra armado
cavalleiro, por mão do infante D. Pedro[22], tendo ambos, o infante e
Alvaro Vaz[23], aproximadamente a mesma idade.

Não foi, como documentalmente provaremos, Henrique V que deu a
Alvaro Vaz o condado de Avranches.

Não poderia Alvaro Vaz contar ao infante os casos de bravura
presenciados no dia famoso de Azincourt.

E a razão é obvia. A batalha de Azincourt feriu-se em 1415, e n'este
mesmo anno, em agosto, se realisou a tomada de Ceuta. Antes, João Vaz e
Alvaro estiveram de passagem em Inglaterra, para levantar lanças; só
posteriormente á viagem a Africa com D. João I é que emigraram.

Henrique V reinou de 1413 a 1422.

Depois de Ceuta, o genio ardente e o animo valoroso de Alvaro Vaz não
lhe consentiram ficar indifferente á guerra que Henrique V movia contra
o desgraçado Carlos VI para fazer vingar as antigas pretenções dos
Plantagenets sobre a França.

Alvaro Vaz de Almada pagava assim, combatendo pela Inglaterra, a
hospitalidade que elle e a sua familia receberam da Inglaterra.

Henrique VI, como veremos por documentos, remunerou-lhe, mais tarde, os
serviços que elle havia prestado a Henrique V, e ainda as provas de
amor, obediencia e dedicação que já no seu reinado Alvaro Vaz havia dado
á corôa de Inglaterra.

D'aqui poderá inferir-se que Alvaro Vaz esteve ainda em Inglaterra
depois que Henrique VI, contando alguns mezes de idade, succedeu a seu
pai em 1422, e ahi prestou serviços, ou que, depois de ter regressado ao
reino, voltasse áquelle paiz, como parece suppôr um escriptor nosso
contemporaneo[24].

Pelo que deixamos dito, é mais que muito duvidoso que Alvaro Vaz
partisse de Castella cavalgando ao lado do infante D. Pedro.

Qualquer que fosse o anno em que o infante partiu, sabemos que já estava
na Allemanha em 1419, quando o imperador Sigismundo lhe concedeu a marka
ou ducado fronteiriço de Treviso.

Foi justamente n'esse anno ou pouco antes que Sigismundo, já rei da
Hungria, herdou de Wenceslau a corôa da Bohemia, e se achou a braços com
os Hussitas e os Turcos.

Duarte Nunes, o auctor dos _Retratos dos varoes e donas_[25],
e outros escriptores dão noticia de ter Alvaro Vaz de Almada
combatido pelo imperador Sigismundo contra os Turcos.

Não custa acredital-o. Sabendo que o seu grande amigo, o infante D.
Pedro, estava na Allemanha, decerto se daria pressa em avistar-se com
elle, indo immediatamente ao seu encontro. Como não era homem para estar
parado nem quieto, continuaria a ser alli «irmão de armas» do infante,
combatendo por algum tempo a seu lado.

Um escriptor moderno affirma este facto, sem hesitações: «Tambem Alvaro
Vaz de Almada militou nos exercitos do imperador Sigismundo da
Allemanha, e ahi se encontrou com o infante D. Pedro, estreitando os
laços de amizade que a elle o uniam, desde que fôra armado
cavalleiro»[26].

É mais natural que Alvaro Vaz se encontrasse com o infante D. Pedro na
Allemanha do que na Inglaterra, porque D. Pedro parece ter estado n'este
paiz pouco antes de recolher a Portugal em 1428, visto que a concessão
da Jarreteira, com que foi agraciado por Henrique VI, tem a data de 22
de abril de 1427, e Alvaro Vaz já em 1423 estava em Lisboa.

Ha um documento d'esta época, pelo qual Alvaro Vaz de Almada foi nomeado
capitão-mór da armada de D. João I.

É o seguinte:

«D. João, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nós querendo
fazer graça e mercê a Alvaro Vasques de Almada, cavalleiro nosso
vassallo, por serviços que d'elle recebemos e entendemos a receber ao
deante: Temos por bem e damol-o por nosso capitão-mór da nossa frota
pela guisa que o era Gonçalo Tenreiro em tempo d'el-rei D. Fernando,
nosso irmão, a quem Deus perdoe, e por a guisa que o foi Affonso Furtado
em nosso tempo, e porem mandamos aos patrões, alcaides, arraes e
pintitaes, comitres e bésteiros, galeotes, marcantes, marinheiros e a
todos os outros, a que esta carta fôr mostrada, que o hajam por nosso
capitão-mór, como dito é, e lhe obedeçam e façam todas as cousas que
lhes elle mandar fazer por nosso serviço, e segundo a seu officio
pertence, e que possa com elles fazer justiça, ou em cada um d'elles,
assim como a nós fariamos outrosim se presente estivessemos, e mandamos
a todas as nossas justiças que cumpram suas cartas e mandados, e lhe
ajudem a fazer e cumprir direito e justiça em todas as cousas que lhe
elle assim disser e mandar da nossa parte quando pertence a seu officio,
senão sejam certos quaesquer que o contrario d'isto fizerem, que lh'o
extranharemos gravemente nos corpos e haveres como aquelles que não
cumprem mandado de seu rei e senhor: em testemunho d'isto lhe mandamos
dar esta nossa carta, dada em Cintra a vinte e tres dias de junho.
El-rei o mandou. Martim Vasques a fez, éra do nascimento de Nosso Senhor
Jesus Christo de mil quatrocentos vinte tres»[27].

Este documento, publicado nas _Provas da Historia Genealogica_, põe um
limite preciso e seguro ás viagens de Alvaro Vaz. Por elle vêmos que o
_bom capitão_ recolheu ao reino muito primeiro que o seu amigo,
infante D. Pedro, isto é, cinco annos antes.

D. João I quiz certamente dar, com esta nomeação, uma indemnisação á
familia Almada: honrar o filho, visto que não pudéra perdoar ao pai.

Até ao anno da desgraçada expedição de Tanger (1437) não teve Alvaro Vaz
de Almada, na sua qualidade de capitão-mór da frota, motivo para se
assignalar por feitos de armas.

Mas em Tanger o vamos encontrar derramando o sangue pela patria, e
combatendo com o valor de que já havia dado sobejas provas em Ceuta ao
serviço de D. João I, e na Inglaterra ao serviço de Henrique V.

O infante D. Henrique, tendo chegado a Tanger, estabelece arraiaes n'um
outeiro que ficava contra o cabo d'Espartel, desviando-se das
instrucções que a este respeito lhe havia dado seu irmão o rei D.
Duarte.

«E em se começando a gente de alojar, sahiu uma voz, com um rumor sem
certidão, que as portas da cidade estavam abertas e os mouros fugiam; e
a este alvoroço acudiram muitos de cavallo contra a cidade, para
entrarem, e commetteram o feito mui ardidamente, e se metteram entre o
muro e a barreira, e combateram as portas tão rija e ousadamente, que de
tres juntas que eram, romperam duas; e a terceira, que se diz o Postigo
de Guyrer, commetteram com fogo: e, por ser forrada de ferro e sobrevir
a noite, não foi entrada; e tambem porque os mouros a defenderam mui
bravamente. E o conde de Arrayolos, por mandado do infante, foi recolher
a gente que, alli e na porta do castello e nas outras da cidade, estava
em combates repetidos: em que morreram muitos cavallos e alguns
christãos, e sahiram muitos feridos: entre os quaes foi o conde de
Arrayolos, de uma setta por uma perna, _e o capitão Alvaro Vaz d'outra
por um braço_»[28].

É o primeiro ferimento recebido, ao serviço de Portugal, por Alvaro Vaz.
Qualquer que fosse, porém, a sua gravidade, de novo o vemos a combater
esforçadamente logo no primeiro combate regular que o infante D.
Henrique ordenou contra os mouros.

«Mas o infante D. Henrique, vendo que o commettimento por aquella vez
não succedia como esperava, e que sua gente recebia dos mouros muito
damno, a fez recolher: de que ficaram até vinte christãos mortos e
quinhentos feridos: e mandou ficar as bombardas e engenhos em seus
alojamentos juntos com o muro d'onde tiravam, cuja guarda encommendou ao
recebel-a ao capitão Alvaro Vaz e a outros, que, por estarem afastadas
do arraial e pegadas ao muro, receberam dos inimigos muita affronta e
trabalho: e elles, na defensão d'ellas e offensão que aos mouros faziam,
deram de si claro testemunho de valentes cavalleiros»[29].

No segundo combate contra os mouros, o capitão Alvaro Vaz continua a
assignalar-se:

«E n'este mesmo dia era fóra D. Alvaro de Castro, e o _capitão_, e
Gonçalo Rodrigues de Sousa, e Fernam Lopes d'Azevedo, com setenta de
cavallo: e, topando com quinhentos mouros de cavallaria e muitos de pé,
pelejaram com elles e, a seu salvo, lhe mataram quarenta, e tornaram
victoriosos a recolher-se com o conde (de Arrayolos) e com os outros,
que dos mouros vinham bem perseguidos»[30].

Mas é sobretudo no tumultuoso embarque das tropas portuguezas, na
retirada de Tanger, que o capitão Alvaro Vaz, de par com o marechal
Vasco Fernandes Coutinho, que depois foi feito conde de Marialva,
pratica um acto de extremada cavallaria.

Oiçamos o chronista:

«... o infante com muito resguardo fez recolher a gente, e encommendou
ao marechal, e ao capitão Alvaro Vaz, que com alguma somma de bésteiros
ficassem sobre o atalhamento do palanque, em um arrife que ahi sobre o
mar se fazia, d'onde contrariassem os mouros por maneira, que os
christãos embarcassem com mór segurança, e depois se recolhessem com sua
ventura o melhor que podessem; e certamente assim como este encargo era
de grande perigo a estes dois nobres homens, assim n'elle como
esfoçados, se aproveitaram de muita honra e boa fama que n'elle
ganharam, e não sómente n'esta, mas em todas as outras affrontas n'este
feito passadas, elles por sua bondade d'armas, e grandeza de coração,
foram havidos por especiaes capitães, e notaveis cavalleiros. A gente
miuda, com desejo de salvar as vidas de que foram desesperados,
embarcavam com grande desordenança a que se não podia prover, cá se
lançavam ao mar soltamente, não esguardando se o batel era do navio, em
que vieram, se de outro algum, e muitos d'elles por fazerem os mareantes
em sua salvação mais attentos e diligentes tentavam-n'os com cubiça,
offerecendo-lhes logo nas mãos, alguma provesa que ainda escapara; e
isto começou de dar grande desaviamento á embarcação, e causar algum
damno; porque a todos os ministros do mar venceu tanto esta aborrecivel
cubiça, que suspendiam a entrada dos que alguma cousa lhe não peitavam,
e os dispunham por isso a grande perigo, do que el-rei houve, depois,
sabendo-o, gran desprazer, e segundo a mostrança de seu desejo,
certamente este erro não ficára sem grave punição, se d'elle pudéra
achar os certos auctores. O marechal, e o _capitão_, como a gente que
guardavam viram embarcada, começaram de se recolher na melhor ordenança
que puderam, mas os mouros, por acabarem de mostrar sua falsa concordia,
e verdadeira imisade, como os viram mover para embarcar, ordenaram dos
pavezes que achavam no palanque, uma forte pavezada, com que tão
rijamente os commetteram, que muitos dos christãos, especialmente os
bésteiros, não podendo soffrer um duvidoso perigo, tomaram para suas
vidas outro maior, e mais certo, lançando-se sem algum tento ao mar,
onde morreriam até quarenta. _E tanto era o primor da honra n'estes dois
cavalleiros, que em chegando ao batel, que para seu recolhimento os
esperava, e trazendo com a perseguição dos mouros a morte nas costas, á
entrada d'elles ambos se rogaram, affrontando um ao outro a primeira
entrada, procurando com palavras de muita cortezia e grande esforço, por
cada um ficar por derradeiro em guarda do outro; e porem com todos estes
revezes, ao domingo pela manhã eram já todos á frota recolhidos_»[31].

Este lance da biographia de Alvaro Vaz de Almada é, com effeito, de uma
galhardia cavalheirosa, que inflamma o espirito de quem n'elle
attenta, apesar de sermos chegados a um tempo em que estas proezas
guerreiras têm já todo o caracter de factos longinquos e semi-phantasticos.

Á volta de Tanger, Alvaro Vaz torna-se verdadeiramente notavel pela
superioridade com que sabe disfarçar a sua dôr pelo desastre soffrido.

D. Duarte estava em Carnide, quando «... chegaram em tanto a Lisboa dos
que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como
finalmente passára, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui
aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas
por saber, que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas
graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se
n'aquella aldeia, para vêr e agasalhar os que vinham do cêrco, dos
quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes
semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e
com palavras a desaventura conformes, se lhe mostravam, e d'elles
fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com
fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus
requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que
el-rei recebia publica dôr e tristeza; mas a estes foi mui contrario, o
nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar, que
como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muito, e da
honra por merecimentos d'armas não ganhasse pouca, como chegou a Lisboa,
antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se
vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de
alegria, chegou a Carnide, onde el-rei andava passeiando fóra das
casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e
lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui
graciosamente, e louvou muito sua ida n'aquella maneira, que não sómente
lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo
nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente,
estimando em nada o captiveiro do infante seu irmão, que era um homem só
e mortal, em que haviam muitos remedios, em respeito da grande fama que
n'aquelle feito em seu nome se ganhára, aconselhando-lhe mais o repique
e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar
d'elles que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que
el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu
coração recebia, e por isso e por seus bons merecimentos lhe prometteu
muita mercê, e grande acrescentamento; e sem duvida assim o fizera,
se sua antecipada morte o não tolhera»[32].

Ferdinand Denis, referindo-se a esta passagem da vida de Alvaro Vaz,
escreve: «Mostrou-se principalmente corajoso cavalleiro durante o cêrco
de Tanger, onde ficou prisioneiro o infante D. Fernando, que morreu em
Fez; se bem que quando voltou ao reino, o bom rei D. Duarte sahiu para o
receber pessoalmente, a pé, fóra de Carnide, onde estava. Fez-lhe taes
favores e mercês, como até então ninguem tinha recebido. Foi d'elle que
o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique d'Aragão
diziam que haviam encontrado em Portugal bom pão e bom capitão»[33].

Cumpre advertir que, segundo o testimunho do chronista Pina, o rei D.
Duarte não teve tempo de fazer a Alvaro Vaz as mercês que desejava, e
que as maiores que o famoso capitão recebeu não provieram de Portugal,
mas de Inglaterra.

Muitos escriptores suppozeram que Alvaro Vaz de Almada fôra feito conde
de Avranches pelo rei de França, e cavalleiro da ordem da Jarreteira
pelo de Inglaterra; mas não padece a menor duvida que ambas estas graças
lhe foram concedidas pelo monarcha inglez, Henrique VI, quando, como rei
de França, senhoreava o ducado de Normandia.

      *      *      *      *      *

Dois annos depois do desastre de Tanger, principia a agitar-se em
Portugal a famosa questão da _regencia_, que havia de ter um tragico
desfecho no combate de Alfarrobeira.

Em agosto de 1439 a rainha D. Leonor passou-se de Santo Antonio do
Tojal, onde estava, para Sacavem, e o rei menino, Affonso V, tornou para
Lisboa, onde estava o infante D. Pedro.

Este infante fez reunir em sua casa as pessoas de maior confiança, e entre
ellas o «seu grande amigo Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar»[34], ás
quaes se queixou da pequena parte que do governo lhe coubera nas côrtes, e
communicou a resolução de abandonar por completo os negocios do Estado,
retirando-se para as suas terras.

N'essa reunião particular, de caracter intimo, distinguiu-se Alvaro
Vaz aconselhando o infante a que, se lhe não entregassem logo todo o
poder da regencia, se recolhesse aos seus dominios, «porque perdia muito
de sua auctoridade e estimação andando na côrte com tão pouca
auctoridade»[35].

Era este um meio, habilmente procurado por Alvaro Vaz de Almada, para
estimular o animo do povo, e apressar os acontecimentos no interesse do
infante.

A rainha, por sua parte, tomava represalias irritantes contra os amigos
e partidarios de D. Pedro.

Uma d'ellas foi despedir do seu serviço a irmã de Alvaro Vaz de Almada,
por desconfiar que ella communicava ao irmão o que se passava na côrte.

Este e outros actos, como, por exemplo, a mercê que D. Leonor fizera a
Nuno Martins da Silveira, aio do rei, dos varejos a que os mercadores de
Lisboa eram obrigados de sete em sete annos, irritaram profundamente os
partidarios do infante, entre os quaes eram numerosos os homens do povo.

Foram-se de parte a parte exaltando os animos, a ponto que a rainha
julgou conveniente á sua segurança transferir-se de Sacavem para Alemquer.

N'este lance da narrativa encontram-se Ruy de Pina e Gaspar Landim, se
bem que ambos elles se equivoquem, quando se referem a Alvaro Vaz de
Almada, em attribuir a mercê do condado de Avranches ao rei de França e
a da Jarreteira ao de Inglaterra, quando foram feitas, como sabemos,
pelo mesmo rei, que ao mesmo tempo se intitulava rei de Inglaterra e de
França.

«Os officiaes de Lisboa,--diz Ruy de Pina,--vendo esta mudança da rainha
fizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas Homem, cidadão velho,
entendido e de grave representação fez uma falla com largo recontamento,
cuja substancia foi avisar a cidade dos males e perigos, que por as
mudanças presentes se lhe apparelhavam; e como para terem por cabeça
alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario elegerem e
tomarem alferes, _apontando logo o capitão Alvaro Vaz de Almada, que da
cidade fôra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dignos
merecimentos e louvores, que d'elle com verdade recontou_; no que todos
consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo chamar por quanto era
fóra da cidade; e em chegando á Ribeira, sendo já sabida a determinação
sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade e assim
acompanhado com grande honra foi levado á camara, onde por os
vereadores com certas cerimonias e largas palavras _de grande seu louvor
e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas
condições_; e elle a recebeu com palavras cortezes, e discretas, e de
grande esforço; porque era cavalleiro que _n'este reino e fóra d'elle
por experiencias mostrou_, que isto e muito _mais de louvor havia
n'elle_, cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde de
Abranches, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro
da ordem da Jarreteira, de que principes christãos, e pessoas de grande
merecimento são confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua
linhagem e fidalguia mereceu ser como foi capitão-mór do mar»[36].

Ouçamos agora, na passagem parallela a esta, o testimunho de Gaspar de
Landim:

«E tanto que em Lisboa se soube a mudança da rainha (_de Sacavem para
Alemquer_), como não havia acto seu que não parecesse mal aos cidadãos e
povo d'ella, se ajuntaram com os vereadores, e entre elles o costumado
Vicente Egas como mais contrario das cousas da Rainha, e favorecedor das
do Infante lhe fez uma pratica mui larga toda em seu favor d'elle, em
qual encareceu grandemente os males e perigos que dizia estarem-lhes
apparelhados áquella cidade e a todo o reino por ordem da Rainha, pelo
que era necessario elegerem um capitão que lhe servisse de cabeça, e os
defendesse, a quem obedecessem, para o qual effeito, pois que o Infante
D. Pedro estava ausente (_em Camarate_), ninguem o podia melhor fazer
que o capitão Alvaro Vaz de Almada, grande amigo e familiar do
Infante, e para que não houvesse duvida na eleição d'elle recontou
grandes feitos seus, e de seu pai João Vaz de Almada, encarecendo sobre
modo seu valor e merecimentos; o qual logo de commum consentimento foi
nomeado e eleito por defensor da cidade, capitão e alferes-mór, e para
haver esta eleição effeito bastou saber que era mui contrario ás cousas
da Rainha e suas cousas, e mui affecto ás do Infante; o qual foi logo
mandado chamar a uma quinta onde estava, e em entrando na cidade,
chegando á Ribeira se juntou todo o povo e cidadãos com elle para o
acompanhar, e d'ahi o levaram á camara com grande alvoroço e muitas
exclamações de libertador e defensor d'aquella cidade, e entrando na
camara lhe foi entregue a bandeira com muitas condições e declarações
todas em favor do Infante D. Pedro, e contrarias á Rainha; com as quaes
elle a recebeu, e com palavras significadoras de grande
agradecimento prometteu tudo cumprir.

«Os cidadaos e povo muito satisfeitos, confiados e a seu parecer seguros
de todos os medos e destruições que sobre si fingiam haverem de vir, e
lh'o faziam crêr, e por taes se deram com a eleição do seu defensor.

«Era Alvaro Vaz de Almada cavalleiro que assim n'este reino, como em
outros, tinha feito grandes cousas por seu esforço em que cabiam
aquelles e outros maiores cargos, ainda que foi notado de temerario e
arrogante, e como tal deu muita cousa, e foi a principal parte da casa
do infante D. Pedro, de sua honra e vida; e por seu esforço foi feito
por el-rei de França conde de Abranches, e em Inglaterra por valorosos
feitos lhe foi dada a honra da Garrotea, da qual n'aquelle tempo se
honraram muitos principes, e em Portugal depois de tornado a elle
foi feito por el-rei D. Duarte capitão-mór do mar».

Aqui temos Alvaro Vaz de Almada lançado na accesa lucta travada entre o
infante e a rainha, e vel-o-hemos acompanhar sempre D. Pedro, até á
morte, com aquella cega dedicação, que já era antiga, porque datava de
Ceuta.

O povo de Lisboa, poucos dias depois da eleição de Alvaro Vaz, acclamára
o infante D. Pedro como unico governador do reino, n'um acto solemne
realisado na egreja de S. Domingos.

N'este momento, Alvaro Vaz é o braço direito do infante e o querido do
povo, o homem escolhido para todas as missões importantes.

Assim, foi designado para ir solicitar do infante D. João que viesse a
Lisboa, onde a sua presença se reputava necessaria.

O emissario logrou convencer o infante, que veio logo, hospedando-se
na casa da Moeda[37].

Novamente se tornou a reunir o povo, agora nos paços do concelho,
fallando por essa occasião o dr. Affonso Mangancha e Alvaro Vaz.

Ruy de Pina dá-nos a summula do discurso do famoso _Capitão_:
«encommendaram logo ao _Capitão_ que désse sobre o caso sua voz, que a
deu com cautelas e fundamentos de homem prudente, e mui avisado, em que
concluiu mais além, que era crime e aleijão elrei ser creado em
poder de mulheres; e não menos erro reger a rainha, não sem muitos
merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser
sempre servida e acatada: e que o infante D. Pedro devia reger»[38].

Como sabemos, o povo havia entregado a D. Alvaro a defeza e guarda da
cidade de Lisboa. O infante D. Pedro confirmou, por um diploma official,
a escolha que o povo fizera, nomeando D. Alvaro alcaide-mór do castello,
investindo-o officialmente nas funcções, que já exercia, de defensor dos
moradores de Lisboa.

«Dom Affonso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que vendo nós
e considerando os muitos e estremados serviços que o capitão-mór Alvaro
Vasques de Almada, Rico Homem e do nosso conselho, fez a ElRei meu
Senhor e Pai e a ElRei Dom João, meu Avô, e isso mesmo a nós e ao diante
entendemos receber, e os muitos trabalhos e perigos em que foi assim
fóra dos nossos reinos como em elles por honra d'elles, e querendo-lhe
galardoar e conhecer, como todo bom Rei e theudo, aquelles que bem e
lealmente servem, conhecendo sua grande lealdade, porém de nosso motu
proprio, livre vontade, certa sciencia, poder absoluto, temos por bem e
fazemol-o nosso alcaide mór do nosso castello da nossa mui nobre e leal
cidade de Lisboa, pelo que nos fez preito e menagem uma, duas e tres
vezes de nós em elle receber irado e pagado no alto e no baixo, segundo
mais cumpridamente é, contheudo na fórma de sua menagem, a qual é
escripta no livro das menagens que anda em a nossa camara é assignada
por elle. E porém mandamos a todos os fidalgos, cavalleiros, escudeiros,
corregedores, juizes, justiças, conselho e homens bons da dita
cidade, que d'aqui em diante o hajam por nosso alcaide em o dito
castello e outro nenhum não, não embargando que o até aqui tivesse D.
Affonso, o qual nos praz nem queremos que o mais seja pelo assim
entendermos por nosso serviço, aos quaes mandamos que lhe obedeçam assim
como alcaide e saiam com elle e sem elle cada vez que por elle ou da sua
parte forem requeridos em aquillo que a seu officio pertencer para se
fazer direito e justiça. Outrosim queremos que tenha e haja de nós todas
as rendas e direitos que á dita alcaideria pertencem segundo é contheudo
em nossa carta, que d'isso tem, e os possa arrecadar, tirar e arrendar
por si e por seus procuradores e homens como a elle mais prouver. E em
testimunho d'isso lhe mandamos dar esta nossa carta. Dante (?) em
Santarem cinco dias de abril por auctoridade do Senhor Infante Dom
Pedro, tutor e curador do dito Senhor Rei, Regedor defensor por elle
de seus Reinos e Senhorios. Martins Gil a fez, anno de Nosso Senhor
Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta[39].

Mas Alvaro Vaz chegava para tudo, e o infante encarregou-o de ir tomar o
castello da Ameeira, que estava por D. Leonor. A esse tempo a rainha
havia-se entrincheirado no Crato.

D. Alvaro deu-se pressa em partir para ir desempenhar esta nova commissão.

Vejamos o que diz Ruy de Pina; prefiro, sempre que seja isso possivel,
empregar a linguagem das chronicas, porque tem um sabor antigo, que se
conforma melhor com o assumpto, tambem antigo, do que a nossa
linguagem actual.

«O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Ameeira, como disse, era
encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé,
que era muita e mui bem concertada, e assim com os artilheiros e
provisões, que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e
singular ordenança, _fazendo-o assim como homem que o vira, e passára em
outros reinos já muitas vezes_. E tambem folgou de o ordenar assim por
dar a entender n'este pequeno cerco, o que faria em outros maiores se
lh'os encommendassem».

O resultado da Jornada da Ameeira foi satisfatorio, como todos os
partidarios do infante esperavam, visto que a incumbencia tinha sido
confiada ao valoroso _Capitão_.

O castello rendeu-se pouco depois de D. Alvaro lhe ter posto cerco.

O joven Affonso V, que estava então em Alemquer, tanto tinha ouvido
fallar de Alvaro Vaz de Almada, que quiz vêl-o por força quando elle
passava para a Ameeira. A sua imaginação de creança estava exaltada pela
fama d'esse cavalleiro portentoso, que já tinha uma lenda de
heroicidade, com que regressára do estrangeiro, e que em Portugal
continuava a glorifical-o.

Referindo-se ao pequeno rei, diz Ruy de Pina: «desejou muito de vêr o
Capitão, e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e
sentindo-lhe Alvaro Gonçalves de Athayde, seu aio, este vivo orgulho e
desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse: mas por
não errar em seu serviço e estado indo de proposito vêr uma sua cousa
tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse a caça, ao campo d'entre
Castanheira e Villa Nova, e que ali como de recontro veria o
Capitão, e a gente que então havia de passar. E a outro dia andando alli
el-rei com seus galgos e gaviões, assomou o Capitão, e sabendo já que
el-rei o queria vêr apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua
pessoa com seus pagens armados se concertou com grande perfeição. Porque
n'aquelle acto de armas, _por seu braço e por experimentadas ardidezas
passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor_, e tanto que foi
atravez d'onde o rei olhava, se apartou só da gente armado sobre uma
facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a
pé foi beijar as mãos a el-rei, e lhe disse:--«Senhor, assim como eu sou
o primeiro que Vossa Senhoria vê n'estes habitos, assim, prazendo a
Deus, não serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso
serviço, e por defensão de vossos reinos». El-rei folgou muito de o vêr,
e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento,
do que de sua pouca idade se esperava, e assim se despediu o Capitão, e
seguiu sua viagem até a Ameeira, que logo cercou e combateu até que a
tomou[40].

Um homem de tamanho vulto, como era D. Alvaro Vaz de Almada, por força
havia de ter inimigos, especialmente n'uma época em que os interesses
politicos da sociedade portugueza estavam profundamente divididos em
dous campos oppostos.

Uma carta regia, que se encontra no archivo da camara municipal de
Lisboa e é datada de 12 de maio de 1440, dá conhecimento de não ter sido
permittido que Alvaro Vaz de Almada, alcaide-mór, intentasse acção, para
se desaggravar do que contra a sua pessoa tinham dito e feito alguns
officiaes da cidade; e recommenda-lhes que reciprocamente usassem
d'aquella boa maneira e amizade, com que sempre se haviam tratado[41].

A reacção, por parte dos sequazes da rainha, decerto procuraria
amesquinhar e desprestigiar D. Alvaro, a alma do movimento em favor do
infante.

Parece que, entre outras accusações, lhe fizeram tambem a de haver
impedido a entrada de um navio carregado de trigo, que era preciso ao
consumo publico.

Mas, não obstante este e outros meios de reacção, a causa da rainha
naufragava: D. Leonor fugira para Castella, segundo parece, no dia 29 de
dezembro de 1440.

N'este momento desapparece-nos Alvaro Vaz de Almada do theatro dos
acontecimentos, sem que os chronistas nos dêem a chave do enygma.

Apenas se sabe, por uma phrase vaga de Ruy de Pina, e por outra phrase,
não menos vaga, do proprio infante D. Pedro, que elle estivera em Ceuta.

Julgaria D. Alvaro,--insaciavel de correr perigos e aventuras,--que a
sua presença não era já precisa em Portugal ao infante D. Pedro, cuja
causa estava ganha? Dar-se-ia em Ceuta algum acontecimento, que fizesse
com que o infante, como regente do reino, entendesse ser necessario
mandar alli o seu mais seguro e dedicado amigo?

Ficou em Ceuta D. Alvaro ou iria tambem ao estrangeiro, tentar novos
feitos de armas, hypothese a que se inclina o collaborador do
_Diccionario popular_?

      *      *      *      *      *

Foi effectivamente durante esta sua ausencia que Henrique VI o encheu de
mercês importantissimas.

«D. Alvaro Vaz estava então militando em Ceuta, e esse homem de
nobilissimo caracter, que, emquanto D. Pedro foi feliz, se conservou
afastado, voltando até, segundo todas as probabilidades, ao estrangeiro,
porque não é natural que em 1445 Henrique VI de Inglaterra lhe
conferisse todas as graças que dissemos, na sua ausencia, D. Alvaro,
apenas soube o que se tramava contra o seu irmão de armas, veio logo
para Portugal...»[42]

Por minha parte pendo a acreditar que D. Alvaro não sahiu de Ceuta, mas
devo dizer, francamente, que caminho apenas por conjecturas.

É possivel que a morte do pai e do irmão mais velho, ignorando eu
comtudo a data certa em que falleceram, levasse Henrique VI a galardoar
em D. Alvaro os serviços que anteriormente havia recebido d'elle proprio
e da sua familia.

Mas é mais provavel que, «por esforço do infante D. Pedro», como diz
Landim, lhe fossem feitas aquellas mercês.

As duas phrases, de Ruy de Pina e do infante D. Pedro, que logo
citaremos, fallam apenas de Ceuta; supponho, por isso, que D. Alvaro Vaz
de Almada não iria mais longe n'essa segunda ausencia.

O que é certo é que as mercês de Henrique VI a D. Alvaro são do anno de
1445, em que o valoroso _Capitão_ estava fóra de Lisboa.

Os documentos comprovativos das mercês encontrou-os o snr. Figanière, e
indicou-os pela primeira vez no _Catalogo dos manuscriptos portuguezes
existentes no muzeu de Londres_ (Lisboa, 1853), por esta fórma;

«N.º 6.298. _Fol. 316_--Noticia de D. Alvaro Vaz de Almada, conde de
Abranches, cavalleiro da Jarreteira.

«_Fol. 317_--Cópia de um documento passado sob o sêllo privado (_copy of
Privy Seal_) em que contém a eleição de D. Alvaro de Almada, como
cavalleiro da Jarreteira, e creando-o conde de Abranches em Normandia.
Datado de Westminster a 4 de agosto do 23.º anno do reinado de Henrique
VI, rei de Inglaterra; isto é, de 1445.

«_Fol. 319 verso_--Cópia de outro semelhante documento, concedendo ao
mesmo D. Alvaro de Almada, conde de Abranches, a somma annual de 100
marcos. Datado de Westminster a 9 de agosto do mesmo anno.

«_Fol. 320 a 321_--Cópia de outro semelhante documento, dando ao mesmo
D. Alvaro de Almada uma taça de ouro do valor de 40 marcos, a qual
continha 100 marcos em dinheiro. Datado de 13 de agosto do já referido
anno.

«Os quatro precedentes documentos estão collocados em seguida uns dos
outros».

Eis o que dizia o _Catalogo_. Tres annos depois, no _Panorama_, o snr.
Figanière publicava na integra os documentos, cuja traducção vamos dar
em seguida:

«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23, maço 6,
pergaminho 2.º

«Henrique, por Graça de Deus Rei de Inglaterra, de França e Senhor da
Irlanda, aos Arcebispos, Bispos & saude.

«De grandes louvores devem ser cumulados, e com singular gloria
exaltados os que com ardente zelo se empenham em sacrificar o seu
tempo e até a propria vida á salvação da Patria; que se expõem aos
perigos para assegurar a tranquillidade publica, e que acima de todas as
cousas d'este mundo ambicionam fama illustre e nome immortal, e se dão
por felizes quando julgam poder com os seus serviços e lealdade promover
o publico bem. Oh benemerita classe de homens! sem os quaes não poderiam
gozar de segurança as cidades, as fortalezas, os reinos, os dominios, os
Principes da terra, nem mesmo a propria Terra. Oh muito illustres e
justos varões! sob cuja administração exemplar todas as virtudes se
avigoram e florecem, os máos são reprimidos e os criminosos castigados.
Ninguem ha, certamente, que com digno louvor possa celebrar por escripto
ou de palavra almas tão nobres. N'este numero se deve contar e celebrar
o insigne e preclaro varão, o bravo e glorioso militar, D. Alvaro de
Almada, que desde _tenra idade, apenas saido da infancia_, apaixonado de
gloria militar e ambicionando os premios dos valentes e a salvação
commum, com todo o esforço e zelo se applicou aos exercicios militares,
e logo que chegou á idade mais propria para a guerra, cresceu-lhe o
esforço com a idade, e em defeza do Estado se portou com tão superior
coragem que nada lhe parecia agradavel, digno de estima ou de apreço se
não se encaminhasse ao bem commum; e tal valor mostrou nos perigos da
guerra, e tal prudencia no remanso da paz, que com toda a justiça se
devem premios ao seu trabalho. Por estas razões considerando nós a
nobreza d'este varão, e as eminentes qualidades que, unidas a seus
feitos, lhes dão grande realce, e outrosim as gloriosas façanhas por
elle praticadas no _tempo do Christianissimo Rei de gloriosa memoria
nosso Antecessor, realçadas ainda pelas provas de amor, obediencia e
dedicação que a nós e nossos reinos elle tem dado_; o nomeamos
cavalleiro socio e irmão da ordem da Jarreteira por voto unanime d'esta
Ordem; e em testimunho de nossa Real Munificencia e das suas virtudes o
nomeamos e estabelecemos Conde de Avranches no nosso Ducado de
Normandia; e cingindo-lhe a espada o investimos n'este nome, dignidade e
titulo e com elle effectivamente o honramos. Queremos e mandamos por nós
e por nossos herdeiros que o dito nosso leal Dom Alvaro conserve
perpetuamente para si e seus herdeiros varões, seus descendentes havidos
em legitimo matrimonio, o nome e dignidade de Conde de Avranches. Foram
testimunhas os veneraveis Padres: I. arcebispo de Cantuaria; I.
arcebispo de Yorck; Thomaz, de Norwich; Will, de Sarum; I. Bathon e
Wellen, bispo de Gloucester, tio materno do nosso carissimo Duque
Humfredo; e os nossos carissimos parentes os duques João Exon, e
Humfredo Buck; e Wilhelmo, marquez de Suffolk; João, visconde de
Beaumont e seus amados e fieis soldados Radulpho Cromwell e Radulpho
Bottler, thesoureiros de Inglaterra, e o chanceller Mestre Adam Moleyns
e outros. Dado por nossa mão em Westminster a 4 de agosto. Por carta de
sello privado passada n'esta mesma data»[43].

«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23.º, maço
6.º, pergaminho 2.º

«Eu El-Rei aos que esta virem & saude.

«Tomando em consideração a lealdade, intelligencia, circumspecção,
affecto, serviços e todas as mais cousas dignas de menção que _a nosso
amantissimo Pae de feliz memoria, e tambem a nós_ com singular desvelo
prestou o nosso leal D. Alvaro de Almada, Conde de Avranches, do
conselho do nosso Parente o muito excellente Principe e
poderosissimo Senhor Rei de Portugal, e capitão mór em todos os seus
reinos e dominios, e Alcaide mór da cidade de Lisboa, e querendo
outrosim que taes serviços não fiquem em esquecimento e sem
recompensa: por nosso motu proprio concedemos ao mesmo D. Alvaro em
quanto viver cem marcos de pensão annual, a receber do nosso Erario de
Inglaterra por mão do nosso thesoureiro e officiaes que então alli
servirem, e a vencer em porções eguaes pela Paschoa e pelo S. Miguel. Em
fé do que é. Testimunha R.»

«Westminster 9 de agosto»[44].

«Sello particular do Governo, 13 de agosto 23 H. 6.--Nós, tomando em
consideração os bons serviços, grande zelo, e bom amor que nosso fiel e bem
amado Alvaro de Almada, cavalleiro de Portugal, nos tem feito e prestado e
aos nossos muito nobres antepassados, o temos feito e creado ha pouco tempo
conde de Avranches, e além d'isso temos concedido ao dito Alvaro uma pensão
de 100 marcos por anno durante a sua vida. Nós vos ordenamos de lhe
entregar uma taça de ouro do valor de quarenta marcos[45] e a somma de cem
marcos contidos na dita taça»[46].

Estas mercês foram feitas por Henrique VI na sua dupla qualidade de rei
de Inglaterra e duque de Normandia em França. Insistimos n'este ponto
para combater o erro em que tantos escriptores nacionaes e estrangeiros
têm cahido, de suppor que Alvaro Vaz recebera do rei de Inglaterra a
ordem da Jarreteira, e do rei de França o condado de Avranches, que
estava incluido no antigo ducado de Normandia. O rei era um só. A este
respeito com inteira razão nota o snr. Oliveira Martins que nem se
concebe que, estando em guerra os dous reinos, o mesmo homem fosse feito
conde de Avranches pelo rei de França e cavalleiro da Jarreteira pelo
rei de Inglaterra[47].

Em 1447, o joven rei D. Affonso V pede a seu tio o infante D. Pedro
que lhe entregue as redeas do governo, o que immediatamente consegue.

É então que principia a agitar-se em torno do infante ex-regente a
intriga atiçada pelo duque de Bragança.

Os conselheiros de D. Affonso V diziam-lhe, segundo conta Pina, que «por
segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda tirasse,
como logo tirou, todos os officios, que os criados de seu tio na
côrte tinham de qualquer qualidade que fossem, pondo suspeições e
testimunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que
roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a el-rei, segundo a
cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam
provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou
com esperança de galardão, que lhe promettiam, na sua vontade o
testimunhavam»[48].

O que é certo é que, apesar de todas estas machinações dos inimigos do
infante D. Pedro, o joven rei Affonso não se mostrou severo, nem mesmo
reservado, com D. Alvaro Vaz de Almada quando elle recolheu a Lisboa.

É que, como logo veremos pelas palavras do infante D. Pedro, Alvaro Vaz
tinha augmentado a sua gloria militar, praticando _em Ceuta_ novos e
brilhantes feitos de armas.

N'este lance da narrativa, precisamos recorrer mais uma vez ao
testimunho de Ruy de Pina, transcrevendo um capitulo da sua _Chronica_:

«_A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta_, o conde
d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do
infante D. Pedro, e publico imigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não
foi então d'el-rei e de sua côrte assim agasalhado e honrado, como seus
serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde
assim como era de nobre sangue, assim não fallecia n'elle uma graciosa
soltura de dizer, com mui esforçado coração e singular agradecimento,
com que ante el-rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia
muito a honra e estado do infante D. Pedro, com claro exemplo e
vivas razões de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande
audacia os movimentos e maldades, que seus imigos tão sem causa contra
elle moviam. E como quer que el-rei fosse induzido, que não ouvisse o
conde e o mandasse ir fóra de sua côrte, pondo-lhe que em todas as
culpas do infante elle era muito culpado, porém porque el-rei era de
alto coração, accêso no ardor de actos cavalleirosos, suspirando para
grandes empresas, folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si
muita parte e acolhimento, especialmente porque o infante D. Henrique
ante el-rei muitas vezes por cousas muito assignaladas em que o vira,
dizia por elle, que não sómente Portugal, mas Hespanha toda se devia de
haver por honrada crear tal cavalleiro. E porque os imigos do infante
viram, que a vontade d'el-rei ácerca do conde não terçava por elles
como desejavam, lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de
credito que com resguardo de grande segredo o aconselhassem, que se
fosse fóra da côrte, e não entrasse em um conselho publico que se então
fazia, avisando-o manhosamente que n'elle por cousas do infante D. Pedro
o haviam de prender. Mas o conde com a cara cheia d'essa forçada
segurança, lhe disse--_Amigos, certamente pelos muitos e grandes
serviços que tenho feitos a esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais
villas e castellos com que me acrecente, que prisões nem cadêas em que
sem causa me ponha, e por tanto com todo o que me dizeis, sabei que não
hei de fugir do conselho e serviço d'el-rei nosso senhor, pois leal e
verdadeiramente sempre o segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se
move contra mim, sabei certo que em defender minha honra, e limpeza
d'aquelle senhor, eu me mostrarei hoje digno de ser confrade da
santa Garrotea que recebi, e espero em Deus que sem ociosidade de minhas
mãos, os que me quizerem visitar antes seja na sepultura, que nos
carceres nem cadêas, e por isso não hajaes dó nem compaixão de minha
vida porque minha morte honrada a fará com louvor viver mui viva, e
muito mais honrada nas memorias dos homens para sempre._ Pelo qual o
conde depois de com esta determinação despedir estes manhosos e dobrados
conselheiros; porque a hora do conselho se chegava, a que determinou ir,
se vestiu de pannos finos mui bem e muito melhor d'armas secretas, com
que entrou no paço, onde seus imigos, vendo a segurança de sua pessoa,
foram claramente certificados do esforço e bondade de seu coração. E
estando el-rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores presentes
e os principaes imigos do infante, o conde e com cara que mais parecia
que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fora
revelada, e assim lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas
cousas do infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos,
e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar;
concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que
fossem, que do contrario tinham informado a El-Rei, eram com reverencia
e acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máus e
traidores, e que com licença e consentimento de sua senhoria os
combateria por armas, _e em campo a tres d'elles os melhores
juntamente_[49]. A resposta d'el-rei para o conde foi então
graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o
mau fundamento dos que tratavam a morte do infante, foram mui tristes
signaes, e por arredarem el-rei do infante D. Henrique e do conde,
que começavam ser causa, que de todo impedia seu damnado proposito, o
levaram a Cintra aforrado».

Este ultimo periodo de Ruy de Pina tem sido interpretado por alguns
escriptores com manifesta confusão. Suppõem elles que Alvaro Vaz é que foi
levado para Cintra, e não o rei. Eu entendo o contrario. Em Major a
redacção póde suscitar duvidas; diz o erudito inglez: «Apesar da frieza,
que lhe mostraram (ao conde de Avranches) por sua amizade a D. Pedro, foi
sempre seu caloroso e perseverante defensor, e tal poder tinha sua
influencia, que os maus conselheiros de elrei julgaram conveniente fazel-o
retirar para Cintra»[50]. Soares da Sylva, deixando-se arrastar pelo
equivoco, escreve: «N'este mesmo tempo veio á Côrte o Conde de Abranches D.
Alvaro Vaz de Almada, que até alli estava _em Cintra_[51].

Ora, em face do texto de Pina, vê-se que Alvaro Vaz veio de _Ceuta_, e
que os cortezãos, para subtrairem D. Affonso V á influencia do conde,
levaram o rei _aforrado_ para Cintra.

D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, diz que Alvaro Vaz de Almada armou
tres navios contra os genovezes que andavam no Estreito, que lhes tomou
uma carraca, e praticou outros feitos valorosos. Não diz, porém, em que
época isto succedeu. Mas poderá talvez presumir-se que fosse n'esta
segunda ida a Ceuta, e que sejam estes os feitos a que o infante D.
Pedro se refere.

Os genovezes tinham n'aquelle tempo uma poderosa marinha, e póde bem ser
que affluissem ao estreito de Gibraltar com a mira em Ceuta, chegando a
fazer uma investida, que Alvaro Vaz teria repellido victoriosamente.

Os nossos chronistas guardam silencio sobre o assumpto. Mas não custa a
acreditar que o motivo que levou novamente a Ceuta Alvaro Vaz fosse a
ameaça dos genovezes, contra os quaes elle acudiria com tres navios
armados á sua custa.

Sendo assim, ficaria explicado o facto de ter abandonado temporariamente
o governo do castello de Lisboa, como explicadas ficariam tambem uma
phrase do infante D. Pedro e a admiração que o joven rei manifestou mais
uma vez pelo insigne capitão, a ponto dos cortezãos julgarem conveniente
retirar D. Affonso V para Cintra, para evitar a repetição de
entrevistas que davam vantagem ao conde de Avranches.

Acaso governaria já Affonso V quando o conde partiu para Ceuta? Parece
que não. Se esta viagem tivesse sido um meio de o tirar de ao pé do
infante D. Pedro, se tivesse sido «um castigo», como explicar que o rei
lhe conservasse o castello de Lisboa, que só lhe retirou quando D.
Alvaro Vaz voltou de Ceuta? E como explicar igualmente que recebesse o
_Capitão_ com tanto agrado?

Parece mais verosimil e provavel que Alvaro Vaz partisse para Ceuta
durante a regencia e por indicação do infante, em razão talvez do perigo
que offereciam alli os genovezes.

Por fim, como era natural que acontecesse, dada a idade impressionavel
de Affonso V e a insistencia dos inimigos do infante, o joven rei acabou
por ceder e tirar a D. Alvaro o governo do castello de Lisboa[52].

Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado ao
_Capitão_ o cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes
doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo
National[53].

O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho
tirára o governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam
directa e pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na
pessoa do seu mais dilecto amigo o queriam ferir.

Na celebre carta que o infante dirigiu de Coimbra, em 30 de
dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera
expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:

«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde
d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys
delles por que lhe esto devesse de ser feito vós sabees; deram-lhe
por elles _e em especial pollo que agora fez em Ceita_, ho gallardam que
dam a mim de meus serviços e trabalhos».

Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do
infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaro _viera de Ceuta_, onde
praticára novos e gloriosos feitos.

Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em
Ceuta. Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha
regressado, e por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em
Lisboa.

Certamente n'este ultimo anno[54] veiu a Portugal Jacques de
Lalain, famoso cavalleiro da côrte do duque de Borgonha. Foi
recebido pelo joven rei Affonso V e pelo regente D. Pedro com grandes
honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora,
sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros
senhores e cavalleiros portuguezes[55].

Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do
rei, que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez
fizesse armas contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por
estreitos laços de parentesco e affecto.

Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches
justar, em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro dos mais
afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido
d'essa honra e gloria.

Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.

Depois de fallar ao rei, Alvaro Vaz correu ancioso a abraçar o infante
D. Pedro, que estava em Coimbra, nas suas terras.

O infante D. Henrique acampanhou-o.

Houve então alli um como conselho de familia para se deliberar sobre o
que cumpria fazer. O momento era angustioso; a resolução difficil. A
reunião do conselho repetiu-se quando se soube que o duque de Bragança
tinha sido chamado á côrte.

Alvaro Vaz de Almada opinou que a todo o custo o infante devia impedir a
passagem ao duque[56].

Este parecer foi acceito.

Para o executar, D. Pedro moveu a sua gente, que de Penella seguiu para
a Louzã, e da Louzã para a aldeia de Villarinho, sendo a vanguarda
confiada a D. Jayme, filho do ex-regente, e a D. Alvaro Vaz de Almada. O
proprio D. Pedro commandava a rectaguarda.

Quando chegaram ao logar de Serpiz, soube o infante que o duque de
Bragança estava apenas a meia legua de distancia.

Logo que isto constou a D. Alvaro, não lhe soffreu o animo mais
delongas. Sem dizer nada ao infante, metteu esporas ao cavallo, e foi
vêr o arraial do duque. Quando voltou, vinha radiante; mas D. Pedro
acolheu-o com tristeza, pesaroso de que elle o não tivesse consultado
primeiro.

Perguntou-lhe o infante o que tinha visto.

D. Alvaro respondeu com decisão:

--Senhor, venho de vêr vossos inimigos, de quem prazendo a Deus, e
ao bemaventurado S. Jorge, vos eu darei hoje se quizerdes mui boa
vingança, e peço-vos por mercê que a não dilateis para mais, e ahi logo
dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos
signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes
tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não
alongueis a vida a quem se lh'a hoje dais, sabei que a encurtára mui
cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e
afortallesa não quer vir ávante, e ou se tornará para traz como veio, ou
escondido se salvará por outro caminho»[57].

O infante D. Pedro, querendo certamente adiar o derramamento de sangue,
não acceitou o conselho, nem acreditou a prophecia.

Mas D. Alvaro fôra n'essa occasião um vidente.

O duque de Bragança conseguiu atravessar furtivamente a serra da
Estrella, escapando-se d'este modo ás mãos do infante, e seguindo
jornada para Lisboa.

D. Pedro e os seus tornaram para Coimbra.

Ahi foi surprehender o infante uma carta de sua filha, a rainha.
Dizia-lhe ella que no dia 5 de maio (estava-se em 1449) D. Affonso V o
iria cercar, e que, se elle infante fosse vencido, seria morto,
encarcerado ou desterrado.

D. Pedro mostrou-se alegre e tranquillo perante o mensageiro, mas ficou
profundamente abatido.

Reuniu o conselho dos seus amigos. As opiniões dividiram-se. D. Alvaro,
sem fazer a menor allusão á boa occasião que o infante havia
perdido, disse com inabalavel firmeza:

--Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.

Desenvolvendo esta these, aconselhou que, vestindo todos as suas armas,
fossem caminho de Santarem, onde a côrte estava, para que o infante
mandasse pedir a el-rei que ou lhe permittisse defender-se na presença
de seus inimigos ou haver pelas armas satisfação das injurias que
propalavam, e que se el-rei nenhuma d'estas concessões quizesse fazer, e
sobre elles viesse, que se defendessem no campo como bons e esforçados
cavalleiros[58].

_Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado_: estas
heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D.
Pedro.

Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro.
Acceitou-lhe o conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se.
Tinha chegado o momento decisivo: só restava apparelhar para elle.
_Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado._ Tal era
o dilemma. A voz da cavallaria portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.

Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella
fosse.

Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos
na bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena
intima, que se déra entre D. Pedro e D. Alvaro:

«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se
esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde
d'Abranches, e lhe disse--_conde, sabe que eu sinto já minha alma
aborrecida de viver n'este corpo, como desejosa de se sair de suas
paixões e tristezas, e considerados os seus combates que minha vida,
honra, e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas
cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não
succedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e
acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons
criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se
escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta
confiança, assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e
honrada ordem da Garrotea em que somos confrades, e como por creação que
vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço
tenho muito ha conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que
d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso
lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa honra, que
sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo
do conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis
ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares
vis, e com pregões deshonrados. Senhor,_ respondeu o conde, _para caso
de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer
por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são
necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal
serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim
como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste mundo vossa alma se
parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no
outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia
irá acompanhar e servir para sempre a vossa_».

Ferdinand Denis torna esta scena mais rapida, e por isso mesmo
talvez mais verdadeira.

O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza
proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.

D. Alvaro responderia com laconica firmeza:

--Acaso não sou eu vosso irmão de armas?

Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o
discurso de Ruy de Pina.

Foi avisado um sacerdote, homem abalisado, o doutor Alvaro Affonso, para
comparecer na egreja de S. Thiago.

Por mão d'este sacerdote commungaram o infante e D. Alvaro, jurando
ambos, sobre a hostia consagrada, que juntos triumphariam ou morreriam.

Depois o infante visitou as egrejas da Sé, de Santa Cruz e de Santa
Clara, com as quaes tinha particular devoção, e, recolhendo ao
paço, deu ordem para que estivessem prestes os seus seis mil homens, e
para que n'essa noite se abrissem e illuminassem os salões do solar.

Tendo cumprido os deveres de bom christão, queria despedir-se do mundo,
na hypothese de ser vencido, se não era presentimento, como bom cavalleiro.

E elle, que tão modesto vivera sempre, deu ao sarau d'essa noite um
esplendor verdadeiramente principesco.

«La veille de son départ pour Santarem, une fête fut donnée aux dames;
et il y brilla de cette grâce de langage, de cette noblesse toute
chevaleresque, qui l'avaient rendu maintes fois l'admiration des cours
de l'Allemagne et de l'Aragon»[59].

Como que está a gente a vêr o amavel donaire d'esses dous
cavalleiros, o infante e D. Alvaro, fallando ás damas, pisando
gentilmente tapetes macios que encobriam a cratera de um vulcão ameaçador.

Ao romper da manhã, quando o sol da primavera aclarava docemente a
paizagem formosissima de Coimbra, a cavallaria, a infanteria, a
carriagem de bois e bestas, principiaram a mover-se, desfraldando duas
bandeiras, cujos lemmas diziam, n'uma, _Lealdade_, na outra, _Justiça e
vingança_.

O infante D. Pedro, tendo abraçado sua esposa, seguira o exercito que
abalava em som de guerra.

      *      *      *      *      *

Esta Jornada, a mais curta e ao mesmo passo a mais longa que o infante
fizera, porque não regressou jámais, lembra até certo ponto a
attracção da chamma sobre a borboleta. Tambem o infante e o seu fiel
companheiro D. Alvaro pareciam attrahidos pela morte.

Iam procurando os templos famosos como para encommendar sua alma a Deus.
Estiveram na Batalha, onde D. Pedro ajoelhou diante do tumulo de seus
pais, quedando-se tambem algum tempo diante do jazigo que elle proprio
devia ir povoar. Estiveram em Alcobaça, e d'alli seguiram para Rio
Maior, onde o infante reuniu o conselho.

Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não
avançasse mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força,
retrocedesse para Coimbra.

O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu
ordem para que o exercito marchasse na direcção de Alcoentre: para
a morte é que era o caminho.

Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura,
de fogoso ardor militar.

Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado
pelos esclarecedores do exercito real.

Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde
de Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os
do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita
desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com
muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados,
querendo-se salvar cairam em um grande tremedal e lagoa, de que não
poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os
vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes o principal era
um Pero de Castro, fidalgo e criado do infante D. Henrique»[60].

Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou.
Sahiu-lhe ao caminho a noticia de que D. Affonso V havia partido de
Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a
pequena distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.

O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito
do rei, que se aproximava.

Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a
toda a gente a sua impressão, menos ao infante.

«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto
a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e
salvasse, e o deixasse com sua gente alli onde folgaria acabar por
seu serviço»[61].

Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura
a D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.

«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o
Conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era
morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe
commetteria nem ousaria commetter tal cousa, em que ao menos ficava o
infante por ser perjuro e fraco»[62].

Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma
terça-feira, 20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.

O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na
historia de Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se
no peito do infante, que pouco tempo sobreviveu.

Luiz de Azevedo[63], poeta do _Cancioneiro_ de Rezende, põe
na bocca do infante moribundo lastimas que talvez lhe atravessassem o
pensamento n'essa angustiada hora final:

    Nam ha rreynos em Cristãos
    que em todos nam andasse,
    e que sempre nom achasse
    nos rreys d'eles doces mãos;
    Fydalguos e cydadaõs
    me seruiam lealmente,
    e agora cruelmente
    me matarom meus yrmãos.

    Eu andey per muytas partes
    e por outras boas terras,
    muyta paz e tam bem guerras
    vy tratar per muytas artes.
    Mas aqueste dia Martes
    foy jnfeles pera mym;
    o meu sangue me deu fim
    e rrompeu meus estandartes.

Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O
infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais
leal dos cavalleiros portuguezes.

Ruy de Pina escreve:

«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial,
provendo e resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a
muitas affrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe
disse--_Senhor conde, que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto._--E
o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem
dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração
esforçado disse ao moço--_Cala-te e aqui o não digas a ninguem._--E
com isto feriu rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu
alojamentor onde sem alguma turvação pediu pão e vinho, de que por
esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas
armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia
de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes era já entrado
e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os outros
carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas
elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria,
e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de
mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um
grande pedaço como mui valente e accordado cavalleiro, não sem grande
espanto dos que o viam trazendo as mãos, e todas suas armas cheias não
de seu sangue, mas de muito alheio que espargiu; porque em quanto
andou em pé e se poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a
cortasse. E emfim vencido já de muito trabalho, e longo cansaço, disse
em altas vozes: _Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma
já tardas._ E com isto se deixou cair estendido no chão, e uns dizem que
disse, _ora fartar, rapazes_, e outros _ora vingar, villanagem_. Cujo
corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em
breve despediu a alma de si para ir acompanhar a do infante como lhe
tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe
cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir acrescentamento e
honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que
por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era valor
d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada.
E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o infante, vendo
tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza das estancias, que
lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não lhe
fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram
pelo arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos,
feridos, ou presos não escapou algum».

Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração
violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro
Vaz de Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse
homem extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua
vida. Para os livros de educação popular, nenhum exemplo de valor
militar e de leal amizade poderá ser mais apropriado do que este.

Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de
Alvaro Vaz uma que o chronista aliás não cita. Contam que,
embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, na
vertigem do combate, pronunciára: «_Jantar aqui, ceiar no inferno_». Era
um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.

Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa.
D. Affonso V procurou attenual-a enviando embaixadores ás principaes
côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu procedimento.

Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei
ultrapassou o respeito devido aos mortos.

O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias.
Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle
desgraçado principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete
partidas do mundo[64], ainda depois da morte errou n'uma longa
peregrinação, porque os seus ossos foram successivamente trasladados de
Alverca (onde o rei receiou que os fossem roubar) para o castello de
Abrantes, de Abrantes para o mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa,
finalmente, para a Batalha, a instancias da infeliz rainha D. Isabel.

Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça
por um dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na
esperança de obter mercê[65]. Feito pedaços, retalhado de
golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre o campo de
Alfarrobeira, até que a requerimento de seu irmão bastardo, João
Vaz de Almada[66], e não sem difficuldade, foi enterrado
honradamente na capella de familia.

Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de
Lisboa, era chamada _dos Abranches_ (corrupção de Avranches), por n'ella
ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.

«Está sepultado--descrevia no seculo XVII o auctor da _Historia
serafica_--no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual se vêem
estas letras: _Aqui jaz um Christão._ Na parede sustentavam dous leões
uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam
os ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de
Almada, os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso
tiveram, fóra d'elle fizeram celebre seu nome com muitos feitos
cavalleirosos[67]. E por quanto uma ruina do tecto a tem
feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa
do Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta memoria».

Por carta de D. Affonso V, de 10 de outubro d'aquelle anno de 1449,
foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios,
honras, prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os
partidarios do infante que se acharam em Alfarrobeira.

O conde de Avranches não escapou a esta medida geral, que abrangia tanto
os vivos como os mortos.

«Morto o conde de Avranches, foram-lhe logo os bens confiscados como de
reo de alta traição: a casa da actual rua do _Almada_, sobre o Calhariz,
campo então, e afastado, e mais uns terrenos em Caparica. Tudo se doou
em 25 de agosto de 1449 a Alvaro Pires de Tavora, chamado o velho, filho
de Lourenço Pires de Tavora e de Alda Gonçalves, e do conselho d'elrei
D. Affonso V. Esses bens conservam-se ainda, na sua maior parte, em
poder do actual representante dos Tavoras, o sr. marquez de Vallada,
etc.»[68]

Quantos lisboetas ignorarão ainda hoje que foi o famoso conde de
Avranches, espelho da cavallaria portugueza, como muitos escriptores lhe
chamam, que deu o nome a essa aliás modesta rua, proxima do Calhariz!

Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches, casou duas vezes.

A primeira com D. Isabel da Cunha, filha de Alvaro da Cunha, quinto
senhor de Pombeiro, o qual era filho de João Lourenço da Cunha e de sua
mulher a celeberrima D. Leonor Telles[69].

A lista dos filhos de Alvaro Vaz de Almada, publicada nos _Retratos dos
varões e donas_, é deficiente. Nos nobiliarios da Torre do Tombo
encontra-se a seguinte noticia genealogica, que deve completar a sua
biographia:

Do primeiro casamento, nasceram cinco filhos, a saber:

1.º D. João de Almada, cuja geração se extinguiu.

2.º D. Leonor, solteira.

3.º D. Violante da Cunha, primeira mulher de Fernam Martins Mascarenhas,
capitão de ginetes, do qual se apartou.

4.º D. Isabel da Cunha, mulher de Alvaro Pessanha, filho de micer
Carlos Pessanha, almirante[70].

5.º Dona V... da Cunha, que casou em Inglaterra.

Em segundas nupcias casou D. Alvaro Vaz de Almada com D. Catharina de
Castro, filha de D. Fernando de Castro (casa Monsanto) e de sua mulher
D. Isabel de Athayde.

D'este segundo cazamento nasceu D. Fernando de Almada, que veio a herdar
o titulo de conde de Avranches, confirmado em França por Luiz XI.

D. Catharina não teve pela memoria de D. Alvaro o respeito que era de
esperar, visto que não podia encontrar outro marido, que excedesse
em gloria o primeiro.

Casou outra vez. Casou, depois da morte do conde de Avranches, com D.
Martinho de Athayde, conde de Athouguia, seu primo co-irmão.

É triste recordar esta pagina de fragilidade feminina.

Mas a patria, essa, ficou eternamente viuva do grande cavalleiro.

      *      *      *      *      *

De proposito deixei para o final d'esta carta um assumpto, vago e
confuso, que anda lendariamente relacionado com a vida de D. Alvaro Vaz
de Almada.

Os chronistas fazem d'este famoso capitão um dos _doze de Inglaterra_,
emparceirando-o alguns, n'esta cavalheiresca aventura, com seu pai.

Não póde ser mais completa a confusão de datas e de nomes, que obscurece
esta lenda em si mesma e na sua referencia á familia Almada.

Dêmos desde já um exemplo.

Ferdinand Denis, que com tanto cuidado estudava a historia de Portugal,
diz a respeito de Alvaro Vaz de Almada:

«Il faisait partie, dit-on, des douze preux qui allèrent venger
l'honneur outragé des dames anglaises; et Camoens l'a celebré en cette
occasion, en alterant toutefois son nom»[71].

Ora, no episodio _dos doze de Inglaterra_, Camões apenas nomeia um só,
que «Magriço se dizia». Onde o poeta falla do conde de Avranches é
no canto IV, quando descreve a batalha de Aljubarrota. E ahi é que lhe
troca o nome. Vejamos:

    E da outra ála que a esta corresponde,
    Antão Vasques de Almada[72] é capitão,
    Que depois d'Abranches nobre conde,
    Das gentes vai regendo a sestra mão.
    Logo na rectaguarda não se esconde,
    Das quinas e castellos o pendão,
    Com Joanne rei forte em toda a parte,
    Que escurecendo o preço vai de Marte.

Quem esteve em Aljubarrota não foi Alvaro Vaz de Almada, nem podia
estar, porque, sendo aproximadamente da mesma idade do infante D. Pedro,
não teria ainda nascido: mas foi seu pai, João Vaz de Almada,--ahi
armado cavalleiro.

Effectivamente, um cavalleiro, chamado Antão Vasques, de Almada
acrescentam alguns, commandava a ala esquerda do exercito com o gascão
Guilherme de Montferrant[73].

E este mesmo Antão Vasques, depois da batalha, cobriu os pés do Mestre
de Aviz com a bandeira real de Castella.

Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem,
antes de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do
exercito. Já sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que
prova que era muito novo então.

Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera
o nome do conde de Avranches quando descreve o episodio dos _doze
de Inglaterra_; e que Camões se enganou tambem dizendo que Antão Vasques
de Almada foi depois conde de Avranches.

Vamos agora á lenda dos _doze_.

Será acaso nos _Lusiadas_ que pela primeira vez apparece noticia d'esta
lenda?

Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no
anno de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora o _Palmeirim de Inglaterra_,
por Francisco de Moraes, e no capitulo CLXIII da segunda parte d'esta
obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da
lenda dos _Doze_.

Mas o _Palmeirim de Inglaterra_ será uma obra original, uma traducção
fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o
embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á
infanta D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert
de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva julga, porém, que
Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes introduziu cousas de
sua lavra.

No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra o _Memorial das proezas da
segunda tavola redonda_, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no
capitulo XLVII se lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o tempo dos
romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro
grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João de _Boa Memoria_ sabemos
que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da
tavola redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze
cavalleiros portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado
com outros tantos inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas
do duque de Alencastro».

Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença
de serem treze os cavalleiros em vez de doze.

O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que
nos vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito
viva a fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. João I, seria Jorge
Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.

Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dos _Retratos dos varões
e donas_, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra,
collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por
amor da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. João I com D.
Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as relações
de Portugal com a Inglaterra[74], e foi depois da batalha de Aljubarrota
(1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre nós. Mas Fernam
Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere ao caso.

Prosigamos. Mariz, nos _Dialogos da varia historia_, publicados em 1594,
referindo-se a uma relação antiga, _Chronica antigua hujus
temporis_, publíca uma narrativa do feito dos _Doze_, occorrido, segundo
elle, no reinado de D. João I. Cita, entre os _Doze_, apenas quatro,
mencionando o nome de _um que se chamava Alvaro de Almada_.

Faria e Sousa, commentando os _Lusiadas_, em 1639, tambem se refere a um
_papel antiguo_, em que _toscamente_ se historiava o episodio dos _Doze_.

Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla
de uma ordem de cavallaria, a ordem da _Dama Branca_, que foi organisada
para defeza das damas ultrajadas, _plusieurs dames et damoiselles, veufves
et autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes_[75], e publíca o
texto das cartas de armas pelas quaes _treze_ cavalleiros francezes,
messire Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França,
Bouciquaut, seu irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères,
Chambrillac, Castelbayac, Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut,
Colleville e Torsay, se comprometteram a defender as damas no anno da graça
de 1399.

Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes,
porque a sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por
outros no de 1396. O duque de Lancaster, que para este feito
cavalleiresco teria pedido o auxilio de D. João I, falleceu em 1399.

Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e,
portanto, a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer
apenas que esta lenda se tinha generalisado na Europa, querendo cada
paiz aproprial-a a cavalleiros seus.

O catalogo completo dos _Doze_ portuguezes appareceu pela primeira vez
no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro, _Desafio dos Doze de
Inglaterra_, publicado em 1732[76].

Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam:
Alvaro de Almada, o _Justador_; Alvaro Gonçalves Coutinho, o _Magriço_;
Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de
Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz
Gonçalves Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da
Silva, Ruy Mendes Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João
Fernandes Pacheco e Vasco Annes Côrte Real.

Este catalogo tem para nós muito pouco valor. Os nossos antigos
chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, por exemplo,
que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis,
chronologicamente, com a época dos _Doze de Inglaterra_[77].
Além d'isto, a vaidade das familias mais illustres de Portugal não
deixaria de collaborar no catalogo, fazendo supprimir uns nomes para os
substituir pelos de representantes seus.

Quanto ao primeiro cavalleiro do catalogo de Védouro, Alvaro de Almada,
o _Justador_, não deixa de inspirar certa desconfiança a coincidencia de
existirem na mesma época dois homens do mesmo nome e do mesmo vulto
cavalheiresco.

Não será acaso Alvaro de Almada, o _Justador_, um desdobramento da
individualidade de Alvaro de Almada, o conde de Avranches, por
errada repetição de algum códice, nobiliario principalmente?

Talvez por descobrir este equivoco seria que José da Fonseca, na edição
dos _Lusiadas_, feita em Paris em 1846, substituiu Alvaro de Almada, o
designado _Justador_, por João Fernandes Pacheco, que no catalogo de
Védouro figura como primeiro supranumerario.

A ter-se como certa a ida dos _Doze_ cavalleiros portuguezes a
Inglaterra, o que não póde ter-se como certo, parece-me, é que Alvaro
Vaz de Almada fosse um d'esses cavalleiros.

Elle, que foi armado cavalleiro em Ceuta em 1415, e que pela primeira
vez estivera na Inglaterra em Janeiro d'esse anno, quando alli fôra
levantar as trezentas e cincoenta lanças, não poderia tomar parte n'um
torneio, que se teria realisado no fim do seculo anterior.

A sua inclusão na lenda dos _Doze_ explica-se, decerto, por ter
sido um dos mais famosos cavalleiros portuguezes do seu tempo.

Sobretudo, as suas viagens e a sua morte em Alfarrobeira, que tanta
impressão causou pelas circumstancias cavalheirescas que a revestiram,
despertariam, na imaginação popular, o sentimento do maravilhoso. D'aqui
talvez o associarem-n'o á lenda.

Mas Alvaro Vaz de Almada não precisa d'essa gloria, aliás duvidosa,
porque sobeja gloria lhe adveio dos seus brilhantes feitos e singulares
aventuras.

Na _Chronica_ de Monstrelet falla-se de um combate que, no anno de 1414,
houve em França entre tres cavalleiros portuguezes e tres gascões: sendo
o pretexto o amor das damas, comquanto o verdadeiro mobil fosse o odio
que existia entre os francezes e os inglezes, de que os portuguezes eram
então alliados.

Os portuguezes foram D. Alvares, D. João e D. Pedro Gonçalves[78]; e os
gascões François de Grignols, Archambaud de la Roque e Maurignon.

O combate ter-se-ia realisado em Saint-Ouen, na presença do rei: Os
portuguezes portaram-se com bravura, mas foram vencidos. Pudera! ou a
versão não fosse franceza...

Desculpe, meu caro snr. Lugan. O orgulho das nações chega a ser uma
cousa respeitavel.

Para fazer justiça ao valor dos seis campeões, foram passeiados, todos,
pelas ruas de Paris, em triumpho, ao som de trombetas e acclamações
enthusiasticas.

Ora estes tres nomes, mudado Alvares para Alvaro, correspondem
justamente aos dos tres cavalleiros da familia Almada: o pai e os
dous filhos.

E o appellido de Gonçalves poderá talvez explicar-se por confusão com o
do _Magriço_, que, como sabemos, se chamava Alvaro Gonçalves (Coutinho).

Vimos como Alvaro Vaz de Almada fôra com seu pai a Inglaterra levantar
armas para a guerra de Ceuta. Naturalmente tambem iria Pedro de Almada.
O pai estava na côrte de Henrique V em setembro de 1414, como consta do
_Quadro diplomatico_, e Alvaro ainda alli estava em Janeiro de 1415.

A commissão requeria brevidade, porque D. João I queria partir para
Ceuta, e não me parece provavel que a familia Almada se demorasse então
em França a combater gascões.

Mas é possivel.

O que é provavel é que Alvaro Vaz de Almada, e seu pai, e seu irmão, na
Inglaterra, na França ou mesmo na Allemanha, onde Alvaro Vaz se
encontraria mais tarde com o infante D. Pedro, praticassem, collectiva
ou individualmente, algum feito galante em honra das damas, tomassem
parte em qualquer dos torneios cavalheirescos, que eram n'aquella época
frequentes.

Após o combate entre os tres portuguezes e os tres gascões, houve um
duello entre outro portuguez e um cavalleiro bretão, de appellido La
Haye, na presença de Carlos VI.

«Foram, diz Vulson de la Colombière, por ordem do rei igualmente
honrados, comquanto se diga que La Haye obteve vantagem».

Reiffenberg dá noticia de que D. João I convidára muitos cavalleiros
francezes para um torneio em Lisboa[79].

Era este o requinte da galanteria militar da época. Portanto Alvaro Vaz
ou qualquer dos outros cavalleiros da sua familia bem poderiam ter
praticado semelhantes proezas no estrangeiro, de 1414 a 1415, ou depois
da tomada de Ceuta, quando se viram obrigados a emigrar.

Infelizmente, não posso precisar quaes fossem esses feitos
cavalheirescos praticados por elle ou pelos seus.

Camões, na sequencia do episodio dos _Doze_, refere-se ao duello que o
_Magriço_ teve com um francez, e ao desafio que um outro dos cavalleiros
portuguezes tivera na Allemanha.

O cavalleiro francez morto, no campo, pelo _Magriço_ foi, segundo a
tradição, mr. De Lansay.

O duello do outro portuguez com o allemão:

    Outro tambem dos doze em Allemanha
    Se lança, e teve um fero desafio
    C'um germano enganoso, que com manha
    Não devida, o quiz pôr no extremo fio;

bem podia ser vaga recordação de alguma façanha de Alvaro Vaz quando
combateu pelo imperador Sigismundo, embora essa façanha nenhuma relação
tivesse com a lenda dos _Doze_. Mas, no poema, quando Velloso está
n'este lance da narrativa, o mestre de bordo toca o apito, a manobra
começa, as conversações na tolda interrompem-se.

Camões conta que Magriço não recolhera logo depois do torneio:

    Mas dizem que comtudo o grão Magriço
    Desejoso de vêr as cousas grandes,
    Lá se deixou ficar, onde um serviço
    Notavel á Condessa fez de Frandes.

E Mariz, nos _Dialogos_, diz que tambem ficaram no estrangeiro, além de
Magriço, mais dous, «fazendo taes obras em armas, que um d'elles
alcançou de el-rei de França o condado de Abranches em França, pelas
obras que em seu serviço fizera», e que este veio depois a morrer em
Alfarrobeira.

Ora não foi o rei de França, mas o de Inglaterra, como já está dito, que
deu o condado de Avranches a Alvaro Vaz de Almada. E, dizendo a lenda
que o torneio dos _Doze_ se realisou em vida do duque de Lancaster, não
podia Alvaro Vaz tomar parte n'elle, por não ser ainda nascido ou por
estar ainda na primeira infancia.

Em conclusão, meu caro snr. Lugan:

Na formação das lendas, a imaginação popular não olha a anachronismos.
Alvaro Vaz foi um cavalleiro famoso por seus feitos d'armas, pelo seu
grande valor; combateu ao serviço de Inglaterra e em Inglaterra foi mais
tarde agraciado: a lenda cavalheiresca dos _Doze_ envolveu-o
portanto nos seus magicos véos, para nos servirmos de uma expressão de
Pinheiro Chagas, sem attender á chronologia. Tambem em torno do infante
D. Pedro se fórma a lenda das _sete partidas_, originada nas suas
viagens. A imaginação popular não podia deixar de envolver no
maravilhoso das tradições nacionaes estes Castor e Pollux do seculo XV,
tão unidos moralmente, tão consubstanciados, na vida e na morte, por um
estreito laço de relação historica.

      *      *      *      *      *

Seria longo trabalho enumerar as menções e referencias que de Alvaro Vaz
de Almada fazem tanto os escriptores portuguezes, como os
estrangeiros que se têm occupado em estudar a historia do nosso paiz.

D'estes, alguns, Ferdinand Denis á frente, lamentam que tão pouco se
saiba da vida do conde de Avranches. Um d'elles, que é dos que melhor
conhecem a litteratura portugueza, mr. Francisque Michel, chega a
escrever: «_Nous ne savons rien de sa vie_».

Quanto aos escriptores nacionaes, não quero, comtudo, deixar de citar
Gomes Eanes de Azurara, porque escrevia em circumstancias
verdadeiramente embaraçosas para elle. Azurara fôra encarregado por D.
Affonso V de escrever a _Chronica do descobrimento e conquista de
Guiné_. Por D. Affonso V, note-se, por D. Affonso V, que moveu o seu
exercito contra o infante D. Pedro, e que tão severo se mostrou com
todos os que combateram em Alfarrobeira ao lado do infante.

Azurara acabou de escrever a sua _Chronica_ em fevereiro de 1453, isto
é, menos de quatro annos depois do deploravel acontecimento, quando
ainda não estavam de todo apagadas as paixões politicas que lhe deram
origem.

Pois, não obstante estas difficeis circumstancias em que se via
collocado, Azurara, com louvavel hombridade, faz esta referencia a D.
Alvaro Vaz de Almada:

«... batalha da Alfarrobeira, naqual o dicto iffante foe morto e o conde
Dabranxes que era com elle, e toda sua hoste desbaratada, onde, se o meu
entender pera esto abasta, justamente posso dizer, que lealdades dos
homees de todollos segres (seculos) forom nada em comparaçom da sua. E
postoque o serviço nom seja tamanho, quanto ao trabalho, segundo os que
já disse, certamente as circonstancias lhe dam splandor e grandeza sobre
todollos outros, cuja perfeita declaraçom remeto aa estorea geeral
dos feitos do regno»[80].

D. Affonso V leu isto, que foi escripto na sua propria casa--_acabousse
esta obra na livrarya que este Rey dom Affonso fez em Lixboa_--e sentiu,
porventura, passar ainda por diante dos olhos o vulto d'esse cavalleiro
fascinante, que elle quiz por força vêr quando D. Alvaro ia caminho da
Ameeira, e que tamanha influencia exercia no seu juvenil espirito, que
os inimigos do infante D. Pedro, quando o conde de Avranches regressou
de Ceuta pela segunda vez, julgaram conveniente a seus fins levar o rei
para Cintra, de modo a evitar nova entrevista.

Affonso V leu isto, e certamente lhe pesou na alma o remorso de ter
cedido ás perfidas suggestões dos inimigos do infante.

As palavras que Azurara havia escripto, ficaram. O rei não as cancellou.
O espirito de Affonso V fez justiça ao chronista e ao conde,
conservando-as.

      *      *      *      *      *

Tal era o homem, o heroe.

Elle bastaria por si só a caracterisar uma época, o occaso da
idade-média em Portugal, se, a dous passos de distancia, os
descobrimentos maritimos, promovidos pelo infante D. Henrique, não
tivessem vindo relegar para o segundo plano do vasto quadro da
civilisação universal todos os outros factos, e todos os vultos humanos
que não collaboraram directamente n'essa colossal epopêa das aventuras
maritimas.

Alvaro Vaz de Almada é até certo ponto prejudicado pelo esplendor de
uma época gloriosissima, que marca o inicio dos tempos modernos.
Eramos então tão felizes que sobejavam heroes, heroes de uma raça unica,
inexcedivel, para todos os generos de celebridade. Mas a grandeza do
vulto do conde de Avranches, podendo medir-se pela bitola dos maiores e
melhores cavalleiros do cyclo medieval, tanto se abalisou nas tradições
da Europa cavalheiresca, que não ficou de todo offuscada pelo esplendor
da sua propria época.

Quando quizermos recordar o periodo aureo em que o espirito aventuroso
dos portuguezes investia com as lendas tenebrosas do oceano, para
rasgal-as com a prôa das caravellas descobridoras, e affrontava os
perigos das explorações terrestres por sertões inhospitos, teremos que
figurar na nossa imaginação o vulto do infante D. Henrique, de pé sobre
o promontorio de Sagres, dominando o mar, que se lhe quebrava aos pés
humilde como um leão vencido, e que, no seu eterno refluxo, ia
levar a longinquas plagas o prestigio do nome portuguez.

Mas quando quizermos figurar a agonia extrema da cavallaria portugueza,
quando quizermos procurar a chave de ouro que fechou, n'esta região do
occidente, o periodo do valor militar, das aventuras galantes, da
coragem no soffrimento, da dedicação na amizade, da abnegação na
existencia e da heroicidade na morte, teremos que figurar o conde de
Avranches, brandindo primeiro a lança, floreando depois a espada, no
campo de Alfarrobeira, onde o infante D. Pedro era já cadaver, até que,
extenuado, sentindo exhalar-se o derradeiro alento, cae sobre a terra da
patria, offerecendo aos golpes dos adversarios o corpo que já podia
menos do que a alma, e exclamando ao despedil-a: _Ora vingar, villanagem!_

Se o infante D. Henrique é o traço de união que para todo o sempre,
emquanto se não perder a memoria das grandezas passadas com a existencia
do ultimo homem, nos liga ao Oriente, cujas portas abrimos, cujos mares
devassamos, cujos emporios vencemos, D. Alvaro Vaz de Almada é o vinculo
eterno que nos prende ao Occidente cavalheiresco, ás tradições
aventurosas do brio militar e do militarismo galante que foram, na
Europa da idade-média, a suprema expressão da nobreza da alma humana.

Um, o infante, é a aurora do novo dia que começa a raiar para a
humanidade do seculo XV, aurora resplendente de fulgurações prismaticas,
de arreboes dourados, de rosicler cambiante.

O outro, o conde, é o occaso da idade-média, o sol-pôr de um seculo de
feitos heroicos, de primores e gentilezas de cavalleiros
intemeratos,--occaso opulento de tintas e de sombras grandiosas, em que
a luz briga ainda com as trevas, affirmando na lucta o valor que
certamente havia aprendido com os cavalleiros d'esse tempo.

Estes dous homens, o infante e o conde, são como uma dupla
personificação da sua época, do momento de transição solemne em que a
poesia das espadas, a epopêa das cavallarias errantes, que preparavam a
alma humana para todas as concepções arrojadas e para todos os feitos
destemidos, vai ceder o passo á quilha das caravellas e das naus, que
iam em demanda do Oriente para trazel-o ás portas de Lisboa, estreitando
as relações dos povos, desenvolvendo a navegação e o commercio,
fomentando a industria pela abundancia de capitaes e pela exploração de
novos mercados, pela nobilitação do trabalho, que não tardaria a deixar
de ser um mister de escravos para converter-se n'uma applicação honrosa
da actividade humana.

O infante e o programma, ainda então mal desenrolado, da
transformação economica da Europa culta.

O conde é o livro, prestes a fechar-se, do espirito militar da
idade-média, o ultimo clarão da cavallaria moribunda.

São uma época, estes dous homens. Completam-se um pelo outro.

Ora, no momento em que a cidade do Porto vai prestar uma grande
homenagem collectiva ao infante Descobridor, que n'essa boa terra
nasceu, e fazer resuscitar por alguns dias o periodo mais brilhante da
nossa historia nacional, pareceu-me justo, agora o repito, recordar o
vulto do homem que, ao lado de D. Henrique, synthetisa o seculo XV, a
transição da idade-média para os tempos modernos, na historia de Portugal.

Tendo, meu caro snr. Lugan, de lhe enviar esta carta a tempo de poder
ser publicada por occasião da festa centenaria do infante, fui obrigado
a circumscrever-me a estreitissimos limites, e a passar rapidamente
por acontecimentos que mereciam longa attenção.

Não é um trabalho litterario perfeito o que lhe mando, porque o fazel-o
excederia os meus recursos e não caberia nos poucos dias de que pude
dispôr. É, pois, uma simples carta, escripta ao correr da penna, sem
preoccupações academicas, mas inspirada unicamente no desejo de
corresponder á louvavel resolução do meu bom amigo e de, por minha
parte, render homenagem ás glorias da minha patria.

Lisboa, 2 de fevereiro de 1894.

                                                    De V.

                                           amigo muito affeiçoado

                                             _Alberto Pimentel._



    [1] Quando se queria elogiar a opulencia de alguem, dizia-se: É como
    Janeanez (João Éannes ou Annes).

    [2] O snr. Oliveira Martins (_Filhos de D. João I_, pag. 87) confunde
    João Vaz de Almada com João Annes, que erradamente suppõe ter sido o
    pai de Alvaro Vaz de Almada.

    [3] «Tavarez fait remonter les chevaliers de cette race au grand
    Janeanez d'Almada, qui occupa les offices les plus importants sous D.
    Pedro, puis sous son fils, et auquel ont dû les fortifications dont
    ce dernier monarque entoura _Lisbonne_». (_Portugal_, pag. 85).

    [4] O valle por onde hoje se estende a Avenida da Liberdade.

    [5] João Vaz de Almada teve um filho bastardo, do mesmo nome, que foi
    senhor de Pereira.

    [6] Fernam Lopes, _Chronica d'el-rei D. João I_, cap. XXXIX.

    [7] _Quadro diplomatico_, tom. I, pag. 283; tom. XIV, pag. 155-156.

    [8] _Quadro diplomatico_, tom. XIV, pag. 172-173.

    [9] _Ibid._, pag. 174.

    [10] Esta preferencia explica-se pelo facto de João Vaz de Almada ir
    na qualidade de capitão-mór da cidade de Lisboa.

    [11] «Rex Johannem Valascum de Almatina vocari fecit, cui dixit: «Cape
    signum Sancti Vicentii et, si potes, alteram civitatis partem ingrede,
    et si senseris barbaros fugam arripuisse arcemque reliquisse, signum
    in summo arcis pone». Ille mandato Regis parens, signum accepit et ad
    portam muri qui civitatem in duas partes dividebat, cum multis armatis
    eum sequentibus, venit; et quia clausa erat, illos eam ipsam
    rescindere monuit; illis vero rescindentibus, duo barbari qui
    remanserant, ut rerum exitum expectarent, ad murum accedentes, lingua
    castellana quam noverant dixere: «Nolite tantum laboris assumere, nos
    enim portam aperiemus et vobis aditum faciemus». Ubi fuit aperta
    Johannes Valascus, arcem ingressus, in altiori turre signum
    collocavit, etc.» (Matheus de Pisano, _Gesta illustrissimi regis
    Johannis de Bello Septensi_, 1460; _Inéditos da Accademia_, tom. I).

    Henry Major copiou este episodio. _Discoveries of Prince Henry the
    Navigator._ London, 1877. Pag. 35.

    [12] _Historia de Portugal_, vol. I, pag. 9.

    [13] «E este Ifante (D. Affonso, fiiho do rei D. Duarte) foy ho
    primeiro filho herdeiro dos Reys destes Regnos, que se chamou
    Principe, porque atee elle, todoloos outros se chamaram Ifantes
    primogenitos herdeiros, etc.» (Ruy de Pina, _Chronica do sr. rei D.
    Duarte_, vol. I dos _Inéditos_).

    [14] O _Nobiliario_ de Damião de Goes (Torre do Tombo, 21-B-26) falla
    de ferimentos; outro codice (Torre do Tombo, 21-F-17) diz--pancadas.

    [15] O snr. João Teixeira Soares, artigo _Os doze de Inglaterra_,
    publicado na _Era nova_, pag. 458.

    [16] _Historia serafica_, 1.ª parte, cap. XXIII.

    [17] _Descripção de Portugal_, pag. 311.

    [18] _Os filhos de D. João I_, pag. 87.

    [19] «... esta cerimonia (a investidura de um cavalleiro) dava áquelle
    que iniciava um seu companheiro no culto do valor e da lealdade, uma
    certa influencia sobre o neophyto, que lhe ficava consagrando sempre
    respeito e affeição indissoluvel». (Pinheiro Chagas, _Historia de
    Portugal_, vol. II, pag. 147).

    [20] Ferdinand Denis, _Portugal_, pag. 84.

    [21] Torre do Tombo. Codice 21-F-17.

    [22] Fernam Lopes, _Chr. d'el-rei D. João I_, cap. XCV.

    [23] ... né au commencement du quinzième siècle...» (Ferdinand Denis,
    _Nouvelle biographie universelle_, tom. II, pag. 170). «Alvaro était
    né, selon toutes les probabilités, à peu près vers l'époque ou Joam
    Ier avait eu ses premiers fils». (Ferdinand Denis, _Portugal_, pag.
    86).

    [24] Suppomos ser o snr. Pinheiro Chagas a pessoa que, no _Diccionario
    popular_, escreveu o artigo relativo a Alvaro Vaz de Almada.

    [25] Foi Pedro José de Figueiredo, mas parece que teve collaboradores.
    1817.

    [26] Artigo _Alvaro Vaz de Almada_, no _Diccionario popular_.

    [27] A pedido de Alvaro Vaz, esta carta foi confirmada por outra do
    rei D. Duarte, dada em Almeirim a 5 de Janeiro de 1434.

    O posto de capitão-mór da armada conservou-se depois nos Almadas
    descendentes do agraciado, até ao tempo de el-rei D. Sebastião, que
    d'elle fez mercê a D. Fernando de Almada, bisneto de Alvaro Vaz, por
    carta passada em Evora a 25 de agosto de 1573.

    [28] Ruy de Pina, _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXIV.

    [29] _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXV.

    [30] _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXVI.

    [31] _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXXIV.

    [32] Ruy de Pina, _Chronica do senhor rei D. Duarte_, cap. XXXVI.

    [33] _Portugal_, pag. 86, nota.

    [34] _O infante D. Pedro_, chronica por Gaspar Dias de Landim, cap.
    XIV.

    [35] Landim, mesmo capitulo.

    [36] _Chronica do senhor rei D. Affonso V_, cap. XXXI.

    [37] Pina, _Chronica do senhor rei D. Affonso V_, cap. XXXIV.

    Era o _Limoeiro_. Este edificio havia sido Casa da Moeda, e depois
    palacio _dos infantes_, porque lhes era destinado. (Vêr _Noticias
    chronologicas da universidade de Coimbra_, por Francisco Leitão
    Ferreira, nas _Memorias da Academia Real de Historia_ relativas ao
    anno de 1729, pag. 206). Mas ficou por muito tempo o costume de
    designar o palacio pelo seu nome antigo: a _Moeda_.

    [38] _Chronica_, cap. XXXVI.

    [39] Torre do Tombo--Chancellaria de D. Affonso V, liv. 20, fol. 85 v.

    [40] _Chronica_, cap. LXXI.

    [41] _Elementos para a historia do municipio de Lisboa_, tom. I, pag.
    322.

    [42] _Diccionario popular_, artigo _Alvaro Vaz de Almada_.

    [43]

        Ex Archivis in Turri London
        E rotulo Franciae, A.º 23.º
        Hen. 6, membrana 2.

    Henricus dei gratia Rex Angliae et Franciae et dominus Hiberniae
    Archiepiscopis, Episcopis &c. salutem. Magnis efferendi sunt laudibus,
    singulari attollendi gloria, qui in Rei publicae salutem dies suos et
    vitam ipsam ferventi studio et animo indefesso conferre nituntur; qui
    de seipsis pericula faciunt pro aliorum quiete, qui egregiam famam et
    nomen immortale, prae coeteris mundanis rebus sitiunt, et foelices se
    praedicant dum communem utilitatem eorum operâ et fide adjutari posse
    arbitrantur: O foelicissimum genus hominum! sine quibus urbes, moenia,
    regna, dominia, mundi Principes, nec mundus ipse, incolumitate gaudere
    poterunt: O clarissimi et justi viri! quorum sancta dispositione
    virescunt virtutes omnes et florent, pulcherime effrenantur mali,
    praemuntur perversi; nemo est certe qui horum ingenuos animos aut
    literis contexere aut verbis affari dignâ laude poterit; de quorum
    numero insignis et nobilis animi vir et strenuus et splendidissimus
    miles DOMINUS ALVARUS DE ALMADAA dicendus et praedicandus est, qui ab
    ineunt suâ aetate, dum annos pueritiae excesserat, militiae gloriâ
    debaccatus, virtutum praemia et communem omnium salutem anelans, toto
    conanime et omni studio in armorum usum so conjecit, et cum aptiores
    Rei militares attigerat annos, adolevit strennitas sua cum aetate,
    itaq animo excellenti in omnem Rei publicae tuitionem crevit, ut
    nichil sibi dulce, acceptum aut desiderabile videbatur, si pro communi
    bono non fuerit institutum; adeo sua pro virili bellorum descrimini
    insudavit forti animo, et pacis tranquilitati consilio, quod suo jure
    praemia debentur suo labori: propterea nos animadvertentes nobilitatem
    et animi dicti viri egregiam dispositionem, quae suis gestis adjunctae
    magnum efficiuntornamentum, nec non ingentia facta quae non tantum
    tempore regni celeberimae memoriae Christianissimi Progenitoris nostri
    verum etiam cumulum amoris servitii et meritorum quae nobis regnisq
    exhibuit nostris, ipsum in militem ac socium et fratrem de GARTERIA EX
    unanimi consensu societatis ejusdem elegimus et realiter investivimus:
    eundem etiam Dominum ALVARUM ex nostra habundantiori gratiâ in evidens
    testimonium suarum virtutum, in comitem DAVARANS in DUCATU nostro
    NORMANDIAE creavimus et praefecimus, ac per presentes creamus et
    praeficimus ac de eisdem nomine honore et titulo per cincturam gladii
    investientes effectualiter insignivimus. Habenda et tenenda eadem
    nomen et honorem Comitis DAVARANS sibi et haeredibus suis masculis de
    corpore suo legitime exeuntibus in perpetuum, volentes et
    praecipientes pro nobis et haeredibus nostris quod dictus fidelis
    noster dominus ALVARUS nomen et honorem Comitis DAVARANS teneat sibi
    et haeredibus suis masculis de corpore suo ut praemissum est legitime
    exeuntibus in perpetuum, Hiis testibus venerabilibus patribus I:
    Cantuar: et I. Eborum archiepis. Tho: Norwicen: W: Sarum, I: Bathon et
    Wellen Epis. carissimo avunculo nostro Humfredo Duce Glouc: ac
    carissimis consanguineis nostris Iohan. Exon. et Humfredo Buck.
    Ducibus et Willõ Marchione Suffolciae. Iohan: Vicecom: de Beaumont, ac
    diltis(1) et fidelibus suis Radulpho Cromwell et Radulpho Botiller
    militibus, Thess(2) Angl., et Magistro Adam Moleyns custode privati
    sigilli et aliis. Dat. per manum nostram apud Westm(3). 4 die Aug.

    Per breve de private sigillo et de data praedicta &c.

        (1) Dilectis.

        (2) Thesaurariis.

        (3) Westminster.

    [44]

        Ex Archivis in Turri London
        E rotulo Franciae, A.º 23.º
        Hen. 6. membrana 2.

    Rex omnibus ad quos &c salutem. Ponimos ante oculos nostros fidem
    industriam circumspectionem affectionem laboresq et alia memoriâ
    dignissima quae fidelis noster Dominus ALVARUS DE ALMADAA Comes
    DAVARANS consiliarius excellentissimi Principis et potentissimi domini
    Regis Portugaliae consanguinei nostri et Capitaneus Major in omnibus
    regnis suis et dominationibus ac Alcayde major civitatis Ulisbonensis
    foelicis memoriae genitori nostro et etiam nobis singulari intentione
    impendit: volentes ideo hujusmodi merita sine fructu nequaquam
    oblivioni comittese, Ex mero motu nostro concessimus et concedimus per
    praesentes eidem ALVARO centum marcas percipiendas annuatim quamdiu
    vixerit ad receptam Scaccarii nostri Angliae per manus Thesaurarii et
    Camerariorum nostrorum ibidem pro tempore existentium ad Terminos
    Paschae et Sancti Michaelis per equales porcõnes. In cujus, etc. Teste
    R. apud Westm. 9 die Augusti.

    [45] N. B.--O marco inglez valia 13 schellings e 4 pences.

    [46] Priv. Sigill. 13 Aug. 23 H. 6. We in good consideration of the
    good service grete zele and good love that our trusty and welbeloved
    ALVAST DALMAA Knyght of Portugale hath doon and shewed unto us and
    oure full noble progenitors have maad(1) and creat(2) him now late(3)
    Therle(4) of AVERANCHE and over that(5) we have graunted unto the said
    ALVAST a pension of an C marc by yere during his life. We charge you
    that ye delivere unto him a cupp of golde of XL marc and C marc
    thereinne &c.

        (1) Made.

        (2) Created.

        (3) Now of late; lately.

        (4) The earl.

        (5) And besides that; and moreover.

    [47] O titulo de conde de Avranches, posto que Henque VI o concedesse
    hereditario, caducou desde que Carlos VII conseguiu reunir á França o
    ducado de Normandia.

    Foi pois preciso que Luiz XI o confirmasse na pessoa de D. Fernando de
    Almada, filho das segundas nupcias de D. Alvaro Vaz de Almada, porque
    a geração do primogenito do primeiro casamento extinguiu-se.

    A confirmação realisou-se quando Affonso V esteve em França, e D.
    Fernando de Almada o acompanhou.

    O titulo, assim renovado, foi reconhecido em Portugal: D. João II
    mandou fazer assentamento a D. Fernando de Almada, _conde de
    Avranches_, de 102:864 reaes brancos.

    Acabou o titulo na pessoa de D. Antão de Almada, que acompanhou a
    Africa D. Sebastião, e lá morreu. O filho de D. Antão, que estivera
    com o pai em Alcacerquibir, ficou captivo, e só logrou repatriar-se
    depois da morte do cardeal D. Henrique. Não se renovou por isso a
    concessão do titulo, interrompendo-se tambem a successão do officio de
    capitão-mór do reino.

    Outro D. Antão de Almada, descendente do _Bom capitão_, foi um dos
    quarenta fidalgos de 1640.

    A rainha D. Maria I agraciou a familia Vaz de Almada com a concessão
    do titulo de conde de Almada, a 13 de maio de 1793.

    [48] _Chronica_, cap. LXXXIX.

    [49] Que bello desplante cavalheiresco n'este repto de um contra tres!

    [50] _The life of Prince Henry of Portugal_, cap. XIII, pag. 229.

    [51] _Memorias d'el-rei D. João I_, tom. V, cap. LXV, pag. 342.

    [52] Pina, _Chronica_, cap. XCIII.

    [53] Dom Affonso, etc., a quantos esta carta virem fazemos saber que a
    nós disseram que em Abrantes foram deixados certos bens de herança por
    um Fernão Rodrigues Rombo; que por morte de um seu filho os houvesse a
    egreja de S. João da dita villa, a qual os houve e teve anno e dia sem
    os venderem e acabado o dito tempo a pessoas leigas segundo por nós é
    ordenado (_sic_). Os quaes bens vai em dois ou tres annos os tem os
    clerigos da dita egreja, pela qual razão por bem da nossa ordenação
    pertencem a nós e os podemos dar de direito a quem nossa mercê for. E
    ora querendo nós fazer graça e mercê ao capitão Alvaro Vaz d'Almada,
    Rico Homem do nosso Conselho e Alcaide Mór da cidade de Lisboa, se
    assim é, como nos foi dito, e que por a dita razão os ditos bens
    pertencem a nós e os podemos de direito dar a quem nossa mercê for,
    temos por bem e fazemos-lhe d'elles livre e pura irrevogavel doação
    entre os vivos valedoura d'este dia para todo sempre e de todos seus
    herdeiros e successores que depois elle vierem, assim ascendentes
    (_sic_) como descendentes. E, porem, mandamos aos juizes da dita villa
    d'Abrantes e a outros quaes que isto houverem de ver que, presentes os
    tedores dos ditos bens e partes, a que isto pertencer, que se acharem
    que assim é como nos disseram e que por isso os ditos bens que assim
    ficaram á dita egreja pertencem a nós e os podemos de direito dar, que
    vista esta carta os façam logo dar e entregar ao dito capitão ou a seu
    certo procurador e lh'os deixem ter e haver, lograr, possuir, vender,
    dar e doar, trocar e escambar, fazer d'elles e n'elles o que lhe
    prouver, como de sua cousa propria e corporal possessão, por quanto
    nós lhe fazemos d'elles a dita mercê e doação o mais firmemente que
    ser pode, se a nós de direito pertencem e a outrem primeiramente não
    são dados, por nossa carta dando appellação e aggravo ás partes nos
    casos que o direito outorga, e esta mercê lhe fazemos com tanto que
    elle nem seu procurador não faça avença com as partes sem nossa
    licença, e se a fizer que perca para nós isto de que lhe assim fazemos
    mercê e mais o preço que por isso receber e al não façaes. Dada em
    Lisboa 18 de Agosto. El-Rei o mandou por Lopo d'Almeida, cavalleiro de
    sua casa, não sendo ahi Diogo Femandes d'Almeida, seu pai, do conselho
    do dito Senhor e védor de sua Fazenda, a que isto pertencia. Nuno
    Affonso a fez anno de Nosso Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos
    quarenta e quatro(1).

        (1) Torre do Tombo--Chancellaria de D. Affonso V, liv. V, fl. 68.

    [54] Devia ser n'este anno, pelas razões expostas pelo visconde de
    Santarem no _Quadro elementar_, tom. III, pag. 80, nota, e pelo conde
    de Villa Franca, _D. João I e a alliança ingleza_, pag. 201, nota.

    [55] _Chronique du bon chevalier Jacques de Lalain, frère et compagnon
    de l'ordre de la toison d'or_, por Georges de Chastelain, cap. XXXVIII
    a XLII.

    [56] Pina, _Chronica_, cap. XCVI.

    [57] Pina, _Chronica_, cap. CIV.

    [58] Pina, _Chronica_, cap. CX.

    [59] _Portugal_, pag. 88.

    [60] Pina, _Chronica_, cap. CXVIII.

    [61] Pina, _Chronica_, cap. CXX.

    [62] Pina, mesmo capitulo.

    [63] Combateu pelo infante D. Pedro em Alfarrobeira. Era quinto filho
    de Lopo Dias de Azevedo.

    [64] Frei Luiz de Sousa, _Historia de S. Domingos_, 1.ª parte, liv.
    VI, cap. XV.

    [65] Mariz, _Dialogos de varia historia_; Major, _The life of Prince
    Henry of Portugal_.

    [66] Um codice da Torre do Tombo (21-F-17) confunde este João Vaz de
    Almada com o pai, que tinha o mesmo nome. O filho é que foi védor da
    fazenda de D. Affonso V, como claramente diz Ruy de Pina. É verdade
    que o mesmo codice, suppondo que João Vaz de Almada, pai do conde de
    Avranches, era védor em 1451, encarrega-se de evidenciar o equivoco,
    noticiando que falleceu em Londres logo depois do casamento de D.
    Beatriz, com o conde de Arundel, casamento que se realisou em 1405! A
    chronologia dos nobiliarios é uma cousa escurissima.

    O pai do conde de Avranches figura com a moradia de 12:000 livras na
    casa de D. João I.

    O bastardo, além de védor, foi rico-homem e cavalleiro do conselho de
    Affonso V.

    [67] Diz Duarte Nunes que em Inglaterra se cantavam _romances_
    populares em honra de Pedro Vaz de Almada por um feito de armas que
    praticára, e que fôra muito louvado dos inglezes. Os ossos de D.
    Pedro, que falleceu solteiro, foram trazidos a Portugal por um criado,
    que se chamava Rolão Vaz.

    [68] Visconde de Castilho, Julio, _Lisboa antiga_, vol. I.

    [69] D. Leonor Telles, quando passou do marido para o rei D. Fernando,
    ou ainda ia pejada ou pouco antes havia dado á luz este filho
    legitimo. O pai, João Lourenço da Cunha, voltou á patria quando D.
    Fernando morreu, e pediu ao Mestre de Aviz que reconhecesse Alvaro da
    Cunha como herdeiro de todos os seus bens, o que foi concedido.

    [70] Descendente, como todos os outros Pessanhas, do nautico genovez
    Manoel Pezagno, que o rei D. Diniz chamou ao serviço de Portugal, e
    nomeou almirante da sua frota. O appellido Pezagno aportuguezou-se em
    Pessanha. E o almirantado ficou na familia.

    [71] _Nouvelle biographie universelle_, tom. II, pag. 170.

    [72] O primeiro Antão que apparece na familia de Alvaro Vaz de Almada
    é um seu neto, segundo filho de D. Fernando de Almada, segundo conde
    de Avranches.

    [73] Os chronistas portuguezes dizem--João de Montferrat. Froissart,
    porém, chama-lhe Guilherme de Montferrant.

    [74] «... mas foi desde o tempo de João I que multiplicados laços
    uniram estreitamente as duas casas e os dois Estados (Portugal e
    Inglaterra). O antigo tratado de commercio e de alliança de 12 de
    abril de 1372, que era apenas uma extensão do precedente, foi renovado
    a 15 de abril de 1386; ainda no mesmo anno (9 de maio) uma alliança
    defensiva foi concluida com o rei Ricardo de Inglaterra, confirmada
    solemnemente no anno seguinte (12 de agosto) e reconfirmada ainda a 16
    de fevereiro de 1404 por Henrique IV, successor de Ricardo. O
    casamento de João com a filha do duque de Lancaster (2 de fevereiro de
    1387) sellou ainda estes laços de amizade com a corôa de Inglaterra,
    garantiu e assegurou os tratados de diversa natureza que existiam
    entre os portuguezes e os inglezes».

    Schæfer--_Historia de Portugal_. (Reinado de D. João I).

    [75] _Les chroniques de sire Jean Froissart_, tom. III, part. I, cap.
    XXXVII.

    [76] _Os doze de Inglaterra_, artigo do snr. João Teixeira Soares, na
    _Era Nova_, pag. 448.

    [77] Snr. Teixeira Soares, artigo citado.

    [78] Francisque Michel, _Les portugais en France, les français en
    Portugal_, 1882, pag. 9.

    [79] _Relations anciennes de la Belgique et du Portugal_, pag. 25.

    [80] _Chronica_, cap. V.



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