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Title: Saudades: história de menina e moça
Author: Ribeiro, Bernardim, 1482-1552
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

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SAUDADES

HISTÓRIA

DE

MENINA E MOÇA



COMPOSTO E IMPRESSO NA
IMPRENSA
DE MANUEL LUCAS TORRES,
RUA DO DIARIO DE NOTICIAS, 87 A 93



*Trovas de Crisfal*, de Bernardim Ribeiro, 1 vol. broch. $30

*Bernardim Ribeiro* (_O Poeta Crisfal_), por Delfim Guimarães, 1 vol.
broch. $80

*Theóphilo Braga e a lenda do Crisfal*, por Delfim Guimarães, 1 vol.
broch. $50

*A máscara d'um poeta* (_Bernardim Ribeiro_), por Sílvio de Almeida, 1
vol. broch. $30

A PUBLICAR:

*Éclogas de Jano*, de Bernardim Ribeiro.



Colecção Horas de Leitura


BERNARDIM RIBEIRO

SAUDADES

HISTÓRIA

DE

MENINA E MOÇA

2.ª edição, revista

POR

DELFIM GUIMARÃES



1916
GUIMARÃES & C.ª--Editores
68, Rua do Mundo, 70
LISBOA



SAUDADES

(Historia de Menina e moça)

de

Bernardim Ribeiro

2.ª edição, revista

por

Delfim Guimarães



ADVERTENCIA

(DA 1.ª EDIÇÃO)


Contribuir para a vulgarização do adoravel volumezinho que torna
imorredoiro o nome de Bernardim Ribeiro, quer-me parecer uma boa acção.

Por isso, me encarreguei gostosamente de dirigir esta edição das
«_Saudades_», tarefa que não é de molde a conquistar louros, mas que não
reputo banal nem despida de algum mérito.

Tratando-se de uma edição popular, entenderam os editores, e a meu ver
judiciosamente, que se não devia fazer uma simples reimpressão de
qualquer das edições conhecidas do livro de Bernardim, o que poderia ser
muito apreciado de eruditos e estudiosos, mas que condenaria,
fatalmente, o volume a uma existencia inglória.

Consultando as edições das «_Saudades_», e seguindo, criteriosamente, os
textos; procurando interpretar o mais fielmente possivel a ideia de
Bernardim Ribeiro, e estudando com atenção as variantes que as diversas
edições salientam; modificando uma ou outra palavra caída em desuso;
aclarando uma ou outra passagem de compreensão embaraçosa, e por vezes
quase enigmatica;--tornava-se mister preparar o original que servisse
para a factura d'esta edição, e que, sem alterar sensivelmente a
lingoagem inconfundivel da obra, e sem desvirtuar o pensamento do seu
autor, colocasse as «_Saudades_» ao alcance do grande publico, tornando
conhecida, lida e estimada uma obra de peregrino brilho, um dos mais
belos florões da nossa literatura.

A esse trabalho meti ombros, e dispensei-lhe a melhor vontade e
carinhoso amor, procurando suprir o que me mingoasse em competencia á
força de cuidado.

Como me saí da empreza, não sei, nem a mim cumpre averiguá-lo.

Diz-me a consciencia que procedi com o zelo e a probidade com que se
haveria o artista que fosse chamado a retocar um quadro de mestre;
porque, embora esse artista fosse, como eu, dos mais modestos, todos os
seus cuidados havia de empregar para _se haver na justa grandemente_,
como diria o nosso Bernardim.

A edição ahi fica.

Julguem-na os que teem competencia para fazê-lo.

Lisboa, 4 de agosto de 1905.

Delfim Guimarães



SAUDADES

(História de Menina e moça)

DE

BERNARDIM RIBEIRO



CAPITULO I

Em que a donzela começa a sua historia


Menina e moça, me levaram de casa de meu pae para longes terras. Qual
fosse então a causa d'aquela minha levada,--era eu pequena,--não na
soube. Agora, não lhe ponho outra, senão que já então, parece, havia de
ser o que depois foi.

Vivi ali tanto tempo, quanto foi necessario para não poder viver em
outra parte.

Muito contente fui eu n'aquela terra; mas, coitada de mim, em breve
espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou, e para longo
tempo se buscava! Grande desventura foi a que me fez ser triste, ou a
que, porventura, me fez ser leda!

Mas depois que vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito
mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que
tive, que do mal que tinha.

Escolhi para meu contentamento (se em tristezas e saudades ha algum) vir
viver para este monte, onde o lugar, e mingoa da conversação da gente,
fosse como para meu cuidado cumpria: porque grande erro fôra, depois de
tantos desgostos, quantos eu com estes meus olhos vi, aventurar-me ainda
a esperar do mundo o descanso que êle nunca deu a ninguem!--Estando eu
aqui só, tam longe de toda a outra gente, e de mim ainda mais longe;
d'onde não vejo senão serras, de um lado, que se não mudam nunca, e do
outro agoas do mar, que nunca estão quedas, cuidava eu já que esquecia á
desventura, porque éla, e depois eu, com todo o poder que ambas pudemos,
não deixámos em mim nada em que pudesse nova mágoa ter lugar,--antes
havia muito tempo que tudo era povoado de tristezas, e com razão. Mas
parece que, em desventuras, ha mudanças para outras desventuras; porque,
no bem, não as havia para outro bem; e foi assim que, por caso estranho,
fui levada a um lugar onde me foram ante os meus olhos apresentadas, em
cousas alheias, todas as minhas angustias; e o meu sentido d'ouvir não
ficou sem sua parte da dôr.

Ali vi então, na piedade que tive d'outrem, quam grande a devêra ter de
mim, se não fôra tam demasiadamente mais amiga de minha dôr do que
parece que foi de mim quem me é a causa d'éla; mas tamanha é a razão
porque sou triste que nunca me veio mal nenhum que eu não andasse em
busca d'êle.

D'aqui me vem a mim a parecer que esta mudança, em que me eu vi, já
então começava a buscar, quando esta terra, onde me éla aconteceu, me
aprouve mais que outra nenhuma, para vir aqui acabar os poucos dias de
vida que eu cuidei que me sobejavam. Mas n'isto, como em outras cousas
muitas, me enganei eu. Agora, ha já dous anos que estou aqui, e não sei
ainda tam sómente determinar para quando me aguarda a derradeira hora!
Não póde já vir longe!

Isto me pôs em duvida de começar a escrever as cousas que vi e ouvi.

Mas, depois, cuidando comigo, disse eu que recear de não acabar de
escrever o que vi, não era causa para o deixar de fazer; pois não havia
de escrever para ninguem, senão para mim só. Quanto mais que, em cousas
não acabadas, não havia de ser esta a primeira: pois quando vi eu prazer
acabado, ou mal que tivesse fim?! Antes me pareceu que este tempo que
hei de estar aqui n'este ermo (como a meu mal aprouve) não o podia
empregar em cousa que mais de minha vontade fosse:--pois Deus quis que
assim minha vontade seja.

Se em algum tempo se achar este livrinho na mão de pessoas alegres, não
o leiam, que, porventura, parecendo-lhe que seus casos serão mudaveis,
como os aqui contados, o seu prazer lhe será menos prazer. Isto, onde eu
estivesse, me doeria, porque assaz bastava eu nascer para minhas mágoas,
quanto mais ainda para as d'outrem. Os tristes o poderão lêr: mas ahi
não os houve mais, homens, depois que nas mulheres houve piedade;
mulheres, sim, porque sempre nos homens houve desamor: mas para élas não
o faço eu, pois que o seu mal é tamanho que se não póde confortar com
outro nenhum. Para as mais entristecer, sem-razão seria querer eu que o
lessem élas; antes lhes peço muito que fujam d'êle e de todas as cousas
de tristeza, que, ainda com isto, poucos serão os dias que hão de poder
ser ledas,--porque assim está ordenado pela desventura com que élas
nascem.

Para uma só pessoa podia êle ser; mas d'esta não soube eu mais parte,
depois que as suas desditas, e as minhas, o levaram para longes terras
estranhas, onde bem sei eu que, vivo ou morto, o possue a terra sem
prazer nenhum. Meu amigo verdadeiro, quem me vos levou tam longe? Vós
comigo, e eu convosco, sós, sabiamos suportar nossos grandes desgostos,
e tam pequenos para os de depois! A vós, contava eu tudo. Como vós vos
fostes, tudo se tornou tristeza; nem parece senão que estava espreitando
já que vos fosseis. E para que tudo mais me magoasse, nem tam sómente me
foi deixado, em vossa partida, o conforto de saber para que parte da
terra ieis, porque descansariam os meus olhos em levarem para lá a
vista!

Tudo me foi tirado no meu mal; remedio nem conforto, nenhum houve ahi.
Para morrer mais depressa, me pudera isto aproveitar; mas, para isso,
não me aproveitou. Ainda convosco usou a vossa desventura algum modo de
piedade (dos que não costuma ter com nenhuma pessoa) em vos alongar da
vista d'esta terra; pois que, se para não sentirdes mágoas não havia
remedio, para as não ouvirdes vo-lo deu. Coitada de mim, que estou
falando, e não vejo eu agora que leva o vento as minhas palavras, e que
me não póde ouvir a quem eu falo! Bem sei eu que não era para isto a que
me agora quero pôr; que o escrever alguma cousa pede muito repouso; e a
mim as minhas mágoas ora me levam para um cabo, ora para outro;
trazem-me assim, que me é forçoso tomar as palavras que me élas dão,
porque não sou tam constrangida a servir o engenho, como a minha dôr.
D'estas culpas me acharão muitas n'este livrinho: mas da minha ventura
foram élas. Ainda que, quem me manda a mim olhar por culpas, nem por
desculpas?

O livro ha de ser do que vae escrito n'êle. Das tristezas não se pode
contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem élas.
Tambem, por outra parte, não se me dá nada que o não leia ninguem; que
eu não no faço senão para um só, ou para nenhum; pois d'êle, como disse,
não sei novas, tanto ha.

Mas, se ainda me está guardado, para me ser em algum tempo outorgado,
que este pequeno penhor de meus longos suspiros vá ante os seus olhos,
muitas outras cousas desejo, mas esta me seria assaz.



CAPITULO II

Em que a donzela vae prosseguindo a sua historia


N'este monte, mais alto de todos, (que eu vim buscar pela soledade,
diferente dos outros, que n'êle achei) passava eu a minha vida como
podia, ora em me ir pelos fundos vales que o cingem derredor, ora em me
pôr, do mais alto d'êle, a olhar a terra como ia acabar no mar, e depois
o mar como se estendia logo após éla, para acabar onde ninguem o visse.

Mas, quando vinha a noite, entregue a meus pensamentos, e via as aves
buscarem seus pousos, umas chamarem as outras, parecendo que queria
sossegar a terra mesma; então eu, triste, com os cuidados dobrados com
que amanhecia, me recolhia para a minha pobre casa, onde Deus me é boa
testemunha de como as noites dormia!

Assim passava eu o tempo, quando, uma das passadas noites, pouco ha,
levantando-me, eu vi a manhan como se erguia formosa, e se estendia
graciosamente por entre os vales, e deixar indo os altos.

O sol, já levantado até aos peitos, vinha tomando posse dos outeiros,
como quem se queria assenhorear da terra.

As doces aves, batendo as asas, andavam buscando umas ás outras; os
pastores, tangendo as suas flautas, e rodeados dos seus gados, começavam
a assomar pelas cumiadas.

Para todos, parecia que vinha aquele dia assim ledo. Só os meus
cuidados, vendo, parece, como vinha poderoso seu contrario, se recolhiam
a mim, pondo ante meus olhos para quanto prazer e contentamento pudera
aquele dia vir, se não fôra tudo tam mudado; d'onde o que fazia alegre a
todas as cousas, a mim só teve causa de fazer triste!

E como os meus cuidados, para o que tinha a ventura ordenado, me
começassem de entrar pela lembrança de algum tempo, que foi, e que nunca
fôra, assenhorearam-se assim de mim que não me podia já sofrer a par de
minha casa, e desejava ir-me para lugares sós, onde desabafasse em
suspirar.

E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte) determinei
ir-me para o pé d'este monte, que d'arvoredos grandes, e verdes ervas, e
deleitosas sombras, é cheio; por onde corre um pequeno ribeiro de agoa
de todo o ano, que, nas noites caladas, o rugido d'êle faz no mais alto
d'este monte um saudoso tom, que muitas vezes me tolhe o sôno; onde,
outras muitas, vou eu lavar minhas lagrimas, e onde, muitas, infinitas,
as torno a beber.

Começava então de querer cair a calma: e no caminho, com a pressa, por
fugir d'éla, ou pela desventura que me levava a mim, três ou quatro
vezes caí ali; mas eu (que, depois de triste, cuidei que não tinha mais
que temer) não olhei nada para aquilo, em que me parece que Deus me
queria avisar da mudança que depois havia de vir. Chegando á borda do
rio, olhei para onde haveria melhores sombras. Pareceram-m'o as que
estavam além do rio. Disse então que n'aquilo se enxergava que era
desejado tudo o que com mais trabalho se podia haver; porque não se
podia ir alem sem se passar a agoa, que corria ali mansa e mais alta que
na outra parte.

Mas eu (que sempre folguei de buscar meu dano) passei alem, e fui-me
assentar sob a espessa sombra de um verde freixo, que, para baixo um
pouco, estava.

Algumas das ramas estendiam-se por cima d'agoa, que ali fazia algum
tanto de corrente, e, impedida por um penedo, que no meio d'éla estava,
se partia para um e outro lado, murmurando.

Eu, que os olhos levava ali postos, comecei a cuidar que tambem nas
cousas que não tinham entendimento havia fazerem-se dano umas ás outras.

Estava d'ali aprendendo a tomar algum conforto no meu mal: porque assim
aquele penedo estava contrariando aquela agoa que queria ir seu caminho,
como as minhas desventuras no outro tempo costumavam fazer a tudo o que
eu mais queria,--que já agora não quero nada. E crescia-me d'aquilo um
pesar!

Ao cabo do penedo, tornava a agoa a juntar-se, e ir seu caminho sem
estrondo algum, antes parecia que corria ali mais depressa que pela
outra parte: e dizia eu que seria aquilo para se apartar mais
rapidamente d'aquele penedo, inimigo do seu curso natural, que, como por
força, ali estava.

Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre verde um ramo que
por cima da agoa se estendia, se veio pousar um rouxinol. Começou a
cantar tam docemente que de todo me levou após si o meu sentido d'ouvir.
E êle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como
cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava.

Então (triste da avezinha) estando-se assim queixando, não sei como, se
caiu morta sobre aquela agoa! Caindo por entre as ramas, muitas folhas
cairam tambem com éla. Pareceu aquilo sinal de pesar, n'aquele arvoredo,
de caso tam desastrado.

Levava-a após si a agoa, e as folhas após éla. Quisera-a eu ir apanhar,
mas pela corrente que ali fazia, e pelo mato que d'ali para baixo, cerca
do rio, logo estava, prestemente se alongou da vista.

O coração me doeu tanto, então, em vêr tam depressa morto quem d'antes,
tam pouco havia, vira estar cantando, que não pude ter as lagrimas.

Certamente que por causa do mundo, depois que perdi outra cousa, me não
pareceu a mim que assim chorasse de vontade; mas em parte este meu
cuidado não foi em vão; porque, ainda que a desventura d'aquela avezinha
fosse causa de minhas lagrimas, lá, ao sair d'elas, foram juntas outras
muitas lembranças tristes.

Grande pedaço de tempo estive assim embargada dos meus olhos, entre os
cuidados que muito havia que me tinham já então, e ainda terão, até que
venha o tempo em que alguma pessoa estranha, com dó de mim, com as suas
mãos cerre estes meus olhos, que nunca foram fartos de me mostrarem
mágoas de si.

E estando assim, olhando para onde corria a agoa, ouvi bulir o arvoredo.
Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo; mas, olhando para ali, vi
que vinha uma mulher; e, pondo n'ela bem os olhos, vi que era de corpo
alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo.
Vestida toda de preto, no seu manso andar, e meneios seguros do corpo,
do rosto e do olhar, parecia d'acatamento. Vinha só, e tam pensativa que
não apartava os ramos de si, senão quando lhe impediam o caminho, ou lhe
feriam o rosto.

Os seus pés trazia por entre as frescas ervas, e parte do vestido
estendido por élas. E, entre uns vagarosos passos que éla dava, de
quando em quando colhia um cansado folego, como que lhe queria falecer a
alma.

Sendo cerca de mim e me viu, ajuntando as mãos, á maneira de medo de
mulher, um pouco, como que vira cousa desacostumada, ficou; e eu tambem
assim estava,--não de medo, que a sua boa sombra logo m'o não consentiu,
mas da novidade d'aquilo que ainda ali não vira, havendo muito que, por
meu mal, tinha frequentado aquele lugar, e toda aquela ribeira.

Mas não esteve éla muito tempo assim, porque, parece, conhecendo tambem
que estava com uma boa sombra, começou a dizer, vindo ao meu encontro:

--«Maravilha é ver donzela em ermo, depois que a minha grande desventura
levou a todo o mundo o meu...»

E d'ahi a grande pedaço, misturado já com lágrimas, disse:

--«... filho!»

Depois, tirando um lenço, começou a limpar o rosto, e a chegar-se para
onde eu estava.

Levantei-me eu então, fazendo-lhe aquela cortesia, que éla, com a sua, e
consigo mesma, me obrigava.

E éla:

--«O descostume grande, (me disse) ha muito tempo que vivo n'este ermo,
de ver pessoa alguma, me faz, senhora, desejar saber quem sois, e que
fazeis aqui, ou que viestes a fazer, formosa e só.»

Como eu um pouco tardava em lhe responder, pela duvida em que estava do
que lhe diria, (parece que entendendo-me éla) me tornou:

--«A mim, podereis dizer tudo, que eu sou mulher como vós, e, segundo
vossa presença, vos devo ainda ser muito semelhante; porque me parece
(agora que vos ólho de mais perto) que deveis ser triste, que vossos
olhos teem vossa formosura desfeita, e, ao longe, não se enxergava.»

--«Pareceis vós logo ao longe (respondi eu) o que sois ao perto; e não
vos saberia negar cousa em que de mim vos servisseis; que os vossos
trajos, e tudo o que vos eu ólho, é cheio de tristeza, cousa a que eu
sou ha muito tempo conforme; e porque posso mal encobrir o senhorio que,
eu mesma, ás longas mágoas sobre mim tenho dado, não me quero rogar,
antes vos devia ainda agradecer quererdes saber de mim o que quereis,
para ser ao menos meu mal escutado alguma hora!»

--«Pois dizei-m'o (me tornou éla) que ficardes-me devendo ouvir-vos eu,
nova maneira é tambem de me obrigardes; mas assim me pareceis vós, que,
de vos ser obrigada, folgo muito ainda.»

Satisfazendo-lhe eu então, disse:

--«Sou uma donzela que n'este monte, da banda d'alem d'este ribeiro,
pouco ha que vivo, e não posso viver muito. N'outra terra nasci,
n'outra, de muita gente, me creei, d'onde vim fugindo para esta,
despovoada de tudo, senão só das mágoas que eu trouxe comigo! Este vale,
por onde correm estas agoas claras, que vêdes, os altos arvoredos de
espessas sombras sobre a verde erva, as flores que por aqui aparecem, e
a seu prazer se estendem, ribeira d'esta agoa fria, doces moradas e
pousos das sós deleitosas aves, são tam conformes a meu cuidado, que o
mais do tempo em que o sol anima a terra passo aqui, e, ainda que me
vejaes só, acompanhada estou.

«Muito ha que tenho andado este caminho: nunca vi senão agora a vós. A
grande solidão d'este vale, e de toda esta terra por aqui derredor, me
faz ousar vir assim, mulher... formosa, bem vêdes já que não! E pois não
tenho armas para ofender, para me defender para que me seriam já
necessarias? A toda parte posso já ir, segura de tudo, senão só do meu
cuidado; que não vou a nenhum cabo que êle não vá após mim. Ainda agora
estava eu aqui, só, olhando para aquele penedo (mostrando-lh'o eu então
d'ali) a ver como ele estava contrariando aquela ágoa que queria ir seu
caminho. Ante os meus olhos, sobre aquele ramo que a cobre, se veio pôr
um rouxinol, docemente cantando. De quando em quando parecia, que lhe
respondia outro, lá de muito longe.

«Estando êle assim, no melhor do canto, caiu morto sobre aquela ágoa,
que o levava tam depressa que o não pude eu ir apanhar.

«Tamanha mágoa me nasceu d'isto, que me recordei de outras minhas, de
que tambem grandes desastres foram causa, e levaram-me onde eu tambem
não podia ir buscar-me... (A estas palavras se me arrasaram os olhos de
ágoa, e fui-me com as mãos a êles.) Isto, senhora, fazia quando vós
aparecestes, e o faço as mais das vezes; porque, sempre, ou chóro, ou
estou para chorar!»

Eu, que lhe tinha já respondido, detive-me um pouco cuidando como lhe
preguntaria outro tanto d'éla: maiormente da causa que foi das suas
lagrimas quando não pôde, senão muito tarde, dizer: «filho».

Éla, cuidando que, porventura, eu não queria dizer mais, disse:

--«Bem se vê n'isso, senhora, que sois d'outra parte, e ha pouco que
estaes n'esta, pois dos desastres que n'este ribeiro acontecem vos
espantaes. Ha uma historia muito falada n'esta terra, por aqui derredor,
que muito ha que aconteceu. Lembra-me que era eu menina, e ouvia-a já
então contar a meu pae, por historia. Agora, ainda folgo de cuidar n'éla
pelos grandes acontecimentos e desventuras que n'éla houve. E ainda que
nenhum mal alheio possa confortar o proprio de cada um, parte de ajuda
me é saber, para o sofrimento, que antigo é fazerem-se as cousas sem
razão, e contra razão. De boa vontade, pois parece que ainda a não
ouvistes, vo-la contarei; que, segundo entendo, devem-vos aprazer as
cousas tristes, como vós a mim me dizeis.»

--«O sol (lhe respondi eu) vae alto, e eu folgaria muito de a ouvir,
pela ouvir a vós, e depois por saber que não busquei embalde esta terra
para minhas tristezas, pois tanto ha que se costumam n'ela. Outra cousa,
senhora, vos quisera eu agora preguntar; mas fique para depois, que para
tudo haverá tempo, ainda que a historia, como dizeis, é de tristezas, e
não poderá durar tam pouco como o dia.»

--«Os dias são agora grandes (me tornou éla) e não poderão êles nunca
ser tam pequenos que eu, com todo o meu poder, vos não fizesse a vontade
n'êles, assim sou, senhora, paga por vós; mas olhae o que quereis
antes.»

--«Porque é cousa em que vós folgaes ainda agora de cuidar (lhe respondi
eu) não póde ser pouco para desejar ouvir. Fique o que eu d'antes
quisera para depois, ou para sempre; que só de o eu querer lhe deve vir
isto. Não tomeis de aqui que eu não folgarei de ouvir a historia, porque
isto pudera ser se não fôra de tristezas, para que eu vou achando, já
agora, o tempo curto, tanto folgo com élas. Por isso, contae-a, senhora;
contae-a, pois é de tristezas... Gastaremos o tempo n'aquilo para que
parece que no-lo deram,--a vós e a mim.»



CAPITULO III

Da conta que a dona dá á donzela de sua vinda áquela terra


«Coitada de mim (começou éla) que, para me magoar, busco ainda
desventuras alheias, como se as minhas não bastassem; que são tantas
que, muitas vezes, n'este despovoado, eu mesma ando espantada de mim,
como as posso sofrer!

«Por isso, vos não parecia sem causa triste; que assim o sou eu que, se
o soubesseis, ainda muito mais vo-lo pareceria do que cuido que
parecerei no aspecto; porque a longa dôr, que ha já muito tempo que eu
passo, tem o cansado d'este meu corpo tam acostumado a sofrê-la, que, já
agora, vive n'éla.

«Este é um dos queixumes grandes que eu tenho do corpo, que não ha cousa
para que êle, por longo costume, não seja.

«Assim ha já muitos anos que eu não vivo para mim, e que vim para estes
ermos, fugindo das gentes para quem só anoiteceu e amanheceu...

«Muito me aprouve achar-vos tambem conforme á minha tristeza; porque nos
consolaremos, ambas desconsoladas:--que isto vae assim como quem é
doente d'alguma peçonha, e se cura com outra.

«Quando vos eu á primeira vista vi, em o apartamento de toda a gente
(que n'esta terra ha muito) e o muito que tambem ha que eu não via n'éla
cousa com que falasse, me moveu á alteração, e não pus em vós os olhos,
tanto, como depois que vos falei; e, quanto mais vos ólho, mais acho que
vos olhar. As passadas palavras vossas me dizem que deveis ter o coração
altamente agravado.

«Nas mágoas que as lagrimas teem feitas no vosso rosto (que para esse
efeito parece que não foi dado) entendo eu quam dada deveis ser aos
cuidados, porque não costumam élas fazer-se sem razão.

«Vejo-vos moça; ainda ereis para viver no mundo. Mal haja a desventura
que tam cedo começou em vós, e tam tarde acaba em mim!

«Muito folgaria de me contardes vossas tristezas, uma a uma, que assim,
como vos eu ouvi, não me bastou mais que para me magoar. Mas, pois vós,
senhora, assim fostes servida, eu sou contente.

«E já que não pudestes escusar desventuras, folgo em que vós folgueis de
encobrir vossos males,--que o pesar ha este bem: Inda que não aproveite
para doer menos, aproveita para se sofrer melhor.

«Isto é assaz para as tristes das mulheres, que não teem remedios para o
mal, que os homens teem; porque, n'esse pouco tempo que ha que eu vivo,
tenho aprendido que não ha tristeza nos homens. Só as mulheres são
tristes; que as tristezas quando viram que os homens andavam de um lugar
para outro, e, como as mais das cousas, com as continuas mudanças, ora
se espalhavam ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhe tolhiam o
mais do tempo, tornaram-se ás coitadas das mulheres,--ou porque
aborreceram as mudanças, ou porque não tinham para onde lhe fugir.

«Porque, certamente, segundo as desventuras são desarrazoadas e graves,
aos homens se haviam de fazer; mas, quando com êles não puderam,
tornaram-se a nós, como á parte mais fraca. E assim é que padecemos dous
males, um que sofremos, e outro que se não fez para nós. Os homens
cuidam outra cousa, mas o que das mulheres não cuidam êles?! Logo,
costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se élas, por isso, teem
razão de serem mais tristes, sabê-lo-á quem souber que mágoa é manter
verdade desconhecida!»

A isto não pude eu suster um cansado suspiro de dentro d'alma; e éla,
sentindo-o (com quanto o eu encobri) estendeu a sua mão direita, e,
tomando a minha, com dissimulação, suspeitosa, tornou a falar para mim,
dizendo:

--«Quando eu era da vossa edade, e estava em casa de meu pae, nos longos
serões das espaçosas noites do inverno, entre as outras mulheres de
casa, umas fiando, e outras dobando, muitas vezes, para enganarmos o
trabalho, ordenavamos que alguma de nós contasse historias, que não
deixassem parecer o serão longo; e uma mulher de casa, já velha, que
vira muito e ouvira muitas cousas, por mais ancian, dizia sempre que a
éla pertencia aquele oficio, e, então, contava historias de cavaleiros
andantes.

«E, verdadeiramente, as afrontas e grandes aventuras (que éla contava) a
que se êles punham, pelas donzelas, me faziam a mim haver dó
d'êles,--porque cuidava eu que um cavaleiro convenientemente armado
sobre seu formoso cavalo, pela ribeira de um rio, de gracioso campo
passeando, podia ir tam triste como uma delicada donzela, em alto
aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, só podia estar,
vendo-se de altos muros cercada, com tantas guardas,--feitas para tam
pequena força. Mas, para lhe tolherem as vontades, fizeram grandes
defezas, e, para lhe entrar o desgosto, muito pequenas.

«Mais maneiras teem os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que
são; e muito menos teem as donzelas para se mostrarem mais tristes do
que parecem aos homens.

«Ao menos, se eu, depois que soube muitas cousas, pudera tornar atraz,
menos me houveram de magoar do que me magoaram. Que tambem se deve
esperar da dôr aquilo para que cada um a tem; de outra maneira, não se
devia éla ter.

«Digo isto, senhora, porque pelo lugar onde suspirou vosso coração, (que
vós de mim, quanto podieis, vos quisereis encobrir) suspeito eu que
d'alguma grande sem-razão deveis trazer o cuidado magoado; porque a
vossa edade não era para viverdes nos matos. Se os homens não
costumassem agravar donzelas, muito fôra de sentir; mas, das cousas
costumadas, quem se deve agravar?!

«Muito bem vos posso dizer isto (ainda que o conhecimento entre nós seja
pouco) porque sou mais velha que vós, e porque é verdade, para que se
não deve esperar tempo, como para as outras cousas.

«Quantas donzelas comeu já a terra com a saudade que lhe deixaram
cavaleiros, que come outra terra, com outras saudades?!

«Cheios são os livros de historias de donzelas que ficaram chorando por
cavaleiros que se iam, e se lembravam ainda de dar de esporas a seus
cavalos, porque não eram tam desamorosos como êles.

«N'este conto, não entram só os dous amigos de que é a historia que ha
pouco vos prometi. N'êles, sós, cuido que se encerrou a fé que em todos
os outros se perdeu; e creio que por isso ordenaram outros homens de os
matarem á traição, maldosamente, porque se não pareciam com êles.

«O mal não sómente aborreceu o bem, como quisera ainda que o não houvera
ahi.

«Lembra-me que, quando meu pae contava a vileza da maneira que tiveram
os falsos cavaleiros, para matarem os dous amigos, dizia que muito
folgara de a não ouvir para a não saber, pois não viera em tempo para
deixar de ir á terra magoado, porque já geração d'êles não havia ahi.

«Mas, se muito para sentir foi a morte dos dous, muito mais para sentir
foi a das duas tristes donzelas, que a desventura trouxe a tanta
desdita, que não sómente conveio aos dous amigos tomarem a morte por
élas, mas ainda conveio tomarem-na élas por si mesmas.

«Os dous amigos, no que fizeram, cumpriram para com élas, e para consigo
mesmos, aquilo a que eram obrigados pelas leis da cavalaria que
mantinham; élas só cumpriram para com êles, o que eu creio que é de
maior estima; porque élas, por outros, não fizeram aquilo, e êles, por
outras, deveriam-no fazer.

«Assim, como de pessoas que fizeram mais, se deve tambem a morte sentir
mais, ainda que a mim egualmente me doem umas e outras: élas, porque
eram mulheres, e êles, porque eram homens...

«Isto digo eu, para vós, e para mim, porque meu filho tambem era homem,
como êles.»



CAPITULO IV

Das palavras que a dona com a donzela passou


Com estas palavras começaram as lagrimas a correr pelas suas faces
abaixo, e éla, soltando a fala, seguiu dizendo:

--«Perdoar-me-eis, senhora, que, por minha edade, bem vos posso chamar
filha, se muitas vezes me virdes fazer isto, ainda que a vós vos não
devem as lagrimas ser estranhas, pois tanto folgastes de buscar lugares
sós como estes onde estaes, que já em outro tempo, dizem, foram cheios
de mui nobres cavaleiros e formosas donzelas; e ainda agora, por aqui
algures, as moças que guardam gado acham pedaços d'armas, e joias de
grande valia;--o que parece que faz este vale de mais triste sombra que
outro nenhum.

«Não sei, este desconcerto do mundo, onde hade ir ter. Em tempo, foram
estes vales muito povoados, e agora muito desertos; costumavam gentes
andar n'êles, agora andam animaes ferozes. Uns deixam o que outros
tomam! Para que eram tantas mudanças em uma só terra?

«Mas parece que tambem a terra se muda como as cousas d'éla. A esta,
porque passou o tempo em que foi leda, veio este em que havia de ser
triste.

«De muito povoada, e de edificios reaes enobrecida, tornou-se a povoar
de altos arvoredos, como a natureza os produzia.

«Ainda em alguns sitios d'este vale estão algumas antigas arvores, que,
pelo muito decurso de tempo, e descostume de como foram creadas, parecem
já d'outra plumagem diferente d'aquela de que deviam ser quando,
ajudadas de pomareiras mãos, élas produziam seu perfeito fruto.

«Tudo quanto ha n'este vale é cheio de uma lembrança triste para quem
tiver ouvido o que dizem que aconteceu n'êle, e o que foi já em outro
tempo; que pareceria então que não era para vir a este de agora.

«Mas tudo é assim. Emfim, fazem-se umas cousas para outras, para que se
não faziam.

«Mal cuidariam os dous amigos, quando aceitaram a empreza de guardar as
aventuras d'este vale (para só aprazer ás formosas duas donzelas) que
era para tanto seu desprazer d'élas... E, tambem, mal cuidaram élas,
quando aquele dia (da grande desventura) se vestiram, e enfeitaram
ricamente, para verem os dous cavaleiros amigos, que era para os não
verem mais!

«Trazem-nos os nossos fados não sei quê ante os olhos, que temos as
cousas diante, e não as vemos...

«Tudo anda trocado, que não se entende; e assim nos veem tomar as mágoas
quando estamos mais assegurados d'élas, que nos doem, a um mesmo tempo,
o bem que perdemos, e o mal que depois cobramos!»

Aqui deu éla um grande suspiro, e esteve como se quisera dizer outra
cousa: e tornou dizendo:

--«Mas tempo é de cumprir o que vos prometi, pois bem vejo que muito ha
hoje que me leva a minha dôr após si.»



CAPITULO V

Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a sua nau, e
da batalha que teve com o cavaleiro da ponte e do que mais lhe sucedeu


«De reinos estranhos, dizem que veio n'um tempo passado ter a estas
partes um nobre e famoso cavaleiro.

«Aportou, cerca d'aqui, em uma nau grande, carregada de muita riqueza,
e, sobretudo, de duas formosas irmans, a uma das quaes êle mais que a si
queria. Para que éla não sentisse a saudade de sua terra, trouxeram a
outra irman, donzela, mais pequena que aquela por quem êle vinha buscar
terras estranhas.

«Contam que élas eram filhas de um poderoso senhor, como depois, com o
tempo, se suspeitou, pelos muitos cavaleiros andantes que pelo mundo
foram espalhados n'aquela epoca. Mas esta historia será longa.

«Aportando Lamentor (que assim se chamava) n'estas partes, como digo;
havida inteira informação da terra, e da gente d'éla, porque, como êle
viesse da maneira que vinha, não queria fazer seu assento em nenhum
lugar muito povoado; e, saindo um dia pela manhan da nau, com todas as
suas riquezas, começou a caminhar por este vale acima,--que para tudo
tinham já seus criados feito o concerto necessario.

«Em umas ricas andas, que Lamentor na nau trouxera, iam as duas irmans;
porque a maior vinha quase no fim do tempo da prenhez.

«A manhan era graciosa. Parecia que assim se acertou, para a terra mais
lhes contentar. Ia o ano no mês d'abril, quando florescem as arvores, e
as aves, que até então estiveram caladas, começavam a andar fazendo os
gorgeios do outro ano, pelo que, por entre o arvoredo d'este vale (bem
podeis cuidar quejando seria então, pois agora é tanto) estavam élas
tomando recreio, ora n'uma cousa ora em outra.

«Tudo buscava Lamentor para que sua senhora e a donzela sua irman, de
alguma maneira, perdessem a saudade de sua terra, e o enjôo do mar.

«Sendo êles cerca de uma ponte, que ahi perto ainda está, e querendo-a
passar, lhe disse um escudeiro que no começo d'éla estava:

--«Senhor cavaleiro, se quereis passar, convem que façaes, uma, de
duas:--ou que confesseis que o cavaleiro que mantem esta passagem quer
bem com mais razão que ninguem, ou o determinará a justa.»

--«Muitas cousas havia mister de saber (lhe respondeu Lamentor) quem
houvesse de responder a essa pregunta: e como se póde saber se quer êle
bem com mais razão sem ouvir primeiro onde, ou como o quer? Mas, por
agora, d'isso eu não curo: porque a mim basta-me saber que, por mais
razão com que êle queira bem, eu o quero mais que êle, e que todos os do
mundo. Isto que sei, certo de mim, me escusa saber mais d'êle que a
condição com que êle guarda esta ponte. A razão que tem para isso,
guarde-a para si; que, para êle, poderá ser que pareça a maior do mundo.
Deveis, bom escudeiro, dizer-lhe que faria bem em deixar-nos passar,
antes que o julgue a justa.»

«O escudeiro, que já olhára para as andas, e nunca cousa tam bem lhe
parecera, lhe tornou:

«--É escusada, para êle, essa embaixada, porque está tam ufano, que não
póde agora ninguem com êle (e na verdade tem causa); porque fará d'aqui
a oito dias três anos que êle mantem este passo, sem achar cavaleiro que
o vencesse, sendo o mais esforçado d'êles que por toda esta terra ha. E
então se acaba o praso que lhe foi dado por uma donzela, a mais formosa
que n'estas partes se sabe, filha do senhor d'aquele castelo que ali
vêdes, em que éla lhe prometeu seu amor, sendo esta ponte por êle
guardada com a dita condição. Mas se êle fosse sabedor da companhia que
vós trazeis, com razão deveria temer agora, mais que nunca; mas eu não
lh'o posso ir dizer, que já outras vezes lhe levei assim embaixadas, e
êle tornava-me má resposta: e sucedendo depois á sua vontade m'o deitava
em rosto, como que a minha tenção ficasse, pelo seu acontecimento,
culpada.»

--«Ora, pois, determine-o a justa», disse Lamentor, olhando já para as
andas.

«Tirando então, de um tiracolo, o escudeiro uma corneta, tocou-a.

«Dahi a um pouco, deixou-se sair d'um espesso arvoredo, que alem da
ponte estava, um cavaleiro bem armado, a cavalo, e vindo direito para a
ponte, ali houveram ambos justa, de que meu pae contava muitas cousas de
grande esforço e valentia, que vos eu não contarei; porque, ainda que as
mulheres folguem muito de ouvir cavalarias, não lhes está bem
contarem-nas, nem élas parecem, nas suas bôcas, como nas dos homens que
as fazem.

«Mas, comtudo, dissera-vo-las eu, se me lembrassem inteiramente; porém,
não me lembra senão que contava meu pae que romperam três lanças, e á
quarta caiu o cavaleiro da ponte; e com a queda grande do encontro (que
tambem foi grande) ficára sem se poder levantar por um pouco.

«Lamentor se apeou rapidamente. Quando chegou junto d'êle, o achou sem
fala, e, descobrindo-o, lhe pareceu como morto. Mas, d'ahi a um pouco,
acordou, todo mudado na côr, e levantando os olhos para Lamentor, que
sobre êle estava, com um suspiro:

--«Ai! ai! cavaleiro,--lhe disse. Que vos nunca vira, prouvera a Deus,
ou que ao menos vos não tornára a ver!»

«Lamentor houve d'êle dó, maiormente de suas lagrimas, que lhe viu; e,
tomando-o pelo braço, o ajudou a erguer, dizendo:

--«Do amor, senhor cavaleiro, nos podemos queixar com razão; que, assim
como vos êle a vós fez aqui guardar esta passagem, me fez a mim
fazer-vos dano. De vo-lo ter feito, me pesa como homem; que,
fazer-vo-lo, foi como namorado. N'outra alguma cousa de vosso
contentamento vo-lo emendarei, quando mandardes.»

«O cavaleiro da ponte, que assim o viu comedido, bem lhe pareceu razão
de lhe agradecer aquela vontade; mas tamanha era a dôr que tinha no
coração que não pôde acabar de forçar a sua. Comtudo, porque era de alta
criação, lhe disse, como desculpando-se:

--«O amor demasiado não vive em terra de razão, mas eu irei tomar
vingança d'êle n'outras, alongadas d'esta, onde não veja cousa com que
os meus olhos descansem; ainda que esta vingança bem me pésa,--pois que
ha de ser de mim e de meu cuidado?!»

«E assim se virou para outro lado, e deu a andar pelo vale abaixo. E
como êle da queda grande que dera ficasse mal-tratado, e (segundo depois
pareceu) quebrasse alguma cousa de dentro, não foi muito pelo vale
abaixo, porque, acabando o seu escudeiro de tomar o cavalo, começando
d'ir após êle, o alcançou perto d'ali: e achando-o já lançado no chão,
de bruços, foi para o erguer, e viu que êle era em estado de morte.

«Começou a chorá-lo amargamente, e Lamentor, que o ouviu, deu a correr
para lá. E vendo que estava o escudeiro com seu senhor, como morto, nos
braços, desceu-se prestesmente, e foi-se para êle; e vendo-o no
derradeiro termo de sua vida, e como desmaiado, lhe começou a dizer:

--«Que é isto, senhor cavaleiro?... Esforçae! que é este o passo
verdadeiro para que tomastes a ordem de cavalaria.»

«E êle, acordando, pôs os olhos em Lamentor, e estendeu-lhe,
vagarosamente, a mão direita, como em signal que parecia de paz. E, com
uma voz cansada, disse:

--«Ao esforço, se me êle pudera valer, perdoára eu tudo; pois me falece
agora, quando a mim tanto cumpre viver...»

«E com a força que fez para dizer isto (como homem que tinha alguma dôr
grande de dentro) foi-se-lhe o folego, e, cerrando os seus olhos, ficou
como passado d'este mundo. Mas, d'ahi a um pouco, os tornou a abrir, e
fazendo menção com o rosto para aquela parte onde estava o castelo da
donzela por quem guardava a passagem, e que todo aquele vale descobria,
e levando para lá os olhos,--parece que lembrando-lhe que não tinha já
mais de oito dias para acabar o praso que lhe fôra assinado, e como
cousa que lhe mais magoava--ainda disse estas derradeiras palavras:

--«Ó castelo, quam perto ainda agora estava de vós!»

«E, com isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir, cansadamente, cerrando
para sempre.»



CAPITULO VI

Em que se diz a razão por que o cavaleiro da ponte sustinha aquele
passo, e de como sua irman ali veio ter


«Chegadas eram já ali as andas com as duas irmans, e toda a outra gente,
e vendo como o cavaleiro da ponte (que desarmado já o rosto tinha) era
de formosura, e presença extremada, e ainda mancebo, todos ficaram muito
tristes de tamanho desastre.

«Lamentor, que via como o escudeiro estava lançado aos pés de seu
senhor, tristemente chorando, havendo d'êle compaixão (porque, assim na
pratica que com êle tivera havia pouco, na ponte, como n'aquilo, lhe
parecera de boa maneira e de criação) foi-se para o consolar; e
tirando-o para fóra d'ali, d'onde estava chorando, lhe disse:

--«Até nas cousas proveitosas, a temperança é muito louvada; os choros
não aproveitam para nada; por isso, é muito mais necessaria n'êles; nem
os choros se devem ter senão como cousa que se não póde escusar. Vosso
senhor faleceu como cavaleiro; e ainda vos digo que as pessoas que lhe
bem-queriam não devem estar tristes; antes se devem alegrar muito,
porque foi de tam alto coração que não pôde suportar ser vencido,--que,
sê-lo ou não, está na ventura.»

--«D'esta desventura minha, pois fico só (disse o escudeiro, chorando)
não me pésa tanto por mim, senhor, como por ser tomada por quem é.»

--«Os cavaleiros por amores, tornou Lamentor (desejando saber o que este
era), tudo lhes está bem fazer.»

--«Em lugar, lhe respondeu o escudeiro, que lhe seja agradecido; mas o
meu senhor, sobre todas as cousas do mundo, queria bem a uma donzela,
que não tinha para êle mais armas que a formosura; porque a vontade
(segundo éla mostrou) nunca foi d'êle, antes disseram algumas pessoas de
sua casa que no dia em que éla concedeu o praso chorou muitas lagrimas,
e que nunca o concedera se não fôra por seu pae, que era tam afeiçoado a
meu senhor (e com razão) que, ao cabo de longo tempo, alcançou isto de
sua filha, e ainda á hora de sua morte.»

«Todos ficaram espantados d'ouvir isto, porque o cavaleiro da ponte era
formoso e se houvera na justa grandemente.

«Lamentor, a quem isto pesou muito, pelo esforço que êle na justa lhe
vira, com grande melancolia, disse:

--«Consolae-vos, que amor nunca perdoou desamor; tarde ou cedo, vereis
vingança.»

«O escudeiro, chorando, e tornando-se a lançar aos pés do seu senhor:

--«Ai! senhor cavaleiro, disse, para a morte não ha ahi vingança!»

«Lamentor o tornou a erguer, dizendo-lhe: que, para o chorar, haveria
tempo; que por então curasse de entender no que havia de fazer.

«O escudeiro lhe disse que iria, d'ali a uma jornada, onde estava uma
fortaleza de seu senhor, em que vivia uma sua irman viuva, a quem a êle
dera para lhe comer as rendas enquanto que êle seguia as aventuras: e
d'ahi viria o concerto para o levarem ao jazigo de seus antecessores; e
que, por então, deixasse Lamentor ali um seu escudeiro, que o guardasse.

«O sol ia já declinando, e era tempo de repousar: mórmente quem do mar
saíra.

«E porque, não muito longe d'aquele lugar, e da ponte, estava um assento
gracioso d'arvoredo, e corria por entre êle agua, ordenou Lamentor de
ali jantar, e assim o fez depois, dizendo ao escudeiro que queria ir
repousar n'aquele lugar; que lhe daria as andas em que o levassem, e
que, se mais lhe cumprisse, de boamente o faria.

«O escudeiro, tendo-lh'o em mercê, disse que assim fosse.

«E, começando-se de ordenar tudo, sucedeu por acaso que a irman do
cavaleiro da ponte, que sabia que não havia mais que oito dias para se
acabar o praso em que seu irmão (que éla muito queria) todo o seu
contentamento tinha posto, determinára vir ali com grandes pompas e
atavios, como aquela que devia, por amor e obrigação, acompanhá-lo até
ao fim,--porque tinha éla por certo que o acabaria êle com grande honra,
pois tanto tempo mantivera sua aventura que não havia já cavaleiro em
toda essa parte que por ali não tivesse passado.

«E acertou então de vir: e, vendo aquele ajuntamento e as andas, não
soube que dizer; mas logo lhe deu o coração uma volta, e, chegando-se
com presteza, viu o escudeiro, que éla bem conhecia, andar chorando.
Preguntou-lhe que cousa era aquela. Olhou, e viu o irmão jazer já sobre
uns panos ricos, que Lamentor lhe mandara pôr, e, apeando-se
apressadamente, foi correndo para êle. Lançando os seus toucados por
terra, começou a ir, arrancando cruelmente os seus cabelos (que longos
eram), para onde o corpo de seu irmão morto jazia, dizendo:--«Para a dôr
grande, não se fizeram leis!»

«Isto dizia éla, porque era costume muito guardado n'aquela terra, que
ficara d'outro tempo, sob grandes penas proíbido, não se pôr mulher
nenhuma em cabelo, senão por seu marido.

«Chegando a êle, o abraçou muitas vezes, e o beijou, dizendo:

--«Irmão meu, que morte foi esta, que assim vos levou tam depressa, que
vos não pude falar? Quam enganada me trouxe, do vosso castelo até aqui,
a desventura?! Que desconcertos da fortuna são estes? Para verdes
outrem, tomaveis vós esta empreza; e eu para vêr a vós parti de casa: e
tudo era para não vêrmos o que desejavamos!... Triste de mim, que,
quando vós, com outro rosto, fostes correndo a abraçar-me, dizendo:
«D'aqui a três anos, senhora irman, haverei a causa do mundo mais
desejada, e, com vossa licença, que mais quero» logo me deu n'alma. E
disse-vos: «Que largo praso, esse, para quem o recebe; parece até que
quem o põe o não põe para outra cousa!» Mas vós, que para isto quisestes
este bem, como que não folgaveis de me ouvir aquilo, me tornastes: «O
grande amor assegura esta demanda.» Inda mal, muitas vezes, porque foi
tam grande! Mas não me comerá a mim a terra com esta dôr, sem fazer, com
todo o meu poder, que custe o largo praso alguma cousa áquela que tanto
custou a vós e a mim!»

«As duas irmans, que já tinham descido para darem as andas, se foram
para éla, e, tomando-a entre si, começaram a agasalhá-la, á maneira de a
quererem consolar,--que a lingoagem d'aquela terra não a sabiam.

«Éla, com alta voz, chorando, disse: «Deixai-me, senhoras, chorar meu
irmão, pois não tem outrem que o chore.»

«Chegou-se Lamentor, que sabia a língoa, e andára todas as partidas do
mundo, e disse:

--«Os cavaleiros, senhora, que em feitos d'armas acabam, como vosso
irmão, não devem ser chorados como os outros homens; porque êles acham o
que buscam. Vós, senhora, posto que muita causa tenhaes para ser triste,
pela perda que perdestes n'ele, que era o melhor cavaleiro d'esta terra
toda, tendes tambem muita razão para louvar a Deus por ele ser tal.
Deixae o pranto, e vêde o que mandaes que se faça; que parece, senhora,
escandalo curardes mais de vossa dor que de vosso irmão, emquanto o
tendes diante de vós.»

«N'isto, chamou o escudeiro, para que lhe dissesse o que estava d'antes
ordenado. E éla o houve por bem, e fez-se assim.

«E puseram o cavaleiro da ponte sobre as andas, em ricos panos; e a
irman, chorando, pediu que a metessem com ele. Lamentor a tomou por um
braço, e a donzela (porque a irman não podia) pelo outro, e puseram-na
dentro. E querendo Lamentor soltar os paramentos das andas, como causa
de tanto dó, se chegou mais para éla, e disse estas palavras:

--«Ainda que o tempo, senhora, seja para outra cousa, como não sei
quando vos tornarei a ver, de mim sabei, como certo, que podeis fazer a
vosso serviço; o mais, sabereis do escudeiro.»

«E éla não tornou resposta, que ia toda coberta, lançada já sobre o
rosto de seu irmão, chorando.

«Ele soltou os paramentos, e assim se foram.»



CAPITULO VII

Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por aprazer
aquele lugar a Lamentor, ordenára fazer ali seu assento


«Tristes ficaram todos por aquela desventura; mas Lamentor, que não
esquecia quem trazia consigo, limpando os olhos das lagrimas que aquela
partida assim lhe fazia, veio para onde sua senhora estava com a irman,
com estas palavras:

--«Agora nos podemos, senhora, ir; que na mortalha alheia não temos mais
que fazer.»

«E, tomando-as, cada uma por sua mão, mandou os seus para aquele lugar
que d'antes lhe parecera bem, dizendo-lhes o que haviam de fazer
entrementes.

«Foram-se então todos pôr sobre a ribeira d'este rio, olhando para êle.
Falando em outras cousas, estiveram ali um pouco, porque o mais depressa
que ser podia foi armada uma rica tenda, e preparado de comer, que tudo
vinha em grande abastança.

«Repousaram até bem tarde, que as andas tornaram. E por não serem já
horas para caminhar, se deixaram ficar ali aquela noite,--que a fortuna
tinha já ordenado que fosse para sempre.

«Belisa (que assim se chamava aquela senhora que vinha prenhe), emquanto
ali estiveram, antes que as andas viessem, adormeceu; e, acordando um
pouco agastada, viu junto de si Lamentor, e lançando-lhe, amorosamente,
os braços sobre o pescoço, esteve assim pensativa por um pouco.

«E êle, vendo que éla sonhára, pelo desacordo com que acordára, lhe
preguntou:

--«Que cousa, senhora, foi essa?»

--«Sonhava, senhor (lhe respondeu éla) que estávamos, vós e eu, ambos
presos de um fio; e que eu cortava-o, e que vos não via mais.»

«Lamentor, não lhe pareceu senão que lhe atravessavam aquelas palavras o
coração (como na verdade assim foi) e assim êle, com isto que em si
sentiu, se entristeceu grandemente.

«Adivinhava-lhe, parece, a alma o seu mal. E não pôde tanto dissimular
que o não conhecesse éla, e disse-lhe:

--«Que é isto, senhor, que assim vos mudastes com o que vos disse?»

«Mudando êle o proposito em cousa que tambem lh'o mudasse a éla, para
lhe escusar alguma imaginação, pelo perigo em que vinha da prenhez, lhe
respondeu, dizendo:

--«Hei-vo-lo, senhora, de confessar, ainda que n'isto force minha
condição,--que nem dizer-vo-lo, nem cuidá-lo quisera. Houve melancolia.
Perdoae-me, que de vós não se póde éla haver. Mas como os sonhos não
venham senão do que a gente traz na fantasia pareceu-me (porque me
dissestes que sonhaveis que me não vieis mais) que era desconfiar do que
vos quero, e de mim,--sendo vós bem segura de ambas as cousas, ou de
cada uma.»

--Éla, com a boca cheia de riso, que bastava para o desagastar (se êle
aquilo cuidava) se chegou mais para êle, dizendo-lhe:

--«Bem longe viera eu buscar essa desconfiança! Eu vos perdôo. Parece
que é este dia aziago, que tantos desastres acontecem n'êle!»

«N'isto, e em outras cousas, passaram aquele dia, emquanto houve sol,--o
qual com mais prazer se havia de pôr, do que amanheceu, pelo que
ouvireis.»



CAPITULO VIII

De como a Belisa vieram em crescimento as dores do parto, e, parindo uma
criança, faleceu


«Vinda a noite, repousando já todos, Belisa se começou de agastar
levemente; mas, crescendo-lhe a dôr cada vez mais, houve de chamar por
sua irman.

«Acordando éla, que perto em uma cama dormia, lhe contou Belisa como a
dôr lhe ia em crescimento. A senhora Aonia (que assim se chamava a
irman) acordou as mulheres de casa, e uma dona honrada, que de parteira
sabia muito, e para isso a trouxera Lamentor; porque, quando partira, já
Belisa era prenhe; e se não fôra porque se não podia já encobrir, não a
trouxera êle assim a terras estranhas: mas, na necessidade, o amor não
achou outro melhor remedio que o desterro.

«Belisa, que a Lamentor queria sobre todas as cousas do mundo, disse,
para as outras, que a ajudassem a tirar do leito em que jazia para a
camilha de sua irman, para o não acordarem, que estava cansado do
caminho. Assim se fez, o mais de manso que puderam.

«Grande parte da noite passaram a fazer remedios para a dôr de Belisa.
Mas a senhora Aonia, que via sua irman cada vez com mais agastamentos:

--«Quereis, senhora irman (lhe disse) que chamemos meu irmão?»

--«Para tomar paixão, (lhe disse éla) não o chameis vós; que prazerá a
Deus que se me irá esta dôr: e isto, ao menos, ganharemos d'éla.»

--«Assim praza a Deus (falou a dona honrada, d'acolá d'onde estava)
porque não vejo nenhum sinal, senhora, de parirdes tam cedo. Deve ser
isto do caminho ou da mudança de terra.»

«Porém, era já manhan quase; e a dôr não amansava, antes se fazia maior,
e começavam-lhe a vir uns agastamentos e desmaios ao coração. A primeira
vez que lhe isto veio, suportou-o éla; e a outra vez tambem; mas quando
veio a terceira, em tamanho crescimento lhe veio, que lhe tolheu a fala,
um pouco.

«Tornando éla a si, olhou para sua irman, dizendo-lhe que já agora lhe
pesava de o não chamarem. E porque n'isto se começou a sentir melhor,
tornou depressa para sua irman, que já ia para o chamar, dizendo:--«Mas
não o chameis, que, parece, me acho melhor.»

«Um pedaço grande, esteve então Belisa desagastada. E porque uma rica
camisa que tinha vestida estava mal-tratada dos remedios que sobre o
coração lhe punham, para as mulheres, disse:--Vistam-me a mim outra
camisa, que, se morrer, não vá pelo menos assim.»

«A senhora Aonia se pôs a chorar, com estas palavras.

«Olhando para éla, Belisa, lhe vieram as lagrimas aos olhos; e,
querendo-lhe dizer alguma cousa, a dôr não a deixou, que então começou
mais apertadamente que d'antes.

«Aquela dona honrada, que a via mais agastada que nunca, disse que seria
bom erguerem-na de todo; e querendo-a sua irman tomar por um lado, se
virou Belisa para éla, dizendo-lhe:--«Não sei que ha-de ser isto!»

«Mas tamanhos foram os agastamentos, e tam apressados, que não houve ahi
acordo para a erguerem de todo, e ficou como assentada. E, emfim, foi
assim a desventura que em breve espaço a pôs no extremo da morte.

«E já, a éla, lhe ia falecendo a fala, levantando os olhos para sua
irman, como forçadamente, disse:--«Chamem-no; chamem-no!»

«Foi a senhora Aonia, chorando desoladamente, chamar Lamentor, que no
mais alto sôno dormia, dizendo-lhe:--«Acordae, senhor; acordae, que vos
levam Belisa!»

«Ergueu-se apressadamente Lamentor, levando a mão a um terçado, que
junto da cabeceira tinha; mas vendo chorar todos derredor da cama de
Aonia, e Belisa, a quem tinham erguida até aos peitos, como passada
d'este mundo,--abraçando-a, se chegou para éla, dizendo:

--«Que cousa foi esta, senhora?»

«E as lagrimas enchiam, com estas palavras, todo o rosto seu e o d'éla.

«Levantou então Belisa, cansadamente, uma mão, com a manga da camisa
tomada, para lhe limpar os olhos; mas, não seguindo éla já a sua
vontade, se lhe deixou a tornar a cair para baixo. E éla, pondo os olhos
fitos n'êle: «Não mais, disse, para sempre!» E, d'ahi, os foi cerrando,
vagarosamente, como que lhe pesava de o deixar assim.

«Lamentor, que isto não pôde ver, caiu para o outro lado, como morto, e
assim esteve um grande pedaço.

«N'este meio tempo, ouvindo a dona honrada chorar uma criança na cama; e
cuidando o que era, atentou, e achou uma menina recem-nascida, que
chorava muito.

«E, tomando-a então nos braços, com os olhos não enxutos, disse assim:

--«Ó coitadinha de vós, menina, que chorando vossa mãe nasceis! Como vos
criarei eu, a vós, filha estranha, em terras estrangeiras? Mal vá ao dia
em que assim saimos do mar, para passar toda a tormenta na terra!»

«Mas, como entendida que era, ordenou de a curar, tomando a tarefa toda
sobre si; que bem via que Lamentor, e a irman, outro maior encargo
tinham. E, assim, mandou o que se havia de fazer, e proveu sobre tudo».



CAPITULO IX

Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa


«A senhora Aonia (lembrando-lhe o que vira fazer á dona viuva sobre o
corpo de seu morto irmão, que o devido costume ao tempo do luto lhe
parecia então,--posto que em sua terra se não usasse) pondo-se sobre o
corpo de sua irman, rasgando os toucados dos seus formosos cabelos, que
longos eram, á maravilha, a cobriu toda, e tambem a Lamentor, que éla
bem cuidou que era falecido; que pelo grande bem que êle queria a sua
irman, leve lhe foi isto de crer, vendo-o da maneira que via!

«Depois de muito cansada, em alta e dorida voz, começou por estas
palavras:

--«Triste de mim, donzela de pouco tempo, desamparada em terra alheia,
sem parentes, sem ninguem, e sem prazer! Como vós, senhora irman, me
pudestes deixar só, tam longe e em tal lugar?! Para vos tirar a saudade,
me dizieis vós que vinha eu cá: e vós, para m'a dar a mim, vinheis!...
Malaventurada de mim! Para outros fados, cuidava eu que me criava a mim
minha mãe, e éla foi a enganada, e eu a que hei de pagar agora o engano!
Quam sem-razão tamanha, senhor cavaleiro, me é feita diante de vós! De
quantas donzelas por vós foram amparadas, eu só estava para o não ser!
Coitada de mim! Que farei? Onde me irei?...»

«E assim se lançou sobre o corpo de sua irman.

«Mas, ao invocar o cavaleiro, Lamentor a ouviu, como por sonhos; e
tornando em si, viu diante tantas mágoas que ficou sem fala um pouco; e
vendo logo como se matava toda a senhora Aonia, esforçou-se para a ir
ajudar, para que tam cruelmente se não matasse, dizendo:

--«Esforçae-vos, senhora, pois a fortuna quis que um tam desconsolado
vos console!»

«E foi-a a erguer; e, querendo-lhe falar, lhe faleceu a fala.

«Ali, houveram ambos mui triste pranto, e entre si se diziam, um ao
outro, palavras de muita mágoa, começadas pela dôr, rotas pelo pranto.

«E era já manhan clara.

«E acertou assim que, áquela hora, chegava um cavaleiro á ponte, e vinha
de longes terras buscar aquela aventura, por mandado d'uma senhora que
lhe queria bem a êle: mas êle a éla devia-lhe mais do que lhe queria.

«Não achando ninguem na ponte, e ouvindo perto d'ali tam grande pranto,
pareceu-lhe algum misterio, ou alguma cousa de dôr.

«Deu a andar para onde era; e, vendo uma rica tenda, e ouvindo muita
gente, dentro e fóra, chorando, preguntou a um servidor, que topou, que
cousa era aquela. E êle lh'o contou.

«E, apeando-se êle então, (mandando primeiro adiante o escudeiro de
Lamentor) muito mensurado e humildemente, entrou após êle.

«E entrando, e vendo a senhora Aonia, que em grande extremo era formosa,
soltos os seus longos cabelos que toda a cobriam, e parte d'êles
molhados em lagrimas, que o seu rosto por alguma parte descobriam, foi
logo trespassado do amor d'éla, sem haver quem, por parte d'outrem,
fizesse defeza alguma; e como o amor viesse juntamente com a piedade,
parecia que vinha éla só; mas, quando se descobriu, eram já conhecidas
tantas razões por parte da senhora Aonia, que não tam sómente lhe
esqueceu a outra, mas não lhe lembrou mais senão para lhe pesar do tempo
que gastára em seu serviço.

«D'esta maneira, foi êle preso do amor da senhora Aonia; e, depois, veio
a morrer por éla.

«Este foi um dos dous amigos de que é a nossa historia. E, por isto,
costumava meu pae dizer que tornára o amor d'este cavaleiro a morrer na
paixão onde se levantára. Mas, para isto, seu tempo lhe virá.



CAPITULO X

De como Narbindel, vindo a combater com o cavaleiro da ponte, vendo o
pranto que se fazia na tenda de Lamentor, entrou dentro para o consolar


«Dito era já a Lamentor que o cavaleiro entrára: mas êle não no viu
senão quando já o achou junto de si, dizendo-lhe palavras de consolação.

«Lamentor as recebeu d'êle o melhor que pôde, mais por lhe não dar causa
de se deter muito, que por estar para isso. Mas, depois de estarem um
pouco, vendo Lamentor que êle não fazia menção de se ir, forçadamente,
lhe disse:

--«Senhor cavaleiro, a vossa visita vos tenho em mercê. Praza a Deus
que, em outra mais alegre, vo-la pague! Nós vimos de jornada, como
sabereis. As pousadas não são maiores do que vedes; não ha ahi outra
casa senão esta, para a tristeza e para nós. Deveis-vos, senhor, ir para
onde ieis; não tomareis ao menos parte em tanto luto, porque as mágoas
alheias tambem doem a quem as vê. Perdoae-me, que não tenho agora outra
cousa em que vos sirva a vossa boa vontade.»

«O cavaleiro, passando os olhos pela senhora Aonia:

--«Eu não tenho d'onde ir d'aqui», lhe disse.

«E, parece que lembrando-lhe que a havia de deixar, cairam-lhe umas
ralas lagrimas pelo peito.

«Mas, como êle visse que ali não tinham mais do que aquela tenda, e
outra pequena, bem lhe pareceu que não podia caber ali n'aquele tempo
gente estranha, ainda que êle--no seu coração--já o não era. Erguendo-se
então, seguiu sua fala, dizendo:

--«D'este luto, senhor, não me póde a mim já caber pequena parte, para
onde quer que vá. De boamente vo-lo ajudára a passar; mas emfim, vós,
senhor, cavaleiro sois: e mais, pois vindes de longe terra, (como soube
de um servidor vosso) não deve ser este o primeiro que tendes visto;
porque, nas suas mesmas terras, os que nunca se mudam d'éllas, não se
podem escusar de ver luto cada dia, e cada hora do dia!»

«E dizendo-lhe mais que visse o que lhe mandava, se despediu d'êle, com
os olhos postos na senhora Aonia, e assim foi um poucochinho, que a
tenda não lhe deu mais lugar; mas, quando se houve de virar todo, com
muita dôr sua os arrancou d'ali.

«Assim se saiu da tenda; e assim o deixaremos, para seu tempo.»



CAPITULO XI

De como se deu sepultura ao corpo de Belisa, e do pranto que com êle fez
Lamentor


«Lamentor se tornou a seu pranto,--que muita causa tinha êle para isso.

«Mas, estando êle, e a irman, assim por um grande espaço de tempo, que
ia já o Sol para o meio-dia, a dona honrada (que ama se chamou depois,
pela criação da menina) como era já idosa, era de muito saber, e
chegando-se para onde ambos estavam no seu pranto:

--«Senhores, (começou a dizer) para o pranto, muito tempo vos ficará,
que a desventura parece que é n'esta terra como na nossa. Deixai as
lagrimas, que não é agora tempo para vós, senhor, não parecerdes
cavaleiro; nem para vós, senhora, parecerdes tanto mulher. Lembre-vos
que a tristeza é de todos; que tamanho mal foi o nosso que não tam
sómente o hemos de ter, mas ainda nos havemos de consolar uns com os
outros. E, pois temos a dôr para sempre, doâmo-nos, sequer, como de nós
que ficamos vivos. A sepultura é devida aos mortos: hão-se de fazer as
cousas necessarias; olhai que é o derradeiro dom da vida! Termos o corpo
da senhora Belisa mais tempo sobre a terra, parecerá fazermos-lhe força
no mais pouco de sua partida; e porventura se deve éla desgostar de lhe
negarmos o seu descanso quando não nos hade pedir mais cousa alguma.»

«Acabadas estas palavras, que não foram ditas sem muita dôr de todos,
tomou éla á senhora Aonia, como sobraçada, e a levou para a tenda
pequena, que chegada áquela estava; e d'ahi tornou por Lamentor, e
tambem o ajudou a ir para lá. Depois, entendeu em concertar o
necessario.

«Mas Lamentor não quis que levassem o corpo de Belisa para outra parte,
antes mandou que ali, onde falecera, fosse a sua sepultura; porque logo
assentára em sua vontade de nunca mais, emquanto vivesse, se mudar
d'aquele lugar. E assim o fez.

«E porque, nos reinos d'onde êles vinham, se costumava, antes que
mandassem os corpos mortos á terra, virem todos os parentes a
beijarem-nos nas faces, e os familiares nos pés, e o parente mais
chegado por derradeiro de todos (parece que faziam aquilo como saudação,
para que aquela transmigração fosse como em boa hora), quando tudo foi
acabado, a ama veio chamar Lamentor e a senhora Aonia, que foi prestes
lançar-se sobre as faces de sua irman.

«E, beijando-a muitas vezes, levantou a voz, dizendo:

--«N'outra terra, muitas tivereis vós que fizeram isto, mais que
n'esta!»

«E aqui começou a rasgar o seu formoso rosto.

«E todos levantaram um triste pranto.

«Á maravilha, cada um lembrava a sua dôr, e assim a iam beijar nos pés.

«Lamentor, a quem mais doía onde ainda nunca outra cousa lhe doera,
depois de muitos suspiros arrancados d'alma, olhando pelo que devia
fazer, pelo costume, d'esta maneira disse:

--«Senhora Belisa, como vos hei de saudar, eu? Por mim, deixastes vós
vossa mãe, vossa terra, vossos amigos e parentes! Quem vos pôde apartar
de mim, em terras estranhas, para me fazerdes tam triste?! Não me
querieis vós a mim, tamanho bem? Como me deixastes só? Mas alguma
desventura me houve inveja, que o que vós me fazieis para ser o mais
ledo cavaleiro do mundo--para eu ser o mais desgostoso o fazieis vós!...
Malaventurado cavaleiro, que para vós, senhora, estava ordenada uma
sepultura em terra alheia, e, para minha vida, duas! Mas a vossa terá o
corpo; e a minha: vida e alma! Não era mais rijo, senhora, o fio que nos
prendia a ambos? Como o cortastes vós, sem mim? Não vos lembrou que era
eu o que vos não havia de ver mais? Mas pedistes, senhora (me disseram)
que vos levassem de junto de mim, para me não tirarem do repouso; e
outrem tirava-m'o estando longe de vós. Não bastou a minha desventura
haver de ser mais triste do mundo, mas ainda a maneira como me veio o
havia tambem de ser! Não me chamaram senão para vos não ver; e ainda
então vos doestes de mim, que quisereis limpar-me as lagrimas, e a minha
desventura não o queria. Faleceu-vos a mão; como que vos deixava, sendo
já senhora da vossa vontade a morte. E, com os olhos derradeiros postos
em mim, me fostes mostrando que, com a alma, se vos ia tambem a vontade.
Mas devidos eram os meus anos a este vosso caminho; mas mais o era eu ás
tristezas! E, pois fico para élas, o melhor é ficar sem vós!»

«E, com isto, cumpriu o costume.

«Mas a ama, que via não haver ali outrem sobre quem recaisse o cuidado
das honras derradeiras, senão a éla, arredando Lamentor e a senhora
Aonia, tomou uma rica toalha nas mãos, e, lançando-a por cima do rosto
de Belisa:

--«Agora para sempre (disse) vos cumpre olhar para o ceu, onde éla,
bem-aventuradamente, está; que isto é terra! Quem a amar, pois já éla a
deixou, parece que errará ao bem que lhe quiser.»

«Palavras eram estas de muita consolação, se soubera a dôr presente
consolar-se.

«Mas assim a enterraram.

«Deixemos aqui as cousas de Lamentor (que foram muitas e extremadas as
que êle fez, pelo muito que a Belisa queria), porque como este conto
seja dos dous amigos, agravo se lhe fará, ao muito que d'êles ha para
dizer, gastar-se n'outrem alguma parte do tempo.»



CAPITULO XII

Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do parecer e
formosura da senhora Aonia


«Torno-vos ao cavaleiro que saiu da tenda, tam triste que não pôde
alongar-se muito d'ali; e, apeando-se, sentou-se ao pé de um freixo que
cerca d'aquelle ribeiro e da ponte estava. E, para pensar mais á sua
vontade, mandou o seu escudeiro, arredado d'ali, que desse de comer ao
seu cavalo na ribeira d'aquele rio, porque logo se temeu de êle o ver
assim, e cair em alguma suspeita que fosse contar a Cruelcia (que era
aquela por quem viera ali, como ouvistes), porque todos os seus lhe eram
muito afeiçoados; e como éla quisesse a êle muito grande bem, êles não
se podiam ter que lh'o não mostrassem todo em as obras; d'onde nascia
irem-lhe êles a dizer e contar tudo o que êle passava.

«Assim o que êle fazia por bem lhe saía ás vezes em mal; que para
tamanho bem lhe éla queria que não podia deixar de ouvir, pelo tempo,
cousas que a magoassem; nem tambem êle não as podia deixar de fazer,
pelo pouco que lhe queria. Como, de feito, assim, por derradeiro, lhe
foi isto causa, a éla, de triste fim.

«Mas, sentado o cavaleiro ao pé do freixo, esteve por longo espaço
revolvendo muitas cousas na fantasia.

«E, quando se lembrava do que a Cruelcia devia, parecia-lhe sem-razão
deixá-la; por outra parte, lembrando-se de quam bem lhe parecera Aonia,
parecia-lhe desamor não lhe querer bem.

«Tinham-no assim, entre ambas, formosura e obrigação, a ver quem o
levaria; mas, por derradeiro, pôde mais a de mais perto.

«Costumava dizer meu pae que fôra vencida a obrigação, como cousa que
lhe não vinha de direito o pago no amor, e vencera a formosura, como
quem só de amor se pagava.»



CAPITULO XIII

Em que se diz quem fosse Cruelcia e do que o cavaleiro passou com seu
escudeiro


«Era Cruelcia uma de duas filhas a quem sua mãe mais que a si queria, e
de boa formosura; mas obrigou tanto este cavaleiro, com cousas que fez
por êle, que o endividou todo nas obras. Não lhe deixou nada, tam só
para que lhe devesse a formosura. Parece que lhe quis tamanho bem, que
não sofreu a tardança de o ir obrigando pouco a pouco: deu-se-lhe logo
toda. Obrigou-o assim, mas não no namorou.

«Coitadas das mulheres, que, porque vêem que as namoram os homens com
obras, cuidam que assim se devem élas tambem namorar; e é muito pelo
contrario,--que aos homens namoram-nos desdens e presunções. Após uma
brandura de olhos, aspereza muita de obras.

«Isto de seu natural lhes deve vir; porque são tam rijos que parece não
terem em muito senão o que trabalham muito.

«Nós outras, brandas de nosso nascimento, fazemos outra cousa; porém, se
êles comnosco entrassem a juizo, que razão mostrariam por si? O amor,
que é, senão vontade? Não se dá, nem se toma por força. Mas, como quer
que seja, ou pela desventura das mulheres, ou pela ventura dos homens,
sentença é dada em contrario; que a êles os vençam esquivanças; e boas
obras--a élas!

«Esta só maneira puderam ter para os namorarem, se não foram namoradas
d'êles.

«Mas, ao amor, quem lhe porá lei?

«Porém, este desagradecimento dos homens--que é o seu nome
verdadeiro--trouxe muitos desventurados fins, como vereis n'este
cavaleiro em que falâmos.

«E não foram vãos os rogos que Cruelcia fez, com as mãos erguidas ao
Ceu, pedindo d'êle vingança.

«Comtudo, assentou êle, por derradeiro, de a deixar; porque, além de lhe
parecer a senhora Aonia a mais formosa cousa que vira, pareceu-lhe
tambem (por vir de longes terras, e ser n'aquela estrangeira) que mais
depressa haveria seu amor. Esta esperança (ainda que bem visse êle que
era de longe) comtudo grande ajuda foi então para acabar de assentar e
confirmar, ou de fazer muito grande, o bem que lhe queria; porque isto
vae assim, como quando algum amparo tolhe o sol:--se o toma em cheio, é
muito maior a sombra que o amparo que a faz.

«Assim, os que bem querem; porque as esperanças, por pequenas que sejam,
tomam sempre em cheio, ou parece que tomam, os estorvos que tolhem a
cousa bem-quista; fazem o amor muito maior do que élas são; d'onde veem
depois os cuidados que com a morte, ou longa tristeza, se possuem, como
foi n'este cavaleiro, que já não cuidava senão de ver como se apartaria
do seu escudeiro, de maneira que, depois de apartado, lhe não causasse
suspeita alguma d'aquele lugar, para êle mais á sua vontade gosar d'êle.

«Desejava tanto este apartamento, porque bem sabia êle que havia de
sofrer mal o ver-lhe deixar Cruelcia; porque era da criação d'éla, que
lh'o dera para o acompanhar, e nunca outra cousa êle lhe dizia senão que
a havia de tomar em matrimonio,--porque era de alto sangue, e herdava
terras onde êle podia repousar os derradeiros dias da vida, que não
deixam tomar armas com honra.

«Mas, emfim, cuidando o que determinou, o chamou, e fazendo-lhe um
discurso largo, entre outras cousas, lhe disse que lhe não parecia bem
ser êle mesmo que levasse á senhora Cruelcia a nova da aventura que não
achára, vindo por amor d'éla; mas que seria bem levar-lh'a êle, e
dizer-lhe que da sua mofina quisera êle que fosse outrem o portador.
Que, para éla, não podia êle ir em companhia de novas tristes; e que o
esperaria no castelo, que perto d'ali estava, até tornar a trazer-lhe
recado se queria éla pô-lo n'outra aventura, pois aquela, assim, não se
pudera acabar.»



CAPITULO XIV

De como, partido o escudeiro do cavaleiro da tenda, entrou em
pensamentos de como se separaria d'êle, e mudaria o nome


«Partindo o escudeiro com o recado (enganado êle, e para quem o levava)
ficou o cavaleiro só, e começou a entrar em pensamentos de que maneira
mudaria o nome, para que não fosse sabido onde estava, nem se pudesse
saber para onde ia; que tanto se senhoreou, n'aquele pouco tempo, o amor
d'êle, que a si mesmo queria já, em parte, deixar.

«Mas, lembrando-lhe n'isto que n'outro tempo lhe dissera um adivinhador
que, quando êle mudasse a vida e o nome, seria para sempre triste, ficou
um pouco mais pensativo; mas tornando logo a fazer menos conta d'aquelas
cousas, como incertas, e, comtudo, não querendo ir de todo contra élas,
por outras muitas que tinha ouvido pensou em trocar as letras do seu
nome. De maneira que, assim, o não mudaria, nem tentaria os fados.

«Mas êle não viu que isto era engano tambem dos fados.

«Estando êle assim n'este pensamento, acertou, por acaso, que um mateiro
vinha do mato pelo caminho que ia ter á ponte, e vinha em cima de sua
besta, como deitado, e mal coberto com um enxalmo. Parece que andando
êle, despido, cortando a lenha, ateára-se algum fogo perto do seu
vestido, e lh'o queimára; e então o mateiro, por lhe querer acudir,
descuidára-se de si, e o fogo fizera-lhe algum dano, em partes de seu
corpo.

«E, a direito do cavaleiro, topou com outro mateiro, que para o mato ia,
que lhe preguntou, vendo-o vir assim sem lenha, para que fôra ao mato,
respondendo-lhe o mateiro queimado, falando-lhe galego, estas sós
palavras:

--«Bim n'arder.»

«Olhou o cavaleiro para o barbarismo da letra mudada na pronunciação de
_b_ por _v_, e pareceu-lhe misterio; porque ele era aquele que tambem se
fôra a arder,--quis-se chamar assim d'ali ávante.»



CAPITULO XV

De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este ordenava
fazer ali uns paços e do mais que lhe aconteceu com a sombra que lhe
apareceu


«Não passou muito que, por aquele lugar, não viesse um dos servidores de
Lamentor, que atravessava para o castelo.

«Quando Bimnarder soube d'êle que Lamentor tinha ordenado fazer ali uns
paços grandes, e morar n'êles toda a sua vida, algum repouso mais deu
isto a Bimnarder; que, d'antes, a pouca certeza que tinha da estada de
Aonia n'aquela terra lhe dava grande fadiga ao pensamento.

«Mas, afrouxado da parte d'este cuidado, entrou n'outro:--do que faria
de si, e para onde se iria; no qual esteve até a noite, sem poder
assentar nada consigo. Porque se o ir-se d'ali para outra parte, lhe era
já grave; ficar, parecia-lhe impossivel cousa poder-se esconder do seu
escudeiro.

«Combatido assim de uma cousa e de outra (ainda, porém, sem determinação
nenhuma) ergueu-se,--como forçado da noite, mais que da vontade.

«Buscando o seu cavalo, onde o deixára o escudeiro, não o achou.
Tornando-se então para o freixo onde antes estivera, para d'ali olhar se
fôra beber a este rio, mas não o vendo nem sentindo em nenhuma parte,
encostou-se então assim ao freixo, pensando, á primeira no cavalo. Mas
não tardou que logo não tornasse ao seu verdadeiro cuidado, imaginando,
parece, a senhora Aonia na fantasia, afigurando-se-lhe vê-la da maneira
que a vira. E, de piedade amorosa, lhe estavam vindo as lagrimas aos
olhos.

«Estando êle assim, todo ocupado d'aquela doce tristeza, sentiu como que
alguem junto de si.

«Olhando, com o luar que então fazia, viu uma sombra de homem de
estatura desproporcionada (de nosso costume) estar perto d'êle.

«A subita novidade o moveu á alteração, mas, como esforçado que era,
lançando mão á sua espada cobrou ousadia de lhe preguntar quem era; e
vendo que, comtudo, se calava, se pôs a mover para êle, já com a espada
arrancada, dizendo:

--«Ou me dirás quem és, ou o saberei eu.»

--«Está quedo, Bimnarder (chamando-o assim por seu nome)--lhe disse a
sombra--que inda agora foste vencido de uma donzela chorando!»

«Deteve Bimnarder o passo, espantado de aquilo que ainda então cuidava
êle que o não sabia ninguem; mas tornando logo a querer-lhe preguntar de
onde o sabia, a meia palavra, olhou... e viu aquela sombra que,
virando-se para umas moitas grandes, que 'hi cerca estavam, se ia
metendo por entre élas, pouco a pouco. E assim se encobriu e
desapareceu.»



CAPITULO XVI

De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria, viu de subito
vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar


«Ficando Bimnarder com o pensamento cheio do que aquilo seria, começou
de ouvir um estrondo grande que vinha pelo mato para onde ele estava. E,
inda bem o não ouvia, quando, correndo por ante si, viu passar o seu
cavalo, e uns lobos após êle, e após êles, de longe, vinham correndo uns
cães com grande grasnada.

«E, ao saltar d'este ribeiro, caiu n'êle o cavalo. E, chegando os lobos,
começaram a mordê-lo por todas as partes, de maneira que, comquanto
prestemente Bimnarder acudiu, já êle era morto.

«E não tardou nada que uns pastores, que perto d'ali tinham a malhada do
seu gado, ao filar dos cães, vieram ali ter, afigurando-se-lhe ser morta
alguma rês; e, achando Bimnarder assim agastado, começaram-no a querer
consolar com palavras e modos rusticos, oferecendo-lhe pousada por
aquela noite.

«Aceitou êle, ainda que não desejava então companhia; mas pelas horas o
fez, e tambem porque logo cuidou que, quando os pastores fossem no seu
rebanho, não lhe haviam mais de tolher o tempo ao pensar,--que para êles
não se fizera a noite senão para dormir.

«Foram assim ao fato de uma grande manada de vacas (que todas estavam
alevantadas, com o alvoroço dos cães e medo dos lobos) metendo-se os
pastores e Bimnarder por entre élas, que lhe iam fazendo lugar, e
escornando umas ás outras.

«E, assim, saindo d'entre élas, estava uma fogueira grande junto de uma
choupana de sebes, cortiçada por cima. E junto d'esta, ao fogo, jazia
deitado, sobre rama verde espalhada, um pastor já de todo branco, que
maioral era do fato; e tinha sua cabeça encostada sobre um tronco de
madeira; e uns rafeiros ainda pequenos lançados em parte por cima do
velho pastor, e outros, grandes, com as cabeças estendidas sobre êle.

«E, em pastores chegando, ergueu êle a cabeça um pouco, e, como homem
que era avisado em semelhantes casos, descansadamente começou a
preguntar pelo que se passava. Contando-lhe êles que não era nenhuma rês
morta, tambem lhe contaram do cavaleiro que traziam.

«Ergueu-se êle então assentado, e fazendo-lhe lugar na rama de sua cama,
lhe rogou que se fosse assentar. E assentado Bimnarder, e assentados
todos derredor d'aquella fogueira, pediu o velho maioral a Bimnarder que
lhe contasse como aquele desastre lhe acontecêra.

«Contou-lh'o êle, brevemente, por lhe satisfazer: como andando o seu
cavalo pastando vieram aqueles lobos, e mataram-lh'o, primeiro que lhe
pudesse valer.

«Ao que, começou com uma fala retumbada a falar o pastor, como que o
queria consolar n'aquela mofina, dizendo:

«Os desastres que acontecem com os animaes ferozes n'este vale, é cousa
espantosa, e, para quem o souber, mais leves de sofrer, se a companhia
em isto dá consolação! N'uma noite de inverno escura, sendo eu mais novo
que agora, diante dos meus olhos, me tomaram a minha vaca bragada (mãe
d'est'outras bragadas, que tenho'inda agora) e mataram-na. Pois tinha eu
então ao pé de mim o rafeiro malhado, e a rafeira branca sua mãe,
armados os pescoços ambos, que nunca me achei com êles, em lugar tam
ermo nem em noite tam trabalhosa, que não estivesse seguro como na
metade do dia; mas então pouco aproveitavam êles a mim, que bradava a
coitada da vaca, e bramia tam doridamente que, em breve espaço, ajuntou
quanto gado tinha, que estava, á la fé, a um bom pedaço d'ali. E já
aqui, onde agora estou, me vieram no claro dia matar quantos bezerrinhos
tinha, que inda não eram para andarem com as mães.»

--«E porque estás então aqui, pastor honrado?»--lhe disse Bimnarder.

--«Nunca vistes outra cousa, lhe disse o pastor, não ha o haver senão
onde ha o perder. A terra é abastada de pastos; e, assim como cria o
bom, cria o mau. Já ouvi dizer a um grande homem, que era dado ás cousas
do outro-mundo, falando na povoação d'esta terra (que, ainda que a vêdes
assim, por partes, metida a mato, é de pastores, em muita maneira,
povoada) que isto era uma das maravilhas da natureza: de uma mesma terra
nascerem duas, tam contrarias uma á outra. E isto não era só nas
alimarias, mas nos homens:--que não ha maus senão onde ha os bons, e não
ha ladrões senão onde ha que furtar. Mas, quanto a mim, não sei qual é
pior para nós outros, pastores:--na terra de pouca ervagem perece-nos o
gado á fome, e cá n'est'outra, matam-no-lo. Assim, em toda a parte nos
vae mal. Mas nós outros somos, emfim, como dizem que são todos os outros
homens (e vós, senhor cavaleiro, o sabereis): podemos melhor sofrer o
mal que nos faz outrem que o que nós fazemos a nós outros mesmos. Os
danos da terra fraca, porque está em nosso poder sairmo-nos d'éla, não
os podemos sofrer; os da outra, que não está em nós vedarmo-los,
sofrêmo-los como podemos. Assim, tambem digo eu, senhor cavaleiro: no
vosso caso, não estejaes agastado; descansae, e tornae tudo á culpa da
terra.»

«Estas palavras, a Bimnarder, pareceram bem; e, se não fôra porque era
contar o pastor a verdade de sua vida, cuidára êle que não eram estas
palavras de pastor; mas o que cada um passa, facilmente o sabe bem
contar; e, por isso, não lhe tornou resposta mais que umas palavras em
sinal de agradecimento d'aquele bom conforto, fazendo menção de querer
repousar; o que vendo, o velho pastor mandou a todos que se calassem, e
que dormissem. E foi feito assim.

«E começaram em breve espaço os pastores a roncar, estirando seus
rusticos membros, uns para cá, outros para lá, como ao sôno aprazia.

«Só Bimnarder não podia repousar, tendo no coração a quem êle não doía.
E quando a todos a escura claridade das estrelas aconselhava o sôno,
d'êle o tinham desterrado os seus cuidados.

«Antes, com os olhos postos para aquela parte d'onde viera (segundo
parecia, com o corpo só) á senhora Aonia, ausente, êle a ouvia chorar.

«E em a longa noite esteve assim, 'té que aquele cansado corpo adormeceu
aquela parte dos sentidos sobre que tinha algum poder. Sonhos e
fantasias ocuparam a outra.

«Mas, depois de um pouco de sôno, acordou êle, todo banhado em lagrimas,
porque sonhára, chorando, que o levava d'ali, por força, a sombra que
vira d'antes. E correndo-lhe, por isto, muitas cousas pelo pensamento,
assentou consigo de se não ir d'aquela terra, 'té vêr o que podia ser
d'êle n'aquele cuidado, que o assim tomára, e assim o seguia.

«D'esta maneira, cuidava êle que não iria contra aquilo que, porventura,
lhe adivinhava o sôno, se o fizesse.

«Tamanho desejo tinha de se não ir nunca d'ali, que tudo lhe parecia que
lh'o aconselhava; e, de muitas maneiras que cuidou, n'esta assentou por
derradeiro: despedir-se cedo d'aquele velho maioral, e ir-se a algum
lugar perto d'ali, onde mudasse os trajos, e tornasse a assentar vivenda
com êle, que grande rebanho lhe parecia que trazia.

«E, ainda que muitos mancebos lhe visse, a pouquidade da soldada faria
com que lhe não fosse sobejo qualquer pastor.

«E assim o fez.»



CAPITULO XVII

De como Bimnarder assentou vivenda com o maioral do gado, e do que a
donzela passou com a dona em sua historia


«Eis Bimnarder pastor de vacas,--que não houve ahi nada impossivel no
amor grande.

«Muito tempo passou êle n'aquela vida, com maus dias e piores noites;
porque Lamentor, no começo logo do seu assentamento, mandou fazer
primeiro umas casas para recolhimento, não mais; e a muita gente que era
vinda para as obras, pela labutação grande que tinha, por causa da
grande pressa que Lamentor dava a élas, tolhia a saida das mulheres,
pelo que Aonia não apareceu um grande tempo, para Bimnarder, ao menos,
ter aquele contentamento que a vista dos olhos dá áqueles que do mais
carecem.

«Conheciam-no, porém, já todos os de casa, e chamavam-lhe o _pastor da
flauta_, porque êle costumava trazê-la sempre, pois para remedio da sua
dôr a escolhêra, depois de se desconhecer.

«Tambem assim, muitas vezes, ora pela ribeira d'este rio, e outras horas
por estas altas assomadas (que fazem, como vêdes, mais gracioso este
vale) andava tangendo, e cantando em palavras pastoris. Este só
contentamento lhe era algum conforto para o seu mal, e para desabafar o
seu coração, que tam ocupado de profundos e muito penosos pensamentos
trazia.

«Muitas cousas sabia meu pae, suas, que arremedavam de pastor, e tinham
as cousas de alto engenho, ou, mais verdadeiramente, de alta dôr, postas
e semeadas tam docemente por outras palavras rusticas, que quem bem
olhasse facilmente entenderia como foram feitas.

«E, assim, tinha mais outra cousa, a meu fraco juizo e parecer: é que o
bom pastor, n'aquela baixeza de estilo, pela impressão da presunção que
punha, e de si mostrava, como que via mais depressa haverem d'êle
compaixão todas as pessoas que o ouviam, tanto póde a imaginação em
todas as cousas.

«Mas, de todas, uma só me vem á memoria, e lembra-me que dizia meu pae
que êle a cantára, e ouvira-lh'a a ama da menina.

«Por certo, parece que assim o ordenou a ventura para que Aonia fosse
sabedora de seu cuidado, já quando êle de todo andava desesperado; e,
não se podendo d'ali apartar, ordenava, andando desvairadas cousas de
si, que desvairadamente o atormentavam.

«Tambem, para que tudo fosse como cumpria á desventura que estava
ordenada, aconteceu que a velha ama era natural d'esta terra, e, n'outro
tempo, quando era moça, parece que um mercador muito rico e
gentil-homem, (que viera d'aquelas partes d'onde Lamentor) por asos e
visinhanças, houvera o seu amor; e com dadivas grandes, e promessas
maiores, a levára de sua terra, de casa de seu pae, que a tinha muito
estimada e guardada, mais ainda do que a seu estado convinha; mas tudo,
pela sua formosura d'éla, era bem empregado.

«Era ensinada a livros de historias, pelo que era já então sabida, e
depois, quando velha, o foi muito mais.

«E, dizem que, chegando ambos á terra do mercador, por grandes
desventuras, o veio éla a perder, ainda quando moça e formosa. Mas
ficando assim em terras estranhas, movida de compaixão, a mãe de Belisa
a recolhera para sua casa, d'onde ainda lhe estava ordenado este outro
desterro para a sua terra.

«De como a levou êle, e o éla perdeu, se conta um grande conto.
Deixá-lo-ei agora, porque tenho outro caminho tomado, ainda que, entre
os homens, todos os caminhos vão ter a fim de mulheres; mas, pois moraes
n'esta terra, outra hora nos veremos, e contarvo-lo-ei então, se por
ventura vos ficar desejo de ouvi-lo.»

--«Ainda, senhora (me não pude eu ter que lhe não dissesse) que eu tinha
já posto em minha vontade nunca ter desejo nenhum, este quero eu
ter,--que tanto podem as cousas vossas comigo; e mais, pois é conto de
mulher, não póde deixar de ser triste. E, d'esta maneira, tambem em
parte não irei contra meu proposito; porque desejando ouvir tristezas,
não se póde isto verdadeiramente chamar desejo, que só o desejo deve vir
d'aquilo com que se haja de folgar. E, se tambem acontece o contrario,
será porque tambem o desejo engana muitas vezes, como todos os outros
sentidos.»

--«Nós outras, tristes, (me tornou éla então) chamaremos logo a este
desejo desgosto; porque não se deve espantar ninguem de ver mudadas as
palavras ou o entendimento d'élas, nas pessoas em que se mudaram tambem
muitas outras cousas, que não dissera nem cuidára ninguem que se podiam
mudar.

«E tambem, filha e senhora, ainda que me vós vejaes assim, já em idade
em que as tristezas passadas não deviam ser-me causa de mais que de
haver tudo por nada, e julgar o presente pelo passado, e, emfim,
estimá-lo assim; comtudo, tamanhas foram as causas que me fizeram
triste, que o sofrimento d'élas, e o longo tempo, não me faz sentil-as
menos. Pensando n'isto, muitas vezes digo eu que não póde ser senão que
quando a fortuna ordenou desgostar-me, para que a vida não sobejasse á
dôr, as compassou, parece, ambas assim, que não fosse uma maior que a
outra; e venho a entender n'isto que não se acrescenta mais a minha dôr
que a vida. E perdoae-me ir-vos assim saltar a falar de mim, tendo ainda
por cumprir o que vos prometi. Que a sua dôr traz a cada um assim.
Tambem os meus feitos: indo para fazer uma cousa, faço outra. E a mim,
muitas vezes, d'esta maneira, me sou eu mesma em vergonha.»

--«Não podeis vós já, senhora, fazer cousa ante mim que haja mister
perdão de mim; antes, quanto mais vossas cousas ólho, me vae parecendo
que não viestes aqui senão para vos eu ouvir; que, até agora, costumava
eu andar espantada, de mim para comigo, como podia durar tanto uma dôr
depois d'acabada a causa d'éla, e como a não gastava o tempo, como as
outras cousas todas que n'êle ha! E, porque eu não via isto na minha
mágoa, tornava dando a culpa d'isto a outrem, porque, pela ventura, me
era forçado tornar a dar a mim maior pena... Ou... que digo eu, pela
ventura?... E aqui, indo eu para dizer outra cousa mais, se me pôs
diante o pouco conhecimento d'entre nós ambas, e calei-me,--assim como
que me não quisera calar. Éla, docemente, dissimulando porventura,
(segundo no fim de sua fala me pareceu) seguiu dizendo:

--«Das culpas que alguem dá a quem bem-quer, sempre lhe ficam as penas
d'élas, e com razão; que vos não quereria eu a vós bem se vos eu o pior
desse: mas antes me espanto ainda de, quem quer bem, como póde culpar a
quem o quer; senão que, torno a dizer eu, que pódem fazer isto, pela
pena que lhes fica; que a éla tomam êles, como por vingança da força que
se fazem n'isto a si mesmos. Tambem, senhora, fui moça como vós; culpei
já alguem contra minha vontade. Causa de grandes desgostos me foi,
muitas vezes, não me poder eu escusar a mim mesma só de culpar outrem.
Foram desvarios de amor. Ha isto n'êle, como ha outras sem-razões
infindas, sofridas como êle quis, que'té n'este nosso sofrimento pôs
tambem cousas que se não sofrem senão pela ventura!»

«E, a esta palavra, tirou os olhos de mim, como que queria dizer que não
me entendia, pois lh'o eu queria encobrir. E a mim, que me pareceu mau
ensino, a uma senhora, dona e triste, que me tanto dava de si, negar-lhe
parte de minhas tristezas, pois lh'as já d'antes quisera significar,
disse eu então:

--«Cuidae de mim, senhora, o que quiserdes; que, assim, me parece que
sois desgostosa; que esta maneira é melhor que todas para saberdes a
verdade da minha vida, que toda é uma longa queixa.

--«Fazeis bem (me tornou éla) que essa maneira é tambem a melhor para
vo-lo eu não ousar perguntar, que tambem afeiçoada vos sou já. E, pois
ha de ser tam triste, não na quero antes ouvir. Por isso, tornaremos ao
conto. Ele acabado, farão de nós as nossas tristezas á sua vontade, que
tambem se desejam contadas, como os prazeres. Mas, o conto, foi assim
como agora direi:»



CAPITULO XVIII

Em que a ama dá razão á donzela da cantiga de Bimnarder


«Disse (se vos lembra) que uma só cantiga me lembrava, que dizia meu pae
que lhe ouvira a ama,--e foi d'esta maneira.

«Começava a cair a calma, e havia pedaço que o pastor da flauta estava
assentado á beira d'este ribeiro, sobre um torrão, olhando para a parte
contraria, d'onde a ama acertou por acaso de vir. Estava tangendo de
mansinho a flauta, para consigo.

«Estando êle n'isto, deixára-se vir um rebanho de vacas, correndo,
apressadas da mosca. Passando por êle, se foram meter na ágoa até aos
peitos; e, deixando êle então de tanger, ficou como pensativo um pouco,
porém, sem tirar a flauta d'onde a d'antes tinha, como transportado.

«Olhou para isto a ama, e quisera-lhe dizer que tangesse, que bem lhe
parecera d'antes. Mas, estando para lh'o dizer, começou êle então a
tocar a flauta, docemente, de maneira que fez detença a ama.

«Parecendo-lhe cousa triste, e mais que de pastor, deu-se toda a
ouvi-lo, senão quando êle, depois de um pedaço grande, soltou a flauta,
e começou assim:

      «P'ra todos houve 'hi remedio
      P'ra mim só não no houve ahi:
      Inda mal que o soube assi.

      «Fogem as vacas p'ra a ágoa,
      Quando a mosca as vae seguir;
      Eu só, triste em minha mágoa,
      Não tenho a d'onde fugir:
      D'aqui não me posso eu ir,
      Estar não me cumpre aqui,
      Que o que eu quero não o ha 'hi.

      «Entretanto a calma dura,
      Tem esta fadiga o gado,
      A manhan pasce em verdura,
      A tarde em o seco prado;
      Dorme a noite sem cuidado,
      Pois tudo achou para si.
      Descanso, eu só o perdi.

      «A mim, nem quando o Sol sae,
      Nem depois que se vae pôr,
      Nem quando a calma mór cae,
      Não me deixa a minha dôr.
      Dôr, e outra cousa maior,
      Convosco hoje amanheci,
      Convosco honte' anouteci.

      «Crendo que assim findaria,
      Dei-me todo ao que padeço:
      Um dia leva outro dia,
      Por um mal, outro conheço.
      Se o fim responde ao começo,
      Ai! quam mal que me provi,
      Que no começo o fim vi!

      «Se nasci p'ra meu mal vêr,
      E não p'ra vê-lo acabado,
      Melhor fôra não nascer,
      Que vêr-me desesperado.
      E, pois que n'este cuidado
      Me traz tam cego após si,
      Inda mal que o soube assi!

            Fim

      «Entre lagrimas e prantos,
      Nasceu o meu pensamento.
      Cresceu, em tam pouco, tanto,
      Que é mais alto que o tormento!
      Passa o que passo ao que sento.
      Mal faz quem me esquece assim
      Que após mim não ha outro mim.»



CAPITULO XIX

De como conta a ama á senhora Aonia o que vira fazer ao pastor acabada a
cantiga


«Em dizendo este derradeiro verso, parece que não podendo êle já suster
as suas lagrimas, calou-se, como estorvado d'élas; e, entendendo-o a
ama, pelo soltar da flauta, e tomar da aba do gabão para limpar-se,
tamanha paixão a comoveu que não pôde ter as suas, lá onde estava, e
sempre lhe falara, se não fôra que vinham chamá-la já de casa.

«Foi forçada a levantar-se éla, e foi-se, ocupada toda a fantasia
d'aquele pastor, pois algum grande misterio lhe pareceu.

«E como o que está ordenado de ser, logo traga asos consigo, entrando a
ama em casa, e topando Aonia só, á boa-fé, sem mau engano, se pôs a
contar-lhe tudo, e a jurar-lhe e tresjurar-lhe que não podia ser pastor.

«E, porque já Aonia entendia a lingoagem d'esta terra muito bem, lhe
disse a ama a cantiga. E quando lhe veio a contar como o pastor, com
aquelas derradeiras palavras, deixara cair a flauta no chão, e com a aba
do gabão (que de burel era) se limpara das lagrimas que com élas lhe
vieram; e, acabando de limpar-se, olhara para a aba, que com ambas as
mãos tinha, e como (parece) lembrando-lhe do que éla era, ou não sabia
porque, encostara o rosto a éla, assim entre as mãos, como estava; e,
após um grande suspiro, se deixara estar assim, e assim ficara quando
éla viera, que, pela chamarem n'este meio tempo se tornara tam triste
como havia muito tempo que o não fôra por causa alheia... E
encheram-se-lhe á velha ama os olhos d'ágoa, em dizendo «cousa alheia».
E assim se virou para outro lado, e foi-se fazer cousas de casa.

«A senhora Aonia, (que ainda então era donzela d'entre treze a quatorze
anos) sem saber que cousa era bem-querer, de umas lagrimas piedosas
regou as suas formosas faces, e, sobre élas, os sentidos primeiros lhe
inclinou, tanto podem, algumas horas, as cousas ouvidas!

«E, se não fôra que era éla moça, facilmente o entendêra logo; mas, não
o entendendo, mil vezes n'aquele dia tornou a pedir á ama lhe dissesse,
ora a cantiga, e ora como estava o pastor.

«E, por acerto, perguntando-lhe uma vez de que feições era, lhe disse a
ama:

--«Eu já outras vezes o vi, de bom corpo, e de boa disposição; a barba
um pouco espessa e um pouco crescida que a êle traz, parece que é aquela
a primeira ainda. Os olhos brancos, de um branco um pouco nublado; na
presença, logo se enxerga que alguma alta tristeza lhe sujeita o
coração.»

«Lembrou a Aonia só tornar-lhe a perguntar quando foram as outras vezes
que o vira.

«Disse-lhe então a ama que o pastor se vinha pôr derredor d'aquelas
casas sempre, e ás vezes se punha a falar com os oficiaes, e outras
andava defronte (na ribeira d'aquele rio) pastorando o seu gado. E este
era o pastor a que todos chamavam «o da flauta», que conhecido era de
todos.

«Não o conhecia Aonia, porque nunca saira fóra. Mas como então logo pôs
na sua vontade de olhar para êle, e de buscar maneira para isso,
(tamanho dó lhe fez ouvir d'êle o seu canto) enganada assim d'aquela
falsa sombra de piedade, toda aquela noite seguinte não pôde dormir. Mas
não que já fosse declarada consigo, nem debaixo d'aquele desejo
determinasse nada; porém, ardia em fogos de dentro de si.

«E porque de todo o ponto se acabasse isto de confirmar de todo, ainda
bem não era manhan, saindo a ama da menina a uma varanda á maneira
d'eirado (que sobre uma parte das casas estava, e fôra feita, logo no
começo, para despejo) viu o pastor estar só, sobre a borda d'este rio,
não muito longe do lugar onde o éla vira o dia antecedente,--que ali
estava o freixo onde se ele pôs a primeira vez que saira da tenda, onde
tambem viu a sombra, como vos disse, e ali foi onde depois veio a
morrer.»



CAPITULO XX

Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio e de como o matou;
a qual Aonia estava vendo do eirado


«E como assim o viu, foi logo dizê-lo a Aonia, correndo, tamanha pressa
dava já a fortuna ao desastre, ou era vinda a hora que se não podia
alongar. E, como lh'o houve dito, ocupou-se em negocios de casa.

«Levantou-se Aonia, e deitando só uma roupa grande sobre si (que, em
camisa, estava ainda na cama) se foi ao eirado, e viu-o estar virado
para aquela mesma parte. Mas, vendo-se Aonia no eirado, e vendo-o,
lembrou-se logo de que ia toucada de um arrodilhado só, como se erguera;
e ou por não parecer que se erguera então, ou já para não parecer mal,
lançou uma manga da camisa sobre a cabeça, e se deixou estar assim.

«E, n'isto, começaram as vacas, pascendo, a rodeá-lo n'aquele lugar onde
êle estava, que era uma maneira d'outeiro pequeno.

«Andando pascendo élas, umas para cá, e outras para lá, deixou-se de
outra manada vir um touro grande e medonho, urrando, e lançando de
quando em quando a terra sobre as ancas; e, d'outras vezes, parecia que
a queria comer, meneando a cabeça para uma e outra parte.

«E, chegando ás vacas, começou tam feramente a pelejar com outro seu
egual, que espanto fazia a éla, lá onde segura estava d'êles, não mais.

«E, andando assim, começaram de se ir chegando, com grande peleja, para
o lugar onde êle estava. Mas vendo éla que não se mudava êle, nem tirava
os olhos d'aquela parte onde olhava, antes parecia (segundo estava
segura) que os não via, senão que isto não era para crêr; quando éla, de
todo em todo, viu que os touros se iam chegando a êle, ficou esmorecida;
e, tornando a si olhou. E, com o espaço que se metia em meio,
tolhendo-lhe os touros a vista d'ele, parecendo-lhe que o tomavam
debaixo, caiu para o outro lado, como morta.

«Vendo Bimnarder aquilo (que para outro lado não olhava) deu-lhe logo no
coração o que era; e ainda que êle tivesse muitas razões para o duvidar,
ou não o haver por certo, (pois de sua vontade, Aonia, não era sabedora,
que êle soubesse) comtudo creu; porque assim o quis o bem-querer grande;
que todas as cousas duvidosas fossem mais certas, ou por mais certas se
crêssem.

«E, cobrando força da melancolia que houvera, pelo que suspeitou, com um
cajado grande que tinha na mão, atirou ao touro alheio, que já a melhor
do seu levava, e quis a sua dita que lhe quebrasse uma perna. E,
lançando-se rijo e acordadamente para ele, o levou por um dos cornos. E
como Bimnarder fosse de muito grandes forças, e com a ajuda do seu
touro, que por instinto natural conheceu o socorro (e lhe tambem
começou, por sua maneira, a ajudar) prontamente deu com o outro em
terra; e virando-lhe a cabeça para o ar, o deixou que se não pôde bulir.

«Viram isto todos os de casa, que ao estrondo grande, e urros dos
touros, acudiram; e foram todos espantados do esforço grande do pastor,
e não falavam de outra cousa.

«A ama, que tambem o viu, foi-se em busca de Aonia, para lh'o contar;
mas, não a achando na camara, lembrou-se que estaria no eirado. Indo lá,
a achou deitada.

«Chegando-se a éla, a viu como passada d'este mundo, e, dando um ai
grande, lançou a mão ao seu rosto; mas, ao brado, acordou Aonia, como
cansada.

«E, parece, como trazia o pensamento ocupado do pastor, foi-se-lhe
afigurar o que receava, pois cuidou que o que fazia a ama seria com dó
do pastor, que assim tambem chorava éla quando lhe contava o que fizera
êle o dia antecedente. E a primeira palavra que lhe disse foi:--«E o
pastor?...»

«Descansou a ama com isto que lhe ouviu, parecendo-lhe que esmorecêra
éla por ver a afronta tamanha em que se pusera o pastor, como é costume
das mulheres.

«Mas n'éla era outra cousa maior, que estava ainda ha bem pouco tam
longe de poder ser como éla de o poder então cuidar.

«Mas tudo já póde ser; ao longo tempo, não é nenhuma cousa nova.

«Contou-lhe então a velha ama tudo o que passara o pastor. E, tornada em
suas forças, se ergueu Aonia, e puseram-se ambas um pouco a olhar para o
touro, que no chão jazia.

«Estava ahi muita gente, dos oficiaes da obra e de casa; e se não fôra
pela vergonha que havia Aonia de a verem, que era em extremo bem
acostumada, não se fôra éla d'ali. Mas comtudo foi-se, já um pouco tam
declaradamente contra sua vontade, que o entendeu éla; porém como era
aquele o primeiro cuidado, não lhe pareceu de todo o que foi, senão que
já consentia éla a si mesma cuidar que, se êle não fosse pastor, logo
lhe quereria bem.

«Recolheu-se Aonia para a camara, a vestir-se; e, em se recolhendo,
acertou de vir de fóra uma mulher de casa, que tambem, parece, saira a
ver a peleja dos touros; e, entrando na casa onde ficara a ama, começou,
um pouco alto, a falar-lhe, dizendo:

--«Quereis vós, senhora ama, saber?»

«Aqui, calou-se, como muito maravilhada.

«A esta palavra, que Aonia ouviu, se pôs a escutar detraz da
guarda-porta da camara.

--«Quê! O pastor?» lhe tornou a ama.

--«É uma maravilha grande, lhe respondeu a mulher. Deveis saber (não sei
se vos lembra) que este pastor é um cavaleiro que n'aquela ante-manhan,
que a Deus prouve levar Belisa para si, chegou aqui e falou a Lamentor.
Eu me acertei de estar então ahi, e o vi sair da tenda com os olhos
cheios da senhora Aonia, e d'agoa; e, todo o tempo que ahi estivera
d'antes, sempre a olhou de uma maneira como que não podia outra cousa
fazer, e que não desejava fazer outra cousa. Que vos hei de dizer?!
Verdadeiramente, me pareceu que se ia êle então como que lhe ficava ahi
o coração. E, por isto que entendi, saí logo após êle para ver onde ia;
e êle foi-se sentar junto de um freixo grande que ali está, onde foi a
peleja dos touros. Eu não olhei mais o que êle fizera, nem o tempo era
para isto disposto, senão agora, que fui ver aquilo que êle fez; e, em
lhe pondo os olhos, deu-me logo a sombra d'êle, e tomei isto por mais
misterio; porque, quando então, estava eu bem fóra de cuidar n'êle; por
esta imaginação subita que me veio, tornei a atentar mais n'êle, e vi
que não podia tirar os olhos de cá. E, quando vós vos fostes do eirado,
ficou triste, mais que d'antes. Quanto a mim, bastou aquilo para
confirmar a minha presunção; porque êle era aquele, como Deus é Deus!»

«Era esta mulher um poucochinho lingoareira; porém, era avisada, se o
alguem era. Mas, pelo outro defeito que tinha, quis-se a ama encobrir
d'éla; e, posto que aquilo tudo logo se lhe assentasse na alma, para o
desfazer, disse-lhe que se fosse d'ali; que éla conhecia aquele pastor,
e, por lhe ver um dia tanger uma flauta bem, perguntára por êle, e
disseram-lhe que era filho do maioral de uma grande manada de vacas e
gado que n'este vale anda.

«E assim se despediu d'éla; porém, a velha ama ficou crendo, por que bem
sabia éla que os acertos em todas as cousas podiam muito, e no
querer-bem mais que em todas élas.»



CAPITULO XXI

De que maneira Bimnarder se viu com Aonia


«Aonia, que estava escutando, ouviu toda esta pratica; e, comquanto a
ama contradissera a outra, éla o creu. E não fôra isto nada, senão que,
após a crença, foram todas as outras cousas que as crenças, n'estes
casos, costumam trazer após si; que logo teve desejos, pensando em
querer-bem; e já não havia dia nem hora que êle fosse certo de sua
vontade para que se não apartasse d'ali por algum desastre, que éla
começou a recear,--porque o verdadeiro bem-querer não póde estar muito
tempo sem receios.

«Vêdes aqui como se namorou esta donzela de Bimnarder, que pareceu cousa
feita de acinte; porque ambos se começaram a querer-bem sob uma sombra
de piedade; e como haviam de acabar ambos de uma mesma
maneira,--começaram assim tambem, ambos de dous, de uma!

«Aonia, logo que se determinou consigo, não pôde mais descansar.

«E como êle tivesse por costume vir sempre por derredor d'aqueles paços
(que sumptuosos se faziam, á maravilha), por uma fresta alta, que na
camara onde éla dormia fôra feita só para o lume, se subiu Aonia,
sabendo que êle andava ahi.

«E, como o viu, com os desejos que tinha de o ver, e com o que consigo
tinha assentado, pareceu-lhe não tam só assim como êle era, mas como éla
queria que fosse.

«Depois de o éla estar olhando um pouco, bem á sua vontade, porque êle,
ainda que contra a fresta com o rosto acertasse então de estar, acertou
tambem de estar olhando para o chão, pensativo como costumava, teve éla
tempo para o ver bem. Mas, depois de um pedaço bom, não suportando não
ser vista por êle, fez que falava com alguma pessoa de casa.

«A isto, olhou Bimnarder, e, conhecendo-a, transportou-se, e lhe caiu o
cajado no chão.

«Levou Aonia contentamento d'aquele desacordo, que bem o viu. E esteve
assim mais um pouco; mas não pôde tanto forçar-se que a vergonha natural
de donzela (ainda tam moça, e tam guardada, como éla era) não pudesse
mais que o seu desejo, e tirou-se depressa da fresta.

«Porém, não estando ainda bem em baixo, tornou a espreitar se se fôra
êle, e tornou-se logo a tirar.

«Tambem quisera éla tornar outra vez e outras, mas não pôde tantas vezes
decidir-se a fazer o que não devia.

«Veio a noite n'aquele dia mais cedo, para Aonia, do que nunca outra
viera. Deus sabe como éla aquela tarde passou! Mas não quero aqui contar
muitas cousas, que, por querer-bem, se fazem de maneira que se não podem
dizer. A velha e honrada ama, que, com o que suspeitou, entendeu o
desassocego de Aonia, que diferente foi logo para quem atentasse n'isso,
andava triste, e desgostosa, em parte de si, pelo que lhe contara d'êle.
E, por isso, o sentia muito mais, e áquela ceia não pôde comer.

«Mas, recolhidas que élas foram áquela camara da fresta, onde dormiam, e
pondo-se a ama a tratar da menina que creava, como costumava,--como
pessoa agastada de alguma nova dôr, e quis tornar ás cantigas; e começou
éla então, para a menina que estava tratando, a cantar-lhe um cantar á
maneira de solau; que era o que, nas cousas tristes, se costumava cantar
n'estas partes, e dizia assim:


ROMANCE

      «Pensando-vos estou, filha;
      Vossa mãe me está lembrando:
      Enchem-se-me os olhos d'agoa...
      N'éla vos estou lavando.

      «Nascestes, filha, entre mágoa.
      Para bem inda vos seja,
      Pois em vosso nascimento
      Fortuna vos houve inveja.

      «Morto era o contentamento,
      Nenhuma alegria ouvistes;
      Vossa mãe era finada,
      Nós outros eramos tristes.

      «Nada em dôr, em dôr creada,
      Não sei onde isto ha de ir ter...
      Vejo-vos, filha, formosa,
      Com olhos verdes crescer.

      «Não era esta graça vossa
      Para nascer em desterro.
      Mal haja a desaventura
      Que pôs mais n'isto que o erro!

      «Tinha aqui a sepultura
      Vossa mãe, e mágoa--nós;
      Não ereis vós, filha, não,
      Para morrerem por vós.

      «Não ouvem fados razão,
      Nem se consentem rogar;
      De vosso pae hei mór dó,
      Que de si se ha de queixar.

      «Eu vos ouvi a vós, só,
      Primeiro que outrem ninguem;
      Não foreis vós, se eu não fôra;
      Não sei se fiz mal, se bem!

      «Mas não póde ser, senhora,
      Para mal nenhum nascerdes,
      Com esse riso gracioso
      Que tendes sob olhos verdes.

      «Conforto mais duvidoso
      Me é este que tomo assi;
      Deus vos dê melhor ventura
      Do que tivestes 'té aqui!

      «A Dita e a Formosura,
      Dizem patranhas antigas,
      Que pelejaram um dia,
      Sendo d'antes muito amigas.

      «Muitos hão que é fantasia;
      Eu que vi tempos e anos
      Nenhuma cousa duvido,
      Que tudo é sujeito a danos.

      «Mas nenhum mal não é crido;
      O bem só é esperado?
      E na crença, e na esperança,
      Em ambas ha 'hi cuidado,
      Em ambas ha 'hi mudança!»



CAPITULO XXII

De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia, se pôs devagar
a ouvir a ama


«O pastor da flauta (que não era pastor) teve n'aquela noite maneira de,
com um pau que colheu, arribar á fresta; e já estava n'éla quando
começara o solau.

«Bem conheceu na limpeza das palavras, e na pronunciação d'élas, que a
ama era natural d'esta terra, e avisada; por onde logo receou que, se
não tivesse n'éla ajuda, teria grande estorvo.

«Encomendou-se á sua sorte.

«Acabou a ama de tratar da creança, que não foi tratada sem muitas
lagrimas d'ambas, d'éla e de Aonia, que penteando-se esteve entretanto,
segundo sentiu Bimnarder,--que êle nada de dentro podia bem divisar,
pelo impedimento de um pano que diante da fresta estava, para amparo
d'éla.

«Acabada a menina de tratar; apagando o lume, se deitaram élas; e,
porque a ama tinha sua suspeita, fez que dormia, para espreitar a Aonia;
e Aonia, porque tinha seu cuidado, não podia dormir, e ora se revolvia
para uma parte, e ora para outra; e outras vezes, após um socego de um
pouco, (colhendo folego) dava um baixo suspiro longo, á maneira de
cansada d'aquilo que acabara de pensar.

«Esteve tudo a ama notando por um grande pedaço.

«E já Bimnarder estava para descer, cuidando que era outrem a que fazia
aquilo, senão quando a ama começou assim a falar para a senhora Aonia:»



CAPITULO XXIII

Do singular conselho que deu a ama á senhora Aonia pelo que suspeitou
dos seus amores


«Não dormis, senhora Aonia? E que será, senhora, se não podeis dormir?
Parecendo-me vae que esta nossa vinda aqui para desastres foi, e não
mais; mas assim de longe os ordena a ventura, que logo ao começo se não
podem conhecer.

«Mal cuidara eu o que havia de acontecer á senhora Belisa, quando,
aquela noite, depois de dormirem todos, nos levantamos nós sós,
caladamente, e pelo laranjal do jardim (que com a espessura do arvoredo
fazia então mais escuro) passámos cheias de medo, e vós pegada a mim,
toda tremendo, fomos sair pela portinha falsa que acolá, no mais escuro
lugar d'êle, estava, onde achámos a Lamentor aguardando-nos já havia
pedaço, todo cheio de esperanças tam longas que, emfim, haviam de vir a
ser, assim, esperanças, não mais!

«Por isso, cumpre a todas as pessoas (e ás donas, senhora, muito mais
cumpre, pois são as que aventuram mais) que, ao principio das cousas,
olhem onde élas podem ir parar; que não ha nenhuma tamanha, que no
começo d'éla, se lhe não possa resistir, ou deixar sem trabalho; que
muitos rios grandes ha ahi que, onde nascem, se podem impedir com um pé,
ou levar para outro ponto; e no meio d'êles, ou depois que colhem
forças, todo o mundo junto os não poderá tolher ou mudar. Chama uma agoa
a outras agoas, e um erro a muitos erros... Em pequeno espaço, crescem
de maneira que se não podem depois deixar!

«Gravemente, e com muita prudencia, devia cada um cuidar se o que faz,
ou o que determina fazer, é cousa honesta e que convenha; que, se lhe
sae bem, todos lh'o teem a bem, e se não, ainda que o mundo lh'o tenha a
mal (o que muitas vezes acontece, porque, mal-pecado, já as cousas não
são julgadas senão pelas saidas d'elas) não tem ao menos de que se
queixar consigo.

«E grande bem é, a meu ver, excusar a pessoa as inimizades entre si,
pois não ha lugar cá n'este mundo que defenda a ninguem de si mesmo.

«Pode-se tolher inimigo e inimiga, frio e chuva; cuidado, pode-se tomar,
e tolher--não.

«Já quem faz o que deve, saindo-lhe como não deve, não quero afirmar que
lhe não dará paixão; que a perda de qualquer proposito (ainda que seja
desarrazoado) a dá. Mas, assim, digo que se lhe der paixão, dar-lhe-á
sofrimento para éla.

«Bem-aventurado se póde chamar, n'esta vida, quem tem dôr que se
suporte; pois, segundo parece, não se póde viver sem éla, assim como
assim.

«Nos amores cuidará alguem que não é isto necessario, e que não é
costumado; cuido eu que não poderá ser mais necessario. Em todas as
cousas se deve haver respeito ao como e ao quando, e ao porque ou para
que se fazem, para se não errarem. Maiormente se deve ter este respeito
nos amores, pois são tão sujeitos aos erros, que mais mal contado seria,
ao caminhante rico, se fosse desprevenido pelo lugar que de ladrões é
seguido, que por outro que o não fosse; porque n'este, se lhe
acontecesse algum desastre, culparia a ventura; mas n'aquel'outro
culparia a si, que são culpas mais graves de perdoar.

«Por isso, senhora, vos peço que aprendaes de mim, que vi culpas, e os
danos d'élas, porque assim como toda a pessoa, no bem, é mais amiga de
si que d'outrem, assim tambem no mal (quando acontece que haja algum
desvario consigo) é mais inimiga de si que de ninguem.

«E isto não é para espantar, porque é inimigo de casa, como dizem.

«Ainda mal, muitas vezes, que me foi necessario que vo-lo dissesse,
porque o soube para vo-lo dizer!

«Quereis antes, senhora, não ser contente que arrependida.»

«E aqui, fazendo a ama uma pausa, não para acabar, mas sim para
descansar (que vontade tinha já de lhe dizer tudo) sentiu dormir Aonia.

«E, cuidando que fosse fingido, esteve um pedaço espreitando-a, e, por
derradeiro, pondo-lhe a mão, e bulindo-a, se certificou que dormia.
Parece que, cansada do trabalho não acostumado, adormeceu. Éla era moça,
e nunca se vira n'outra...

«A ama, ainda que isto lhe fizesse duvidar do passado comtudo, pelo que
passara já por éla, pareceu-lhe o que era, porque não ha cousa que traga
mais certo o sôno ás moças que a dôr grande: e ás velhas tira-lh'o.

«E com esta fantasia, em que a ama se afirmou, adormeceu tambem.»



CAPITULO XXIV

Em que se conta o mais que a ama passou com a senhora Aonia ácerca de
Bimnarder


«Bimnarder, que todo aquele tempo passou como Deus sabe, vendo que assim
se calavam, não soube que determinar; porque tão magoado ficou das
palavras da ama, pelo dano que temeu de lhe fazerem, que se lhe turvou o
juizo, e não soube dar saida nenhuma áquele calar.

«E assim enleado, ácerca do que seria, esteve até que a manhan o levou
d'ali, bem contra sua vontade; porém, não se pôde ir para longe d'ali.

«Da mágoa d'êle, não vos quero contar. Era homem; poderia com éla. Mas
da coitada da Aonia (a quem as boas palavras da ama não aproveitaram
mais que para se guardar d'éla) vos contarei:

«Ergueram-se pela manhan, e, posto que a ama tentasse Aonia, dizendo-lhe
se ouvira a noite passada o que lhe éla contara, éla dissimulou
altamente. Pela sua idade, e pelo amor de creação que lhe a ama tinha,
creu logo de todo, e pelo socego de Aonia, feito por acinte, o acabou de
confirmar, e houve o passado por nada. Pareceu-lhe que seria o
desassocego de moças: que ás vezes, por mocidade, fazem cousas que não
fariam em outra idade, ainda que n'isso fosse todo o seu desejo.

«Assentando a ama n'isto, meteu-se na ocupação de casa (que era grande)
porque sobre éla carregava tudo; pelo que a Aonia ficou lugar e tempo
que bastava para pensar mais á sua vontade, e para fazer com que
Bimnarder fosse certo d'éla.

«Pondo cofres sobre cofres, fechando a porta da camara primeiro,
dissimulando fazer alguma cousa, se subiu á fresta. E, ainda bem não era
n'éla, viu Bimnarder, que não estava longe d'ali, nem tam perto que a
conhecesse logo: pelo que se deixou estar um pouco, para se afirmar
melhor.

«Éla, que não suportou já aquela tardança, lançando uma manga da camisa
fóra da fresta, fez que o chamava.

«Chegou êle com presteza, e, vendo-a, ficou assim sem lhe poder dizer
nada. Mas Aonia, que estava já determinada consigo, ousou falar-lhe
primeiro, mas não o que éla quisera, porque não pôde a tanto decidir-se.

«E, mudando o proposito n'aquilo que se acertou, lhe disse:

--«Aqui andaes, pastor, cada dia, sempre!»

--«Essa fresta, lhe respondeu êle, não está ahi, senhora, de noite
tambem?»

«Aonia, que o entendeu, muito de manso lhe tornou:

--«Está», ajudando a palavra com o abaixar dos olhos, que de todo então,
ao dizer d'aquilo, pôs n'êle.

«E não na entendera Bimnarder, se não fôra por isso, mas não lhe tornou
êle resposta. Éla, n'isto, desceu-se, porque se lhe afigurou que buliam
na porta da camara; e, tornando os cofres a seu lugar, se foi abri-la,
e, não achando ninguem, quisera tornar para a fresta, senão quando,
n'isto, eis vem a ama com outras mulheres de casa.

«De maneira que todo aquele dia, não teve outro tempo mas logo,
n'aquelas palavras que lhe o pastor dissera, entendeu que eram para que
tambem olhasse de noite para êle. E, com esta esperança que se deu a si
mesma, passou aquele dia, que tambem Bimnarder passou com sua esperança,
que tomou d'aquela palavra derradeira que lhe éla falou, com os olhos
mais que com outra cousa!

«Mas não cuidara êle, me parece a mim (dizia meu pae), que havia de ser
para tanto como lhe saiu, pelo pouco que entre ambos era passado.

«Porém, por isso estava mais certo, me tornou a mim a parecer, (dizia
meu pae) porque como a ventura venha mais em todas as cousas que tudo,
quem só a tiver não ha mister de mais.»



CAPITULO XXV

De como Bimnarder, pela fresta do aposento de Aonia, lhe falou


«Como aconteceu a Bimnarder que, vindo a noite, pondo-se á fresta, como
as passadas fizera, sentiu-as deitar, e, d'ahi a um grande pedaço, já
quando estava desesperado, ouviu pela casa andar de mansinho, e pôrem
alguma cousa contra a fresta.

«Estando com o sentido pronto, n'isto sentiu que subia alguem, e não
crendo que fosse tanto (como acontece na vista das cousas muito
desejadas, e esperadas muito), antes receando que fosse algum desastre,
abaixou-se prestes, e deixou-se estar ao pé da fresta.

«Aonia levantou o pano, e, com o escuro que fazia, não viu ninguem.

«Comtudo, deixou-se assim estar um pouco e, não sentindo nada, duvidou
de todo, e, indo para descer, disse:

--«Parece que foram só palavras!»

«Conheceu-a, na fala, Bimnarder. Dizendo:

--«Não foram, nem serão», subiu depressa á fresta.

«E éla tambem o conheceu, e subindo, chegando êle, e querendo-lhe falar,
disse éla muito devagarinho:

--«Que me perdoeis!»

«N'isto, começou a chorar a menina, e, acordando, a ama se pôs a
embalá-la, cantando-lhe; mas, não se querendo éla acalentar, se ergueu a
ama, dizendo:

--«Não sei se acharei lume, que esta criança sente alguma cousa.»

«E, desde que abriu a porta da camara, se foi á outra casa das mulheres,
a procurar lume.

«Aonia, que viu não haver remedio, querendo-se, depressa descer, chegou
o rosto muito á fresta dizendo:

--«Ide-vos embora, que não póde ser mais.»

--«De vós, lhe respondeu êle, me não posso eu ir assim.» E isto,
tremendo-lhe a fala.

«E éla, que houve dó d'êle, querendo soltar o pano, amparo da fresta,
não se pôde ter que lhe não desse de si alguma presença, e disse-lhe:

--«Pelo que fiz por vós, julgae o que tinha para vos dizer; e perdoae-me
(que vos não posso pagar em mais) o soltar d'este pano.»

«E assim o soltou, descendo-se muito depressa, e concertando tudo.

«Quando tornou a ama, já a achou deitada.»



CAPITULO XXVI

De como Bimnarder, estando na fresta de Aonia, adormeceu, e se lhe
foram, por sonho, os pès, e caiu


«Deixou-se Bimnarder ficar á fresta, e ali esteve até pela manhan, que
tam ocupado lhe ficou o pensamento d'aquelas palavras que lhe Aonia
dissera, em se indo, e da maneira como lh'as dissera, que uma cousa e
outra não lhe dava a mais vagar, nem tam só para se lembrar de fugir ao
tempo.

«Mas como êle não tivesse a noite antecedente dormido, nem o dia que se
seguiu, então, como descansado de alguma parte de seus cuidados,
adormeceu, não já por os ter menos, mas como acontece a quem traz alguma
cousa que muito deseja, e anda, entretanto aquele desejo o traz, sem
poder repousar, mas, depois que alguma segurança lhe vem de o ter
cumprido, repousa e dorme, como se o alcançára.

«E não podemos dizer que seja então menor o desejo, que antes, com
razão, deve ser maior.

«Assim foi Bimnarder, que, parte de cansado, e parte de contente,
transportou-se, parece, tanto em seu cuidado, que se lhe foram, por
sonhos, os pés e as mãos, e caiu no chão, com o pau após si.

«E, ao cair, lavou toda em sangue aquela parte do seu rosto, que
d'aquela banda da parede parece que levou; de que muitos dias esteve mal
depois.

«Mas nenhumas cousas grandes se acabaram senão por meio de grandes
desastres como aqui vereis; porque esta queda foi causa de Bimnarder ver
o que, pela ventura, nunca vira.»



CAPITULO XXVII

De como a ama, sentindo de noite o estrondo da queda, o que sobre isto
fez quando foi manhan


«Mais diz o conto que a ama (que a menina não a deixára mais dormir)
sentiu todo aquele estrondo. E Aonia, que não dormia, tambem o ouviu, e
cuidou logo o que temeu; porém, dissimulou grandemente, porque já se
guardava da ama.

«Mas éla, que já tambem estava descuidada de Aonia, foi suspeitar outra
cousa: que seria alguem d'aquelas obras, porque muita gente andava ahi,
e, porventura, viria espreitar por aquele lugar o que élas de noite
faziam, que bem sabia éla que os homens tudo ousavam fazer de noite.

«E, ainda bem não foi manhan, foi derredor da casa, e achou sinaes por
onde confirmou sua suspeita; e logo mandou tapar a fresta a pedra e cal,
contando tudo, da maneira que o éla cuidou, primeiro a Aonia, que lh'o
ouviu com tamanha mágoa, que mór trabalho cuido eu que levaria em lh'a
encobrir que em a sofrer consigo: porque o sofrer faz-se por vontade, e
a outra cousa contra éla.

«Mas, este remedio tolhido a Aonia, deu-lhe causa para buscar outro
maior; e chamando a uma mulher de casa, que Enis se chamava, avisada, e
de quem se podiam bem fiar grandes cousas, e assegurada no segredo,
pelas melhores maneiras que pôde, contando-lhe seu coração, lhe disse
que fosse ver se andava pela ribeira d'aquele rio o pastor da flauta; e,
se o não visse, que preguntasse a algum outro pastor por êle.

«Fel-o éla assim; e soube que jazia doente em um monte perto d'ali, onde
morava a mulher e filhos do maioral do rebanho em que êle andava. E,
tomando éla em sua companhia um homem de casa, determinou ir lá, porque
tamanha vontade conhecia em Aonia, que não pôde fazer menos.

«Chegou depressa ao monte; e preguntando pelo pastor da flauta, lh'o
foram mostrar lá, em uma casa de palhoça, por detraz das outras, onde
êle estava. E ficando êles sós, que assim buscou éla maneira, lhe
descobriu inteiramente ao que ia.

«Bimnarder, que logo a creu, porque era mulher, sobre a cabeceira onde
pobremente estava encostado, se lhe deixaram cair umas ralas lagrimas,
causadas d'entre contentamento e muita dôr,--que de ambas as duas
costumam élas ás vezes vir, as quaes fizeram certa a Enis do grande bem
que êle a Aonia queria; e não lhe esqueceu contar-lh'o éla depois.

«Ali estiveram ambos um grande espaço de tempo, e Bimnarder contando-lhe
tudo do começo; e detiveram-se tanto que foram suspeitando mal da
tardança, se fôra em outro lugar; mas a vida do monte não cria
suspeitas, como não cria de quem se suspeite mal.

«Mas, comtudo, detiveram-se ainda ambos n'esta pratica menos do que
ambos quiseram, por causa do homem que Enis trouxera.

«Tornada éla onde Aonia estava, lhe contou tudo, cousa por cousa, que
não ficou nada por contar.»



CAPITULO XXVIII

De como, estando da queda Bimnarder muito doente, Aonia buscou maneira
por onde o fosse visitar


«Veio assim, por acerto, que perto d'ali havia uma ermida de uma santa
de grande romagem, e era então, no outro dia, a vespera do seu dia; e a
ama e as mulheres de casa ordenaram ir lá.

«Havida licença de Lamentor para Aonia, e postos a caminho, (que a pé
podiam bem andar) ao passar pelo monte, se chegou Enis a Aonia, e
disse-lhe que ali era, porque iam já concertadas.

«N'isto, fez Aonia que cansava. A ama disse logo que repousasse um
pouco. Mas, d'esta vez, não teve éla maneira para ir aonde Bimnarder
estava. Foi lá Enis.

«De tornada, fizeram ali grande detença. Buscando achaque de querer lá
ir para detraz das casas, levando Enis consigo, houve tempo para Aonia
entrar onde êle estava então deitado, contra a outra parte da parede,
chorando, porque não vira Aonia ao passar, que bem se pudera êle erguer.
E como isto perdêra, cuidava tambem que havia de perder a tornada;
porque um mal nunca lhe viera sem outro, pelo que estava no maior pranto
do mundo para consigo.

«Entrada Aonia, deteve-se um pouco, e sentiu que êle chorava, e
suspirava baixo, de maneira que como, n'aquilo, se forçava a si mesmo.

«Éla, para vêr se poderia saber o porquê, que tudo desejava saber d'êle,
deteve-se ainda mais: mas êle com pensamentos muitos, que sobrevinham ao
choro, mais o acrescentava do que o diminuia.

«Assentando-se então Aonia na borda d'aquela sua pobre cama, lhe pôs a
mão, e quisera-lhe dizer alguma cousa, mas não pôde, que lhe faleceu o
espirito.

«Virando-se Bimnarder, e vendo-a, tambem lhe faleceu o seu.

«Estiveram assim ambos um grande pedaço sem se dizerem nada um ao outro:
e êle com os olhos postos em Aonia, e Aonia postos os seus no chão,
porque, em se virando Bimnarder, tomou vergonha. Levando-os assim á
terra, cobriu-se-lhe o seu formoso rosto de um tanto de côr, alem da
natural; e costumava dizer meu pae (porque parte d'esta historia em seu
tempo se soubera) que não parecia senão que viera aquela côr como para
ajudar ainda mais Aonia contra Bimnarder, tam formosa a éla, formosa,
fizera.

«Mas, estando assim n'isto êles ambos, e não estando êles ambos ali,
chegou Enis muito de rijo á porta, dizendo que se queriam já ir, e que a
mandavam chamar.

«Assim, foi forçoso levantar-se Aonia, e ir-se, e Bimnarder vêr tudo, e
ficar.

«Mas Aonia, que bem via os olhos de Bimnarder como ficavam, tomou uma
manga de sua camisa, e, rompendo-a, para remedio de suas lagrimas lh'a
deu, significando, na maneira só como lh'a deu o para que lh'a dava;
pois parece que a dôr grande que sentia não lh'o deixou dizer por
palavras; mas, em lh'a dando, pôs os olhos nos seus, dizendo-lhe só
assim:

«--Pesa-me, pois a minha ventura, ou desventura, não quis que vos eu
deixasse de magoar com o que eu não quisera.»

«E estas palavras lhe disse já fóra da porta.

«E com élas, e com o que sentiu ao dizer d'élas, duas a duas, lhe
começaram as lagrimas a correr dos seus formosos olhos, e pelas suas
faces formosas abaixo lhe iam fazendo carreiras por onde iam, que
Bimnarder a tanto pranto convidou quanto era a razão d'êle, pois perdia
a vista.

«Foi tanto o choro, que não lhe bastavam os seus olhos ás suas lagrimas,
pelo que lhe não pôde então dizer nada. Mas Enis, apressando Aonia com a
fala, e com as mãos, quasi puxando-a, e levando-a já, virou-se para êle
Aonia, dizendo:

--«Levam-me!»

«E, deixando-se ficar toda com os olhos, se foi assim, enlevada, até
que, com a parede das outras casas, passou alem.

«Apartada que éla foi de Bimnarder, êle não se pôde ter que pela outra
banda da sua casa se não saisse para aquela parte d'onde se podia ver o
caminho que élas levavam; e ali esteve olhando, entretanto a terra lhes
deu lugar, e depois, um grande pedaço, em quanto poderiam bem chegar a
casa; pois, parece, folgam tambem os olhos com a presunção, e descansam
em olhar para aquela parte onde está, ou vae, aquilo que podiam ver, se
não fôra a fraqueza d'êles, ou o impedimento d'alguma cousa.

«Mas como lhe pareceu que estaria já em casa, lembrou-se logo do lugar
onde éla estivera na sua cama assentada, e com grande pressa se tornou
para lá.

«E, entrando, foi-se ali pôr, onde éla estivera d'antes.

«Consigo estava fantasiando a Aonia; ora lembrando-lhe como aquilo
fizera, ora como aquel'outro.

«Depois, tomando aquela parte da manga, que lhe deixára, se punha a
chorar com éla, de mistura com palavras tristes, como que as houvesse
éla de entender.

«N'isto passou aquela doença, em que grandemente foi visitado por Enis;
e sarou depressa.

«E, d'aqui até que lhe aconteceu a desventura que vos contarei, se
passaram tempos e outras infindas cousas; porque os paços de Lamentor
acabaram-se, e pelo apartamento do lugar onde êles estavam, Aonia e a
ama, com outras mulheres de casa, iam passar tempo á ribeira d'este rio,
onde Bimnarder sempre andava.

«Mas nenhuma cousa ha n'este mundo em que se deva ninguem muito fiar;
que aquela grande segurança em que Bimnarder estava, em lugar tam ermo,
lhe não pôde durar, como agora vereis.»



CAPITULO XXIX

De como Lamentor casou Aonia com o filho de um cavaleiro seu comarcão, e
do que Enis aconselhou a Aonia que fizesse


«E foi assim que a donzela, por quem morreu o cavaleiro da ponte, (como
vos hei contado) veio tristemente a acabar por aso da irman viuva que o
levou nas andas.

«E sucedeu no castelo um filho de um cavaleiro muito valido e rico
n'esta terra, que, por meio de visinhos, desejou a Aonia para mulher, o
que foi depressa acabado, pela igualdade d'ambos n'aquilo em que a
quiseram aqueles em que estava o «_praz-me_» do casamento.

«Mas, pelo luto de Lamentor, e pelo apartamento de sua vida, não o soube
Aonia senão no dia antecedente áquele em que a haviam de levar para o
castelo,--que em sua casa não queria Lamentor ver prazeres, e bem lhe
pareceu que se não desconcertaria Aonia do esposo; porque era bem posto
cavaleiro, e, dos bens do mundo, abastado; e por isso tambem escusava
dizer-lh'o então. Mas não foi assim; que Aonia toda aquela noite passou
em um grito.

«Se não fôra Enis, que do seu segredo era sabedora, morrêra ou se fôra
por esse mundo; mas éla a consolou, e, com muitas esperanças que lhe
deu, não tam sómente a susteve, que não fizesse de si nada, mas antes
ainda lhe fez ser contente d'aquela vida e desejá-la; porque lhe dizia
que, como os casamentos ocupavam aos homens, poderia éla ter a liberdade
que quisesse; e, com resguardo, faria o que de sua vontade fosse, o que
não poderia fazer na casa onde estava.

«Este conselho foi tomado sem Bimnarder saber, porque a brevidade do
tempo não deu lugar para isso; mas concertaram-se ambas que ficasse Enis
para lh'o dizer ao outro dia, e, depois, mandaria por éla, porque logo
determinou pedi-la a Lamentor.

«E veio aquele outro dia; e, como Bimnarder não guardasse outro gado,
ainda bem não era manhan, já êle andava pela ribeira d'este rio; e viu
vir muita gente a cavalo, e passar a ponte dirigindo-se para os paços de
Lamentor.

«Mas não teve então a quem preguntar o que seria aquilo.

«Comtudo, não se tirou d'ali, porque logo se lhe revolveu o pensamento,
e inclinou a vontade a querê-lo saber; que, pela maior parte, o que ha
de ser, dá primeiro sempre na alma; e se andassemos de sobre-aviso
facilmente entenderiamos tudo, ou parte, do que nos está para vir.»



CAPITULO XXX

De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em seu poder, a
levou de casa de Lamentor muito acompanhada


«Descidos os de cavalo, estiveram por grande espaço com Lamentor; e,
depois, começaram saindo uns atraz dos outros, fazendo maneiras de
prazer.

«E, n'isto, viu Bimnarder donas a cavalo, e viu o fio da gente
encaminhar-se para a ponte; pelo que teve ensejo de preguntar a um pagem
que cousa era aquela.

«Disse-lh'o êle, seguindo seu caminho; mas Bimnarder não o acabou de
crer, tamanho abalo fez no seu cuidado.

«Porém, olhando, viu a Aonia, e com éla, da parte esquerda, o seu
esposo, que conhecido ia nos trajos e na comunicação da pratica que
entre ambos levavam; porque tudo, como derradeira cousa, olhava
Bimnarder, e muito bem viu!

«E Aonia nunca se virou para aquela sua banda, que continuada sempre
d'éla era; mas antes, porque ia inclinada para aquela parte onde o
esposo ia, pareceu-lhe a êle que o ia muito mais do que éla ainda ia, e
que o fazia por acinte. E isto é natural, pois quando uma pessoa vos cae
n'um erro, todas as cousas, que depois faz, tomais á pior parte, como
aqui aconteceu.

«Ficou Bimnarder tam maguado que d'ahi a mais de uma hora não cuidou de
nada. E, ao cabo d'éla, virando-se para outra parte, se foi; e não no
viram mais.

«N'aquele dia á tarde, veio Enis buscá-lo; e, não no achando, preguntou
por êle; e disse-lhe outro pastor (que por acaso acertára então de estar
perto d'êle, olhando tambem a gente) que, depois d'éla passada, estivera
êle um grande pedaço sem se mudar do lugar d'onde estava e sem tirar os
olhos do chão, como homem pensativo, em sua maneira. E tanto que êle
mesmo olhára para isso, e quisera-lhe falar, senão quando êle, n'isto,
virára para outro lado, e, pela ribeira, dando a andar apressadamente,
desaparecêra, e nunca mais o vira. E já êle mesmo fôra ao monte de seu
amo preguntar por êle, para que viesse pastorear seu gado, que andava
desmandado, e não o acharam; e que, do monte, tambem o foram buscar por
todo este mato, e pareceu a todos que seria ido, porque êle nunca tal
costumou; e já outrem andava com o seu gado.

«Ficou Enis toda fóra de si; e logo cuidou que lhe não cumpria ir ver
Aonia, nem viver com éla, pois saira tam mal o seu conselho.

«E, tornada para casa, ordenou dilatar a sua ida por alguns dias, para
ver se sabia novas de Bimnarder.

«Entretanto, não sabendo nenhumas, e apressando-a Aonia para que lh'as
levasse, determinou, comtudo, ir; porque, por outra via, cuidou para
consigo que com pouco trabalho se lhe tiraria por então Bimnarder do
pensamento; que os casamentos, á primeira vista, parecem outra cousa; e
senhoras, que d'antes foram presas de amor, logo aos primeiros dias
esqueceram todo o passado; mas depois, por cousas e desgostos, que
nascem da culpa do longo tempo, ou conversação que traz menospreso,
tornaram muitas vezes ás lembranças do primeiro.

«Porque n'isto, que Enis consigo cuidou, quis obedecer a Lamentor, que
já, a pedido de Aonia, mandava que a levassem.

«Que vos hei de dizer?

«Ainda bem não chegavam, afastou-se Aonia com éla, mas, sabido o que se
passava, chorou muitas lagrimas e maldisse o dia em que nascera.

«Enis, que era avisada, e via que, pois o mal não se podia curar, se
devia dilatar, lhe fez uma fala d'esta maneira:

--«Deixemos, senhora, o pranto, que d'êle não se vos podem seguir senão
dous males muito grandes. Um, é que mataes a vós com o choro; e quando,
porventura, vier Bimnarder, não vos quereria achar assim, e será esta
então maior ofensa para êle; porque est'outra tem desculpa, e esta não a
terá para êle, senão se lhe quiserdes dizer que desconfiaveis d'êle, que
monta tanto como cuidardes d'êle mal. Ora vede lá, senhora, convosco, se
podereis dar a culpa a quem quereis tamanho bem! Pois, afóra isto,
tendes ainda outro mal: que correis risco de se saberem vossos prantos,
e, como êles sejam tomados em tempo de bodas, não se poderá deixar de
suspeitar d'eles mal. E, por aqui, tolher-se-vos-á, porventura, o que
póde ser em algum tempo, o que eu espero; porque as lagrimas de
Bimnarder não podiam ser sem vos êle querer muito grande bem, que lhe
não doesse muito o que fizestes; e não lhe póde doer muito o que
fizestes que, n'algum tempo, não queira saber o como ou porque o
fizestes;--porque o bem-querer grande faz sentir muito os escandalos
recebidos, e crê-los em parte, quanto baste para o sentimento ser maior
do que póde ser. Mas, porém, sempre deixa uma duvida lá na crença, para
experimentar n'algum tempo, tarde ou cedo, segundo a dôr grande ou
pequena lhe dá lugar. Não póde ser que aquilo que vós, senhora, sabeis,
não faça duvidar Bimnarder do que fizestes, até se êle desenganar por si
mesmo. Ou, se isto não é assim, não ha verdade no mundo nem nos homens!»



CAPITULO XXXI

Em que se diz a grande dor que sentiu Aonia em seu casamento


«Estas palavras desagastaram a senhora Aonia algum pouco, mas não de
todo; que, na verdade, se a deixaram estar só, e ter tempo para
perseverar n'este cuidado, não creio eu que éla pudera durar muito.

«Mas era esposada de então, e umas cousas e outras não na deixavam nunca
só; espalhavam-se os cuidados.

«Assim, éla, pouco a pouco, foi-se acostumando a viver d'outra maneira;
que as ocupações de casa, e a desconfiança, ou desesperança, que foi
tendo de Bimnarder, lhe fizeram indo ter nas cousas passadas uma sombra
de esquecimento, com que éla pudera viver todas as horas da sua vida
descansada ou menos cansada, se em alguma cousa d'este mundo houvera
segurança.

«Mas não na ha; que mudança possue tudo!...»



INDICE


CAPITULO I--Em que a donzela começa a sua historia

CAPITULO II--Em que a donzela vae prosseguindo sua historia

CAPITULO III--Da conta que a dona dá á donzela de sua vinda áquela terra

CAPITULO IV--Das palavras que a dona com a donzela passou

CAPITULO V--Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a
sua nau, e da batalha que teve com o cavaleiro da ponte, e do que mais
lhe sucedeu

CAPITULO VI--Em que se diz a razão por que o cavaleiro da ponte sustinha
aquele passo, e de como sua irman ali veio ter

CAPITULO VII--Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por
aprazer aquele lugar a Lamentor, ordenára fazer ali seu assento

CAPITULO VIII--De como a Belisa vieram em crescimento as dôres do parto,
e, parindo uma criança, faleceu

CAPITULO IX--Do pranto que Aonia fez pela morte de sua irman Belisa

CAPITULO X--De como Narbindel, vindo combater com o cavaleiro da ponte,
vendo o pranto que se fazia na tenda de Lamentor, entrou dentro para o
consolar

CAPITULO XI--De como se deu sepultura ao corpo de Belisa, e do pranto
que com êle fez Lamentor

CAPITULO XII--Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do
parecer e formosura da senhora Aonia

CAPITULO XIII--Em que se diz quem fosse Cruelcia, e do que o cavaleiro
passou com seu escudeiro

CAPITULO XIV--De como, partido o escudeiro do cavaleiro da tenda, entrou
em pensamentos de como se apartaria d'êle, e mudaria o nome

CAPITULO XV--De como Bimnarder soube de um servidor de Lamentor que este
ordenava fazer ali uns paços, e do mais que lhe aconteceu com a sombra
que lhe apareceu

CAPITULO XVI--De como, estando Bimnarder muito pensativo no que faria,
viu de subito vir o seu cavalo fugindo d'uns lobos que o queriam matar

CAPITULO XVII--De como Bimnarder assentou vivenda com o maioral do gado,
e do que a donzela passou com a dona em sua historia

CAPITULO XVIII--Em que a ama dá razão á donzela da cantiga de Bimnarder

CAPITULO XIX--De como conta a ama á senhora Aonia o que vira fazer ao
pastor, acabada a cantiga

CAPITULO XX--Da peleja que o touro do pastor teve com outro alheio, e de
como o matou, a qual Aonia estava vendo do eirado

CAPITULO XXI--De que maneira Bimnarder se viu com Aonia

CAPITULO XXII--De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia,
se pôs devagar a ouvir a ama

CAPITULO XXIII--Do singular conselho que deu a ama á senhora Aonia, pelo
que suspeitou de seus amores

CAPITULO XXIV--Em que se conta o mais que a ama passou com a senhora
Aonia, ácerca de Bimnarder

CAPITULO XXV--De como Bimnarder, pela fresta do aposento de Aonia, lhe
falou

CAPITULO XXVI--De como Bimnarder, estando na fresta de Aonia, adormeceu,
e se lhe foram, por sonho, os pés, e caiu

CAPITULO XXVII--De como a ama, sentindo de noite o estrondo da queda, o
que sobre isso fez quando foi manhan

CAPITULO XXVIII--De como, estando da queda Bimnarder muito doente, Aonia
buscou maneira por onde o fosse visitar

CAPITULO XXIX--De como Lamentor casou Aonia com o filho d'um cavaleiro
comarcão, e do que Enis aconselhou a Aonia que fizesse

CAPITULO XXX--De como Fileno, o marido de Aonia, desejoso de a ter em
seu poder, a levou de casa de Lamentor muito acompanhada

CAPITULO XXXI--Em que se diz da grande dôr que sentiu Aonia em seu
casamento



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