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Title: Christovam Colombo e o descobrimento da America
Author: Silva, João Manuel Pereira da
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Christovam Colombo e o descobrimento da America" ***

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    *Notas de transcrição:*

    O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
    em 1892.

    Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos
    alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura
    do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.



CONFERENCIAS PUBLICAS

EFFECTUADAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO


CHRISTOVAM COLOMBO

E O

DESCOBRIMENTO DA AMERICA

PELO CONSELHEIRO


_J. M. Pereira da Silva_

Deputado e Senador durante o Imperio, Membro honorario do Instituto
Historico e Geographico Brazileiro e da Academia Real de Sciencias de
Lisboa


BRAZIL--RIO DE JANEIRO
IMPRENSA NACIONAL
MDCCCXCII



CHRISTOVAM COLOMBO

E

O DESCOBRIMENTO DA AMERICA



CONFERENCIAS PUBLICAS

EFFECTUADAS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO


CHRISTOVAM COLOMBO

E O

DESCOBRIMENTO DA AMERICA

PELO CONSELHEIRO


J. M. Pereira da Silva

Deputado e Senador durante o Imperio, Membro honorario do Instituto
Historico e Geographico Brazileiro e da Academia Real de Sciencias de
Lisboa



BRAZIL--RIO DE JANEIRO
IMPRENSA NACIONAL
MDCCCXCII



PROPRIEDADE DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO



    DEDICATORIA

    _Ao_ INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO _offerece a
    propriedade das conferencias effectuadas ácerca de_ Christovam
    Colombo e do Descobrimento da America, _como homenagem de
    consideração, e testemunha de apreço, que lhe tributa seu socio
    honorario._

                                       _J. M. Pereira da Silva._



    O INSTITUTO HISTORICO E GEOGRAPHICO BRAZILEIRO resolveu em sessão
    publica agradecer ao Sr. Conselheiro J. M. Pereira da Silva, e
    proceder á publicação de suas conferencias, reunindo-as em um
    volume, que sirva para commemorar a celebração do 4º centenario
    do descobrimento da America, que o mesmo Instituto pretende
    celebrar no dia 12 de outubro de 1892.



ADVERTENCIA


Ao approximar-se o 4º centenario do descobrimento da America por
Christovam Colombo, e ao annunciarem-se festejos, com que tem de ser
celebrado em Madrid, Chicago e Genova, tão fausto e glorioso
acontecimento, entendeu a Sociedade Promotora da Instrucção, fundada no
Rio de Janeiro, que lhe convinha egualmente commemoral-o, restaurando as
conferencias populares á que anteriormente havia presidido, e
encarregando ao Sr. Conselheiro João Manuel Pereira da Silva a missão de
tratar d'aquelle assumpto.

Cinco conferencias effectuou o Sr. Conselheiro, resumindo quanto
interessava á historia do descobrimento da America e á biographia de
Colombo. Acolheram-nas as Gazetas e o publico com a maior benevolencia.
O decano da imprensa brazileira, o _Jornal do Commercio_ do Rio de
Janeiro, as fez apanhar por meio de tachygraphos, e as publicou
integralmente em suas interessantes columnas.

Essas conferencias formam, reunidas, o actual volume.

Não as quiz o autor alterar e nem imprimir-lhes novos additamentos:
entendeu que si valor haviam tido, não o deviam perder, modificadas que
fossem na fórma ou na essencia. Convinha mais que corressem como
foram pronunciadas, corrigidos apenas os erros da imprensa, e riscados
os incidentes da occasião, que só interessavam ao orador e ao auditorio.

O estylo e a linguagem do orador devem a fórma ao improviso da palavra e
das phrases, e por isso apresentam naturalmente incorrecções e lapsos,
porque lhes falta aquella lima que o escriptor emprega em suas vigilias,
quando recolhido ao seu gabinete, e quando adstricto á uma acurada
meditação.

Comprehende-o o leitor intelligente, e, pois, apreciará com justiça.



CHRISTOVAM COLOMBO

E

O DESCOBRIMENTO DA AMERICA



PRIMEIRA CONFERENCIA

17 de maio de 1891


Subindo hoje a esta tribuna que, ha cerca de dous annos, conserva-se
muda, deserta, abandonada, e relanceando os olhos pelo auditorio no
intuito de comprimental-o, e agradecer-lhe o comparecimento, assalta á
meu espirito uma idéa triste, confrange-se-me o coração com uma dolorida
reminiscencia. Noto a falta de um grande patriota que desde o começo e
durante muitos annos seguidos honrou sempre estas conferencias,
animando os oradores com sua presença, incitando os ouvintes com suas
palavras, áquelles pedindo a perseverança no trabalho, a estes
aconselhando concorressem afim de se alcançarem resultados vantajosos e
proficuos aos estudos scientificos e litterarios. Refiro-me ao Sr. D.
Pedro II, que ora, ingratamente expellido da patria, sente de certo
ainda bater-lhe o coração de saudades por ella, e faz votos ardentes
pela sua felicidade e futuro.

Pago este tributo de gratidão, prestada uma homenagem devida de
respeitosa saudação, passo a tratar do assumpto annunciado para nossa
conferencia de hoje, appellando, como em outras occasiões, para a vossa
benevolencia.

Sorriu-me esta idéa com a leitura dos annuncios publicados em periodicos
de varias nações. No proximo anno de 1892 celebrar-se-ha o quarto
centenario do descobrimento da America. Achamo-nos na America, somos
Americanos, porque nos não recordaremos de epoca tão memoravel!

Para que se comprehenda, porém, a historia do descobrimento da America,
necessario nos é começar pelo estudo da situação social, politica,
economica, scientifica e litteraria da Europa durante o seculo XV.

Sahia da edade média, penetrava na da renascença, e passava por
extraordinarias evoluções. Cahia a feudalidade, isto é, o dominio
despotico, brutal e caprichoso de fidalgos, senhores de castellos, de
cidades, de vastos territorios, tanto leigos como ecclesiasticos e que,
independentes dos chamados reis e imperadores, victimavam os povos
residentes em suas terras e sob seu jugo. Elevava-se sobre as ruinas do
feudalismo o poder illimitado dos monarcas, que começavam a governar
nações maiores e mais unidas: apparecia já tambem á tona d'agua,
reclamando liberdades civis, a classe média e popular, que até então
existira esmagada e submettida.

Desenvolvia-se a industria e o commercio; propagava-se a instrucção que
estava monopolisada nos claustros, privativa quasi dos representantes
da egreja christã que succedera ao antigo culto do polytheismo pagão.

Occupava-se, todavia, toda a Europa em guerras ou intestinas ou
externas: Italia era presa de estrangeiros; França lutava com
Inglaterra, unida á Bourgonha e Bretanha; Allemanha fazia e desfazia
imperadores nominaes; Hespanha brigava com Arabes e Mouros, ainda donos
de parte de seu solo, e repartia-se tambem em varios estados christãos
independentes. O imperio grego de Constantinopla estorcia-se em
paroxismos diante das invasões e victorias dos Turcos asiaticos, que o
assaltavam de continuo.

Nenhuma nação possuia então marinha militar propriamente dita e apenas
exercitos, dando-se as grandes batalhas e praticando-se as excursões
bellicas em terra e só em terra.

Havia, porém, em um canto da Europa, o mais occidental, banhado pelo
Atlantico, um povo pouco numeroso, mas guerreiro. Firmara na batalha de
Aljubarrota por uma vez sua nacionalidade apoz tres seculos de separação
e tal qual independencia do resto das Hespanhas. Proclamara-a nas
côrtes de Coimbra de 1385, elevando ao throno D. João, Mestre de Aviz,
filho bastardo de D. Pedro I. Não tinha mais inimigos a combater,
carecia, entretanto, de empregar sua actividade e aspirações audaciosas
em qualquer empreza de vulto.

Desmembrado no principio do seculo XII do Condado da Galiza, convertido
em reino independente, alargara-se pela conquista sobre terras de Arabes
e Mouros até o sul. Mais longe ia-lhe a ambição, e, pois, adiantou para
o mar suas energias e affoitezas. Não tivera ao principio marinha, e
para se apoderar dos territorios meridionaes precisou do auxilio das
armadas do Norte, que se dirigiam ás Cruzadas. Do governo de D. Diniz em
diante aprendera, porém, com os Genovezes a atirar-se ao oceano. Não o
convidava elle com seus murmurios á lançar-se-lhe nos braços?

Feliz como rei, afortunado como pai, foi D. João I. Seus cinco filhos
honraram-lhe cavalheirosamente a familia e a patria, já pelos
talentos e qualidades, já pela bravura do braço e ardentia do animo. D.
Duarte foi rei e rei preclaro. D. Pedro, Duque de Coimbra, illustrado em
todos os conhecimentos scientificos e litterarios da epoca, animo
prudente, superior, e esforçado cavalheiro, ganhou experiencia em
viagens pela Europa e Asia, e era por isso chamado o Infante das sete
partidas do mundo. D. Henrique de Vizeu combatera em Ceuta como um leão,
e entregava-se aos estudos cosmographicos. D. Fernando morreu
prisioneiro de Mouros em Fez, e D. João ainda moço acabou a vida, quando
ambos promettiam egualar nos meritos e qualidades a seus irmãos que
tanto se haviam ennobrecido.

De Mouros estava livre Portugal; nem um pisava em seu solo que não
vivesse em captiveiro: tentou ao rei e aos principes uma grande facção,
atravessar os mares que separam a Africa da Europa, levar a guerra aos
territorios e dominios em que Mouros se achavam, e expellil-os tambem
daquellas regiões, como o haviam sido de Portugal. Dito e feito.
Ceuta, a mais rica e commerciante cidade de Marrocos, foi atacada e
subjugada em 1415 pelas armas de D. João I: teve de arriar o crescente
de Mahomet e ornar-se com a cruz santissima de Christo: e foi o Infante
D. Henrique, seu principal vencedor, nomeado para governar a conquista
verificada.

Teve então D. Henrique ensejo de aprender a lingua arabe, ler seus
livros, estudar seus monumentos scientificos, ouvir seus sabios,
seus cosmographos, e muito lucrou e aprendeu, porque eram ainda os
Arabes o povo mais illustrado da epoca. Terminado seu governo e
restituido á patria, um pensamento, um intuito se lhe fixou no
espirito,--adeantar--estender os conhecimentos cosmographicos e
geographicos--descobrir terras de que já haviam fallado os antigos
Gregos e Romanos, e que então se não conheciam mais--devassar os
segredos dos mares, opulentando com novos dominios sua patria--dilatar e
propagar a religião christã, e desenvolver emfim o commercio com novas
mercadorias e escambos.

Na ponta meridional de Portugal ergue-se o Cabo de S. Vicente: descansam
alli uns penedios açoutados pelos ventos, batidos de continuo pelas
ondas dos mares, e que se prestavam a ser um ponto apropriado para
observações, estudos scientificos, e pratica de navegação. Para esse
sitio agreste recolheu-se o Infante e em Sagres estabeleceu moradia, e
escola de cosmographos e mareantes. Attrahiu sabios Malhorquinos,
Allemães, Italianos, Judeus, Arabes, Portuguezes. Dia e noite, aos
gemidos e marulhar das vagas e aos furores das tempestades, estudavam-se
livros e mappas, e perscrutavam-se os mysterios das estrellas. Tudo
quanto escreveram os antigos, quanto sabiam os Arabes, quanto ensinavam
os viajantes europeus, examinava-se, discutia-se, tirava-se a limpo. O
Duque de Coimbra fizera-lhe presente de exemplares manuscriptos das
viagens do Veneziano Marco Paulo, de Mandeville e de Conti, que fallavam
das opulencias e grandezas das Indias. Chamava-se assim então todo o
continente da Asia, inclusive a China denominada Cathay, e o Japão
Cypango.

Quasi que não passava a navegação de costeira; fugia-se aos altos mares;
apenas a bussola introduzida pelos Arabes servia de instrumento nautico;
consistiam os navios em náos, de cerca de 200 ou mais toneladas, para
carregamentos de mercadorias particulares; em galés de guerra com
tombadilhos á pôpa e prôa, espigões de ferro na prôa, vãos no centro
para 40 a 50 remeiros, dous ou tres mastros para pequenas velas; em
galeotas que se armavam tambem em guerra, mais pequenas; em caravellas e
fustas, sem convez, e as maiores de cem toneladas, e ninguem ousava
praticar viagens sinão com a terra sempre á vista. Os Venezianos,
Genovezes, Pizanos, e Catalães iam buscar as mercancias indiaticas ao
Egypto, á Syria, á Constantinopla, ao mar Negro, onde ellas chegavam em
caravanas, provenientes pelo golpho Persico e pelo mar Vermelho;
percorriam o Mediterraneo, dobravam as costas de Portugal e Hespanha,
dirigiam-se á França, Inglaterra, Allemanha e até á Moscovia. Os
Normandos, Bretões e Flamengos seguiam do norte para o sul encostados
tambem e sempre á terra, e penetravam no Mediterraneo. Os Arabes
conheciam unicos a navegação do Indostão e da Africa oriental, onde
largamente traficavam, trazendo do Egypto para a Mauritania os generos
de que careciam.

É mister penetrar nestas miudezas para se comprehender a temeridade dos
Portuguezes ao coalhar os mares com navegantes e descobridores de
terras: hoje a navegação é facil, grandes os navios, movidos até pelo
vapor, machinismos e construcções admiraveis, instrumentos nauticos
perfeitos, conhecidos os caminhos talhados nos oceanos, e manifestas as
posições dos astros: então eram tudo trevas, difficuldades, perigos,
terrores.

Que fim tinham levado as ilhas da Atlantida e das Antilhas, de que
fallaram Platão e Aristoteles? As terras que os Phenicios diziam ter
conhecido, e que denominavam afortunadas? Onde estavam as ilhas das sete
cidades e de S. Barandon, que se inscreviam nas cartas geographicas da
epoca, confusa e differentemente? Por que se não chegaria ao mar
tenebroso, como se intitulava o Atlantico proximo ao equador, ás
zonas torridas, que se pintavam inaccessiveis e inhabitaveis? Por que se
não dobraria a Africa, que se pensava acabar á 10 gráos de latitude
Norte, correndo então para o oriente á ajuntar-se ás Indias, conforme os
dizeres dos Arabes, que de Marrocos por terra chegavam até quasi o Senegal?

Todas estas questões se propunham e ventilavam-se no areopago fundado em
Sagres por D. Henrique de Vizeu. Plinio, Ptolomêo, Strabo, o Veneziano
Marco Paulo, os Arabes Endrisi e Averrohes, eram os oraculos pelos seus
livros; Jaime de Malhorca e Vasseca os desenhadores mais habilitados de
cartas geographicas.

Convem aqui summariar as lendas que a respeito se espalhavam, e que,
acreditadas não só pelo vulgo, como pelos espiritos cultos e sabios da
epoca, espalhavam terrores de approximar-se ao sul da Mauritania.

Deixemos de parte as fabulas de Platão e Aristoteles quanto ás ilhas da
Atlantida e Antilhas, posto que os mappas de 1400 as mencionem
ainda: como é curiosa a legenda da ilha das sete cidades, onde se
recolheram sete bispos, que calçava de ouro as ruas, possuia palacios de
marmore, asylara o ultimo rei godo-hespanhol Rodrigo, e dera eterna
felicidade á Ennoch e Elias recolhidos á seu seio! Como encanta, a lenda
de que a ilha de S. Brandão fôra visitada por um abbade escossez
Barandon, acompanhado por São Maló, que resuscitou um gigante já
enterrado, baptisou-o e annunciou-lhe a felicidade na outra vida? Sabeis
o que resultou? O gigante, depois de quinze dias, quiz por força morrer
e morreu de novo para alcançar a bemaventurança no Céo! Certo é que esta
ilha figurava em todos os mappas dos seculos XV e XVI, nos proprios
traçados ao depois por Colombo, e no globo attribuido á Behaim. Certo é
ainda que no XVII e XVIII foi mandada procurar por navios hespanhóes,
por ordem do seu governo, porque arrastados por illusões opticas os
habitantes dos Açores teimavam em que era vista, bem perto delles, em
certas epocas do anno.

Resolveu-se D. Henrique a iniciar os descobrimentos, seguindo a costa
Africana, no intuito de apoderar-se della. Custou-lhe espantosamente.
Seu pai animava-o, mas não tinha dinheiro. Empregou o Principe a renda
do ducado e a do mestrado de Christo que administrava. Marinheiros,
pilotos, ninguem queria arriscar-se a ir além do Cabo Non, porque se
espalhava que dahi em diante começava o mar tenebroso e as tradições que
corriam aterrorisavam a todos. Com o emprego de inauditos esforços
conseguiu o Infante que Zarco e Tristão Dias, em 1418, alongando-se pelo
oceano, descobrissem as ilhas do Porto Santo e Madeira, e em 1431
Gonçalo Velho as dos Açores. Nada disso o adeantava todavia. O que elle
procurava era a Africa, era o que havia além do Cabo Non. D'ahi
fugiam-lhe os mareantes, ahi não se atreviam á ir os pilotos. Morrendo
em 1433 D. João I, obteve D. Henrique que o novo rei, D. Duarte,
mandasse expedição guerreira á Mauritania, tendo-o e a seu irmão D.
Fernando á frente; explore-se a Africa por terra, já que o mar está
assustando!

Infeliz empreza! Os Portuguezes foram em Tanger derrotados. D. Fernando
cahiu prisioneiro e morreu no meio de tormentos em Fez. D. Henrique
volveu para o seu promontorio de Sagres em 1437. Não desanimado
perseverou nas lutas com o oceano, cujos segredos anciava descobrir.

Mais lhe firmava no espirito os propositos de percorrer a costa Africana
a ideia de encontrar o caminho para as Indias, e collocal-as em directa
communicação com Portugal. Não diziam os mappas que a costa Africana
parava aos 10 gráos? Não o incitava a leitura de Marco Paulo na
descripção da Tartaria, Cypango e Cathay? Não havia chegado ao Indostão
Alexandre com os seus Gregos, á Armenia os Romanos, á Jerusalem os
Cruzados? Já que não podia ir por terra, combatendo Mouros, ou correndo
a costa septentrional da Africa, por Argel, Tunis, Tripoli e Egypto, não
era indispensavel proseguir em expedições maritimas? Não estaria
reservado a Portugal e a elle o papel glorioso de iniciar e executar
emprezas que espantassem o mundo?

O povo murmurava, a nobreza zombava, era um louco na opinião de muitos,
como são sempre considerados os genios que se adiantam além do seu
seculo. Que lhe importava! Idéas firmadas em fundas convicções não se
desfazem sinão diante de realidades demonstradas. Obteve que Gil Eannes
chegasse ao Cabo Bojador, dobrasse-o, reconhecesse-o e voltasse a
dar-lhe a boa nova; não era ainda o fim do mundo, mas ninguem lá fôra,
salvo mouro ou arabe, e por terra.

Após o Cabo Bojador, descobriu Nuno Tristão, em 1443, o Cabo Branco, e
em 1449, Cadamosto, o Cabo Verde e o Senegal, onde encontrou marfim,
ouro e hordas de pretos, que conduziu para os Algarves, começando então
o trafico de escravos Africanos na Europa. Dous papas mandam bullas de
concessão de todas as terras além do Cabo Bojador, elogiando e
preconisando de heroe o Principe. Os Pontifices Romanos reputavam-se
então autorizados para distribuirem reinos e corôas.

Quantos erros geographicos se emendaram desde logo nos mappas? Quantos
prejuizos populares se desfizeram? Chegara-se no entanto ao gráo 20
e não apparecia o mar tenebroso cuja fama enchia á todos de pavor.
Continuar, continuar, e o caminho das Indias ahi estava proximo e certo,
não tardaria a Africa em terminar, e dobrada que fosse se chegaria ao
reino do Preste-João, de quem tanto se fallava de outiva;
avistar-se-hiam as terras das perolas, dos brilhantes, dos perfumes, dos
tapetes, dos damascos, da pimenta, do cravo, das riquezas consideradas
as maiores do mundo. Não se penetrara já na zona torrida, e não se
descobrira que ella era habitavel?

Falleceu, infelizmente, no correr de 1460, D. Henrique, já nos fins de
sua vida glorificado, endeosado pelos seus e admirado na Europa por
causa das noticias das terras que tinha descortinado, e que se foram
espalhando, apezar das difficuldades de communicações internacionaes
naquella epoca.

Ao cessar a primeira metade do seculo XV tres acontecimentos
verificaram-se, no entanto, na Europa: 1.º Constantinopla, a capital do
imperio grego christão, successora de Roma, cahira em poder dos
turcos, que, derrotando os Arabes, se tinham apoderado de toda a Asia
menor, e dahi passado para Europa, onde fundaram novo imperio, que á
pouco e pouco avassallou a Grecia, a Bulgaria, a Roumania, a Servia e os
estados do Danubio, e começou a ameaçar a Allemanha pela Hungria; 2.º
Descobrira-se em Mayença a arte de imprimir, e os livros tenderam logo á
baratear, as luzes á derramarem-se, e a civilisação á crescer; 3.º
Hespanha esforçava-se por unificar-se, reunindo em um só reino Navarra,
Aragão, Catalunha, Castellas, Galliza, Leão e Bascos; e França alcançara
emfim expellir os inglezes do seu territorio, e procurava alargar-se até
o Mediterraneo, e assenhorear-se da Borgonha e da Provença.

A esses trabalhos entregavam-se as nações europeas, emquanto que
Portugal cuidava de navegações. Agora, mais que nunca, precisava-se de
abrir caminho para as Indias pela Africa, porque os portos da Asia
Menor, do mar Negro e de Constantinopla, submettidos e acurvados
pelos turcos de Mahomet, feixavam as communicações, restando apenas o
Egypto que se conservara independente do jugo quer do Arabe já decahido
e escravisado, quer do Turco, que sobre todos os mussulmanos se erguera,
e apregoava-se o primeiro dos povos de crença Mahometana.

D. Affonso V de Portugal foi de novo guerrear na Mauritania, subjugou
Arzila, Alcacer e Tanger. Por sua morte D. João II preferiu continuar as
excursões maritimas de seu finado tio D. Henrique e approximar-se da
Asia, dobrada a costa Africana: digno successor pela grandeza identica
do pensamento, e mais poderoso porque era rei, e agora entrava a Corôa
nas emprezas com força propria e sob direcção governativa.

Foi nesse tempo que chegou á Portugal Christovam Colombo, pelo anno de
1470, aventureiro audacioso, temerario, instruido em mathematicas e
cosmographia, e ancioso de tomar parte nas emprezas portuguezas, em que
já se empregavam muitos compatriotas seus, e de outras nações
europeas. Chamava Portugal e attrahia á si quantos aventureiros
arrojados desejavam navegar e descobrir terras, porque era Portugal a
unica nação que se devotava á tão proficuo serviço.

Abrira, portanto, Portugal as portas que escondiam os continentes,
rasgara caminhos no seio dos mares, desenvolvia e aperfeiçoava as
sciencias cosmographicas, geographicas, astronomicas, melhorava
instrumentos de navegação, tornara-se o precursor de todo o movimento
progressivo, que seguiu o universo durante o seculo XV.

Christovam Colombo teria então 35 annos, e sua vida, antes desta epoca,
não está ainda hoje conhecida. Os autores que lhe escreveram a
biographia, muitos foram elles, tanto hespanhoes como italianos e de
outras nações, divergem, contradizem-se, por fórma que ao certo se não
alcança a realidade.

Patenteava Christovam Colombo grandes talentos e muitos conhecimentos
mathematicos, geographicos e cosmographicos; escrevia mappas e cartas, e
tratou de empregar-se logo na marinha portugueza, casando-se com a
filha de um Perestelo, navegante habilissimo, gratificado pela Corôa com
a donataria da ilha do Porto Santo. Foi com elle que aprendeu, estudou
os roteiros, recebeu lições, e delle herdou escriptos e mappas
importantes a respeito de navegações maritimas.

Colombo relacionou-se tambem com todos os marinheiros e pilotos que
serviam em Portugal, fez com elles viagens diversas á Africa e aos
Açores, e fixara residencia ordinaria na ilha da Madeira.

Dedicado ao estudo nautico, pesquizador de todos os factos que se
passavam, engenhou logo empreza que lhe désse renome.

Era ambiciosissimo de gloria e, pois, cuidou de desenvolver a sua
actividade, para o fim de adquiril-a.

Nessa epoca era abraçada por muitos sabios e cosmographos a ideia de que
o mundo terrestre formava uma esfera ou globo.

Copernico, já como que tambem adivinhara, que, em torno do sol fixo, é
que gyravam a terra e os demais planetas.

Para que esta theoria fosse, porém, admittida precisava-se ainda que no
seculo XVI os trabalhos de Galileu a demonstrassem cabalmente.

Prevalecia no seculo XV unicamente, e para os sabios só, o principio da
redondeza do globo, formado de terra e aguas, e coberto por uma
atmosphera, onde dominava a lei da gravitação, que arrastava ao centro
todo e qualquer peso.

Christovam Colombo convenceu-se desta theoria, que com o andar dos
tempos cada vez se lhe arraigou mais no espirito.

Com a leitura dos livros então existentes e dos mappas, bem que confusos
e repletos de muitas falsidades e inexactidões, percebeu que se podia ir
ás Indias directamente, seguindo da Europa para Oeste, e que este
caminho era mais certo, curto e commodo que o de dobrar o Cabo das
Tormentas, baptisado com o nome de Boa Esperança, por D. João II, na
ponta sul da Africa.

Não tinha Marco Paulo collocado o Cathay ou China na costa, e bem assim
as ilhas de Cypango ou Japão, de que fallara um seculo antes? Não
ficavam assim esses paizes fronteiros á Europa e á Africa Occidental?

As cartas e mappas de então apresentavam a Asia como mais extensa para o
lado da Europa, e o globo menor do que é na realidade.

Os arabes, entendidos mestres de geographia e astronomia, adoptavam
estas theorias erradas. Ellas, todavia, mais animavam, excitavam e
firmavam a idéa de Colombo, que calculava não exceder a distancia do
Atlantico de duas a tres mil milhas maritimas; tendo, além disto, ouvido
em suas viagens aos Açores, á Madeira e ás Costas Africanas, contarem
marinheiros e pilotos, que as vezes se encontravam madeiras e arvores
lavradas, que na Europa não existiam; e que nos Açores haviam apparecido
naufragados, cadaveres de dous homens de organisação physica diversa da
Europa, cada vez mais robustecia-se seu intento de procurar as Indias,
atravessando o Atlantico e seguindo para o Occidente.

Não era Colombo como navegante superior a alguns pilotos que desde D.
Henrique trilhavam arrojadamente os mares e commettiam grandes e
façanhosas emprezas; não sobrepujava a um Gil Eannes e nem a um
Bartholomeu Dias, quer na intrepidez, e quer na firmeza e tenacidade de
animo.

Como sábio, não excedia tambem nem a Jayme de Malhorca, nem a Behaim,
geographos eminentes da epoca e empregados em Portugal, e menos ainda ao
Infante D. Henrique, cujos conhecimentos mathematicos conseguiram-lhe
justa nomeada no mundo, e proporcionaram-lhe a felicidade de executar e
fazer executar sublimes emprehendimentos.

Atirava-se, porém, Colombo á emprezas com uma certa allucinação,
proveniente de profundissima convicção.

Imaginava-as por si espontaneamente e fazia-se seu proprio executor. É
nisto que fundava a superioridade sobre seus contemporaneos.

Propoz-se então Colombo a D. João II para emprehender uma viagem
directamente ás Indias sem que torneasse a Africa. Para que pensar em
dobrar o Cabo da Boa Esperança? Não estavam alli defronte de
Portugal as Indias com a China e o Japão? Mais depressa e menos
perigosamente se não chegaria lá?

Convocou D. João II a conselho seus mais reputados sabios. Entre elles
figuravam dous judeus, mestre José e mestre Rodrigo, famosos
cosmographos. Opinou o conselho que mais annos menos annos se dobraria a
Africa, e se navegaria seguro para as Indias, e que assim continuasse
El-Rei nos seus planos anteriores; que si não era sonho de Colombo a
viagem directa ao Oeste, por desconhecida se não devia tentar, parecendo
fructo da imaginação mais que da sciencia humana.

Indeferiu D. João II, portanto, a proposta de Colombo, que queria navios
tripolados e garantias de honras e lucros para o caso de sahir-se bem da
empreza.

Desesperado e já então viuvo porque lhe fallecera a mulher portugueza,
abandonou Colombo a terra, á que servia. No correr do anno de 1485 ou já
era 1486 seguiu viagem para Genova.



SEGUNDA CONFERENCIA

31 de maio de 1891


Suspendemos a primeira conferencia effectuada á respeito de Christovam
Colombo e do descobrimento da America, ao referir o despeito que
assaltara á aquelle famoso navegante quando soube que fôra recusado por
D. João II seu projecto de viagem directa ás Indias pelo Atlantico,
seguindo rumo de Oeste.

Disse-vos já que partira de Portugal e dirigira-se para Genova.
Amargurava-se porque desde o principio do seculo era Portugal a unica
nação da Europa, que se entregava á empreza audaz de descobrimentos de
terras novas e desconhecidas; e pois lhe parecia difficil encontrar,
outra que ousasse devassar e curvar os mares e arrancar de seu seio
continentes ignorados.

Não era alli que se apuravam então os conhecimentos geographicos, que se
desfaziam tradições e legendas pavorosas do mar tormentoso da Africa, em
que a edade média acreditava; que mostrara enfim que era fabula a
existencia de monstros marinhos recontados por Endrisi,--de estrellas
luzentes, por Rogerio Bacon,--do cahos impenetravel nas proximidades da
linha segundo Albi,--de basiliscos descriptos por Averrhoes,--de
gigantes, serêas com rabos, pigmêos com olhos nos hombros e de mil
outras ficções extravagantes, devidas á imaginação dos Arabes, que assim
pintando o Atlantico affastavam os espiritos de ousadias de affrontal-o?

Chegado a Genova, convencido sempre Colombo da exequibilidade de seus
planos maritimos, tratou de obter do governo da republica meios para
executal-os, e navios para emprehender a viagem projectada em seu
espirito, affiançando ao estado grandiosas vantagens e glorias
immarcessiveis. Decorria então o anno de 1486, e portanto quando já
bastantes progressos e adiantamentos haviam os portuguezes conseguido,
quer na arte de navegar, quer no emprego á bordo do astrolabio e do
quadrante, que, no reinado de D. João II, juntos á agulha, unica
empregada no tempo de D. Henrique de Vizeu, facilitavam agora as
emprezas de atirar-se aos mares, abandonar as costas terrestres,
podendo-se já, em grandes distancias, reconhecer e tomar as alturas e
ficar-se certo da posição maritima.

Com razão escolhia Colombo a Genova por ser sua patria, no intuito de
dar-lhe as honras do descobrimento das Indias, que convinha effectuar-se
quanto antes pois que os portuguezes proseguiam na sua rota, e com suas
diligencias mais tarde ou cedo encontrariam o Indostão e as Indias
proximas ao Mar Vermelho e ao golfo Persico.

Genova, porém, estava decadente, bem como Veneza, e todas as demais
republicas maritimas da Italia, que tanto poderio e commercio haviam
exercido na edade média, aproveitando-se da fraqueza do imperio grego de
Constantinopla. Trancavam-lhes agora as relações mercantis os Turcos,
senhores do mar Negro, do Bosphoro, e da Syria. Genova não se achava
habilitada, portanto, para assentir-lhe ás propostas.

Dissemos que Genova era sua patria. Foi elle sempre em sua vida
considerado Genovez quer em Portugal quer depois em Hespanha. Todos os
escriptores coevos o affirmavam. Depois de morto, porém, como adquirira
e legara um nome glorioso e immortal, diversos povos, em escriptos a
respeito, tentaram chamal-o seu compatriota: até o Diccionario Larousse
o faz nascer na Saboia! Para esclarecer a questão de um modo terminante,
e provar-se claramente que em Genova e dentro da cidade nascera, e de
familia pobre alli residente, publicou-se em Hespanha, no seculo actual,
seu testamento datado de 1498, e bem assim os processos que contra a
corôa hespanhola e contra seus herdeiros hespanhoes haviam promovido
varios fidalgos e familias italianas, que pretendiam ser
reconhecidos seus parentes e herdeiros em falta de linha directa;
publicaram-se egualmente em Genova, nos nossos dias, umas linhas
escriptas por Colombo, no anno de 1506, dias antes de fallecer, na
pagina branca de um breviario, que existe ainda na bibliotheca Corsini
de Roma.

Duas vezes no testamento falla Colombo de sua patria Genova, em uma
verba legando uma pensão á qualquer membro de sua familia alli
residente, casado e pobre; e exigindo expressamente em outra verba que
seus descendentes amassem e venerassem a cidade de Genova, porque em
Genova elle nascera e de lá sahira.

Na nota do breviario citado depara-se egual declaração por elle firmada.

Dos processos, que mencionamos, resulta tambem a prova de que não
pertenciam á sua familia os Colombos de Escaro e nem outros de Piemonte
que reclamavam os titulos com que elle fôra agraciado pelo governo
hespanhol, e que para conseguirem seus fins allegavam falsamente que
elle nascera, uns em Escaro, e outros em Savona.

Por que mostraria Colombo tamanho amor á Genova, si não fosse alli
nascido? Tanto interesse pela republica, onde apenas passara os
primeiros annos da mocidade, e que, como Portugal, lhe recusara os meios
de ganhar a gloria? Não pulsava-lhe o coração com os impetos do
patriotismo?

Já vos declarei que se ignoram os feitos de sua vida até á edade de 35
annos, quando á Portugal chegara e lá se estabelecera. Uns escriptores
fallam de suas navegações á bordo de navios, sob as ordens do Duque de
Anjou, que pretendia apoderar-se de Napoles; outros referem combates
maritimos em que elle entrou contra armadas Venezianas; minuciam os
francezes o nome de um Colombo que servira em suas náos de guerra.

Nada, porém, se demonstra com esses ditos. Não podiam haver outros
Colombos? Não enganaria o nome ou o appellido?

O que se sabe de certo no tocante á vida de Colombo começa só da chegada
delle á Lisboa, em 1470. Nem mesmo se póde fixar a data do seu
nascimento, por ausencia completa de elementos comprobatorios.

Não esmoreceu Colombo com o indeferimento de Genova; continuou cada vez
a convencer-se mais da exequibilidade de seus planos, com as
correspondencias que então estreitou com um eruditissimo geographo de
Florença, chamado Toscanelli. As cartas de Toscanelli animavam-no
resolutamente á não recuar delles. Enviava-lhe, para fortalecer seus
designios, livros, escriptos, esclarecimentos e mappas, dos quaes
resultava a idéa de que a Asia estava fronteira á Europa; os mares que
as separavam, não comprehendiam distancia maior de duas á tres mil
leguas, e continham em seu seio as ilhas de Cypango ou Japão, e banhavam
a costa da China, que Marco Paulo visitara, e estudara, seguindo por
terra pela Armenia e Persia; declarava-lhe ainda Toscanelli que o
Indostão não era tão opulento e rico como o Cathay e Cypango, e o
Indostão é que deviam os portuguezes encontrar, logo que dobrassem o
Cabo ultimo da Africa, e seguissem rumo do Oriente.

Dizem sem o menor fundamento alguns escriptores que Colombo se
offerecera tambem á Veneza e á Inglaterra: nada consta dos arquivos de
Veneza que o comprove, e, de certo, alli se encontraria qualquer indicio
ou documento, porque guardavam-se preciosamente quantos esclarecimentos
obtinha a republica sobre factos ainda de muito menor importancia. No
tocante á Inglaterra, escriptores referem que Colombo mandara para lá
seu irmão Bartholomeu propôr-lhe o projecto.

Bartholomeu estava então empregado no serviço de Portugal e acompanhara
a Bartholomeu Dias na viagem e descobrimento do Cabo da Boa-Esperança:
do serviço portuguez sahira para o de Hespanha, quando chamado pelo
irmão, no anno de 1493. Nem um documento apparece que mostre sequer
apparencia de presumpção a semelhante asserto. Não derivaria esta
opinião do dito dirigido por Colombo aos reis de Hespanha, quando pela
primeira vez lhe indeferiram a pretensão, de que procuraria auxilio
de Inglaterra ou França? Mas que se não verificou, porque conseguira
afinal que se aceitassem seus serviços?

Como quer que seja, o que está provado é que, dissuadido Colombo de
servir á Genova, partira para a Andaluzia, no dizer de uma testemunha
que depuzera em processo, a procurar em Huelva um parente mareante que
alli se retirara e com elle entender-se á respeito de seus projectos;
que, passando pelo convento franciscano da Rabida, situado quasi á
margem do rio Tinto, pedira e alcançara agazalho dos monges; que,
conversando com o prior, Juan Perez, captou-lhe as boas graças pela
sciencia que patenteara, versado como tambem era Juan Perez em estudos
cosmographicos.

Resultou da residencia de Colombo no convento da Rabida, que se lhe
affeiçoou Perez, e este, que entretinha boas relações com o confessor da
rainha Isabel de Castella, D. Fernando Talavera, animara Colombo a
partir com cartas suas de recommendação, em que affirmava que seria
gloria para Hespanha coadjuval-o na empreza do descobrimento das
Indias, para que Portugal não monopolisasse a navegação e os louros de
proveitosas conquistas ultramarinas.

Partiu Colombo do convento da Rabida para Cordova, onde se achava então
a rainha, D. Isabel de Castella, occupada em aprestar meios de guerrear
os Arabes e Mouros de Granada.

Para bem se comprehender a somma enorme de trabalhos e paciencia que
Colombo empregou, mister é examinar a situação de Hespanha naquelle
momento.

Isabel herdara a Corôa de Castella, que comprehendia em Hespanha as Duas
Castellas, Leão, Galliza, Asturias, a Extremadura, as provincias
Vascongadas, e a parte occidental da Andaluzia, que se divide de
Portugal pelo rio Guadiana, e a oriental que segue para Murcia e
Valencia. Fernando herdara o Aragão, Catalunha e Napoles, e á força de
armas apoderara-se, depois, da Navarra. Tantos principados, portanto, em
que se dispersara outr'ora a Hespanha christã, formavam agora unidos
tres reinos christãos sómente: Portugal, o Aragão e Castella. Ao lado e
no meio delles conservava-se independente, todavia, o reino Arabe de
Granada, que possuia a melhor parte da Andaluzia com excellentes cidades
e portos maritimos sobre o Mediterraneo, pelos quaes se communicava com
os Mouros da Africa septentrional.

Tinham-se casado Fernando e Isabel, bem que continuassem a governar cada
um separadamente seus reinos e dominios. Fernando era guerreiro,
astucioso e desleal, repleto sobretudo de ambições; Isabel possuia um
excellente coração, qualidades viris, talentos selectos: posto que todos
os actos do governo contivessem os nomes dos dous monarcas e elles
combinassem quasi sempre em vistas politicas, a administração gyrava
independente tanto em Castella como no Aragão.

Zelo religioso e fanatismo exaltado animavam a ambos os soberanos.
Anciavam estabelecer a unidade da fé e da Egreja catholica em todos os
seus dominios: não admittiam divergencias religiosas, e quantos não
fossem orthodoxos deviam ou receber o baptismo ou ser expellidos do
sólo.

Accórdes neste pensamento, deportaram para fóra de Castella e Aragão a
todos os judeus em numero de mais de trezentos mil, os quaes até então
alli viviam á sombra de tolerancia governamental, exerciam officios
proveitosos, praticavam a medicina e cirurgia, mostravam-se distinctos
em varios ramos das sciencias, e das industrias. Perdera muito a
Hespanha com esta barbara e atroz expulsão de uma raça de homens, que
muito concorriam para sua felicidade e engrandecimento. Logo, após, no
desejo sempre de extirpar toda a heresia implantaram em Hespanha a
instituição do Santo Officio da Inquisição, reformada sobre a que o Papa
Innocencio III fundara para exterminar os Albigenses, que se tinham
separado da obediencia devida á Roma. Deram a esse hediondo tribunal
faculdades civis de processar, prender, empregar torturas, condemnar,
queimar em fogueiras todos quantos não obedecessem escrupulosamente aos
mandamentos ecclesiasticos, e não prestassem inteira crença a seus
dogmas; ou faltassem aos deveres mesmo exteriores que a Egreja
impunha e recommendava. Pretenderam, incitados por seus prejuizos
religiosos, que D. João II de Portugal lhes imitasse o exemplo. Este
grande rei, porém, não admittiu a inquisição, e no tocante aos judeus,
até acolheu em Portugal benignamente os que Hespanha expellira, e que
imploraram sua protecção. Durante seu governo ella lhes foi
constantemente dispensada.

Executadas estas medidas, cuidaram os dous reis hespanhóes de repellir
tambem do solo a raça Arabe e Moura que ainda lá viviam, e pois
apromptavam-se em Cordova para uma guerra de exterminio contra Granada,
no intuito de se apoderarem do unico estado Mahometano que ainda durava,
e de empurrarem para a Africa os proselytos do Korão.

Achavam-se, pois, em Cordova, organizando os exercitos que deviam
guerrear os Mouros de Granada, quando ahi chegou Colombo.

O confessor da rainha, D. Fernando Talavera, tomou a Colombo por um
visionario, e quiçá por um aventureiro, e não fez caso das
recommendações do prior João Perez. Pobre e desconhecido, cuidou,
então, Colombo de esperar do tempo melhor exito á suas pretensões, e
para viver dedicou-se a desenhar e traçar mappas geographicos que pela
curiosidade eram já então muito procurados. Conseguiu, após bastantes
mezes, introduzir-se nas sociedades do nuncio do Papa, e do
intendente-mór das finanças de Castella, aos quaes agradou com sua
instrucção scientifica e seu enthusiasmo religioso.

Decorridos alguns mezes, conseguiram os dous personagens apresental-o ao
arcebispo de Toledo, e este á Isabel e á Fernando. A rainha ao ouvil-o
impressionou-se favoravelmente, Fernando, porém, oppoz logo duvidas.
Deliberaram sujeitar, todavia, seus projectos a uma junta ou concilio de
geographos doutos e de professores da universidade de Salamanca, afim de
prestarem consulta. Ordenaram que D. Fernando de Talavera installasse um
concilio em Salamanca, á elle Colombo expuzesse seus planos, e o
concilio formulasse opinião á respeito.

Passaram-se ainda alguns mezes antes que em Salamanca se reunisse o
concilio, composto de bispos, principaes titulares da Egreja, frades
eruditos e lentes da universidade. Foi o local escolhido para funccionar
o concilio o convento de Santo Estevam. Isabel fixou desde logo á
Colombo uma pequena pensão pecuniaria no proposito de auxilial-o.

Nada ha de mais curioso que as actas das sessões do concilio de
Salamanca. Então, e em Hespanha particularmente, a religião estava
ligada á sciencia. Á sombra daquella é que esta caminhava. A religião
dominava pelas consciencias, pelo fanatismo e pelas superstições e
prejuizos da epoca. Os bispos e sacerdotes, ao mesmo tempo que
representantes da Egreja, eram guerreiros, empunhavam armas, cobriam-se
de capacetes para as guerras contra os Mouros, acompanhavam os reis, e
tomavam parte nos combates. Nos ecclesiasticos estava além disso
concentrada toda a instrucção, toda a sciencia: dahi a importancia que
adquiriram e que lhes abria as portas de todos os altos empregos da
politica, da administração, do ensino nas universidades, e da direcção
dos estudos. Não encontravam rivaes para os cargos publicos sinão em
poucos fidalgos da denominada grandeza hespanhola. Na administração
publica predominava quasi exclusivamente o clero pelo numero e pelo
saber, e era ouvido em todos os assumptos, e até nos de guerra.

Installou-se a veneravel assembléa. Foi introduzido Colombo e começou á
expôr suas idéas e á fundamentar seus projectos. Muitos adormeceram, não
as comprehendendo; outros o consideravam com prevenção, pensando que era
elle um visionario, um allucinado, um impostor aventureiro. Os mais
eruditos tomaram-no até por herege em doutrinas religiosas. Não lhe
faltaram immediatamente contestações e contrariedades, e ellas eram
extrahidas quasi sempre dos livros sagrados, das noções canonicas, dos
axiomas theologicos, das crenças inherentes ao culto e á consciencia!

Colombo fundava sua theoria na redondeza do globo, que tinha a fórma
espherica, e que, dividido em terras e aguas de mares e rios, e
circumdado pela atmosphera celeste, sustentava e cumpria a lei physica
da gravitação attrahindo ao centro o menor peso. Esta theoria, que já
haviam apregoado philosophos Gregos e Romanos, e afamados geographos e
astronomos Arabes, não era em toda a Europa adoptada porque a edade
média influenciava-se com as interpretações e lettra da Biblia, e com as
doutrinas apregoadas pelos padres doutos da egreja catholica.

Não era nem orthodoxa e nem possivel essa theoria--clamavam os sabios do
concilio de Salamanca.--A Biblia, que é o primeiro dos livros sagrados,
a contradizia. Não se lia nos psalmos que os céos estendiam-se por sobre
a terra como uma pelle ou tenda? Não affirmava S. Paulo que formavam um
tabernaculo? Não estavam accordes neste ponto todos os commentadores e
theologos como S. Basilio, S. Jeronymo, Santo Athanasio, Santo Ambrosio,
S. Gregorio e Santo Agostinho? Não podia a terra ser sinão rasa, coberta
pela atmosphera ou céos. Admittida a theoria de que era redonda,
dahi resultava logo a da existencia de antipodas que lhes parecia
extravagante. A theoria de Colombo não passava de erros, em que viveram
alguns intitulados philosophos da antiguidade Grega e Romana, erros
demonstrados pela religião christã, que representava toda a verdadeira
sciencia.

Citavam em seu apoio os seguintes trexos das obras de Santo Agostinho:

«--A doutrina de antipodas--dizia o lumiar da Egreja--é incompativel com
os fundamentos historicos da nossa fé. Dizer que ha terras habitadas da
outra parte do globo, equivale a dizer que ha nações que não descendem
de Adão, pois é impossivel que passassem o oceano intermediario.
Equivale a negar a Biblia, que declara expressamente que todos os homens
derivam de um só pai.»

Referiam ainda a passagem extrahida dos escriptos do grande theologo
Lactancio, que assim se exprimia:

«--Ha absurdo maior que acreditar que existem antipodas tendo os pés em
opposição aos nossos? Pessoas que andam com os tacões para o ar e a
cabeça para baixo? Que haja logares no mundo, em que tudo é ás avessas,
as arvores estendem para baixo seus ramos, e chove e neva de baixo para
cima? A ideia da redondeza da terra deu nascimento á fabula dos
antipodas, com os pés para o ar. Cahidos os philosophos pagãos nessa
crença extravagante, de absurdos passam a absurdos, e para defender uns,
inventam outros.»

Nada ha que estranhar nessas ideias. As sciencias dos antigos Gregos e
Romanos haviam sido esquecidas com o desmoronamento do imperio de Roma,
com a invasão e victorias dos barbaros do seculo IV em diante, que
avassallaram toda a Europa Occidental e cobriram o mundo de trevas. O
Christianismo foi semeando nova luz sobre esse cahos formado pelos
Godos, Francos, Slavos, Germanicos, Hunos e Lombardos. Mas o
Christianismo ia esclarecendo o mundo sob a influencia de superstições,
prejuizos e fanatismos. A sciencia desenvolvia-se quasi exclusivamente
na egreja e nos claustros e impressionava-se, portanto, de espirito
devoto e fanatico. Nessa atmosphera é que progrediu, e dahi a ignorancia
de muitas verdades que a antiguidade pagã propagara pelos Aristoteles,
Platões, Plinios e mais escriptores, que os Gregos do imperio de
Constantinopla, christãos separados, conservavam, e que eram egualmente
adoptadas pelos Arabes que em seu tempo foram os mais instruidos dos povos.

Com os descobrimentos, com os estudos cosmographicos, com os progressos
da astronomia e da nautica, que Portugal conseguira, que o principe D.
Henrique de Vizeu favoneara, era corrente entre os eruditos Portuguezes
a theoria da redondeza da terra. Alguns Allemães e Italianos que tinham
travado relações com os pilotos portuguezes, ou que se applicaram a
estudos serios nos seus gabinetes, admittiam-na tambem, e alguns globos
que já se fabricavam, bem que informes e errados, apresentavam a terra
sob a fórma espherica. Hespanha porém nunca se aventurara á
descobrimentos de terras, nunca se entregara á estudos geographicos;
combatera sempre e constantemente em terra, mostrando-se heroica nação,
na gloriosa luta contra os Arabes e Mouros que se haviam assenhoreado do
seu solo, e o dominaram sete á oito seculos, até que foram de todo
repulsados da peninsula Iberica. A marinha que até então Hespanha
contava era essencialmente costeira.

Fernando de Aragão conseguira formar, todavia, na Catalunha, pequenas
esquadras com que vigiava suas costas contra Mouros, continha o estado
subjugado de Napoles, e encommodava os Bereberes das costas visinhas da
Africa.

Não é, pois, para espantar-nos a relutancia dos sabios hespanhóes contra
a doutrina da redondeza da terra.

Não se contentaram os membros do concilio de Salamanca, apoiados nas
doutrinas da Egreja Catholica e nos livros dos Prophetas e dos santos
padres do Christianismo, rebatendo a possibilidade de ser a terra redonda.

A redondeza da terra admittida,--perguntavam elles a Colombo,--como
depois de descer de um lado podia-se subir voltando por esse ou pelo
outro lado? Nem mesmo os mais propicios ventos conseguiriam prestar
forças para se caminhar para cima. Não era sabido que havia zonas
torridas inhabitaveis e que só a temperada, que era a septentrional,
estava adaptada á moradia dos homens? Dentro da zona torrida não existia
o cahos? Quem lá fosse poderia voltar? Admittida a hypothese da
possibilidade, quantos annos seriam precisos para atravessar os mares, e
como levar mantimentos e agua para sustentarem-se os aventureiros?

A todas estas argucias, erros e prejuizos, derivados da ignorancia e do
pedantismo, respondia Colombo com calma e sabedoria, protestando sempre
que era conscienciosamente catholico, e pela religião christã estava
disposto a morrer. Muitos dias duraram as sessões, e as actas
transcrevem todos os seus incidentes e debates, até que o concilio as
suspendeu, protestando cansaço.

No entanto continuavam os reis hispanicos a combater o reino de Granada,
atacando-o por varios pontos e lados, e a pouco e pouco
conquistando-lhe territorios, castellos, praças e cidades, que
incorporavam logo em seus Estados.

Voltou Colombo para Cordova, e esperou a decisão dos monarcas.
Acompanhava-os á guerra, coadjuvava-os com seu braço e com seu valor;
esforçava-se em ser-lhes util para lhes ser agradavel; e não perdia
occasião de patentear á rainha seus enthusiasmos religiosos e seus
sentimentos catholicos, no intuito de assim affeiçoar-lhe a sympathia e
ganhar-lhe a protecção.

Depois de mais de um anno decorrido teve Colombo resposta de que, em
presença da opinião e consulta do concilio de Salamanca, não se
acceitavam seus projectos.

Acabrunhado deixou a Côrte, e seguiu caminho do convento da Rabida, onde
de novo recebeu benigno acolhimento do prior Juan Perez.

Sentiu-se o prior offendido, e tratou de chamar amigos para ouvirem a
Colombo e combinarem em qualquer alvitre: um medico illustrado e um
navegante rico de Palos, Martim Pinzon, chefe de importante e numerosa
familia, formaram com elle e Colombo a sociedade em que se
discutiram os projectos e theorias do geographo.

Pinzon que era instruido, e o medico intelligente, convenceram-se, tanto
como o prior, de que o plano de Colombo era exequivel, e daria grandes
proveitos, riquezas e gloria á Hespanha. Resolveram que se tentassem
ainda esforços com os reis de Hespanha para acudirem ao pedido de
Colombo. Partiu um emissario com cartas para varios personagens
eminentes, rogando-lhes a intervenção.

Bem succedidas foram as endereçadas ao Duque de Medina Celi e ao
arcebispo de Toledo: conseguiram estes personagens importantes que
Isabel mandasse de novo chamar Colombo á sua Côrte.

Partiu Colombo ao encontro dos monarcas que estavam em Santa Fé, cidade
improvisada na Veiga de Granada, junto á capital dos Abencerrages, e
destinada á combatel-a, apertando-a em cerco. Corria o anno de 1491.

A guerra absorvia os cuidados de Isabel: era ella a protectora de
Colombo, porque Fernando considerava sua idéa de utopia: a guerra
foi ainda causa de que nada por emquanto se decidisse. Por fim cahiu
Granada em poder de Castella: assistiu Colombo á scena da entrega das
chaves do Alhambra e da cidade, da expulsão e desterro para a Africa dos
reis Mouros e de quantos subditos seus se não prestaram a ser baptisados
christãos. Presenciou tambem a entrada de Fernando e Isabel dentro dos
muros da famosa capital que teve de derribar os crescentes Mahometanos
das mesquitas e edificios, e erguer em seu logar a Cruz de Christo
victoriosa e ufana.

Nada de decisão todavia á respeito dos projectos de Colombo, e já se
entrava no anno de 1492. Desanimado com tantas demoras resolveu elle
partir, e inesperadamente, de Granada, decidido a procurar outros
governos, que lhe comprehendessem as ideias e as coadjuvassem.

Fallava em França e em Inglaterra, como apoios que lhe restavam, e d'ahi
provém sem duvida a asserção de que elle se offerecera á Inglaterra para
conseguir seus designios.

Bem não havia deixado a côrte quando o Duque de Medina Celi e a Marqueza
de Moya obtiveram que Isabel o ouvisse de novo. Não estava a Rainha
vencedora de inimigos Mouros? Não estava delles liberta toda a Hespanha?
Não havia o Papa applaudido a sua empreza e concedido aos monarcas
hespanhoes o titulo de reis catholicos? Augmentasse ella seus louros
gloriosos, tentando emprezas maritimas, aproveitando os talentos de
Colombo, engrandecendo a Hespanha com conquistas ultramarinas, e abrindo
á Europa o caminho das Indias.

Mandou-se procurar Colombo, que partira no proposito de abandonar a
Hespanha. Regressou Colombo para Santa-Fé, e ordenou a Rainha se
lavrasse contracto na conformidade do seu pedido.

É singular o contracto: tem data de 17 de abril de 1492, escripto e
assignado em Santa-Fé. Declarando Fernando que não concorria para elle,
Isabel tomou todas as despezas á sua conta e conta exclusiva de
Castella, sem que o Aragão participasse.

Dizia no 1.º § que Colombo teria para si durante sua vida o cargo de
almirante nas terras que descobrisse e conquistasse; 2.º que seria
vice-rei e governador, podendo designar tres pessoas á Rainha para ella
escolher o que interinamente o substituisse; 3.º que poderia entrar com
um oitavo das despezas do armamento e navios; neste caso lhe caberia
mais um oitavo dos beneficios; 4.º que Colombo e seus herdeiros teriam
direito a um decimo de todas as pedras preciosas, metaes, perolas,
prata, ouro, especiarias e mercadorias; 5.º que á Corôa de Castella
pertenceriam exclusivamente os dominios das terras achadas e
conquistadas e suas respectivas rendas e beneficios; 6.º que Colombo e
seus descendentes, logo que houvessem conseguido descobrimentos de
terras, poderiam usar do titulo e honras de Dom, o que em Hespanha
significava então fidalguia da primeira plana.

Logo que celebrou-se o contracto, a piedosa Rainha ordenou que se
entregassem á Colombo duas caravellas armadas e tripoladas
convenientemente, confiando-lhe sua absoluta direcção, e pagando a Corôa
os soldos e vencimentos dos officiaes, pilotos, empregados e marinhagem.
Partiu Colombo radioso para Palos, porto designado para seu embarque, e
levou comsigo as ordens régias necessarias afim de que as cumprissem as
autoridades, alcaides, corregedores, e empregados civis e militares.

Ganhara emfim o premio de cinco annos de trabalhos, desesperos, mofas,
zombarias, com a paciencia, a resignação, o talento e a pertinacia nos
designios, que lhe assoberbavam o animo.

Era Palos um pequeno porto á margem do rio Tinto, quasi em sua juncção
com o rio Odiel; apenas reunidos ambos lançam-se no mar, ao occidente de
Cadix e quasi nas proximidades da Andaluzia com a provincia portugueza
do Algarve. Porto naquella epoca frequentado por mercantes, e abastado
de navios e marinheiros, que se entregavam ao commercio e á navegação
costeira do Mediterraneo. Hoje acha-se inteiramente decahido e
despovoado, porque os moradores transferiram-se para o de Muguer,
mais acima no rio e mais apropriado ás necessidades da povoação e ás
exigencias da vida maritima. Palos ficava perto do convento da Rabida, e
era a patria dos Pinzons, familia poderosa, que alli residia.

Pensaes acaso que custou caro á Corôa de Castella o favor feito á
Colombo? Nem um sacrificio, nem o das duas caravellas. Teve apenas que
pagar soldadas aos marinheiros e empregados. Havia o povo de Palos
commettido, no anno anterior, um motim, um alvoroto contra as
autoridades. Foi pela Rainha Isabel condemnado a dar as duas caravellas
e toda a tripolação, commutada nisto a pena maior a que estava sujeito.

Comprehendereis agora, minhas senhoras e senhores, quantas difficuldades
e talvez perigos ameaçavam ainda á Colombo e á sua empreza! Enfureceu-se
a povoação de Palos ao ler o Alcaide, com todas as formalidades da lei,
e no adro da egreja, a ordem régia, a sentença comminatoria e decisiva
da Corôa. Quasi que houve segundo motim. Foi preciso que o prior João
Perez viesse acalmal-o com conselhos e exhortações religiosas; que
chegasse força armada de Sevilha com corregedores á frente; que Martim
Pinzon empregasse toda a sua influencia, propondo-se á dar uma terceira
caravella de sociedade com Colombo afim de perfazer-se oitava parte das
despezas da empreza, compromettendo-se tambem a acompanhal-o com seu
irmão Vicente na navegação projectada, e provando assim que ninguem se
devia temer e assustar diante da viagem projectada.

Não empregassem as autoridades o arbitrio e a força, violentando os
povos de Palos, que nada ainda se conseguiria. Uma caravella, a maior,
que Colombo denominou _Santa Maria_, de pouco mais de 100 toneladas de
carga, de convez corrido, castellos na pôpa e na prôa, dous mastros com
velas redondas e latinas, foi arrancada á força a seus donos; a outra,
de 80 toneladas, chamada a _Pinta_, custou rateio aos moradores,
lançando-se-lhes uma derrama segundo suas posses, e executando-se a pena
incontinente sem aggravo nem appellação. Pinzon prestou uma menor,
que recebeu o titulo de _Nina_. Estas duas ultimas não tinham
convez, eram abertas no centro, com accommodações na pôpa e prôa para os
mareantes.

Imaginae que embarcações eram! Superiores lhes são de certo as actuaes
sumacas costeiras, os pequenos brigues e escunas de cabotagem de nossos
mares interiores e de nossos rios. Não é que faltassem então navios
maiores, mas Colombo preferiu os pequenos, afim de poder approximar-se
das costas, que exigiriam talvez menor calado de quilha.

Complicaram-se ainda as difficuldades para o calafeto, apparelhos e
viveres, e para o recrutamento forçado da marinhagem. Fugiam todos, e
foi necessaria uma verdadeira caçada de homens, que se prenderam, e
presos trabalhavam diante de tropas que os vigiavam, empregando castigos
rigorosos nos recalcitrantes.

A povoação lamentava-se, estremecia, chorava, porque acreditava a viagem
uma loucura perigosa para fins desconhecidos, uma perda total dos
navios e morte certa dos mareantes, entre os quaes se incluiam numerosos
parentes e amigos, obrigados á acompanhar Colombo.

Completou-se por fim a tarefa. Colombo confessou-se com o prior, os
empregados e marinheiros com padres particulares. Colombo embarcou-se na
_Santa Maria_, e dous dos Pinzons tomaram o commando das duas caravellas
mais pequenas, levando todas cerca de 140 homens de tripolação.
Soltaram-se as velas no dia 3 de agosto de 1492, e levantadas as
ancoras, foram as embarcações descendo vagarosamente o rio e penetrando
no mar que proximo e bem perto ahi roncava, emquanto que lagrimas e
maldições dos povos de Palos continuavam a mal agourar a viagem.



TERCEIRA CONFERENCIA

14 de junho de 1891


Commandando finalmente tres miseraveis caravellas, affronta Colombo
ousadamente as vagas do mar Atlantico em procura das Indias, dessas
maravilhosas Indias que elle só conhecia pelos livros errados e mappas
defeituosos, que a apresentavam e collocavam defronte da Europa e da
Africa, terminadas nas costas do Cathay ou China, e nas ilhas do Cypango
ou Japão. Na sua convicção, na sua crença profunda, na sua fé, as Indias
não estavam muito longe de Marrocos e de Portugal, separava-se apenas o
Oceano Atlantico, e a ellas se podia chegar directamente pelo rumo de
oeste.

Velas ao largo, ventos mais ou menos favoraveis, mais ou menos
ligeiramente agitadas navegavam as caravellas, engolfando-se no oceano,
rumando ao principio ao SO. á procurar as Canarias, situadas á cerca de
27 gráos de latitude, e que lhes deviam servir de ponto intermediario da
viagem. Não lhe ensinavam o caminho os mappas geographicos, os
esclarecimentos do seu amigo Toscanelli de Florença, e bem assim o globo
ultimamente publicado e attribuido ao mestre Behaim, de Nuremberg, que
elle conhecera quando em serviço de Portugal?

Não figuravam todos esses documentos o Japão ou Cypango na mesma
latitude, pouco mais ou menos, das Canarias, e, na mesma longitude,
pouco mais ou menos, em que depois foi encontrada a Florida?

Ao largar do porto de Palos, abriu Colombo um livro em branco, e
denominou-o jornal de sua viagem. Dedicou-o aos reis da Hespanha.
Conserva-se ainda nos archivos da Corôa este precioso documento, e foi
publicado no seculo presente, pelo celebrisado geographo Navarrete
em sua interessante collecção de viagens. Escrevia nelle Colombo dia por
dia e minuciosamente os successos da sua derrota, desde o momento de
deixar a barra denominada de Saltes. Com uma introducção pomposa, assim
começa:

--_In Nomine Domini Nostri Jesus Christi_--Encarregado pelos muito
altos, poderosos e excellentes reis da Hespanha, etc.--de descobrir os
paizes e habitantes das terras das Indias e um Principe poderoso chamado
o Grão-Kan da Tartaria, etc.--afim de convertel-os á nossa santa
Religião Catholica, Apostolica, Romana--parti de Palos a 3 de agosto de
1492, etc. Cada noite escreverei neste livro tudo quanto se passar
durante o dia.--

Devemos, pois, dar todo o credito a estas notas, e assentar sobre ellas
nossas observações de preferencia ao que referem muitos escriptores,
que, para agradarem ao publico, inventaram episodios que se não
encontram no jornal de Colombo e nem se provam documentalmente. Não
fallo só dos escriptores contemporaneos de Colombo como Oviédo, Las
Casas, Pedro Martyr, Cura de Palacios: refiro-me tambem aos posteros
como Herrera, e Garscilaso, e até aos mais modernos como Benzoni, Munoz,
Robertson, Prescott e Irving.

Tratou o chefe da pequena frota de captar desde logo a confiança e a
estima dos subordinados, de impôr-lhes respeito, e ao mesmo tempo de
embeber-lhes no animo a crença de que se não navegava a esmo e sem
destino certo, mas que se caminhava direito para as ilhas do Japão
encostadas ás Indias e fronteiras ás Canarias. Visto que elle expunha
sua vida, que lhe devia ser preciosa, não tivessem os companheiros
receio de entregar-se á sua direcção. Encontrou felizmente auxiliar de
immenso valor e influencia em Martim Pinzon, que efficazmente o
coadjuvou nos mais difficultosos transes e perigos da viagem, e que era
muito venerado pela maioria da equipagem, pertencente ao porto de Palos.

Ao correr o terceiro dia de viagem o leme da _Pinta_ desconjuntou-se, e
trabalho insano exigiu para se concertar no meio do mar, mais ou
menos açoitado pelos ventos. Demorada foi, por isso, a viagem até ás
Canarias, e tornou-se necessario moderar e equilibrar a carreira dos
navios para que dia e noite navegassem proximos e á vista.

Arribou-se á ilha Gomera; praticaram-se os reparos das caravellas,
refez-se a aguada, carregou-se lenha e conseguiram-se algumas provisões.
Continuou-se a viagem, e agora rumo directo de oeste, entranhando-se em
mares não devassados ainda nem pelos Portuguezes, que se achegavam ás
costas africanas para as correrem para o sul, e descobrir-lhes os portos
e ancoradouros. As ilhas Canarias, apezar de encontradas pelos
Portuguezes em suas excursões maritimas, e de pretender o Duque de Viseu
consideral-as por isso de seu dominio, Portugal foi compellido á
reconhecel-as propriedades de Hespanha porque navegantes hespanhóes as
tinham descoberto antes dos Portuguezes, e dellas tomado posse em nome
da Corôa de Castella.

Que sustos assaltaram as tripolações ao passarem pela ilha de Tenerife
no momento em que do seu pico saltavam flammas de fogo, que
illuminavam a atmosphera! Era para elles novo o espectaculo de uma
erupção volcanica, e custou bastante á Colombo explicar-lhes a natureza
de phenomeno natural, citando-lhes os exemplos do Etna na Sicilia e do
Vesuvio em Napoles.

Iam desapparecendo os dias e as noites, andando-se sempre, e nem um
signal de terra! Ás vezes calmarias detinham a marcha dos navios,
batendo nos mastros as velas inertes, e soffriam mais que nunca os
mareantes incommodos dos balanços descompassados dos navios sobre as
aguas aliás tranquillas do oceano!

Adiante caminhava sempre a _Pinta_ por mais veleira, sustendo de quando
em quando a marcha para não separar-se das caravellas companheiras.
Tinha-se percorrido cerca de duzentas leguas, e apenas se encontrara
boiando sobre as aguas um pedaço de mastro de navio! Começavam já a
assustar-se os marinheiros, apezar de recontar-lhes sempre Colombo, que
na distancia de setecentas leguas das Canarias estavam os opulentos
portos e cidades riquissimas do Japão e da China, e ahi se encontrariam
thesouros que compensariam os trabalhos! Quantos espiritos começaram
entretanto a prostrar-se! Teriam dito adeus ao mundo que deixavam atrás
de si? Não veriam mais os compatriotas, os amigos, as familias, o torrão
natal, tudo que o homem mais preza e estima em vida! Diante o cahos, o
mysterio, o perigo! Mais de um marinheiro velho chorou, lembrando-se da
patria!

Quatrocentas, quinhentas leguas tinham-se vencido, e nada de terra!

E o que por alguns momentos abalou um tanto tambem á Colombo foi
observar com o cuidado e pericia que elle empregava, que a agulha
variava durante as noites e manhãs. Tres dias meditou observando e
occultando o phenomeno. Perfeita estava a bussola. Seria causa a
estrella polar, que como os demais corpos celestes soffria evoluções e
descrevia cada dia um circulo em derredor do polo? Assim o declara em
seu jornal haver conjecturado.

Previdente como era, e adivinhando murmurios da tripolação, havia
formado desde as Canarias dous cadernos de estimativa, um verdadeiro e
exacto para seu uso, e outro para ser a todos aberto e mostrado. Neste
ultimo diminuia diariamente as milhas caminhadas, afim de se não
amedrontarem os marinheiros com as distancias percorridas.

Felizmente que para infiltrar nos animos alguma coragem, alli appareciam
de quando em quando uns monticulos de terra com arbustos balanceados
pelas vagas; acolá esvoaçava um passaro aquatico e tambem uma meia duzia
delles logo depois se mostravam.

O que produzia alguma esperança nos navegantes era a limpidez, a
temperatura da atmosphera, muito menos quente em egual latitude que a
das costas de Africa.

De bordo dos navios fazia-se fogo e matava-se um ou outro dos passaros
volantes; e ás vezes apanhavam-se peixes que serviam de agradavel
repasto.

Em diversas occasiões illudiram-se com aspectos de nuvens accumuladas,
que figuravam terras. Disparavam então em gritos de alegria, entoavam
canticos de agradecimento aos céos! Tombavam de novo nas apprehensões e
sustos ao verificarem o engano. Já claramente se manifestava a decepção
dos animos dos tripolantes; terras não appareciam: os indicios que se
notavam, bem que se succedessem uns após outros, não bastavam para
acredital-as deante de si. Não houve propriamente alvoroto ou revolta,
mas a decepção mostrava-se tão intensa já, que se devia temel-o.
Propalava-se francamente a opinião de que era mister retroceder, afim de
se não perderem todos, homens e caravellas! Colombo quasi não comia e
nem dormia, observando durante toda a noite os astros, relanceando os
olhos pelo firmamento, e procurando descobrir-lhe o termo no mysterio
das aguas!

Uma vez, a 25 de setembro, ao anoitecer, Martim Pinzon gritou da pôpa da
_Pinta_ para as duas caravellas, que tinha avistado terra, e queria
um premio, apontando para o SO. e mostrando uma longa listra preta por
cima dos mares, destacada no fundo do horizonte. Todos proromperam em
vivas! Echoou pelo limpido horizonte e em solemnes saudações o cantico
de _Gloria in excelsis_, acompanhado pelas vozes de toda a equipagem!

Enganadora illusão! Era uma nuvem que no dia seguinte já se não via no
espaço! A aurora desfizera todas as apparencias de terra, bem que
durante a noite para ella, que estava ao SO., se navegasse a pannos
largos, desviando-se do rumo de O. De quando em quando repetiam-se estas
scenas creadas pela imaginação e desejos dos navegantes, e nada de
terra, bem que mais de 700 leguas se tivessem já caminhado pelo oceano,
pensando a tripolação que só 500 devassara. Eis, porém, que começaram a
apparecer passaros de diversas qualidades, e hervas em montes e
parecendo frescas, que concorriam bastante para alliviar os sustos!

Corria a noite de 11 de outubro, e estava Colombo encostado á amurada do
castello da prôa, meditabundo e abatido, como que desanimado,
sentindo apenas rebentar-lhe do peito uma ultima esperança brotada da
profunda convicção, que unica o alimentava.

Mais de oitocentas leguas tinham andado desde a ilha de Gomera. Não dava
o globo attribuido á Behaim posição das ilhas do Cypango ahi por perto,
segundo os livros do viajante terrestre Marco Paulo? A quantidade de
passaros que se encontravam no espaço, a direcção de seus vôos para o
Oeste, não o confirmavam? Por elles se não regulavam os Portuguezes, com
quem aprendera em suas viagens? Não mostravam-se ainda frescas as hervas
e arbustos que apanhavam de sobre as aguas? Peixes verdes, só proprios
de rochedos, não se colhiam aos anzóes? No estendido horizonte, ao som
monotono das ondas rebentando nos flancos dos navios, não adivinhavam
seus olhos alguma cousa extraordinaria?

Davam 10 horas quando elle como que deslumbrou em frente uma luzinha,
que se movia. Navio não podia ser. Não o havia naquellas paragens.
Temendo illudir-se chamou um piloto e mostrou-a. Confirmou-lhe o piloto
que era luz. Chamou outro, que foi da mesma opinião. A luz ora
desapparecia, ora manifestava-se quasi claramente. Colombo ordenou que a
marcha fosse parallela e não em direitura á luz, para melhor se
reconhecer a verdade.

Soavam duas horas depois da meia-noite, quando um tiro de peça de bordo
da _Pinta_ estrondou repentinamente. Todos levantaram-se, correram,
subiram, uns aos mastros, treparam outros por sobre as amuradas. Seria
devéras terra? Não equivaleria ainda a uma illusão?

A terra desenhava-se feliz e francamente agora na deanteira dos navios.
Revelara-se o grande mysterio do oceano: estava ganha a gloria para o
navegador intrepido e arrojado!

Podemos imaginar a scena. Que espectaculo sublime apresentou então a
equipagem dessas tres caravellas! Estavam, devéras, deante das Indias?
Haviam-nas descoberto? Ou que terra era esta ao Oeste em tanta distancia
da Europa, em mares desconhecidos e nunca perturbados pelas quilhas
de navios? Mandou Colombo amainar um pouco a carreira das caravellas
afim de ir a pouco e pouco melhor observando.

Na sexta-feira 12 de outubro de 1492, ao romper da alvorada, contemplou
Colombo o Novo Mundo, o mundo que posteriormente foi denominado America!
Que importa que elle pensasse, como sempre pensou, e morreu ainda assim
pensando, que descobrira as ilhas e costas Indiaticas, e não um novo
hemispherio, collocado entre a Europa e a Asia, e correndo de um para
outro polo? Não tinha com o seu genio, com seus estudos e trabalhos,
percebido terras novas defronte da Africa e Europa?

Não fôra elle o primeiro Europeu a seguir esse caminho directo do
Occidente, em vez de procurar outro pelo Cabo da Boa Esperança, dobrado
em 1486 pelos Portuguezes que persistiam em por elle continuar, seguindo
rumo para o Oriente, o que triplicava, quadruplicava a distancia e
duração da viagem? Para Colombo não houve duvida mais, estavam alli as
Indias, e ás terras que descobria foi dando o nome de Indias
Occidentaes, como costas oppostas ao Indostão que os Portuguezes
procuravam.

A terra que via Colombo defronte de si pareceu-lhe uma ilha, não
montanhosa, mas coberta de espessos e altos arvoredos. O aspecto
encantava, e á proporção que os navios se approximavam, foram
apparecendo homens, sahindo dos bosques, e que se collocavam curiosos
nas praias a olhar para as caravellas. A atmosphera diaphana, perfumada,
mais ainda o enchia de contentamento e enthusiasmo.

Lançam-se ao mar as ancoras. Tres chalupas enchem-se de homens armados.
Colombo embarca-se em uma, coberto com um manto encarnado, de espada em
punho e sustentando no outro braço o estandarte real de Castella e
Aragão. Os dous irmãos Pinzons descem para as outras duas. Rema-se para
terra. Os habitantes curiosos fogem para os bosques. Colombo salta:
ajoelha-se, rende Graças a Deus, beija o chão e derrama lagrimas de
alegria! Resoam os ares com canticos a Deus, em córos repetidos. Colombo
estende então a espada, levanta o estandarte, e, rodeado de seus
companheiros, declara a terra de posse e propriedade da rainha de
Castella e do rei de Aragão, e dá-lhe o nome de S. Salvador. Manda pelo
escrivão lavrar termo com todas as formalidades e jura aos Santos
Evangelhos que, na qualidade de almirante e governador em que se
considera desde aquelle instante, obedecerá escrupulosamente ás régias
magestades, que representa como subdito fiel e dedicado.

Todos saudam, applaudem o chefe, proclamam sua autoridade, e juram-lhe
egualmente obediencia.

Os naturaes da terra descoberta, notando a attitude tranquilla dos
invasores, vão perdendo os sustos, de que a principio se tinham
apoderado; sahem á pouco e pouco dos bosques, bem que se mostrem
bastantemente suspeitosos. Homens, mulheres, todos nús, de uma côr de
cobre, cabellos pretos e compridissimos, ás vezes pelo corpo, pelos
narizes e pelo rosto pinturas toscas com tintas differentes: talhe
ordinario e elegante!

Mais se confirma Colombo de que está nas Indias, porque Marco Paulo
dizia que a côr dos Indios não era branca como a dos Europeus, e que na
China, Japão e Tartaria puxava ella mais ou menos para o bronzeado e o
amarello. Como porém estavam nús? Como não via habitações, cidades, taes
e tão ricas como Marco Paulo apregoara?

Dirigiram-se para os gentios signaes de chamada, gestos de caricias,
mostrando-lhes bugigangas de pedrinhas, rosarios de contas, carapuças
coloridas. Posto que exprimindo palavras meigas e amigaveis, não eram
entendidos! Mas a pouco e pouco se foram os gentios approximando,
empunhando lanças pontudas de páo, e sem ceremonia recebendo os
presentes, que se lhes offertavam, e que pareciam alegral-os.

Ao cahir da tarde retiraram-se os hespanhóes para bordo das caravellas;
no dia seguinte viram, antes de desembarcarem de novo, numerosos
gentios nadando á roda dos navios e batendo palmas, como para saudal-os,
e muitos em canôas compridas ou pirogas movidas com remos. Traziam de
terra bolos ou pães de mandioca, que offereceram aos navegantes europeus.

Estavam travadas as relações. Voltaram á terra os hespanhóes. Perceberam
então pequenos ornamentos de ouro, de que os gentios usavam, e que
trocavam por bugigangas, rosarios e carapuças. Colombo prohibiu logo o
trafico do ouro, por pertencer á Corôa por seu contracto.

Perguntou-lhes por signaes onde estava o ouro, e elles apontaram para o
lado do sul. Havia, pois, terras ao sul, e nellas ouro. O ouro era o
principal incentivo dos aventureiros.

No dia 14 reconheceu o almirante, embarcado em uma chalupa, as costas da
ilha, e viu ao pé uma outra pequenina, que hoje se chama Whattling, e
que era a que mostrara-lhe a luz, por elle percebida na noite de 11.
Arvoredo espesso, excellentes aguas, praias faceis, e umas pequenas
aldêas nos bosques.

Tomou o almirante a seu bordo sete gentios, na intenção de ensinar-lhes
castelhano e servirem elles de guias e interpretes. Prestaram-se-lhe de
boa vontade, convidados com caricias.

Deixou a ilha de S. Salvador e seguiu rumo do sul, e o mais lindo
panorama se lhe desdobrou então aos olhos. Numerosissimas ilhas
salpicavam os mares. Penetrava-lhe pelos sentidos um aroma agradavel dos
bosques.

Cada vez mais acreditava Colombo que estava nas Indias, porque Marco
Paulo declarara que o Cypango continha uma enorme quantidade de ilhas,
abundantes de especiarias e arvores odorificas.

Em uma desembarcou, dando-lhe o titulo de Conceição, povoada como S.
Salvador; depois em outra que chamou Fernandina; logo após em uma
terceira, cujo aspecto o inebriou, e por isso lhe poz o nome de Isabel;
o mesmo espectaculo presenciou em todas: estavam cobertas de arvoredos
gigantescos, eram habitadas por gentio manso e tranquillo.

Passando pelo meio dessas ilhas numerosas proseguiu para o Sul, apontado
pelos guias gentios de S. Salvador: chegou a uma terra immensa, e
desembarcou em um excellente porto ao Norte, onde corria um rio copioso,
por cujas aguas foi subindo facilmente.

Maravilhado do esplendor e magnificencia da terra, dos passaros
multicores, das plantas que avistava, dos pinheiros e arvores
fructiferas e desconhecidas pelos Europeus--exclamou:--Eis os Campos
Elyseos! Não será Cypango?--Era a ilha de Cuba que elle descobria, e que
intitulou Joanna, por ser este o nome da Princeza hespanhola filha de
Isabel e Fernando.

Viu maior quantidade de ouro nos ornamentos dos gentios, mas não lhes
entendeu a linguagem; nem o Arabe nem o Chaldeo fallavam! Pelos signaes
com que elles respondiam mostrando-se-lhes ouro, atinou logo que o ouro
vinha do paiz que estava mais ao Oriente. Viveu perfeitamente em paz com
os indigenas de Cuba, e gastou dias em reconhecer parte das suas costas
do Norte. Duvidoso si estava em ilha ou em continente, entendeu
todavia não lhe ser util perder tempo em examinar a terra, preferindo
continuar até que deparasse povos civilisados e ricos, e que por
emquanto não encontrava.

Deixou Cuba portanto, e seguiu rota para o ponto designado pelos gentios
da terra, sempre que se lhe fallava em ouro. Navegou para ESE. No dia 5
de dezembro achou-se defronte da ilha do Haity, que denominou
Hespanhola, e que é tambem conhecida pelo nome de S. Domingos.

Estudemos agora, ainda que succintamente, a geographia e topographia
destas localidades, afim de colhermos maiores esclarecimentos que bem
elucidem as peripecias do descobrimento.

Entre a ponta da Florida aos 25 gráos de latitude Norte e ás bocas do
rio Orinoco aos 9 gráos, estreita-se a terra Americana pelo lado
occidental, e forma então um isthmo, que se estende entre os dous
grandes continentes, abrindo pelo Oriente uma larga bahia chamada das
Antilhas, no fundo da qual ao occidente se escondem golphos
importantes como o do Mexico, de Honduras, de Darien e outros. A bacia
que mais propriamente se appellida mar das Antilhas contém em seu seio
as ilhas de Cuba, Jamaica, Haity; e na parte de Léste onde se confunde
com o Atlantico é toda fechada por uma muralha ou linha quasi symetrica
de ilhas maiores ou menores, chamando-se as situadas ao norte Lucayas,
que pertencem ao grupo septentrional, e as do lado do sul Caraibas. Por
entre as do Norte penetrara Colombo quando descobriu S. Salvador.

Está o Haity quasi aos 20 gráos de latitude Norte. É ahi que Colombo
mais encantos encontrou, e foi a ilha que elle mais amou e sempre
preferiu em sua estima. O clima, o sólo, as florestas, as flôres, os
fructos, a posição, as minas de ouro que desde o principio ouviu dizer
existirem nas montanhas do interior; todas estas circumstancias
affeiçoaram-lhe sympathia particular. Durante sua vida considerou-a como
a ilha de Offir, onde reconta a Biblia que Salomão mandava navios buscar
ouro. Colombo morreu na convicção que era o Haity a ilha indiatica
do Offir.

Tratou logo Colombo de firmar pazes com os gentios, e de fundar ahi o
dominio hespanhol, como em um centro que lhe abrisse as relações para as
Indias quer insulares, quer do continente asiatico, que perto devia
achar-se, segundo seus estudos e calculos.

Mostravam-se os gentios, seus habitadores, amigos e innocentes como os
das outras ilhas que visitara; menos selvagens, todavia, porque
observavam-se entre elles signaes de cultura de algodão, ainda que
agreste, caminhos traçados atravez dos bosques, e aldêas regulares
edificadas.

Com um cacique respeitavel chamado Guanacaguary abriu relações,
presenteou-o, visitou-o, recebeu-o a bordo, e banqueteou-o agradavelmente.

Infelizmente na noite do Natal, descuidos dos officiaes de quarto
deixaram a sua caravella arrastar-se pelas correntes impetuosas das
costas, e ella enterrou-se em areias, de onde os mais diligentes
esforços não puderam arrancal-a. Perdida, naufragada assim a _Santa
Maria_, seus tripolantes desembarcaram parte, e parte com Colombo
transferiram-se para a _Nina_.

Encontrou Colombo em Guanacaguary auxilios para o salvamento de tudo que
havia a bordo do navio naufragado. Cuidou incontinenti de estabelecer
uma fortaleza, a que deu o nome de Natividade; nella depositou algumas
peças de artilharia e gente destinada á guarnecel-a, e dispoz-se a
voltar para a Hespanha, afim de levar noticias de seus descobrimentos e
viagens, e pedir reforço de homens, com que pudesse sustentar e
continuar suas conquistas.

Não queria deixar S. Domingos sem que alli permanecessem hespanhóes como
nucleos de povoações futuras, defendidos pela fortaleza levantada e
ligados em sympathia com os gentios. Convinha impôr a estes estima e
respeito, de modo que quando regressasse de Hespanha para S. Domingos
pudesse livremente proseguir em suas emprezas maritimas.

Muitos marinheiros hespanhóes, agradados do clima e do gentio,
prometteram-lhe ficar em terra. Era uma necessidade imperiosa, porque as
duas caravellas, que sobravam, não podiam conter a equipagem das tres,
que commandara, tanto mais que perdida fôra a maior. Ouviu, pois, com
grande prazer que acceitassem quarenta hespanhóes a proposta de
occuparem a fortaleza, durante sua ausencia, e desde logo devotou-se á
idéa de partida.

Enlevou-se-lhe a imaginação em vôos altanados, em allucinações mysticas,
em projectos extravagantes. Não annunciara no seu jornal de bordo que
Isaias o amparava e impellia para espalhar por todas as partes do mundo
que encontrasse, a Religião do Crucificado? Não estava talvez
predestinado para augmentar a influencia da Egreja Catholica? Não
poderia egualmente arrecadar nos paizes conquistados riquezas taes, que
lhe facilitassem os meios de ir com um exercito poderoso salvar o tumulo
de Jesus Christo, e repôr e firmar em Jerusalém o culto do
verdadeiro Deus? Não era isto para elle um sonho; era um desejo, uma
ancia, uma inspiração do céo, que lhe parecia sorrir como idéa
realizavel, tão pratica e facil como fôra o descobrimento das Indias
Occidentaes. Afim de conseguil-o carecia, porém, de gente, de armas, de
soccorros de Castella, e era seu proposito, regressando á Hespanha,
enthusiasmar os monarcas e povos, e alcançar delles os recursos com que
voltasse habilitado para os mais grandiosos emprehendimentos.

Em Genova estava sua familia carnal, seu berço; Hespanha, porém, agora,
Hespanha que o coadjuvara nos seus heroicos designios tornara-se sua
patria de adopção, e por Hespanha e gloria de Hespanha convinha-lhe
sacrificar-se. Exaltado o espirito, inundava-se de visões; é assim
organizado o genio, inflltra-se-lhe um atomo de loucura, e realiza então
grandes feitos ou meritorios, e extravagantes actos que só brotam do
mysticismo das idéas que o dominam. Aquella atmosphera de Hespanha do
XVI seculo respirava o mysticismo, a allucinação, e não se podia
resistir-lhe. Colombo, que já se deve dizer hespanhol, Ignacio de
Loyola, Santa Thereza de Jesus, e tantos outros engenhos superiores,
perdem-se nessa abstracção de idealidade mystica, de arroubos
espirituaes de singular natureza, dignos entretanto da mais sincera
admiração!

Firme no proposito que amadurecera, fortifica seriamente a Natividade
com sufficiente artilharia; confia o presidio á quarenta homens, aos
quaes nomeia chefes, e deixa-lhes instrucções miudas para viverem bem
com os gentios, recommendações de muita prudencia e paciencia, e
affiança-lhes que voltará breve para o meio delles, trazendo milhares de
companheiros, e premios de preço pelos seus serviços e denodo. Com as
equipagens dos tres navios, se não conseguiriam as grandes emprezas que
agora começam; de Hespanha deverão vir os auxilios de gente para
leval-as ao cabo. Aos que ficam cabe mais honra e mais gloria que aos
que o acompanham na volta para a patria. Alcança assim promessas de
obediencia e trata do seu regresso á Europa.

Aprestadas regular, convenientemente as duas caravellas; carregadas com
pequenas quantidades de algodão, que conseguira; de bastantes plantas
exoticas e aromaticas, papagaios e aves desconhecidas, de colorido
deslumbrante, macacos e uma duzia de gentios que se dispuzeram a
seguil-o; levando tambem a pequena quantidade de ouro em joias e
adereços que recebera dos indigenas; despediu-se Colombo amoravelmente
dos quarenta companheiros que ficavam no forte da Natividade e do
cacique seu amigo, e fez-se de vela, seguindo rumo de NE., tomando o
commando da _Pinta_.

Feliz e quasi tranquilla fôra a viagem para as Indias; a volta, porém,
para Hespanha tornou-se lenta, trabalhada e perigosa. Mais ao norte
dirigindo-se, encontraram-se mares bravios, romperam grandes temporaes e
as duas pequenas caravellas por vezes sossobraram no meio das aguas do
Atlantico, batidas e inundadas pelas vagas furiosas. Quantas vezes
anteviu Colombo perdido todo o seu trabalho! E que dôr o assoberbava,
lembrando-se de que outro não descobriria esse caminho das Indias,
que elle conquistara com seu arrojo e fé, caso morresse nos mares e com
elle seus companheiros, sem que á Hespanha chegassem noticias! Que
pericia não lhe foi preciso applicar ao governo dos navios, que coragem
mostrar para animar as equipagens estafadas e desesperadas! Quantas
promessas á Virgem Santissima, aos santos predilectos, caso se salvassem!

Avistaram felizmente a ilha de Santa Maria, no archipelago dos Açores,
depois de andarem muitos dias á matroca as duas caravellas, entregues ás
correntes do oceano, impellidas para onde os ventos as empurravam, sem
poderem usar das velas, porque seria um perigo, nem tomar alturas por
falta de sol e de estrellas; coberto sempre o céo de negras nuvens!

Com difficuldades obteve Colombo que as autoridades portuguezas da ilha
lhe consentissem concertos nas caravellas e lhe prestassem alguns
soccorros de viveres. Ao deixar Santa Maria, nova tempestade irrompeu, e
tão impetuosa, que separaram-se de uma vez a _Pinta_ e a _Nina_.
Colombo tratou por seu lado de procurar abrigo na primeira costa, e
avistando as montanhas de Cintra, penetrou no Tejo com o seu navio,
emquanto que a _Nina_ commandada por Martim Pinzon, atirada mais para o
Norte, seguia rumo differente.

Que espanto o da população de Lisboa ao avistar a caravella de Colombo
apparecer á barra, subir o Tejo, fundear defronte de Belém, e, visitada,
obter informações de que Colombo descobrira as Indias pelo Occidente!

D. João II mandou-o ir logo á sua presença, interrogou-o, ouviu-o
attentamente e louvou-lhe a façanha em termos lisonjeiros e agradaveis,
não manifestando a menor decepção ou despeito, acolhendo-o antes com
cavalheirismo. Despediu-o com presentes, afim de que livremente seguisse
para a Hespanha, depois de receber os soccorros de que carecia. De
Lisboa tomou Colombo rumo maritimo para o Sul, e dobrado o Cabo de S.
Vicente entrou na barra de Salter, na manhã do dia 15 de março de
1493. Subido o rio Tinto, fundeava ao meio-dia em Palos, depois de quasi
oito mezes de ausencia, que tanto durara a sua excursão maritima! Caso
inesperado! Appareceu e chegou a Palos, na tarde do mesmo dia, a
caravella _Nina_, cuja vista e noticia perdera Colombo desde a altura
dos Açores. Depois de errar longos dias pelo oceano, alcançara
egualmente Pinzon dar fundo no porto, de onde partira.

Imaginai, minhas senhoras e senhores, as impressões, as sensações, as
alegrias, os exaltamentos, os transportes, a admiração dos habitantes de
Palos, ao reverem seus amigos, ao saudarem a empreza portentosa que se
commettera, e que elles nunca haviam pensado que se podesse realizar!

Tinham-se descoberto as Indias, e era Hespanha que se gloriava do feito,
e antes que Portugal as deparasse! Por quasi um seculo inteiro Portugal
as procurava em vão, emquanto que logo a seu primeiro ensaio de
navegação maritima, ao primeiro e fraquissimo commettimento que
praticara Hespanha, com tres miseraveis caravellas, abrira para as
Indias o caminho da Europa!

Não se devia tudo ao genio de Colombo? Á sua audacia, á sua pertinacia,
á sua paciencia, á sua sciencia, á seus trabalhos? Não arriscara seu
nome, sua vida, em serviço e gloria de Hespanha?

Pensavam-no perdido, morto talvez, porque nem uma confiança depositavam
nem sabios nem povos em sua temeraria e louca empreza, e eil-o com seus
navios, radioso, triumphante, coberto de glorias!

Correram todos a recebel-o, a vel-o, a ouvil-o, a perguntar noticias dos
amigos, das terras descobertas, dos novos mundos das Indias! Com
difficuldade pôde elle desembarcar, dirigir-se á egreja a render graças
á Deus! As ruas cobriram-se de folhas de arvoredos, as casas ornaram-se
de cortinas, aos ares subiram os fogos, estrondaram as peças de
artilharia, repicaram festivamente os sinos dos templos, repercutiram
estrondosamente os gritos e saudações geraes, espontaneas. Foi para
Palos um dia de incomparavel jubilo, de alegria louca, de transportes
patrioticos! Reis não são acclamados com mais espontaneidade e
enthusiasmos! Como que um delirio se apoderava de todos os animos!

Sabendo Colombo que os reis catholicos estavam em Barcelona, para elles
escreveu logo e fez partir emissarios communicando-lhes sua chegada.

Depois de rever seu amigo, o prior João Perez, a quem tanto devia,
partiu para Barcelona, levando em seu sequito os gentios que trouxera, e
cujas figuras causavam espantosa admiração, e as plantas, aves e animaes
exoticos que trazia das terras descobertas, bem como os pequenos
ornamentos de ouro que colhera e que mais excitavam as cobiças.

Por toda a estrada que vai de Palos á Barcelona derramavam-se multidões
de povo: tomavam suas togas as autoridades, os alcaides, os corregedores
para o comprimentarem; os sacerdotes benziam-no cobertos das mais
esplendidas vestes; a plebe applaudia-o, saudando-o estrepitosamente.

Era uma marcha triumphal, que lembra as honrarias dos antigos vencedores
romanos, voltando de suas conquistas e carregados de despojos e
prisioneiros.

Nas grandes e pequenas cidades que atravessava, ruas, casas, edificios
se paramentavam, levantando bandeiras, espalhando illuminações, tocando
sinos, roncando a artilharia, e resoando os ares com vivas, gritos
enthusiasticos, e sons repetidos de musica.

Custava-lhe escapar á curiosidade das populações, que a cada passo
estorvavam-lhe a marcha. A exageração de seus feitos inventava
prodigios, e coroava-o como ente extraordinario!

Que admiração pelos gentios, pelos macacos, pelos papagaios! Que
esperanças no ouro! Tudo era assombro! Seria milagre, sim, que os
Hespanhóes de então acreditavam em toda a especie de milagres.

Entrou em Barcelona acompanhado por clerigos, fidalgos, autoridades,
militares, pessoas de todas as classes, que o acompanhavam, uns desde
Palos, outros juntando-se-lhe pela estrada!

Acolheram-no os reis catholicos com a maior amabilidade, cercados de
toda a sua esplendida e luzida côrte, e ao chegar Colombo para perto
delles, levantaram-se do throno, abraçaram-no, mandaram-no sentar a seu
lado, e ouviram-no com a maior attenção e curiosidade. _Te-Deums_ nas
egrejas, musicas pelas ruas, trophéos e arcos, illuminações, tudo
manifestava a gloria de Colombo, e os reis de Hespanha passeavam com
elle pelo meio do povo, para o honrarem e engrandecerem!

Decretaram logo os reis um premio á Colombo de trinta corôas de ouro,
por haver sido o primeiro que avistara terras das Indias: não fôra quem
descobrira a luz nocturna da ilha de Wattling, proxima da de S.
Salvador? Concederam egualmente armas á sua familia com a legenda:

    Por Castilla y por Leon
    Nuevo mundo alhó Colon.

Fizeram partir incontinente para a França, Italia, Allemanha emissarios
annunciando que Colombo descobrira as Indias para a Hespanha! Os
reis catholicos ostentavam-se vangloriosos dos feitos de Colombo, e
prometteram-lhe coadjuval-o em tudo quanto meditasse e emprehendesse. De
differentes pontos da Europa receberam parabens, e tambem de Roma não
tardaram embaixadores, que o Summo Pontifice enviava para congratular
Isabel e Fernando e entregar-lhes uma bulla que promulgaram na cidade
eterna, concedendo-lhes, no tocante ás regiões descobertas por seus
subditos, direitos eguaes aos que Portugal recebera no tempo do infante
Dom Henrique de Vizeu. Para que se não travasse conflicto entre as duas
Corôas, que tinham entrado em emprezas de conquistas ultramarinas,
declarou o Summo Pontifice na referida bulla, que traçada uma linha
ideal do polo do Norte para o polo do Sul, a cem leguas ao Oeste das
ilhas dos Açores e Cabo-Verde, as terras do oriente pertenceriam a
Portugal e as do occidente á Hespanha. Assim decidia o Papa da sorte do
mundo, não sendo de estranhar que o rei de França perguntasse-lhe em
que verba do testamento de Adão achara Sua Santidade o direito de
distribuir os territorios do globo!

Convencidos os reis em presença da exposição pomposa que lhes fez
Colombo das grandezas das ilhas indiaticas que descobrira; das vantagens
que colheriam fazendo dellas suas conquistas, e povoando-as de
Hespanhóes; do ponto de apoio que ahi deparariam para estender suas
relações e dominação ás Indias; convencidos mais ainda ao
apresentar-lhes Colombo os gentios e explicar-lhes que eram da raça das
Indias, segundo ensinavam os livros dos viajores que tinham visitado
aquellas partes do mundo, e conformes em tudo, traços, côr e fórmas com
os chins e tartaros, doceis para receberem o baptismo, e crerem na
religião de Christo, não se demoraram em expedir ordens terminantes para
apromptar-se uma esquadra de navios, embarcar-se nella grande quantidade
de gente, artilharia, armas, munições, cavallos, gado, e o que mister
fosse para lá empregar-se, e confiar tudo á inteira e exclusiva
disposição de Colombo, afim de que proseguisse nas descobertas, munido
de elementos poderosos com que praticasse a guerra, sendo preciso, e
firmasse posses da Corôa, que durassem, e excluissem alheias pretensões.



QUARTA CONFERENCIA

28 de junho de 1891


Logo que soou aos espertos ouvidos de El-Rei D. João II, de Portugal, a
noticia de que o Santo Papa publicara e enviara aos reis de Castella e
Aragão uma bulla concedendo-lhes terras a descobrir, além de 100 leguas
ao Occidente das ilhas de Cabo-Verde, protestou immediatamente contra o
direito que a curia romana se arrogara e declarou aos reis de Castella e
Aragão que se não submettia ás bullas Pontificias.

Um conflicto poderia nascer deste incidente, caso não chegassem a
accordo amigavel os monarcas de Castella, Aragão e Portugal; um tratado,
porém, celebrado em Tordesilhas, em 1493, estendendo a linha ideal
traçada de 100 a 365 leguas, e compromettendo-se os soberanos a
respeitar em tudo mais a bulla referida, serenou os animos timoratos, e
puderam, então, desassombrados de sustos de guerra, cuidar os reis de
Hespanha de aprestar a expedição maritima, militar e colonisadora,
promettida a Colombo, para que elle continuasse na empreza do
descobrimento das Indias Occidentaes, tão felizmente iniciada em sua
primeira viagem.

Olhava Isabel particularmente para os interesses da religião catholica.
Quanto não ganharia Castella propagando o Christianismo nas Indias,
chamando ao gremio da Egreja Romana tantas almas pagãs, perdidas
naquelles desertos, baptizando e salvando infelizes creaturas, a quem
estava feixado o reino dos céos!

Para outra direcção pendia Fernando de Aragão. Salvação de almas era
para elle questão secundaria. A principal consistia em conquistar
terras, augmentar dominios, alcançar riquezas para Hespanha, e dos
relatorios pomposos e discursos bombasticos de Colombo derivava-lhe
a ideia de que immensas vantagens resultariam de uma segunda viagem de
exploração.

Combinavam, portanto, agora, tanto Isabel como Fernando nos desejos e
propositos de coadjuvar a Colombo, e de facultar-lhe todos os meios com
que podesse realizar seus projectos.

Decretaram immediatamente uma leva de soldados e marinheiros, e uma
esquadra de dezesete navios armados, que tudo se collocava á disposição
de Colombo. Já não servia o pequeno porto de Palos para tão grande
empreza. Foi designado o de Cadix, muito mais importante. Annunciou-se
egualmente que á bordo se receberiam voluntarios militares, maritimos,
profissionaes de industrias, missionarios, medicos, pharmaceuticos,
agricultores, que quizessem partir para a conquista das Indias
Occidentaes ultimamente descobertas. Transmittiram-se ordens ás
autoridades de Andaluzia para se prestarem ao serviço, e aos recebedores
das finanças para despenderem as sommas necessarias.

Que contraste entre a segunda viagem, que vai Colombo emprehender, e a
primeira effectuada em 1492, em que apenas teve sob seu commando tres
miseraveis caravellas com 140 homens de tripolação, e quasi que sem
despender o thesouro de Castella quantia notavel de dinheiro!

É que os reis agora estavam convictos de abundantes proventos, e tambem
exaltava-se favoravelmente a opinião do povo. Então fôra preciso
recrutar á força gente, derramar tributos, arrancar a seus donos os
miseraveis e velhos chavecos que partiram de Palos, no meio dos choros,
maldições e desesperos dos habitantes. Mas em 1493 todos queriam ir,
brigavam por ir. Foi mister determinar que não mais de 1.200 pessoas se
recebessem a bordo da esquadra. Cavalleiro avido de distinguir-se em
emprezas romanescas; especuladores que pensavam encontrar riquezas que
os saciassem; navegantes que sonhavam viagens maritimas venturosas;
missionarios inflammados do zelo de promover a dominação da Egreja e o
conhecimento da verdadeira fé; fidalgos, plebeus, obreiros,
lavradores, commerciantes, todos corriam pressurosos á offerecer-se para
a partida. Não os olhavam mais as populações como victimas de temerarios
e loucos planos; tinham-lhes agora inveja pelas opulencias e ouro que de
certo adquiririam.

Dizia Lopo da Vega em uma comedia famosa:

    Nono lhos leva christandad,
    Sino el oro y la codicia.

Tal era o enthusiasmo que produzira a primeira viagem de Colombo, e tão
exageradas se espalhavam as noticias das grandezas e magnificencias das
Indias Occidentaes por elle felizmente encontradas!

Trabalhosa foi a tarefa de escolher a gente que pretendia embarcar.
Colombo, queixoso dos Pinzons, não os quiz mais para companheiros.
Escolheu outros pilotos e mareantes; acceitou egualmente varios fidalgos
pobres, que lhe pareceram animados do espirito guerreiro hespanhol.
Entre elles alistou-se um cortezão muito afamado pelo seu valor na
conquista de Granada, e pelas suas aventuras romanescas. Chamava-se
Alonzo Ojeda, e vaticinara-lhe a sorte uma brilhante fama, bem que
minguada de proveitos e de felicidade. Mais de mil e duzentas pessoas
embarcaram em tres grandes galés, e quatorze caravellas, estas maiores
de cem toneladas, e aquellas de trezentas, guarnecidas todas e
convenientemente de peças de artilharia, e dos melhores petrechos de
guerra e apparelhos de navegar. Não houve profissões e classes da
sociedade que alli se não representassem, bem como todas as especies de
animaes domesticos, sementes de plantas, cepas de vinha, cannas de
assucar, e outros objectos de industria preciosos, e de necessidades
domesticas e publicas.

De Cadix partiu a esquadra, no dia 25 de setembro de 1493, no meio das
saudações estrondosas do povo. Collocava-se emfim o governo do reino,
francamente, á testa de emprezas maritimas, e despendia com largueza as
sommas necessarias. Da primeira viagem de Colombo, si nem a elle e nem á
Corôa couberam vantagens materiaes, visto que sob este ponto de
vista fôra improficua, da segunda muito se esperava. Entrara tarde em
descobrimentos de terras ultramarinas, mas entrava com resolução, vigor
e poderosos elementos, e por isso Hespanha conquistou glorias
imarcessiveis e proventos espantosos de riqueza e opulencia.

Da sua capitanea apenas de posse, transmittiu Colombo aos commandantes
dos outros navios instrucções precisas para as eventualidades da viagem.
Seguiu ao SO. para Gomera, onde refez-se de algumas provisões e aguada.
Tomou rumo dahi em direitura para o Haity, mais ao sul do que o fizera
na primeira expedição. Aos 15 gráos de latitude N. descobriu, no dia 1
de novembro, numerosas ilhas em frente da esquadra. Estavam todas
cobertas de vegetação abundante, que exhalava perfumes pela atmosphera;
comprehendiam-se no grupo das chamadas Antilhas, que pelo Sul e Léste
feixam o mar interior por ellas separado do Atlantico. Dirigiu-se para a
mais proxima e deu-lhe o nome de Dominica. Não encontrando
ancoradouro seguro, desembarcou em outra quasi tão extensa, que
appellidou Maria Galante. Levando comsigo por interpretes os gentios que
o haviam acompanhado de Haity á Hespanha, e que já fallavam um pouco o
idioma castelhano, tratou de reconhecel-a, e entender-se com os indigenas.

Não encontrou, porém, nem-um signal de população; só florestas espessas.

Dirigiu-se então para uma terceira, chamada por elle Guadelupe. Visitou
uma aldêa, de onde fugiram os habitantes ao avistarem navegadores
estranhos, deixando apenas crianças abandonadas, que Colombo esmerou-se
em adornar com rosarios e braceletes de contas, no intuito de patentear
seus propositos pacificos para com os indigenas. Essa aldêa mostrava-se
semelhante ás de Cuba, S. Salvador e Haity; conteria quarenta casinhas
collocadas em um quadrado, construidas de madeira, cobertas com folhas
de palmeiras. A aldêa tinha só sahida por uma especie de portico. Dentro
das casinhas rêdes de algodão para dormir, algodão em rama e
trançado, arcos e flexas, e utensis de pedra e madeira. Horrorisaram-se
estupefactos os hespanhóes, notando craneos humanos pendurados, que os
gentios interpretes declararam pertencer á inimigos prisioneiros, que os
Caraibas, terriveis habitadores das ilhas do sul, matavam para comerem e
devorarem em seus festins e folguedos. Pelas praias encontraram canôas
de um só tronco de arvore, mas enormes, em que cabiam quarenta a
cincoenta homens.

Ordenou Colombo que uma partida de marinheiros commandada por Ojeda
penetrasse no interior da ilha e examinasse seus sitios: voltaram elles,
no fim do dia, conduzindo muitas mulheres, que os tinham procurado, e
quizeram acompanhal-os. Soube, pelas conversas que os interpretes com
ellas travaram, que haviam sido roubadas ás ilhas vizinhas e reduzidas á
escravidão, e supplicavam as não deixasse elle naquella ilha entregues á
ferocidade dos moradores que se tinham evadido com medo dos castelhanos.
Comprehendeu Colombo que eram tribus de barbaros que alli
habitavam: acolheu as mulheres a bordo e continuou sua viagem, ancioso
de chegar á fortaleza da Natividade no Haity.

Atravessou por entre muitas e innumeras ilhas de diversas dimensões, e
deu fundo em uma que recebeu o titulo de Santa Cruz. Eis que de um
promontorio surgiu-lhe uma piroga com bastante gente; apenas avistada
mandou Colombo uma chalupa a seu encontro. Os gentios da piroga deitaram
a fugir. Empunhavam arcos, disparavam no entanto flexas que feriram a
varios hespanhóes, bem que defendidos por seus escudos. Combatiam tão
valentemente como elles algumas mulheres. Cahiram os castelhanos sobre a
piroga, viraram-na no abalroamento; mas os gentios e as mulheres que a
guarneciam atiraram-se ao mar, e mesmo nadando faziam chover flexas
sobre os hespanhóes, ao passo que desappareciam aos olhos mergulhando e
impossibilitando sua perseguição. Percebeu-se que as flexas tinham
veneno nas pontas, porque um dos castelhanos feridos morreu do virus
communicado.

Levantou então ancoras a esquadra e descobriu a grande ilha conhecida
pelo nome de Porto Rico, de encantador aspecto; fugiram tambem os seus
moradores apenas avistaram os navios. Depois de uma pequena exploração,
continuou Colombo sua viagem e chegou emfim ao Haity, parando a esquadra
defronte do local onde se construira o forte da Natividade e onde elle
deixara 40 companheiros, quando partira para Hespanha. Era noite já, e
para signal roncou a artilharia de bordo, avisando os amigos de terra.

Que surpreza foi, porém, a sua! Amanhecera o dia e ninguem lhe
apparecia! Espantado de não avistar o forte, desembarcou, e em terra
descobriu-o inteiramente arrasado; nem um hespanhol ahi deixado
encontrou, e apezar de gritos e tiros de artilharia para lhes servir de
chamada, ninguem appareceu-lhe! Expediu logo gente que visitasse a aldêa
não muito distante, do seu amigo, o cacique Guanacaguary. Deserta e
destruida estava tambem a aldêa. Mandou-o procurar nos mattos, e
felizmente em nova aldêa foi elle encontrado. Soube então pelos
interpretes que os hespanhóes do forte tinham roubado ornamentos de ouro
e mulheres aos da tribu guerreira do Cibão, que entre si mesmos haviam e
por causa da divisão dos despojos, que alcançaram, travado luctas
sangrentas e mortiferas, e que provocando com seu procedimento os
furores do cacique Canoabo, este os atacara, vencera, matara a todos e
arrasara completamente o forte. Accrescentava-se ainda que Guanacaguary
esforçara-se em defender os hespanhóes, mas fôra derrotado, ferido e
obrigado a esconder-se nas florestas até que Canoabo se houvesse
retirado, e elle pudesse estabelecer-se com sua tribu em novas tabas que
construira.

Inicia-se por esta maneira a historia dos estabelecimentos europeus na
America. As paixões desordenadas dos invasores produziram guerras civis
e a perversidade de seus espiritos suscitou contra elles os odios dos
gentios que até então pareciam mansos, mas que eram por natureza
barbaros e vingativos.

Tratou Colombo de pacificar os animos dos gentios, que mostravam-se
agora desconfiados dos hespanhóes; convidava-os a ir á bordo dos navios,
acolhia-os com caricias e presenteava-os generosamente afim de
angariar-lhes de novo as sympathias.

As visitas, no entanto, que a bordo do Almirante repetiam os gentios,
suas conversas com as indigenas que Colombo acolhera nas ilhas das
Antilhas, deram em resultado um espectaculo singular.

Em uma noite ellas se precipitaram todas ao mar. Bem que perseguidas
pelos hespanhóes, mergulhavam, nadavam, e agarrando-se a rochedos, que
se entranhavam nas aguas, desappareceram e escaparam ás perseguições!
Não teriam havido concertos? Tão suspeitoso como o dos gentios tornou-se
dahi por deante o animo de Colombo.

Traçou então a planta de uma cidade em terra, que denominou Isabel,
edificada no centro norte do Haity, perto do Monte-Christo; não tardou
em construil-a, abrindo ruas e praças, edificando casas, levantando
fortificações e estabelecendo uma egreja. Foi esta a primeira povoação
que os europeus firmaram na America! Della tomaram posse os hespanhóes,
e a mais vasta morada reservou Colombo para si, como almirante e
governador das conquistas. Distribuidos terrenos, principiou-se a
cultura do sólo, e confiaram-se-lhe as sementes de plantas européas, as
cepas de vinha e de cannas de assucar, que se desenvolveram rapidamente.
Não esqueceu a propagação dos animaes, e preparou-lhes os pastios
indispensaveis. Em pouco tempo uma cidade hespanhola assim organizou-se
e constituiu-se o nucleo de outras, que se semearam por aquellas paragens.

Expediu depois Colombo gente numerosa ás ordens de Ojeda, cujo
desembaraço e intrepidez temeraria lhe agradavam, afim de que
explorassem o interior da ilha, dirigindo-se particularmente para as
montanhas do Cibão, onde, segundo os dizeres dos gentios, existiam
importantes minas de ouro.

Cumpriu exacta e resolutamente Ojeda a sua tarefa. Bateu por vezes os
gentios do Cibão, aprisionou muitos, reconheceu signaes de ouro virgem
nos leitos das torrentes e rios, e soube que existiam minas do mesmo
metal, mais para as alturas dos morros. Estabeleceu-se em ponto
fortificado, e remetteu a Colombo algum ouro em pó e pedaços
petrificados. Para lá partiu immediatamente Colombo á testa de
quatrocentos homens; feriu variados combates com os gentios e verificou
com seus olhos a verdade do que Ojeda lhe communicara.

Fez voltar, no entanto, alguns navios para Hespanha, a dar contas de sua
commissão. Confiou o commando a Antonio Torres, incumbindo-o não só de
proclamar as riquezas da terra, levando para prova amostras valiosas de
ouro, bastante algodão, plantas aromaticas e pimenta que adquirira; como
de voltar com a maior brevidade trazendo vinho, medicamentos, viveres,
armas, vestimentas, cavallos, artifices, agricultores, e particularmente
mineiros para se rasgarem com proveito e maior facilidade as minas
opulentas do Cibão.

Infelizmente sorriu ao espirito de Colombo uma deploravel ideia: por que
não converteria em escravos os gentios que nos combates aprisionara?
Vendidos em Hespanha, como em Portugal e mesmo em Hespanha se vendiam
mouros e pretos de Guiné, não prestariam ao thesouro régio colheita
abundante de impostos, que o coadjuvasse nas despezas indispensaveis ás
expedições maritimas? Convencido deste principio, embarcou cerca de
quinhentos gentios nas caravellas que apparelhara e que expedira
immediatamente para Hespanha.

As ideias fanaticas da epoca consideravam quem não fosse catholico como
inferior em direitos aos catholicos, os hereges e pagãos podiam,
portanto, escravisar-se: por que escapariam os gentios da America á este
destino, á esta sorte miseranda? Apezar de seu espirito adeantado, não
podia Colombo resistir á influencia das ideias do seu tempo.

Emquanto se occupava Ojeda nas pesquizas de ouro, deliberou Colombo
proceder á novas explorações de terras. Seguiu em um navio e tomou rumo
pelo sul de Cuba, em direcção do oeste; encontrou a ilha da Jamaica;
admirou suas bellezas naturaes, deu-lhe o nome de Santa Gloria, quiz
desembarcar, mas oppuzeram-se os gentios em grandes canôas, armados de
arcos e flexas. Pareciam guerreiros como os Caraibas, não pacificos e
mansos como os de Cuba, e em geral os do Haity. Foi, pois, compellido
Colombo a descer em terra levando chalupas bem guarnecidas de gente.
Pela primeira vez empregaram-se, além das armas mortiferas de fogo,
enormes cães de fila, que se atiravam furiosamente sobre os gentios, e
que muito coadjuvaram aos hespanhóes em suas victorias, pois que
apavorados de terror fugiam elles para os mattos e escondrijos.

Da Jamaica, bem que não domada e nem em parte submettida, partiu Colombo
tratando de correr as costas meridionaes de Cuba, no intuito de
verificar por si si era ilha verdadeira. Navegou por entre as
numerosas ilhas appellidadas Jardins da Rainha. Ahi foram amigaveis as
relações com o gentio, traçando Colombo constantemente mappas
geographicos das terras que via. Voltou para a cidade de Isabel ao
findar o anno de 1494, sem ter conseguido contornar Cuba em toda a sua
extensão. Com a mais intensa alegria encontrou ahi seus irmãos
Bartholomeu e Diogo, que á seu chamado se tinham despedido do serviço
maritimo de Portugal, e embarcado immediatamente para o Haity em navios
que de Hespanha haviam partido no correr do anno, trazendo para as
Indias Occidentaes auxilios de gente e viveres.

Infelizmente, porém, o caracter turbulento e altivo, e o levantado
espirito dos hespanhóes não se desviavam de sua natureza e instinctos,
trocando o sólo europeu pelas terras Americanas.

Sedições formaram-se logo em Isabel; um Bernal Dias excitou grande
numero de moradores contra o governo de Colombo, e ousou ameaçal-o:
suffocada a revolta, castigados os criminosos e enviados para a Hespanha
o chefe e os principaes cumplices, outra e mais terrivel sedição
rompeu, capitaneada por Margarito e pelo Padre Boyle, que se apoderaram
com seus asseclas de alguns navios, e partiram para Hespanha sem se
importarem com o almirante.

Comprehendeu então Colombo as difficuldades da sua situação diante de
gente tão insubordinada, e que se considerava illudida, porque não
obtivera logo riquezas que sonhara, e pois considerava, por esse motivo,
á Colombo como autor de suas infelicidades e soffrimentos.

Perseverava tambem inimigo o famoso cacique Canoaba, que ousou formar um
tal qual cerco regular em torno de Ojeda quando se estabelecera nas
montanhas do Cibão, e contra elle dirigir continuadas escaramuças e
assaltos. Era Ojeda felizmente bravo e sagacissimo. Empregando
estratagemas, conseguiu colhel-o ás mãos, aprisional-o, e remettel-o em
ferros para Isabel. A guerra, pois, contra os gentios, inaugurava
peripecias perigosas, e combates a combates se succediam, sem que se
tivessem subjugado aquelles selvagens da ilha, bem que já mais ou
menos povoada pelos hespanhóes e dividida em districtos. Voltara Torres,
no entanto, de Hespanha, trazendo reforços á Colombo. Fel-o de novo
Colombo voltar com novo carregamento de indigenas escravisados e com os
productos, que pôde colher, pensando assim sustentar seus creditos
perante os reis catholicos.

Muitos hespanhóes, porém, que haviam regressado para Hespanha, começaram
a espalhar alli vozes e noticias desabonadoras de Colombo; accrescia que
poucos proventos alcançavam ainda á Corôa, visto que não traziam os
navios mercadorias e ouro, que compensassem os sacrificios que ella
fazia com as expedições. Maior intensidade tomaram as intrigas e o
descontentamento, ao chegarem á Hespanha o padre Boyle e Margarito.
Perdia Colombo no conceito, e começavam á manifestar-se-lhe adversarios.
O Bispo Fonseca, presidente do tribunal fundado para os negocios das
Indias Occidentaes, declarou-se logo seu inimigo e em memoriaes e
relatorios dirigidos á Corôa accusava-o constantemente por tudo
quanto parecia nocivo aos interesses dos subditos e das conquistas.

A Rainha Isabel, impressionada com as noticias que se espalhavam, e com
as communicações de Fonseca, resolveu mandar ao Haity um emissario
incumbido de syndicar do procedimento de Colombo, e publicar edictos
concedendo licença mediante clausulas aos subditos que desejassem ir ou
mandar, por sua conta particular, navios que se destinassem a
explorações e descobertas de terras fóra da alçada e da autoridade do
almirante das Indias. João Aguado partiu immediatamente em caracter
official para o Haity, commissionado pelo governo, e pela Castilha se
espalharam os edictos regios.

Chegado que foi Aguado á villa de Isabel, mostrou-se Colombo resentido
por lhe parecer falta de confiança o acto dos soberanos. Mais ainda
exacerbou-se, sabendo do decreto que permittia a aventureiros emprezas
exploradoras nas Indias Occidentaes, que elle reputara estarem todas sob
seu governo exclusivo.

Aguado abriu inquerito contra Colombo e ostentou autoridade
independente. Reuniu elementos que lhe pareceram sufficientes para
prejudicar ao almirante. Não ousando, porém, no Haity, commetter acto
offensivo, decidiu-se a voltar para a Hespanha, afim de ahi formular,
sem susto, sua accusação. Prestou-lhe Colombo uma caravella para a
viagem. Temendo, todavia, o resultado do inquerito, preparou outra para
si, e transferindo o governo ao irmão Bartholomeu, seguiu para Hespanha
ao mesmo tempo que Aguado. Acompanhava assim a accusação e o magistrado
que a instaurara, no propósito de nullificar-lhes os effeitos: era já o
anno de 1496.

Apenas tomou terra em Cadiz, seguiu Colombo para Burgos, onde se achavam
os reis hespanhóes. Convem dizer-vos, minhas senhoras e senhores, que
não vos deveis admirar que os soberanos de Castella e Aragão ora
estivessem em uma, ora em outra cidade dos dous reinos, que lhes
pertenciam. Capital de Hespanha só tornou-se exclusivamente Madrid
para residencia do Rei e centro da administração geral, em tempo de
Felippe II, na ultima metade do seculo XVI. Até então eram todas as
principaes cidades consideradas capitaes, isto é, os soberanos residiam
umas vezes nesta, outras vezes naquella, mudando sempre a côrte para
assim agradarem a todos os povos das antigas provincias outr'ora
independentes, que não queriam perder sua autonomia, e mostrar-se-iam
desgostosos quando uma capital fixa fosse preferida para morada dos
monarcas. E pois, no correr destas narrativas, os encontrais em Cordova,
Granada, Sevilha, Barcelona, na Salamanca, e agora em Burgos e no
intervallo do tempo achavam-se egualmente em Valhadolid, Saragoça,
Toledo e Leão.

Não foi por Isabel mal acolhido Colombo, bem que sem aquelle enthusiasmo
e intimidade, de que elle recebera publicas e particulares demonstrações
em 1493. Nos funccionarios elevados deparou, porém, frieza, assim como
em Fernando de Aragão. Para o povo andava já bastante desconceituado:
não o acreditavam mais aquelle heróe, aquelle ente sobrenatural que
descobrira as Indias Occidentaes, e promettera á Hespanha tanta
opulencia e riqueza que, desgraçadamente, se não tinha ainda realizado!

Procedia o descredito, em que começava Colombo a cahir, de ser accusado
de enganar os soberanos e zombar da nação com descripções exageradas dos
paizes descobertos, que mais custariam despezas e sacrificios que
vantagens e gloria; attribuiam-lhe ainda uma administração tyrannica e
oppressora, com que coagia os subditos á revoltas constantes; e
imputavam-lhe tambem ambições arrojadas de explorações novas e
inconscientes de que não havia proveito a esperar.

Felizmente para Colombo levara elle para Hespanha bastante ouro
extrahido das montanhas do Cibão e de uma mina ahi encontrada no sitio
denominado Hayna, que se descobrira com signaes de ter soffrido já
antigas excavações. Esta circumstancia ultima, que elle verificara, mais
lhe confirmava a ideia que tinha de que o Haity era a ilha de
Offir, e que aquellas excavações regularmente effectuadas deviam ter
sido praticadas pelos povos indiaticos das costas fronteiras á ilha.

Quer apresentando e entregando notavel quantidade de ouro para os cofres
publicos; quer com discursos e relatorios afiançadores de maiores
riquezas, e em que reluzia sempre a esperança de tornar catholicas
tantas almas perdidas, que imploravam o baptismo para se salvarem, com o
que correspondia ás delicadas cordas da consciencia da Rainha; conseguiu
Colombo desfazer muitos preconceitos e calumnias propaladas á seu
respeito. Declarou-lhe por fim Isabel que continuaria a confiar nelle e
lhe prestaria novos auxilios, com que executasse terceira viagem ás
Indias Occidentaes, explorasse terras até encontrar o Japão e a China, e
cuidasse de extrahir das minas descobertas no Offir a maior somma
possivel de riquezas.

Que difficuldades se lhe antepuzeram, no entanto, aos desejos de
aprestar navios com gente e carregamentos necessarios! Ora
allegava-se que o thesouro regio estava esgotado com as guerras que o
ambicioso Fernando travara contra a França; ora excessivas despezas
exigidas pelos casamentos da princeza D. Joanna com o archiduque
austriaco Felippe, que governava em Flandres, e do principe D. João com
uma infante egualmente da casa d'Austria.

Oppunha-se por seu lado tambem Fernando de Aragão a todo o gasto para se
descobrirem ilhas e terras selvagens e incultas, preferindo nas guerras,
em que quasi sempre laborou na Europa, empregar os recursos de Hespanha.

A Rainha, porém, decidiu-se á coadjuval-o efficazmente, logo que soube
que em julho de 1497 El-rei D. Manoel, que herdara a corôa de Portugal,
tratava de executar o pensamento e recommendações de D. João II,
fallecido em 1495, de perseverar nos aprestos de uma grande expedição
para as Indias do Indostão, e conseguira emfim fazel-a partir de Lisboa,
ás ordens do almirante Vasco da Gama, que como seu auxiliar levara
em sua companhia o famoso Bartholomeu Dias, que descobrira e dobrara a
ponta final da Africa, o tormentoso Cabo da Boa Esperança. Cortou então
por todas as difficuldades, e ordenou que á todo o preço se prestassem
auxilios á Colombo.

Não era agora desairoso á Castella deixar que a nação portugueza
proseguisse só nos descobrimentos, e se lhe avantajasse em gloria e
riquezas, que das Indias pintadas e imaginadas com as mais deslumbrantes
opulencias deviam provir?

Não tardaram em promptificar-se seis grandes navios convenientemente
armados e tripolados no porto andaluz de S. Lucar, vizinho do de Cadix.
Foram carregados de armamentos e viveres em abundancia, de obreiros e
mineiros para a extracção do ouro, e de missionarios para a catechisação
dos gentios.

Confiados de novo á Colombo, transmittiu-lhe a Rainha instrucções para
que não parasse na empreza de abrir commercio com o Japão e a China.

Partiu assim Colombo para sua terceira viagem de descobrimento das
Indias em julho de 1498, e agora do porto de S. Lucar.

Já algumas nações da Europa agitavam-se, no entanto, com o pensamento de
relacionar-se tambem com as Indias. Por que Hespanha e Portugal seriam
as unicas a ganhar louros gloriosos na historia do mundo, a dilatar os
conhecimentos e sciencias cosmographicas, a opulentar-se e enriquecer-se
em commercio e navegação? Faltavam á ellas elementos e meios para
emularem e competirem com os dous povos da peninsula iberica? Não
dispunham egualmente de homens habituados aos azares maritimos, de
temerarios chefes e soldados intrepidos para tomarem parte no movimento
assombroso e conquistador, cujas noticias causavam o espanto e a
admiração geral?

Que poderiam, porém, Francezes intentar quando seu rei, Carlos VIII,
vivia occupado em reunir á corôa franceza a Bretanha, no desejo de
completar a obra de seu finado pai, Luiz XI, que anciara unificar a
França em um só reino? Quando, além disso, iniciara guerras com Fernando
de Aragão por ciumes de dominar a Italia, e apoderar-se de Napoles e
Sicilia? Atrevidos eram ainda como sempre o haviam sido os normandos,
marinheiros audazes, e pois, em despeito das ordens régias, e apoiados
só em suas energias e temeridades particulares, começavam
espontaneamente á devassar as aguas do Atlantico, seguindo primeiramente
os passos dos portuguezes pelas Costas da Barbaria e da Guiné.

Adeantou-se-lhes, porém, Henrique VII de Inglaterra: resolvido á
partilhar as glorias de abrir caminho á seus subditos para a India,
convidou a um venesiano, de nome João Caboto e a seus filhos, residentes
em Bristol; autorizou-os á tripolarem navios, que seguindo como os
hespanhóes o rumo de Oeste, descobrissem terras e dellas se apossassem
em nome da corôa britannica. Não perdeu Caboto tempo; aprestou navios, e
ousou viajar affoitamente, antes que terminasse o anno de 1496.
Foram-lhe propicios os ventos, e acertada a direcção. Descobriu em
principios de 1497 terra na America Septentrional aos 58 gráos de
latitude; encaminhou-se dahi para o Sul e verificou varios pontos;
chegando á bahia de Cheasepeake, aos 34 gráos, no sólo fixou postes
declarativos do dominio britannico. Voltou para Inglaterra levando á seu
bordo algumas madeiras e bastantes gentios. Pararam ahi por alguns annos
as explorações por parte de Inglaterra, porque não resultavam da viagem
beneficios correspondentes ás despezas effectuadas. Si fôra Colombo o
primeiro que descobrira a America em 1492, e se apossara das ilhas do
mar das Antilhas; foi Caboto o primeiro europeu que avistou, em 1497, a
terra firme, bem que já no Haity se houvesse Colombo estabelecido e ahi
fundado a primeira povoação européa. Tanto, porém, um como o outro,
conjecturavam que tudo aquillo eram ilhas asiaticas e não propriamente
terra firme, ou um continente separado e novo.

Deixado este incidente, que muito esclarece, todavia, a historia do
descobrimento da America, acompanhemos á Colombo em 1498, na sua
terceira viagem executada, já depois da partida de Vasco da Gama, que em
1497 deixara a barra do Tejo, largando de Lisbôa, em busca egualmente
das Indias.

Com seus seis navios fundeou Colombo, segundo seu costume, na ilha
Gomera. A tres ordenou seguissem directamente para a cidade de Isabel,
no Haity. Com os outros tres, dirigiu-se para o Sul e arribou ás ilhas
de Cabo Verde. Dahi caminhou para OSO., e a 31 de julho descortinou aos
9 gráos de latitude terra desconhecida. Era a ilha que tomou o nome de
Trindade. Deslumbrando para o sul montanhas longinquas e que se perdiam
no espaço, para ellas proseguiu sua rota, e achou-se deante de um canal
rodeado de rochedos e recifes.

Espantou-se de ver o mar, bem que não agitado por ventos, levantar-se em
ondas altanadas e subir e descer furiosamente, banhando terras cobertas
de vegetação robusta e deslumbrante.

Passou instrucções aos commandantes dos navios e aos pilotos para se
acautelarem contra as correntes e impetos das vagas, emquanto elle
tratava de examinar o phenomeno.

Ordenou que das lanchas lançadas ao mar se examinasse seu fundo.
Provadas as aguas, percebeu-se que eram doces inteiramente. Comprehendeu
logo que se precipitavam alli rios caudalosos, que só de terras vastas e
não de pequenas ilhas podiam nascer tão possantes e tão abundantes.

Não se enganava. Alli rebentava o famoso Orenocco por suas numerosas e
tumultuarias boccas, despejando aguas altivas no Oceano e fazendo recuar
as salgadas do mar, prestando assim gosto adocicado ás vagas e causando
esse phenomeno de elevações extraordinarias, de correntes perigosas e de
ondas assoberbadas.

Communicou com a terra e pelos seus interpretes, que se entenderam com
os gentios, soube que penetrara no golpho denominado Pariá, que o paiz
era cultivado, e os indigenas mansos. É ponto ainda duvidoso si
desembarcou então o proprio Colombo, ou si apenas mandou pisar o
continente por seus officiaes. Como quer que seja, avistou emfim a terra
firme, travou relações com os indigenas, presenteou aos caciques com
innumeras bugigangas e vestimentas coloridas, e recebeu em troca fios de
perolas, que diziam os naturaes vinham do Oeste. Maravilhado e
satisfeitissimo, continuou sua viagem, tratando de sahir do golfo em que
se achava. Deparou caminho pela Bocca do Dragão, e penetrou no mar das
Antilhas: numerosas ilhas se lhe apresentaram ainda. A costa do Pariá
seria ainda uma ilha, ou era já parte do continente das Indias que por
alli se estendiam? Posto que mergulhado em duvidas, tomou as alturas,
verificou as localidades, e tratou de recolher-se ao Haity, para mais
tarde e acuradamente proceder á escrupulosa exploração.

Chegado á Isabel, soube que seu irmão Bartholomeu fundara uma nova
cidade ao sul da ilha, á qual dera o nome de S. Domingos, nas
proximidades das minas de Hayna, e que resultados mais compensadores
alcançavam suas fadigas, tendo-se extrahido já bastante ouro. Para
lá partiu incontinenti Colombo, e converteu S. Domingos em séde do
governo. Fundações de novas aldêas e fortes militares determinou tambem,
assegurando assim a posse da ilha e curvando os gentios a seu governo.
Concedeu a uns liberdade, com obrigação de pagar tributos; declarou
captivos os remissos, e empregou-os nos trabalhos da mineração. Quanto
aos prisioneiros de guerra, perseverou no systema de envial-os para
Hespanha, afim de lá se venderem como escravos.

Não viviam, porém, tranquillos os hespanhóes; intrigas, tumultos, rixas
entre si, ameaças de revoltas, tinham roubado muito tempo á Bartholomeu,
durante a ausencia de seu irmão. A presença deste não extinguiu as
tentativas sediciosas. Um capitão, Roldan, havia levantado o estandarte
da rebellião, e á frente de gente bastante tinha-se fortificado em um
posto militar, atacando dahi e assaltando as povoações hespanholas
vizinhas, e incitando as tribus de gentios a se não resignarem ao
jugo dos hespanhóes, que muitas eram e dirigidas todas por caciques
particulares. Foi o almirante compellido a guerrear de novo. Á frente de
numeroso corpo de soldados e servindo-se de cães de fila, e agora tambem
de cavallaria, de que já dispunha, e que muito assustavam e maltratavam
os gentios, dirigiu-se ás possessões do cacique Guarionez e desbaratou-o
completamente. O mesmo não pôde, porém, fazer no tocante aos revoltosos
hespanhóes capitaneados pelo chefe Roldan. Conjecturou ser melhor
politica transigir e conciliar-se, fingindo acredital-o arrependido de
haver-se levantado contra Bartholomeu, que elle accusava de injustiças
praticadas.

Era um bravo e ousado soldado, que Colombo poderia conter com geito, e
aproveitar para emprezas de vulto, bem que dahi podesse resultar quebra
de seu prestigio. Não seria mais desastrosa uma guerra civil, caso o
tratasse como qualquer outro rebelde e elle resistisse, como se deveria
temer?

Cumpre aqui dizer que o ouro e perolas enviadas para Hespanha, e as
communicações officiaes feitas por Colombo de que descobrira as terras
opulentas do Golfo do Pariá, e que dahi esperava colher copiosas
riquezas, incitaram os animos de muitos audazes aventureiros, que se
propuzeram logo aos reis catholicos para á suas expensas particulares
emprehenderem descobrimentos novos. Não annunciara o governo que
concederia patentes para suas emprezas? Animava-os, além disso, o bispo
Fonseca, e á um delles, Alonso Ojeda, seu protegido, antigo companheiro
e subordinado de Colombo, mas de quem agora se manifestava inimigo,
concedeu-se carta régia patente para por sua conta aprestar navios e
explorar continentes novos.

Quatro caravellas aprestou Ojeda, e partiu do porto de Santa Maria,
defronte de Cadiz, em maio de 1499, levando como seus socios e
companheiros um basco atrevido, por nome João de la Cósa, que aprendera
ás ordens tambem de Colombo, e o florentino Americo Vespucio, que
residia em Hespanha, e era muito applicado á estudos cosmographicos e á
confecção de cartas maritimas, e ambiciosissimo de tomar parte em
expedições da India. Foi esta a sua primeira viagem, sob o commando de
Ojeda, bem que elle em cartas particulares, que se publicaram, e que
muito teem illudido os historiadores, declarasse falsamente que já em
1497 viajara nas Indias Occidentaes: com quem e quando, nunca exhibiu
provas e nem deu ou deixou o menor esclarecimento, cahindo em
contradicções palpaveis, e em inexactidões á respeito dos gráos de
latitude, o que prova imaginara e não vira com seus olhos. Conseguiu
Ojeda do bispo Fonseca cópia do roteiro da terceira viagem de Colombo, e
dirigiu-se inteiramente por elle. Descahiu um pouco para o sul, e,
segundo affirma, descobriu terras que se conjecturam ser as Guyannas,
bem que credulos escriptores pensem ter elle chegado ao Brazil. Volveu
das Guyannas para o Norte, sem ter ultrapassado a linha, como elle
proprio o assevera. Atravessou o golfo de Pariá, e foi cosendo-se com a
terra firme. Desembarcou perto da Bocca do Dragão, e encontrando
valentes oppositores nos gentios, travou com elles combates
sanguinolentos, e perdeu bastante gente. Continuou, e ao entrar no golfo
de Venezuela, simularam os indigenas que o acolhiam amistosamente,
levando para bordo dos quatro navios hespanhóes cerca de vinte mulheres.
Confiadamente desceu á terra Ojeda. Foi então assaltado repentinamente,
e com difficuldades inauditas pôde voltar para seus navios. Revelaram-se
os indigenas valentes lidadores, e usavam de flexas, escudos e lanças,
batendo-se com alguma estrategia, e matando bastantes soldados adversos.

Proseguindo em suas aventuras, sem nenhum proveito, chegou ao Cabo da
Vela: faltando-lhe viveres, dirigiu-se ao Haity, quando recebera ordens
positivas em Hespanha para lá não desembarcar nessa ilha que era
privativa de Colombo.

Que decepção apoderou-se de Colombo ao saber que navegavam hespanhóes
por aquellas aguas e terras que elle reputava de seu governo e que
lhe não prestavam preito e homenagem! Não infringira a Corôa hespanhola
seus contratos concedendo-lhes licenças? Não se lhe desprestigiava a
autoridade?

Quantas difficuldades, perigos e desgostos para Colombo! Não lhe
bastavam as permanentes sedições de rebeldes hespanhóes contra sua
dominação. Não se haviam levantado Guemara e Moxica em 1500? Moxica e
seus companheiros haviam sido condemnados á morte e executados, e
Colombo precisava tornar-se mais severo e inexoravel com os
conspiradores. Felizmente para Colombo, occupou-se Ojeda em concertar
seus navios e refazer-se de viveres e aguada, e voltou para Hespanha sem
causar-lhe o menor desgosto.

As noticias, porém, que á Hespanha chegavam á respeito da situação do
Haity, das sublevações alli verificadas, e dos actos rigorosos que fôra
Colombo compellido á commetter, suscitaram de novo clamores do povo
contra Colombo, e impressionaram forte e desagradavelmente a propria
rainha Isabel á seu respeito. Não ouvia ella sómente queixas de
seus inimigos e relatorios parciaes do bispo Fonseca? Por elles julgou
conveniente decretar uma providencia destinada á syndicar o procedimento
de Colombo, e á averiguar a verdade das accusações, que constantemente
se lhe dirigiam. Nomeou á Bobadilha para seu representante nas Indias
Occidentaes, e muniu-o de plenos e geraes poderes para castigar quantos
julgasse criminosos, e retirar até das mãos de Colombo o governo da
colonia, caso o considerasse indispensavel.

Em julho de 1500 partiu Bobadilha para o Haity.

Apenas desembarcado em S. Domingos, chama as autoridades, mostra-lhes
seus plenos poderes, e declara-se na posse das conquistas,
aproveitando-se da ausencia de Colombo e de seu irmão, que estavam no
forte distante da Conceição.

Todos curvam-se á sua voz e ás ordens régias. Manda então Bobadilha
intimar á Colombo para que venha defender-se de accusações que contra
elle haviam sido endereçadas á Corôa. Não se temeu Colombo de
partir para S. Domingos. Bem, todavia, não havia chegado, foi preso com
seus irmãos e amigos, carregados todos de ferros, e encarcerados em uma
fortaleza. Processos se organizaram, ouviram-se como testemunhas quantos
se suspeitavam adversos ao almirante. Não houve crime de arbitrio,
tyrannia, concussão, ou roubo que lhe não fosse imputado. Embarcados em
uma caravella foram Colombo e seus companheiros de infortunio mandados
para Hespanha, com ferros aos pés, e ordens para serem vigiados por
guardas, quaes réos de horrorosos attentados. Assim pagavam os reis de
Hespanha á Christovam Colombo seu grande feito de descobrir um novo
mundo!



QUINTA CONFERENCIA

12 de julho de 1891


Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o
de 1500.

Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as
novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes
em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras
inteiramente desconhecidas.

Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira,
durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios.
Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido
dissipar os terrores da zona torrida, corrido a costa d'Africa para
o sul, dobrado--primeiro povo--a linha equinocial, e attingido e
reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de
latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e
avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o
Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á
explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e
alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas,
dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.

Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de
retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias
mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos
desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas
mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?

Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de
posse na costa Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas
que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos
marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de
Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação
européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados
modernos, á seguir-lhes o exemplo.

A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que
proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais
conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios,
antes com vantagens para o thesouro.

Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no
mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon,
munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola
maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao
serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente
de marinheiros intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com
os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides
eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas
ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de
descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a
vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente
commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do
porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e
Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos
gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça.
Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á
dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando
quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de
janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que
denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de
Santo Agostinho.

Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de
Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte,
porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a
latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon
o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á
Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no
processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente
publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul.
Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que
avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com
denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que
abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob
a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo
e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de
trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas,
entranhando-se nas do oceano, e repellindo-as com força, subiam e
desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com
medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos
gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo
logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas
de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando
felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides
não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse
em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não
tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas
assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um
rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas,
quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove
haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.

Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste,
não cessavam, por seu lado, os portuguezes de continuar em
descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira
Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto.
As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho,
o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique,
Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel
com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real,
em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de
acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do
Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se
arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu
desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.

Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral,
commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco
da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo
e ao O. para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança,
descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do
Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude.
Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os
indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella
demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.

Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao
N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração
do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão,
considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no
futuro para ahi se dirigissem.

Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem
Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao
Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na
crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as
denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de
indios.

Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente
novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e
onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e
innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os
Aztecas do Mexico!

Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes
praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das
Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes
vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos
gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco
Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe
importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos
civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos
barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta tambem arrojado
navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas?
Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de
Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas,
não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo
Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?

Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes
e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus.
Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo
XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que
dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos
filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras
epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro
vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia
espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores
do movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes,
Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e
particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas
conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.

Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos
referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados
coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da
America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.

Chegara, em 1500, a Cadix, após viagem curta, o navio, que conduzia
preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das
impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha
desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do
Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da
patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que
lhes compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e
secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se,
apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.

Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros
aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o
trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito
do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo
as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e
creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira
régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por
delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em
tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!

Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que
esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de
justiça, porém; por opposição á violencias, á arbitrios e
despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes
cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.

Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte
hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do
que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou
ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de
S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados,
pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho
escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe
os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis
occurrencias.

Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão
distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á
bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente,
e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle,
porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que haviam os
reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova
decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.

É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado
posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha
pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S.
Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu
corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do
filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á
respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os
ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter
altivo e o espirito heroico de Colombo.

Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra,
antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis
ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima
veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha
da architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés;
levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras
repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle
desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do
seu affecto.

Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á
Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias
Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de
partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á
frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em
seus dominios das Indias Occidentaes.

Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e
auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas
terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para
o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam
ser ilhas proximas os logares até então reconhecidos. Prometteu
Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da
commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e
a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria
nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que
considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos
argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões
exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro,
continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?

Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda
Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante
os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento,
lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e
que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a
constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo
Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a intervenção
protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que
resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida
pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta
que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de
que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro
pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas
cada uma, tripoladas por 150 homens.

Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia
um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o
haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de
novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de
Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha;
prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se
sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias
publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.

Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em
Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu
genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o
interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava,
inspirava e electrisava?

Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta
viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a
70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de
forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do
espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva
mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e
soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa
de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser
frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos
ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de
Martinica, ou, como pensam alguns chronistas, na proxima de Santa
Lucia.

Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar
em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito
ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse
proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.

Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando
autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de
navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem
de receber viveres.--Acredital-o-heis?--Prohibiu-lhe Ovando que se
approximasse de S. Domingos!--Era assim expellido brutalmente das terras
de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e
almirante!--Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse,
pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que
ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de
seus pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica
foi-lhe denegada a licença!

Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel
de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de
homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos
memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes
secundarios, que agora dominavam!

Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como
pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e
particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro
escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a
tormenta que approximava.

Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S.
Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola
que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha
Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla
exhalou a vida no seio das vagas em que foram as embarcações
submergidas.

Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de
Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da
Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme
Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a
costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi
seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a
Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa
quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por
ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal
precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das
noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e
Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de
que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a
localidade mais apropriada para a fundação de uma colonia européa,
e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas
bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.

Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias
começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só
terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o
commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o
haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam
penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente
esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E
entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não
conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado
pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas
imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia,
posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais
perigosos parceis.

Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao
qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio
apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe
pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que
servisse á projectos futuros.

Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação
de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio.
Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo,
porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem
que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou
Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á
frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais
proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente
a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e
que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto
do interior precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se
soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um
tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu
denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi
fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito
tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a
exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse
proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar
sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o
assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus
navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua
por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada
momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de
descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se
afundavam á olhos vistos.

Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das
caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar
aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a
viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o
concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não
ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as
suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas
assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o
resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a
tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os
indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem
soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella
embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos
pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando
que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria navio, em que
podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe
auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á
S. Domingos.

É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do
infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a
outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que
delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não
menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se
embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de
gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se
importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo
motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo
dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister
continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de
assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á
parte, mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade!
Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que
lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se
ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas,
que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!

Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos
na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a
receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados!
Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e
prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.

Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra
que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e
perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto
Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o
solo, procurando minas de ouro.

Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas,
obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os
com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia
sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda
hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de
opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular,
arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus
desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros
obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam
acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a
robustez dos corpos.

Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a
voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da
Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de
escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos
afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só com a
extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores,
e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta
do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da
cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes
para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á
Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de
seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes
guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de
fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas!
Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de
Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças,
foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila,
fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos
hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia,
e sem que os gentios oppuzessem a menor resistencia quando
surprehendidos em sua aldêa!

Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a
gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos
olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém,
quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma
raça de homens innocentes e pacificos!

Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi
obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos
physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres
de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504,
cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas
reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos
seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia,
de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando de Aragão, que, além
do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha
D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento
que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a
Valhadolid.

Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou
mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver
tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram
para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795,
cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam,
transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde
então repousam.

Minhas senhoras e senhores.

Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor
delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos
esforços.

Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e
de Colombo, e em todas as linguas européas. Bibliothecas
importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E
portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos,
factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se,
desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram
a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.

Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se
levantaram contra sua reputação depois de sua morte.

Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados
á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia
e insoffrida temeridade.

Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America,
asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e
entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez
que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.

Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses
exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como
antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?

Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande
philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto,
porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois
da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou
outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas
das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as
ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão
o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo
baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se
sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se
communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se
noticias escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante
esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?--Não, nada
delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se
propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando
ellas fossem reaes, não eram conhecidas.

O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por
elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar
ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de
encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam
alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na
ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que
resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram,
porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado
quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia
identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de
descobridor? Quantas vezes se apropria o genio inventor de
trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve
a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao
inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do
feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo
mundo. Antes delle tudo se ignorava.

Que importa que procurasse a Asia, e tomasse a America pela Asia? Não
era a America inteiramente ignorada? Quem adivinhava então que entre a
Europa e a Asia existia um continente tão importante e dilatado?

Que importa ainda que, encontrados na America povos tão distinctos, e
alguns tão adeantados em civilisação como os do Mexico e os do Perú, se
possa dizer que tinham havido communicações entre elles e os de outras
partes do mundo? Com a Asia porventura? De lá teriam vindo, é
presumivel, pelo Norte, aonde quasi se ligam Asia e America. Não só os
monumentos como os traços physionomicos dos Mexicanos, Peruanos e outras
tribus coincidem. Como, porém, se deram essas migrações de povos,
quando se realizaram, eis questões sujeitas ainda á conjecturas mais ou
menos naturaes, não á juizo exacto e certo.

Da Europa, porém, antes de Colombo, jámais fôra aberta navegação: não se
conhecia, nem se adivinhava a existencia da America. Quando muito o
saberiam os asiaticos, e estes não o communicaram nem aos gregos, nem
aos phenicios, nem aos romanos, nem aos egypcios. Seriam os chins, ou os
japonezes, que occupavam terras oppostas e que nem uma relação ou
contacto travavam com os asiaticos do Oeste, persas, judeus ou arabes?

Si ninguem sabia que havia America, em que desmerece seu descobridor por
encontral-a em caminho para a Asia? Não ia elle no proposito firme de
procurar terras ignotas para os europeus?

Não resultou do seu achado--appellidae assim o feito--que importa!--não
resultou gloria para o seu nome, e o que é mais, a maior vantagem moral,
social, politica, physica, intellectual para a Europa e para o mundo!

Na historia universal não raia pagina mais proficua e nem mais gloriosa.

Os passos de Colombo e dos hespanhoes seguiram depois na America
portuguezes, inglezes, francezes e holandezes. Devassando egualmente os
mares atlanticos, tomaram todos parte no continente descoberto: todos
colheram louros, todos conquistaram terras, que povoaram com suas raças,
mas não lhes cabe a gloria que compete exclusivamente ao primeiro
descobridor e á nação que lhe servia.

E quanto não ganhou a Europa, fundando cidades e Estados na America,
creando futuras nações independentes e civilisadas que guardam suas
tradições e suas linguas? Que como filhos a estimam bem que vivam vida
propria e livre?

Tentou-se ainda diminuir a gloria de Colombo com o facto de que elle
morrera persuadido de que descobrira as Indias Occidentaes e não a
America, isto é, um mundo novo.

Não morreu egualmente na mesma convicção Americo Vespucio, o piloto que,
pela primeira vez, em 1499, e depois empregado em armadas
portuguezas, percorreu as costas da America central e as do Brazil, e
falleceu em 1512? O desenhador habilissimo de cartas geographicas, o
feliz mortal emfim, cujo nome coroou o novo mundo?

Como Colombo e quantos navegadores visitaram as terras americanas até
quasi 1520, a Europa inteira persuadia-se que a Asia para alli estendia
e prolongava suas costas maritimas do occidente, e não havia um
continente entre a Asia e a Europa.

Toda a Europa denominava até 1520 a parte da America descoberta de
Indias Occidentaes e pois seus indigenas de Indios. O proprio continente
brazilico passou por muito tempo depois de seu achado quer por Pinzon
quer por Cabral, depois de explorações já effectuadas pelos portuguezes,
hespanhoes e francezes como uma enorme ilha assim descripta e pintada
nos mappas que se publicavam na Europa.

Para saber-se que era um mundo novo, mesmo depois que já hespanhoes,
portuguezes, inglezes, francezes e hollandezes, para alli navegavam,
alli traficavam e alli formavam presidios e colonias, foi preciso
que um audaz aventureiro hespanhol, Vasco Nunez de Balboa, subindo, em
1513, ás altas montanhas do isthmo de Panamá, daquelles cimos levantados
descobrisse o Oceano tranquillo ao Oeste, e das terras d'além e dos
proprios mares tomasse posse em nome de Hespanha. Foi preciso que em
1519 o cavalheiro Cortez tivesse domado o imperio do Mexico; que em 1520
Magalhães,--portuguez no feito, mas não na lealdade--buscando egualmente
as Indias emprehendesse e praticasse, seguindo o isthmo, que ainda hoje
conserva seu nome, a primeira viagem em derredor do globo; que
finalmente o arrojado e sanguinario Pizarro encontrasse em 1527 o
imperio dos Incas na costa do Oceano Pacifico.

Só de então por deante é que se alteraram os mappas geographicos,
destacando-se da Asia o mundo novo, e particularisando-se como
continente proprio. E o primeiro _mappa-mundi_ que se desenhou assim,
com a separação da Asia e America, data de 1530; foi publicado em
Baulez, e attribue-se á Pomponio Mela, que applicou ao novo mundo o
titulo de America, deixando de denominal-o como até alli de Indias
Occidentaes por que era geralmente conhecido. Appellidou-o de America,
sem duvida, porque as melhores cartas geographicas da época tinham a
assignatura de Americo.

Nem a Americo se deve attribuir a responsabilidade de tão negra
injustiça; chamava-a elle de Indias Occidentaes, como todos os seus
contemporaneos, e assim rubricava as cartas que espalhava com sua
assignatura.

Esta assignatura de Americo, nas cartas geographicas, causa foi de se
lhe dar seu nome, e não outro ao continente descoberto por Colombo.

Segundo a opinião de alguns geographos, foi um Martinho Waldizemuler que
em um tratado de cosmographia publicado em Saint Dié, annos antes,
lembrara a conveniencia de chamar-se de America as Indias Occidentaes,
porque os melhores mappas e roteiros haviam sido por elle desenhados e
impressos.

Confirmaram o titulo as edições, que desde então se repetiram, daquelle
_mappa-mundi_ de 1530, e que se derramaram profusamente, firmado o erro,
que o tempo consagrou, e que nunca mais se conseguiu corrigir, apezar de
haverem empregado bastantes esforços muitos afamados e eruditos sabios
da Europa.

Não obsta ainda que antes que Colombo visse a terra firme e nella
pisasse, o houvesse effectuado o audaz Caboto, em 1497.

Não eram partes da America as ilhas de Haity, Cuba, S. Salvador, Porto
Rico, Jamaica, Guadelupe, de que já Colombo se apossara, e onde fundara
fortes e até povoações hespanholas? Podemos pela fórma seguinte
estabelecer as datas dos descobrimentos da America: em 1492 Colombo; em
1497 Caboto; em 1499 Ojeda; em 1500 Pinzon, e logo após no mesmo anno
Cabral e Corte-Real. Cabe a gloria de preferencia a Colombo, cabe-lhe
exclusivamente a gloria do descobrimento da America. Seu nome ligou-se
para sempre ao novo mundo, e nenhuma pretensão, por mais ousada,
conseguirá roubar-lhe os louros, que lhe foram dispensados com toda a
justiça. Todos os mais navegadores seguiram apenas seus passos, bem que
se distinguissem com façanhas dignas de memoria.

--Minhas senhoras e senhores!

Tenho concluido a missão que me foi confiada de conversar comvosco a
respeito de Colombo e do descobrimento da America, no momento em que
grandes festas se preparam em Hespanha, Chicago e Genova no intuito de
commemorar-se o quarto centenario do dia glorioso--12 de outubro de
1492, em que o novo continente raiou para Europa e lhe revelou sua
opulencia e suas grandezas. Não tratei de narrar episodios, que a
legenda ajuntou á historia, pensando ornal-a, quando a escurecia e
falsificava. Mais de cem livros, mais de quarenta escriptores examinei e
estudei para poder extrahir de suas narrativas o que só fosse exacto, e
se houvesse realizado. Joeirei, comparei, contrastei os ditos e
asseverações de todos, desprezei os que se não comprovam, e
expuz-vos com franqueza e lealdade o que se póde e se deve appellidar
verdade historica.

Faltavam-me qualidades, sei-o bem, para satisfazer plenamente vossa
curiosidade, attrahir vossa attenção, captar vossa benevolencia; todavia
a concurrencia numerosa e ininterrupta, que teem provocado estas
conferencias, os applausos que immerecidamente me haveis prodigalisado,
provam-me que, dados os devidos descontos ás habilitações do orador,
tendes apreciado suas intenções, e portanto grangeado, para todo sempre,
seu profundo reconhecimento.



INDICE


                                                                      PAGS.

PROLOGO...

PRIMEIRA CONFERENCIA--Situação moral e politica da Europa ao principiar
o seculo XV--As diversas nações--Portugal--Principios de descobrimentos
de terras desconhecidas--Unica nação que se dedica ás navegações
ultramarinas--Principes D. Pedro de Coimbra--D. Henrique de Viseu--D.
João II--Serve em Portugal Christovam Colombo--Propõe-se á ir
directamente ás Indias pelo Oeste--Recusa--Abandona Portugal..........   1

SEGUNDA CONFERENCIA--Colombo em Genova--Nada consegue--Parte para a
Andaluzia--Obtem protecção para Isabel, Rainha de Hespanha--Apresenta
seu plano--Sujeita-se ao Concilio de Salamanca--É recusado--Tenta
procurar outro paiz que o auxilie--É chamado de novo pela Rainha--Tomada
de Granada--Contracto para a expedição maritima--Preparativos de tres
caravellas em Palos, que se lhe confiam--Primeira viagem..............  25

TERCEIRA CONFERENCIA--Peripecias da viagem--Descobrimento da Ilha de S.
Salvador--Reconhecimento da terra e dos habitantes--Visita á outras
ilhas e á Cuba--Fixa-se no Haity--Descripção das localidades e mares
novos--Deixa um forte e quarenta hespanhoes--Volta para Hespanha--Seu
acolhimento pelos monarcas e pelo povo................................  57

QUARTA CONFERENCIA--Segunda viagem--Descobrimento de novas ilhas no mar
das Antilhas--Funda uma cidade no Haity--Percorre as costas, bem como as
de Cuba e Jamaica--Encontra minas de ouro, cuja exploração
começa--Revoltas de hespanhoes--Trafico e captiveiro dos
indigenas--Desespera-se com a vinda de um syndicante--Confia o governo
ao irmão, e dirige-se de novo á Hespanha--Volta para Haity--3ª viagem--É
preso por Bobadilha, e remettido em ferros para Hespanha..............  95

QUINTA CONFERENCIA--Descobrimentos de hespanhoes, portuguezes e
inglezes--Impressões da Europa--A verdadeira Asia visitada por Vasco da
Gama--Colombo é solto, e realiza a 4ª viagem--Desastres e decepções que
soffre--Volta á Hespanha e morre--Considerações sobre o descobrimento da
America--Primeiros globos e mappas á respeito--Americo Vespucio--Quando
se soube que era continente proprio e separado da Asia--Como alli, após
hespanhoes, entraram inglezes, portuguezes, francezes e
hollandezes--Como se lhe deu o nome................................... 137



OBRAS DO MESMO AUTOR

JÁ PUBLICADAS

HISTORIA DA FUNDAÇÃO DO IMPERIO BRAZILEIRO--Comprehendendo:

    1º periodo de 1808 a 1825 3 vols. 2ª edição.

    2º   »     de 1825 a 1831 1 vol.  2ª   »

    3º   »     de 1831 a 1840 1  »    2ª   »

CURSO DE HISTORIA DOS ESTADOS AMERICANOS--Comprehendendo: America do
Norte, Mexico, Perú, Chile, Venezuela, Equador, Nova Granada, Buenos
Aires, etc. 1 vol.

NACIONALIDADE, LINGUA E LITTERATURA DE PORTUGAL E BRAZIL 1 1 vol.

VARÕES ILLUSTRES DO BRAZIL DURANTE OS TEMPOS COLONIAES 2 vols. 3ª edição.

MEMORIAS LITTERARIAS E POLITICAS 2 vols.

DISCURSOS PARLAMENTARES 2 vols.

POESIA EPICA E POESIA DRAMATICA 1 vol.

JERONYMO CORTE-REAL, chronica do seculo XVI 1 vol.

MANOEL DE MORAES, chronica do seculo XVII 1 vol.

D. JOÃO DE NORONHA, chronica do seculo XVIII 1 vol.

ASPASIA--Narrativa do seculo XIX 1 vol.

GONZAGA--Ensaio poetico 1 vol.

LITTERATURE PORTUGAISE, son passé, son état actuel 1 vol.

SITUATION SOCIALE, POLITIQUE ET ECONOMIQUE DE L'EMPIRE DU BRÉSIL 1 vol.

FELINTO ELYSIO E SUA ÉPOCA 1 vol.

Curiosidades da historia e da legenda 1 vol.





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