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Title: A correspondência de Fradique Mendes - memórias e notas
Author: Queirós, José Maria Eça de, 1845-1900
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A correspondência de Fradique Mendes - memórias e notas" ***

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produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)



A CORRESPONDENCIA

DE

Fradique Mendes



Obras do mesmo auctor:


*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes                          12$000
*As Minas de Salomão.* 1 volume                                      600
*Os Maias.* 2 grossos volumes                                      2$000
*O Crime do Padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
recomposta e differente na fórma e na acção
da edição primitiva. 1 grosso volume                               1$200
*O Primo Bazilio*. Terceira edição. 1 grosso volume                1$000
*A Reliquia*. 1 grosso volume                                      1$000
*O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume                                500
*A Illustre Casa de Ramires.* 1 volume                             1$000


No prelo:

*A Cidade e as Serras.*



Eça de Queiroz



A CORRESPONDENCIA

DE

FRADIQUE MENDES


(MEMORIAS E NOTAS)


PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1900



Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que para a garantia
que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
da mesma Lei.


_Porto--Imprensa Moderna_



A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES


FRADIQUE MENDES

(MEMORIAS E NOTAS)



I


A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela
Paschoa,--justamente na semana em que elle regressára da sua viagem á
Africa Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admiravel datava
de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi no verão d'esse anno, uma tarde,
no café Martinho, que encontrei, n'um numero já amarrotado da _Revolução
de Setembro_, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por
baixo de versos que me maravilharam.

Os themas («os motivos emocionaes», como nós diziamos em 1867) d'essas
cinco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de Lapidarias,
tinham logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o
tempo em que eu e os meus camaradas de Cenaculo, deslumbrados pelo
Lyrismo Epico da _Légende des Siècles_, «o livro que um grande vento nos
trouxera de Guernesey»--decidiramos abominar e combater a rijos brados o
Lyrismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollegadas do coração, não
comprehendendo d'entre todos os rumores do Universo senão o rumor das
saias d'Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monotona e
interminavel confidencia de glorias e martyrios de amor. Ora Fradique
Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre
sem-igual da _Légende des Siècles_, iam, n'uma universal sympathia
buscar motivos emocionaes fóra das limitadas palpitações do coração--á
Historia, á Lenda, aos Costumes, ás Religiões, a tudo que através das
idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas além
d'isso Fradique Mendes trabalhava um outro filão poetico que me
seduzia--o da Modernidade, a notação fina e sobria das graças e dos
horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos
testemunhar ou presentir nas ruas que todos trilhamos nas moradas
visinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de nós
por penumbras humildes.

Esses poemetos das Lapidarias desenrolavam com effeito themas
magnificamente novos. Ahi um Santo allegorico, um Solitario do seculo
VI, morria uma tarde sobre as neves da Silesia, assaltado e domado por
uma tão inesperada e bestial rebellião da Carne, que, á beira da
Bemaventurança, subitamente a perdia, e com ella o fructo divino e
custoso de cincoenta annos de penitencia e d'ermo: um corvo, facundo e
velho além de toda a velhice, contava façanhas do tempo em que seguira
pelas Gallias, n'um bando alegre, as legiões de Cesar, depois as hordas
de Alarico rolando para a Italia, branca e toda de marmores sob o azul:
o bom cavalleiro Percival, espelho e flôr d'Idealistas, deixava por
cidades e campos o sulco silencioso da sua armadura d'ouro, correndo o
mundo, desde longas éras, á busca do San-Gral, o mystico vaso cheio de
sangue de Christo, que, n'uma manhã de Natal, elle vira passar e
lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um Satanaz de
feitio germanico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n'uma viella de
cidade medieval uma serenada ironica aos astros, «gottas de luz no frio
ar geladas»... E, entre estes motivos de esplendido symbolismo, lá vinha
o quadro de singela modernidade, as _Velhinhas_, cinco velhinhas, com
chales de ramagens pelos hombros, um lenço ou um cabaz na mão, sentadas
sobre um banco de pedra, n'um longo silencio de saudade, a uma restea de
sol d'outono.

Não asseguro todavia a nitidez d'estas bellas reminiscencias. Desde essa
sésta de agosto, no Martinho, não encontrei mais as Lapidarias: e, de
resto, o que n'ellas então me prendeu, não foi a Idéa, mas a Fórma--uma
fórma soberba de plasticidade e de vida, que ao mesmo tempo me lembrava
o verso marmoreo de Lecomte de Lisle com um sangue mais quente nas veias
do marmore, e a nervosidade intensa de Baudelaire vibrando com mais
norma e cadencia. Ora precisamente, n'esse anno de 1867, eu, J. Teixeira
de Azevedo e outros camaradas tinhamos descoberto no céo da Poesia
Franceza (unico para que nossos olhos se erguiam) toda uma pleiade
d'estrellas novas onde sobresahiam, pela sua refulgencia superior e
especial, esses dois sóes--Baudelaire e Lecomte de Lisle. Victor Hugo, a
quem chamavamos já «papá Hugo» ou «Senhor Hugo-Todo-Poderoso», não era
para nós um astro--mas o Deus mesmo, inicial e immanente, de quem os
astros recebiam a luz, o movimento e o rythmo. Aos seus pés Lecomte de
Lisle e Baudelaire faziam duas constellações de adoravel brilho: e o seu
encontro fôra para nós um deslumbramento e um amor! A mocidade d'hoje,
positiva e estreita, que pratíca a Politica, estuda as cotações da
_Bolsa_ e lê George Ohnet, mal póde comprehender os santos enthusiasmos
com que nós recebiamos a iniciação d'essa Arte Nova, que em França, nos
começos do Segundo Imperio, surgira das ruinas do Romantismo como sua
derradeira encarnação, e que nos era trazida em Poesia pelos versos de
Lecomte de Lisle, de Baudelaire, de Coppée, de Dierx, de Mallarmé, e
d'outros menores: e menos talvez póde comprehender taes fervores essa
parte da mocidade culta que logo desde as escolas se nutre de Spencer e
de Taine, e que procura com ancia e agudeza exercer a critica, onde nós
outr'ora, mais ingenuos e ardentes, nos abandonavamos á emoção. Eu mesmo
sorrio hoje ao pensar n'essas noites em que, no quarto de J. Teixeira
d'Azevedo, enchia de sobresalto e duvida dois conegos que ao lado
moravam, rompendo por horas mortas a clamar a _Charogne_ de Baudelaire,
tremulo e pallido de paixão:

Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
     A cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,
     Vous, mon ange et ma passion!

Do outro lado do tabique sentiamos ranger as camas dos ecclesiasticos, o
raspar espavorido de phosphoros. E eu, mais pallido, n'um extase
tremente:

Alors, oh ma beauté, dites à la vermine
    Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai gardé la forme et l'essence divine
    De mes amours décomposés!

Certamente Baudelaire não valia este tremor e esta pallidez. Todo o
culto sincero, porém, tem uma belleza essencial, independente dos
merecimentos do Deus para quem se evola. Duas mãos postas com legitima
fé serão sempre tocantes--mesmo quando se ergam para um Santo tão
affectado e postiço como S. Simeão Stylita. E o nosso transporte era
candido, genuinamente nascido do Ideal satisfeito, só comparavel áquelle
que outr'ora invadia os navegadores peninsulares ao pisarem as terras
nunca d'antes pisadas, Eldorados maravilhosos, ferteis em delicias e
thesouros, onde os seixos das praias lhes pareciam logo diamantes a
reluzir.

Li algures que Juan Ponce de Leon, enfastiado das cinzentas planicies de
Castella-a-Velha, não encontrando tambem já encanto nos pomares
verde-negros da Andaluzia--se fizera ao mar, para buscar outras terras,
e _mirar algo nuevo_. Tres annos sulcou incertamente a melancolia das
aguas atlanticas: mezes tristes errou perdido nos nevoeiros das
Bermudas: toda a esperança findára, já as prôas gastas se voltavam para
os lados onde ficára a Hespanha. E eis que n'uma manhã de grande sol, em
dia de S. João, surgem ante a armada extatica os esplendores da Florida!
«_Gracias te sean, mi S. Juan bendito, que he mirado algo nuevo!_» As
lagrimas corriam-lhe pelas barbas brancas--e Juan Ponce de Leon morreu
de emoção. Nós não morremos: mas lagrimas congeneres com as do velho
mareante saltaram-me dos olhos, quando pela primeira vez penetrei por
entre o brilho sombrio e os perfumes acres das _Flôres do Mal_. Eramos
assim absurdos em 1867!

De resto, exactamente como Ponce de Leon, eu só procurava em Litteratura
e Poesia _algo nuevo que mirar_. E para um meridional de vinte annos,
amando sobretudo a Côr e o Som na plenitude da sua riqueza, que poderia
ser esse _algo nuevo_ senão o luxo novo das fórmas novas? A Fórma, a
belleza inedita e rara da Fórma, eis realmente, n'esses tempos de
delicado sensualismo, todo o meu interesse e todo o meu cuidado! Decerto
eu adorava a Idéa na sua essencia;--mas quanto mais o Verbo que a
encarnava! Baudelaire, mostrando á sua amante na _Charogne_ a carcassa
pôdre do cão e equiparando em ambas as miserias da carne, era para mim
de magnifica surpreza e enlevo: e diante d'esta crespa e atormentada
subtilisação do sentir, que podia valer o facil e velho Lamartine no
_Lago_, mostrando a Elvira a cansada lua, e comparando em ambas a
pallidez e a graça meiga? Mas se este aspero e funebre espiritualismo de
Baudelaire me chegasse expresso na lingua lassa e molle de Casimir
Delavigne--eu não lhe teria dado mais apreço do que a versos vis do
_Almanach de Lembranças_.

Foi sensualmente enterrado n'esta idolatria da Fórma, que deparei com
essas Lapidarias de Fradique Mendes, onde julguei vêr reunidas e
fundidas as qualidades discordantes de magestade e de nervosidade que
constituiam, ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois
idolos--o auctor das _Flôres do Mal_ e o auctor dos _Poemas Barbaros_. A
isto accrescia, para me fascinar, que este poeta era portuguez,
cinzelava assim preciosamente a lingua que até ahi tivera como joias
acclamadas o _Noivado do Sepulchro_ e o _Avè Cesar!_, habitava Lisboa,
pertencia aos Novos, possuia decerto na alma, talvez no viver, tanta
originalidade poetica como nos seus poemas! E esse folhetim amarrotado
da _Revolução de Setembro_ tomava assim a importancia d'uma revelação
d'Arte, uma aurora de Poesia, nascendo para banhar as almas moças na luz
e no calor especial a que ellas aspiravam, meio adormecidas, quasi
regeladas sob o algido luar do Romantismo. Graças te sejam dadas, meu
Fradique bemdito, que na minha velha lingua _hé mirado algo nuevo!_
Creio que murmurei isto, banhado em gratidão. E, com o numero da
_Revolução de Setembro_, corri a casa de J. Teixeira de Azevedo, á
travessa do Guarda-Mór, a annunciar o advento esplendido!

Encontrei-o, como de costume, nos silenciosos vagares das tardes de
verão, em mangas de camisa, diante de uma bacia que trasbordava de
morangos e de vinho de Torres. Com vozes clamorosas, atirando gestos até
ao tecto, declamei-lhe a _Morte do Santo_. Se bem recordo, este asceta,
ao findar sobre as neves da Silesia, era miserrimamente trahido pela
desleal Natureza! Todos os appetites da paixão e do corpo, tão
laboriosamente recalcados por elle durante meio seculo d'ermo, irrompiam
de repente, á beira da eternidade, n'um tumulto bestial, não querendo
para sempre findar com a carne que ia findar--antes de serem uma vez
satisfeitos! E os anjos que, para o receber, desciam d'aza serena,
sobraçando mólhos de Palmas e cantando os Epithalamios, encontravam, em
vez d'um Santo, um Satyro, senil e grotesco--que de rojos, entre
bramidos sordidos, mordia com beijos vorazes a neve, a macia alvura da
neve, onde o seu delirio furiosamente imaginava nudezes de cortezãs!...
Tudo isto era tratado com uma grandeza sobria e rude que me parecia
sublime. J. Teixeira d'Azevedo achou tambem «sublime--mas bréjeiro». E
concordou que convinha desentulhar Fradique Mendes da obscuridade, e
erguel-o no alto do escudo como o radiante mestre dos Novos.

Fui logo n'essa noite á _Revolução de Setembro_, procurar um companheiro
meu de Coimbra, Marcos Vidigal, que, nos nossos alegres tempos de
Direito Romano e Canonico, ganhára, por tocar concertina, lêr a
_Historia da Musica_ de Scudo, e lançar através da Academia os nomes de
Mozart e de Beethoven, uma soberba auctoridade sobre Musica classica.
Agora, vadiando em Lisboa, escrevia na _Revolução_, aos domingos, uma
«Chronica lyrica»--para gozar gratuitamente o bilhete de S. Carlos.

Era um moço com cabellos ralos e côr de manteiga, sardento, apagado de
idéas e de modos--mas que despertava e se illuminava todo quando lograva
«a _chance_ (como elle dizia) de roçar por um homem celebre, ou de
arranchar n'uma coisa original»; e isto tornára-o a elle, pouco a pouco,
quasi original e quasi celebre. N'essa noite, que era sabbado e de
pesado calor, lá estava á banca, com uma quinzena d'alpaca, suando,
bufando, a espremer do seu pobre craneo, como d'um limão meio sêcco,
gottas d'uma Chronica sobre a Volpini. Apenas eu alludi a Fradique
Mendes, áquelles versos que me tinham maravilhado--Vidigal arrojou a
penna, já risonho, com um clarão alvoroçado na face molle:

--Fradique? Se conheço o grande Fradique? É meu parente! É meu patricio!
É meu parceiro!

--Ainda bem, Vidigal, ainda bem!

Fomos ao Passeio Publico (onde Marcos se ia encontrar com um agiota).
Tomámos sorvetes debaixo das acacias: e pelo chronista da _Revolução_
conheci a origem, a mocidade, os feitos do poeta das Lapidarias.


Carlos Fradique Mendes pertencia a uma velha e rica familia dos Açores;
e descendia por varonia do navegador D. Lopo Mendes, filho segundo da
casa da Troba, e donatario d'uma das primeiras capitanias creadas nas
Ilhas por começos do seculo XVI. Seu pai, homem magnificamente bello,
mas de gostos rudes, morrera (quando Carlos ainda gatinhava) d'um
desastre, na caça. Seis annos depois sua mãi, senhora tão airosa,
pensativa e loura que merecera d'um poeta da Terceira o nome de _Virgem
d'Ossian_, morria tambem d'uma febre trazida dos campos, onde andára
bucolicamente, n'um dia de sol forte, cantando e ceifando feno. Carlos
ficou em companhia e sob a tutela de sua avó materna, D. Angelina
Fradique, velha estouvada, erudita e exotica que colleccionava aves
empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente soffria dos «dardos
d'Amor». A sua primeira educação fôra singularmente emmaranhada: o
capellão de D. Angelina, antigo frade benedictino, ensinou-lhe o latim,
a doutrina, o horror á maçonaria, e outros principios solidos; depois um
coronel francez, duro jacobino que se batera em 1830 na barricada de
S^{t}-Merry, veio abalar estes alicerces espirituaes fazendo traduzir ao
rapaz a _Pucelle_ de Voltaire e a _Declaração dos direitos do homem_; e
finalmente um allemão, que ajudava D. Angelina a enfardelar Klopstock na
vernaculidade de Filinto Elysio, e se dizia parente de Emmanuel Kant,
completou a confusão iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o buço,
na _Critica da Razão pura_ e na heterodoxia metaphysica dos professores
de Tubinguen. Felizmente Carlos já então gastava longos dias a cavallo
pelos campos, com a sua matilha de galgos:--e da anemia que lhe teriam
causado as abstracções do raciocinio, salvou-o o sôpro fresco dos
montados e a natural pureza dos regatos em que bebia.

A avó, tendo imparcialmente approvado estas embrulhadas linhas
d'educacão, decidiu de repente, quando Carlos completou dezeseis annos,
mandal-o para Coimbra que ella considerava um nobre centro d'estudos
classicos e o derradeiro refugio das Humanidades. Corria porém na Ilha
que a traductora de Klopstock, apesar dos sessenta annos que lhe
revestiam a face d'um pêllo mais denso que a hera d'uma ruina, decidira
afastar o neto--para casar com o bolieiro.

Durante tres annos Carlos tocou guitarra pelo _Penedo da Saudade_,
encharcou-se de carrascão na tasca das Camêlas, publicou na _Idéa_
sonetos asceticos, e amou desesperadamente a filha d'um ferrador de
Lorvão. Acabava de ser reprovado em Geometria quando a avó morreu
subitamente, na sua quinta das _Tornas_, n'um caramanchão de rosas, onde
se esquecera toda uma sésta de junho, tomando café, e escutando a viola
que o cocheiro repicava com os dedos carregados d'anneis.

Restava a Carlos um tio, Thadeu Mendes, homem de luxo e de boa mesa, que
vivia em Paris preparando a salvação da Sociedade com Persigny, com
Morny, e com o principe Luiz Napoleão de quem era devoto e crédor. E
Carlos foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a
Sorbonne, á espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças
accumuladas do pai e da avó--calculadas por Vidigal n'um farto milhão de
cruzados. Vidigal, filho d'uma sobrinha de D. Angelina, nascido na
Terceira, possuia por legado, conjuntamente com Carlos, uma quinta
chamada o _Corvovello_. D'ahi lhe vinha ser «parente, patricio e
parceiro» do homem das Lapidarias.

Depois d'isto Vidigal sabia apenas que Fradique, livre e rico, sahira do
_Quartier-Latin_ a começar uma existencia soberba e fogosa. Com um
impeto de ave solta, viajára logo por todo o mundo, a todos os sopros do
vento, desde Chicago até Jerusalem, desde a Islandia até ao Sahará.
N'estas jornadas, sempre emprehendidas por uma solicitação da
intelligencia ou por ancia d'emoções, achára-se envolvido em feitos
historicos e tratára altas personalidades do seculo. Vestido com a
camisa escarlate, acompanhára Garibaldi na conquista das Duas-Sicilias.
Encorporado no Estado-Maior do velho Napier, que lhe chamava _the
Portuguese Lion_ (o Leão Portuguez), fizera toda a campanha da
Abyssinia. Recebia cartas de Mazzini. Havia apenas mezes que visitára
Hugo no seu rochedo de Guernesey...

Aqui recuei, com os olhos esbugalhados! Victor Hugo (todos ainda se
lembram), desterrado então em Guernesey, tinha para nós, idealistas e
democratas de 1867, as proporções sublimes e lendarias d'um S. João em
Pathmos. E recuei protestando, com os olhos esbugalhados, tanto se me
afigurava fóra das possibilidades que um portuguez, um Mendes tivesse
apertado nas suas a mão augusta que escrevera a _Lenda dos Seculos_!
Correspondencia com Mazzini, camaradagem com Garibaldi, vá! Mas na ilha
sagrada, ao rumor das ondas da Mancha, passear, conversar, scismar com o
vidente dos _Miseraveis_--parecia-me a impudente exaggeração d'um ilhéo
que me queria intrujar...

--Juro! gritou Vidigal, levantando a mão veridica ás acacias que nos
cobriam.

E immediatamente, para demonstrar a verosimilhança d'aquella gloria, já
altissima para Fradique, contou-me outra, bem superior, e que cercava o
estranho homem d'uma aureola mais refulgente. Não se tratava já de ser
estimado por um homem excelso--mas, coisa preciosa entre todas, de ser
amado por uma excelsa mulher. Pois bem! Durante dois annos, em Paris,
Fradique fôra o eleito de Anna de Léon, a gloriosa Anna de Léon, a mais
culta e bella cortezã (Vidigal dizia «o melhor bocado») do Segundo
Imperio, de que ella, pela graça especial da sua voluptuosidade
intelligente, como Aspasia no seculo de Pericles, fôra a expressão e a
flôr!

Muitas vezes eu lêra no _Figaro_ os louvores de Anna de Léon, e sabia
que poetas a tinham celebrado sob o nome de _Venus Victoriosa_. Os
amores com a cortezã não me impressionaram decerto tanto como a
intimidade com o homem das _Contemplações_: mas a minha incredulidade
cessou--e Fradique assumiu para mim a estatura d'um d'esses sêres que,
pela seducção ou pelo genio, como Alcibiades ou como G[oe]the, dominam
uma civilisação, e d'ella colhem deliciosamente tudo o que ella póde dar
em gostos e em triumphos.

Foi por isso talvez que córei, intimidado, quando Vidigal, reclamando
outro sorvete de leite, se offereceu para me levar ao surprehendente
Fradique. Sem me decidir, pensando em Novalis que tambem assim hesitava,
enleado, ao subir uma manhã em Berlim as escadas d'Hegel--perguntei a
Vidigal se o poeta das Lapidarias residia em Lisboa... Não! Fradique
viera de Inglaterra visitar Cintra, que adorava, e onde comprára a
quinta da _Saragoça_, no caminho dos Capuchos, para ter de verão em
Portugal um repouso fidalgo. Estivera lá desde o dia de Santo
Antonio:--e agora parára em Lisboa, no Hotel Central, antes de recolher
a Paris, seu centro e seu lar. De resto, accrescentou Marcos, não havia
como Fradique ninguem tão simples, tão alegre, tão facil. E, se eu
desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia, domingo,
ás duas, depois da missa do Loreto, á porta da Casa Havaneza.

--Valeu? Ás duas, religiosamente, depois da missa!

Bateu-me o coração. Por fim, com um esforço, como Novalis no patamar
d'Hegel, afiancei, pagando os sorvetes, que ao outro dia, ás duas,
religiosamente, mas sem missa, estaria no portal da Havaneza!



II


Gastei a noite preparando phrases, cheias de profundidade e belleza,
para lançar a Fradique Mendes! Tendiam todas á glorificação das
Lapidarias. E lembro-me de ter, com amoroso cuidado, burilado e repolido
esta:--«A fórma de v. exc.^a é um marmore divino com estremecimentos
humanos!»

De manhã apurei requintadamente a minha _toilette_ como se, em vez de
Fradique, fosse encontrar Anna de Léon--com quem já n'essa madrugada,
n'um sonho repassado de erudição e sensibilidade, eu passeára na Via
Sagrada que vai de Athenas a Eleusis, conversando, por entre os lyrios
que desfolhavamos, sobre o ensino de Platão e a versificação das
Lapidarias. E ás duas horas, dentro de uma tipoia, para que o macadam
regado me não maculasse o verniz dos sapatos, parava na Havaneza,
pallido, perfumado, commovido, com uma tremenda rosa de chá na lapella.
Eramos assim em 1867!

Marcos Vidigal já me esperava, impaciente, roendo o charuto. Saltou para
a tipoia; e batemos através do Loreto, que escaldava ao sol do agosto.

Na rua do Alecrim (para combater a pueril emoção que me enleava)
perguntei ao meu companheiro quando publicaria Fradique as Lapidarias.
Por entre o barulho das rodas Vidigal gritou:

--Nunca!

E contou que a publicação d'aquelles trechos na _Revolução de Setembro_
quasi occasionára, entre Fradique e elle, «uma pega intellectual». Um
dia, depois de almoço, em Cintra, emquanto Fradique fumava o seu
_chibouk_ persa, Vidigal, na sua familiaridade, como patricio e como
parente, abrira sobre a mesa uma pasta de velludo negro. Descobrira,
surprehendido, largas folhas de versos, n'uma tinta já amarellada. Eram
as Lapidarias. Lêra a primeira, a _Serenada de Satan aos astros_. E,
maravilhado, pedira a Fradique para publicar na _Revolução_ algumas
d'essas estrophes divinas. O primo sorrira, consentira--com a rigida
condição de serem firmadas por um pseudonymo. Qual?... Fradique
abandonava a escolha á phantasia de Vidigal. Na redacção, porém, ao
revêr as provas, só lhe acudiram pseudonymos decrepitos e safados, o
_Independente_, o _Amigo da Verdade_, o _Observador_--nenhum bastante
novo para dignamente firmar poesia tão nova. Disse comsigo:--«Acabou-se!
Sublimidade não é vergonha. Ponho-lhe o nome!» Mas quando Fradique viu a
_Revolução de Setembro_ ficou livido, e chamou regeladamente a Vidigal
«indiscreto, burguez e philisteu»!--E aqui Vidigal parou para me pedir a
significação de _philisteu_. Eu não sabia; mas archivei gulosamente o
termo, como amargo. Recordo até que logo n'essa tarde, no Martinho,
tratei de _philisteu_ o auctor consideravel do _Avè César!_

--De modo que, rematou Vidigal, é melhor não lhe fallares nas
Lapidarias!

Sim! pensava eu. Talvez Fradique, á maneira do chanceller Bacon e
d'outros homens grandes pela acção, deseje esconder d'este mundo de
materialidade e de força o seu fino genio poetico! Ou talvez essa ira,
ao vêr o seu nome impresso debaixo de versos com que se orgulharia
Lecomte de Lisle, seja a do artista nobremente e perpetuamente
insatisfeito que não aceita ante os homens como sua a obra onde sente
imperfeições! Estes modos de ser, tão superiores e novos, cahiam na
minha admiração como oleo n'uma fogueira. Ao pararmos no Central tremia
d'acanhamento.

Senti um allivio quando o porteiro annunciou que o snr. Fradique Mendes,
n'essa manhã, cedo, tomára uma caleche para Belem. Vidigal empallideceu,
de desespero:

--Uma caleche! Para Belem!... Ha alguma coisa em Belem?

Murmurei, n'uma idéa d'Arte, que havia os Jeronymos. N'esse instante uma
tipoia, lançada a trote, estacou na rua, com as pilecas fumegando. Um
homem desceu, ligeiro e forte. Era Fradique Mendes.

Vidigal, alvoroçado, apresentou-me como um «poeta seu amigo». Elle
adiantou a mão sorrindo--mão delicada e branca onde vermelhejava um
rubi. Depois, acariciando o hombro do primo Marcos, abriu uma carta que
lhe estendia o porteiro.

Pude então, á vontade, contemplar o cinzelador das Lapidarias, o
familiar de Mazzini, o conquistador das Duas-Sicilias, o bem-adorado de
Anna de Léon! O que me seduziu logo foi a sua esplendida solidez, a sã e
viril proporção dos membros rijos, o aspecto calmo de poderosa
estabilidade com que parecia assentar na vida, tão livremente e tão
firmemente como sobre aquelle chão de ladrilhos onde pousavam os seus
largos sapatos de verniz resplandecendo sob polainas de linho. A face
era do feitio aquilino e grave que se chama _cesareano_, mas sem as
linhas empastadas e a espessura flaccida que a tradição das Escólas
invariavelmente attribue aos Cesares, na tela ou no gesso, para os
revestir de magestade; antes pura e fina como a d'um Lucrecio moço, em
plena gloria, todo nos sonhos da Virtude e da Arte. Na pelle, d'uma
brancura lactea e fresca, a barba, por ser pouca decerto, não deixava
depois de escanhoada nem aspereza nem sombra; apenas um buço crespo e
leve lhe orlava os labios que, pela vermelhidão humida e pela
sinuosidade subtil, pareciam igual e superiormente talhados para a
Ironia e para o Amor. E toda a sua finura, misturada de energia, estava
nos olhos--olhos pequenos e negros, brilhantes como contas de onyx,
d'uma penetração aguda, talvez insistente de mais, que perfurava, se
enterrava sem esforço, como uma verruma d'aço em madeira molle.

Trazia uma quinzena solta, d'uma fazenda preta e macia, igual á das
calças que cahiam sem um vinco: o collete de linho branco fechava por
botões de coral pallido: e o laço da gravata de setim negro, dando
relevo á alvura espelhada dos collarinhos quebrados, offerecia a
perfeição concisa que já me encantára no seu verso.

Não sei se as mulheres o considerariam _bello_. Eu achei-o um varão
magnifico--dominando sobretudo por uma graça clara que sahia de toda a
sua força mascula. Era o seu viço que deslumbrava. A vida de tão varias
e trabalhosas actividades não lhe cavára uma prega de fadiga. Parecia
ter emergido, havia momentos, assim de quinzena preta e barbeado, do
fundo vivo da Natureza. E apesar de Vidigal me ter contado que Fradique
festejára os «trinta e tres» em Cintra, pela festa de S. Pedro, eu
sentia n'aquelle corpo a robustez tenra e agil de um ephebo, na infancia
do mundo grego. Só quando sorria ou quando olhava se surprehendiam
immediatamente n'elle vinte seculos de litteratura.

Depois de lêr a carta, Fradique Mendes abriu os braços, n'um gesto
desolado e risonho, implorando a misericordia de Vidigal. Tratava-se,
como sempre, da Alfandega, fonte perenne das suas amarguras! Agora tinha
lá encalhado um caixote, contendo uma mumia egypcia...

--Uma mumia...?

Sim, perfeitamente, uma mumia historica, o corpo veridico e veneravel de
Pentaour, escriba ritual do Templo de Amnon em Thebas, e chronista de
Ramèzes II. Mandára-o vir de Paris para dar a uma senhora da Legação
d'Inglaterra, Lady Ross, sua amiga d'Athenas, que em plena frescura e
plena ventura, colleccionava antiguidades funerarias do Egypto e da
Assyria... Mas, apesar d'esforços sagazes, não conseguia arrancar o
defunto letrado aos armazens da Alfandega--que elle enchera de confusão
e de horror. Logo na primeira tarde, quando Pentaour desembarcára,
enfaixado dentro do seu caixão, a Alfandega aterrada avisou a policia.
Depois, calmadas as desconfianças d'um crime, surgira uma insuperavel
difficuldade:--que artigo da pauta se poderia applicar ao cadaver d'um
hierogrammata do tempo de Ramèzes? Elle Fradique suggerira o artigo que
taxa o arenque defumado. Realmente, no fundo, o que é um arenque
defumado senão a mumia, sem ligaduras e sem inscripções, d'um arenque
que viveu? Ter sido peixe ou escriba nada importava para os effeitos
fiscaes. O que a Alfandega via diante de si era o corpo d'uma creatura,
outr'ora palpitante, hoje seccada ao fumeiro. Se ella em vida nadava
n'um cardume nas ondas do mar do Norte, ou se, nas margens do Nilo, ha
quatro mil annos, arrolava as rezes de Amnon e commentava os _capitulos
de fim de dia_--não era certamente da conta dos Poderes Publicos. Isto
parecia-lhe logico. Todavia as auctoridades da Alfandega continuavam a
hesitar, coçando o queixo, diante do cofre sarapintado que encerrava
tanto saber e tanta piedade! E agora n'aquella carta os amigos Pintos
Bastos aconselhavam, como mais nacional e mais rapido, que se arrancasse
um _empenho_ do Ministro da Fazenda para fazer sahir sem direitos o
corpo augusto do escriba de Ramèzes. Ora este empenho, quem melhor para
o alcançar que Marcos--esteio da Regeneração e seu Chronista musical?

Vidigal esfregava as mãos, illluminado. Ahi estava uma coisa bem digna
d'elle, «bem catita»--salvar do fisco a mumia «d'um figurão pharaonico»!
E arrebatou a carta dos Pintos Bastos, enfiou para a tipoia, gritou ao
cocheiro a morada do Ministro, seu collega na _Revolução de Setembro_.
Assim fiquei só com Fradique--que me convidou a subir aos seus quartos,
e esperar Vidigal, bebendo uma «soda e limão».

Pela escada, o poeta das Lapidarias alludiu ao torrido calor d'agosto. E
eu que n'esse instante, defronte do espelho no patamar, revistava, com
um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a frescura da minha
rosa--deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda:

--Sim, está d'escachar!

E ainda o torpe som não morrera, já uma afflicção me lacerava, por esta
«chulice» de esquina de tabacaria assim atabalhoadamente lançada como um
pingo de sêbo sobre o supremo artista das Lapidarias, o homem que
conversára com Hugo á beira-mar!... Entrei no quarto atordoado, com
bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra
phrase sobre o calor, bem trabalhada, toda scintillante e nova! Nada! Só
me acudiam sordidezes parallelas, em calão teimoso:--«é de rachar»!
«está de ananazes»! «derrete os untos»!... Atravessei alli uma d'essas
angustias atrozes e grotescas, que, aos vinte annos, quando se começa a
vida e a litteratura, vincam a alma--e jámais esquecem.

Felizmente Fradique desapparecera por traz d'um reposteiro de alcova.
Só, limpando o suor, considerando que altos pensadores se exprimem
assim, com uma simplicidade rude,--serenei. E á perturbação succedeu a
curiosidade de descobrir em torno, pelo aposento, algum vestigio da
originalidade intensa do homem que o habitava. Vi apenas cançadas
cadeiras de reps azul-ferrete, um lustre embuçado em tulle, e uma
console, de altos pés dourados, entre as duas janellas que respiravam
para o rio. Sómente, sobre o marmore da console, e por meio dos livros
que atulhavam uma velha mesa de pau preto, pousavam soberbos ramos de
flôres: e a um canto afofava-se um espaçoso divan, installado decerto
por Fradique com colchões sobrepostos, que dois cobrejões orientaes
revestiam de côres estridentes. Errava além d'isso em toda a sala um
aroma desconhecido, que tambem me pareceu oriental, como feito de rosas
de Smyrna, mescladas a um fio de canella e mangerona.

Fradique Mendes voltára de dentro, vestido com uma cabaia chineza!
Cabaia de mandarim, de sêda verde, bordada a flôres de amendoeira--que
me maravilhou e que me intimidou. Vi então que tinha o cabello
castanho-escuro, fino e levemente ondeado sobre a testa, mais polida e
branca que os marfins de Normandia. E os olhos, banhados agora n'uma luz
franca, não apresentavam aquella negrura profunda que eu comparára ao
onyx, mas uma côr quente de tabaco escuro da Havana. Accendeu uma
cigarrette e ordenou a «soda e limão» a um creado surprehendente, muito
louro, muito grave, com uma perola espetada na gravata, largas calças de
xadrez verde e preto, e o peito florido por tres cravos amarellos!
(Percebi que este servo magnifico se chamava Smith). O meu enleio
crescia. Por fim Fradique murmurou, sorrindo, com sincera sympathia:

--Aquelle Marcos é uma flôr!

Concordei, contei a velha estima que me prendia a Vidigal, desde o
primeiro anno de Coimbra, dos nossos tempos estouvados de Concertina e
_Sebenta_. Então, alegremente, recordando Coimbra, Fradique perguntou-me
pelo Pedro Penedo, pelo Paes, por outros lentes ainda, do antigo typo
fradesco e bruto; depois pelas tias Camêlas, essas encantadoras velhas,
que escrupulosamente, através de lascivas gerações d'estudantes, tinham
permanecido virgens, para poderem no céo, ao lado de Santa Cecilia,
passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memorias
melhores de Coimbra essa taverna das tias Camêlas, e as ceias
desabaladas que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra
fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por
entre temerosas contendas de Metaphysica e d'Arte. E que sardinhas! Que
arte divina em frigir o peixe! Muitas vezes em Paris se lembrára das
risadas, das illusões e dos piteus d'então!...

Tudo isto vinha n'um tom muito moço, sincero, singelo--que eu
mentalmente classificava de _crystallino_. Elle estirára-se no divan; eu
ficára rente da mesa, onde um ramo de rosas se desfolhava ao calor sobre
volumes de Darwin e do Padre Manoel Bernardes. E então, dissipado o
acanhamento, todo no appetite de revolver com aquelle homem genial idéas
de Litteratura, sem me lembrar que, como Bacon, elle desejava esconder o
seu genio poetico, ou artista insatisfeito nunca reconheceria a obra
imperfeita,--alludi ás Lapidarias.

Fradique Mendes tirou a cigarette dos labios para rir--com um riso que
seria genuinamente galhofeiro, se de certo modo o não contradissesse um
laivo de vermelhidão que lhe subira á face côr de leite. Depois declarou
que a publicação d'esses versos, _com a sua assignatura_, fôra uma
perfidia do leviano Marcos. Elle não considerava _assignaveis_ esses
pedaços de prosa rimada, que decalcára, havia quinze annos, na idade em
que se imita, sobre versos de Lecomte de Lisle, durante um verão de
trabalho e de fé, n'uma trapeira do Luxemburgo, julgando-se a cada rima
um innovador genial...

Eu acudi affirmando, todo em chamma, que depois da obra de Baudelaire
nada em Arte me impressionára como as Lapidarias! E ia lançar a minha
esplendida phrase, burilada n'essa noite com paciente cuidado:--«A fórma
de v. exc.^a é um marmore divino...» Mas Fradique deixára o divan e
pousava em mim os olhos finos de onix, com uma curiosidade que me
_verrumava_:

--Vejo então, disse elle, que é um devoto do maganão das _Flôres do
Mal_!

Córei, áquelle espantoso termo de _maganão_. E, muito grave, confessei
que para mim Baudelaire dominava, á maneira d'um grande astro, logo
abaixo d'Hugo, na moderna Poesia. Então Fradique, sorrindo
paternalmente, afiançou que bem cedo eu perderia essa illusão!
Baudelaire (que elle conhecera) não era verdadeiramente um poeta. Poesia
subentendia emoção: e Baudelaire, todo intellectual, não passava d'um
psychologo, d'um analysta--um dissecador subtil d'estados morbidos. As
_Flôres do Mal_ continham apenas resumos criticos de torturas moraes que
Baudelaire muito finamente comprehendera, mas nunca pessoalmente
_sentira_. A sua obra era como a d'um pathologista, cujo coração bate
normal e serenamente, emquanto descreve, á banca, n'uma folha de papel,
pela erudição e observação accumuladas, as perturbações temerosas d'uma
lesão cardiaca. Tanto assim que Baudelaire compuzera primeiro em prosa
as _Flôres do Mal_--e só mais tarde, depois de rectificar a justeza das
analyses, as passára a verso, laboriosamente, com um diccionario de
rimas!... De resto em França (accrescentou o estranho homem) não havia
poetas. A genuina expressão da clara intelligencia franceza era a prosa.
Os seus mais finos conhecedores prefeririam sempre os poetas cuja poesia
se caracterisasse pela precisão, lucidez, sobriedade--que são qualidades
de prosa; e um poeta tornava-se tanto mais popular quanto mais
visivelmente possuia o genio de prosador. Boileau continuaria a ser um
classico e um immortal, quando já ninguem se lembrasse em França do
tumultuoso lyrismo de Hugo...

Dizia estas coisas enormes n'uma voz lenta, penetrante--que ia
recortando os termos com a certeza e a perfeição d'um buril. E eu
escutava, varado! Que um Boileau, um pedagogo, um lambão de côrte,
permanecesse nos cimos da Poesia Franceza, com a sua _Ode á tomada de
Namur_, a sua cabelleira e a sua ferula, quando o nome do poeta da
_Lenda dos Seculos_ fosse como um suspiro do vento que
passou--parecia-me uma d'essas affirmações, de rebuscada originalidade,
com que se procura assombrar os simples, e que eu mentalmente
classificava de _insolente_. Tinha mil coisas, abundantes e esmagadoras,
a contestar: mas não ousava, por não poder apresental-as n'aquella fórma
translucida e geometrica do poeta das Lapidarias. Essa cobardia, porém,
e o esforço para reter os protestos do meu enthusiasmo pelos Mestres da
minha mocidade, suffocava-me, enchia-me de mal-estar: e anciava só por
abalar d'aquella sala onde, com tão bolorentas opiniões classicas, tanta
rosa nas jarras e todas as molles exhalações de canella e mangerona,--se
respirava conjuntamente um ar abafadiço de Serralho e de Academia.

Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas, n'aquella
conversação com o familiar de Mazzini e d'Hugo, miudos reparos sobre o
Pedro Penedo e o carrascão das Camêlas. E na justa ambição de deslumbrar
Fradique com um resumo critico, provando as minhas finas letras, recorri
á phrase, á lapidada phrase, sobre a fórma do seu verso. Sorrindo,
retorcendo o buço, murmurei:--«Em todo o caso a fórma de v. exc.^a é um
marmore...» Subitamente, á porta que se abrira com estrondo, surgiu
Vidigal:

--Tudo prompto! gritou. Despachei o defunto!

O ministro, homem de poesia, e de eloquencia, interessára-se francamente
por aquella mumia d'um «collega», e jurára logo poupar-lhe o opprobrio
de ser tarifada como peixe salgado. S. exc.^a tinha mesmo
ajuntado:--«Não, senhor! não, senhor! Ha de entrar livremente, com todas
as honras devidas a um classico!» E logo de manhã Pentaour deixaria a
Alfandega, de tipoia!

Fradique riu d'aquella designação de _classico_ dada a um hierogrammata
do tempo de Ramèzes--e Vidigal, triumphante, abancando ao piano, entoou
com ardor a _Grã-Duqueza_. Então eu, tomado estranhamente, sem razão,
por um sentimento de inferioridade e de melancolia, estendi a mão para o
chapéo. Fradique não me reteve; mas os dois passos com que me acompanhou
no corredor, o seu sorriso e o seu _shake-hands_, foram perfeitos.
Apenas na rua, desabafei:--«Que pedante!»

Sim, mas inteiramente _novo_, dessemelhante de todos os homens que eu
até ahi conhecera! E á noite, na travessa do Guarda-Mór (occultando a
escandalosa apologia de Boileau, para nada d'elle mostrar imperfeito),
espantei J. Teixeira d'Azevedo com _um_ Fradique idealisado, em que tudo
era irresistivel, as idéas, o verbo, a cabaia de sêda, a face marmorea
de Lucrecio moço, o perfume que esparzia, a graça, a erudição e o gosto!

J. Teixeira d'Azevedo tinha o enthusiasmo difficil e lento em fumegar. O
homem deu-lhe apenas a impressão de ser postiço e theatral. Concordou no
emtanto que convinha ir estudar «um machinismo de _pose_ montado com
tanto luxo»!

Fomos ambos ao Central, dias depois, no fundo d'uma tipoia. Eu,
engravatado em setim, de gardenia ao peito. J. Teixeira d'Azevedo,
caracterisado de «Diogenes do seculo XIX», com um pavoroso cacete
ponteado de ferro, chapéo braguez orlado de sêbo, jaquetão encardido e
remendado que lhe emprestára o creado, e grossos tamancos ruraes!...
Tudo isto arranjado com trabalho, com despeza, com intenso nojo, só para
horrorisar Fradique--e diante d'esse homem de sceptismo e de luxo,
altivamente affirmar, como democrata e como idealista, a grandeza moral
do remendo e a philosophica austeridade da nodoa! Eramos assim em 1867!

Tudo perdido! Perdida a minha gardenia, perdida a immundicie estoica do
meu camarada! O snr. Fradique Mendes (disse o porteiro) partira na
vespera n'um vapor que ia buscar bois a Marrocos.



III


Alguns annos passaram. Trabalhei, viajei. Melhor fui conhecendo os
homens e a realidade das coisas, perdi a idolatria da Fórma, não tornei
a lêr Baudelaire. Marcos Vidigal, que, através da _Revolução de
Setembro_, trepára da Chronica Musical á Administração Civil, governava
a India como Secretario Geral, de novo entregue, n'esses ocios asiaticos
que lhe fazia o Estado, á _Historia da Musica_ e á concertina: e levado
assim esse grato amigo do Tejo para o Mandovi eu não soubera mais do
poeta das Lapidarias. Nunca porém se me apagára a lembrança do homem
singular. Antes por vezes me succedia de repente _vêr_, claramente
_vêr_, n'um relevo quasi tangivel--a face eburnea e fresca, os olhos côr
de tabaco insistentes e verrumando, o sorriso sinuoso e sceptico onde
viviam vinte seculos de litteratura.

Em 1871 percorri o Egypto. Uma occasião, em Memphis, ou no sitio em que
foi Memphis, navegava nas margens inundadas do Nilo, por entre
palmeiraes que emergiam da agua, e reproduziam sobre um fundo radiante
de luar oriental, o recolhimento e a solemnidade triste de longas
arcarias de claustros. Era uma solidão, um vasto silencio de terra
morta, apenas dôcemente quebrado pela cadencia dos remos e pelo canto
dolente do arraes... E eis que subitamente (sem que recordação alguma
evocasse até esta imagem)--_vejo_, nitidamente _vejo_, avançando com o
barco, e com elle cortando as faxas de luz e sombra, o quarto do Hotel
Central, o grande divan de côres estridentes, e Fradique, na sua cabaia
de sêda, celebrando por entre o fumo da cigarette a immortalidade de
Boileau! E eu mesmo já não estava no Oriente, nem em Memphis, sobre as
immoveis aguas do Nilo; mas lá, entre o reps azul, sob o lustre embuçado
em tulle, diante das duas janellas que miravam o Tejo, sentindo em baixo
as carroças de ferragens rolarem para o Arsenal. Perdera porém o
acanhamento que então me enleava. E, durante o tempo que assim remámos
n'esta decoração pharaonica para a morada do Sheik de Abou-Kair, fui
argumentando com o poeta das Lapidarias, e enunciando emfim, na defeza
de Hugo e Baudelaire, as coisas finas e tremendas com que o devia ter
emmudecido n'aquella tarde de agosto! O arraes cantava os vergeis de
Damasco. Eu berrava mentalmente:--«Mas veja v. exc.^a nos _Miseraveis_ a
alta lição moral...»

Ao outro dia, que era o da festa do Beiram, recolhi ao Cairo pela hora
mais quente; quando os _muezzins_ cantam a terceira oração. E ao apear
do meu burro, diante do Hotel Sheperd, nos jardins do Ezbekieh, quem hei
de eu avistar? Que homem, d'entre todos os homens, avistei eu no
terraço, estendido n'uma comprida cadeira de vime, com as mãos cruzadas
por traz da nuca, o _Times_ esquecido sobre os joelhos, embebendo-se
todo de calor e de luz? Fradique Mendes.

Galguei os degraus do terraço, lançando o nome de Fradique, por entre um
riso de transbordante prazer. Sem desarranjar a sua beatitude, elle
descruzou apenas um braço que me estendeu com lentidão. O encanto do seu
acolhimento esteve na facilidade com que me reconheceu, sob as minhas
lunetas azues, e o meu vasto chapéo panamá:

--«Então como vai desde o Hotel Central?... Ha quanto tempo pelo Cairo?»

Teve ainda outras palavras indolentes e affaveis. N'um banco ao seu
lado, todo eu sorria, limpando o pó que me empastára a face com uma
espessura de mascara. Durante o curto e dôce momento que alli
conversámos, soube que Fradique chegára havia uma semana de Suez, vindo
das margens do Euphrates e da Persia, por onde errára, como nos contos
de fadas, um anno inteiro e um dia; que tinha um _debarieh_, com o lindo
nome de _Rosa das Aguas_, já tripulado e amarrado á sua espera no caes
de Boulak; e que ia n'elle subir o Nilo até ao Alto Egypto, até á Nubia,
ainda para além de Ibsambul...

Todo o sol do Mar Vermelho e das planicies do Euphrates não lhe tostára
a pelle lactea. Trazia, exactamente como no Hotel Central, uma larga
quinzena preta e um collete branco fechado por botões de coral. E o laço
da gravata de setim negro representava bem, n'aquella terra de roupagens
soltas e rutilantes, a precisão formalista das idéas occidentaes.

Perguntou-me pela pachorrenta Lisboa, por Vidigal que burocratisava
entre os palmares brahmanicos... Depois, como eu continuava a esfregar o
suor e o pó, aconselhou que me purificasse n'um banho turco, na piscina
que fica ao pé da Mesquita de El-Monyed, e que repousasse toda a tarde,
para percorrermos á noite as illuminações do Beiram.

Mas em logar de descançar, depois do banho lustral, tentei ainda, ao
trote dôce de um burro, através da poeira quente do deserto libyco,
visitar fóra do Cairo as sepulturas dos Kalifas. Quando á noite, na sala
do Sheperd, me sentei diante da sopa de «rabo de boi», a fadiga
tirára-me o animo de pasmar para outras maravilhas musulmanas. O que me
appetecia era o leito fresco, no meu quarto forrado de esteiras, onde
tão romanticamente se ouviam cantar no jardim as fontes entre os rosaes.

Fradique Mendes já estava jantando, n'uma mesa onde flammejava, entre as
luzes, um ramo enorme de cactos. Ao seu lado pousava de leve, sobre um
escabello mourisco, uma senhora, vestida de branco, a quem eu só via a
massa esplendida dos cabellos louros, e as costas, perfeitas e
graciosas, como as d'uma estatua de Praxiteles que usasse um collete de
Madame Marcel; defronte, n'uma cadeira de braços, alastrava-se um homem
gordo e molle, cuja vasta face, de barbas encaracoladas, cheia de força
tranquilla como a de um Jupiter, eu já decerto encontrára algures, ou
viva ou em marmore. E cahi logo n'esta preoccupação. Em que rua, em que
museu admirára eu já aquelle rosto olympico, onde apenas a fadiga do
olhar, sob as palpebras pesadas, trahia a argilla mortal?

Terminei por perguntar ao negro de Seneh que servia o macarrão. O
selvagem escancarou um riso de faiscante alvura no ebano do carão
redondo, e, através da mesa, grunhiu com respeito:--_Cé-le-diêu_...
Justos céos! _Le Dieu!_ Intentaria o negro affirmar que aquelle homem de
barbas encaracoladas _era um Deus_--_o Deus_ especial e conhecido que
habitava o Sheperd! Fôra pois n'um altar, n'uma téla devota, que eu vira
essa face, dilatada em magestade pela absorpção perenne do incenso e da
prece? De novo interroguei o Nubio quando elle voltou erguendo nas mãos
espalmadas uma travessa que fumegava. De novo o Nubio me atirou, em
syllabas claras, bem feridas, dissipando toda a incerteza--_C'est le
Dieu!_

Era um Deus! Sorri a esta idéa de litteratura--um Deus de rabona,
jantando á mesa do Hotel Sheperd. E, pouco a pouco, da minha imaginação
esfalfada foi-se evolando não sei que sonho, esparso e tenue, como o
fumo que se eleva de uma brazeira meio apagada. Era sobre o Olympo, e os
velhos Deuses, e aquelle amigo de Fradique que se parecia com Jupiter.
Os Deuses (scismava eu, colhendo garfadas lentas da salada de tomates)
não tinham talvez morrido: e desde a chegada de S. Paulo á Grecia,
viviam refugiados n'um valle da Laconia, outra vez entregues, nos ocios
que lhes impozera o Deus novo, ás suas occupações primordiaes de
lavradores e pastores. Sómente, já pelo habito que os Deuses nunca
perderam de imitar os homens, já para escapar aos ultrajes d'uma
Christandade pudibunda, os olympicos abafavam sob saias e jaquetões o
esplendor das nudezas que a Antiguidade adorára: e como tomavam outros
costumes humanos, ora por necessidade (cada dia se torna mais difficil
ser Deus), ora por curiosidade (cada dia se torna mais divertido ser
Homem), os Deuses iam lentamente consummando a sua humanisação. Já por
vezes deixavam a doçura do seu valle bucolico; e com bahús, com saccos
de tapete, viajavam por distracção ou negocios, folheando os _Guias
Bedecker_. Uns iam estudar nas cidades, entre a Civilisação, as
maravilhas da Imprensa, do Parlamentarismo e do Gaz; outros,
aconselhados pelo erudito Hermes, cortavam a monotonia dos longos estios
da Attica bebendo as aguas em Vichy ou em Carlsbad: outros ainda, na
saudade imperecivel das omnipotencias passadas, peregrinavam até ás
ruinas dos templos onde outr'ora lhes era offertado o mel e o sangue das
rezes. Assim se tornava verosimil que aquelle homem, cuja face cheia de
magestade e força serena reproduzia as feições com que Jupiter se
revelou á Escóla d'Athenas--fosse na realidade Jupiter, o Tonante, o
Fecundador, pai inesgotavel dos Deuses, creador da Regra e da Ordem. Mas
que motivo o traria alli, vestido de flanella azul, pelo Cairo, pelo
Hotel Sheperd, comendo um macarrão que profanadoramente se prendia ás
barbas divinas por onde a ambrosia escorrera? Certamente o dôce motivo
que através da Antiguidade, em Céo e Terra, sempre inspirára os actos de
Jupiter--do frascario e femeeiro Jupiter. O que o podia arrastar ao
Cairo senão _alguma saia_, esse desejo esplendidamente insaciavel de
deusas e de mulheres que outr'ora tornava pensativas as donzellas da
Hellenia ao decorarem na Cartilha Pagã as datas em que elle batera as
azas de Cysne entre os joelhos de Leda, sacudira as pontas de touro
entre os braços d'Europa, gottejára em pingos d'ouro sobre o seio de
Danae, pulára em linguas de fogo até aos labios d'Egina, e mesmo um dia,
enojando Minerva e as damas sérias do Olympo, atravessára toda a
Macedonia com uma escada ao hombro para trepar ao alto eirado da morena
Seméle? Agora, evidentemente, viera ao Cairo passar umas férias
sentimentaes, longe da Juno molle e conjugal, com aquella viçosa mulher,
cujo busto irresistivel provinha das artes conjuntas de Praxiteles e de
Madame Marcel. E ella, quem seria ella? A côr das suas tranças, a suave
ondulação dos seus hombros, tudo indicava claramente uma d'essas
deliciosas Nymphas das Ilhas da Ionia, que outr'ora os Diaconos
Christãos expulsavam dos seus frescos regatos, para n'elles baptisar
centuriões cacheticos e comidos de dividas, ou velhas matronas com pêllo
no queixo, tropegas do incessante peregrinar aos altares de Aphrodite.
Nem elle nem ella porém podiam esconder a sua origem divina: através do
vestido de cassa o corpo da Nympha irradiava uma claridade; e,
attendendo bem, vêr-se-hia a fronte marmorea de Jupiter arfar em
cadencia, no calmo esforço de perpetuamente conceber a Regra e a Ordem.

Mas Fradique? Como se achava alli Fradique, na intimidade dos Immortaes,
bebendo com elles champagne Clicquot, ouvindo de perto a harmonia
ineffavel da palavra de Jove? Fradique era um dos derradeiros crentes do
Olympo, devotamente prostrado diante da Fórma, e transbordando de
alegria pagã. Visitára a Laconia; fallava a lingua dos Deuses; recebia
d'elles a inspiração. Nada mais consequente do que descobrir Jupiter no
Cairo, e prender-se logo ao seu serviço, como _cicerone_, nas terras
barbaras de Allah. E certamente com elle e com a Nympha da Ionia ia
Fradique subir o Nilo, na _Rosa das Aguas_, até aos derrocados templos
onde Jupiter poderia murmurar, pensativo, e indicando minas d'aras com a
ponta do guarda-sol:--«Abichei aqui muito incenso!»

Assim, através da salada de tomates, eu desenvolvia e coordenava estas
imaginações--decidido a convertel-as n'um Conto para publicar em Lisboa
na _Gazeta de Portugal_. Devia chamar-se _A derradeira campanha de
Jupiter_:--e n'elle obtinha o fundo erudito e phantasista para incrustar
todas as notas de costumes e de paizagens colhidas na minha viagem do
Egypto. Sómente, para dar ao conto um relevo de modernidade e de
realismo picante, levaria a Nympha das aguas, durante a jornada do Nilo,
a enamorar-se de Fradique e a trahir Jupiter! E eil-a aproveitando cada
recanto de palmeiral e cada sombra lançada pelos velhos pilones d'Osiris
para se pendurar do pescoço do poeta das Lapidarias, murmurar-lhe coisas
em grego mais dôces que os versos de Hesiodo, deixar-lhe nas flanellas o
seu aroma de ambrosia, e ser por todo esse valle do Nilo immensamente
_cochonne_--emquanto o Pai dos Deuses, cofiando as barbas encaracoladas,
continuaria imperturbavelmente a conceber a Ordem, supremo, augusto,
perfeito, ancestral e cornudo!

Enthusiasmado, já construia a primeira linha do Conto: «Era no Cairo,
nos jardins de Choubra, depois do jejum do Ramadan...»--quando vi
Fradique adiantar-se para mim, com a sua chavena de café na mão. Jupiter
tambem se erguera, cançadamente. Pareceu-me um Deus pesado e molle, com
um principio de obesidade, arrastando a perna tarda, bem proprio para o
ultrage que eu lhe preparava na _Gazeta de Portugal_. Ella porém tinha a
harmonia, o aroma, o andar, a irradiação d'uma Deusa!... Tão realmente
divina que resolvi logo substituir-me a Fradique no Conto, ser eu o
_cicerone_, e com os Immortaes vogar á véla e á sirga sobre o rio de
immortalidade! Junto á minha face, não á de Fradique, balbuciaria ella,
desfallecendo de paixão entre os granitos sacerdotaes de Medinet-Abou,
as coisas mais dôces da _Anthologia_! Ao menos, em sonho, realisava uma
triumphal viagem a Thebas. E faria pensar aos assignantes da _Gazeta de
Portugal_:--«O que elle por lá gozou!»

Fradique sentára-se, recebendo, de Jove e da Nympha que passavam, um
sorriso cuja doçura tambem me envolveu. Vivamente puxei a cadeira para o
poeta das Lapidarias:

--Quem é este homem? Conheço-lhe a cara...

--Naturalmente, de gravuras... É Gautier!

Gautier! Theophilo Gautier! O grande Theo! O mestre impeccavel! Outro
ardente enlevo da minha mocidade! Não me enganára pois inteiramente. Se
não era um Olympico--era pelo menos o derradeiro Pagão, conservando,
n'estes tempos de abstracta e cinzenta intellectualidade, a religião
verdadeira da Linha e da Côr! E esta intimidade de Fradique com o auctor
de _Mademoiselle de Maupin_, com o velho paladino de _Hernani_,
tornou-me logo mais precioso este compatriota que dava á nossa gasta
Patria um lustre tão original! Para saber se elle preferia aniz ou
genebra acariciei-lhe a manga com meiguice. E foi em mim um extase
ruidoso, diante da sua agudeza, quando elle me aclarou o grunhir do
negro de Seneh. O que eu tomára pelo annuncio d'uma presença divina
significava apenas--_c'est le deux!_ Gautier no hotel occupava o quarto
numero dois. E, para o barbaro, o plastico mestre do Romantismo era
apenas--_o dois!_

Contei-lhe então a minha phantasia pagã, o Conto que ia trabalhar, os
perfeitos dias de paixão que lhe destinava na viagem para a Nubia. Pedi
mesmo permissão para lhe dedicar a _Derradeira Campanha de Jupiter_.
Fradique sorriu, agradeceu. Desejaria bem (confessou elle) que essa
fosse a realidade, porque não se podia encontrar mulher de mais genuina
belleza e de mais aguda seducção do que essa Nympha das aguas, que se
chamava Jeanne Morlaix, e era comparsa dos _Delassements-Comiques_. Mas,
para seu mal, a radiosa creatura estava caninamente namorada de um
Sicard, corretor de fundos, que a trouxera ao Cairo, e que fôra n'essa
tarde, com banqueiros gregos, jantar aos jardins de Choubra...

--Em todo o caso, accrescentou o originalissimo homem, nunca esquecerei,
meu caro patricio, a sua encantadora intenção!

Descartes, zombando, creio eu, da physica Epicuriana ou atomista, falla
algures das affeiçoes produzidas pelos _Atomes crochus_, atomos
recurvos, em fórma de colchete ou d'anzol, que se engancham
invisivelmente de coração a coração, e formam essas _cadeias_,
resistentes como o bronze de Samothracia, que para sempre ligam e fundem
dois sêres, n'uma constancia vencedora da Sorte e sobrevivente á Vida.
Um qualquer _nada_ provoca esse fatal ou providencial enlaçamento
d'atomos. Por vezes um olhar, como desastradamente em Verona succedeu a
Romeu e Julieta: por vezes o impulso de duas creanças para o mesmo
fructo, n'um vergel real, como na amizade classica de Orestes e Pylades.
Ora, por esta theoria (tão satisfatoria como qualquer outra em
Psychologia affectiva), a esplendida aventura de amor, que eu tão
generosamente reservára a Fradique na _Ultima campanha de Jupiter_,
seria a causa mysteriosa e inconsciente, o _nada_ que determinou a sua
primeira sympathia para commigo, desenvolvida, solidificada depois em
seis annos de intimidade intellectual.

Muitas vezes, no decurso da nossa convivencia, Fradique alludiu
gratamente a essa minha _encantadora intenção_ de lhe atar em torno do
pescoço os braços de Jeanne Morlaix. Fôra elle captivado pela sinuosa e
poetica homenagem que eu assim prestava ás suas seducções de homem? Não
sei.--Mas, quando nos erguemos para ir vêr as illuminações do Beiram,
Fradique Mendes, com um modo novo, aberto, quente, quasi intimo, já me
tratava por _vossê_.


As illuminações no Oriente consistem, como as do Minho, de tigellinhas
de barro e de vidro onde arde um pavio ou uma mecha d'estopa. Mas a
descomedida profusão com que se prodigalisam as tigellinhas (quando as
paga o Pachá) torna as velhas cidades meio arruinadas, que assim se
enfeitam em louvor de Allah, realmente deslumbrantes--sobretudo para um
occidental besuntado de litteratura, e inclinado a vêr por toda a parte,
reproduzidas no moderno Oriente, as muito lidas maravilhas d'essas _Mil
e uma noites_ que ninguem jámais leu.

Na celebração do Beiram (custeada pelo Khediva), as tigellinhas eram
incontaveis--e todas as linhas do Cairo, as mais quebradas e as mais
fugidias, resaltavam na escuridão, esplendidamente sublinhadas por um
risco de luz. Longas fieiras de pontos refulgentes marcavam a borda dos
eirados; as portas abriam sob ferraduras de lumes; dos toldos pendia uma
franja que faiscava; um brilho tremia, com a aragem, sobre cada folha
d'arvore; e os minaretes, que a Poesia Oriental classicamente compara
desde seculos aos braços da Terra levantados para o Céo, ostentavam,
como braços em noite de festa, um luxo de braceletes fulgindo na treva
serena. Era (lembrei eu a Fradique) como se durante todo o dia tivesse
cahido sobre a sordida cidade uma grossa poeirada d'ouro, pousando em
cada friso de _moucharabieh_ e em cada grade de varandim, e agora
rebrilhasse, com radiosa saliencia, na negrura da noite calma.

Mas, para mim, a belleza especial e nova estava na multidão festiva que
atulhava as praças e os bazares--e que Fradique, através do rumor e da
poeira, me explicava como um livro de estampas. Com quanta profundidade
e miudeza conhecia o Oriente este patricio admiravel! De todas aquellas
gentes, intensamente diversas desde a côr até ao traje--elle sabia a
raça, a historia, os costumes, o logar proprio na civilisação musalmana.
Devagar, abotoado n'um paletot de flanella, com um chicote de nervo (que
é no Egypto o emblema de Auctoridade) entalado debaixo do braço, ia
apontando, nomeando á minha curiosidade flammejante essas estranhas
figuras, que eu comparava, rindo, ás d'uma mascarada fabulosa, arranjada
por um archeologo em noite de folia erudita para reproduzir as «modas»
dos Semitas e os seus «typos» através das idades:--aqui Fellahs,
ridentes e ageis na sua longa camisa de algodão azul; além Beduinos
sombrios, movendo gravemente os pés entrapados em ligaduras, com o
pesado alfange de bainha escarlate pendurado no peito; mais longe
Abadiehs, de grenha em fórma de mêda, eriçada de longas cerdas de
porco-espinho que os corôam d'uma aureola negra... Estes, de porte
insolente; com compridos bigodes esvoaçando ao vento, armas ricas
reluzindo nas cintas de sêda, e curtos saiotes tufados e encanudados,
eram Arnautas da Macedonia; aquelles, bellas estatuas gregas esculpidas
em ebano, eram homens do Sennar; os outros, com a cabeça envolta n'um
lenço amarello cujas franjas immensas lhes faziam uma romeira de fios
d'ouro, eram cavalleiros do Hedjaz... E quantos ainda elle me fazia
distinguir e comprehender! Judeus immundos, de caracoes frisados; Coptas
togados á maneira de senadores; soldados pretos do Darfour, com fardetas
de linho ennodoadas de poeira e sangue; Ulemas de turbante verde; Persas
de mitra de feltro; mendigos de mesquita, cobertos de chagas; amanuenses
turcos, pomposos e anafados, de collete bordado a ouro... Que sei eu! Um
Carnaval rutilante, onde a cada momento passavam, sacudidos pelo trote
dos burros sobre albardas vermelhas, enormes saccos enfunados--que eram
mulheres. E toda esta turba magnifica e ruidosa se movia entre
invocações a Allah, repiques de pandeiretas, gemidos estridentes
partindo das cordas das _dourbakas_, e cantos lentos--esses cantos
arabes, d'uma voluptuosidade tão dolente e tão aspera, que Fradique
dizia passarem n'alma com uma «caricia rascante». Mas por vezes, entre o
casario decrepito e rendilhado, surgia uma frontaria branca, casa rica
de Sheik ou de Pachá, com a varanda em arcarias, por onde se avistavam
lá dentro, n'um silencio de harem, sêdas colgantes, recamos d'ouro, um
tremor de lumes no crystral dos lustres, fórmas airosas sob véos
claros... Então a multidão parava, emmudecia, e de todos os labios sahia
um grande _ah!_ languido e maravilhado.

Assim caminhavamos, quando, ao sahir do Moujik, Fradique Mendes parou,
e, muito gravemente, trocou com um moço pallido, de esplendidos olhos, o
_salam_--essa saudação oriental em que os dedos tres vezes batem a
testa, a bôca e o coração. E como eu, rindo, lhe invejava aquella
intimidade com um «homem de tunica verde e de mitra persa»:

--É um Ulema de Bagdad, disse Fradique, d'uma casta antiga,
superiormente intelligente... Uma das personalidades mais finas e mais
seductoras que encontrei na Persia!

Então, com a familiaridade que se ia entre nós accentuando, perguntei a
Fradique o que o detivera assim na Persia um anno inteiro e um dia como
nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se
demorára tanto nas margens do Euphrates por se achar casualmente ligado
a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Persia um
desenvolvimento quasi triumphal, e que se chamava o _Babismo_. Attrahido
para essa nova seita por curiosidade critica, para observar como nasce e
se funda uma Religião, chegára pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um
interesse militante--não por admiração da doutrina, mas por veneração
dos apostolos. O Babismo (contou-me elle, seguindo por uma viella mais
solitaria e favoravel ás confidencias) tivera por iniciador certo
Mirza-Mohamed, um d'esses Messias que cada dia surgem na incessante
fermentação religiosa do Oriente, onde a religião é a occupação suprema
e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Christãos por contacto
com os Missionarios; iniciado na pura tradição mosaista pelos judeus do
Hiraz; sabedor profundo do Guebrismo, a velha religião nacional da
Persia--Mirza-Mohamed amalgamára estas doutrinas com uma concepção mais
abstracta e pura do Mahometismo, e declarára-se _Bab_. Em persa _Bab_
quer dizer _Porta_. Elle era, pois, a _porta_--a unica _porta_ através
da qual os homens poderiam jámais penetrar na absoluta Verdade. Mais
litteralmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande _porteiro_, o
homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da
Verdade--e portanto do Paraiso. Em resumo era um Messias, um Christo.
Como tal atravessou a classica evolução dos Messias: teve por primeiros
discipulos, n'uma aldeia obscura, pastores e mulheres: soffreu a sua
tentação na montanha: cumpriu as penitencias expiadoras: prégou
parabolas: escandalisou em Méca os doutores: e padeceu a sua Paixão,
morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do
Rhamadan, em Tabriz.

Ora, dizia Fradique, no mundo musulmano ha duas divisões religiosas--os
Sieds e os Sunis. Os Persas são Sieds, como os Turcos são Sunis. Estas
differenças porém, no fundo, têm um caracter mais politico e de raça, do
que theologico e de dogma; ainda que um fellah do Nilo desprezará sempre
um persa do Euphrates como _heretico_ e _sujo_. A discordancia resalta,
mais viva e teimosa, logo que Sieds ou Sunis necessitem pronunciar-se
perante uma nova interpretação de doutrina ou uma nova apparição de
propheta. Assim o Babismo entre os Sieds, topára com uma hostilidade que
se avivou até á perseguição:--a isto desde logo indicava que seria
acolhido pelos Sunis com deferencia e sympathia.

Partindo d'esta idéa, Fradique, que em Bagdad se ligára familiarmente
com um dos mais vigorosos e auctorisados apostolos do Babismo,
Said-El-Souriz (a quem salvára o filho d'uma febre paludosa com
applicações de _Fruit-salt_), suggerira-lhe um dia, conversando ambos no
eirado sobre estes altos interesses espirituaes, a idéa de apoiar o
Babismo nas raças agricolas do valle do Nilo e nas raças nómadas da
Libya. Entre homens de seita Suni, o Babismo encontraria um campo facil
ás conversões; e, pela tradicional marcha dos movimentos sectarios, que
no Oriente, como em toda a parte, sobem das massas sinceras do povo até
ás classes cultas, talvez essa nova onda de emoção religiosa, partindo
dos Fellahs e dos Beduinos, chegasse a penetrar no ensino de alguma das
mesquitas do Cairo, sobretudo na mesquita de El-Azhar, a grande
Universidade do Oriente, onde os ulemas mais moços formam uma cohorte de
enthusiastas sempre disposta ás innovações e aos apostolados
combattentes. Ganhando ahi auctoridade theologica, e litterariamente
polido, o Babismo poderia então atacar com vantagem as velhas fortalezas
do Musulmanismo dogmatico. Esta idéa penetrára profundamente em
Said-El-Souriz. Aquelle moço pallido, com quem elle trocára o _salam_,
fôra logo mandado como emissario babista a Medinet-Abou (a antiga
Thebas), para sondar o Sheik Ali-Hussein, homem de decisiva influencia
em todo o valle do Nilo pelo seu saber e pela sua virtude: e elle,
Fradique, não tendo agora no Occidente occupações attractivas, cheio de
curiosidade por este pittoresco Advento, partia tambem para Thebas,
devendo encontrar-se com o babista, á lua mingoante, em Beni-Soueff, no
Nilo...

Não recordo, depois de tantos annos, se estes eram os factos certos. Só
sei que as revelações de Fradique, lançadas assim através do Cairo em
festa, me impressionaram indizivelmente. Á medida que elle fallava do
Bab, d'essa missão apostolica ao velho Sheik de Thebas, de uma outra fé
surgindo no mundo musulmano com o seu cortejo de martyrios e d'extasis,
da possivel fundação de um imperio Babista--o homem tomava aos meus
olhos proporções grandiosas. Não conhecera jámais ninguem envolvido em
coisas tão altas: e sentia-me ao mesmo tempo orgulhoso e aterrado de
receber este segredo sublime. Outra não seria minha commoção, se, nas
vesperas de S. Paulo embarcar para a Grecia, a levar a Palavra aos
gentilicos, eu tivesse com elle passeado pelas ruas estreitas de
Seleucia, ouvindo-lhe as esperanças e os sonhos!

Assim conversando, penetrámos no adro da mesquita de El-Azhar onde mais
fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já não me
prendiam as surprezas d'aquelle arraial musulmano--nem _almées_ dançando
entre brilhos de vermelho e d'ouro; nem poetas do deserto recitando as
façanhas d'Antar; nem Derviches, sob as suas tendas de linho, uivando em
cadencia os louvores d'Allah... Calado, invadido pelo pensamento do Bab,
revolvia commigo o confuso desejo de me aventurar n'essa campanha
espiritual! Se eu partisse para Thebas com Fradique?... Porque não?
Tinha a mocidade, tinha o enthusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar
no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher á banal
Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gaz, na _Gazeta de
Portugal_! E pouco a pouco d'este desejo, como d'uma agua que ferve, ia
subindo o vapor lento d'uma visão. Via-me discipulo do Bab--recebendo
n'essa noite, do ulema de Bagdad, a iniciação da Verdade. E partia logo
a prégar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente,
levando de preferencia a salvação ás almas que me eram mais caras. Como
S. Paulo, embarcava n'uma galera: as tormentas assaltavam a minha prôa
apostolica: a imagem do Bab apparecia-me sobre as aguas, e o seu sereno
olhar enchia minha alma de fortaleza indomavel. Um dia, por fim,
avistava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde ha tantos
seculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injuria
ás igrejas de Lisboa, construcções d'uma Fé vetusta e menos pura.
Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, n'um desprendimento já
divino de bens ainda terrestres, galgava aquella bemdita rua do Alecrim,
e em meio do Loreto, á hora em que os Directores Geraes sobem devagar da
Arcada, abria os braços e bradava:--«Eu sou a _Porta_!»

Não mergulhei no Apostolado babista--mas succedeu que, enlevado n'estas
phantasmagorias, me perdi de Fradique. E não sabia o caminho do Hotel
Sheperd,--nem, para d'elle me informar, outros termos uteis, em arabe,
além de _agua_ e _amor_! Foram angustiosos momentos em que farejei
estonteado pelo largo de El-Azhar, tropeçando nos fogareiros onde fervia
o café, esbarrando inconsideradamente contra rudes beduinos armados. Já
por sobre a turba atirava, aos brados, o nome de Fradique--quando topei
com elle olhando placidamente uma _almée_ que dançava...

Mas seguiu logo, encolhendo os hombros. Nem me permittiu adiante admirar
um poeta, que, em meio de fellahs pasmados e de Moghrebinos arrimados ás
lanças, lia, n'uma toada langorosa e triste, tiras de papel ensebado. A
Dança e a Poesia, affirmava Fradique, as duas grandes artes orientaes,
iam em miserrima decadencia. N'uma e outra se tinham perdido as
tradições do estylo puro. As _almées_, pervertidas pela influencia dos
casinos do Ezbequieh onde se perneia o can-can--já polluiam a graça das
velhas danças arabes, atirando a perna pelos ares á moda vil de
Marselha! E na Poesia triumphava a mesma banalidade, mesclada de
extravagancia. As fórmas delicadas do classicismo persa nem se
respeitavam, nem quasi se conheciam; a fonte da imaginação seccava entre
os musulmanos; e a pobre Poesia Oriental, tratando themas vetustos com
uma emphase preciosa, descambára, como a nossa, n'um _Parnasianismo_
barbaro...

--De sorte, murmurei, que o Oriente...

--Está tão mediocre como o Occidente.

E recolhemos ao hotel, devagar, emquanto Fradique, findando o charuto,
me contava que o espirito oriental, hoje, vive só da actividade
philosophica, agitado cada manhã por uma nova e complicada concepção da
Moral, que lhe offerecem os Logicos dos bazares e os Metaphysicos do
deserto...

Ao outro dia acompanhei Fradique a Boulak, onde elle ia embarcar para o
Alto Egypto. O seu _debarieh_ esperava, amarrado á estacaria, rente das
casas do Velho Cairo, entre barcas d'Assouan, carregadas de lentilha e
de cana dôce. O sol mergulhava nas areias libycas: e ao alto, o céo
adormecia, sem uma sombra, sem uma nuvem, puro em toda a sua
profundidade como a alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o
cantaro amarello pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo,
bemdita entre todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ninhos,
vinham, como no tempo em que eram Deuses, lançar por sobre os eirados,
com um bater d'azas contentes, a benção crepuscular.

Baixei, atraz de Fradique, ao salão do _debarieh_, envidraçado,
estofado, com armas penduradas para as manhãs de caça, e rumas de livros
para as séstas de estudo e de calma quando lentamente se navega á sirga.
Depois, durante momentos, no convés, contemplámos silenciosamente
aquellas margens que, através das compridas idades, têm feito o enlevo
de todos os homens, por todos sentirem que n'ellas a vida é cheia de
bens maiores e de doçura suprema. Quantos, desde os rudes Pastores que
arrazaram Thanis, aqui pararam como nós, alongando para estas aguas,
para estes céos, olhos cobiçosos, extaticos ou saudosos: Reis de Judá,
Reis de Assyria, Reis da Persia; os Ptolomeus magnificos; Prefeitos de
Roma e Prefeitos de Byzancio; Amrou enviado de Mahomet, S. Luiz enviado
de Christo; Alexandre-o-Grande sonhando o imperio do Oriente, Bonaparte
retomando o immenso sonho; e ainda os que vieram só para contar da terra
adoravel, desde o loquaz Herodoto até ao primeiro Romantico, o homem
pallido de grande _pose_ que disse as dôres de «Réné»! Bem conhecida é
ella, a paizagem divina e sem igual. O Nilo corre, paternal e fecundo.
Para além verdejam, sob o vôo das pombas, os jardins e os pomares de
Rhodah. Mais longe as palmeiras de Giseh, finas e como de bronze sobre o
ouro da tarde, abrigam aldeias que têm a simplicidade de ninhos. Á orla
do deserto, erguem-se, no orgulho da sua eternidade, as tres Pyramides.
Apenas isto--e para sempre a alma fica presa e lembrando, e para viver
n'esta suavidade e n'esta belleza os povos travam entre si longas
guerras.

Mas a hora chegára: abracei Fradique com singular emoção. A vela fôra
içada á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas. Á prôa o
arraes, espalmando as mãos para o céo, clamou:--«Em nome de Allah que
nos leve, clemente e misericordioso!» Ao redor, d'outras barcas, vozes
lentas murmuraram:--«Em nome de Allah que vos leve!» Um dos remadores,
sentado á borda, feriu as cordas da _dourbaka_, outro tomou uma flauta
de barro. E entre bençãos e cantos a vasta barca fendeu as aguas
sagradas, levando para Thebas o meu incomparavel amigo.



III


Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrára as
suas jornadas dentro da Europa Occidental--emquanto eu errava pela
America, pelas Antilhas, pelas republicas do golfo do Mexico. E quando a
minha vida emfim se aquietou n'um velho condado rural de Inglaterra,
Fradique, retomado por essa «bisbilhotice ethnographica» a que elle
allude n'uma carta a Oliveira Martins, começava a sua longa viagem ao
Brazil, aos Pampas, ao Chili e á Patagonia.

Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo, não se partiu; nem nós,
apesar de tão tenue, o deixámos perder por entre os interesses mais
fortes das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os tres mezes
trocavamos uma carta--cinco ou seis folhas de papel que eu
tumultuosamente atulhava de imagens e impressões, e que Fradique
miudamente enchia de idéas e de factos. Além d'isto, eu sabia de
Fradique por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residencia
mais intima em Lisboa, do outono de 1875 ao verão de 1876, elle creára
amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.

Todos, apesar das dissimilhanças de temperamentos ou das maneiras
differentes de conceber a vida--tinham como eu sentido a seducção
d'aquelle homem adoravel. D'elle me escrevia em novembro de 1877 o
auctor do _Portugal Contemporaneo_:--«Cá encontrei o teu Fradique, que
considero o portuguez mais interessante do seculo XIX. Tem curiosas
parecenças com Descartes! É a mesma paixão das viagens, que levava o
philosopho a fechar os livros «para estudar o grande livro do Mundo»; a
mesma attracção pelo luxo e pelo ruido, que em Descartes se traduzia
pelo gosto de frequentar as «côrtes e os exercitos»; o mesmo amor do
mystério, e das subitas desapparições; a mesma vaidade, nunca
confessada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem
serena; a mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razão
exacta, de phantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um
fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excellentes
concorressem a realisar. E receio que em logar do _Discurso sobre o
Methodo_ venha só a deixar um _vaudeville_». Ramalho Ortigão, pouco
tempo depois, dizia d'elle n'uma carta carinhosa:--«Fradique Mendes é o
mais completo, mais acabado producto da civilisação em que me tem sido
dado embeber os olhos. Ninguem está mais superiormente apetrechado para
triumphar na Arte e na Vida. A rosa da sua botoeira é sempre a mais
fresca, como a idéa do seu espirito é sempre a mais original. Marcha
cinco leguas sem parar, bate ao remo os melhores remadores de Oxford,
mette-se sósinho ao deserto a caçar o tigre, arremette com um chicote na
mão contra um troço de lanças abyssinias:--e á noite n'uma sala, com a
sua casaca do Cook, uma perola negra no esplendor do peitilho, sorri ás
mulheres com o encanto e o prestigio com que sorrira á fadiga, ao perigo
e á morte. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges, e possue as
noções mais novas e as mais certas sobre Physica, sobre Astronomia,
sobre Philologia e sobre Metaphysica. É um ensino, uma lição de alto
gosto, vêl-o no seu quarto, na vida intima de _gentleman_ em viagem,
entre as suas malas de couro da Russia, as grandes escovas de prata
lavrada, as cabaias de sêda, as carabinas de Winchester, preparando-se,
escolhendo um perfume, bebendo golos de chá que lhe manda o Gran-Duque
Vladimir, e dictando a um creado de calção, mais veneravelmente correcto
que um mordomo de Luiz XIV, telegrammas que vão levar noticias suas aos
_boudoirs_ de Paris e de Londres. E depois de tudo isto fecha a sua
porta ao mundo--e lê Sophocles no original».

O poeta da _Morte de D. João_ e da _Musa em Ferias_ chamava-lhe «um
Sainte-Beuve encadernado em Alcides». E explicava assim, n'uma carta
d'esse tempo que conservo, a sua apparição no mundo: «Deus um dia
agarrou n'um bocado de Henri Heine, n'outro de Chateaubriand, n'outro de
Brummel, em pedaços ardentes d'aventureiros da Renascença, e em
fragmentos resequidos de sabios do Instituto de França, entornou-lhe por
cima _champagne_ e tinta de imprensa, amassou tudo nas suas mãos
omnipotentes, modelou á pressa Fradique, e arrojando-o á Terra disse:
Vai, e veste-te no Poole!» Emfim Carlos Mayer, lamentando como Oliveira
Martins que ás multiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse
coordenação e convergencia para um fim superior, deu um dia sobre a
personalidade do meu amigo um resumo sagaz e profundo: «O cerebro de
Fradique está admiravelmente construido e mobilado. Só lhe falta uma
idéa que o alugue, para vivar e governar lá dentro. Fradique é um genio
com escriptos!»

Tambem Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das _Odes
Modernas_, de quem, n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falla com
tanta elevação e carinho. E o ultimo companheiro da minha mocidade que
se relacionou com o antigo poeta das Lapidarias foi J. Teixeira
d'Azevedo, no verão de 1877, em Cintra, na quinta da _Saragoça_, onde
Fradique viera repousar da sua jornada ao Brazil e ás republicas do
Pacifico. Tinham ahi conversado muito, e divergido sempre. J. Teixeira
d'Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperavel
antipathia pelo que elle chamava o _lymphatismo critico_ de Fradique.
Homem todo de emoção não se podia fundir intellectualmenle com aquelle
homem todo de analyse. O extenso saber de Fradique tambem não o
impressionava. «As noções d'esse guapo erudito (escrevia elle em 1879)
são bocados do Larousse diluidos em agua de Colonia». E emfim certos
requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de sêda), a sua voz
mordente recortando o verbo com perfeição e preciosidade, o seu habito
de beber champagne com _soda-water_, outros traços ainda, causavam uma
irritação quasi physica ao meu velho camarada da Travessa do Guarda-Mór.
Confessava porém, como Oliveira Martins, que Fradique era o portuguez
mais interessante e mais suggestivo do seculo XIX. E correspondia-se
regularmente com elle--mas para o contradizer com acrimonia.

Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinação no Oriente), passei em
Paris a semana da Paschoa. Uma noite, depois da Opera, fui cear
solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma chronica do
_Temps_, quando por traz do jornal que eu encostára á garrafa assomou
uma larga mancha clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata,
uma face, tudo de incomparavel brancura. E uma voz muito serena
murmurou: «Separámo-nos ha annos no caes de Boulak...» Ergui-me com um
grito, Fradique com um sorriso;--e o _maitre-d'hotel_ recuou assombrado
diante da meridional e ruidosa effusão do meu abraço. D'essa noite em
Paris datou verdadeiramente a nossa intimidade intellectual--que em oito
annos, sempre igual e sempre certa, não teve uma intermissão, nem uma
sombra que lhe toldasse a pureza.

Determinadamente lhe chamo _intellectual_, porque esta intimidade nunca
passou além das coisas do espirito. Nas alegres temporadas que com elle
convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa
copiosa correspondencia d'esses annos privei sempre, sem reserva, com a
intelligencia de Fradique--e interrompidamente assisti e me misturei á
sua vida pensante: nunca porém penetrei na sua vida affectiva de
sentimento e de coração. Nem, na verdade, me atormentou a curiosidade de
a conhecer--talvez por sentir que a rara originalidade de Fradiqoe se
concentrava toda no sêr pensante, e que o outro, o sêr sensivel, feito
da banal argilla humana, repetia sem especial relevo as costumadas
fragilidades da argilla. De resto, desde essa noite de Paschoa em Paris
que iniciou as nossas relações, nós conservámos sempre o habito
especial, um pouco altivo, talvez estreito, de nos considerarmos dois
puros espiritos. Se eu então concebesse uma Philosophia original, ou
preparasse os mandamentos d'uma nova Religião, ou surripiasse á Natureza
distrahida uma das suas secretas Leis--de preferencia escolheria
Fradique como confidente d'esta actividade espiritual; mas nunca, na
ordem do Sentimento, iria a elle com a confidencia d'uma esperança ou
d'uma desillusão. E Fradique igualmente manteve commigo esta attitude de
inaccessivel recato--não se manifestando nunca aos meus olhos senão na
sua funcção intellectual.

Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manhã de maio em que
atravessavamos, conversando por sob os castanheiros em flôr, o jardim
das Tulherias. Fradique, que se encostára ao meu braço, vinha
vagarosamente desenvolvendo a idéa de que a extrema democratisação da
Sciencia, o seu universal e illimitado derramamento através das plebes,
era o grande erro da nossa civilisação, que com elle preparava para bem
cedo a sua catastrophe moral... De repente, ao transpôrmos a grade para
a praça da Concordia, o Philosopho que assim lançava, por entre as
tenras verduras de maio, estas predicções de desastre e de fim--estaca,
emmudece! Diante de nós, ao trote fino d'uma egoa de luxo, passára
vivamente, para os lados da rua Royale, um coupé onde entrevi, na
penumbra dos setins que o forravam, uns cabellos côr de mel. Vivamente
tambem, Fradique sacode o meu braço, balbucia um «adeus!», acena a um
fiacre, e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do
cães d'Orsay. «Mulher!», pensei eu. Era, com effeito, a mulher e o seu
tormento; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jouarre (datada
de «Maio, sabbado», e começando: «Hontem philosophava com um amigo no
jardim das Tulherias...») Fradique corria n'esse fiacre a uma desillusão
bem rude e mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepusculo, fui (como
combinára) buscar Fradique á rua de Varennes, ao velho palacio dos
Tredennes, onde elle installára desde o Natal os seus aposentos com um
luxo tão nobre e tão sobrio. Apenas entrei na sala que denominavamos a
«Heroica», porque a revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornelio
contando os _Trabalhos de Hercules_, Fradique deixa a janella d'onde
olhava o jardim já esbatido em sombra, vem para mim serenamente, com as
mãos enterradas nos bolsos d'uma quinzena de sêda. E, como se desde essa
manhã _nenhum outro_ cuidado o absorvesse senão o seu thema do jardim
das Tulherias:

--Não lhe acabei de dizer ha pouco... A Sciencia, meu caro, tem de ser
recolhida como outr'ora aos Santuarios. Não ha outro meio de nos salvar
da anarchia moral. Tem de ser recolhida aos Santuarios, e entregue a um
sacro collegio intellectual que a guarde, que a defenda contra as
curiosidades das plebes... Ha a fazer com esta idéa um programma para as
gerações novas!

Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de pallidez e
de emoção: mas o tom era simples, firme, d'um critico genuinamente
occupado na deducção do seu conceito. Outro homem que, como aquelle,
tivesse soffrido horas antes uma desillusão tão mortificante e rude,
murmuraria ao menos, n'um desafogo generico e impessoal:--«Ah, amigo,
que estupida é a vida!» Elle fallou da Sciencia e das
Plebes,--desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez
a si mesmo, os raciocinios do seu cerebro, para que os meus olhos não
penetrassem de leve, ou os seus não se detivessem demais, nas amarguras
do seu coração.

N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:--«O homem, como
os antigos reis do Oriente, não se deve mostrar aos seus semelhantes
senão unica e serenamente _occupado no officio de reinar--isto é, de
pensar_». Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a
um Kant, dirigia severamente a sua conducta. Pelo menos commigo assim se
comportou immutavelmente, através da nossa activa convivencia, não se
abrindo, não se offerecendo todo, senão nas funcções da Intelligencia.
Por isso talvez, mais que nenhum outro homem, elle exerceu sobre mim
imperio e seducção.



IV


O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique, ou antes na sua
maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta á suprema audacia.
Não conheci jámais espirito tão impermeavel á tyrannia ou á insinuação
das «idéas feitas»: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar
original e proprio com mais calmo e soberbo desassombro. «Apesar de
trinta seculos de geometria me affirmarem (diz elle n'uma carta a J.
Teixeira d'Azevedo) que _a linha recta é a mais curta distancia entre
dois pontos_, se eu achasse que, para subir da porta do Hotel Universal
á porta da Casa Havaneza, me sahia mais directo e breve rodear pelo
bairro de S. Martinho e pelos altos da Graça, declararia logo á secular
geometria--que a distancia mais curta entre dois pontos é uma _curva_
vadia e delirante!». Esta independencia da Razão, que Fradique assim
apregôa com desordenada Phantasia, constitue uma qualidade rara:--mas o
animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradição, da
Regra, e das conclusões oraculares dos Mestres, é já uma virtude, e
rarissima, de radiosa excepção!

Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) falla d'um polaco, G.
Cornuski, professor e critico, que escrevia na _Revista Suissa_, e que
(diz Fradique) «constantemente sentia o seu gosto, muito pessoal e muito
decidido, rebellar-se contra obras de Litteratura e de Arte que a
unanimidade critica, desde seculos, tem consagrado como magistraes--a
_Gerusalemme Liberata_ do Tasso, as telas do Ticiano, as tragedias de
Racine, as orações de Bossuet, os nossos _Lusiadas_, e outros monumentos
canonizados. Mas, sempre que a sua probidade de Professor e de Critico
lhe impunha a proclamação da verdade, este homem robusto, sanguineo, que
heroicamente se batera em duas insurreições, tremia, pensava:--«Não!
Porque será o meu criterio mais seguro que o de tão finos entendimentos
através dos tempos? Quem sabe? Talvez n'essas obras exista a
sublimidade--e só no meu espirito a impotencia de a comprehender». E o
desgraçado Cornuski, com a alma mais triste que um crepusculo d'outono,
continuava, diante dos córos da _Athalie_ e das nudezes do Ticiano, a
murmurar desconsoladamente:--«Como é bello!»

Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso Cornuski. Todos
porém, com risonha inconsciencia, praticam o seu servilismo
intellectual. Já, com effeito, porque o nosso espirito não possua a
viril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem
tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto;
já porque as idéas estabelecidas, fluctuando diffusamente na nossa
memoria, depois de leituras e conversas, nos pareçam ser as nossas
proprias; já porque a suggestão d'esses conceitos se imponha e nos leve
subtilmente a concluir em concordancia com elles--a lamentavel verdade é
que hoje todos nós servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de
nós e em torno de nós já se sentiu ou pensou.

«O homem do seculo XIX, o Europeu, porque só elle é essencialmente do
seculo XIX (diz Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), vive dentro d'uma
pallida e morna _infecção de banalidade_, causada pelos quarenta mil
volumes que todos os annos, suando e gemendo, a Inglaterra, a França e a
Allemanha depositam ás esquinas, e em que interminavelmente e
monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as
quatro idéas e as quatro impressões legadas pela Antiguidade e pela
Renascença. O Estado por meio das suas escólas canalisa esta infecção. A
isto, oh Carolus, se chama _educar_! A creança, desde a sua primeira
«Selecta de Leitura» ainda mal soletrada, começa a absorver esta camada
do Logar-Commum--camada que depois todos os dias, através da vida, o
Jornal, a Revista, o Folheto, o Livro lhe vão atochando no espirito até
lh'o empastarem todo em banalidade, e lh'o tornarem tão inutil para a
producção como um sólo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e
pedregulho de que foi barbaramente alastrado. Para que um Europeu
lograsse ainda hoje ter algumas idéas novas, de viçosa originalidade,
seria necessario que se internasse no Deserto ou nos Pampas; e ahi
esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza, batendo-lhe a
Intelligencia e d'ella pouco a pouco varrendo os detritos de vinte
seculos de Litteratura, lhe refizessem uma virgindade. Por isso eu te
affirmo, oh Carolus Mayerensis, que a Intelligencia, que altivamente
pretenda readquirir a divina potencia de gerar, deve ir curar-se da
Civilisacão litteraria por meio d'uma residencia tonica, durante dois
annos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A Patagonia opéra sobre o
Intellecto como Vichy sobre o figado--desobstruindo-o, e permittindo-lhe
o são exercicio da funcção natural. Depois de dois annos de vida
selvagem, entre o Hottentote nú movendo-se na plenitude logica do
Instincto,--que restará ao civilisado de todas as suas idéas sobre o
Progresso, a Moral, a Religião, a Industria, a Economia Politica, a
Sociedade e a Arte? Farrapos. Os pendentes farrapos que lhe restarão das
pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa, depois de vinte mezes de
matagal e de brejo. E não possuindo em torno de si Livros e Revistas que
lhe renovem uma provisão de «idéas feitas», nem um benefico Nunes
Algibebe que lhe forneça uma outra andaina de «fato feito»--o Europeu
irá insensivelmente regressando á nobreza do estado primitivo, nudez do
corpo e originalidade da alma. Quando de lá voltar é um Adão forte e
puro, virgem de litteratura, com o craneo limpo de todos os conceitos e
todas as noções amontoadas desde Aristoteles podendo proceder
soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos, espirito que
distillas _espiritos_, queres remergulhar nas Origens e vir commigo á
inspiradora Hottentocia? Lá, livres e nús, estirados ao sol entre a
palmeira e o regato que tutelarmente nos darão o sustento do corpo, com
a nossa lança forte cravada na relva, e mulheres ao lado vertendo-nos
n'um canto dôce a porção de poesia e de sonho que a alma
precisa--deixaremos livremente as ilhargas crestadas estalarem-nos de
riso á idéa das grandes Philosophias, e das grandes Moraes, e das
grandes Economias, e das grandes Criticas, e das grandes Pilherias que
vão por essa Europa, onde densos formigueiros de chapéos altos se
atropellam, estonteados pelas superstições da civilisação, pela illusão
do ouro, pelo pedantismo das sciencias, pelas mistificações dos
reformadores pela escravidão da rotina, e pela estupida admiração de si
mesmos!...»

Assim diz Fradique. Ora este «exame inedito das coisas humanas», só
possivel, segundo o poeta das Lapidarias, ao Adão renovado que
regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do pó e do lixo de
longos annos de Litteratura--tentou-o elle, sem deixar os muros
classicos da rua de Varennes, com incomparavel vigor e sinceridade. E
n'isto mostrava intrepidez moral. No mundo a que irresistivelmente o
prendiam os seus gostos e os seus habitos--mundo mediano e regrado, sem
invenção e sem iniciativa intellectual, onde as Idéas, para agradar,
devem ser como as Maneiras, «geralmente adoptadas» e não individualmente
creadas--Fradique, com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos,
affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de
originalidade, avido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito
inventivo e novo, com uma força de pensar muito propria, deixando
transbordar a vida abundante e multipla que o anima e enche--é mais
desagradavel a esse mundo do que o homem rudemente natural que não regre
e limite dentro das «Conveniencias» a espessura da cabelleira, o
estridor das risadas, e o franco mover dos membros grossos. D'esse
espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com desconfiança:
«Pretencioso! busca o effeito e o destaque!» Ora Fradique nada detestava
mais intensamente do que o _effeito_ e o _destaque excessivo_. Nunca lhe
conheci senão gravatas escuras. E tudo preferiria a ser apontado como um
d'esses homens, que, sem odio sincero a Diana e ao seu culto e só para
que d'elles se falle com espanto nas praças, vão, em plena festa,
agitando um grande facho, incendiar-lhe o templo em Epheso. Tudo
preferiria--menos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouarre) «ter
de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder entrar com ella em
casa de Anna de Varle, duqueza de Varle e d'Orgemont. A entrar hei de
levar a minha amiga núa, toda núa, pisando os tapetes com os seus pés
nús, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus nobres seios
nús. _Amicus Mundus, sed magis amica Veritas!_ Este bello latim
significa, minha madrinha, que eu, no fundo, julgo que a originalidade é
agradavel ás mulheres e só desagradavel aos homens--o que duplamente me
leva a amal-a com pertinacia».

Esta independencia, esta livre elasticidade de espirito e intensa
sinceridade--impedindo que por seducção elle se désse todo a um Systema,
onde para sempre permanecesse por inercia--eram de resto as qualidades
que melhor convinham á funcção intellectual que para Fradique se tornára
a mais continua e preferida. «Não ha em mim infelizmente (escrevia elle
a Oliveira Martins, em 1882) nem um sabio, nem um philosopho. Quero
dizer, não sou um d'esses homens seguros e uteis, destinados por
temperamento ás analyses secundarias que se chamam Sciencias, e que
consistem em reduzir uma multidão de factos esparsos a Typos e Leis
particulares por onde se explicam modalidades do Universo; nem sou
tambem um d'esses homens, fascinantes e pouco seguros, destinados por
genio ás analyses superiores que se chamam Philosophias, e que consistem
em reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se
explica a essencia mesma do inteiro Universo. Não sendo pois um sabio,
nem um philosopho, não posso concorrer para o melhoramento dos meus
semelhantes--nem accrescendo-lhes o bem-estar por meio da Sciencia que é
uma productora de riqueza, nem elevando-lhes o bem-sentir por meio da
Metaphysica que é uma inspiradora de poesia. A entrada na Historia
tambem se me conserva vedada:--porque, se, para se produzir Litteratura
basta possuir talentos, para tentar a Historia convém possuir virtudes.
E eu!... Só portanto me resta ser, através das idéas e dos factos, um
homem que passa, infinitamente curioso e attento. A egoista occupação do
meu espirito hoje, caro historiador, consiste em me acercar d'uma idéa
ou d'um facto, deslizar suavemente para dentro, percorrel-o miudamente,
explorar-lhe o inedito, gozar todas as surprezas e emoções intellectuaes
que elle possa dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcella de
verdade que exista nos seus refolhos--e sahir, passar a outro facto ou a
outra idéa, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as
cidades d'um paiz d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora a Italia,
enlevado no esplendor das côres e das fórmas. Temporal e espiritualmente
fiquei simplesmente um _touriste_».

Estes _touristes_ da intelligencia abundam em França e em Inglaterra.
Sómente Fradique não se limitava, como esses, a exames exteriores e
impessoaes, á maneira de quem n'uma cidade d'Oriente, retendo as noções
e os gostos de Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a
roupagem das multidões. Fradique (para continuar a sua imagem)
transformava-se em «cidadão das cidades que visitava». Mantinha por
principio que se devia momentaneamente _crêr_ para bem comprehender uma
crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo.
Assim se afiliára em Paris a um club revolucionario, _As Pantheras de
Batignolles_, e frequentára as suas sessões, encolhido n'uma quinzena
sordida pregada com alfinetes, com a esperança de lá colher «a flôr de
alguma extravagancia instructiva». Assim se incorporava em Londres aos
Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendario Comtista, vão
queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a
Imagem de Augusto Comte. Assim se ligára com os _Theosophistas_,
concorrera prodigamente para a fundação da _Revista Espiritista_, e
presidia as Evocações da rua Cardinet, envolto na tunica de linho, entre
os dois _mediums_ supremos, Patoff e Lady Thorgan. Assim habitára
durante um longo verão Seo-d'Urgel, a catholica cidadella do Carlismo,
«para destrinçar bem (diz elle) quaes são os motivos e as formulas que
fazem um _Carlista_--porque todo o sectario obedece á realidade d'um
motivo e á illusão d'uma formula». Assim se tornára o confidente do
veneravel Principe Koblaskini, para «poder desmontar e estudar peça a
peça o mecanismo d'um cerebro de Nihilista». Assim se preparava (quando
a morte o surprehendeu) a voltar á India, para se tornar budhista
praticante, e penetrar cabalmente o Budhismo, em que fixára a
curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. De sorte
que d'elle bem se póde dizer que foi o devoto de todas as Religiões, o
partidario de todos os Partidos, o discipulo de todas as
Philosophias--cometa errando através das idéas, embebendo-se
convictamente n'ellas, de cada uma recebendo um accrescimo de
substancia, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia
do seu movimento pensante. Aquelles que imperfeitamente o conheciam
classificavam Fradique como um _dilettante_. Não! essa séria convicção
(a que os inglezes chamam _earnestness_), com que Fradique se
arremessava ao fundo real das coisas, communicava á sua vida uma valia e
efficacia muito superiores ás que o _dilettantismo_, a diversão sceptica
que tantas injurias arrancou a Carlyle, communica ás naturezas que a
elle deliciosamente se abandonam. O _dilettante_, com effeito, corre
entre as idéas e os factos como as borboletas (a quem é desde seculos
comparado) correm entre as flôres, para pousar, retomar logo o vôo
estouvado, encontrando n'essa fugidia mutabilidade o deleite supremo.
Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente
extrahindo o seu mel:--quero dizer, de cada opinião recolhendo essa
«parcella de verdade» que cada uma invariavelmente contém, desde que
homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou
paixão.

Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. Qual era porém a
sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto pude discernir, a
suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me sempre ser--uma
percepção extraordinaria da Realidade. «Todo o phenomeno (diz elle n'uma
carta a Anthero de Quental, suggestiva através de certa obscuridade que
a envolve) tem uma Realidade. A expressão de _Realidade_ não é
philosophica; mas eu emprego-a, lanço-a ao acaso e tenteando, para
apanhar dentro d'ella o mais possivel d'um conceito pouco coercivel,
quasi irreductivel ao verbo. Todo o phenomeno, pois, tem relativamente
ao nosso entendimento e á sua potencia de discriminar, uma
Realidade--quero dizer certos caracteres, ou (para me exprimir por uma
imagem, como recommenda Buffon) certos _contornos_ que o limitam, o
definem, lhe dão feição propria no esparso e universal conjunto, e
constituem o seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser. Sómente o erro,
a ignorancia, os preconceitos, a tradição, a rotina e sobretudo a
ILLUSÃO, formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e
deforma os seus contornos, e impede que a visão intellectual o divise no
seu _exacto_, _real_ e _unico_ modo de ser. É justamente o que succede
aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro... Tudo isto vai
expresso d'um modo bem hesitante e incompleto! Lá fóra o sol está
cahindo d'um céo fino e nitido sobre o meu quintal de convento coberto
de neve dura: n'este ar tão puro e claro, em que as coisas tomam um
relevo rigido, perdi toda a flexibilidade e fluidez da technologia
philosophica: só me poderia exprimir por imagens recortadas á tesoura.
Mas vossê decerto comprehenderá, Anthero excellente e subtil! Já esteve
em Londres, no outono, em novembro? Nas manhãs de nevoeiro, n'uma rua de
Londres, ha difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se
empasta é a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um tapume. Uma
pardacenta illusão submerge toda a cidade--e com espanto se encontra
n'uma taverna quem julgára penetrar n'um templo. Ora para a maioria dos
espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as realidades da vida e do
mundo. D'ahi vem que quasi todos os seus passos são transvios, quasi
todos os seus juizos são enganos; e estes constantemente estão trocando
o Templo e a Taberna. Raras são as visões intellectuaes bastante agudas
e poderosas para romper através da neblina e surprehender as linhas
exactas, o verdadeiro contorno da Realidade. Eis o que eu queria
tartamudear».

Pois bem! Fradique dispunha de uma d'essas visões privilegiadas. O
proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e _detalhar em
silencio_--como dizia Oliveira Martins--revelava logo o seu processo
interior de concentrar e applicar a Razão, á maneira de um longo e
pertinaz dardo de luz, até que, desfeitas as nevoas, a Realidade pouco a
pouco lhe surgisse na sua rigorosa e _unica_ fórma.

A manifestação d'esta magnifica força que mais impressionava--era o seu
poder de _definir_. Possuindo um espirito que _via_ com a maxima
exactidão; possuindo um verbo que _traduzia_ com a maxima concisão--elle
podia assim dar resumos absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que
uma noite, na sua casa da rua de Varennes, em Paris, se discutia com
ardor a natureza da Arte. Repetiram-se todas as definições de Arte,
enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram, como sempre, o
phenomeno visto limitadamente através d'um temperamento. Fradique
conservou-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim,
com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam
parecia professoral) murmurou, no silencio deferente que se
alargára:--«A Arte é um resumo da Natureza feito pela imaginação».

Certamente, não conheço mais completa definição d'Arte! E com razão
affirmava um amigo nosso, homem de excellente phantasia, que «se o bom
Deus, um dia, compadecido das nossas hesitações, nos atirasse lá de
cima, do seu divino ermo, a final explicação da Arte, nós ouviriamos
resoar entre as nuvens, soberba como o rolar de cem carros de guerra, a
definição de Fradique!»


A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte
e rica. Já os seus instrumentos de saber eram consideraveis. Além d'um
solido conhecimento das linguas classicas (que, na sua idade de Poesia e
de Litteratura decorativa, o habilitára a crear em latim barbaro
poemetos tão bellos como o _Laus Veneris tenebrosae_)--possuia
profundamente os idiomas das tres grandes nações pensantes, a França, a
Inglaterra e a Allemanha. Conhecia tambem o arabe, que (segundo me
affirmou Riaz-Effendi, chronista do sultão Abdul-Aziz) fallava com
abundancia e gosto.

As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares; e uma insaciavel e
religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que
divinamente o compõe, desde os insectos até aos astros. Estudos
carinhosamente feitos com o coração--porque Fradique sentia pela
Natureza, sobretudo pelo animal e pela planta, uma ternura e uma
veneração genuinamente budhistas. «Amo a Natureza (escrevia-me elle em
1882) por si mesma, toda e individualmente, na graça e na fealdade de
cada uma das fórmas innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como
manifestação tangivel e multipla da suprema Unidade, da Realidade
intangivel, a que cada Religião e cada Philosophia deram um nome diverso
e a que eu presto culto sob o nome de Vida. Em resumo adoro a Vida--de
que são igualmente expressões uma rosa e uma chaga, uma constellação e
(com horror o confesso) o conselheiro Acacio. Adoro a Vida e portanto
tudo adoro--porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadaver rigido no seu
esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o vôo. E a minha
religião está toda no credo de Athanasio, com uma pequena
variante:--«Creio na _Vida_ toda-poderosa, creadora do céo e da
terra...»

Quando começou porém a nossa intimidade, em 1880, o seu inquieto
espirito mergulhava de preferencia nas sciencias sociaes, aquellas
sobretudo que pertencem á Pre-historia--a Anthropologia, a Linguistica,
o estudo das Raças, dos Mythos e das Instituições Primitivas. Quasi
todos os tres mezes, altas rumas de livros enviadas da casa Hachette,
densas camadas de Revistas especiaes, alastrando o tapete de Caramania,
indicavam-me que uma nova curiosidade se apoderára d'elle com
intensidade e paixão. Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado
com os monumentos megalithicos da Andaluzia; com as habitações
lacustres; com a mythologia dos povos Aryanos; com a magia Chaldaica;
com as raças Polynesias; com o direito costumario dos Cafres; com a
christianisação dos Deuses Pagãos... Estas aferradas investigações
duravam emquanto podia extrahir d'ellas «alguma emoção ou surpreza
intellectual». Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam, e
Fradique annunciava triumphalmente alargando os passos alegres por sobre
o tapete livre:--«Sorvi todo o Sabeismo!», ou «Esgotei os Polynesios!»

O estudo porém a que se prendeu ininterrompidamente, com especial
constancia, foi o da Historia. «Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira
Martins, n'uma das suas ultimas cartas, em 1886) tive a paixão da
Historia. E adivinha vossê porquê, Historiador? Pelo confortavel e
conchegado sentimento que ella me dava da solidariedade humana. Quando
fiz onze annos, minha avó, de repente, _para me habituar ás coisas duras
da vida_ (como ella dizia), arrancou-me ao pachorrento ensino do padre
Nunes, e mandou-me a uma escóla chamada _Terceirense_. O jardineiro
levava-me pela mão: e todos os dias a avó me dava com solemnidade um
pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da esquina, bolos para
a minha merenda. Este creado, este pataco, estes bolos, eram costumes
novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho--por me descerem
ao nivel humilde dos filhos do nosso procurador. Um dia, porém,
folheando uma _Encyclopedia de Antiguidades Romanas_, que tinha
estampas, li, com surpreza, que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam
tambem de manhã para a escóla, como eu, pela mão d'um servo--denominado
o _Capsarius_; e compravam tambem, como eu, um bolo n'uma tia Martha do
Velabro ou das Carinas, para comerem á merenda--que chamavam o
_Ientaculum_. Pois, meu caro, no mesmo instante a veneravel antiguidade
d'esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que n'elles me humilhava
tanto! Depois de os ter detestado por serem communs aos filhos do Silva
procurador--respeitei-os por terem sido habituaes nos filhos de Scipião.
A compra do bolo tornou-se como um rito que desde a Antiguidade todos os
rapazes de escóla cumpriam, e que me era dado por meu turno celebrar
n'uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. Tudo isto,
evidentemente, não o sentia com esta clara consciencia. Mas nunca entrei
d'ahi por diante na tia Martha, sem erguer a cabeça, pensando com uma
vangloria heroica:--«Assim faziam tambem os romanos!» Era por esse tempo
pouco mais alto que uma espada gôda, e amava uma mulher obesa que morava
ao fim da rua...»

N'essa mesma carta, adiante, Fradique accrescenta:--«Levou-me pois
effectivamente á Historia o meu amor da Unidade--amor que envolve o
horror ás interrupções, ás lacunas, aos espaços escuros onde se não sabe
o que ha. Viajei por toda a parte viajavel, li todos os livros de
explorações e de travessias--porque me repugnava não conhecer o globo em
que habito até aos seus extremos limites, e não sentir a contínua
solidariedade do pedaço de terra que tenho sob os pés com toda a outra
terra que se arqueia para além. Por isso, incansavelmente exploro a
Historia, para perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a
que pertenço, e sentir a compacta solidariedade do meu sêr com a de
todos os que me precederam na vida. Talvez vossê murmure com
desdem--«mera bisbilhotice!» Amigo meu, não despreze a bisbilhotice!
Ella é um impulso humano, de latitude infinita, que, como todos, vai do
reles ao sublime. Por um lado leva a escutar ás portas--e pelo outro a
descobrir a America!»

O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e
pelo detalhe. Um amigo nosso exclamava um dia, com essa ironia affavel
que nos homens de raça celtica sublinha e corrige a admiração:--«Aquelle
Fradique! Tira a charuteira, e dá uma synthese profunda, d'uma
transparencia de crystal, sobre a guerra do Peloponeso;--depois accende
o charuto, e explica o feitio e o metal da fivela do cinturão de
Leonidas!» Com effeito, a sua forte capacidade de comprehender
philosophicamente os movimentos collectivos, o seu fino poder de evocar
psychologicamente os caracteres individuaes--alliava-se n'elle a um
minucioso saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das
armas, das festas, dos ritos de todas as idades, desde a India Vedica
até á França Imperial. As suas cartas a Oliveira Martins (sobre o
Sebastianismo, o nosso Imperio no Oriente, o Marquez de Pombal)[1] são
verdadeiras maravilhas pela sagaz intuição, a alta potencia synthetica,
a certeza do saber, a força e a abundancia das idéas novas. E, por outro
lado, a sua erudição archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou,
na sabia composição das suas telas, o paciente e fino reconstructor dos
Costumes e das Maneiras da Antiguidade Classica, o velho Suma-Rabêma.
Assim m'o confessou uma tarde Suma-Rabêma, regando as roseiras, no seu
jardim de Chelsea.

Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo
recolhia e tudo retinha--vasto e claro armazem de factos, de noções, de
fórmas, todos bem arrumados, bem classificados, promptos sempre a
servir. O nosso amigo Chambray affirmava que, comparavel á memoria de
Fradique, como «installação, ordem e excellencia do _stock_», só
conhecia a adega do café Inglez.

A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das
viagens que sem cessar emprehendia, sob o impulso de admirações ou de
curiosidades intellectuaes. Só a Archeologia o levou quatro vezes ao
Oriente:--ainda que a sua derradeira residencia em Jerusalem, durante
dezoito mezes, foi motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por
poeticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma
filha de Abraham Côppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, tão
lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no
naufragio do _Magnolia_. A sua aventurosa e aspera peregrinação pela
China, desde o Thibet (onde quasi deixou a vida, tentando temerariamente
penetrar na cidade sagrada de Lahsá) até á alta Manchuria, constitue o
mais completo estudo até hoje realisado por um homem da Europa sobre os
Costumes, o Governo, a Ethica e a Litteratura d'esse povo «profundo
entre todos, que (como diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou
quatro unicos principios de moral capazes, pela sua absoluta força, de
eternisar uma civilisação».

O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos
trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d'entre o Dnieper
e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presidios Penaes da
Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves,
n'uma rude telega, até ás minas de prata de Nerchinski. E proseguiria
n'este activo interesse, se não recebesse subitamente, ao chegar á
costa, a Archangel, este aviso do general Armankoff, chefe da IV secção
da policia imperial:--_Monsieur, vous nous observez de trop près, pour
que votre jugement n'en soit faussé; je vous invite donc, sur votre
intérêt, et pour avoir de la Russie une vue d'ensemble plus exacte,
d'aller la regarder de plus loin, dans votre belle maison de
Paris!_--Fradique abalou para Vasa, sobre o golfo de Bothnia. Passou
logo á Suecia, e mandou de lá, sem data, este bilhete ao general
Armankoff:--_Monsieur, j'ai reçu votre invitation où il y a beaucoup
d'intolerance et trois fautes de français._

Os mesmos interesses de espirito e «necessidades de certeza» o levaram
na America do Sul desde o Amazonas até ás areias da Patagonia, o levaram
na Africa Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokunga... «Tenho
folheado e lido attentamente o mundo como um livro cheio de idéas. Para
vêr _por fóra_, por mera festa dos olhos, nunca fui senão a Marrocos».

O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a sua rapida e
carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou paizes á maneira
do detestavel _touriste_ francez, para notar de alto e pêcamente «os
defeitos»--isto é, as divergencias d'esse typo de civilisação mediano e
generico d'onde sahia e que preferia. Fradique amava logo os costumes,
as idéas, os preconceitos dos homens que o cercavam: e, fundindo-se com
elles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma lição directa e
viva de cada sociedade em que mergulhava. Este efficaz preceito--«_em
Roma sê romano_»--tão facil e dôce de cumprir em Roma, entre as vinhas
da collina Celia e as aguas susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle
gostosamente trilhando com as alpercatas rotas os desfiladeiros do
Himalaya. E estava tão homogeneamente n'uma cervejaria philosophica da
Allemanha, aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen--como
n'uma aringa africana da terra dos Matabeles, comparando os meritos da
carabina «Express» e da carabina Winchester, entre caçadores de
elephantes.


Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris
e Londres--com excepção das «visitas filiaes» a Portugal: porque, apesar
da sua dispersão pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar nas
terras alheias, e da sua impersonalidade critica, Fradique foi sempre um
genuino Portuguez com irradicaveis traços de fidalgo ilhéo.

O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e ás
coisas de Portugal. A compra da quinta do _Saragoça_, em Cintra,
realisára-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada emoção)
«para _ter terra em Portugal_, e para se prender pelo forte vinculo da
propriedade ao sólo augusto d'onde um dia tinham partido, levados por um
ingenuo tumulto de idéas grandes, os seus avós, buscadores de mundos, de
quem elle herdára o sangue e a curiosidade do _além_!»

Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra» percorrendo uma
provincia, lentamente, a cavallo--com demoras em villas decrepitas que o
encantavam, infindaveis cavaqueiras á lareira dos campos, fraternisações
ruidosas nos adros e nas tavernas, idas festivas a romarias no carro de
bois, no vetusto e veneravel carro sabino, toldado de chita, enfeitado
de louro. A sua região preferida era o Ribatejo, a terra chã da leziria
e do boi. «Ahi (diz elle), de jaleca e cinta, montado n'um potro, com a
vara de campino erguida, correndo entre as manadas de gado, nos finos e
lavados ares da manhã, sinto, mais que em nenhuma outra parte, a delicia
de viver».

Lisboa só lhe agradava--como paizagem. «Com tres fortes retoques
(escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), com arvoredo e pinheiros
mansos plantados nas collinas calvas da Outra-Banda; com azulejos
lustrosos e alegres revestindo as fachadas sujas do casario; com uma
varredella definitiva por essas bemditas ruas--Lisboa seria uma d'essas
bellezas da Natureza creadas pelo Homem, que se tornam um motivo de
sonho, de arte e de peregrinação. Mas uma existencia enraizada em Lisboa
não me parece toleravel. Falta aqui uma atmosphera intellectual onde a
alma respire. Depois certas feições, singularmente repugnantes, dominam.
Lisboa é uma cidade _alitteratada_, _afadistada_, _catita_ e
_conselheiral_. Ha _litteratice_ na simples maneira com que um caixeiro
vende um metro de fita; e, nas proprias graças com que uma senhora
recebe, transparece _fadistice_: mesmo na Arte ha _conselheirismo_; e ha
_catitismo_ mesmo nos cemiterios. Mas a nausea suprema, meu amigo, vem
da politiquice e dos politiquetes».

Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais
injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos,
inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas; horror mundano,
presuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios para se misturar a
naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam,
rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles provinha esse cheiro
morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d'elle
não têm o habito profissional.

Havia n'estas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade.
Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica offereciam o cunho
d'um preconceito que dogmatisa--e não d'uma observação que discrimina.
Assim lh'o affirmava eu uma manhã, no Braganza, mostrando que todas
essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de
finura, tão acerbamente notadas por elle nos Politicos--se explicam
sufficientemente pela precipitada democratisação da nossa sociedade;
pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias
abominaveis da Universidade; e ainda por intimas razões que são no fundo
honrosas para esses desgraçados Politicos, votados por um fado vingador
á destruição da nossa terra.

Fradique replicou simplesmente:

--Se um rato morto me disser,--«eu cheiro mal por isto e por aquillo e
sobretudo porque apodreci»,--eu nem por isso deixo de o mandar varrer do
meu quarto.

Havia aqui uma antipathia de instincto, toda physiologica, cuja
intransigencia e obstinação nem factos nem raciocinios podiam vencer.
Bem mais justo era o horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa,
a inhabil, descomedida e papalva imitacão de Paris. Essa «saloia
macaqueação», superiormente denunciada por elle n'uma carta que me
escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que «_Lisboa é
uma cidade traduzida do francez em calão_»--tornava-se para Fradique,
apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E a sua anciedade
perpetua era então descobrir, através da frandulagem do Francezismo,
algum resto do genuino Portugal.

Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em
cartas, em conversas, se lastíma de não poder conseguir «um cozido
vernaculo!»--«Onde estão (exclama elle, algures) os pratos veneraveis do
Portugal portuguez, o pato com macarrão do seculo XVIII, a almondega
indigesta e divina do tempo das descobertas, ou essa maravilhosa
cabidella de frango, petisco dilecto de D. João IV, de que os fidalgos
inglezes que vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para
Londres a surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo
reles põe em calão as comedias de Labiche e os acepipes de Gouffé. E
estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos democraticos do
_boulevard_, requentados, e servidos em chalaça e galantine! Desastre
estranho! As coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a
vitella de Lafões, os legumes, os dôces, os vinhos, degeneraram,
_insipidaram_... Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram
desde o Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxertos
funestos no velho tronco lusitano, os fructos têm perdido o sabor, como
os homens têm perdido o caracter...»

Só uma occasião, n'esta especialidade consideravel, o vi plenamente
satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levára), diante
d'um prato complicado e profundo de bacalhau, pimentos e grão de bico.
Para o gozar com coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de
nós lançára casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o piteu sem igual,
Fradique protestou com paixão:

--Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em perfeita
innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D. João V, antes da
Democracia e da Critica!

A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que, por
ter perdido esse typo de civilisação intensamente original, o mundo
ficára diminuido. Este amor do passado revivia n'elle, bem curiosamente,
quando via realisados em Lisboa, com uma inspiração original, o luxo e o
«modernismo» intelligente das civilisações mais saturadas de cultura e
perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no
Rato--n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:

--Em Paris, affirmava elle, a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia póde
dar uma festa igual: e para isto não me valia a pena ter feito a
quarentena em Marvão! Supponha porém vossê que eu vinha achar aqui um
sarau do tempo da Senhora D. Maria I, em casa dos Marialvas, com
fidalgas sentadas em esteiras, frades tocando o lundum no bandolim,
desembargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, entre os mendigos,
rezando em côro a ladainha!... Ahi estava uma coisa unica, deliciosa,
pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira!

Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique lamentava,
com melancolica sinceridade, o velho Portugal fidalgo e fradesco do
tempo do snr. D. João V--Ramalho Ortigão não se conteve:

--Vossê é um monstro, Fradique! O que vossê queria era habitar o
confortavel Paris do meado do seculo XIX, e ter aqui, a dois dias de
viagem, o Portugal do seculo XVIII, onde podesse vir, como a um museu,
regalar-se de pittoresco e de archaismo... Vossê, lá na rua de Varennes,
consolado de decencia e de ordem. E nós aqui, em viellas fedorentas,
inundados á noite pelos despejos d'aguas sujas, aturdidos pelas arruaças
do marquez de Cascaes ou do conde d'Aveiras, levados aos empurrões para
a enxovia pelos malsins da Intendencia, etc. etc... Confesse que é o que
vossê queria!

Fradique volveu serenamente:

--Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos vêr aqui,
a vós, homens de letras, esticados nas gravatas e nas idéas que toda a
Europa usa, vos encontrasse de cabelleira e rabicho, com as velhas
algibeiras da casaca de sêda cheias d'odes shaphicas, encolhidinhos no
salutar terror d'El-Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de
Marialva ou d'Aveiro, á espera que os senhores, de cima, depois de dadas
as graças, vos mandassem por um pretinho, os restos do perú e o mote.
Tudo isso seria dignamente portuguez, e sincero; vós não merecieis
melhor; e a vida não é possivel sem um bocado de pittoresco depois do
almoço.

Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo Portugal antigo, havia amor
do «pittoresco», estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas
sobretudo havia o odio a esta universal modernisação que reduz todos os
costumes, crenças, idéas, gostos, modos, os mais ingenitos e mais
originalmente proprios, a um typo uniforme (representado pelo _sujeito
utilitario e sério_ de sobrecasaca preta)--com a monotonia com que o
chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes dar a fórma unica e
dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.

Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo--o povo que não
mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus
caracteres graves e dôces. Amava-o pelas suas qualidades, e tambem pelos
seus defeitos:--pela sua morosa paciencia de boi manso; pela alegria
idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia á
vassallagem com que depois do _Senhor Rei_ venera o _Senhor Governo_;
pela sua doçura amaviosa e naturalista; pelo seu catholicismo pagão, e
carinho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares; pelos seus
trajes, pelos seus cantos... «Amava-o ainda (diz elle) pela sua
linguagem tão bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se não sente
odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das _Sebentas_ de Direito
Publico».



V


A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no
Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo
poeta das Lapidarias tinha então cincoenta annos; e cada dia se prendia
mais á quieta doçura dos seus habitos de Paris.

Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo
palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um luxo sobrio e
grave--tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias e estofos,
onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os
Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de _bric-à-brac_, tanto seduz
os financeiros e as _cocottes_. Nobres e ricas tapeçarias de Paizagem e
de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte da
Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espaço,
claridade, uma harmonia de tons castos--eis o que se encontrava nas
cinco salas que constituiam o «covil» de Fradique. Todas as varandas, de
ferro rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins
de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico,
formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de
maio se arrisca a cantar um rouxinol.

A vida de Fradique era medida por um relogio secular, que precedia o
toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga
dança de côrte: e era mantida n'uma immutavel regularidade pelo seu
creado Smith, velho escossez da _clan_ dos Macduffs, já todo branco de
pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o
acompanhava, com severo zêlo, através da vida e do mundo.

De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e
melancolicos d'aquelle esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith
rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as janellas á luz,
gritava:--_Morning, Sir!_ Immediatamente Fradique, dando de entre a
roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente», corria
ao immenso laboratorio de marmore, a esponjar a face e a cabeça em agua
fria, com um resfolgar de Trytão ditoso. Depois, enfiando uma das
cabaias de sêda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma
poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique)
reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial do velho
Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e escanhoava,
Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos
telegrammas politicos do _Times_, do _Standard_ e da _Gazeta de
Colonia_!

Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr Smith, com a
sua alta gravata branca á Palmerston, a rabona curta, as calças de
xadrez verde e preto (côres da sua _clan_), os sapatos de verniz
decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita
sciencia e perfeita consciencia:--«Não se realisa a conferencia do
principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os conservadores perderam a
eleição supplementar de York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo
emprestimo russo...» Os amigos em Lisboa riam d'esta «caturreira»; mas
Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição
classica, que em todo o mundo latino, desde Scipião o Africano,
instituira os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica».
Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções
politicas: e Fradique nunca dizia--«Li no _Times_»--mas «Li no Smith».

Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho ligeiramente
tepido, d'onde voltava para as mãos vigorosas de Smith, que, com um jogo
de luvas de lã, de flanella, d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o
friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo,
«roseo e reluzente». Tomava então o seu chocolate; e recolhia á
bibliotheca, sala séria e simples, onde uma imagem da Verdade,
radiosamente branca na sua nudez de marmore, pousava o dedo subtil sobre
os labios puros, symbolisando, em frente á vasta mesa de ébano, um
trabalho todo intimo á busca de verdades que não são para o ruido e para
o mundo.

Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes:--e
depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de chá russo,
percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de
litteratura, de theatro ou de sociedade, que não eram da competencia
politica de Smith. Lia então tambem com cuidado os jornaes portuguezes
(que chama algures «phenomenos picarescos de decomposição social»),
sempre caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como
elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da
mediocridade», e considerava Calino tão digno d'estudo como Voltaire. O
resto do dia dava-o aos amigos, ás visitas, aos _ateliers_, ás salas
d'armas, ás exposições, aos clubs--aos cuidados diversos que se cria um
homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisacão.

De tarde subia ao _Bois_ conduzindo o seu phaeton, ou montando a _Sabá_,
uma maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera o Emir
de Mossul. E a sua noite (quando não tinha cadeira na Opera ou na
_Comédie_) era passada n'algum salão--precisando sempre findar o seu dia
entre «o ephemero feminino». (Assim dizia Fradique).

A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua existencia. Fradique
amou mulheres; mas fóra d'essas, e sobre todas as coisas, amava a
Mulher.

A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por
devoções de espiritualista, por curiosidades de critico, e por
exigencias de sanguineo. Á maneira dos sentimentaes da Restauração,
Fradique considerava-as como «organismos» superiores, divinamente
complicados, differentes e mais proprios de adoração do que tudo o que
offerece a Natureza: ao mesmo tempo, através d'este culto, ia dissecando
e estudando esses «organismos divinos», fibra a fibra, sem respeito, por
paixão de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta
desappareciam para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples
e boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.

As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas
theorias de conversação) classificadas em especies. Havia a «mulher
d'exterior», flôr de luxo e de mundanismo culto: e havia a «mulher
d'interior», a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o
seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo
toda a investigação experimental. «Estou em presença d'estas (escreve
elle a Madame de Jouarre), como em face d'uma carta alheia fechada com
sinete e lacre». Na presença, porém, d'aquellas que se «exteriorisam» e
vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se tão livre e tão
irresponsavel como perante um volume impresso. «Folhear o livro (diz
elle ainda a Madame de Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas,
critical-o em voz alta com independencia e veia, leval-o no coupé para
lêr á noite em casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto
percorridas as melhores paginas--é bem permittido, creio eu, segundo a
Cartilha e o Codigo».

Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um
homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o
tornar litterariamente interessante? Não sei. O commentario mais
instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre «o
ephemero feminino». Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um
homem que as perturba, abrem insensivelmente os labios. Em Fradique eram
os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto
d'uma d'essas mulheres de exterior, «estrellas de mundanismo»,
tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi
humidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas
serpentes». Havia alli com effeito um acto de alliciação e de
absorpção--mas havia sobretudo a evidencia da perturbação e do encanto
que o inundavam. N'essa attenção de beato diante da Virgem, no murmurio
quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento
enleado dos seus olhos finos,--as mulheres viam apenas a influencia
omnipotentemente vencedora das suas graças de Fórma e d'Alma sobre um
homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que
aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara, quasi tangivel--de
que ellas são irresistiveis, e subjugam o coração mais rebelde só com
mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tarde!» Quem se mostra
facilmente seduzido--facilmente se torna seductor. É a lenda india, tão
sagaz e real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via
radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto
esplendor se reflecte a sua pelle engilhada--que peccados e que traições
não commetterá a Maharina?...

Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente
o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro entre os
homens--um Homem. E para ellas Fradique possuia esta superioridade
inestimavel, quasi unica na nossa geração--uma alma extremamente
sensivel, servida por um corpo extremamente forte.


De maior duração e intensidade que os seus amores foram todavia as
amizades que Fradique a si attrahiu pela sua excellencia moral. Quando
eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, julguei sentir na
sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e
metallica: e através da admiração que me deixára a sua arte, a sua
personalidade, o seu viço, a sua cabaia de sêda--confessei um dia a J.
Teixeira d'Azevedo que não encontrára no poeta das Lapidarias aquelle
_tepido leite da bondade humana_, sem o qual o velho Shakspeare (nem eu,
depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A
sua mesma polidez, tão risonha e perfeita, me parecera mais composta por
um systema do que genuinamente ingenita. Decerto, porém, concorreu para
a formação d'este juizo uma carta (já velha, de 1855) que alguem me
confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade,
lançava este rude programma de conducta:--«Os homens nasceram para
trabalhar, as mulheres para chorar, e nós, os fortes, para passar
friamente através!...»

Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do
Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu então o
observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou porque n'elle se
tivesse já operado com a idade esse phenomeno que Fustan de Carmanges
chamou depois _le degel de Fradique_, bem cedo senti, através da
impassibilidade marmorea do cinzelador das Lapidarias, brotar, tepida e
generosamente, o _leite da bondade humana_.

A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressionou foi a sua
incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma conclusão da sua
philosophia, ou por uma inspiração da sua natureza--Fradique, perante o
peccado e o delicto, tendia áquella velha misericordia evangelica que,
consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguerá a mão
bastante pura para arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa
elle via (talvez contra a razão, mas em obediencia áquella _voz_ que
fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que ainda se não calou) a
irremediavel fraqueza humana: e o seu perdão subia logo do fundo d'essa
Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agua pura em terra rica,
sempre prompto a brotar.

A sua bondade, porém, não se limitava a esta expressão passiva. Toda a
desgraça, desde a amargura limitada e tangivel que passa na rua, até á
vasta e esparsa miseria que com a força d'um elemento devasta classes e
raças, teve n'elle um consolador diligente e real. São d'elle, e
escriptas nos derradeiros annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres
palavras:--«Todos nós que vivemos n'este globo formamos uma immensa
caravana que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza
inconsciente, impassivel, mortal como nós, que não nos entende, nem
sequer nos vê, e d'onde não podemos esperar nem soccorro nem consolação.
Só nos resta para nos dirigir, na rajada que nos leva, esse secular
preceito, summa divina de toda a experiencia humana--«ajudai-vos uns aos
outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos sem conta
se misturam--cada um ceda metade do seu pão áquelle que tem fome;
estenda metade do seu manto áquelle que tem frio; acuda com o braço
áquelle que vai tropeçar; poupe o corpo d'aquelle que já tombou; e se
algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar apenas
sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando d'essa
sympathia... Só assim conseguiremos dar alguma belleza e alguma
dignidade a esta escura debandada para a Morte».

Decerto Fradique não era um santo militante, rebuscando pelas viellas
miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle
não recebesse allivio. Sempre que lia por acaso, n'um jornal, uma
calamidade ou uma indigencia, marcava a noticia com um traço a lapis,
lançando ao lado um algarismo--que indicava ao velho Smith o numero de
libras que devia remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima
para com os pobres (a quem os Economistas affirmam que se não deve
Caridade mas Justiça)--era «que á hora das comidas mais vale um pataco
na mão que duas Philosophias a voar». As creanças, sobretudo quando
necessitadas, inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes,
singularmente raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um
pequenino que pede, tranzido de frio--param sob a chuva e sob o vento,
desapertam pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva, para
vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de prata que vai ser
o calor e o pão d'um dia.

Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo que vive. Não conheci
homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasião em
Paris, correndo ambos a uma estação de _fiacres_ para nos salvarmos d'um
chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos leváva, a uma venda
de tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas _Nove Musas dançando entre
loureiraes_), encontrámos apenas um _coupé_, cuja pileca, com o sacco
pendente do focinho, comia melancolicamente a sua ração. Fradique teimou
em esperar que o cavallo almoçasse com socego--e perdeu as _Nove Musas_.

Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes--por
sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas, furiosamente
empenhadas na lucta pelo pão egoista, as almas cada dia se tornam mais
sêccas e menos capazes de piedade. «A fraternidade (dizia elle n'uma
carta de 1886 que conservo) vai-se sumindo, principalmente n'estas
vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e
luctar; e, através do constante deperecimento dos costumes e das
simplicidades ruraes, o mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira
evidencia d'este egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia.
Desde que a caridade se organisa e se consolida em instituição, com
regulamentos, relatorios, comités, sessões, um presidente e uma
campainha, e de sentimento natural passa a funcção official--é porque o
homem, não contando já com os impulsos do seu coração, necessita
obrigar-se publicamente ao bem pelas prescripções d'um estatuto. Com os
corações assim duros e os invernos tão longos, que vai ser dos
pobres?...»

Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua
bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da lenha no
fogão, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam
ao longe, como afundados em horisontes de tristeza--para assim lamentar,
com enternecida elevação, todas as miserias humanas! E voltava então a
amarga affirmação da crescente aspereza dos homens, forçados pela
violencia do conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada
um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante, _homo homini lupus_.

--Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.

Fradique encolheu os hombros:

--Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a sua
igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha de
ser esquecido; e por fim hão de surgir novas turbas de escravos. Não ha
nada a fazer. O que resta a cada um por prudencia é reunir um peculio e
adquirir um revolwer; e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta,
dar, segundo as circumstancias, ou pão ou bala.


Assim, cheios de idéas, de delicadas occupações e d'obras amaveis,
decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no
inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle, como Cesar,
sempre appetecera--_inopinatam atque repentinam_.

Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de
Fradique, com quem fizera n'um _yacht_ uma viagem á Islandia) achou no
_vestiario_ a sua pelissa russa trocada por outra, confortavel e rica
tambem, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes
do general Terran-d'Azy. Fradique, que soffria de repugnancias
intolerantes, não se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official
rabugento e catarrhoso, e atravessou a praça da Concordia a pé, de
casaca, até ao club da _Rue Royale_. A noite estava sêcca e clara, mas
cortada por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que
durante leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e já eram
comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal traiçoeiro». Ao outro
dia acordou com uma tosse leve. Indifferente porém aos resguardos,
seguro d'uma robustez que affrontára tantos ares inclementes, foi a
Fontainebleau com amigos no alto d'um _mail-coach_. Logo n'essa noite,
ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois, sem
soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou
adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba
mais dôcemente um bello dia de verão.

O dr. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima de pleuriz. E
accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades
humanas:--«_Toujours de la chance, ce Fradique!_»

Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um céo
cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas
do saber e da arte. Lindos rostos, já pisados pelo tempo, o choraram, na
saudade das emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem
lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas letras, que
cuidava dos males humanos envolto em cabaias de sêda.

Jaz no _Père-Lachaise_, não longe da sepultura de Balzac, onde no dia
dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de
Parma que tanto amára em vida o creador da _Comedia Humana_. Mãos fieis,
por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore
simples que o cobre na terra.



VI


O erudito moralista que assigna _Alceste_ na _Gazette de Paris_ dedicou
a Fradique Mendes uma Chronica em que resume assim o seu espirito e a
sua acção:--«Pensador verdadeiramente pessoal e forte, Fradique Mendes
não deixa uma obra. Por indifferença, por indolencia, este homem foi o
dissipador d'uma enorme riqueza intellectual. Do bloco d'ouro em que
poderia ter talhado um monumento imperecivel--tirou elle durante annos
curtas lascas, migalhas, que espalhou ás mãos cheias, conversando, pelos
salões e pelos clubs de Paris. Todo esse pó d'ouro se perdeu no pó
commum. E sobre a sepultura de Fradique, como sobre a do grego
desconhecido de que canta a Anthologia, se poderia escrever:--«Aqui jaz
o ruido do vento que passou derramando perfume, calor e sementes em
vão...»

Toda esta chronica vem lançada com a usual superficialidade e
inconsideração dos francezes. Nada menos reflectido que as designações
de _indolencia_, _indifferença_, que voltam repetidamente, n'essa pagina
bem ornada e sonora, como para marcar com precisão a natureza de
Fradique. Elle foi ao contrario um homem todo de paixão, de acção, de
tenaz labor. E escassamente póde ser accusado de _indolencia_, de
_indifferença_, quem, como elle, fez duas campanhas, apostolou uma
religião, trilhou os cinco continentes, absorveu tantas civilisações,
percorreu todo o saber do seu tempo.

O chronista da _Gazette de Paris_ acerta porém, singularmente,
affirmando que d'esse duro obreiro não resta uma obra. Impressas e dadas
ao mundo só d'elle conhecemos com effeito as poesias das Lapidarias,
publicadas na _Revolução de Setembro_--e esse curioso poemeto em latim
barbaro, _Laus Veneris Tennebrosae_, que appareceu na _Revue de Poésie
et d'Art_, fundada em fins de 69 em Paris por um grupo de poetas
symbolistas. Fradique porém deixou manuscriptos. Muitas vezes, na rua de
Varennes, os entrevi eu dentro d'um cofre hespanhol do seculo XIV, de
ferro lavrado, que Fradique denominava a _valla commum_. Todos esses
papeis (e a plena disposição d'elles) foram legados por Fradique áquella
_Libuska_ de quem elle largamente falla nas suas cartas a Madame de
Jouarre, e que se nos torna tão familiar e real «com os seus velludos
brancos de Veneziana e os seus largos olhos de Juno».

Esta senhora, que se chamava Varia Lobrinska, era da velha familia russa
dos Principes de Palidoff. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski, diplomata
silencioso e vago, que pertencera ao regimento das Guardas Imperiaes, e
escrevia _capitaine_ com _t_, _e_, (_capiténe_) morrera em Paris, por
fins d'outono, ainda moço, de uma languida e longa anemia.
Immediatamente Madame Lobrinska, com solemne magoa, cercada d'aias e de
crépes, recolheu ás suas vastas propriedades russas perto de Starobelsk,
no governo de Karkoff. Na primavera, porém, voltou com as flôres dos
castanheiros,--e desde então habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez.
Um dia, em casa de Madame de Jouarre, encontrou Fradique, que, enlevado
então no culto das Litteraturas slavas, se occupava com paixão do mais
antigo e nobre dos seus poemas, o _Julgamento de Libuska_, casualmente
encontrado em 1818 nos archivos do castello de Zelene-Hora. Madame
Lobrinska era parenta dos senhores de Zelene-Hora, condes de
Colloredo--e possuia justamente uma reproducção das duas folhas de
pergaminho que contêm a velha epopeia barbara.

Ambos leram esse texto heroico--até que o dôce instante veio em que,
como os dois amorosos de Dante, «não leram mais no dia todo». Fradique
dera a Madame Lobrinska o nome de _Libuska_, a rainha que no
_Julgamento_ apparece «vestida de branco e resplandecente de sapiencia».
Ella chamava a Fradique _Lucifer_. O poeta das Lapidarias morreu em
novembro:--e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo á melancolia
das suas terras, junto de Starobelsk, no governo de Karkoff. Os seus
amigos sorriram, murmuraram com sympathia que Madame Lobrinska fugira,
para chorar entre os seus moujiks a sua segunda viuvez--até que
reflorecesse os lilazes. Mas d'esta vez _Libuska_ não voltou, nem com as
flôres dos castanheiros.

O marido de Madame Lobrinska era um Diplomata que estudava e praticava
sobretudo os _menus_ e os _cotillons_. A sua carreira foi portanto
irremediavelmente subalterna e lenta. Durante seis annos jazeu no Rio de
Janeiro, entre os arvoredos de Petropolis, como Secretario, esperando
aquella legação na Europa que o Principe Gortchakoff, então Chanceller
Imperial, affirmava pertencer a Madame Lobrinska _par droit de beauté et
de sagesse_. A legação na Europa, n'uma capital mundana, culta, sem
bananeiras, nunca veio compensar aquelles exilados que soffriam das
saudades da neve:--e Madame Lobrinska, no seu exilio, chegou a aprender
tão completamente a nossa dôce lingua de Portugal, que Fradique me
mostrou uma traducção da elegia de Lavoski, _A Collina do Adeus_,
trabalhada por ella com superior pureza e relevo. Só ella pois,
realmente, d'entre todas as amigas de Fradique, podia apreciar como
paginas vivas, onde o pensador depozera a confidencia do seu pensamento,
esses manuscriptos que para as outras seriam apenas sêccas e mortas
folhas de papel, cobertas de linhas incomprehendidas.

Logo que comecei a colleccionar as cartas dispersas de Fradique Mendes,
escrevi a Madame Lobrinska contando o meu empenho em fixar n'um estudo
carinhoso as feições d'esse transcendente espirito--e implorando, se não
alguns extractos dos seus manuscriptos, ao menos algumas revelações
_sobre a sua natureza_. A resposta de Madame Lobrinska foi uma recusa,
bem determinada, bem deduzida,--mostrando que decerto sob «os claros
olhos de Juno» estava uma clara razão de Minerva. «Os papeis de Carlos
Fradique (dizia em summa) tinham-lhe sido confiados, a ella que vivia
longe da publicidade, e do mundo que se interessa e lucra na
publicidade, com o intuito de que para sempre conservassem o caracter
intimo e secreto em que tanto tempo Fradique os mantivera: e n'estas
condições o _revelar a sua natureza_ seria manifestamente contrariar o
recatado e altivo sentimento que dictára esse legado...» Isto vinha
escripto, com uma letra grossa e redonda, n'uma larga folha de papel
aspero, onde a um canto brilhava a ouro, sob uma corôa d'ouro, esta
divisa--Per terram ad coelum.

D'este modo se estabeleceu a obscuridade em torno dos manuscriptos de
Fradique. Que continha realmente esse cofre de ferro, que Fradique com
desconsolado orgulho denominava a _valla commum_, por julgar pobres e
sem brilho no mundo os pensamentos que para lá arrojava?

Alguns amigos pensam que ahi se devem encontrar, se não completas, ao
menos esboçadas, ou já coordenadas nos seus materiaes, as duas obras a
que Fradique alludia como sendo as mais captivantes para um pensador e
um artista d'este seculo--uma _Psychologia das Religiões_ e uma _Theoria
da Vontade_.

Outros (como J. Teixeira d'Azevedo) julgam que n'esses papeis existe um
romance de realismo epico, reconstruindo uma civilisação extincta, como
a _Salammbô_. E deduzem essa supposição (desamoravel) d'uma carta a
Oliveira Martins, de 1880, em que Fradique exclamava, com uma ironia
mysteriosa:--«Sinto-me resvalar, caro historiador, a praticas culpadas e
vãs! Ai de mim, ai de mim, que me foge a penna para o mal! Que demonio
malfazejo, coberto do pó das Idades, e sobraçando in-folios
archeologicos, me veio murmurar uma d'estas noites, noite de duro
inverno e de erudição decorativa:--«Trabalha um romance! E no teu
romance resuscita a antiguidade asiatica!»? E as suas suggestões
pareceram-me dôces, amigo, d'uma doçura lethal!... Que dirá vossê,
dilecto Oliveira Martins, se um dia desprecavidamente no seu lar receber
um tomo meu, impresso com solemnidade, e começando por estas
linhas:--«_Era em Babylonia, no mez de Sivanù, depois da colheita do
balsamo?..._» Decerto, vossê (d'aqui o sinto) deixára pender a face
aterrada entre as mãos tremulas, murmurando:--«Justos céos! Ahi vem
sobre nós a descripção do templo das Sete-Espheras, com todos os seus
terraços! a descripção da batalha de Halub, com todas as suas armas! a
descripção do banquete de Sennacherib, com todas as suas iguarias!...
Nem os bordados d'uma só tunica, nem os relevos d'um só vaso nos serão
perdoados! E é isto um amigo intimo!»

Ramalho Ortigão, ao contrario, inclina a crêr que os papeis de Fradique
contêm _Memorias_--porque só a _Memorias_ se póde coherentemente impôr a
condição de permanecerem secretas.

Eu por mim, d'um melhor e mais contínuo conhecimento de Fradique,
concluo que elle não deixou um livro de Psychologia, nem uma Epopeia
archeologica (que certamente pareceria a Fradique uma culpada e vã
ostentação de saber pittoresco e facil), nem _Memorias_--inexplicaveis
n'um homem todo de idéa e de abstracção, que escondia a sua vida com tão
altivo recato. E affirmo afoutamente que n'esse cofre de ferro, perdido
n'um velho solar russo, não existe uma _obra_--porque Fradique nunca foi
verdadeiramente um _auctor_.

Para o ser não lhe faltaram decerto as idéas--mas faltou-lhe a certeza
de que ellas, pelo seu valor _definitivo_, merecessem ser registradas e
perpetuadas: e faltou-lhe ainda a arte paciente, ou o querer forte, para
produzir aquella fórma que elle concebera em abstracto como a unica
digna, por bellezas especiaes e raras, de encarnar as suas idéas.
Desconfiança de si como pensador, cujas conclusões, renovando a
philosophia e a sciencia, podessem imprimir ao espirito humano um
movimento inesperado; desconfiança de si como escriptor e creador d'uma
Prosa, que só por si propria, e separada do valor do pensamento,
exercesse sobre as almas a acção ineffavel do absolutamente bello--eis
as duas influencias negativas que retiveram Fradique para sempre inedito
e mudo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria elle que
perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela definitiva
verdade ou pela incomparavel belleza. Mas a critica inclemente e sagaz
que praticava sobre os outros, praticava-a sobre si, cada dia, com
redobrada sagacidade e inclemencia. O sentimento, tão vivo n'elle, da
Realidade fazia-lhe distinguir o seu proprio espirito tal como era, na
sua real potencia e nos seus reaes limites, sem que lh'o mostrassem mais
potente ou mais largo esses «fumos da illusão litteraria»--que levam
todo o homem de letras, mal corre a penna sobre o papel, a tomar por
faiscantes raios de luz alguns sujos riscos de tinta. E concluindo que,
nem pela idéa, nem pela fórma, poderia levar ás intelligencias persuasão
ou encanto que definitivamente marcassem na evolução da razão ou do
gosto--preferiu altivamente permanecer silencioso. Por motivos
nobremente diferentes dos de Descartes, elle seguiu assim a maxima que
tanto seduzia Descartes--_bene vixit qui bene latuit_.

Nenhum d'estes sentimentos elle me confessou; mas todos lh'os
surprehendi, transparentemente, n'um dos derradeiros Nataes que vim
passar á rua de Varennes, onde Fradique pelas festas do anno me
hospedava com immerecido esplendor. Era uma noite de grande e ruidoso
inverno: e desde o café, com os pés estendidos á alta chamma dos
madeiros de faia que estalavam na chaminé, conversavamos sobre a Africa
e sobre religiões Africanas. Fradique recolhera na região do Zambeze
notas muito flagrantes, muito vivas, sobre os cultos nativos--que são
divinisações dos chefes mortos, tornados pela morte _Mulungus_,
Espiritos dispensadores das coisas boas e más, com residencia divina nas
cubatas e nas collinas onde tiveram a sua residencia carnal; e,
comparando os ceremoniaes e os fins d'estes cultos selvagens da Africa
com os primitivos ceremoniaes liturgicos dos Aryas em Septa-Sandou,
Fradique concluia (como mostra n'uma carta d'esse tempo a Guerra
Junqueiro) que na religião o que ha de real, essencial, necessario e
eterno é o Ceremonial e a Liturgia--e o que ha de artificial, de
supplementar, de dispensavel, de transitorio é a Theologia e a Moral.

Todas estas coisas me prendiam irresistivelmente, sobretudo pelos traços
de vida e de natureza africana com que vinham illuminadas. E sorrindo,
seduzido:

--Fradique! porque não escreve vossê toda essa sua viagem á Africa?

Era a vez primeira que eu suggeria ao meu amigo a idéa de compôr um
livro. Elle ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe
propozesse marchar descalço, através da noite tormentosa, até aos
bosques de Marly. Depois, atirando a cigarette para o lume, murmurou com
lentidão e melancolia:

--Para que?... Não vi nada na Africa, que os outros não tivessem já
visto.

E como eu lhe observasse que vira talvez d'um modo differente e
superior; que nem todos os dias um homem educado pela philosophia, e
saturado de erudição, faz a travessia da Africa; e que em sciencia uma
só verdade necessita mil experimentadores--Fradique quasi se
impacientou:

--Não! Não tenho sobre a Africa, nem sobre coisa alguma n'este mundo,
conclusões que por alterarem o curso do pensar contemporaneo valesse a
pena registrar... Só podia apresentar uma série de impressões, de
paizagens. E então peor! Porque o verbo humano, tal como o fallamos, é
ainda impotente para encarnar a menor impressão intellectual ou
reproduzir a simples fórma d'um arbusto... Eu não sei escrever! Ninguem
sabe escrever!

Protestei, rindo, contra aquella generalisação tão inteiriça, que tudo
varria, desapiedadamente. E lembrei que a bem curtas jardas da chaminé
que nos aquecia, n'aquelle velho bairro de Paris onde se erguia a
Sorbonna, o Instituto de França e a Escóla Normal, muitos homens
houvera, havia ainda, que possuiam do modo mais perfeito a «bella arte
de dizer».

--Quem? exclamou Fradique.

Comecei por Bossuet. Fradique encolheu os hombros, com uma irreverencia
violenta que me emmudeceu. E declarou logo, n'um resumo cortante, que
nos dois melhores seculos da litteratura franceza, desde o _meu_ Bossuet
até Beaumarchais, nenhum prosador para elle tinha relevo, côr,
intensidade, vida... E nos modernos nenhum tambem o contentava. A
distenção retumbante de Hugo era tão intoleravel como a flaccidez oleosa
de Lamartine. A Michelet faltava gravidade e equilibrio; a Renan solidez
e nervo; a Taine fluidez e transparencia; a Flaubert vibração e calor. O
pobre Balzac, esse, era d'uma exuberancia desordenada e barbarica. E o
preciosismo dos Goncourt e do seu mundo parecia-lhe perfeitamente
indecente...

Aturdido, rindo, perguntei áquelle «feroz insatisfeito» que prosa pois
concebia elle, ideal e miraculosa, que merecesse ser escripta. E
Fradique, emocionado (porque estas questões de fórma desmanchavam a sua
serenidade) balbuciou que queria em prosa «alguma coisa de crystallino,
de avelludado, de ondeante, de marmoreo, que só por si, plasticamente,
realisasse uma absoluta belleza--e que expressionalmente, como verbo,
tudo podesse traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais
subtis estados d'alma...»

--Emfim, exclamei, uma prosa como não póde haver!

--Não! gritou Fradique, uma _prosa como ainda não ha!_

Depois, ajuntou, concluindo:

--E como ainda a não ha, é uma inutilidade escrever. Só se podem
produzir fórmas sem belleza: e dentro d'essas mesmas só cabe metade do
que se queria exprimir, porque a outra metade não é reductivel ao verbo.

Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas revelava o sentimento que
mantivera mudo aquelle superior espirito--possuido da sublime ambição de
só produzir verdades absolutamente definitivas por meio de fórmas
absolutamente bellas.

Por isso, e não por indolencia de meridional como insinua
_Alceste_,--Fradique passou no mundo, sem deixar outros vestigios da
formidavel actividade do seu sêr pensante além d'aquelles que por longos
annos espalhou, á maneira do sabio antigo, «em conversas com que se
deleitava, á tarde, sob os platanos do seu jardim, ou em cartas, que
eram ainda conversas naturaes com os amigos de que as ondas o
separavam...» As suas conversas, o vento as levou--não tendo, como o
velho dr. Johnson, um Boswell, enthusiasta e paciente, que o seguisse
pela cidade e pelo campo, com as largas orelhas attentas, e o lapis
prompto a tudo notar e tudo eternizar. D'elle pois só restam as suas
cartas--leves migalhas d'esse ouro de que falla _Alceste_, e onde se
sente o brilho, o valor intrinseco, e a preciosidade do bloco rico a que
pertenceram.



VII


Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro
proposito de abstenção e silencio--eu, publicando as suas Cartas, pareço
lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte,
n'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida
probidade de espirito. E assim seria--se eu não possuisse a evidencia de
que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua
Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma
carta em que lhe contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a
um livro que me acompanhára e me encantára, a _Correspondencia de Xavier
Doudan_--um d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar
na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só
deixou vestigios da sua intensa vida intellectual na sua
Correspondencia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do
seu pensamento.

Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos onde
gastára o verão, accrescentava n'um _post-scriptum_:--«A Correspondencia
de Doudan é realmente muito legivel; ainda que através d'ella apenas se
sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no
doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, cahido em solidão e
doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo
o caso essas cartas--como leio todas as collecções de Correspondencias,
que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de
Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de historia.
Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem que eu afoutamente
approvo--publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta immensa
vantagem:--que o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem
ficar) não é decidido por aquelle que as concebeu, mas por um grupo de
amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu
julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao
mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além d'isso uma
Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e
isto é inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter
do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta
o peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo
necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar
contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da documentação
historica. Temos depois que as cartas d'um homem, sendo o producto
quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua
philosophia--que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma
Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao
immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o
estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos,
alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo _accessivel_ ao
esforço intellectual. E finalmente como _cartas são palestras escriptas_
(assim affirma não sei que classico), ellas dispensam o revestimento
sacramental da _tal prosa como não ha_... Mas este ponto precisava ser
mais desembrulhado--e eu sinto parar á porta o cavallo em que vou trepar
ao pico de Bigorre».

Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada,
que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle
camarada adoravel, a reunir as suas cartas para que os homens alguma
coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão
estreitamente amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um
anno--porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos
habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de
continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a
vastidão e a copiosidade da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de
Proudhon, e d'outros poderosos remexedores de idéas.

Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do
papel--esplendidas folhas de Whatman, eburneas bastante para que a penna
corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas
bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa
idéa; fortes bastante, na sua consistencia de pergaminho, para que não
prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado
pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das minhas
cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 reis. Ora
suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas contêm uma
idéa--resulta que cada idéa me fica por _cento e vinte e cinco mil
reis_. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a economica
Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação--provando, como
inilludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar...
Contrabalanço _pensar_ e _fumar_, porque são, ó Carlos, duas operações
identicas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».

Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de
Fradique--F. M.--minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que
as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a
conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel
como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e
demorada, com riscos, separações, como n'aquelle esforço tão seu de
tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e
rapida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de
abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava _le dégel de
Fradique_, e em que o gesto estreito e sobrio se lhe desmanchava n'um
esvoaçar de flammula ao vento.

Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas
familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem
assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação--_Paris, Julho_;
_Lisboa, Fevereiro_... Frequentemente, tambem, restituia aos mezes as
alcunhas naturalistas do kalendario republicano--_Paris, Floreal_;
_Londres, Nivoze_. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome
do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com
esta bucolica data--_Florença, primeiras violetas_ (o que indica fins de
fevereiro); _Londres, chegada dos Chrysanthemos_ (o que indica começos
de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data
atroz--Lisboa, _primeiros fluxos da verborreia parlamentar!_ (Isto
denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e
bachareis em cima bolsando, por entre injurias, fézes de velhos
compendios).

Não é portanto possivel dispôr a Correspondencia de Fradique por uma
ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não
edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia
continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um _auctor_ e
que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e
constante commentario que acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo
destacar as paginas que com mais saliencia revelassem a
_personalidade_--o conjunto de idéas, gostos, modos, em que
tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, n'estes pesados
maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as
que mostram traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre
as que deixam entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de
coração; d'entre as que, revolvendo noções geraes sobre a litteratura, a
arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu
pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as
que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de
Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame
de Jouarre.

Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do
alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A
correspondencia de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste--_c'est
son genie qui mousse_. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma
radiante e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o
vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás
almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em
excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante
em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de
sociabilidade e de acção.


Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este espirito que
tanto amei--eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um
intuito de puro e seguro patriotismo.

Uma nação só vive porque pensa. _Cogitat ergo est._ A Força e a Riqueza
não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser
glorificada na Historia--como rijos musculos n'um corpo e ouro farto
n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um
reino d'Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e
incontaveis diamantes nas suas collinas, será sempre uma terra bravia e
morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham
tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir
o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem
resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e,
através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente
educassem o mundo--nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de
força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos
augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame
sublime das Idéas e das Fórmas.

Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a
Litteratura, as Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles
universal reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de
verdades e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo
sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São
duas palpitantes e productivas cidades--onde os palacios, as
instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque
fórma pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente
fascina a humanidade--e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor
de um rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o grão?
Porque Paris, além dos palacios, das instituições e das riquezas de que
Chicago tambem justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de
homens--Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres,
Gounod, Massenet--que pela incessante produccão do seu cerebro convertem
a banal cidade que habitam n'um centro de soberano ensino. Se as
_Origens do Christianismo_, o _Fausto_, as telas de Bonnat, os marmores
de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da nova e monumental
Chicago--para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas
para o sol, os espiritos e os corações da Terra.

Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo
aquelle que venha revelar na nossa patria um novo homem de original
pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a unica grandeza que
a tornará respeitada, a unica belleza que a tornará amada;--e é como
quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou sobre as suas
muralhas erguesse mais um castello.

Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de
Quental:--«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor
das _Odes Modernas_, Portugal continúa a ser um grande paiz vivo...» O
mestre da _Historia de França_ com isto significava--que emquanto viver
pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a
nossa patria não é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e
se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas
irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de
versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo
Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito
positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Genio
Politico:--mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura
que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas valiosos
ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da
phantasia, do humorismo e do gosto...

Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes d'estes não podem
ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um marmore. Por isso
eu o revelo aos meus concidadãos--como uma consolação e uma esperança.



AS CARTAS



I


AO VISCONDE DE A.-T.


                                                        Londres, maio.


_Meu caro patricio._--Só hontem á noite, tarde, ao recolher do campo,
encontrei o bilhete com que consideravelmente me honrou, perguntando á
minha experiencia--«qual é o melhor alfaiate de Londres». Depende isso
inteiramente do fim para que V. necessita esse Artista. Se pretende
meramente um homem que lhe cubra a nudez com economia e conforto, então
recommendo-lhe aquelle que tiver taboleta mais perto do seu Hotel. São
tantos passos que forra--e, como diz o _Ecclesiastes_, cada passo
encurta a distancia da sepultura.

Se porém V., caro patricio, deseja um alfaiate que lhe dê consideração e
valor no seu mundo; que V. possa citar com orgulho, á porta da Havaneza,
rodando lentamente para mostrar o córte ondeado e fino da cinta; que o
habilite a mencionar os Lords que lá encontrou, escolhendo d'alto, com
ponta da bengala, cheviotes para blusas de caça; e que lhe sirva mais
tarde, na velhice, á hora gêba do rheumatismo, como recordação
consoladora de elegancias moças--então com ardente instancia lhe
aconselho o Cook (o Thomaz Cook) que é da mais extremada moda,
absolutamente ruinoso, e falha tudo.

Para subsequentes conselhos de «fornecedores», em Londres ou outros
pontos do Universo, permanece sempre ao seu grato serviço--Fradique
Mendes.



II


A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)[2]


                                                      Paris, dezembro.


_Minha querida madrinha._--Hontem, em casa de Madame de Tressan, quando
passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando
comsigo, por debaixo do atroz retrato da Marechala de Mouy, uma mulher
loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe
presentir, apesar de tão indolentemente enterrada n'um divan, uma rara
graça no andar, graça altiva e ligeira de Deusa e de ave. Bem differente
da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplendido peso de uma
estatua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e
_dianico_ (de Diana), provém estas garatujas.

Quem era? Supponho que nos chegou do fundo da provincia, d'algum velho
castello do Anjou com herva nos fossos, porque me não lembro de ter
encontrado em Paris aquelles cabellos fabulosamente louros como o sol de
Londres em dezembro--nem aquelles hombros descahidos, dolentes,
_angelicos_, imitados de uma madona de Montegna, e inteiramente
desusados em França desde o reinado de Carlos X, do _Lyrio no Valle_, e
dos corações incomprehendidos. Não admirei com igual fervor o vestido
preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarellas. Mas os braços
eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um
romance triste. Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegiaca
do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porém surprehendi-lhe depois uma
faisca de vivacidade sensivel--que a datava do seculo XVIII. Dirá a
minha madrinha:--«como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao
lado fiscalisando?» É que voltei. Voltei, e da hombreira da porta
readmirei os hombros dolentes de virgem do seculo XIII; a massa de
cabellos que o mólho de velas por traz, entre as orchideas, nimbava
d'ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos--dos olhos finos e
languidos... Olhos _finos e languidos_. É a primeira expressão em que
hoje apanho decentemente a realidade.

Porque é que não me adiantei, e não pedi uma «apresentação?» Nem sei.
Talvez o requinte em _retardar_, que fazia com que La-Fontaine,
dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais
longo. Sabe o que dava tanta seducção ao palacio das Fadas, nos tempos
do rei Arthur? Não sabe. Resultados de não lêr Tennyson... Pois era a
immensidade d'annos que levava a chegar lá, através de jardins
encantados, onde cada recanto de bosque offerecia a emoção inesperada
d'um _flirt_, d'uma batalha, ou d'um banquete... (Com que morbida
propensão acordei hoje para o estylo asiatico!) O facto é que, depois da
contemplação junto á hombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante
tyranna. Mas por entre o banal sandwich de _foie-gras_, e um copo de
Tokay em nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire, já velho, se
recordava de ter bebido em casa de Madame d'Etioles (os vinhos dos
Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers), vi,
constantemente _vi_, os _olhos finos e languidos_. Não ha senão o homem,
entre os animaes, para misturar a languidez d'um olhar fino a fatias de
_foie-gras_. Não o faria decerto um cão de boa raça. Mas seriamos nós
desejados pelo «ephemero feminino» se não fosse esta providencial
brutalidade? Só a porção de Materia que ha no homem faz com que as
mulheres se resignem á incorrigivel porção d'Ideal que n'elle ha
tambem--para eterna perturbação do mundo. O que mais prejudicou
Petrarcha aos olhos de Laura--foram os _Sonetos_. E quando Romeu, já com
um pé na escada de sêda, se demorava, exhalando o seu extasi em
invocações á Noite e á Lua--Julietta batia os dedos impacientes no
rebordo do balcão, e pensava: «Ai, que palrador que és, filho dos
Montaigus!» Este detalhe não vem em Shakspeare--mas é comprovado por
toda a Renascença. Não me amaldiçôe por esta sinceridade de meridional
sceptico, e mande-me dizer que nome tem, na sua parochia, a loura
castellã do Anjou. A proposito de castellos: cartas de Portugal
annunciam-me que o kiosque por mim mandado erguer em Cintra, na minha
quintarola, e que lhe destinava como «seu pensadoiro e retiro nas horas
de sésta»--abateu. Tres mil e oitocentos francos achatados em entulho.
Tudo tende á ruina n'um paiz de ruinas. O architecto que o construiu é
deputado, e escreve no _Jornal da Tarde_ estudos melancolicos sobre as
Finanças! O meu procurador em Cintra aconselha agora, para reedificar o
kiosque, um estimavel rapaz, de boa familia, que entende de construcções
e que é empregado na Procuradoria Geral da Corôa! Talvez se eu
necessitasse um Jurisconsulto me propozessem um trolha. É com estes
elementos alegres que nós procuramos restaurar o nosso imperio d'Africa!
Servo humilde e devoto--Fradique.



III


A OLIVEIRA MARTINS


                                                          Paris, maio.


_Querido amigo._--Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida
das Aguas-Ferreas, n'aquella manhã de Março em que conversavamos ao sol
sobre o caracter dos Antigos,--e remetto, como documento, a photographia
da mumia de Ramèzes II (que o francez banal, continuador do grego banal,
teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sarcophagos
reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.

Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo este
facto--_Ramèzes photographado_?... Mas ahi está justificada a
mumificação dos cadaveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e
tanta despeza, para que os homens gozassem na sua fórma terrena, segundo
diz o Escriba, «as vantagens da Eternidade!» Ramèzes, como elle
acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas, resurge
effectivamente «com todos os seus ossos e a pelle que era sua» n'este
anno da Graça de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona
dynastia, mil e quatrocentos annos anterior a Christo, representa muito
decentemente a _Eternidade_ e a _Vida-Futura_. E eis-nos agora podendo
contemplar as «proprias feições» do maior dos Ramezidas, tão realmente
como Hokem seu Eunuco-Mór, ou Pentaour seu Chronista-Mór, ou aquelles
que outr'ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o caminho de
flôres, trazendo «os seus chinós de festa e a cutis envernizada com
oleos de Segabai». Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia, com
as palpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que
humilhantes reflexões não provoca ella sobre a irremediavel degeneração
do homem! Onde ha ahi hoje um, entre os que governam povos, que tenha
essa soberana fronte de calmo e incommensuravel orgulho; esse superior
sorriso de omnipotente benevolencia, d'uma ineffavel benevolencia que
cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomavel força; todo esse
esplendor viril que a treva de um hypogeo, durante tres mil annos, não
conseguiu apagar? Eis-ahi verdadeiramente um _Dono de homens_! Compare
esse semblante augusto com o perfil sôrno, obliquo e bigodoso d'um
Napoleão III; com o focinho de _bull-dog_ acorrentado d'um Bismarck; ou
com o carão do Czar russo, um carão parado e affavel que podia ser o do
seu Copeiro-Mór. Que chateza, que fealdade tacanha d'estes rostos de
poderosos!

D'onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo
oleiro modelava o vaso fino:--e hoje, nas nossas civilisações, não ha
logar para que uma alma se affirme e se produza na absoluta expansão da
sua força. Outr'ora um simples homem, um feixe de musculos sobre um
feixe d'ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza.
Bastava ter o illimitado querer--para d'elle tirar o illimitado poder.
Eis-ahi em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo póde, e a quem Phtah, o
Deus sagaz, diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá
a morte!» Elle impelle a seu bel-prazer as raças para norte, para sul ou
para leste; elle altera e arraza, como muros n'um campo, as fronteiras
dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para elle nascem
todos os fructos da terra, e para elle se volta toda a esperança dos
homens; o logar para onde volve os seus olhos é bemdito e prospéra, e o
logar que não recebe essa luz benefica jaz como «o torrão que o Nilo não
beijou»; os deuses dependem d'elle, e Amnon estremece inquieto quando,
diante dos pylones do seu templo, Ramèzes faz estalar as tres cordas
entrançadas do seu latego de guerra! Eis um _homem_--e que seguramente
póde affirmar no seu canto triumphal:--«Tudo vergou sob a minha força:
eu vou e venho com as passadas largas d'um leão; o rei dos deuses está á
minha direita e tambem á minha esquerda; quando eu fallo o céo escuta;
as coisas da terra estendem-se a meus pés, para eu as colher com mão
livre; e para sempre estou erguido sobre o throno do mundo!»

«O mundo», está claro, era aquella região, pela maior parte arenosa, que
vai da cordilheira Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante
emphase do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou suppõe
ser, inigualavelmente grande. E esta consciencia da grandeza, do
incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e
dar essa altiva magestade, repassada de risonha serenidade, que Ramèzes
conserva mesmo além da vida, resequido, mumificado, recheado de betume
da Judêa.

Veja V. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do typo
Bismarck. Um desgraçado d'esses não está acima de nada e depende de
tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d'um
obstaculo. A sua acção no mundo é um perpetuo bater de craneo contra
espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de
tradições, de direitos, de preceitos, de interesses, de principios, se
lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um
artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice d'um legista
obriga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez
burguezes nedios e dez professores guedelhudos, votando dentro d'uma
sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins
dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão
impossivel dispôr d'um cidadão como d'um astro. Nunca póde avançar d'uma
arrancada, erecto e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A
vigilancia ambiente impõe-lhe a necessidade vil de fallar baixo e aos
cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão
livre»--surripia-as ás migalhas, depois de escuras intrigas. As
irresistiveis correntes de idéas, de sentimentos, de interesses,
trabalham por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as,
pelo muito que braceja e ronca d'alto, é na realidade por ellas
arrastado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em
apparencia no cimo das grandes coisas;--mas como a boia solta vai no
cimo da torrente.

Miseravel omnipotencia! E o sentimento d'esta miseria não póde deixar de
influenciar a physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio
contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo _amolgado_ que se
nota na cara de Napoleão, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a
maior somma de poder contemporaneo--o feitio _amolgado_ d'uma coisa que
rola aos encontrões, batendo contra muralhas.

Em conclusão:--a mumia de Ramèzes II (unica face authentica do homem
antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossivel uma vida
humana vivida na sua maxima liberdade e na sua maxima força, sem outros
limites que os do proprio querer--resultou perder-se para sempre, no
typo physico do homem, a summa e perfeita expressão da grandeza. Já não
ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bilis cava rugas
por entre os recortes do pêllo. As unicas physionomias nobres são as das
feras, genuinos Ramèzes no seu deserto, que nada perderam da sua força,
nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes,
é um pobre Adão achatado entre as duas paginas d'um codigo.

Se V. acha todo isto excessivo e phantasista, attribua-o a que jantei
hontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionario P.,
conselheiro d'estado, _e muchas cosas más_. _Más_ em hespanhol; e _más_
também em portuguez no sentido de pessimas. Esta carta é a reacção
violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo,
desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial d'um
conselheiro? Eu tomo um banho por dentro--um banho lustral, immenso
banho de phantasia, onde despejo como perfume idoneo um frasco de
Shelley ou de Masset. Amigo certo _et nunc et semper_--Fradique Mendes.



IV


A MADAME S.


                                                     Paris, fevereiro.


_Minha cara amiga._--O hespanhol chama-se D. Ramon Covarubia, mora na
Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sobrio, creio que
com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já
sabe o castelhano necessario para entender os _Romanceros_, o _D.
Quichote_, alguns dos «Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas
comedias de Lope de Vega, um ou outro romance de Galdós, que é tudo
quanto basta lêr na litteratura de Hespanha,--para que deseja a minha
sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento,
o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da Calle-Mayor?
Vai assim o dôce Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe marcou
para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna,
do seu nome e da sua belleza, apenas concede, para esse abastecimento
intellectual, sete annos, dos onze aos dezoito)--em quê? No luxo de
apurar até a um requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de
adquirir noções e idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são apenas
instrumentos do saber--como instrumentos de lavoura. Consumir energia e
vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina e puramente que pareça
que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e que por meio de cada uma se
pediu o primeiro pão e agua da vida--é fazer como o lavrador, que em vez
de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um
pau simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser
trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e folhagens ao
comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em
alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os
seus pomares Touraine?

Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança e pureza, a lingua da
sua terra:--todas as outras as deve fallar mal, orgulhosamente mal, com
aquelle accento chato e falso que denuncía logo o estrangeiro. Na lingua
verdadeiramente reside a nacionalidade;--e quem fôr possuindo com
crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente soffrendo uma
desnacionalisação. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da
_falla materna_ com as suas influencias affectivas, que o envolvem, o
isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente
lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é
patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no
organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu
patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo. _Rue de Rivoli_,
_Calle d'Alcalá_, _Regent Street_, _Wilhem Strasse_--que lhe importa?
Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla ambiente lhe
offerece um elemento natural e congenere onde o seu espirito se move
livremente, espontaneamente, sem hesitações, sem attritos. E como pelo
Verbo, que é o instrumento essencial da fusão humana, se póde fundir com
todas--em todas sente e aceita uma Patria.

Por outro lado, o esforço contínuo de um homem para se exprimir, com
genuina e exacta propriedade de construcção e de accento, em idiomas
estranhos--isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no
que ellas têm de essencialmente caracteristico, o Verbo--apaga n'elle
toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que
chegou a fallar absolutamente bem outras linguas além da sua, perdeu
toda a originalidade de espirito--porque as suas idéas forçosamente
devem ter a natureza incaracteristica e neutra que lhes permitta serem
indifferentemente adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e
genio. Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão
tristemente falla o povo--«que cabem bem na roupa de toda a gente».

Além d'isso, o proposito de pronunciar com perfeição linguas
estrangeiras constitue uma lamentavel sabujice para com o estrangeiro.
Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de _não sermos nós mesmos_,
de nos fundirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais proprio, o
Vocabulo. Ora isto é uma abdicação de dignidade nacional. Não, minha
senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as linguas dos
outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira
desconfiança, como sêr que não tem raizes, nem lar estavel--sêr que rola
através das nacionalidades alheias, successivamente se disfarça n'ellas,
e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por
nenhuma. Com effeito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes
verá que o perfeito polyglotismo é um instrumento da alta _escroquerie_.

E aqui está como, levado pelo dilettantismo das idéas, em vez d'um
endereço eu lhe forneço um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a
faça sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho medonho de
pronunciar _Viva la Gracia!_ e _Benditos sean tus ojos!_
exactissimamente como se vivesse a uma esquina da _Puerta del Sol_, com
uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto
todavia não impede que se utilisem os serviços de D. Ramon. Elle, além
de Zorrillista, é guitarrista; e póde substituir as lições na lingua de
Quevedo por lições na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul ganhará
ainda assim uma nova faculdade de exprimir--a faculdade de exprimir
emoções por meio de cordas de arame. E este dom é excellente! Convem
mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas
d'uma viola, desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella
tumultuam, do que poder, através das estalagens do mundo, reclamar com
perfeição o pão e o queijo--em sueco, hollandez, grego, bulgaro e
polaco.

E será realmente indispensavel mesmo para prover, através do mundo,
estas necessidades vitaes d'estomago e alma--o trilhar, durante annos,
pela mão dura dos mestres, «os descampados e atoleiros das grammaticas e
pronuncias», como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel tia que
fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que percorreu toda
a Europa com desafôgo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica,
comia simplesmente ovos--que só conhecia e só comprehendia sob o seu
nome nacional vernaculo de _ovos_. Para ella _huevos_, _oeufs_, _eggs_,
_das ei_, eram sons da Natureza bruta, pouco differençaveis do coaxar
das rãs, ou d'um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim,
em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos--esta expedita senhora
reclamava o famulo do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem
explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar
lento das saias tufadas uma gallinha no chôco, e gritava _ki-ki-ri-ki!_
_kó-kó-ri-ki!_ _kó-ró-kó-kó!_ Nunca, em cidade ou região intelligente do
Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos--e superiormente
frescos!

Beijo as suas mãos, benevola amiga--Fradique.



V


A GUERRA JUNQUEIRO


                                                          Paris, maio.


_Meu caro amigo._--A sua carta transborda de illusão poetica. Suppôr,
como V. candidamente suppõe, que trespassando com versos (ainda mesmo
seus, e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja, o Padre, a
Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres,
se póde «desentulhar Deus da alluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no
Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão
toda pura e abstracta da Religião--a uma religião que consista apenas
n'uma Moral apoiada n'uma Fé--é ter da Religião, da sua essencia e do
seu objecto, uma sonhadora idéa de sonhador teimoso em sonhos!

Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual
desapparece--porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros
Metaphysicos, Moralistas e Mysticos) não passa d'um conjunto de Ritos
através dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicação intima
com o seu Deus e obter d'elle favores. Este, só este, tem sido o fim de
todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto
recente do coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia--oh
incorrigivel beato do idealismo!

Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vianna do Castello, tome um
bordão, e suba commigo por essa antiguidade fóra até um sitio bem
cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do
Hymalaia, e as arêas d'um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou,
no paiz das Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro
povoado em que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra
coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em
torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos presos
por um aro d'ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros
capellães da humanidade,--e cada um d'elles está, por esta quente
alvorada de maio, celebrando um rito da missa Aryana. Um limpa e
desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro d'um
almofariz, com pancadas que devem resoar «como tambor de victoria», as
hervas aromaticas que dão o _Sômma_; este, como um semeador, espalha
grãos de aveia em volta da Ara; aquelle, ao lado, espalmando as mãos ao
céo, entoa um cantico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando
um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas, e que tem por
objecto propiciar Indra--Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que
póde encher de ruina e dôr o coração do Arya, sorvendo a agua das regas,
queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagôas, tornando
Septa-Sindhou mais esteril que o «coração do mau»; ou póde, derretendo
as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz
no ventre das nuvens», restituir a agua aos rios, a verdura aos prados,
a salubridade ás lagôas, a alegria e abundancia á morada do Arya.
Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propicio,
derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que póde appetecer um povo
rural e pastoral.

Não ha aqui Metaphysica, nem Ethica--nem explicações sobre a natureza
dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente uma
Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya necessita observar para
que Indra o attenda--uma vez que, pela experiencia de gerações, se
comprovou que Indra só o escutará, só concederá os beneficios rogados,
quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de
linho candido, lhe erguerem canticos dôces, lhe offertarem libações, lhe
amontoarem dons de fructa, mel e carne d'anho. Sem dons, sem libações,
sem canticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e
do Intangivel, não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. E se
vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo,
o seu pau sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do _Sômma_, o Arya
ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do seu Deus--e
será na terra como a creancinha que ninguem nutre e a que ninguem ampara
os passos.

Esta Religião primordial é o typo absoluto e inalteravel das Religiões,
que todas por instincto repetem--e em que todas (apesar dos elementos
estranhos de Theologia, de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os
espiritos superiores) terminam por se resumir, com reverencia. Em todos
os climas, em todas as raças, ou divinisando as forças da Natureza, ou
divinisando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram
sempre praticamente n'um conjunto de praticas, pelas quaes o homem
simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saude,
da forca, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço
proprio, pede esses bens á hygiene, á ordem, á lei e ao trabalho, ainda
persiste nos ritos propiciadores para que Deus _ajude_ o seu esforço.

O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando
(antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho verde de Monção, que
V. dithyrambisa) na Antiguidade classica, em Athenas ou Roma, onde
quizer, no momento de maior esplendor e cultura das civilisações
greco-latinas. Se V. ahi perguntar a um antigo, seja um oleiro de
Suburra, seja o proprio _Flamen Dialis_, qual é o corpo de doutrinas e
de conceitos moraes que compõe a Religião,--elle sorrirá, sem o
comprehender. E responderá que a Religião consiste em _paces deorum
quaerere_, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolencia dos Deuses.
Na idéa do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas, as
formulas, que uma longa tradição demonstrou serem as unicas que
conseguem fixar a attencão dos Deuses e exercer sobre elles persuasão ou
seducção. E n'esse ceremonial era indispensavel não alterar nem o valor
d'uma syllaba na Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porque
d'outro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrificio da sua dilecção e a
Prece do seu agrado, permanecia desattento e alheio; e a Religião
falseava o seu fim supremo--influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a
ser a irreligião: e o Deus, vendo n'essa omissão de liturgia uma falta
de reverencia, despedia logo das Alturas os dardos da sua colera. A
obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador, um passo lançado á
direita ou movido á esquerda, o cahir lento das gottas da libação, o
tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam
prescriptos immutavelmente pelos Rituaes, e a sua exclusão ou a sua
alteração constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra
a patria--porque attrahiam sobre ella a indignação dos deuses. Quantas
Legiões vencidas, quantas cidadellas derrubadas, porque o Pontifice
deixára perder um grão de cinza da ara--ou porque Auruspice não arrancou
lã bastante da cabeça do anho! Por isso Athenas castigava o Sacerdote
que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Consules que
commettiam um erro no sacrificio--fosse elle tão ligeiro como reter a
ponta da toga sobre a cabeça, quando ella devia escorregar sobre o
hombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias d'ouro á Divindade,
era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas satyrisando, como na
_Velhice do Padre Eterno_, a Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo
publico, um traidor ao Estado, votado ás masmorras do _Tuliano_.

E se, já farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos nossos
philosophicos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do occidente e
do oriente, no Catholicismo e no Budhismo, uma comprovação ainda mais
saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de
praticas, sobre as quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram, sem as
penetrarem, como um luxo intellectual, accessorio e transitorio--flôres
pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O
Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje
resumido a uma curta série de observancias materiaes:--e todavia nunca
houve Religião dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta
estructura de conceitos theologicos e moraes. Esses conceitos, porém,
obra de doutores e de mysticos, nunca propriamente sahiram das escólas e
dos mosteiros--onde eram preciosa materia de dialectica ou de poesia;
nunca penetraram nas multidões para methodicamente governar os juizos ou
conscientemente governar as acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas,
esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:--mas nunca o povo se
persuadiu que tinha Religião, e que portanto _agradava a Deus_, _servia
a Deus_, só por cumprir os dez mandamentos, fóra de toda a pratica e de
toda a observancia ritual. E só decorou mesmo esses _Dez Mandamentos_, e
as _Obras de Misericordia_, e os outros preceitos moraes do Catechismo,
pela idéa de que esses versiculos, _recitados com os labios_, tinham,
por uma virtude maravilhosa, o poder de attrahir a attenção, a
bemquerença e os favores do Senhor. Para _servir a Deus_, que é o meio
_de agradar a Deus_, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o
rosario, jejuar, commungar, fazer promessas, dar tunicas aos santos,
etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se
propicia a Deus,--isto é, se alcançam d'elle os dons inestimaveis da
saude, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céo e Inferno, sancção
extra-terrestre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava ou se evitava
pela pontual obediencia á lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no
Catholicismo o premio e o castigo não são manifestações da _justiça_ de
Deus, mas da _graça_ de Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se
obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos--a missa, o
jejum, a penitencia, a communhão, o rosario, a novena, a offerta, a
promessa. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na religião do
Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda d'Anciães, tudo se resume em
propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. Não ha aqui
Theologia, nem Moral. Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar
ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catholicismo,
eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a agua-benta, todo o Rito e
toda a Liturgia--o catholico immediatamente abandonará uma Religião que
não tem Egreja visivel, e que não lhe offerece os meios simples e
tangiveis de communicar com Deus, de obter d'elle os bens transcendentes
para a alma e os bens sensiveis para o corpo. O Catholicismo n'esse
instante terá acabado, milhões de sêres terão perdido o seu Deus. A
Egreja é o vaso de que Deus é o perfume. Egreja partida--Deus
volatilisado.

Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V. toparia com o mesmo
phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa Religião foi elaborada a mais alta
das Metaphysicas, a mais nobre das Moraes: mas em todas as raças em que
elle penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no
mandarinato chinez, elle consistiu sempre para as multidões em ritos,
ceremonias, praticas--a mais conhecida das quaes é o _moinho de rezar_.
V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o _moinho
de café_: em todos os paizes budhistas V. o verá collocado nas ruas das
cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando
duas voltas á manivella, possa fazer chocalhar dentro as orações
escriptas e communica com o Budha, que por esse acto de cortezia
transcendente «lhe ficará grato e lhe augmentará os seus bens».

Nem o Catholicismo, nem o Budhismo vão por este facto em decadencia. Ao
contrario! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma
Religião, quanto mais se materialisa, mais se popularisa--e portanto
mais se divinisa. Não se espante! Quero dizer, que quanto mais se
desembaraça dos seus elementos intellectuaes de Theologia, de Moral, de
Humanitarismo, etc., repellindo-os para as suas regiões naturaes que são
a Philosophia, a Ethica e a Poesia, tanto mais colloca o povo face a
face com o seu Deus, n'uma união directa e simples, tão facil de
realisar que, por um mero dobrar de joelhos, um mero balbuciar de
Padre-Nossos, o homem absoluto que está no céo vem ao encontro do homem
transitorio que está na terra. Ora este encontro é o facto
essencialmente divino da Religião. E quanto mais elle se
materialisa--mais ella na realidade se divinisa.

V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa communicação puramente
espiritual, e que, despida de toda a exterioridade liturgica, ella seja
apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino». Mas para
isso é necessario que venha o Millenio--em que cada cavador de enxada
seja um philosopho, um pensador. E quando esse Millenio detestavel
chegar, e cada tipoia de praça fôr governada por um Mallebranche, terá
V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova
humanidade feminina, physiologicamente differente da que hoje embelleza
a terra. Porque emquanto houver uma mulher constituida physica,
intellectual e moralmente como a que Jehovah com uma tão grande
inspiração d'artista fez da costella de Adão,--haverá sempre ao lado
d'ella, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.

Essa communhão mystica do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser
senão o privilegio d'uma _élite_ espiritual, deploravelmente limitada.
Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budhista, christã,
mahometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua
essencia, a supplica dos favores divinos e o afastamento da cólera
divina; e, como instrumentação material para realisar estes objectos, o
templo, o padre, o altar, os officios, a vestimenta, a imagem. Pergunte
a qualquer mediano homem sahido da turba, que não seja um philosopho, ou
um moralista, ou um mystico, o que é Religião. O inglez dirá:--«É ir ao
serviço ao domingo, bem vestido, cantar hymnos». O hindú dirá:--«É fazer
_poojah_ todos os dias e dar o tributo ao _Mahadeo_». O africano
dirá:--«É offerecer ao _Mulungú_ a sua ração de farinha e oleo». O
Minhoto dirá:--«É ouvir missa, rezar as contas, jejuar á sexta-feira,
commungar pela Paschoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu
objecto, como sêres religiosos, está todo em communicar com Deus; e
esses são os meios de communicação que os seus respectivos estados de
civilisação e as respectivas liturgias que d'elles sahiram, lhes
fornecem. _Voilà!_ Para V. está claro, e para outros espiritos de
eleição, a Religião é outra coisa--como já era outra coisa em Athenas
para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as multidões humanas não são
compostas de Socrates e de Senecas--bem felizmente para ellas, e para os
que as governam, incluindo V. que as pretende governar!

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de
ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades
rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e intimo. Foi nas margens
do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de
entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o
seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô divinisado). O recado ou
pedido, porém, que desejava mandar á sua Divindade, não se podia
transmittir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão graves e
confidenciaes matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um
escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica
bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e immediatamente
arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada
tranquillamente--«parte!» A alma do escravo lá foi, como uma carta
lacrada e sellada, direita para o céo, ao Mulungú. Mas d'ahi a instantes
o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama á pressa outro
escravo, diz-lhe ao ouvido rapidas palavras, agarra o machado,
separa-lhe a cabeça, e berra:--«Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O segundo
escravo era um _post-scriptum_.

Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu
coração. Amigo do dito--Fradique.



VI


A RAMALHO ORTIGÃO


                                                         Paris, abril.


_Querido Ramalho._--No sabbado á tarde, na rue Cambon, avisto dentro
d'um fiacre o nosso Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me
gritar: «Ramalho, esta noite! de passagem para a Hollanda! ás dez! no
café da Paz!»

Fico dôcemente alvoroçado; e ás nove e meia, apesar da minha justa
repugnancia pela esquina do café da Paz, Centro catita do _Snobismo_
internacional, lá me installo, com um bock, esperando a cada instante
que surja, por entre a turba baça e molle do boulevard, o esplendor da
Ramalhal figura. Ás dez salta d'um fiacre com anciedade o vivaz
Carmonde, que abandonára á pressa uma sobremesa alegre _pour voir ce
grand Ortigan_! Começa uma espera a dois, com bock a dois. Nada de
Ramalho, nem do seu viço. Ás onze apparece Eduardo, esbaforido. E
Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres, impaciencia a tres, bock a tres.
E assim até que o bronze nos soou o fim do dia.

Em compensação um caso, e profundo. Carmonde, Eduardo e eu sorviamos as
derradeiras fezes do bock, já desilludidos de Ramalho e das suas pompas,
quando roça pela nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho,
esticadinho, que traz na mão com respeito, quasi com religião, um
soberbo ramo de cravos amarellos. É um homem d'além dos mares, da
Republica Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo--que o retem e
apresenta «o snr. Mendibal». Mendibal aceita um bock: e eu começo a
contemplar mudamente aquella facesinha toda em perfil, como recortada
n'uma lamina de machado, d'uma côr acobreada de chapéo côco inglez, onde
a barbita rala, hesitante, denunciando uma virilidade frouxa, parece
cotão, um cotão negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada
recua, foge toda para traz, assustada. O caroço da garganta esganiçada,
ao contrario, avança como o esporão d'uma galera por entre as pontas
quebradas do collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na
gravata, grossa perola.

Eu contemplo, e Mendibal falla. Falla arrastadamente, quasi
dolentemente, com finaes que desfallecem, se esvaem em gemido. A voz é
toda de desconsolo:--mas, no que diz, revela a mais forte, segura e
insolente satisfação de viver. O animal tem tudo: immensas propriedades
além do mar, a consideração dos seus fornecedores, uma casa no
Parc-Monceau, e «uma esposa adoravel». Como deslizou elle a mencionar
essa dama que lhe embelleza o lar? Não sei. Houve um momento em que me
ergui, chamado por um velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da
Opera, e que me queria simplesmente segredar, com uma convicção forte,
que «a noute estava esplendida!» Quando voltei á mesa e ao bock, o
Argentino encetára em monologo a glorificação da «sua senhora». Carmonde
devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam,
deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a compostura
pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao lado sobre uma
cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos, desfiava as virtudes e
os encantos de Madame. Sentia-se alli uma d'essas admirações
effervescentes, borbulhantes, que se não podem retrahir, que transbordam
por toda a parte, mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que
passasse, aquelle homem iria deixando escorrer a sua adoração pela
mulher, como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando agua.
Comprehendi, desde que elle, com um prazer que lhe repuxava mais para
fóra o caroço da garganta, revelou que madame Mendibal era franceza.
Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela graça loira d'uma
parisiensesinha, picante em seducção e finura. Desde que comprehendi,
sympathisei. E o Argentino farejou em mim esta benevolencia
critica--porque foi para mim que se voltou, lançando o derradeiro traço,
o mais decisivo, sobre as excellencias de Madame: «Sim, positivamente,
não havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que ella cuidava da
mamã (da mamã d'elle), senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois
era uma paciencia, uma delicadeza, uma sujeição... De cahir de joelhos!
Então nos ultimos dias a mamã andára tão rabugenta!... Madame Mendibal
até emmagrecera. De sorte que elle proprio, n'esse domingo, lhe pedira
que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a mãe d'ella,
madame Jouffroy, habitava por economia. E agora viera de a esperar na
_gare_ Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa
creatura estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, n'uma
ancia de recolher. Nem lhe soubera bem a visita á mamã! A maior parte da
tarde, e uma tarde tão linda, gastára-a a reunir aquelle esplendido ramo
de cravos amarellos para lhe trazer, a elle!»

--É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! Até consola. Olhe que
para estas lembrancinhas, para estes carinhos, não ha senão uma
franceza. Graças a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos,
um só que fosse, um rapaz, não me trocava pelo principe de Galles. Eu
não sei se o senhor é casado. Perdôe a confiança. Mas se não é, sempre
lhe direi, como digo a todo o mundo:--Case com uma franceza, case com
uma franceza!...

Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Como V. não
vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal trepou para um fiacre com
o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os passos, no calor da noite,
até ao club. No club encontro Chambray, que V. conhece--o «formoso
Chambray». Encontro Chambray no fundo d'uma poltrona, derreado e
radiante. Pergunto a Chambray como lhe vai a Vida, que opinião tem
n'esse dia da Vida. Chambray declara a Vida uma delicia. E,
immediatamente, sem se conter, faz a confidencia que lhe bailava
impacientemente no sorriso e no olho humedecido.

Fôra a Versalhes, com tenção de visitar os Fouquiers. No mesmo
compartimento com elle ia uma mulher, _une grande et belle femme_. Corpo
soberbo de Diana n'um vestido collante do Redfern. Cabellos apartados ao
meio, grossos e apaixonados, ondeando sobre a testa curta. Olhos graves.
Dois solitarios nas orelhas. Sêr substancial, solido, sem chumaços e sem
blagues, bem alimentado, envolto em consideração, superiormente
installado na vida.

E, no meio d'esta respeitabilidade physica e social, um geito guloso de
molhar os beiços a cada instante, vivamente, com a ponta da lingua...
Chambray pensa comsigo:--«burgueza, trinta annos, sessenta mil francos
de renda, temperamento forte, desapontamentos d'alcova». E apenas o
comboyo larga, toma o seu «grande ar Chambray», e dardeja á dama um
d'esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de Cupido.
Madame impassivel. Mas, momentos, depois, vem d'entre as palpebras um
pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado, por traz do
_Figaro_ aberto), um d'esses raios de luz indagadora que, como os da
lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um homem. Ao chegar a
Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira, Chambray
arrisca uma palavra, atrevidamente timida, sobre o calor de Paris. Ella
concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo. Está
travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray já se senta na banqueta ao lado
d'ella, fumando. Em Sevres, mão de Madame arrebatada por Chambray, mão
de Chambray repellida por Madame:--e ambas insensivelmente se
entrelaçam. Em Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um
passeio por um sitio de Viroflay que só elle conhece, recanto bucolico,
de incomparavel doçura, inaccessivel ao burguez. Depois, ás duas horas
tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a deixa hesitar--arrebata-a
moralmente, ou antes physiologicamente, pela simples força da voz
quente, dos olhos alegres, de toda a sua pessoa franca e mascula.

Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e Satanaz
conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. Chambray
conhece á orla do bosque, junto d'agua, uma tavernola que tem as
janellas encaixilhadas em madresilva. Porque não irão lá almoçar uma
caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente
uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz, dando ao rabo,
corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham lá, com
effeito, uma installação magistral: quarto fresco e silencioso, mesa
posta, cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova. «Em
todo o caso que o almoço suba depressa, porque elles têm de partir pelo
trem das duas horas»--tal é o brado sincero de Chambray!

Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma inspiração genial--despe o
casaco, abanca em mangas de camisa. É um rasgo de bohemia e de
liberdade, que a encanta, a excita, faz surgir a _garota_ que ha quasi
sempre no fundo da _matrona_. Atira tambem o chapéo, um chapéo de
duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga os braços, e tem este
grito d'alma:

--_Ah oui, que c'est bon, de se desembêter!_

E depois, como dizem os hespanhoes--_la mar_. O sol, ao despedir-se da
terra por esse dia, deixou-os ainda em Viroflay; ainda na tavernola;
ainda no quarto;--e outra vez á mesa, diante d'um _beefsteak_
reconfortante, como os acontecimentos pediam com urgencia e logica.

Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar á estação para tomar o trem
de Paris. Ella aperta devagar as fitas do chapéo, apanha uma das flôres
da janella que mette no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo
quarto e pela alcova, para todo decorar e retêr--e partem. Na estação,
ao saltar para um compartimento differente (por causa da chegada a
Paris), Chambray n'um aperto de mão, já apressado e frouxo, supplica-lhe
que ao menos lhe diga como se chama. Ella murmura--_Lucie_.

--E é tudo o que sei d'ella, conclue Chambray accendendo o charuto. E
sei tambem que é casada porque na _gare_ Saint-Lazare, á espera d'ella,
e acompanhado por um trintanario serio, de casa burgueza, estava o
marido... É um _rastacuero_ côr de chocolate, com uma barbita rala,
enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado quando ella lhe deu
um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe mandára arranjar em
Viroflay... Mulher deliciosa. Não ha senão as francezas!

Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que,
em resumo, este nosso Mundo é perfeito e não ha nos espaços outro mais
bem organisado. Porque note V. como, ao fim d'este domingo de maio,
todas estas tres excellentes creaturas, com uma simples jornada a
Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray passou por um
immenso prazer e uma immensa vaidade--os dois unicos resultados que elle
conta na existencia como proventos solidos, e valendo o trabalho de
existir. Madame experimentou uma sensação nova ou differente, que a
desenervou, a desafogou, lhe permittiu reentrar mais acalmada na
monotonia do seu lar, e ser util aos seus com rediviva applicação. E o
Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto era
amado e feliz na sua escolha. Tres ditosos, ao fim d'esse dia de
primavera e de campo. E se d'aqui resultar um filho (o filho que o
Argentino appetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente
gaulezas de Chambray, accresce, ao contentamento individual dos tres, um
lucro effectivo para a sociedade. Este mundo portanto está superiormente
organisado.

Amigo fiel, que fielmente o espera á volta da Hollanda--Fradique.



VII


A MADAME DE JOUJARRE

(Trad.)


                                                        Lisboa, março.


_Minha querida madrinha._--Foi hontem, por noite morta, no comboio, ao
chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto), que de repente me acudia á
memoria estremunhada o juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em
Paris, com as mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edição
dos _Deveres_ de Cicero. Juramento bem estouvado, este, de lhe mandar
todas as semanas, pelo correio, Portugal em «descripções, notas,
reflexões e panoramas», como se lê no sub-titulo da _Viagem á Suissa_ do
seu amigo o Barão de Fernay, commendador de Carlos III e membro da
Academia de Toulouse. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus
juramentos (quando feitos sobre a Moral de Cicero, e para regalo de quem
reina na minha Vontade) que, apenas o recordei, abri logo
escancaradamente ambos os olhos para recolher «descripções, notas,
reflexões e panoramas» d'esta terra que é minha e que _está a la
disposicion de ustêd_... Chegáramos a uma estação que chamam de
Sacavem--e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz,
através dos vidros humidos do wagon, foi uma densa treva, d'onde
mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas. Eram
lanternas de faluas dormindo no rio:--e symbolisavam d'um modo bem
humilhante essas escassas e desmaiadas parcellas de verdade positiva que
ao homem é dado descobrir no universal mysterio do Sêr. De sorte que
tornei a cerrar resignadamente os olhos--até que, á portinhola, um homem
de bonet de galão, com o casaco encharcado d'agua, reclamou o meu
bilhete, dizendo _Vossa Excellencia_! Em Portugal, boa madrinha, todos
somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por
_Excellencia_.

Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta
talvez--gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem
depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega, e logo
se sumia para a cidade sob a molhada noite de março.

No casarão soturno, á espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith[3]
e uma senhora esgrouviada, de oculos no bico, envolta n'uma velha capa
de pelles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asphalto sujo do
casarão regelava os pés.

Não sei quantos seculos assim esperamos, Smith immovel, a dama e eu
marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do
balcão de madeira, onde dois guardas d'Alfandega, escuros como
azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em
que oscillava o montão da nossa bagagem, veio por fim rolando com
pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de
folha de Flandres, cuja tampa, cahindo para traz, revelou aos meus olhos
que observavam (em seu serviço, exigente madrinha!) um penteador sujo,
uma boceta de dôce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda
enterrou o braço através d'estas coisas intimas, e com um gesto clemente
declarou a Alfandega satisfeita. A dama abalou.

Ficamos sós, Smith e eu. Smith já arrebanhára a custo a minha bagagem.
Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro; e em silencio, com a
guia na mão, um carregador dava uma busca vagarosa através dos fardos,
barricas, pacotes, velhos bahus, armazenados ao fundo, contra a parede
enxovalhada. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante d'um
embrulho de lona, diante d'uma arca de pinho. Seria qualquer d'esses o
saco de couro? Depois, descorçoado, declarou que positivamente nas
nossas bagagens não havia nem couro nem saco. Smith protestava, já
irritado. Então o capataz arrancou a guia das mãos inhabeis do
carregador, e recomeçou elle, com a sua intelligencia superior de chefe,
uma rebusca através das «arrumações», esquadrinhando zelosamente
caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e garrafões...
Por fim sacudiu os hombros, com indizivel tedio, e desappareceu para
dentro, para a escuridão das plataformas interiores. Passados instantes
voltou, coçando a cabeça por baixo do bonet, cravando os olhos em roda,
pelo chão vasio, á espera que o saco rompesse das entranhas d'este globo
desconsolador. Nada! Impaciente, encetei eu proprio uma pesquiza sofrega
através do casarão. O guarda da Alfandega, de cigarro collado ao beiço
(bondoso homem!), deitava tambem aqui e além um olhar auxiliador e
magistral. Nada! Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho na
cabeça, que alli vadiava, n'aquella madrugada agreste, apontou para a
porta da estação:

--Será aquillo, meu senhor?

Era! Era o meu saco, fóra, no passeio, sob a chuvinha miuda. Não
indaguei como elle se encontrava alli, sósinho, separado da bagagem a
que estrictamente o prendia o numero d'ordem estampado na guia em letras
grossas--e reclamei uma tipoia. O carregador atirou a jaleca para cima
da cabeça, sahiu ao largo, e recolheu logo annunciando com melancolia
que não havia tipoias.

--Não ha! Essa é curiosa! Então como sahem d'aqui os passageiros?

O homem encolheu os hombros. «Ás vezes havia, outras vezes não havia,
era conforme calhava a sorte...» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões,
e suppliquei áquelle benemerito que corresse as visinhanças da estação,
á cata d'um vehiculo qualquer com rodas, coche ou carroça, que me
levasse ao conchego d'um caldo e d'um lar. O homem largou, resmungando.
E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e
para o homem da Alfandega) a irregularidade d'aquelle serviço. Em todas
as estações do Mundo, mesmo em Tunis, mesmo na Romelia, havia, á chegada
dos comboios, omnibus, carros, carretas, para transportar gente e
bagagem... Porque não as havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel serviço
que deshonrava a Nação!

O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena consciencia
de que todos os serviços eram abominaveis, e a Patria toda uma
irreparavel desordem. Depois para se consolar puxou com delicia o lume
ao cigarro. Assim se arrastou um d'estes quartos d'hora que fazem rugas
na face humana.

Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, affirmando que não
havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia.

--Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui?

O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manhã seguinte, com
uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura), a viesse
recolher «muito a meu contento». Essa separação porém não convinha ao
meu conforto. Pois n'esse caso elle não via solução, a não ser que por
acaso alguma caleche, tresnoitada e trasmalhada, viesse a cruzar por
aquellas paragens.

Então, á maneira de naufragos n'uma ilha deserta do Pacifico, todos nos
apinhamos á porta da estação, esperando através da treva a vela--quero
dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera esteril! Nenhuma luz de
lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez d'aquelles ermos.

Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que «iam dar tres horas, e
elle queria fechar a estação!» E eu? Ia eu ficar alli na rua, amarrado,
sob a noite agreste, a um montão de bagagens intransportavel? Não! nas
entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericordia. Commovido,
o homem lembrou outra solução. E era que nós, eu e o Smith, ajudados por
um carregador--atirassemos a bagagem para as costas, e marchassemos com
ella para o Hotel. Com effeito este parecia ser o unico recurso aos
nossos males. Todavia (tanto costas amollecidas por longos e deleitosos
annos de civilisação repugnam a carregar fardos, e tão tenaz é a
esperança n'aquelles a quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o
Smith ainda uma vez sahimos ao largo, mudos, sondando a escuridão, com o
ouvido inclinado ao lagedo, a escutar anciosamente se ao longe, muito ao
longe, não sentiriamos rolar para nós o calhambeque da Providencia.
Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha querida madrinha,
seguindo estes lances, deve ter já lagrimas a bailar nas suas
compassivas pestanas. Eu não chorei--mas tinha vergonha, uma immensa e
pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquelle escocez da minha
patria--e de mim, seu amo, parcella d'essa patria desorganisada? Nada
mais fragil que a reputação das nações. Uma simples tipoia que falta de
noite, e eis, no espirito do Estrangeiro, desacreditada toda uma
civilisação secular!

No emtanto o capataz fervia. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto), e
elle queria fechar a estação! Que fazer? Abandonamo-nos, suspirando, á
decisão do desespero. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas:
Smith deitou aos seus respeitaveis hombros, virgens de cargas, uma
grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de
cantoeiras d'aço. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de
dia), começamos, sombrios e em fila, a trilhar _á pata_ a distancia que
vai de Santa Apolonia ao Hotel de Braganza! Poucos passos adiante, como
o estojo de viagem me derreava o braço, atirei-o para as costas... E
todos tres, de cabeça baixa, o dorso esmagado sob dezenas de kilos, com
um intenso azedume a estragar-nos o figado, lá continuamos, devagar,
n'uma fileira soturna, avançando para dentro da capital d'estes reinos!
Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Este era o luxo, este
o repouso! Alli, sob a chuvinha impertinente, offegando, suando,
tropeçando no lagedo mal junto d'uma rua tenebrosa, a trabalhar de
carrejão!...

Não sei quantas eternidades gastamos n'esta via dolorosa. Sei que de
repente (como se a trouxesse, á redea, o anjo da nossa guarda) uma
caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do negrume d'uma viella.
Tres gritos, sofregos e desesperados, estacaram a parelha. E, á uma,
todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque, aos pés do
cocheiro, que, tomado d'assalto e de assombro, ergueu o chicote,
praguejando com furor. Mas serenou, comprehendendo a sua espantosa
omnipotencia--e declarou que ao Hotel de Braganza (uma distancia pouco
maior que toda a Avenida dos Campos Elyseos) não me podia levar por
menos de _tres mil reis_. Sim, minha madrinha, _dezoito francos_!
Dezoito francos em metal, prata ou ouro, por uma corrida, n'esta Idade
democratica e industrial, depois de todo o penoso trabalho das Sciencias
e das Revoluções para igualisarem e embaratecerem os confortos sociaes.
Tremulo de colera, mas submisso como quem cede á exigencia d'um trabuco,
enfiei para a tipoia--depois de me ter despedido com grande affecto do
carregador, camarada fiel da nossa trabalhosa noite.

Partimos emfim, n'um galope desesperado. D'ahi a momentos estavamos
assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques,
clamores, punhadas, cocegas, injurias, gemidos, todas as violencias e
todas as seducções. Debalde! Não foi mais resistente ao bello cavalleiro
Percival o portão de ouro do palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro
atirou-se a ella aos couces. E, decerto por comprehender melhor esta
linguagem, a porta, lenta e estremunhada, rolou nos seus gonzos. Graças
te sejam, meu Deus, pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto, no meio
dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de tão barbara jornada.
Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia:

--Então, são tres mil reis?

Á luz do vestibulo, que me batia a face, o homem sorria. E que ha de
elle responder, o malandro sem par?

--Aquillo era por dizer... Eu não tinha conhecido o snr. D. Fradique...
Lá para o snr. D. Fradique é o que quizer.

Humilhação incomparavel! Senti logo não sei que torpe enternecimento que
me amollecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos
enlaça a todos nós portuguezes, nos enche de culpada indulgencia uns
para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina
e toda a Ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquelle bandido conhecia o
snr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos eramos
portuguezes. Dei uma libra áquelle bandido!

E aqui está, para seu ensino, a veridica maneira por que se entra, no
ultimo quartel do seculo XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu,
aquelle que de longe de si sempre péna--Fradique.



VIII


AO SNR. E. MOLLINET

Director da _Revista de Biographia e de Historia_


                                                      Paris, setembro.


_Meu caro snr. Mollinet._--Encontrei hontem á noite, ao voltar de
Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse
da _Revista de Biographia e de Historia_, me pergunta quem é este meu
compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco), cuja morte está sendo
tão vasta e amargamente carpida nos jornaes de Portugal. E deseja ainda
o meu amigo saber que obras, ou que fundações, ou que livros, ou que
idéas, ou que accrescimo na civilisacão portugueza deixou esse Pacheco,
seguido ao tumulo por tão sonoras, reverentes lagrimas.

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n'um resumo, a sua
figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma
fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e
illustre unicamente porque _tinha um immenso talento_. Todavia, meu caro
snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente
acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva,
expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado,
recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou
a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado, Director geral, Ministro,
Governador de bancos, Conselheiro d'Estado, Par, Presidente do
conselho--Pacheco tudo foi, tudo teve, n'este paiz que, de longe e a
seus pés, o contemplava, assombrado do seu immenso talento. Mas nunca,
n'estas situações, por proveito seu ou urgencia do Estado, Pacheco teve
necessidade de deixar sahir, para se affirmar e operar fóra, aquelle
immenso talento que lá dentro o suffocava. Quando os amigos, os
partidos, os jornaes, as repartições, os corpos collectivos, a massa
compacta da nação, murmurando em redor de Pacheco «_que immenso
talento!_» o convidavam a alargar o seu dominio e a sua fortuna--Pacheco
sorria, baixando os olhos serios por traz dos oculos dourados, e seguia,
sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o
seu immenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre d'um
avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos oculos, bastavam
ao paiz que n'elles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do
talento de Pacheco.

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em
que Pacheco, desdenhando a _Sebenta_, assegurou «que o seculo XIX era um
seculo de progresso e de luz». O curso começou logo a presentir e a
affirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta
admiração cada dia crescente do curso, communicando-se, como todos os
movimentos religiosos, das multidões impressionaveis ás classes
raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um
_premio_ no fim do anno. A fama d'esse talento alastrou então por toda a
academia--que, vendo Pacheco sempre pensabundo, já d'oculos, austero nos
seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia alli um
grande espirito que se concentra e se retesa todo em força intima. Esta
geração academica, ao dispersar, levou pelo paiz, até os mais sertanejos
burgos, a noticia do immenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas
de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia,
com respeito, com esperança:--«Parece que ha agora ahi um rapaz de
immenso talento que se formou, o Pacheco!»

Pacheco estava maduro para a representação nacional. Veio ao seu
seio--trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira, com
dispendios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na
estrellada noite de dezembro em que elle, em Lisboa, foi ao Martinho
tomar chá e torradas, se susurrou pelas mesas, com curiosidade:--«É o
Pacheco, rapaz de immenso talento!» E desde que as Camaras se
constituiram, todos os olhares, os do governo e os da opposição, se
começaram a voltar com insistencia, quasi com anciedade, para Pacheco,
que, na ponta d'uma bancada, conservava a sua attitude de pensador
recluso, os braços cruzados sobre o collete de velludo, a fronte vergada
para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os oculos a
faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da
Corôa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que
arengava sobre a «liberdade». O sacerdote immediatamente estacou com
deferencia; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a
camara cessou o seu desafogado susurro, para que, n'um silencio
condignamente magestoso, se podesse pela vez primeira produzir o immenso
talento de Pacheco. No emtanto Pacheco não prodigalisou desde logo os
seus thesouros. De pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito
seu), Pacheco affirmou n'um tom que trahia a segurança do pensar e do
saber intimo:--«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a
autoridade!» Era pouco, decerto:--mas a camara comprehendeu bem que, sob
aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidavel mundo, de idéas
solidas. Não volveu a fallar durante mezes--mas o seu talento inspirava
tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava
lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu sêr. O unico recurso
que restou então aos devotos d'esse immenso talento (que já os tinha,
incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco--como se olha para o céo
pela certeza que Deus está por traz, dispondo. A testa de Pacheco
offerecia uma superficie escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes,
junto d'elle, Conselheiros, e Directores geraes balbuciavam
maravilhados:--«Nem é necessário mais! Basta vêr aquella testa!»

Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões parlamentares. Nunca
porém accedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades.
Apenas ás vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da
sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma idéa geral
sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente
attitude d'um immenso talento que (como segredavam os seus amigos,
piscando o olho com finura) «está á espera, lá em cima, a pairar».
Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar
superior d'uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento verdadeiro
só devia conhecer as coisas _pela rama_».

Este immenso talento não podia deixar de soccorrer os conselhos da
Corôa. Pacheco, n'uma recomposição ministerial (provocada por uma
roubalheira) foi Ministro:--e immediatamente se percebeu que massiça
consolidação viera dar ao Poder o immenso talento de Pacheco. Na sua
pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos mezes de
gerencia «absolutamente nada», como insinuaram tres ou quatro espiritos
amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro d'este
regimen, a nação deixou de curtir inquietações e duvidas sobre o nosso
Imperio Colonial. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses
supremos d'esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento, ao
talento immenso de Pacheco.

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio
repleto e fecundo. Ás vezes porém, quando a opposição se tornava
clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a
lapis:--e esta nota, traçada com saber e madurissimo pensar, bastava
para perturbar, acuar a opposição. É que o immenso talento de Pacheco
terminára por inspirar, nas camaras, nas commissões, nos centros, um
terror disciplinar! Ai d'esse sobre quem viesse a desabar com colera
aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatavel!
Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se
arrojou a accusar o snr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o
Reino) de descurar a Instrucção do paiz! Nenhuma incriminação podia ser
mais sensivel áquelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e
succulenta, ensinára que «um povo sem o curso dos lyceus é um povo
incompleto». Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou
o homem temerario com esta coisa tremenda:--«Ao illustre deputado que me
censura só tenho a dizer que emquanto, sobre questões d'Instrucção
Publica, s. exc.^a, ahi n'essas bancadas, faz berreiro, eu, aqui n'esta
cadeira, faço luz!»--Eu estava lá, n'esse esplendido momento, na
galeria. E não me recordo de ter jámais ouvido, n'uma assembléa humana,
uma tão apaixonada e fervente rajada de acclamações! Creio que foi d'ahi
a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. Thiago.

O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional.
Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava ás instituições que
servia, todas o appeteceram. Pacheco começou a ser um Director universal
de Companhias e de Bancos. Cubiçado pela Corôa, penetrou no Conselho de
Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe.
Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa reverencia do
seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação.

Á maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia e
dignidades, a admiração pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz
certas fórmas d'expressão só proprias da religião e do amor. Quando elle
foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito
com uncção, reviravam o branco do olho ao céo, para murmurar
piamente:--«Que talento!» E havia amorosos que, cerrando os olhos e
repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com
langor:--«Ai! que talento!» E, para que o esconder? Outros havia, a quem
aquelle immenso talento amargamente irritava, como um excessivo e
desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando
patadas ao chão:--«Irra, que é ter talento de mais!» Pacheco no emtanto
já não fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais
vasta.

Não relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu caro snr.
Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as instituições, reformas,
fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e
socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o
seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua
patria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente
um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal--Pacheco
não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco--Portugal não
seria o que é entre as nações!

A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello
radicalmente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu
immenso talento--mesmo nas minimas coisas. Muito bem me lembro da noite
(sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de
Arrôdes, alguem, com fervor, appeteceu conhecer o que s. exc.^a pensava
de Canovas del Castillo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo
apenas, s. exc.^a deu com a mão grave, de leve, um corte horisontal no
ar. E foi em torno um murmurio d'admiração, lento e maravilhado.
N'aquelle gesto quantas coisas subtis, fundamente pensadas! Eu por mim,
depois de muito esgravatar, interpretei-o d'este modo:--«mediocre,
meia-altura, o snr. Canovas!» Porque, note o meu caro snr. Mollinet como
aquelle talento, sendo tão vasto--era ao mesmo tempo tão fino!

Rebentou;--quero dizer, s. exc.^a morreu, quasi repentinamente, sem
soffrimento, no começo d'este duro inverno. Ia ser justamente creado
marquez de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dôr. Jaz no alto
de S. João, sob um mausoleu, onde por suggestão do snr. conselheiro
Accacio (em carta ao _Diario de Noticias_) foi esculpida uma figura de
_Portugal chorando o Genio_.

Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na
casa do dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excellente
intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei,
diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que era sua e
da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento de Pacheco,
a viuva de Pacheco ergueu n'um brusco espanto, os olhos que conservára
baixos--e um fugidio, triste, quasi apiedado sorriso arregaçou-lhe os
cantos da bôca pallida... Eterno desaccordo dos destinos humanos!
Aquella mediana senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento!
Creia-me, meu caro snr. Mollinet, seu dedicado--Fradique.



IX


A CLARA...

(Trad.)


                                                         Paris, junho.


_Minha adorada amiga._--Não, não foi na _Exposição dos Aguarellistas_,
em março, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por mandado dos
Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi
ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante d'uma console,
cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos seus cabellos
aquelle nimbo d'ouro que tão justamente lhe pertence como «rainha de
graça entre as mulheres». Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir
cançado, o vestido preto com relevos côr de botão d'ouro, o leque antigo
que tinha fechado no regaço. Passei; mas logo tudo em redor me pareceu
irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a _meditar_ em
silencio a sua belleza, que me prendia pelo esplendor patente e
comprehensivel, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual, de
dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão
intensamente me embebi n'essa contemplação, que levei commigo a sua
imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma
ondulação da sêda que a cobria, e corri a encerrar-me com ella,
alvoroçado, como um artista que n'algum escuro armazem, entre poeira e
cacos, descobrisse a Obra sublime d'um Mestre perfeito.

E, porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao principio,
meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada
dôce momento olhava--mas para lhe louvar apenas, com crescente surpreza,
os encantos diversos de Linha e de Côr. Era sómente uma rara tela, posta
em sacrario, immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais
sobre mim que a d'uma fórma muito bella que captiva um gosto muito
educado. O meu sêr continuava livre, attento ás curiosidades que até ahi
o seduziam, aberto aos sentimentos que até ahi o solicitavam;--e só
quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma
occupação mais pura, regressava á Imagem que em mim guardava, como um
Fra Angelico, no seu claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e
ajoelhando ante a Madona a implorar d'ella repouso e inspiração
superior.

Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação perdeu para
mim valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da
minha alma, perdido na admiração da Imagem que lá rebrilhava--até que só
essa occupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci
mais que uma apparencia inconstante, e fui como um monge na sua cella,
alheio ás coisas mais reaes, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para
elle a unica realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pallido e passivo extasi diante da
sua Imagem. Não! era antes um ancioso e forte estudo d'ella, com que eu
procurava conhecer através da Fórma a Essencia, e (pois que a Belleza é
o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as
superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o
segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre, tão
clara e lisa, logo me contou a rectidão do seu pensar: o seu sorriso,
d'uma nobreza tão intellectual, facilmente me revelou o seu desdem do
mundanal e do ephemero, a sua incansavel aspiração para um viver de
verdade e de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma
delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles tão
adoravelmente se confunde, luz de razão, calor de coração, luz que
melhor aquece, calor que melhor alumia... Já a certeza de tantas
perfeições bastaria a fazer dobrar, n'uma adoração perpetua, os joelhos
mais rebeldes. Mas succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que
a sua Essencia se me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma
influencia descia d'ella sobre mim--uma influencia estranha, differente
de todas as influencias humanas, e que me dominava com transcendente
omnipotencia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cella,
comecei a aspirar á santidade, para me harmonisar e merecer a
convivencia com a Santa a que me votára. Fiz então sobre mim um aspero
exame de consciencia. Investiguei com inquietação se o meu pensar era
condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria
desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha
idéa da vida era tão alta e séria como aquella que eu presentira na
espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se o meu coração não se
dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo
vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um arquejante
esforço para subir a uma perfeição identica áquella que em si tão
submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha
educadora. E tão dependente fiquei logo d'esta direcção, que já não
posso conceber os movimentos do meu sêr senão governados por ella e por
ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de
algum valor, idéa ou sentimento, é obra d'essa educação que a sua alma
dá á minha, de longe, só com existir e ser comprehendida. Se hoje me
abandonasse a sua influencia--devia antes dizer, como um asceta, a sua
Graça--todo eu rolaria para uma inferioridade sem remissão. Veja pois
como se me tornou necessaria e preciosa... E considere que, para exercer
esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impôr sobre as
minhas--bastou que eu a avistasse de longe, n'uma festa, resplandecendo.
Assim um arbusto silvestre floresce á borda d'um fôsso, porque lá em
cima nos remotos céos fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece,
e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma...
Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a
Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo,
nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para mim dona de todo o bem.
Só desejo que me deixe viver sob essa influencia, que, emanando do
simples brilho das suas perfeições, tão facil e dôcemente opéra o meu
aperfeiçoamento. Só peço esta permissão caridosa. Veja pois quanto me
conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma adoração que até
receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o vestido da
imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a
toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si, n'um
dia de solidão, a agitada confidencia do meu peito, decerto faria um
acto de ineffavel misericordia--como outr'ora a Virgem Maria quando
animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo n'uma nuvem e
concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cahir entre as
mãos erguidas uma rosa do Paraiso. Assim, ámanhã, vou passar a tarde com
Madame de Jouarre. Não ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida,
mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em
pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um
sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que este meu amor, ou este
meu sentimento indescripto e sem nome que vai além do amor, encontra
ante seus olhos piedade e permissão para esperar.--Fradique.



X


A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)


                                                        Lisboa, junho.


_Minha excellente madrinha._--Eis o que tem «visto e feito», desde maio,
na formosissima Lisboa, _Ulyssipo pulcherrima_, o seu admiravel
afilhado. Descobri um patricio meu, das Ilhas, e meu parente, que vive
ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no terceiro andar
d'uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito livre,
emprehendedor e destro, paladino das Idéas Geraes, o meu parente, que se
chama Procopio, considerando que a mulher não vale o tormento que
espalha, e que os oitocentos mil reis de um olival bastam, e de sobra, a
um espiritualista--votou a sua vida á Logica e só se interessa e soffre
pela Verdade. É um philosopho alegre; conversa sem berrar; tem uma
aguardente de muscatel excellente;--e eu trepo com gosto duas ou tres
vezes por semana á sua officina de Metaphysica a saber se, conduzido
pela alma dôce de Maine de Biran, que é o seu cicerone nas viagens do
Infinito, elle já entreviu emfim, disfarçada por traz dos seus
derradeiros véos, a Causa das Causas. N'estas piedosas visitas vou,
pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que n'esse terceiro andar
da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze tostões por
dia, fóra vinho e roupa lavada. Quasi todas as profissões em que se
occupa a classe-média em Portugal estão aqui representadas com
fidelidade, e eu posso assim estudar, sem esforço, como n'um indice, as
idéas e os sentimentos que no nosso Anno da Graça formam o fundo moral
da nação.

Esta casa de hospedes offerece encantos. O quarto do meu primo Procopio
tem uma esteira nova, um leito de ferro philosophico e virginal, cassa
vistosa nas janellas, rosinhas e aves pela parede,--e é mantido em
rigido asseio por uma d'estas creadas como só produz Portugal, bella
moça de Traz-os-Montes, que, arrastando os seus chinelos com a
indolencia grave d'uma nympha latina, varre, esfrega e arruma todo o
andar; serve nove almoços, nove jantares e nove chás; escarolla as
louças; prega esses botões de calças e de ceroulas que os portuguezes
estão constantemente a perder; engomma as saias da Madama; reza o terço
da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar desesperadamente um
barbeiro visinho, que está decidido a casar com ella quando fôr
empregado na Alfandega. (E tudo isto por tres mil reis de soldada). Ao
almoço ha dois pratos, sãos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do
lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das
Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da Rethia--_quo te carmine
dicam, Rethica?_ A torrada, tratada pelo lume forte, é incomparavel. E
os quatro paineis que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, já
morto, que é tido pelos portuguezes em grande veneração), uma imagem de
Pio IX sorrindo e abençoando, uma vista da varzea de Collares, e duas
donzellas beijocando uma rôla, inspiram as salutares idéas, tão
necessarias, de Ordem Social, de Fé, de Paz campestre, e de Innocencia.

A patrôa, D. Paulina Soriana, é uma Madama de quarenta outonos,
frescalhota e roliça, com um pescoço muito nedio, e toda ella mais
branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de sêda roxa.
Parece uma excellente senhora, paciente e maternal, de bom juizo e de
boa economia. Sem ser rigorosamente viuva--tem um filho, já gordo
tambem, que roe as unhas e segue o curso dos lyceus. Chama-se Joaquim,
e, por ternura, Quinzinho; soffreu esta primavera não sei que duro mal
que o forçava a infindaveis orchatas e semicupios; e está destinado por
D. Paulina á Burocracia que ella considera, e muito justamente, a
carreira mais segura e a mais facil.

--O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel senhora,
depois do almoço, traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um
emprego; fica logo arrumado; o trabalho é pouco e o ordenadosinho está
certo ao fim do mez.

Mas D. Paulina está tranquilla com a carreira do Quinzinho. Pela
influencia (que é toda-poderosa n'estes Reinos) d'um amigo certo, o snr.
conselheiro Vaz Netto, ha já no Ministerio das Obras Publicas ou da
Justiça uma cadeira de amanuense, reservada, marcada com lenço, á espera
do Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames,
já o snr. conselheiro Vaz Netto lembrou que, visto elle se mostrar assim
desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era não teimar mais
nos estudos e no Lyceu, e entrar immediatamente para a repartição...

--Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas
confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. Não era pela
necessidade, e por causa do emprego, como v. exc.^a vê: era pelo gosto.

Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente garantida. De resto
supponho que D. Paulina junta um peculio prudente. Na casa, bem
afreguezada, ha agora sete hospedes--e todos fieis, solidos, gastando,
com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais
antigo, o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente já conheço) é o
Pinho--o Pinho brazileiro, o commendador Pinho. É elle quem todas as
manhãs annuncia a hora do almoço (o relogio do corredor ficou
desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto ás dez horas,
pontualmente, com a sua garrafa d'agua de Vidago, e vindo occupar á
mesa, já posta, mas ainda deserta, a sua cadeira, uma cadeira especial
de verga, com almofadinha de vento. Ninguem sabe d'este Pinho nem a
idade, nem a familia, nem a terra de provincia em que nasceu, nem o
trabalho que o occupou no Brazil, nem as origens da sua commenda. Chegou
uma tarde de inverno n'um paquete da Mala Real; passou cinco dias no
Lazareto; desembarcou com dois bahús, a cadeira de verga, e cincoenta e
seis latas de dôce de tijolo; tomou o seu quarto n'esta casa de
hospedes, com janella para a travessa; e aqui engorda, pacifica e
risonhamente, com o seis por cento das suas inscripções. É um sujeito
atochado, baixote, de barba grisalha, a pelle escura, toda em tons de
tijolo e de café, sempre vestido de casimira preta, com uma luneta
d'ouro pendente d'uma fita de sêda, que elle, na rua, a cada esquina,
desemmaranha do cordão d'ouro do relogio para lêr com interesse e
lentidão os cartazes dos theatros. A sua vida tem uma d'essas prudentes
regularidades que tão admiravelmente concorrem para crear a ordem nos
Estados. Depois de almoço calça as botas de cano, lustra o chapéo de
sêda, e vai muito devagar até á rua dos Capellistas, ao escriptorio
terreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado n'um môcho,
junto do balcão, com as mãos cabelludas encostadas ao cabo do
guarda-sol. Depois entala o guarda-sol debaixo do braço, e pela rua do
Ouro, com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de
sêdas mais tufadas ou alguma vittoria de librés mais lustrosas, alonga
os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde bebe um copo de agua de
Caneças, e repousa até que a tarde refresque. Segue então para a
Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da cidade, sentado n'um banco; ou dá
a volta ao Rocio, sob as arvores, com a face erguida e dilatada em
bem-estar. Ás seis recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, calça os
chinelos de marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta,
repetindo sempre a sopa. Depois do café dá um «hygienico» pela Baixa,
com demoras pensativas, mas risonhas, diante das vitrines de confeitaria
e de modas; e em certos dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova
da Trindade, e regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o
Gymnasio. Todas as sextas-feiras entra no seu banco, que é o _London
Brazilian_. Aos domingos, á noitinha, com recato, visita uma moça gorda
e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro das
suas inscripcões.

Toda a sua existencia é assim um pautado repouso. Nada o inquieta, nada
o apaixona. O universo, para o commendador Pinho, consta de duas unicas
entidades--elle proprio, Pinho, e o Estado que lhe dá o seis por cento:
portanto o universo todo está perfeito, e a vida perfeita, desde que
Pinho, graças ás aguas de Vidago, conserve appetite e saude, e que o
Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto, pouco lhe basta
para contentar a porção d'Alma e Corpo de que apparentemente se compõe.
A necessidade que todo o sêr vivo (mesmo as ostras, segundo affirmam os
Naturalistas) tem de communicar com os seus semelhantes por meio de
gestos ou sons, é em Pinho pouco exigente. Pelos meados d'abril, sorri e
diz, desdobrando o guardanapo--«temos o verão comnosco»: todos concordam
e Pinho goza. Por meados d'outubro, corre os dedos pela barba e
murmura--«temos comnosco o inverno»: se outro hospede discorda, Pinho
emmudece, porque teme controversias. E esta honesta permutação de idéas
lhe basta. Á mesa, comtanto que lhe sirvam uma sopa succulenta, n'um
prato fundo, que elle possa encher duas vezes--fica consolado e disposto
a dar graças a Deus. O _Diario de Pernambuco_, o _Diario de Noticias_,
alguma comedia do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra essas
outras necessidades de intelligencia e de imaginação, que Humboldt
encontrou mesmo entre os Botecudos. Nas funcções do sentimento Pinho só
pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) «não apanhar
uma doença». Com as coisas publicas está sempre agradado, governe este
ou governe aquelle, comtanto que a policia mantenha a ordem, e que não
se produzam nos principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do
coupon. E emquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como elle a
mim proprio me assegurou)--«só deseja depois de morto que o não enterrem
vivo». Mesmo ácerca d'um ponto tão importante, como é para um
commendador o seu mausoléo, Pinho pouco requer:--apenas uma pedra lisa e
decente, com o seu nome, e um singelo _orai por elle_.

Errariamos porém, minha querida madrinha, em suppôr que Pinho seja
alheio a tudo quanto seja humano. Não! Estou certo que Pinho respeita e
ama a humanidade. Sómente a humanidade, para elle, tornou-se no decurso
da sua vida excessivamente restricta. Homens, homens serios,
verdadeiramente merecedores d'esse nobre nome, e dignos de que por elles
se mostre reverencia, affecto, e se arrisque um passo que não cance
muito--para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Assim, meu primo
Procopio, com uma malicia bem inesperada n'um espiritualista, contou-lhe
ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu possuia muitos
papeis! muitas apolices! muitas inscripções!... Pois na primeira manhã
que voltei, depois d'essa revelação, á casa de hospedes, Pinho,
ligeiramente córado, quasi commovido, offereceu-me uma boceta de dôce de
tijolo embrulhada n'um guardanapo. Acto tocante, que explica aquella
alma! Pinho não é um egoista, um Diogenes de rabôna preta, sêccamente
retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. Não. Ha n'elle toda a
humana vontade de amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar.
Sómente quem são, para Pinho, os seus genuinos «semelhantes»? Os
prestamistas do Estado. E em que consiste para Pinho o acto de
beneficio? Na cessão aos outros d'aquillo que a elle lhe é inutil. Ora
Pinho não se dá bem com o uso da goiabada--e logo que soube que eu era
um possuidor de inscripções, um seu semelhante, capitalista como elle,
não hesitou, não se retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o
acto de beneficio, e lá veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dôce
dentro d'um guardanapo.

É o commendador Pinho um cidadão inutil? Não, certamente! Até para
manter em estabilidade e solidez a ordem d'uma nação, não ha mais
prestadio cidadão do que este Pinho, com a sua placidez de habitos, o
seu facil assentimento a todos os feitios da coisa publica, a sua conta
do banco verificada ás sextas-feiras, os seus prazeres colhidos em
hygienico recato, a sua reticencia, a sua inercia. D'um Pinho nunca póde
sahir idéa ou acto, affirmação ou negação, que desmanche a paz do
Estado. Assim gordo e quieto, collado sobre o organismo social, não
concorrendo para o seu movimento, mas não o contrariando tambem, Pinho
apresenta todos os caracteres d'uma excrescencia sebacea. Socialmente,
Pinho é um lobinho. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos
nossos tempos, em que o Estado está cheio de elementos morbidos, que o
parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobreexcitam, esta
inoffensibilidade de Pinho póde mesmo (em relação aos interesses da
ordem) ser considerada como qualidade meritoria. Por isso o Estado,
segundo corre, o vai crear barão. E barão d'um titulo que os honra a
ambos, ao Estado e a Pinho, porque é n'elle simultaneamente prestada uma
homenagem graciosa e discreta á Familia e á Religião. O pae de Pinho
chamava-se Francisco--Francisco José Pinho. E o nosso amigo vai ser
feito barão de S. Francisco.

Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de
chuva! Desde o começo de junho e das rosas, que n'este paiz de sol sobre
azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Phebo, está
chovendo, chovendo em fios d'agua cerrados, continuos, imperturbados,
sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantise,
formando das nuvens ás ruas uma trama molle de humidade e tristeza, onde
a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias d'uma
aranha. Estamos em pleno versiculo XVII, do capitulo VII do Genesis. No
caso d'estas aguas do céo não cessarem, eu concluo que as intenções de
Jehovah, para com este paiz peccador, são diluvianas; e, não me julgando
menos digno da Graça e da Alliança divina do que Noé, vou comprar
madeira e betume, e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou
assyrios. Se por acaso d'aqui a tempos uma pomba branca fôr bater com as
azas á sua vidraça, sou eu que aportei ao Havre na minha Arca, levando
commigo, entre outros animaes, o Pinho e a D. Paulina, para que mais
tarde, tendo baixado as aguas, Portugal se repovoe com proveito, e o
Estado tenha sempre Pinhos a quem peça dinheiro emprestado, e Quinzinhos
gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do
coração--Fradique.



XI


A MR. BERTRAND B.

_Engenheiro na Palestina_


                                                         Paris, abril.


_Meu caro Bertrand._--Muito ironicamente, hoje, n'este Domingo de
Paschoa em que os céos contentes, se revestiram paschalmente d'uma
chasula d'ouro e d'azul, e os lilazes novos perfumam o meu jardim para o
santificar, me chega a tua horrenda carta, contando que findaste o
traçado do _Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem_! E triumphas!
Decerto, á porta de Damasco, com as botas fortes enterradas no pó de
Josaphat, o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular de propheta, o
lapis ainda errante sobre o papel, sorris, todo te dilatas, e através
das lunetas defumadas contemplas, marcada por bandeirinhas, a «linha»
onde em breve, fumegando e guinchando, rolará da velha Jeppo para a
velha Sião o negro comboio da tua negra obra! Em redor os empreiteiros,
limpando o grosso suor da façanha, desarrolham as garrafas da cerveja
festiva! E por traz de vós o Progresso, hirto contra as muralhas de
Herodes, todo engonçado, todo aparafusado, tambem triumpha, esfregando,
com estalidos asperos, as suas rigidas mãos de ferro fundido.

Bem o sinto, bem o comprehendo o teu escandaloso traçado, oh filho
dilecto e fatal da Escóla de Pontes e Calçadas! Nem necessitava esse
plano com que me deslumbras, todo em linhas escarlates, parecendo golpes
d'uma faca vil por cima d'uma carne nobre. É em Jaffa, na antiquissima
Jeppo, já heroica e santa antes do Diluvio, que a tua primeira Estação
com os alpendres, e a carvoeira, e as balanças, e a sineta, e o chefe de
bonet agaloado, se ergue entre esses laranjaes, gabados pelo Evangelho,
onde S. Pedro, correndo aos brados das mulheres, resuscitou Dorcas, a
boa tecedeira, e a ajudou a sahir do seu sepulchro. D'ahi a locomotiva,
com a sua 1.^a classe forrada de chita, rola descaradamente pela
planicie de Saaron, tão amada do céo, que, mesmo sob o bruto pisar das
hordas philistinas, nunca n'ella murchavam anemonas e rosas. Corta
através de Beth-Dagon, e mistura o pó do seu carvão de Cardiff ao
vetusto pó do Templo de Baal, que Samsão, mudo e repassado de tristeza,
derrocou movendo os hombros. Corre por sobre Lydda, e atrôa com guinchos
o grande S. Jorge, que ainda couraçado, emplumado, e o guante sobre a
espada, alli dorme o seu somno terrestre. Toma agua, por um tubo de
couro, do Poço Santo d'onde a Virgem na fugida para o Egypto, repousando
sob o figueiral, deu de beber ao Menino. Pára em Ramleh, que é a velha
Arymathea (_Arymathea, quinze minutos de demora!_), a aldeia dos dôces
hortos e do homem dôce que enterrou o Senhor. Fura, por tunneis
fumarentos, as collinas de Judá, onde choraram os prophetas. Rompe por
entre ruinas que foram a cidadella e depois a sepultara dos Machabeus.
Galga, n'uma ponte de ferro, a torrente em que David errante escolhia
pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Colleia e arqueja pelo
valle melancolico que habitou Jeremias. Suja ainda Emmauz, vara o
Cedron, e estaca emfim, suada, azeitada, sordida de felugem, no valle de
Hennom, no _terminus_ de Jerusalem!

Ora, meu bom Bertrand, eu que não sou das Pontes e Calçadas, nem
accionista da _Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina_, apenas um
peregrino saudoso d'esses logares adoraveis, considero que a tua obra de
civilisação é uma obra de profanação. Bem sei, engenheiro! S. Pedro
resuscitando a velha Dorcas; a florescencia miraculosa das roseiras de
Saaron; o Menino bebendo, na fuga para o Egypto, á sombra das arvores
que os anjos iam adiante semeando,--são fabulas... Mas são fabulas que
ha dois mil annos dão encanto, esperança, abrigo consolador, e energia
para viver a um terço da Humanidade. Os logares onde se passaram essas
historias, decerto muito simples e muito humanas, que depois, pela
necessidade que a alma tem do Divino, se transformaram na tão linda
mythologia christã, são por isso veneraveis. N'elles viveram,
combateram, ensinaram, padeceram, desde Jacob até S. Paulo, todos os
sêres excepcionaes que hoje povoam o céo. Jehovah só entre esses montes
se mostrava, com terrifico esplendor, no tempo em que visitava os
homens. Jesus desceu a esses valles pensativos para renovar o mundo.
Sempre a Palestina foi a residencia preferida da Divindade. Nada de
Material devia pois desmanchar o seu recolhimento Espiritual. E é penoso
que a fumaraça do Progresso suje um ar que conserva o perfume da
passagem dos anjos, e que os seus trilhos de ferro revolvam o sólo onde
ainda não se apagaram as pégadas divinas.

Tu sorris, e accusas precisamente a velha Palestina de ser uma
incorrigivel fonte de Illusão. Mas a illusão, Bertrand amigo, é tão util
como a certeza: e na formação de todo o espirito, para que elle seja
completo, devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de
Euclides. Destruir a influencia religiosa e poetica da Terra Santa,
tanto nos corações simples como nas intelligencias cultas, é um
retrocesso na Civilisação, na verdadeira, n'aquella de que tu não és
obreiro, e que tem por melhor esforço aperfeiçoar a Alma do que reforçar
o Corpo, e, mesmo pelo lado da utilidade, considera um Sentimento mais
util do que uma Machina. Ora, locomotivas manobrando pela Judéa e
Galiléa, com a sua materialidade de carvão e ferro, o seu
desenvolvimento inevitavel de hoteis, omnibus, bilhares e bicos de gaz,
destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra-dos-Milagres, porque
a modernisam, a industrialisam, a banalisam...

Esse poder, essa influencia espiritual da Palestina, de que provinha? De
ella se ter conservado, através d'estes quatro mil annos, immutavelmente
_biblica_ e _evangelica_... Decerto sobrevieram mudanças em Israel; a
administração turca tem menos esplendor que a administração romana; dos
vergeis e jardins que cercavam Jerusalem, só resta penhasco e ortiga; as
cidades, esboroadas, perderam o seu heroismo de cidadellas; o vinho é
raro; todo o saber se apagou; e não duvido que aqui e além, em Sião,
n'algum terraço de mercador levantino, se assobie ao luar a valsa de
_Madame Angot_.

Mas a vida intima, na sua fórma rural, urbana ou nomada, as maneiras, os
costumes, os ceremoniaes, os trajes, os utensilios,--tudo permanece como
nos tempos de Abrahão e nos tempos de Jesus. Entrar na Palestina é
penetrar n'uma Biblia viva. As tendas de pelle de cabra plantadas á
sombra dos sycomoros; o pastor apoiado á sua alta lança, seguido do seu
rebanho; as mulheres, veladas de amarello ou branco, cantando, a caminho
da fonte, com o seu cantaro no hombro; o montanhez atirando a funda ás
aguias; os velhos sentados, pela frescura da tarde, á porta das villas
muradas; os claros terraços cheios de pombas; o escriba que passa, com o
seu tinteiro dependurado da cinta; as servas moendo o grão; o homem de
longos cabellos nazarenos que nos saúda com a palavra de _paz_, e que
conversa comnosco por parabolas; a hospedeira que nos acolhe, atirando,
para passarmos, um tapete ante o limiar da sua morada; e ainda as
procissões nupciaes, e as danças lentas ao rufe-rufe das pandeiretas, e
as carpideiras em torno aos sepulchros caiados,--tudo transporta o
peregrino á velha Judéa das Escripturas, e de um modo tão presente e
real, que a cada momento duvidamos se aquella ligeira e morena mulher,
com largas argolas d'ouro e um aroma de sandalo, que conduz um cordeiro
preso pela ponta do manto, não será ainda Rachel, ou se, entre os homens
sentados além, á sombra da figueira e da vinha, aquelle de curta barba
frisada, que ergue o braço, não será Jesus ensinando.

Esta sensação, preciosa para o crente, é preciosa para o intellectual,
porque o põe n'uma communhão flagrante com um dos mais maravilhosos
momentos da Historia Humana. Decerto seria igualmente interessante (mais
interessante talvez) que se podesse colher a mesma emoção na Grecia, e
que ahi encontrassemos ainda nos seus trajes, nas suas maneiras, na sua
sociabilidade, a grande Athenas de Pericles. Infelizmente, essa Athenas
incomparavel jaz morta, para sempre soterrada, desfeita em pó, sob a
Athenas romana, e a Athenas byzantina, e a Athenas barbara, e a Athenas
musulmana, e a Athenas constitucional e sordida. Por toda a parte o
velho scenario da historia está assim esfrangalhado e em ruinas. Os
proprios montes perderam, ao que parece, a configuração classica: e
ninguem póde achar no Lacio o rio e o fresco valle que Virgilio habitou
e tão virgilianamente cantou. Um unico sitio na terra permanecia ainda
com os aspectos, os costumes, com que o tinham visto, e de que tinham
partilhado, os homens que deram ao mundo uma das suas mais altas
transformações:--e esse sitio era um pedaço da Judéa, da Samaria e da
Galiléa. Se elle fôr grosseiramente modernisado, nivelado ao prototypo
social, querido do seculo, que é o districto de Liverpool ou o
departamento de Marselha, e se assim desapparecer para sempre a
opportunidade educadora de _vêr_ uma grande imagem do Passado, que
profanação, que devastação bruta e barbara! E por perder essa fórma
sobrevivente das civilisações antigas, o thesouro do nosso saber e da
nossa inspiração fica irreparavelmente diminuido.

Ninguem mais do que eu, decerto, aprecia e venera um caminho de ferro,
meu Bertrand;--e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus,
como Jesus subia do valle de Jerichó para Jerusalem, escarranchado n'um
burro. As coisas mais uteis, porém, são importunas, e mesmo
escandalosas, quando invadem grosseiramente logares que lhes não são
congeneres. Nada mais necessario na vida do que um restaurante: e
todavia ninguem, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se
installasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o
seu cheiro a guisados,--nas naves de Norte-Dame ou na velha Sé de
Coimbra. Um caminho de ferro é obra louvavel entre Paris e Bordeus.
Entre Jerichó e Jerusalem basta a egua ligeira que se aluga por dois
drachmas, e a tenda de lona que se planta á tarde entre os palmares, á
beira de uma agua clara, e onde se dorme tão santamente sob a paz
radiante das estrellas da Syria.

E são justamente essa tenda, e o camello grave que carrega os fardos, e
a escolta flammejante de beduinos, e os pedaços de deserto onde se
galopa com a alma cheia de liberdade, e o lyrio de Salomão que se colhe
nas fendas d'uma ruina sagrada, e as frescas paragens junto aos poços
biblicos, e as rememorações do Passado á noite em torno á fogueira do
acampamento, que fazem o encanto da jornada, e attrahem o homem de gosto
que ama as emoções delicadas de Natureza, Historia e Arte. Quando de
Jerusalem se partir para a Galiléa n'um wagon estridente e cheio de pó,
talvez ninguem emprehenda a peregrinação magnifica--a não ser o destro
_commis-voyageur_ que vai vender pelos Bazares chitas de Manchester ou
pannos vermelhos de Sedan. O teu negro comboio rolará vazio. Que pura
alegria essa para todos os entendimentos cultos--que não sejam
accionistas dos _Caminhos de Ferro da Palestina_!...

Mas socega, Bertrand, engenheiro e accionista! Os homens, mesmo os que
melhor servem o Ideal, nunca resistem ás tentações sensualistas do
Progresso. Se d'um lado, á sahida de Jaffa, a propria caravana da Rainha
de Sabá, com os seus elephantes e onagros, e estandartes, e lyras, e os
arautos coroados de anemonas, e todos os fardos abarrotados de pedrarias
e balsamos, infindavel em poesia e lenda, se offerecesse ao homem do
seculo XIX para o conduzir lentamente a Jerusalem e a Salomão--e do
outro lado um comboio, silvando, de portinholas abertas, lhe promettesse
a mesma jornada, sem soalheiras nem solavancos, a vinte kilometros por
hora, com bilhete d'ida e volta, esse homem, por mais intellectual, por
mais eruditamente artista, agarraria a sua chapelleira e enfiaria
sofregamente para o wagon, onde podesse descalçar as botas, e dormitar
de ventre estendido.

Por isso a tua obra maligna prosperará pela propria virtude da sua
malignidade. E, dentro de poucos annos, o occidental positivo que de
manhã partir da velha Jeppo, no seu wagon de 1.^a classe, e comprar na
estação de Gaza a _Gazeta Liberal do Sinai_, e jantar divertidamente em
Ramleh no _Grand-Hotel dos Machabeus_--irá, á noite, em Jerusalem,
através da _Via Dolorosa_ illuminada pela electricidade, beber um bock e
bater tres carambolas no _Casino do Santo Sepulchro_!

Será este o teu feito--e o fim da lenda christã.

Adeus, monstro!--Fradique.



XII


A MADAME DE JOUARRE


                                           Quinta de Refaldes (Minho).


_Minha querida madrinha._--Estou vivendo pinguemente em terras
ecclesiasticas, porque esta quinta foi de frades. Agora pertence a um
amigo meu, que é, como Virgilio, poeta e lavrador, e canta piedosamente
as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda
os seus gados. Rijo, viçoso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com
que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E
eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do Norte para ser
padrinho do derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, côr de tijolo,
todo roscas e regueifas, com uma careca de melão, os olhinhos luzindo
entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente sceptico e velho. No
sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S. Bernardo tornára
especialmente vistoso e macio, ao repicar dos sinos claros, entre aromas
de roseira, e jasmineiro, lá o conduzimos, todo enfeitado de laçarotes e
rendas, á Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida
crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares até á
moleirinha o cobria todo, pobre senhor de tres palmos que ainda não
vivera da alma, e já perdera a alma... E desde então, como se Refaldes
fosse a ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da couve-flôr
da horta a flôr do Lotus, por aqui me quedei, olvidado do mundo e de
mim, na doçura d'estes ares, d'estes prados, de toda esta rural
serenidade, que me affaga e me adormece.

O casarão conventual que habitamos, e onde os conegos Regrantes de Santo
Agostinho, os ricos e nedios Cruzios, vinham preguiçar no verão, prende
por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte,
com um adro assombreado por castanheiros, pensativo, grave, como são
sempre os do Minho. Uma cruz de pedra encima o portão, onde pende ainda
da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do
pateo, a fonte, de boa agua, que canta adormecidamente cahindo de concha
em concha, tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento
reveste de melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago
caseiro orlado de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber
pelas tardes de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta,
brota dos pés de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que é talvez
Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa franzina, sustentando
nas mãos um vaso partido, preside, como uma nayade, ao borbulhar de
outra fonte, que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo através do
feijoal. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma
cruz gravada, ou um coração sagrado, ou o monogramma de Jesus. Toda a
quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma sacristia onde
os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos, por cada fenda
borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.

Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos môva; ou
severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi
sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de pão, bem arada
e bem regada, fecunda, estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga.
Os frades excellentes que n'ella habitaram amavam largamente a terra e a
vida. Eram fidalgos que tomavam serviço na milicia do Senhor, como os
seus irmãos mais velhos tomavam serviço na milicia d'El-rei--e que, como
elles, gozavam risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da
sua Ordem e da sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho,
em seges e com lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja--e
todos os dias os capões alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava
a livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido
nas almofadas da sua cella mandava buscar o _D. Quichote_, ou as _Farças
de D. Petronilla_. Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e
notas traçadas pela mão erudita dos Abbades--só a adega...

Não se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso sabor das
tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle, cheias de ermo
e mudez, tão dôces para n'ellas se curtirem deliciosamente as saudades
do céo; nem as espessuras de bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por
n'ellas encontrar melhor que na sua cella a «fecunda solidão»; nem os
claros de pinheiral gemente, com rochas núas, tão proprias para a choça
e para a cruz do ermita... Não! Aqui, em torno do pateo (onde a agua da
fonte todavia corre dos pés da cruz) são solidas tulhas para o grão,
fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas de capões e de
perús reverendos. Adiante é a horta viçosa, cheirosa, succulenta,
bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um
jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas
ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e
alisada, rijamente construida para longos seculos de colheitas, com o
seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os
pardaes voam dentro como n'um pedaço de céo. E por fim, ondulando
ricamente até ás collinas macias, os campos de milho, e de centeio, o
vinhedo baixo, os olivaes, os relvados, o linho sobre os regatos, o
matto florido para os gados... S. Francisco de Assis e S. Bruno
abominariam este retiro de frades e fugiriam d'elle, escandalisados,
como de um peccado vivo.

A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas
espaçosas, de tectos apainelados, abrem para as terras semeadas, e
recebem d'ellas, através da vidraçaria cheia de sol, a perenne sensação
de fartura, de opulencia rural, de bens terrenos que não enganam. E a
sala melhor, traçada para as occupações mais gratas, é o refeitorio, com
as suas varandas rasgadas, onde os regalados monges podessem, ao fim do
jantar, conforme a veneravel tradição dos Cruzios, beber o seu café aos
golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquidão, ou seguindo nas
faias do pateo o cantar alto d'um melro.

De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de
religiosa passou a secular. Estava já sabiamente preparada para a
profanidade;--e a vida que n'ella então se começou a viver, não foi
differente da do velho convento, apenas mais bella, porque, livre das
contradicções do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou
perfeita. E, tal como é, deslisa com incomparavel doçura. De madrugada,
os gallos cantam, a quinta acorda, os cães de fila são acorrentados, a
moça vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado ao hombro, a
fila dos jornaleiros mette-se ás terras--e o trabalho principia, esse
trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa
sempre incansavel, porque é todo feito a cantar. As vozes vêm, altas e
desgarradas, no fino silencio, d'além, d'entre os trigos, ou do campo em
sacha, onde alvejam as camisas de linho crú, e os lenços de longas
franjas vermelhejam mais que papoulas. E não ha n'este labor nem dureza,
nem arranque. Todo elle é feito com a mansidão com que o pão amadurece
ao sol. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por
si, amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o torrão
tem sêde, e corre para lá gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios
bemditos permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que
tudo propicia e soccorre. Ella reforça o braço do lavrador, torna
refrescante o seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por
isso os que a servem, mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura.
Essa era a ditosa feição da vida antiga.

Á uma hora é o jantar, serio e pingue. A quinta tudo fornece
prodigamente:--e o vinho, o azeite, a hortaliça, a fructa têm um sabor
mais vivo e são, assim cabidos das mãos do bom Deus sobre a mesa, sem
passar pela mercancia e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa
superfina, se come na verdade tão deliciosamente como n'estas rusticas
quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e
quatro achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas
arregaçadas, guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter, esse
transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu, e mais
nobremente soube comer, desde que ha Deuses no céo e na terra. Quem
nunca provou este arroz de caçoula, este anho paschal candidamente
assado no espeto, estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que
enchem a alma, não póde realmente conhecer o que seja a especial
bemaventurança tão grosseira e tão divina, que no tempo dos frades se
chamava a _comezaina_. E a quinta depois, com as suas latadas de sombra
macia, a dormente susurração das aguas regantes, os ouros claros e
foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso
humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e
risonho, d'este arroz e d'este anho!

Se estes meios-dias são um pouco materiaes, breve a tarde trará a porção
de poesia de que necessita o Espirito. Em todo o céo se apagou a
refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quasi
repelle; agora apaziguado e tratavel, elle derrama uma doçura, uma
pacificação que penetra na alma, a torna tambem pacifica e dôce, e cria
esse momento raro em que céo e alma fraternisam e se entendem. Os
arvoredos repousam n'uma immobilidade de contemplação, que é
intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e
consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, cançada
e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da agua sob a
cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se
está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de
matto, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e
terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente,
fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em
harmonia com ella, que não ha n'esta alma, toda encrostada das lamas do
mundo, pensamento que não podesse contar a um santo...

Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito longe,
para além dos pinhaes e das collinas, como uma miseria esquecida:--e
estamos então realmente na felicidade de um convento, sem regras e sem
abbade, feito só da religiosidade natural que nos envolve, tão propria á
oração que não tem palavras, e que é por isso a mais bem comprehendida
por Deus.

Depois escurece, já ha pyrilampos nas sebes. Venus, pequenina, scintilla
no alto. A sala, em cima, está cheia de livros, dos livros fechados no
tempo dos Cruzios--porque só desde que não pertence a uma ordem
espiritual é que esta casa se espiritualisou. E o dia na quinta finda
com uma lenta e quieta palestra sobre idéas e letras, emquanto na
guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e
em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde,
como a escutar, por detraz dos negros montes.

_Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae_... Mau
latim--grata verdade.

Seu grato e mau afilhado--Fradique.



XIII


A CLARA...

(_Trad._)


                                                      Paris, novembro.


_Meu amor._--Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que
tanto gastei n'um _fiacre_ desolador desde a nossa _Torre de Marfim_) eu
sentia o rumor do teu coração junto do meu, sem que nada os separasse
senão uma pouca de argilla mortal, em ti tão bella, em mim tão rude--e
já estou tentando recontinuar anciosamente, por meio d'este papel
inerte, esse ineffavel _estar comtigo_ que é hoje todo o fim da minha
vida, a minha suprema e unica vida. É que, longe da tua presença, cesso
de viver, as coisas para mim cessam de ser--e fico como um morto jazendo
no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto
momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu
nome--recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma
resurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva--que
era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste,
dôce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permittir que
eu bradasse tambem triumphalmente o meu--«_amo, logo existo!_» E não foi
só a minha realidade que me desvendaste--mas ainda a realidade de todo
este Universo, que me envolvia como um inintelligivel e cinzento montão
de apparencias. Quando ha dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te
queixavas que eu contemplasse as estrellas estando tão perto dos teus
olhos, e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus
hombros--não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa
contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente
estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas
derramas por uma emanação que te é propria, e que, antes de viver a teu
lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das
rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha
bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha
Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso
affirmar:--«Tambem fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flôr
que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a
Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei--e vi e senti a verdade!...»

E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu és tão
sumptuosamente bella e tão ethereamente bella, d'uma belleza feita de
Céo e de Terra, belleza completa e só tua, que eu já concebera--que
nunca julgára realizavel. Quantas vezes, ante aquella sempre admirada e
toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa
podessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e
mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus labios, só talhados
para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma
prece submissa; se, sob esses seios, que foram o appetite sublime dos
Deuses e dos Heroes, um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o
seu marmore soffresse, e pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando
ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ella fosse do nosso
tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se
tornasse Senhora da Dôr--então não estaria collocada n'um museu, mas
consagrada n'um santuario, porque os homens, ao reconhecer n'ella a
alliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto
a teriam acclamado _in eternum_ como a definitiva Divindade. Mas quê! A
pobre Venus só offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe
faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura incomparavel
do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e Dolorosa, não existia,
nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu
te comprehendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes d'um sonho que
deve ser universal--mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por
mim quizeste ser descoberta!

Vê, pois, se jámais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo
que és a minha Divindade,--para sempre e irremediavelmente estás presa
dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás
lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals.
Assim te quero tambem, acorrentada dentro do templo avaro que te
construi, só Divindade minha, sempre no teu altar,--e eu sempre diante
d'elle rojado, recebendo constantemente n'alma a tua visitação,
abysmando-me sem cessar na tua essencia, de modo que nem por um momento
se descontinue essa fusão ineffavel, que é para ti um acto de
Misericordia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que
fosses invisivel para todos e como não existente--que perpetuamente um
estofo informe escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua
intelligencia. Assim passarias no mundo como uma apparencia
incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro escuro, se
revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo--que te queria
entrouxada n'um rude, vago vestido de merino, com um ar quêdo,
inanimado... Perderia assim o triumphal contentamento de vêr
resplandecer entre a multidão maravilhada aquella que em segredo nos
ama. Todos murmurariam compassivamente--«_Pobre creatura!_» E só eu
saberia da «pobre creatura», o corpo e a alma adoraveis!

Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu encanto,
não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio,
coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo
e por mim e por _ti_! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de uma
virtude:--e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as
linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante
desespero de não te saber amar condignamente--ou antes (pois desceste de
um céo superior) de não saber tratar, como ella merece, a hospeda divina
do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda n'uma felicidade
immaterial, seraphica, calma infinitamente como deve ser a
Bemaventurança--e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da
luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida á
mesma hora e indo continuar no _além_ o mesmo sonho estatico. E outras
vezes desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa,
fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos
sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem
nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanaz, ainda em toda a
refulgencia da belleza archangelica, arrastando nos braços para o Abysmo
uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véos de penitencia se vão
esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através do
horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e
paixão, tão intensas--que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa
roubada! Mas de nenhum d'estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil é
o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me
contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente d'esta eternidade.
Ainda hontem me perguntavas:--«No calendario do seu coração, quantos
dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto--e que tu me
resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo
que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti--e se elle me
fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu
sepulchro. Só posso deixar de te amar--quando deixar de ser. E a vida
comtigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus.
Melhor talvez:--e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou, mas um
pagão do Lacio, pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apollo, a
cada instante temeria que um d'esses Deuses invejosos te raptasse, te
elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim não
receio:--toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno
de nós como um Paraiso para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito
na plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha
graça.

Não penses que estou compondo canticos em teu louvor. É em plena
simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao
contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na
sua magestade, seria impotente para exprimir o meu extase. Balbucio,
como posso, a minha infinita oração. E n'esta desoladora insufficiencia
do Verbo humano é como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho
ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a unica verdade, melhor que
todas as verdades--que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!...
Fradique.



XIV


A MADAME DE JOUARRE

(_Trad._)


                                                        Lisboa, junho.


_Minha querida madrinha._--N'aquella casa de hospedes da travessa da
Palha, onde vive, atrellado á lavra angustiosa da Verdade, meu primo o
Metaphysico, conheci, logo depois de voltar de Refaldes, um padre, o
padre Salgueiro, que talvez a minha madrinha, com essa sua maliciosa
paciencia de colleccionar Typos, ache interessante e psychologicamente
divertido.

O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma, encolhendo os hombros,
que padre Salgueiro não se destaca por nenhuma saliencia de Corpo ou
Alma entre os vagos padres da sua Diocese;--e que resume mesmo, com uma
fidelidade de indice, o pensar, e o sentir, e o viver, e o parecer da
classe ecclesiastica em Portugal. Com effeito, por fóra, na casca, padre
Salgueiro é o costumado e corrente padre portuguez, gerado na gleba,
desbravado e afinado depois pelo Seminario, pela frequentação das
auctoridades e das Secretarias, por ligações de confissão e missa com
fidalgas que têm capella, e sobretudo por longas residencias em Lisboa,
n'estas casas de hospedes da Baixa, infestadas de litteratura e
politica. O peito bem arcado, de folego fundo, como um folle de forja;
as mãos ainda escuras, asperas, apesar do longo contacto com a alvura e
doçura das hostias; o carão côr de couro curtido, com um sobre-tom azul
nos queixos escanhoados; a corôa livida entre o cabello mais negro e
grosso que pellos de clina; os dentes escaroladamente brancos--tudo
n'elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu, e que ainda
hoje em Portugal fornece á Egreja todo o seu pessoal, pelo desejo de se
alliar e de se apoiar á unica grande instituição humana que realmente
comprehende e de que não desconfia. Por dentro, porém, como miolo, padre
Salgueiro apresenta toda uma estructura moral deliciosamente pittoresca
e nova para quem, como eu, do Clero Lusitano só entrevira
exterioridades, uma batina desapparecendo pela porta d'uma sacristia, um
velho lenço de rapé posto na borda d'um confessionario, uma sobrepeliz
alvejando n'uma tipoia atraz d'um morto...

O que em padre Salgueiro me encantou logo, na noite em que tanto
palestramos, rondando pachorrentamente o Rocio, foi a sua maneira de
conceber o Sacerdocio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata
como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) não constitue de modo
algum uma funcção espiritual--mas unicamente e terminantemente uma
funcção civil. Nunca, desde que foi collado á sua parochia, padre
Salgueiro se considerou senão como um funccionario do Estado, um
Empregado Publico, que usa um uniforme, a batina (como os guardas da
alfandega usam a fardeta), e que, em logar de entrar todas as manhãs
n'uma repartição do Terreiro do Paço para escrevinhar ou archivar
officios, vai mesmo nos dias santificados, a uma outra repartição, onde,
em vez da carteira se ergue um altar, celebrar missas e administrar
sacramentos. As suas relações portanto não são, nunca foram, com o céo
(do céo só lhe importa saber se está chuvoso ou claro)--mas com a
Secretaria da Justiça e dos Negocios Ecclesiasticos. Foi ella que o
collocou na sua Parochia, não para continuar a obra do Senhor guiando
docemente os homens pela estrada limpa da Salvação (missões de que não
curam as secretarias do Estado), mas, como funccionario, para executar
certos actos publicos que a lei determina a bem da ordem
social--baptisar, confessar, casar, enterrar os parochianos.

Os sacramentos são, pois, para este excellente padre Salgueiro, meras
ceremonias civis, indispensaveis para a regularisação do estado
civil,--e nunca, desde que os administra, pensou na sua natureza divina,
na Graça que communicam ás almas, e na força com que ligam a vida
transitoria a um principio Immanente. Decerto, outr'ora no seminario,
padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua Theologia
Dogmatica, a sua Theologia Pastoral, a sua Moral, o seu S. Thomaz, o seu
Liguori--mas meramente para cumprir as disciplinas officiaes do curso,
ser ordenado pelo seu bispo, depois provido n'uma parochia pelo seu
ministro, como todos os outros bachareis que em Coimbra decoram as
_Sebentas_ de Direito natural e de Direito romano para «fazerem o
curso», receber na cabeça a borla de doutor, e depois o aconchego de um
emprego facil. Só o grau vale e importa, porque justifica o despacho. A
sciencia é a formalidade penosa que lá conduz--verdadeira provação, que,
depois de atravessada, não deixa ao espirito desejos de regressar á sua
disciplina, á sua aridez, á sua canceira. Padre Salgueiro, hoje, já
esqueceu regaladamente a significação theologica e espiritual do
casamento:--mas casa, e casa com pericia, com bom rigor liturgico, com
boa fiscalisação civil, esmiuçando escrupulosamente as certidões, pondo
na benção toda a uncção prescripta, perfeito em unir as mãos com a
estola, cabal na ejaculação dos latins, porque é subsidiado pelo Estado
para casar bem os cidadãos, e, funccionario zeloso, não quer cumprir com
defeitos funcções que lhe são pagas sem atrazo.

A sua ignorancia é deliciosa. Além de raros actos da vida activa de
Jesus, a fuga para o Egypto no burrinho, os pães multiplicados nas bodas
de Caná, o azorrague cahindo sobre os vendilhões do Templo, certas
expulsões de Demonios, nada sabe do Evangelho--que considera todavia
_muito bonito_. Á doutrina de Jesus é tão alheio como á philosophia de
Hegel. Da Biblia tambem só conhece episodios soltos, que aprendeu
certamente em oleographias--a Arca de Noé, Samsão arrancando as portas
de Gaza, Judith degollando Holophernes. O que tambem me diverte, nas
noites amigas em que conversamos na travessa da Palha, é o seu
desconhecimento absolutamente candido das origens, da historia da
Egreja. Padre Salgueiro imagina que o Christianismo se fundou de
repente, n'um dia (decerto um domingo), por milagre flagrante de Jesus
Christo:--e desde essa festiva hora tudo para elle se esbate n'uma treva
incerta, onde vagamente reluzem nimbos de santos e tiáras de papas, até
Pio IX. Não admira, porém, na obra pontifical de Pio IX, nem a
Infallibilidade, nem o Syllabus:--porque se préza de liberal, deseja
mais progresso, bemdiz os beneficios da instrucção, assigna o _Primeiro
de Janeiro_.

Onde eu tambem o acho superiormente pittoresco, é cavaqueando ácerca dos
deveres que lhe incumbem como pastor de almas--os deveres para com as
almas. Que elle, por continuação de uma obra divina, esteja obrigado a
consolar dôres, pacificar inimizades, dirigir arrependimentos, ensinar a
cultura da bondade, adoçar a dureza dos egoismos, é para o benemerito
padre Salgueiro a mais estranha e incoherente das novidades! Não que
desconheça a belleza moral d'essa missão, que considera mesmo _cheia de
poesia_. Mas não admitte que, formosa e honrosa como é, lhe pertença a
elle padre Salgueiro! Outro tanto seria exigir de um verificador da
alfandega que moralisasse e purificasse o commercio. Esse santo
emprehendimento pertence aos Santos. E os Santos, na opinião de padre
Salgueiro, formam uma Casta, uma Aristocracia espiritual, com obrigações
sobrenaturaes que lhes são delegadas e pagas pelo Céo. Muito differentes
se apresentam as obrigações de um parocho! Funccionario ecclesiastico,
elle só tem a cumprir funcções rituaes em nome da Egreja, e portanto do
Estado que a subsidia. Ha ahi uma criança para baptisar? Padre Salgueiro
toma a estola e baptisa. Ha ahi um cadaver para enterrar? Padre
Salgueiro toma o hyssope e enterra. No fim do mez recebe os seus dez mil
reis (além da esmola)--e o seu bispo reconhece o seu zelo.

A idéa que padre Salgueiro tem da sua missão determina, com louvavel
logica, a sua conducta. Levanta-se ás dez horas, hora classicamente
adoptada pelos empregados do Estado. Nunca abre o breviario--a não ser
em presença dos seus superiores ecclesiasticos, e então por deferencia
gerarchica, como um tenente, que, em face ao seu general, se perfila,
pousa a mão na espada. Emquanto a orações, meditações, mortificações,
exames d'alma, todos esses pacientes methodos de aperfeiçoamento e
santificação propria, nem sequer suspeita que lhe sejam necessarios ou
favoraveis. Para que? Padre Salgueiro constantemente tem presente que,
sendo um funccionario, deve manter, sem transigencias, nem omissões, o
decoro que tornará as suas funcções respeitadas do mundo. Veste, por
isso, sempre de preto. Não fuma. Todos os dias de jejum come um peixe
austero. Nunca transpoz as portas impuras de um botequim. Durante o
inverno só uma noite vai a um theatro, a S. Carlos, quando se canta o
_Polliuto_, uma opera sacra, de purissima lição. Deceparia a lingua, com
furor, se d'ella lhe pingasse uma falsidade. E é casto. Não condemna e
repelle a mulher com colera, como os Santos Padres:--até a venéra, se
ella é economica e virtuosa. Mas o regulamento da Egreja prohibe a
mulher: elle é um funccionario ecclesiastico, e a mulher portanto não
entra nas suas funcções. É rigidamente casto. Não conheço maior
respeitabilidade do que a de padre Salgueiro.

As suas occupações, segundo observei, consistem muito logicamente, como
empregado (além das horas dadas aos deveres liturgicos), em procurar
melhoria de emprego. Pertence por isso a um partido politico:--e em
Lisboa, tres noites por semana, toma chá em casa do seu chefe, levando
rebuçados ás senhoras. Maneja habilmente eleições. Faz serviços e
recados, complexos e indescriptos, a todos os directores geraes da
Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Com o seu bispo é incansavel:--e
ainda ha mezes o encontrei, suado e afflicto, por causa de duas
incumbencias de. S. Exc.^a uma relativa a queijadas de Cintra, outra a
uma collecção do _Diario do Governo_.

Não fallei da sua intelligencia. É pratica e methodica--como verifiquei,
assistindo a um sermão que elle prégou pela festa de S. Venancio. Por
esse sermão, encommendado, recebia padre Salgueiro 20$000 reis--e deu,
por esse preço, um sermão succulento, documentado, encerrando tudo o que
convinha á glorificação de S. Venancio. Estabeleceu a filiação do Santo;
desenrolou todos os seus milagres (que são poucos) com exactidão,
exarando as datas, citando as auctoridades; narrou com rigor agiologico
o seu martyrio; enumerou as egrejas que lhe são consagradas, com as
épocas da fundação. Enxertou destramente louvores ao Ministro dos
Negocios Ecclesiasticos. Não esqueceu a Familia Real, a quem rendeu
preito constitucional. Foi, em summa, um excellente relatorio sobre S.
Venancio.

Felicitei n'essa noite, com fervor, o reverendo padre Salgueiro. Elle
murmurou, modesto e simples:

--S. Venancio infelizmente não se presta. Não foi bispo, nunca exerceu
cargo publico!... Em todo o caso, creio que cumpri.

Ouço que vai ser nomeado conego. Larguissimamente o merece. Jesus não
possue melhor amanuense. E nunca realmente comprehendi por que razão
outro amigo meu, um frade do Varatojo, que, pelo extasi da sua fé, a
profusão da sua caridade, o seu devorador cuidado na pacificação das
almas, me faz lembrar os velhos homens evangelicos, chama sempre a este
sacerdote tão zeloso, tão pontual, tão proficiente, tão respeitavel--«o
horrendo padre Salgueiro!»

Ora veja, minha madrinha! Mais de trinta ou quarenta mil annos são
necessarios para que uma montanha se desfaça e se abata até ao
tamanhinho d'um outeiro que um cabrito galga brincando. E menos de dois
mil annos bastaram para que o Christianismo baixasse dos grandes padres
das Sete Egrejas da Asia até ao divertido padre Salgueiro, que não é de
sete Egrejas, nem mesmo d'uma, mas sómente, e muito devotamente, da
Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Este baque provaria a
fragilidade do Divino--se não fosse que realmente o Divino abrange as
religiões e as montanhas, a Asia, o padre Salgueiro, os cabritinhos
folgando, tudo o que se desfaz e tudo o que se refaz, e até este seu
afilhado, que é todavia humanissimo.--Fradique.



XV


A BENTO DE S.


                                                       Paris, outubro.


_Meu caro Bento._--A tua idéa de fundar um jornal é damninha e
execravel. Lançando, e em formato rico, com telegrammas e chronicas, uma
outra «d'essas folhas impressas que apparecem todas as manhãs», como diz
tão assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vaes concorrer para
que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se
exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerancia. Juizos
ligeiros, Vaidade, Intolerancia--eis tres negros peccados sociaes que,
moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os
atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte. Já
decerto o Diabo está atirando mais braza para debaixo da caldeira de
pez, em que, depois do Julgamento, recozerás e ganirás, meu Bento e meu
reprobo!

Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. João
Chrysostomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa,
que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de todo
affirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o funesto habito
dos juizos ligeiros. Em todos os seculos decerto se improvisaram
estouvadamente opiniões: o grego era inconsiderado e garrulo; já Moysés,
no longo Deserto, soffria com o murmurar variavel dos Hebreus; mas
nunca, como no nosso seculo apressado, essa improvisação impudente se
tornou a operação natural do entendimento. Com excepção de alguns
philosophos escravisados pelo Methodo, e d'alguns devotos roidos pelo
Escrupulo, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos
alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluidas
que formamos as nossas massiças conclusões. Para julgar em Politica o
facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal
escutado a uma esquina, n'uma manhã de vento. Para apreciar em
Litteratura o livro mais profundo, atulhado de idéas novas, que o amor
de extensos annos fortemente encadeou--apenas nos basta folhear aqui e
além uma pagina, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente
para condemnar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana
facilidade declaramos--«Este é uma besta! Aquelle é um maroto!» Para
proclamar--«É um genio!» ou «É um santo!» offerecemos uma resistencia
mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia
luz d'um céo de maio nos inclinam á benevolencia, tambem concedemos
bizarramente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a
corôa ou a aureola, e ahi empurramos para a popularidade um maganão
enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bemdito
dia a estampar rotulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não
ha acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre
que não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda.
E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquelle pequenino lado do
facto, do homem, da obra, que perpassou n'um relance ante os nossos
olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um caracter: por
um caracter avaliamos um povo. Um inglez, com quem outr'ora jornadeei
pela Asia, varão douto, collaborador de _Revistas_, socio de Academias,
considerava os francezes todos, desde os senadores até aos varredores,
como «porcos e ladrões»... Porquê, meu Bento? Porque em casa de seu
sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que não mudava
de collarinho e surripiava os charutos. Este inglez illustra
magistralmente a formação escandalosa das nossas generalisações.

E quem nos tem enraizado estes habitos de desoladora leviandade? O
jornal--o jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos
annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na
vespera, á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças,
por excellentes rapazes que rompem pela redacção, agarram uma tira de
papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dois rabiscos da penna
sobre todas as coisas da Terra e do Céo. Que se trate d'uma revolução do
Estado, da solidez d'um Banco, d'uma Magica, ou d'um descarrillamento, o
rabisco da penna, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo,
nenhum documento, nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um
alto jornal de Paris, commentando a situação economica, e politica de
Portugal, affirmava, e com um aprumado saber, que «em Lisboa os filhos
das mais illustres familias da aristocracia se empregam como
_carregadores da alfandega_, e ao fim de cada mez mandam receber as
soldadas _pêlos seus lacaios_!» Que dizes tu aos herdeiros das casas
historicas de Portugal, carregando pipas de azeite no caes da alfandega,
e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas
pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores, formam uma
deliciosa e chimerica alfandega que é menos das _Mil e Uma Noites_, que
das Mil e Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal consideravel,
rico, bem provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de
Telephones, de Telegraphos, com uma redacção muito erudita, pinguemente
remunerada, que conhece a Europa, pertence á Academia das Sciencias
Moraes e Sociaes, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu jornal,
fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones, vaes com penna
sacudida lançar sobre a França e sobre a China, e sobre o desventuroso
Universo que se torna assumpto e propriedade tua, juizos tão solidos e
comprovados como os que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente
ácerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia...

Este é o primeiro peccado, bem negro. Considera agora outro, mais negro.
Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua funcção e a sua força, tu
desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! A
reportagem, bem sei, é uma util abastecedora da Historia. Decerto
importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do
feitio d'esse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a
Actium, os destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora
bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. Renan, e os seus moveis,
e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuirá o seculo
XX para reconstruir com segurança a personalidade do auctor das _Origens
do Christianismo_, e, através d'ella, comprehender a obra. Mas, como a
reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negocios do
Mundo ou nas direcções do Pensamento, do que, como diz a Biblia, sobre
toda a «sorte e condições de gente van», desde os jockeys até aos
assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a
documentação da historia, e muito, prodigiosamente, escandalosamente,
para a propagação das vaidades!

O jornal é com effeito o folle incansavel que assopra a vaidade humana,
lhe irrita e lhe espalha a chamma. De todos os tempos é ella, a vaidade
do homem! Já sobre ella gemeu o gemebundo Salomão, e por ella se perdeu
Alcibiades, talvez o maior dos gregos. Incontestavelmente, porém, meu
Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso damnado seculo XIX, o motor
offegante do pensamento e da conducta. N'estes estados de civilisação,
ruidosos e ôcos, tudo deriva da vaidade, tudo tende á vaidade. E a fórma
nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome
impresso no jornal, a sua rica pessoa commentada no jornal! _Vir no
jornal!_ eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos
regimens aristocraticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos
o sorriso do Principe. Nas nossas democracias a ancia da maioria dos
mortaes é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se
conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as
acções--mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! O «nosso generoso amigo
Z...» só manda os cem mil reis á Creche, para que a gazeta exalte os cem
mil reis de Z..., nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessario que as
sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome
em evidencia, bem negro, n'essa tinta cujo brilho é mais appetecido que
o velho nimbo d'ouro do tempo das Santidades. E não ha classe que não
ande devorada por esta fome morbida do reclamo. Ella é tão roedora nos
sêres de exterioridade e de mundanidade, como n'aquelles que só pareciam
amar na vida, como a sua fórma melhor, a quietação e o silencio...
Entrámos na quaresma (é entre as cinzas, e com cinzas, que te estou
moralisando). Agora, n'estas semanas de peixe, surdem os frades
dominicanos, do fundo dos seus claustros, a prégar nos pulpitos de
Paris. E porquê esses sermões sensacionaes, d'uma arte profana e
theatral, com exhibicões de psychologia amorosa, com affectações de
anarchismo evangelico, e tão creadores de escandalo que Paris corre mais
gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que á
Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges, filhos de S.
Domingos, querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard, e toda a
celebridade dos histriões. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas
folhas, salpicadas de preto, como aquellas duas azas com que os
iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o
Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas azas
que o levem á gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E é por essa
gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os
Politicos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na
extravagancia esthetica, e os Sabios alardeiam theorias mirabolantes, e
de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda ululante dos
charlatães... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas é a
verdade, meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem
ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O proprio
mal appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para
apparecerem no jornal, ha assassinos que assassinam. Até o velho
instincto da conservação cede ao novo instincto da notoriedade: e existe
tal maganão, que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia
das corôas, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os beiços,
pensativo, e deseja ser o morto.

N'este verão, uma manhã, muito cedo, entrei n'uma taberna de Montmartre
a comprar phosphoros. Rente ao balcão de zinco, diante de dois copos de
vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e
pendente, o barrete de pelle de lontra, parecia (e era) um Huno, um
sobrevivente das hordas d'Alarico,--gritava triumphalmente para outro
vadio imberbe e livido, a quem arremessára um jornal:

--É verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda columna,
logo em cima, onde diz:--_Hontem um infame e ignobil bandido_... Sou eu!
O nome todo!

E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. Eis-ahi, como
agora se diz tão alambicadamente, um «estado d'alma»! Tu, Bento, vaes
crear d'estes estados.


Depois considera o derradeiro peccado, negrissimo. Tu fundas, com o teu
novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu
partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miuda e bem cimentada:
dentro d'esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado
lemma de _imparcialidade_, _desinteresse_, etc., só haverá, segundo
Bento e o seu jornal, intelligencia, dignidade, saber, energia, civismo;
para além d'esse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá
necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficancia! É a
disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu
sentido mais amplo, abrangendo a Litteratura, a Philosophia, etc.) que
te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vicios.
Desde que penetras na batalha, nunca poderás admittir que a Razão ou a
Justiça ou a Utilidade se encontrem do lado d'aquelles contra quem
descargas pela manhã a tua metralha silvante de adjectivos e
verbos--porque então a decencia, se não já a consciencia, te forçariam a
saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que elles
são maleficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo
com que os trespassas. Das solas dos pés até aos teus raros cabellos,
meu Bento, desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se
eleve, para além do muro, a condemnarás como funesta, sem exame, só
porque appareceu dez braças adiante, do lado dos outros, que são os
Reprobos, e não do lado dos teus, que são os Eleitos. Realisam esses
outros uma obra? Bento não poupará prosa nem musculo para que ella
pereça: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrevê
n'ella certa belleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua
demolição, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma
coisa de util ou de bello nascesse dos seus inimigos--e vivesse. Nos
homens que vagam para além do teu muro, tu só verás peccadores; e quando
entre elles reconhecesses S. Francisco d'Assis distribuindo aos pobres
os derradeiros ceitis da Porciuncula, taparias a face para que tanta
santidade te não amollecesse, e gritarias mais sanhudamente:--«Lá anda
aquelle malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»

Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o
adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua imagem. Todo o jornal
distilla intolerancia, como um alambique distilla alcool, e cada manhã a
multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do
jornal que se azedam todos os velhos conflictos do mundo--e que as
almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes á indulgencia. A
sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergencias
humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que n'elle rolam:
e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente
sociavel, tenderia a uma suprema pacificação--se cada manhã o jornal não
avivasse os odios de Principios, de Classes, de Raças, e, com os seus
gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e
mordam. O jornal exerce hoje todas as funcções malignas do defuncto
Satanaz, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pae da Mentira, mas o
Pae da Discordia. É elle que por um lado inflamma as exigencias mais
vorazes--e por outro fornece pedra e cal ás resistencias mais iniquas.
Vê tu quando se alastra uma gréve, ou quando entre duas nações
bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois
credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens,
que o abuso da Civilisação material tem amollecido e desmarcialisado, é
murmurar _paz! juizo!_ e estenderem as mãos uns para os outros,
n'aquelle gesto hereditario que funda os pactos. Mas surge logo o
jornal, irritado como a Furia antiga, que os separa, e lhes sopra na
alma a intransigencia, e os empurra á batalha, e enche o ar de tumulto e
de pó.

O jornal matou na terra a paz. E não só atiça as questões já dormentes
como borralhos de lareira, até que d'ellas salte novamente uma chamma
furiosa--mas inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo
nascente, que repetirá, antes que o seculo finde, as anachronicas e
brutas perseguições medievaes. Depois é o jornal...

Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão dançando, no meu velho
relogio, o minuete de Gluck. Ora esta carta já vai, como a de Tiberio,
muito tremenda e verbosa, _verbosa et tremenda epistola_; e eu tenho
pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoço, lêr os meus jornaes,
com delicia.--Teu Fradique.



XVI


A CLARA

(_Trad._)


                                                       Paris, outubro.


_Minha muito amada Clara._--Toda em queixumes, quasi rabugenta, e
mentalmente tarjada de luto, me appareceu hoje a tua carta com os
primeiros frios de outubro. E porquê, minha dôce descontente? Porque,
mais féro de coração que um Trastamara ou um Borgia, estive cinco dias
(cinco curtos dias de outomno) sem te mandar uma linha, affirmando essa
verdade tão patente e de ti conhecida como o disco do sol--«que só em ti
penso, e só em ti vivo!...» Mas não sabes tu, oh super-amada, que a tua
lembrança-me palpita na alma tão natural e perennemente como o sangue no
coração? Que outro principio governa e mantem a minha vida senão o teu
amor? Realmente necessitas ainda, cada manhã, um certificado, em letra
bem firme, de que a minha paixão está viva e viçosa e te envia os _bons
dias_? Para que? Para socego da tua incerteza? Meu Deus! Não será antes
para regalo do teu orgulho? Sabes que és Deusa, e reclamas
incessantemente o incenso e os canticos do teu devoto. Mas Santa Clara,
tua padroeira, era uma grande santa, de alta linhagem, de triumphal
belleza, amiga de S. Francisco de Assis, confidenta de Gregorio IX,
fundadora de mosteiros, suave fonte de piedade e milagres--e todavia só
é festejada uma vez, cada anno, a 27 de agosto!

Sabes bem que estou gracejando, Santa Clara da minha fé! Não! não mandei
essa linha superflua, porque todos os males bruscamente se abateram
sobre mim:--um defluxo burlesco, com melancolia, obtusidade e espirros;
um confuso duello, de que fui o enfastiado padrinho, e em que apenas um
ramo secco d'olaia soffreu, cortado por uma bala; e, emfim, um amigo que
regressou da Abyssinia, cruelmente Abyssinisante, e a quem tive de
escutar com resignado pasmo as caravanas, os perigos, os amores, as
façanhas e os leões!... E ahi está como a minha pobre Clara, solitaria
nas suas florestas, ficou sem essa folha, cheia das minhas letras, e tão
inutil para a segurança do seu coração como as folhas que a cercam, já
murchas decerto e dançando no vento.

Porque não sei como se comportam os teus bosques;--mas aqui as folhas do
meu pobre jardim amarellaram e rolam na herva humida. Para me consolar
da verdura perdida, accendi o meu lume:--e toda a noite de hontem
mergulhei na muito velha chronica d'um Chronista medieval da minha
terra, que se chama Fernam Lopes. Ahi se conta d'um rei que recebeu o
debil nome de _Formoso_, e que, por causa d'um grande amor, desdenhou
princezas de Castella e de Aragão, dissipou thesouros, affrontou
sedições, soffreu a desaffeição dos povos, perdeu a vassallagem de
castellos e terras, e quasi estragou o reino! Eu já conhecia a
chronica--mas só agora comprehendo o rei. E grandemente o invejo, minha
linda Clara! Quando se ama como elle (ou como eu), deve ser um
contentamento esplendido o ter princezas da christandade, e thesouros, e
um povo, e um reino forte para sacrificar a dois olhos, finos e
languidos, sorrindo pelo que esperam e mais pelo que promettem... Na
verdade só se deve amar quando se é rei--porque só então se póde
comprovar a altura do sentimento com a magnificencia do sacrificio. Mas
um méro vassallo como eu (sem hoste ou castello), que possue elle de
rico, ou de nobre, ou de bello para sacrificar? Tempo, fortuna, vida?
Mesquinhos valores. É como offertar na mão aberta um pouco de pó. E
depois a bem amada nem sequer fica na historia.

E por historia--muito approvo, minha estudiosa Clara, que andes lendo a
do divino Budha. Dizes, desconsoladamente, que elle te parece apenas _um
Jesus muito complicado_. Mas, meu amor, é necessario desentulhar esse
pobre Budha da densa alluvião de Lendas e Maravilhas que sobre elle tem
acarretado, durante seculos, a imaginação da Asia. Tal como ella foi,
deprendida da sua mythologia, e na sua nudez historica,--nunca alma
melhor visitou a terra, e nada iguala, como virtude heroica, a _Noite do
Renunciamento_. Jesus foi um proletario, um mendigo sem vinha ou leira,
sem amor nenhum terrestre, que errava pelos campos da Galiléa,
aconselhando aos homens a que abandonassem como elle os seus lares e
bens, descessem á solidão e á mendicidade, para penetrarem um dia n'um
Reino venturoso, abstracto, que está nos Céos. Nada sacrificava em si e
instigava os outros ao sacrificio--chamando todas as grandezas ao nivel
da sua humildade. O Budha, pelo contrario, era um Principe, e como elles
costumam ser na Asia, de illimitado poder, de illimitada riqueza: casára
por um immenso amor, e d'ahi lhe viera um filho, em quem esse amor mais
se sublimára:--e este principe, este esposo, este pae, um dia, por
dedicação aos homens, deixa o seu palacio, o seu reino, a esposada do
seu coração, o filhinho adormecido no berço de nacar, e, sob a rude
estamenha de um mendicante, vai através do mundo esmolando e prégando a
renuncia aos deleites, o aniquilamento de todo o desejo, o illimitado
amor pelos sêres, o incessante aperfeiçoamento na caridade, o desdem
forte do ascetismo que se tortura, a cultura perenne da misericordia que
resgata, e a confiança na morte...

Incontestavelmente, a meu vêr (tanto quanto estas excelsas coisas se
podem discernir d'uma casa de Paris, no seculo XIX e com defluxo) a vida
do Budha é mais meritoria. E depois considera a differença do ensino dos
dois divinos Mestres. Um, Jesus, diz:--«Eu sou filho de Deus, e insto
com cada um de vós, homens mortaes, em que pratiqueis o bem durante os
poucos annos que passaes na terra, para que eu depois, em premio, vos dê
a cada um, individualmente, uma existencia superior, infinita em annos e
infinita em delicias, n'um palacio que está para além das nuvens e que é
de meu Pae!» O Budha, esse, diz simplesmente:--«Eu sou um pobre frade
mendicante, e peço-vos que sejaes bons darante a vida, porque de vós, em
recompensa, nascerão outros melhores, e d'esses outros ainda mais
perfeitos, e assim, pela pratica crescente da virtude em cada geração,
se estabelecerá pouco a pouco na terra a virtude universal!» A justiça
do justo, portanto, segundo Jesus, só aproveita egoistamente ao justo. E
a justiça do justo, segundo o Budha, aproveita ao sêr que o substituir
na existencia, e depois ao outro, que d'esse nascer, sempre durante a
passagem na terra, para lucro eterno da terra. Jesus cria uma
aristocracia de santos, que arrebata para o céo onde elle é Rei, e que
constituem a côrte do céo para deleite da sua divindade;--e não vem
d'ella proveito directo para o Mundo, que continua a soffrer da sua
porção de Mal, sempre indiminuida. O Budha, esse, cria, pela somma das
virtudes individuaes, santamente accumuladas, uma humanidade que em cada
cyclo nasce progressivamente melhor, que por fim se torna perfeita, e
que se estende a toda a terra d'onde o Mal desapparece, e onde o Budha é
sempre, á beira do caminho rude, o mesmo frade mendicante. Eu, minha
flor, sou pelo Budha. Em todo o caso, esses dois Mestres possuiram, para
bem dos homens, a maior porção de Divindade que até hoje tem sido dado á
alma humana conter. De resto, tudo isto é muito complicado; e tu
sabiamente procederias em deixar o Budha no seu Budhismo, e, uma vez que
esses teus bosques são tão admiraveis, em te retemperar na sua força e
nos seus aromas salutares. O Budha pertence á cidade e ao collegio de
França: no campo a verdadeira Sciencia deve cahir das arvores, como nos
tempos de Eva. Qualquer folha de olmo te ensina mais que todas as folhas
dos livros. Sobretudo do que eu--que aqui estou pontificando, e fazendo
pedantescamente, ante os teus lindos olhos, tão finos e meigos, um curso
escandaloso de Religiões Comparadas.

Só me restam tres pollegadas de papel,--e ainda te não contei, oh doce
exilada, as novas de Paris, _acta Urbis_. (Bom, agora latim!) São raras,
e pallidas. Chove: continuamos em Republica; Madame de Jouarre, que
chegou da _Rocha_ com menos cabellos brancos, mas mais cruel, convidou
alguns desventurados (dos quaes eu o maior) para escutarem tres
capitulos d'um novo attentado do barão de Fernay sobre a _Grecia_; os
jornaes publicam outro prefacio do snr. Renan, todo cheio do snr. Renan,
e em que elle se mostra, como sempre, o enternecido e erudito vigario de
Nossa Senhora da Razão; e temos, emfim, um casamento de paixão e luxo, o
do nosso esculptural visconde de Fonblant com mademoiselle Degrave,
aquella nariguda, magrinha e de maus dentes, que herdou, milagrosamente,
os dois milhões do cervejeiro, e que tem tão lindamente engordado e ri
com dentes tão lindos. Eis tudo, minha adorada... E é tempo que te
mande, em montão, n'esta linha, as saudades, os desejos e as coisas
ardentes e suaves e sem nome de que meu coração está cheio, sem que se
esgote por mais que plenamente as arremesse aos teus pés adoraveis, que
beijo com submissão e com fé.--Fradique.



Notas:


[1] Estas cartas constituem verdadeiros Ensaios Historicos, que, pelas
suas proporções, não poderiam entrar n'esta collecção. Reunidas as notas
e fragmentos dispersos, devem formar um volume a que o seu compilador
dará, penso eu, o titulo de _Versos e Prosas de Fradique Mendes_.

[2] Muitas das cartas de Fradique Mendes, aqui publicadas, são
naturalmente escriptas em francez. Todas essas vão acompanhadas da
indicação abreviada _trad._ (traduzida).

[3] O velho creado de quarto de Fradique Mendes.





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A correspondência de Fradique Mendes - memórias e notas" ***

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