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Title: O Romance d'uma cantora
Author: Sirven, Alfredo
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Romance d'uma cantora" ***

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                   Nova Bibliotheca Economica
                        Leitura para todos

                   Travessa da Queimada, N.º 35
                              LISBOA


                          Alfredo Sirven

                            O  ROMANCE

                               D'UMA

                              CANTORA

                      TRAD. DE S. DE MENDONÇA

                         PORTUGAL 100 réis
                          BRAZIL 600 réis



CORREIO DA EUROPA

O jornal mais antigo que de Portugal se destina ao Brazil

Completamente imparcial, sem se envolver na politica brazileira; com
largas secções do movimento official portuguez, dos acontecimentos do
estrangeiro e da vida nacional em todas as provincias, acompanhando com
a gravura todo esse noticiario.

Vai (em 1897) no seu 18.º anno.

Nunca alterou os seus preços, não obstante a situação cambial.

ASSIGNATURAS

_NO BRAZIL:_

Anno, 5$000 réis fracos; Semestre, 3$000 réis

Numero avulso, 200 réis

_EM PORTUGAL:_

Anno........... 2$000 réis

ANNUNCIOS

Cada linha, na respectiva secção, 40 réis fortes. Na 1.ª pagina, 200 réis.

Artigos e communicados contractam-se:

EM LISBOA--Travessa da Queimada, 135.

NO RIO DE JANEIRO--No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n.º 89--1.º andar.



O ROMANCE D'UMA CANTORA



Nova Bibliotheca Economica

LEITURA PARA TODOS

O MAIOR SUCCESSO DE EDITORAÇÃO EM PORTUGAL!!!

100 réis cada volume de 300 paginas, em media

DOIS VOLUMES POR MEZ

Nas provincias, 120 réis por volume, franco de porte.

Aos revendedores, 20 por cento de commissão

ROMANCES PUBLICADOS

1--Luiz Noir--A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas.

2--Eugenio Chavette--Os companheiros do crime, trad. de A. Sarmento.

3--Visconde Henri de Bornier--Romance d'um auctor dramatico, trad. de
Portugal da Silva.

4--Mauricio Drack--A Mestra, trad. de N. de Bulhão Pato.

5--Edgar Montell--João das Galés--traducção de C. Dantas.

6--Eugenio Chavette--Lili, Tútú e Babette--trad. de A. Sarmento.

7--Arsenio Houssaye--Joanna d'Armaillac, trad. de H. de Oliveira.

8--Paulo Féval--A rainha dos estudantes, trad. de S. de Mendonça.

9--Mayne-Reid--Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal.

10--Victor Perceval--Uma mulher perigosa, trad. de S. de Mendonça.

11--Mauricio Talmeyer--Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento

12--Heitor Malot--Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira.

13--Alfredo Sirven--O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de Mendonça.

A SEGUIR:

14--F. Champsaur--Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha.

ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35

LISBOA



ALFREDO SIRVEN

O ROMANCE

D'UMA

CANTORA

TRAD. DE S. DE MENDONÇA

LISBOA

1895



TYPOGRAPHIA DO «DIARIO ILLUSTRADO»
35--Travessa da Queimada--35
LISBOA



O ROMANCE D'UMA CANTORA



I

A catastrophe


--Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!... Ora
adeus!... não pode ser!... Hei de ver isso!

Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se.

E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse
illudir-se sobre o estado do seu coração, persuadindo-se estar curado da
paixão que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si.

--Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia, procurando qualquer
coisa pelo quarto, destrahidamente, porque nada lhe faltava, a não ser
que chegasse a hora d'ir para a Opera.

Os labios diziam: _hei de ver_, mas o coração tinha visto já.

Amava Linda, a _estrella_ do dia, a diva que, do ceu da Opera,
scintillava sobre Paris fascinado.

O visconde obtivera-se d'assistir ás ultimas quinze representações,
fugindo assim á fascinação que a grande artista exercia sobre elle.

Tratava, pelo afastamento, o começo da paixão, que o assustava.

Durante esse tempo violentára-se, domára o coração com a grande força de
vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso.

O theatro da rua Le Peletier annunciára, para aquella noite, um
magnifico espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente.

Cantavam-se os _Huguenottes_, desempenhando Laura Linda, pela primeira
vez, a parte de Valentina.

Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir á representação,
porque no camaroteiro não restava um só bilhete.

Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada.

Se procurava uma occasião para experimentar-se, não podia encontral-a
melhor.

--Irei aos _Huguenottes_! resolvera elle, depois de curta discussão
comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente
curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impressão,
simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que
ámanhã de manhã partirei para Saint-Malo, e que só no começo do inverno
voltarei a Paris.

E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura,
abandonada por mais de quinze dias.

Trocou apertos de mão e palavras de cumprimento com alguns conhecidos
que encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente:

--Adeus, formoso bretão!

Antonino era, efectivamente, um bello rapaz.

A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a
mais completa linha d'elegancia.

Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o
verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a força á distincção.

O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera.

Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma
d'essas catastrophes que gravam uma data com traços indeleveis, mesmo na
memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris.

Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu.

Não se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se
ter deixado de a ver por alguns dias.

Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que
fôra apenas a artista que o emocionára.

Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque
Laura, afinal,--tinha de confessal-o,--possuia raro talento.

Durante a representação declarou a si proprio que não vira Linda, apenas
admirára Valentina.

O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa
de inconsciente embriaguez.

Por fim a grande ovação rebentou, imponente, com a furia da emoção que
trasborda.

Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes,
apparecendo sempre sorridente, formosissima.

Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida.

E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria,
incapaz de levantar-se, de seguir a multidão que sahia.

Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta.

Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos
espectadores, que sahiam.

Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado?

Um porteiro foi convidal-o a retirar-se.

Como não recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o.

Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de
desancar o porteiro.

Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida.

Antes de transpôr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e
retrocedeu, entrando novamente na platéa.

Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho.

Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado:

--Olhe!... alli!...

--Que desgraça!... Fujamos!...

Não havia que duvidar.

O fio de fumo engrossava progressivamente.

Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme.

Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas
atraz do visconde corria o porteiro, gritando:

--Fogo!... Fogo:!...

As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fóra do theatro.

Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda,
immediatamente.

A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de
se poder salvar?

As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas.

O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando
já a muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os
corredores.

Lembrou-se então da porta d'entrada para os artistas, que abria para a
rua Drouot, na outra extremidade do edificio.

Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que
chegavam.

Chegado á porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia
aos camarins dos artistas.

O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado.

Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com
claridade amarellada, a densidade baça d'aquella especie de felpa
cinzenta, que enchia os corredores, pouco a pouco.

Sombras corriam para todos os lados, espavoridas, sem responder ás
perguntas afflictas de Antonino, sem as ouvir.

Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde não sabia onde ficavam
os camarins.

Bateu á primeira porta que encontrou, forçou-a violentamente, sem dar
tempo a que lhe respondessem, e entrou.

Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero:

--Soccorro!... soccorro!... A senhora está incommodada!

--Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino.

--Sim!... O medico... onde está o medico?

--O camarim?... Diga-me onde é o camarim!

Mas a mulher não ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada
vez mais espesso.

Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia.

O visconde ficou mergulhado n'uma escuridão pesada, completa, em que se
desenvolvia um calor violento.

Caminhou ás apalpadellas, batendo com as mãos nas paredes e chamando com
voz forte:

--Linda!... Linda!... Onde está?

Mas ninguem lhe respondia.

Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez com mais força, e
arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava.

Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco.

Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a,
accendeu um.

A alguns passos de distancia viu uma porta aberta.

Entrou por ella precipitadamente.

Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio
desmaiada.

O phosphoro que Antonino tinha na mão, apagou-se.

Com um outro, tentou accender o gaz, não conseguindo, felizmente o seu
designio.

--Onde estou eu? perguntou Laura de repente.

--Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa.

Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos
braços para a conduzir.

--Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me dê a mão.

Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra.

Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia até ao tecto,
onde se immobilisava em camadas cinzentas.

Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores,
onde dançavam já as chammas do incendio.

Apesar da natural turbação que o sinistro lhe causava, Antonino
experimentava deliciosa sensação por ter na sua a mão de Laura.

Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava
sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto
que lhe ficava superior. O calor abrazava.

--É muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a
presença de espirito. Necessitamos passar á platéa, atravessando o palco.

--Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz á scena.

O visconde seguiu a cantora.

Dirigiram-se para a escada de serviço.

Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas
as direcções, d'archotes em punho, dando indicações uns aos outros, em
voz breve.

Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela
potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes
vomitados por boccas invisiveis.

Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta
crepitamentos seccos.

O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e
invencivelmente, a nave immensa da platéa.

A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que
pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo.

O fogo chegou ás torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decorações do
salão, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado.

--Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam
todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio é mais forte que nós!

O soalho do palco queimava os pés dos que sobre elle caminhavam.

--Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos saltar
para o espaço destinado á orchestra, e d'aqui a dois minutos será tarde.

--Ainda cá está alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara para
traz.

--Aqui, estão aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a salvar
uma mulher.

O bombeiro saltou da platéa para o palco e disse a Antonino:

--Eleve-se a pulso até esse camarote de bocca; logo que lá esteja, eu
levantarei esta senhora, por fórma que possa agarral-a.

O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando o peito na borda
do camarote, estendeu os braços para Laura, que, elevada pelo bombeiro,
poude agarrar-se ao seu salvador.

Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes:

--Agora fujam depressa, porque...

O desgraçado não acabou.

O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem,
que repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas.

--Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!...

Como as taboas não tinham quebrado completamente, conseguiu depois de
muitos esforços, retirar o corpo d'aquella solução de continuidade em
que cahira, e muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda
estavam Laura e o visconde, a quem estendeu os braços, implorando salvação.

Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato.

Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mãos.

--Ajude-me!... não me abandone!... dizia o infeliz.

E deligenciava chegar até á mão do visconde, que por fim logrou agarrar.

De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e á perda inesperada
d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio.

Laura percebeu o perigo; lançou os braços, tornados fortes pela
imminencia do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle
com força.

Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforçou-se
por puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos.

Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu
escorregar-lhe da mão o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella
fornalha monstro.

O desgraçado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos!

E mais nada!

Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura.

A cantora perdera os sentidos.

O visconde estava meio asphixiado.

Parecia-lhe que respirava fogo.

Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas
d'agulhas.

Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre
os dentes o lenço d'assoar, cerrando os labios como que para preservar
do oxido de carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmões.

Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braços a
cantora, como se ella fosse uma creança, e sahiu do camarote,
percorrendo o corredor.

Aquella parte do theatro era-lhe conhecida.

O incendio desenvolvia-se no salão, com toda a intensidade.

O lustre abateu, produzindo ruido enorme.

A grande escadaria estava ainda praticavel.

O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os
cabellos queimados.

Um minuto depois chegava á rua, acclamado pela multidão enthusiasmada.

N'esse instante abateu o tecto do salão.

Pelo espaço espalhou-se infinita quantidade de faulhas.

O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente,
polvorisado de faiscas, alumiou sinistramente a cidade.

A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhidão das chammas.

Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se
distanciavam em espiraes phantasticas, fazia dançar as chaminés uma
dança macabra, no espaço afogueado.



II

Antonino de Bizeux


Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes.

Até então vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de
Saint-Malo, ou, na epoca da caça, no castello que possuia proximo de
Rascoff.

O visconde viajára muito.

Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa.

Entrára na vida parisiense conservando todas as suas illusões, mas
possuido do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se
tornar distincto na distincta sociedade, de que passava a fazer parte.

Caracter firme, sincero, honrado--honrado até á ingenuidade--os seus
pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o
que pensava.

Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito
d'um phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso.

Depois, pouco a pouco, fôra-se limpando da sua simplicidade primitiva e
tomando pé na encapellada torrente parisiense.

Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo
cunho d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das
mulheres, as eternas curiosas.

Tinha poucos ou nenhuns amigos.

O seu nome e a sua fortuna, porém, fizeram com que adquirisse innumeros
conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse
retardado da civilisação, a quem chamavam _formoso bretão_ e _selvagem_.

Selvagem era elle seguramente, não porque lhe repugnasse o prazer, mas
porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos,
conservava puro o coração.

Sobre o ponto _mulheres_, absolutamente sem importancia para homens que
frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e
procedia contrariamente aos seus companheiros, porque elles tinham
os seus amores, e Antonino só poderia ter um amor.

Em poucos mezes saboreára todos os prazeres possiveis sem se embriagar;
estivera exposto a todas as seducções sem ser seduzido.

Não pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do
seu compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu
dolente aborrecimento só teem uma ambição e um sonho: divertirem-se.

O visconde possuia solida instrucção, fallava duas ou tres linguas; era
um litterato e um _dilettante_.

Amava a arte sob todas as suas variadas fórmas, mas sobretudo era
apaixonado pela musica.

Por essa razão tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos _habitués_
da Opera.

A sua cadeira raras vezes ficava vazia.

N'essa epoca, como já dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella
de primeira grandeza que eclipsava todas as outras.

Antonino era ardente admirador da diva.

Adorava-lhe a voz e a expressão maravilhosa do canto.

Mas, coisa extraordinaria, passára muito tempo sem reparar que Laura era
formosissima.

Poderia passar dias inteiros a admirar a grande artista
interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, não
voltaria a cabeça para a seguir com o olhar um minuto mais do que a
qualquer outra mulher.

De resto, a sua admiração pela cantora jámais se manifestára de fórma a
dar nas vistas.

Nem um _bouquet_ offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo.

Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo.

Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas
representações em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi
extatico d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena.

Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva.

A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o
julgavam louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se,
convencido de que os seus interlocutores não comprehendiam a que
sentimento obedecia.

Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as
suspeitas.

Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelação.

A datar d'esse dia consultou o coração, espiando todos os variados
sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os amigos não
tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome exacto á
attracção que Laura Linda exercia sobre elle.

A diva, pelo seu lado, reparára n'aquelle espectador que todas as
noites, da sua cadeira, a seguia com olhar ardente.

De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas.

Deixára que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador,
da reputação de selvageria de que elle gosava, mas não admittira que
Antonino estivesse apaixonado por ella.

Fosse intenção ou simples desejo de ser admirada por aquella fórma,
Laura quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe
intimamente a reserva em que elle se conservava, reserva que
desagradaria a qualquer outra.

Uma noite,--é possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,--como tinha
d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por
muito tempo.

Áquelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados
pelo formoso bretão.

O visconde, porém, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado.

É provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a
noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar
d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impressão desagradavel.

Até d'uma occasião o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido,
como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que
desempenhava.

Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou
d'Antonino.

--Apaixonado, aquelle?... Está enganada, disse ella. Será, quando muito,
um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei
algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu
papel!

N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva.

Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e
zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distracções
em que a cantora incorrera.

Entrevira pela primeira vez a mulher através da artista.

Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou
ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre.

E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando
a diva.

Pela manhã assaltou-o uma preoccupação.

Porque olhara Laura para elle?

Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a
impeccavel?

Á medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher,
absorvia-lhe imaginação.

Quando deu por isso encolerisou-se, e, só no seu quarto, disse alto,
despeitado, quasi furioso:

--Não quero!

No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo,
e pensando não voltar lá se, á entrada de Laura, sentisse a mais ligeira
commoção.

A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores.

Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores.

Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durára, só
encontrara em si o simples melómano.

Comtudo a sua tranquilidade não era obsoluta.

Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse.

A Linda não tivera a mais ligeira distracção, conservara-se sempre a
artista superior que nem um segundo se esquece da personagem que
desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do visconde.

Esta ultima circumstancia não passou despercebida a Antonino, e muitas
vezes lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe
uma sensação desagradavel, que não estava longe do despeito. A diva
n'essa noite foi surprehendente.

Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, só Antonino
não deu o seu contingente de palmas ou flores.

Assistiu á ovação contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente,
como se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora.

Entre outros ramos, cahiu aos pés da diva um, de lilazes brancos,
lançado ao proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino.

Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro?

E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o
offerecera?

Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor
preferida pela diva.

O visconde, porem, é que não considerou explicavel o facto, e
levantou-se da sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os
corredores e seguindo para casa sem demora.

N'aquella noite teve febre.

No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella
declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a
estado de só poder ser contratada para theatros d'operetta.

Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal,
a musica, era uma arte secundaria.

Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas.

Amava Laura.

Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar.

Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do
coração eram d'isso prova irrefutavel.

Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.

Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho
lançar á diva um ramo de que ella gostara?

Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade.

Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!

Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda,
porque, custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida!

Quinze dias depois de proceder pela fórma que a si mesmo impozera,
convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo.

Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir
ao seu divertimento predilecto.

De resto, desejava colher a prova evidente da cura.

Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no
quarto, não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar
as suas forças.

Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo
da Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no
capitulo anterior.



III

Laura Linda


Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o
maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o
talento de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que
o visconde sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.

Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.

No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de
sollicitações de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de
casamento, e ninguem jamais lhe conhecera amante.

A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.

Laura era hespanhola.

Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia
illustre porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.

Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie
de despreso.

Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a
um rei.

De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias,
era, desde muito tempo, uma casa arruinada.

O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial,
mas a grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára.

O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O
pouco dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras.

Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de
Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar
a sua reputação e refazer a sua fortuna.

A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á
scena.

Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára o amor pela
musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco annos e gosava já de grande e
merecida reputação de violinista.

Foi o filho que velou pela sustentação do pae.

O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se.

Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que
elle as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao
publico não lhes levasse mais algum dinheiro.

Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma
que o pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a
realisação da sua gloria posthuma.

Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a
que poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle
despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro.

Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas
egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais
poderia juntar um pequeno capital.

E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não
sabia tratar dos seus negocios.

Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario
embolsasse a maior parte dos ganhos.

Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel
reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os
que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que
d'ordinario não lhe pagavam.

Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.

Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar
particularmente um filho, retribuindo-o principescamente.

Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como
tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino
durante o tempo das lições.

Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu
discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a
leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a
remuneração das lições.

Marcia, tentado pelo lucro, continuou.

Mas a tentação durou apenas uma semana.

Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:

«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente
estupido.»

Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura.

Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.

Á falta de dote possuia rara belleza.

Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como
o rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher
com o canto surprehendente do seu violino.

A joven passava horas a escutal-o, embevecida.

O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi
esposa dedicada, e a melhor e a mais terna das mães.

Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da
arte.

Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.

Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro
instrumento melhor: a voz.

A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.

A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo,
considerava o palco como um logar de perdição.

Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa,
renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e
feliz na vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor
de mãe.

Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa,
acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.

Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um
concerto de beneficencia.

Obteve um verdadeiro successo.

Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo
como ao pae.

José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido
por Laura.

A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e
discipula seria uma artista de primeira ordem.

Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.

A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento.

O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a
filha cantasse, senão raras vezes.

Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu
natural emprezario.

Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de
Pozzoli, aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de
theatro, a Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias.

Do Scala foi contractada para a Opera de Paris, porque Laura fallava
e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma nitidez
d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez.

Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua
formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.

O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois
de chegarem.

Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.

E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem
elle lh'o deixou.

José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que
durante a vida sempre tivera.

Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas
conseguia não ter dividas.

E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os
creados gastassem como lhes aprouvesse.

--Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar
o meu dinheiro!

Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima.

A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e
guardava-a, como se fosse a propria mãe em pessoa.

Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o
compromisso tomado.

De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente
mesmo com as fraquezas que repudia.

Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se
respeitar.

Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade,
repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que
só lhe fallavam d'amor.

Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava
resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no
theatro, o que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.

Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta
historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae
da cantora.

Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente,
casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma
_primadona_ de primeira ordem.

Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com
varias das suas contractadas.

Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que
luctava como emprezario.

Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se doidamente pela
diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse que o movia
a dar-lhe o seu nome e a sua vida.

Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que
tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu
de Milão para Florença.

O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que
desejavam casar com ella.

Mas perdiam o tempo e o trabalho.

Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito
infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.

Fôra ajudante d'um professor d'esgrima.

Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.

Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e
era sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando.

Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o
imperturbavelmente.

Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.

Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que
especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á
forma pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma
frieza que bem se podia alcunhar de desdem.

Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se
possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o
desejo, que sentia pela cantora.

Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu
descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que
se inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava _Casta diva_.

--Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no _foyer_ dos artistas. Não tenho
paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem
defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida
perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor,
que serei o segundo.

Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um
original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um
verdadeiro artista.

Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o
talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.

Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se
d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.

A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho
um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.

--Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco
como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me
enganasse, e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria
duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu!
Convencionemos o seguinte: não serei seu amigo, serei seu idolatra. E
desde já te peço licença para te tratar por tu, como á divindade!

De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.

Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr.
Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos
theatros, sobre tudo dos theatros de canto.

Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol,
mercê das magias homoeopathicas do dr. Despujolles.

Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, homoeopathica
tambem, do amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto,
acabou não só por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura
lhe confiava.

Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas por Antonino de
Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, affectando indifferença, mas
sentindo na realidade um interesse e emoção de que elle não se
apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem
qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a
ser menos perigosa para elle.



IV

O dia seguinte


Era quasi meio dia.

Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada
ainda, sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um
montão de cartas e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o
marmore d'um velador.

Por entre os nomes do que vulgarmente se chama _todo Paris_, procurava
um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas a
lapis sobre os papeis que folheava.

Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo.

Era de Pozzoli.

Dizia o antigo emprezario de Laura:


«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa
da distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura
escripturada».


Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.

O tenor escrevera:


«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não
estavas junto d'ella para a salvar».


Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete.


«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma _alleluia_
triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas
receber o teu mais humilde admirador.

                                                            _Remissy_».

A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o
a almoçar no dia seguinte.

Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o
necessario para escrever.

Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.

Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e
cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.

Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal.

--Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas
entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu.

--Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.

--Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?

--O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo.

--Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. E
eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria.

--É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.

--E bonito!

--Jacintha!...

--Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a
qualquer homem, ainda que elle fosse como S. Miguel Archanjo, e
faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão!

--Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda
entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.

Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.

--Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que
atravessou impunemente as chammas!

--Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma
carpa se não tivesse quem a ajudasse.

--Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã?

--Sei.

--Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o somno.

--Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada.

--Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como
era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.

E chamou.

Appareceu Jacintha.

--Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.

--Sim, sr. doutor.

--E então? Há mais juizo agora?

Jacintha tornou-se purpurina.

--De certo, sr. doutor.

--Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens
d'haver-te commigo!

Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.

--É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma
solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!

--Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone?

--De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um
precioso _sujet_ physiologico para observar--desculpe-me o termo--o
animal na mulher.

--Oh! doutor!

--Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o
animal não existe.

--Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em
momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama
espirito. A noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de
fogo, acabava eu de me vestir. Jacintha--o instincto--que estava no meu
camarim, fugiu immediatamente, e eu--o espirito--que temo o fogo mais do
que qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os
joelhos, fiquei impossibilitada de fazer o menor movimento.
Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me.
Tentei caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que
ia buscar quem me soccoresse.

--Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita
dedicação, não haja duvida!

--Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo, Jacintha
lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, soluçando,
querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a matei!
quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar,
levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu
n'um mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido
lançar-se ao Sena.

--Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma
verdadeira lenda.

--E parece lenda, com effeito.

Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao
momento da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido
os sentidos.

--Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua de
Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria
por me ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali tambem, com o
fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito por ver
que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos _habitués_ dos
_fauteuils_ d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe
que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu?
Isto: «Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo
que obtive, ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle
me desse o seu cartão.

--E conserva o cartão de tão modesto homem?

--Eil-o aqui... O doutor leu:

--ANTONINO DE BIZEUX.

--Conhece-o?

--De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado
como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na
Opera, e, se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela
minha querida Laura.

--Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a
vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que
não ha outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de _dilettante_.

--Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como
recompensa, elle não se contentará com a promessa d'uma nova
escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida?

--Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava.
Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o
cartão d'elle entre os outros.

--Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do
meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei
buscar á pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto.
Prohibo-a de receber quem quer que seja.

--Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com
vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com
certeza.

--Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo,
comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o
que é grave.

E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:

--Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos
dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve
cahirá n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma
completa tranquillidade d'espirito.

--Comtudo... disse Laura.

--Não ha comtudos...

--Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura...

--Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias
tratará d'esse negocio.

--Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy,
convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma _alleluia_
que compôz em minha honra...

--Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei
presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.

--E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o
para o almoço?

--Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho,
tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde.

--Que idéa!

--Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um
apaixonado que salva a vida da sua bella...

--O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.

--Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em que
pese á minha numerosa clientela feminina.

--Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem;
affianço-lhe, doutor, que, pensando no sr. de Bizeux, não sinto a
menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que elle esteja ou
não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca desejei
tanto fazer de qualquer homem um amigo.



V

Perplexidades


A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino.

Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual
Remissy e Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar
dos esforços empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie
de preoccupação que se apossára d'ella.

Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor
se despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva
mandar saber noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está
mal?

--Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do
seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada,
no bilhete de visita? Parece-me que é no _boulevard_ Hausmann, mas
ignoro o numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do
visconde, e dentro em pouco lhe mandarei dizer como elle está.

Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete:


«Fui a casa do nosso homem. Está no mais invejavel estado phisico. O
moral nãe me diz respeito.

                                                     _Despujolles._»


Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita á cantora na noite do
incendio, fôra no dia seguinte saber como estava Laura.

Contentára-se apenas com perguntar á porteira como estava Linda, sem
dizer nem deixar o nome.

Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica.

Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu á pergunta
d'Antonino:

--A senhora vae melhorando, mas não poderá receber ninguem antes de dois
ou tres dias.

E advertida por Jacintha, segundo instrucções de Laura, accrescentou:

--O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome?

Antonino respondeu em tom breve.

--Visconde de Bizeux.

--N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha ordem,
desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex.ª que a senhora o recebe...
mas só ao sr. visconde.

Antonino interdicto, respondeu:

--Bem... mas hoje é impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e já é
tarde... Transmitta á senhora os meus agradecimentos e os meus
respeitos... Eu voltarei.

E sahiu como se fugisse.

Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara.

--Singular indifferença essa! disse a cantora.

O que o coração d'Antonino sentia era justamente o contrario da
indifferença que Laura lhe suppunha.

Tanto de dia como de noite o visconde só pensava em Laura.

Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo.

Mas desejava tanto isso, que tremia.

Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca.

E não voltou á rua de Bolonha.

Quando Laura pôz Despujolles ao corrente da situação, e medico disse:

--Oh! oh! o caso é mais grave do que eu julgava. Como é que um valente,
que a arrancou ás chammas do incendio, treme diante da minha amiga?
Afinal, o caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora,
augmentou de intensidade. O infeliz está em um estado verdadeiramente
inquietante.

--Não mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o medico,
mas que entendeu conveniente não annuir ao que Despujolles dizia. Mas
emfim, eu não o tornarei a ver?

--Seria o melhor para ambos.

--Está enganado, doutor. Mesmo quando a sua observação fosse justa, é
necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos
seus doentes a distancia? Não. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu
tenho curas que me honram.

--Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser
generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe ámanhã ao meio dia um
bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera.

No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um
cartão de Laura, as seguintes linhas, escriptas pela cantora em
seguida ao nome:


«Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita á que lhe
deve a vida.»


Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o á gare d'Oeste.

Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir.

Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino,
disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado
dito que ia ver o pae.

O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou
o caso, ajuntando:

--Decididamente a doença torna-se alarmante! O visconde está apaixonado
até á indelicadeza!

Como não podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a
fuga, Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte,
a Laura, este telegramma:


«Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui
subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. Ámanhã volto a
Paris, terei então a honra de lhe apresentar os meus respeitos.»


Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao
contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda
mais da cantora.

Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel
fraqueza.

Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias
d'ella, e quando quizesse podia procural-a.

Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque
nunca soffrera tanto.

Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia,
onde vivia o pae e uma irmã mais velha, solteira ainda.

Tres dias depois, cançado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a
tudo confessar a seu pae.

O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia.

Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante.

Amára uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o
defeito de ser pobre e plebea.

O conde de Bizeux, avô de Antonino, era um velho rigido, intractavel
em questões de nobreza e importancia patrimonial.

Não se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle
amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de
fortuna avultada.

Aquelle enlace de conveniencia não podia fazer felizes os esposos.

Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle,
tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordações.

A filha mais velha parecia-se com a mãe, mais feia, mais orgulhosa, mais
devota ainda.

Recusára sempre casar-se, não querendo entregar-se a qualquer homem, que
apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito.

Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux não tinha outra consolação além do
amor por Antonino.

Essa grande estima que tinha pelo filho não impediu que se separasse
d'elle emquanto o visconde viajou, e que não quizesse acompanhal-o a Paris.

Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordações do
passado.

A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por
sua vez tambem, a excessiva indulgencia.

Foi por essa razão que o conde de Bizeux recebeu a confidencia
d'Antonino com a simpathia terna d'um irmão.

O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura.

Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.

Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma
semana, chamou-o e disse-lhe:

--Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris.
Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma
mulher que não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode
ter-te amor, é certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não
virá a amar-te? Pelo que sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não
amou nunca, não amará talvez. Mas approxima-te, não como uma creança que
teme, mas como um homem que não recua nem ante uma decepção, nem ante um
grande desgosto. Quem sabe se, quando a conheceres bem, não acharás que
Laura não corresponde ao teu sonho!

Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle
conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como
deixára Paris.

Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe que o procuraria no
dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de Laura.

Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da
cantora, prevenida antecipadamente pelo medico.

--Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.

Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa
simplicidade:

--Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu
não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou
excellente camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e
que me sentirei verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida
quizer pertencer ao numero restricto d'esses amigos.

Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse
d'elle ao dr. Despujolles.

Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhára da scena, com o que elle
indicára incommodar-se.

--E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque nós, ante o
publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que
representamos.

Fallando-lhe assim poz á vontade Antonino, que ao principio estava meio
compromettido.

Fallaram de musica, de theatro.

Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto
Pozzoli lhe ter proposto um bom contracto.

Confessou que não tinha a menor estima ou sympathia por aquelle
emprezario, mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade.

De resto, não podia passar sem cantar,--por causa da sua bolsa e por
causa do seu espirito.

Cantar era para ella metade da vida.

--A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e
a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na terça feira proxima,
uma especie de festa em S. Germano: almoço ajantarado na relva, passeio
aos Loges, etc. Devo-lhe enviar ámanhã a lista dos meus convidados. Na
cabeça do rol inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! não recuse,
porque é caso para dizer: não haveria festa sem o sr.

Antonino fez um gesto d'assentimento.

Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle.

--Que adoravel mulher e que encantadora creança! Dizia o medico ao
visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Verá: com ella começa a
gente por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo.

--Assim será! respondeu Antonino.

A verdade é que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com
desespero que Laura não o amava, que não o amaria jamais.



VI

A festa


No dia fixado, um _mail-coach_, em que tinham tomado logar Antonino,
Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote
largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.

Era a primeira terça feira de setembro.

Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob
as agudas pontas das settas gothicas.

As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.

Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda
áquella hora.

Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.

E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como
estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos,
ao fundo de _callidimos_ entrelaçados em ramos monstros sobre a relva
dos canteiros.

Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação
articulados.

Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre
as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.

O _mail-coach_ que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os
convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que
o _coupé_ de Linda.

Laura vestia uma elegante _toilette_ de seda da India, cinzenta.

O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços
granade.

A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna
fina de parisiense ou de hespanhola.

Estava encantadora assim.

Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem
apresentou a Pozzoli, o amphytryão.

O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos
massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos,
nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos,
libidiminosos.

Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos
appetites sensuaes.

Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.

Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor
Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando
pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que
habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas
imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes
magnificos... mas postiços.

D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas _soirées_ apparecia
sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por
uma pincelada negra.

Tal era Pozzoli.

O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não
sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras
pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples
do gentilhomem bretão.

Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os
excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um
carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.

--Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de
que não faltaria.

--Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar,
porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.

Os _mails-coachs_, os _landaus_ e os _coupés_ embrenharam-se sob as
abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.

Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das
rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas.

Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos
multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda
gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no
ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as
aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o
relincho satisfeito d'um cavallo.

--Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.

--Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.

As carruagens pararam.

--Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do _coupé_.

--Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por
de traz do medico.

Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.

Pozzoli offereceu-lhe o braço.

--Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem
cerimonias.

Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido,
sobre uma elevação arrelvada.

Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de
escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de _foie gras_, doze
lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil,
passas de Malaga em caixas.

Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores,
alinhavam-se vinte quatro garrafas de _Bordeus_, e em torno d'um
carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta
garrafas de _moscatel_, de _Madeira_ e de _Champagne_, de gargalos
prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.

Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas
enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se
levemente, e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante
por entre uns fetos proximos.

Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.

Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.

Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á
esquerda da cantora.

Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os
restantes convivas.

Eram uns quarenta ao todo.

O almoço foi pouco ruidoso ao principio.

O appetite é sempre silencioso.

Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.

A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no
liquido do copo.

Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo
tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes,
misturadas com o _pizzicato_ dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore
proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.

Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.

De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de _Champagne_, e disse
com voz entaramelada:

--Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!

Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.

Mas todos levantaram as taças, repetindo:

--Á saude de Laura Linda!

N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante,
apparecia uma duzia de officiaes d'_hussards_, trotando nos seus cavallos.

Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir
o andamento dos animaes.

Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois
caminhou para os officiaes e disse-lhes:

--Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos
a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?

--Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.

E puzeram em linha os cavallos arabes.

Foram as damas que serviram o _Champagne_.

Beberam pela França e pelos francezes.

Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram
as senhoras e partiram a galope.

A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na
profundeza do bosque.

Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé
para a feira das Loges.

Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.

Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se,
naturalmente, grupos e pares.

Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em
falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se
a elle ligeiramente, com uma graça encantadora.

Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas
vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem
visto.

Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.

Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho
ensurdecedor.

Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos
domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na
alegria da plena liberdade.

Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.

Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de
_clowns_ esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes
porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.

Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus
companheiros.

Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os
objectos n'ellas expostos.

Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma
barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada,
cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o
tom accentuadamente marselhez.

O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.

--É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois _sous_ podem
admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem
entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de
inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam
novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das
ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta
produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é
entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma
belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a
esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo
por um real, contemplar uma maravilha d'esta ordem apenas por dez
centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!...

Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado
d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.

Um realejo moia a _Valsa das Rosas_, e ao lado, n'uma barraca de
balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre
gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando
para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.

Um pouco mais longe via-se um _carrousel_ de cavallos de pau, enfeitado
d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.

Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes
por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção
embasbacada dos passeiantes.

De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem
sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um
cornetim.

No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam
em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que
bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e
de tintura de chicoria.

As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.

Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais
invejavel appetite.

A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa,
divertida.

Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos
desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas,
pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores
frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.

Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de
pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu
tambor.

Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam
parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e
leu esta especie de proclamação:

«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um
_punch_ aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o
almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que
não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»

Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no tronco d'uma
arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi
buscar.

Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.

O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.

Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.

A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos
seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens,
na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.

O silencio augmentava á medida que avançavam.

Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.

A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo
contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.

A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as
folhas humidas das arvores.

Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na
clareira onde os esperavam as carruagens.

Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido o almoço,
elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um
_punch_ magistral!

Os reflexos do _punch_ lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada.

Remissy não apparecia.

--É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde
estará elle?

No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa,
uma _phrase_ de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.

O violino de Remissy respondia á voz de Laura.

E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos,
uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse
acompanhamento de _pizzicato_ em surdina, a _phrase_ triste repetia-se
como um queixume atravez a noite!

Foi extraordinario, simples, idealmente puro!

Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou
na clareira.

Remissy appareceu por entre o clarão do _punch_, cabeça ao vento,
ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o
seu magnifico _stradivarius_ debaixo do braço esquerdo.

--Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha _Queen Mab_?
disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?

--Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada. Mas isso não
impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e
não appareceu.

--Não me falles em coisas tristes, minha filha!

Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu
novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra
hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que
ouvisses a minha melodiasita.

Creados de casaca serviam o _punch_ em copos de crystal.

Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.

Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.

Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta
que o trouxera.

Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:

--Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois
do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a
promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda;
quero dar uma _soirée_ em honra da realisação d'essa escriptura. Peço,
pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze
dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle. Cantar-se-ha,
dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!

Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.

Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.

--Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que
fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu _coupé_.

--Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante
a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha
feito da diva.

--Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.

--Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o
visconde para o _coupé_. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde
seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde.
Lembre-se do que poderão dizer.

Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:

--O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a
minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar
seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle
é dotado, acharei occasião tão propicia como esta. Supporá o dr. que
ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?

--Eu? não, seguramente, mas.

--Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz.
Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem
e acompanhar-me até Paris?

--Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.

--Então venha. Subiram para o _coupé_ diante de todos.

--Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido
por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um...
porque eu quero ser o numero dois!



VII

Explicações


A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos
indiferentes, e quasi banaes.

Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.

O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.

Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo
enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.

--Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo!
Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto
vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só a admirar e a
applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota
sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos
primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho
horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei
servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em
compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa
era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente o _Hymno de
Rakoçki_, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!

Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:

--N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade
que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que
o sr. visconde possue: a lealdade.

--É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a
conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.

--Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me
o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das
vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por
essa razão que lhe desejei fallar hoje.

--Porque? perguntou Antonino surprehendido.

--N'este dia, em que o vi quasi pela primeira vez, occupei-me, sem
querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o
senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em
quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco
leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder,
talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se
passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle
uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...

--Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino
com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.

--Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que
de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam
a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez
que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua
declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra.
Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio.
Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se
inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua
fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes
palavras, no seu aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor
não estava longe de amar-me.

O visconde fez um movimento, e quiz fallar.

Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:

--Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não
quero ouvir-lhe dizer: amo-a!

--Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é
natural, e--o que é triste,--não quer amar-me!

--Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.

Antonino fez um gesto de desgosto.

Laura ajuntou suavemente:

--Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram
o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por
estranhos. Ouça-me agora.

E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras
impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o
pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter
sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.

Depois a cantora disse, pensativa:

--Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de
sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não
basta a sincera affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o
amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um
pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só
se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento
que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento
maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão
inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os
gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma
creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho
do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!

--Porque?

--Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou,
garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem
que não fosse meu marido.

Houve um silencio.

Antonino cortou-o dizendo com voz grave:

--Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas
acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou
daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue
alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites.
Não me amará ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel
que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda,
consentirá em ser minha mulher!

--Sua mulher!... disse a cantora admirada.

Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:

--Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me!
Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não
sei, mas o que é certo,--e já ha bocado lh'o disse,--é que fui attrahida
para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda,
parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir.
Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero
amal-o!

--Mas porque?

--Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.

--E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá
separar-nos?

--Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de
Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não
renunciará á scena.

--É impossivel, disse?

--Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma
excitação de momento. Quando se prende o destino inteiro, deve-se
ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de
todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu
tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se
fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da
alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e
para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico
indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um
theatro.

--E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não
substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?

--Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou
certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio.
Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao
começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse
eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego.
Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que
estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a
que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como
eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande
fortuna. Seu pae por mais condescente que seja, não acceitaria para
nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e
assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae,
desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social,
seria eu a primeira--ouve?--que recusaria semelhante sacrificio.

--Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.

--É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.

--Mas eu que a amo, o que hei de fazer?

--Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel
d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o
fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa
de que não lhe faltarão essas duas qualidades.

--Está-me fallando como me fallaria meu pae!

--Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de
caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a
alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em
Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas
semanas.

--Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o
que resulta d'ella.

Quando o _coupé_ parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura,
Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão
e trocaram amigavelmente um:

--Até ámanhã.

O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos
_boulevards_.

Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.

Caminhou até que os passeiantes rarearam.

Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e
d'angustia.



VIII

Mais perplexidades


Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.

No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se
seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora
indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.

Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles,
sempre alegre, sempre espirituoso.

O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.

Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.

A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com
simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.

Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das
suas luctas, dos seus successos, das suas dôres.

Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais
insignificantes minucias da vida de Laura.

A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os
exagerava.

No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com
Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a
multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes,
que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção
nervosa.

Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.

Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente
dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o
Theatro Italiano, contra Pozzoli e o _elenco_, que considerou muito
inferior ao do antigo salão Favart.

Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma
companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.

Lauretto Mina e Pozzoli!

Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!

Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!

Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos
italianos.

N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para
assistir á _soirée_ que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na
sua casa da rua Pigolle.

Laura tencionava ir?

Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.

Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.

--Não é um italiano... é um grego!

Laura respondeu com meiguice.

Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre
ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.

Entretanto não podia deixar d'ir á _soirée_, que era dada em sua honra,
e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.

Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a
repugnancia que sentia, e assistisse á _soirée_ tambem.

Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.

--Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura,
rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O
jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro.
Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo,
me deixar influenciar demais.

--A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha
amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.

--Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus
escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem
ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi
coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas
uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta
_luizes_. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma
razão para não deixar d'ir á _soirée_. Vae?

--Irei.

A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o
papel de seu protector e conselheiro.

Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse,
confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.

Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle tinha feito,
pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o
sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o
irmão mais velho.

Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou
entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.

A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.

Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa
modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o
caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais
da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.

E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.

Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.

Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que
experimentava.

Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os
inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.

Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos
antes de ter relações fraternaes com a cantora.

Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura,
tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma
serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de
suspeita.

Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o
tenor Lauretto Mina.

Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só
vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto.

Porque?

A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.

Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas
impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas
varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava
o sabre.

Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.

Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.

Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.

Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do
combate.

E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer
acontecimento grave.

Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia
surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem
bretão.

Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.

Comtudo um dia Antonino interrogou-a.

--Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não
lhe fez a côrte em tempo?

A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a
côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira
galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a
continuar.

Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.

De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão
desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante,
suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.

Portanto deixou de ter ciumes.

Mas em compensação o amor augmentou.



IX

A confissão


Um dia,--na vespera da _soirée_ dada por Pozzoli,--Antonino foi a casa
de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.

A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares
hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição
inexcediveis.

Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.

Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.

Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.

Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.

Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:

--Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má
noticia? Estará doente seu pae?

--Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que,
felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim,
e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe
disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo.

--Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto?
Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.

--Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.

--Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava
triste...

--Estou...

--E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...

--Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso
que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me.

--Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda
satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas
semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de
dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De certo não me quer
entristecer tambem, e ainda menos offender-me.

--Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos
tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada
dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a
mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou
indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois
continuou:

--Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa
vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto
mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela
senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe,
não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel
que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...

Ella soluçou.

--Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de
pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir
ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos
á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a
seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e cuja
posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia
completamente impossivel renunciar á scena para sempre?

--Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma
segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.

--Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez
soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é
para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira!
Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.

E accrescentou com voz firme:

--Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher!

Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.

--É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no
theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...

Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não
comprehendia a significação.

Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:

--Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...

Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:

--Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade...
não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...

N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella
em que estavam Antonino e Laura.

Era a voz de Lauretto Mina.



X

O supplicio do silencio


O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.

Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem
a expansiva Jacintha chamava bonitos.

--Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro
nunca incommoda!

E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.

A Linda empallideceu.

O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.

Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.

Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.

--Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de
o cumprimentar... Esta Jacintha a não me querer deixar entrar!...
Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas,
que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!

Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.

Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:

--Com que então cantamos ámanhã juntos, na _soirée_ de Pozzoli, o dueto
da _Lucia_! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos
ensaiar-nos, minha querida.

Antonino estava irritadissimo.

Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!

Chamava-lhe _minha querida_, como se estivesse fallando com a creada de
quarto!

Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.

Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo
menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse,
dando uma lição ao insolente.

Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do
visconde.

Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?

Do conflicto resultaria um duello talvez...

Aquelle miseravel mataria Antonino.

Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:

--Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado...

--Como queiras, _cara mia_, replicou o tenor.

E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.

Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo
alegrava-se com ferocidade.

Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições
do visconde a indignação e o furor.

Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.

De resto, que podiam elles fazer ou dizer?

Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao
silencio.

Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma
palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida,
o visconde tinha o direito e o dever de intervir.

E o que se seguiria?

Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas
perigosas consequencias.

Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella
e levantasse qualquer termo insolente de Lauretto, faltaria ás mais
rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se
daria ares de mandar mais que a dona da casa.

O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da
cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.

E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.

Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia
desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.

--Não necessitas ensaiar o dueto, _cara_? Eu, desde que o cante comtigo,
estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta
correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se
canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro
successo! Ah! _cara mia_, que alegria sinto por cantar de novo a teu
lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me
que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das
affirmações d'aquelle demonio.

--É verdade, respondeu Laura em francez.

O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e
continuou na sua lingua:

--Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo! bravissimo! Se
elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da
melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do
nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir á
_soirée_ do nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder
d'outra fórma.

--Effectivamente era difficil recusar.

--Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a _casta diva_ não
acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos,
evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que
na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos
desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me
importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais
sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de
sultanas,--aquelle sultão!--o pobre tenor é forçado a ser,
successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que
fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces?

--Não, respondeu Laura com firmeza.

--Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer
de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma
prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não me incommoda
com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de
baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã
dansarão na _soirée_ um bailado a caracter. Não te assustes, _casta
diva_, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros
divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é
verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que
calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas
isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta
descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli
é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos
decerto jogarás algumas _mãos_ de _baccara_.

--Não sei, respondeu Laura impaciente.

Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:

--E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por
outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha
uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse
um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é
por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um
pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou
apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos,
porque já matei dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo
quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não
admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de
o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é
apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como
os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?

Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.

Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.

Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala,
e annunciou:

--O sr. dr. Despujolles.

O medico cumprimentou Laura e o visconde.

Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser
muito familiar com elle.

Disse apenas:

--Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles.
Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega.
Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no
_Barbeiro_. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos
preparativos para a _soirée_. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr.
visconde... um seu humilde creado...

Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.

--Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!

Laura e Antonino não responderam.

Elle olhou-os admirado.

--Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!

--Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe
chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se
atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux
desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do
nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o
primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é
immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os
homens bem educados,--e no theatro tambem os ha, e muitos,--quando
encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe
fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas
ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto
o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um
pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto
fallou, Laura nem por um instante desfitou Antonino, cujas feições
indicavam um profundo desgosto.

Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou
de intervir como calmante, dizendo:

--O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por
completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o
que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois,
que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de _tu_, que,
comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.

--Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino
com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da
linguagem foi a propria linguagem.

--Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com
vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.

--Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um
olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.

Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle.
Portanto Laura limitou-se a responder:

--Não quiz dar importancia ás inconveniencias d'esse homem, para
que elle julgasse que nem reparava n'ellas.

--O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior
cotação para que se dê importancia ao que diz.

Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.

--Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez
tinha uma importancia enorme...

E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar,
confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe
muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me
propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel.

Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se,
dizendo a Laura:

--Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na _soirée_ de Pozzoli.

Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou
antes, soffrer sem testemunhas.

Fez parar Despujolles com um gesto.

--Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que
desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.

Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:

--Espero que cumpra a palavra dada. Irá á _soirée_, a que eu não posso
deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a
promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e
como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:

--Sim, irei á _soirée_ de Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe
por completo nos habitos dos artistas!

Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no
coração.



XI

Ouro, lama e sangue


A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.

N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se
escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as
salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser
d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.

Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor
sociedade parisiense.

As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.

Encontravam-se alli artistas de primeira ordem, como a Linda, e
outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham
direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza
ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.

O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem
dividido para recepções e festas de qualquer natureza.

Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um
certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.

A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.

Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo
patamar, protegido por elegante cobertura.

O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e
vermelho, em losango.

A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco,
e de marmore vermelho o corrimão.

Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das
folhas largas e flexiveis.

As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas
de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma
claridade discreta.

O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre
enorme, e ornado de oito espelhos.

N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.

No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho
elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal
simples, o busto de Rossini.

Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado
d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.

A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.

A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram
no primeiro andar.

A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de
velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.

Parecia que não se poderia respirar á vontade.

Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.

Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos
candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia
penetrar alli.

As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados,
estavam como que impregnados d'um perfume capitoso, que tornava
pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.

Ás onze horas os salões começaram a encher-se.

Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.

Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de
dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:

--Tens a certeza de que a tua _casta diva_ não deixa de vir? Não achas
possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?

--Acho...

--Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a
custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a _soirée_ d'esta
noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas,
escriptas a seguir ao nome: _acceita o convite do sr. Pozzoli_.
Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!

--E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.

--Sim!... Porque?

--Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o
visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura.
Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta do
successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!

--Com a Linda?

--Não... Vem com o conde de Vireuil.

--Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!

--Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.

--Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!

--Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o
dinheiro...

--Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não
estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!

--Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com
elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.

Alguns minutos depois chegava Laura Linda.

Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.

Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia
resaltar admiravelmente a brancura _mate_ da sua cutis d'andaluza.

Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de
margaritas em brilhantes.

Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.

Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas
semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez
dos pés.

Esta _toilette_ um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel
belleza da cantora.

Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da
cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva
do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense,
para quem o verdadeiro sol é a luz das _soirées_.

Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.

--Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela
sua chegada...

--Porque?

--Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...

Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os
convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.

Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.

Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma
nuvem de tristeza.

O concerto começou pouco depois.

Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da
_Lucia_, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo
trecho.

Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou
podia ter de sentimento.

Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais
vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez,
não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.

Ainda assim o successo não foi menor.

Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações
sobre o _Carnaval de Veneza_, a que deu o mais extraordinario e
admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.

Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um
trecho da _Mancenilheira_.

N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!

Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!

Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se
esforçava por cantar com surprehendente habilidade.

O effeito foi extraordinario.

O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.

Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar,
abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.

Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e
columnas de marmore.

Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.

Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.

Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de
Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe
depois:

--Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.

E accrescentou:

--O sr. visconde de Bizeux.--_Madame_ Elvira.

A Elvira gorda,--porque era a dona da casa em pessoa que fôra
apresentada a Antonino--desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.

Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer
tão distincto gentilhomem!

Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás
expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.

Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das
mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.

A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o
ainda.

Era branca e loira.

Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.

O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo,
admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços
soberbos.

Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia
com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.

Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de
lhe apontar o mais insignificante defeito.

--Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista.
Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de
brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis
predicados de coração.

E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para,
disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.

Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe
fazer as honras da casa.

Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas
de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por
originaes authenticos.

Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual
_pousara_, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples
pelle de panthera.

E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou
admiraveis as formas.

--Quer vir á sala do jogo? Gosta do _bacura_? perguntou ella.

--Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles
surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como
está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.

Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo
inexplicavel inquietação.

Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.

Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do
tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o
visconde.

O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas
attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.

Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.

Era o ciume.

O que quereria aquella mulher a Antonino?

Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão
que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.

Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli
dispensava ao sr. de Bizeux?

Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.

Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de
mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.

Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as
phrases ternas d'aquella mulher?

E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.

Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.

Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe
dissera o emprezario.

Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos _habitués_ sob a designação da
sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados
de veludo d'aquella côr.

Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis
que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes
cada um, collocados nos angulos da casa.

Laura sentou-se, pensativa.

Ao principio não quiz jogar.

Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a
tomar pelo jogo o mais vivo interesse.

Chegou-lhe a vez de fazer _banca_.

Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença
d'espirito.

Perdeu todos os _baccaras_.

A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil _luizes_ n'um
instante.

Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:

--Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!

A previsão não se realisou.

Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.

O azar continuou.

Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte
singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe
pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.

A gorda Elvira segui-os de longe.

Laura viu o visconde assim que elle entrou.

--Ha vinte mil francos de _baccara_, dizia Pozzoli.

--Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de
desafio.

Pozzoli deu as cartas e ganhou.

--Ha quarenta mil francos... disse elle.

Laura ia abrir a bocca.

Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe
em voz baixa e supplicante:

--Peço-lhe que não jogue mais!

Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:

--Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.

--Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para
outra vez!

Pozzoli empallideceu.

Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.

O emprezario ganhou ainda.

--Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.

--A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma
sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.

E levantou-se da mesa.

O _banqueiro_ que se seguia, deu ainda quatro _baccaras_.

Antonino continuava sorrindo.

O emprezario não o desfitava.

O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.

Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte,
e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de
Antonino, a quem disse em voz baixa:

--Não joga, senhor visconde?

--Não...

--Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...

--Pois sim.

--Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me
uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.

--Queira dizer.

--A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias.
Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.

--Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.

--Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.

E accrescentou em seguida:

--A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor
adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.

Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida
_baccara_, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo
colloquio do visconde com Pozzoli.

Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.

Laura procurou então o emprezario com o olhar.

Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.

Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu
entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle.

Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.

Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em
frente do outro, de sabre em punho.

--Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.

Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre
varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao
visconde, sem pronunciar uma só palavra.

Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera,
escolheu um e deu o outro a Pozzoli.

--Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não
será mais do que o effeito d'um accidente?

--Está.

Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam com
curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de
camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.

Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que
deixamos dito sem serem percebidos.

Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a
gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.

Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:

--Vamos para a galeria grande. As _pequenas_ vão executar a dansa das
bailadeiras.

O emprezario franziu as sobrancelhas.

Por fim respondeu com voz brusca:

--Logo dansarão.

Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.

E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um _divan_, e
accenderam umas cigarrilhas.

Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos,
um pouco ironicos, dos assistentes.

O violinista, já cançado, disse:

--Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.

E ajuntou, sorrindo:

--De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.

N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:

--Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide,
para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente
desagradavel.

--D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.

E em voz alta disse:

--Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença,
que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de
ser meu adversario?

--A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.

Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem
os primeiros que encontrassem á mão.

Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:

--Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de
botões dos floretes.

A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre
avermelhado, trabalhada com arte.

Estava suspensa ao centro da casa.

As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na
sombra.

Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.

Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.

Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de
momento a momento.

Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.

Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento,
_parando_ com toda a rapidez e _ripostando_ vigorosamente.

Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira,
percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.

Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de
dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:

--Sabes, Elvira?...

--O quê?...

--Estás prestes a enviuvar, minha querida.

--Pois suppões?...

--Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.

--Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...

--Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja
que o visconde é de primeira força. Repara para elle...

Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a
sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.

Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o
conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:

--Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr.
conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.

O conde inclinou-se e sahiu.

Demorou-se dez minutos.

Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.

Por fim o conde voltou.

Vinha só.

Laura perguntou-lhe, logo que o viu:

--E então?... Pozzoli?

--Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle
na sala d'armas.

--Ah! Fallou-lhe?

--Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um
assalto ao florete.

--Com quem?... com quem?...

--Com Bizeux.

Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.

Estava pallida como uma morta.

Passados instantes disse ao conde:

--Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão
curiosa!

Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.

Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.

Laura apressou o passo.

Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido--porque
tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um
adversasario de primeira ordem,--concentrava toda a sua vontade e todos
os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.

Comtudo sentia-se perdido.

No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli
_parou_, curvando-se.

A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não
tinha botão.

--Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.

Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.

Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois
segundos.

Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o
visconde não teve tempo de defender-se.

A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.

Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.

Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena
tragica.

Transportaram o ferido para um _divan_.

Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:

--Fui eu que o matei.

O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.

Passados momentos, disse:

--Ferida quadrangular!... Não sangra!

Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas
sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia
comsigo.

O rosto alegrou-se-lhe.

Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:

--Então, dr?...

--O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.

Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para
Lauretto Mina com aspecto consternado:

--Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós,
a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma
noite dormirá em minha casa!

E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como
aquelle de que se servira.

Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura,
sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.

Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.

--Pode já ser transportado, disse elle.

--Irá na minha carruagem, observou Laura.

--Não. Uma padiola é mais conveniente.

Foi improvisada a padiola sem detença.

Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.

O visconde continuava sem sentidos.

Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em _toilette_ de
baile, os conductores perguntaram:

--Para onde devemos seguir?

--Boulevard Haussmann.

--Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.

--Mas... ia a observar Despujolles.

--Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para
minha casa!...

--Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se
entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos
significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...

E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:

--Levem o sr. de Bizeux...

--Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que
o levem para minha casa!

Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até
pela manhã.

Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.

Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.

Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o
assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.

Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o _boulevard_:

--Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli.
Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.

Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com
Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:

--Vamos para o salão reservado.

Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam
senão os intimos do emprezario.

Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes
mettidas em vidros de côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e
sensual.

Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um
largo _divan_ baixo, que circundava toda a casa.

Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a
mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.

A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante
do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios,
entre-abertos.

--Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para
o _divan_. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de
mim. Vou desforrar-me!

Carregou n'um botão.

Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.

--Antonio, _chypre_ para mim, e _champagne_ para a senhora e para o sr.
Lauretto Mina.

--Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro,
palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!

--Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou
Pozzoli, tirando das algibeiras, á mistura, notas de banco e moedas
d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.

Depois d'alguns instantes de silencio continuou:

--Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o
diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco
mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de
desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida.
Ah! é tão bom viver!

--O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por
muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste?
A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar
loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos
teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!

--Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.

Lauretto riu-se.

--Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por
elle. Has de ser amante de Laura!

E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.

Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:

--São para ti.

--Obrigado, Eurico!

E accrescentou dando as outras duas ao tenor:

--E estas para ti, Lauretto.

O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.

--Pois nem me agradeces?

--Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam
explicações.

--Então restitue-me o dinheiro!...

--Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que
tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.

Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.

Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.

Os tres começaram a beber em silencio.

Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.

De repente interrompeu as libações para dizer:

--Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...

--Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as _pequenas_.

Carregou no botão d'uma campainha electrica.

Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.

Elvira disse-lhes:

--Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.

Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o
instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando
gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.

As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas,
brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.

Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo
_divan_.

Quando o bailado acabou, elle berrou:

--Mais! mais!...

--Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante.

--Então bebamos!

--Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.

E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma
garrafa.

Pozzoli encheu-o de vinho de _chypre_.

Depois de beber a grandes golos, disse:

--Ah! isto consola!

E bebeu o resto.

--Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.

--Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se
dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.

Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e
accendeu um cachimbo.

--Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu
já não bebo...

Mas elle continuou a fumar em silencio.

Pozzoli rolára do _divan_ para o tapete, balbuciando:

--Deem-me de beber!... Quero _chypre_!... Estão na mesa quinhentos
_luizes_... Aposta, visconde?...

As quatro bailarinas descançavam, sentadas no _divan_, de pernas
cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.

Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.

Ellas desappareceram immediatamente.

Entretanto Lauretto bebia e fumava.

--Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira
gorda.

E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o
cachimbo da bocca.

Elle deu-lhe um murro.

--Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas,
não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao
longe... Ah! Laura!...

As palpebras cerraram-se-lhe.

No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.

--Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas
executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos
cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os
fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a
harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas...
Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a
sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...

Calou-se.

Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo
socegadamente a bebedeira.

Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.

Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da
innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos
entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.

Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo
despresadoramente:

--Que dois brutos!

E entrou, só, no quarto da cama.



XII

A cura


Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu,
atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa,
que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para
lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.

Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe
palavras meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam,
socegando-o.

Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.

A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello terrivel,
Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber.

A sombra branca lá estava junto d'elle.

Não sonhára, pois.

Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia
por entre as lagrimas.

O visconde reconheceu-a.

Sorriu-lhe tambem e murmurou:

--Laura!

--Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda
completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi
essa a recommendação do doutor.

Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:

--Laura!

Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:

--Onde estou eu?

Despujolles entrava n'esse momento.

--Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que
chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!

--Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse
facto, respondeu Despujolles.

E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:

--Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem.

--É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que
succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...

--Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu
amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo
patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa
querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no
salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de
proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana,
o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma
enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse
algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via
de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu
medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos.

--Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe
reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.

Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão
descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram
pelas faces:

--Como é estupido chorar d'alegria!

--Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco
d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.

Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento
e amor.

--Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando
estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir,
não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem,
addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao
ferido todos os esclarecimentos necessarios...

--Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.

--O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se
passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe
expliquem o caso...

--Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...

--Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais
de tres palavras.

--Oh! doutor!...

--Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a
condição de que depois serão mudos como dois peixes. Adeus, meu
caro visconde, até ámanhã e juizo.

Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.

O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo,
recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.

O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia
a volta de Laura.

A cantora entrou.

Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente,
ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:

--Amo-o!

Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.

Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe
aquelle amor, que existia latente no seu coração.

Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.

Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a
mais irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão
e permittindo que ficasse no theatro.

A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu
contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe
torturado o coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar
o offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem
hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.

Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento
pelo cego amor do visconde.

Na _soirée_ de Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que
sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a
attenção e as amabilidades do visconde, que ella considerava como
pertencendo-lhe.

Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases
pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que
experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?

Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da
Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez,
e morto por ella!

Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.

Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou
vivo.

No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle
miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava
assassino, nem mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha
roubado ao jogo.

Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que
possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro
modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.

Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.

Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara,
attribulada, o soffrimento do ferido.

Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de
perigo.

Elle estava salvo, e ella salva tambem!

Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.

Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que
confranger-se, nem que hesitar.

Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que
pertencessem um ao outro para sempre!

A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.

Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e
enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força
e a vida lhe voltavam gradualmente.

A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a
Antonino e não consentia que elle fallasse.

Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se
ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o,
sem que o doente corresse risco de peorar.

Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.

--Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor,
fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem
que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero
provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para
satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no
theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido
duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor
está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a
fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito
com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a
pouco exporei, renuncio ao theatro.

--Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.

Ella continuou:

--Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me
conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o
nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do
conde de Marcia. A Linda desapparecerá.

--O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu
repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha
querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo
affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do
sacrificio?

--Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha
pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio
firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os
tivermos,--como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o
meu mais delicioso sonho,--creio, dizia, que a felicidade da esposa e da
mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus
successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou
d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel
necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda
que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora.
Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de
gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte ao que era
no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono
apenas pelo muito amor que lhe tenho.

--Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de
satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto,
fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.

--Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu
caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel
que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se
eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a
opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente,
Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero?

Elle reflectiu alguns instantes.

Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:


«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura
Marcia, minha mulher, e...»


Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:

--Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando
quizer, que a porta está aberta.

--Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.

E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor.
Concluamos o nosso romance.

A conclusão foi a seguinte:

Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.

Trataram do casamento com todo o segredo.

Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.

Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente
restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação
do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no
consulado de França.

Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.

Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.

Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.

Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a
felicidade diminuisse.

Trespassaram a casa da rua de Bolonha.

Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os
restantes vendidos.

Antonino conservou os seus quartos de rapaz no _boulevard_ Haussmann,
residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.

Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da
sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.

Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia
estipulada no contracto para a rescisão d'elle.

--Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao
emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da
virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor
o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.

Alguns dias depois lia-se nos _Echos_ d'um jornal _geralmente bem
informado_:


«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um
contracto fabuloso que assignou para uma _tournée_ nos Estados-Unidos.»


Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro _echo_:


«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que
esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante
a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo,
prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»



XIII

Regresso a França


Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de
Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor
de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de
regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.

O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e
aspecto veneravel e terno.

A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.

Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto
das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta
estirpe.

O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia
tornar a vêr depois de prolongada ausencia.

Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára
durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.

A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo
finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e
ternos, de que o rodeava.

Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.

A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições
menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.

O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que
estivera escripturada em diversos theatros.

Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de
Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não
estar em contacto com uma _comediante_.

Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a
desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um
conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.

Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a historia do primeiro
amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção
de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto
da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o
amor, o amor profano, que vencera.

Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava,
insultara a memoria de sua mãe.

O vapor de Jersey não tardou a chegar.

Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente
deu um abraço na irmã.

O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e
apresentou as duas senhoras uma á outra.

Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma
identica áquella por que fosse tratada.

Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:

--Senhora viscondessa!...

--Minha senhora...

As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.

Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se
n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas
casas.

O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio,
fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.

As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de
communicação em todos os andares.

Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.

O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos
navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a
cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a
vista do mar.

Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.

Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois
almirantes francezes.

O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida
simultaneamente separada e commum.

Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.

De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas
uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa
ás pessoas mais intimas.

Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a
Saint-Pol-de-Léon.

Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse
ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.

Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a
filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e
encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na
hypothese d'uma revelação sempre possivel.

Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista
que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se
immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e
mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e
hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de
dever ser, no fundo, um pouco monotona.

Laura, porém, não dava por essa monotonia.

Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da
acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.

O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.

A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.

Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o
melhor da vida.

Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil,
visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas
paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.

Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.

Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada
para servir no quadro do seu amor.

Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar
por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.

O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre
aquelle perpetuo colloquio.

Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.

Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante
mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou
nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.

Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do
homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.

--Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a
voz.

--Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...

E teria ella saudades, effectivamente?

O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por
isso, sem prejuizo d'outros predicados.

Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que,
excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e
mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.

Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo
publico.

Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles
annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham
tambem o seu encanto.

E como estavam d'accordo, regressaram a França.



XIV

A vida no castello


O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de
legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em
que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das
colinas.

Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava
cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito
retirada.

No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.

Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e
encontros.

Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé, as immediações do
castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens,
recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e
ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a
nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.

A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.

A solteirona dizia por vezes comsigo:

--Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a
recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.

Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.

O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a
Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase
brilhante, que lhe occultavam.

Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra
pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.

--Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á
mesa com uma _toilette_ que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que
estamos no campo!

--Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.

--Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja
agradar? A meu pae?

--E porque não?

--Agradecido! disse o conde sorrindo.

--A seu marido?

--Certamente...

--Um marido não é um amante, minha querida!

--Para mim é.

E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.

Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto
ironico e altivo.

Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer
Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de
sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.

Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista
religioso.

Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era
crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.

Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens
seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.

Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro
ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.

As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia
em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar
nas vesperas dos dias santificados.

Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma
impia, votada ás chammas eternas!

De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia
da sua convivencia.

Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.

E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos
mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de
sua cunhada.

O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se
verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava
qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.

Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com
indulgencia.

Se, porém, a palavra _amor_ fosse uma só vez pronunciada, levantava-se
cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.

Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema
musical frequentemente usado pelos compositores.

Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.

Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes
parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de
theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.

O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!

Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!

Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo
occupado d'ella!

Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo
percebia que Paris lhe faltava.

Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á
inauguração!

Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no
coração o amor que tinha por Antonino.

É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas
elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao
casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.

O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros
tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.

E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella
manhã de sol, sahiam ambos, e atravessavam bosques e prados, caminhando
ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam
sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco
as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se
direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto
Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que
Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.

Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso,
ou descia até á praia.

Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle
segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias,
que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas
de liberdade.

Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que
subia.

E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as
saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia
o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.

Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.

Acharam um ninho de melros.

Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.

Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que
os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.

Eram cinco.

No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com
voracidade.

Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.

--Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.

No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.

A mãe estava no ninho.

Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando
depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os
filhos á mercê de seres humanos.

Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos
passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de
bolo, que previamente amolecia entre os labios.

Ao outro dia foram tambem ver o ninho.

Estava vasio.

O pae e a mãe tinham levado os passaritos.

Laura ficou triste, sem saber porque.

Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura
respondeu:

--É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!

Depois d'um momento de silencio, perguntou:

--As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?

--Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.

--Como as aves são felizes!

Antonino comprehendeu.

Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e
esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.

Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o
bretão é marinheiro.

Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.

Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.

O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga
facha vermelha, e tinha meia coberta.

Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval,
cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.

Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as
provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente
espaço para dormir ao abrigo do vento.

O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma
vela grande e d'uma bergantina.

Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se
inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle
unico panno.

Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a
chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente
á canna do leme.

Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura
toda a manobra das velas.

Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a
embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.

Muitas vezes embarcavam de manhã.

Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.

Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo,
armava a vela.

Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na
camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.

Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:

--Larga!

O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.

O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o
croque, e puchava a canna do leme para bombordo.

A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes
como indecisa, e por fim vogava.

Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.

Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e
mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.

Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com
grande inquietação do conde.

O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia
parar.

O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.

Laura sentia-se bem a bordo.

O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que
faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.

A caça divertia-a muito menos.

Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á
tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.

Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe
offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.

As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe
mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.

Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel
dignidade, que a propria Estephania se admirava.

Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para
Laura, verdadeira importancia.

Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.

Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal,
emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de
Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo
XV, no gosto de Folgoet.

A obra terminara emfim.

Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.

O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria
proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.

Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os
castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar
que só ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.

Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o
conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello,
esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra
tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.

Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por
subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o
arcebispo era presidente.

Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio
principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para
material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.

Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o
arcebispo desejava fallar com o conde.

Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção
de _monsenhor_ fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle
desempenhava.

Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e
coristas da cathedral de Rennes.

A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir
sensação, como effectivamente produziu, mas devido talvez a uma
circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.

Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do _monsenhor_ lhe
merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.

Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se
uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão
d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o
auditorio maravilhado.

A mesma voz cantou depois o _offertorio_ do mesmo compositor, com tal
arte e vigor que a todos causou espanto.

O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa,
balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.

Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade
do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.

Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na
sachristia, foi:

--Mas quem é a admiravel _virtuose_ que a todos nos encantou?

O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:

--Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de
apresentar-lhe, monsenhor.

--Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse
o arcebispo.

E depois accrescentou:

--Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má...
Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.

Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um
certo sabor particular a mistura que havia do padre e do _dilettante_.

Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos;
Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não
sabia se devia estar satisfeita ou vexada.

Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.

Era o seu primeiro successo em dois annos!



XV

Saint-Malo


Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando
chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.

Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de
rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.

Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa
pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente,
diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular.

O doutor demorou-se um dia no castello.

A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque,
como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.

Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.

Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e
attenções constantes.

O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que
fazer, pois?

O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.

Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.

Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um
vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo.

Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto
do planalto da cidade.

O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello
Antonino e a esposa.

Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:

--Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á
cabeceira do leito da irmã de meu marido.

Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a,
principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:

--Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...

Laura, a _impia_, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto
que Estephania, a _devota_, a temia sobremaneira, como d'ordinario
succede a todos os espiritos fracos.

Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais
opposição, o offerecimento de sua cunhada.

Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo,
Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento
desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.

Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse
simplesmente a Laura:

--Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria
procedido da mesma fórma.

--Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras.

D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em
Saint-Malo.

A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta
ao castello.

Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura
apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.

Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto
observar uma e outra.

A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.

Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da
bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o
cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as
sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de
Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas
deixam apenas estreitas passagens aos navios.

O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes
acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e
penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam
arrombar.

Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios,
rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco,
estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva
dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia,
durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.

As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas
muralhas.

Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em
turbilhões d'espuma, a enorme altura.

A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões
da agua.

As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas
geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas
pela impetuosidade das ondas.

Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos
quaes o vento arrebatou as imagens.

A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua,
transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente
larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.

D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus
habitantes.

Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a
sua lealdade rude.

A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da
provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez
emprestaram cincoenta milhões de francos.

Que de mudanças se teem operado!

Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto
periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a
França ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão dos
jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o
caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu á
França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin,
Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento.

O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um
formalismo devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.

Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.

Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os
esforços para que o povo adore a republica.

Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos
aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas
e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa,
logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis
intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas,
isolados n'aquelle entorpecimento provincial.

D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.

Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal
facto produziu a mais insignificante mistura de castas.

O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.

Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de
Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.



XVI

A sr.ª baroneza


A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade
em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de
trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a
disputar-lhe a elegante auctoridade.

A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o
conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se
até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára.

Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera
d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada,
onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas
recordações.

O barão de Pontual era um insignificante.

Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o
conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse
caminhar.

Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter _alma d'artista_,
o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.

Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á
baroneza faltava simplicidade e sinceridade.

Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a
pintura e a musica.

A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança
da sr.ª de Sévigné, sua compatriota.

Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da
marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres
estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.

Em pintura _orvalhava_ as suas aguarellas, e _dava vida_ ás paysagens.

Mas a sua arte predilecta era a musica.

Possuia voz agradavel, mas mal educada.

Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de
piano de Lecouppey.

Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.

O seu deus era Gounod.

Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser _quasi
sempre extravagante, mas algumas vezes sublime_.

A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a
viscondessa, inquietou-se.

Laura era mais formosa e mais nova que ella.

Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do
que a do barão de Pontual.

Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.

Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa,
que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.

A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.

--A viscondessinha é encantadora! disse ella.

O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da
fundação do hospicio para marinheiros.

O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da
mesma commissão.

Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.

Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para
prefazer a quantia julgada indispensavel.

Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil
francos.

O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o
restante, dando um grande concerto.

Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.

Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados,
e attrahissem a Saint-Malo a _élite_ da nobreza e da finança de toda a
Bretanha.

A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e
dirigir aquella festa.

Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes
nas classes baixas.

O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu
concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.

O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que
devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos
salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento
dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a
curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.

O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.

O conde de Bizeux offereceu o seu.

A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente, viu-se
obrigada a fazer as honras da casa.

O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de
caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o
brilho do concerto.

Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o
seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa,
tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.

O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.

Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.

A baroneza devia cantar, no concerto, a _Ave Maria_ de Gounod, o seu deus.

D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de
musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.

Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim,
fazer-lhe os seus cumprimentos...

Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.

Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos
cumprimentos com a mais falsa das modestias.

--Não, não... Favores!... Hoje não estava com voz... De certo
reparou que, no fim, a respiração faltou-me!...

--Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou
Laura com simplicidade.

--Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...

--Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o _crescendo_
phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio,
faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a
intensidade de tom possivel.

--Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.

E depois d'um momento de silencio, perguntou:

--A sr.ª viscondessa sabe musica?

--Um pouco...

--Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria,
cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.

--Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...

--Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza.

Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente
conselheira.

Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.

Começou muito _piano_, com intensão de cantar a meia voz, quando muito.

Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.

Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal,
manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes,
admirados, romperam em bravos e palmas.

Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho
de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.

A baroneza de Pontual ficou abysmada!

A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.

Entretanto assaltou-a uma duvida.

Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente
revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e
mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de
primeira ordem?

Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.

--Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora,
ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?

Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o
logar que lhe pertencia.

É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a
baroneza não desejava occupar o segundo plano.

No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de
Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora.

O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome
d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais
brilhante successo.

Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.

Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que
ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto
revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros.

Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o
raro talento da nora do conde de Bizeux.

Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse
manifestar o seu talento em publico?

Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser
modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.

Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a
viscondessa.

Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe se
queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.

Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.

Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.

O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a
sua contingente para tão santa obra.

A Linda desapparecera havia mais de dois annos.

Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade
tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao
corrente do movimento dos theatros parisienses?

O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.

--Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.

--Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em
condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o
facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu
filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome,
nem a mim por lhe chamar filha.

Houve um momento de silencio.

O conde, passados instantes, accrescentou:

--Nada tem no seu passado, Laura, de que deva envergonhar-se.
Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria
contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade.
Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão
fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes,
que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o
primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o
pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais
tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais
favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho
foi cantora.

Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou
que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.

De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.

Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e
cantar em publico.

Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.

A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.

Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da
capella.

Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a
_Ave Maria_ de Gounod, experimentára maior satisfação.

Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos
bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.

O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico
numeroso?

Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?

Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!

Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?

Não.

Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura
da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do
novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.

N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas
dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá
dentro d'algumas semanas.

Mas a Linda não estava longe!

Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.

Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel
no seu coração.

Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.

Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e
que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.

Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém,
a coragem de os expôr.

Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella
não devia cantar no concerto de benificencia.

O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do
pae. Ella, por fim, disse:

--Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu
interesse pessoal, mas o interesse da familia?

--Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e
somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.

Laura, replicou então:

--Visto assim o quererem, cantarei no concerto!

N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:

--Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa
X... cantará as arias _Fidelio_ e o _Rei dos Alamos_.



XVII

A tempestade


O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de
setembro.

Faltavam, pois, dez dias.

Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.

Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no
concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?

Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.

Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier,
nunca a tinham visto.

Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os
nomes d'outros artistas.

O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.

Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente,
bastava a Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia
do concerto.

Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do
Monte de Saint-Michel.

Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as
costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.

O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida,
receberiam as pessoas que iam ensaiar-se.

A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a
intervenção da que ella considerava sua rival.

Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais
longa que ainda tinham feito.

A viagem foi encantadora.

A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo
uma verdadeira delicia.

Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam,
jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que
deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.

Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de
carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.

Não abriram um jornal.

Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America.

Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.

Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.

Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo.

--Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse
as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.

Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!

Na vespera do concerto estavam em Granville.

Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao
hotel, onde tinham passado a noite.

Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.

--Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente
voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.

--Porque?

--Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar, é provavel que,
antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a
nossa chalupa não tem condições para luctas d'essa ordem.

--_Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!_
disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citação de
Chateaubriand.

E accrescentou n'outro tom:

--Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.

Antonino dissera a verdade.

O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens
ameaçadoras.

--Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que
o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a
tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor,
Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu
lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a
nossa socegada viagem.

--Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir
por alguns momentos.

--Quero.

--Que a tua vontade seja feita.

E embarcaram.

Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.

Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se ao largo. Durante as
duas primeiras horas correu bem a viagem.

A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.

O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem
novidade.

Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e
as ondas encapelaram-se.

A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda,
cuja espuma chegava ao cimo do mastro.

O mar embravecia de minuto para minuto.

O vento refrescava cada vez mais.

A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao
nivel das ondas.

Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar
descanço ás vagas.

Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.

Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.

As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento
contrario, elevaram-se a enorme altura.

Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção.

Houve um minuto de indiscriptivel cahos.

O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido
ensurdecedor.

A chalupa corria rapida como um vôo.

Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento,
encontrava outras ainda animadas da primeira impulsão.

Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava
perdida.

Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.

Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da
destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças
naturaes.

O ceu assombreava-se cada vez mais.

Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas
extremidades, avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a
Antonino:

--Corremos grande perigo, não é verdade?

--O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde.

--Para onde diriges a chalupa?

--Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois
kilometros. E agora, minha querida, silencio!

Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre
todos, feliz por se saber protegida por elle.

Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?

Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por
aquelles dois entes cheios de vida.

Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.

Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um
ligeiro calafrio.

Mas, depois, socegou por completo.

Pensava apenas:

--Se nós fossemos separados por alguma vaga?

E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas
forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima
do hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço
d'Antonino. Depois disse:

--Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!

A tempestade attingia o paroxismo.

As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.

O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.

As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.

A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso
das ondas.

Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer
pouco depois, continuando na carreira rapida.

A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a
espuma franjava phantasticamente.

Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia
encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.

Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que
corria sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos
temerosos.

N'essa occasião a vela rasgou-se.

Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.

A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.

A chalupa esteve prestes a submergir-se.

A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.

O porão encheu-se d'agua.

Felizmente chegavam.

A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...

Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma
enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa
afundava-se na areia.

Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.

Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra, que o visconde atou
solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.

Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos
braços.

Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.

Estavam salvos!



XVIII

O encontro


Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto
ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.

Na praia estava amarrado um barco.

Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.

A casa estava aberta e vazia.

Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta.

Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de
pescadores.

Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim,
n'uma anfractuosidade dos rochedos.

A porta apenas estava fechada na tranqueta.

Abriram-a e entraram.

Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde.

A custo conseguiram saber que o velho--marido sem duvida--tinha partido
de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára.

Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além
de _cidra_, toucinho, peixe sêcco e pão.

Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um
pouco mais os ouvidos e a intelligencia.

A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora.

Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé.

Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.

Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:

--E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque,
antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que
a velha nos póde dar.

E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:

--Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me demorarei.

A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.

Laura conservou-se á chaminé, pensativa.

Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:

--Adeus, Linda, bom dia!

Levantou-se sobresaltada e olhou.

Tinha em frente Lauretto Mina.

--Como vaes tu, carissima?

Laura respondeu altivamente:

--Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!

--Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em
Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia
officialmente á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em
Inglaterra, não é verdade? Ninguem desconhece essa especie de
casamentos... enlaces pouco duraveis, tão faceis de fazer como de
desfazer. Casa-se em frente d'um padre catholico, mas nem por isso o
casamento deixa de ser civil, o que illude a lei.

--Mas affianço-lhe... replicou Laura.

Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:

--Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me indifferente!

--Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a
viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me
impede de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as
attenções e o mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que
reconquiste as suas boas graças.

Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:

--É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de
passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que
não deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda...

Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:

--E se assim fosse!

--Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no concerto...

--Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa.

--Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma
desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.

--Obrigada.

--E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me
dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer
aqui, porque vim exclusivamente por sua causa.

--Por minha causa? repetiu Laura como um echo.

--Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos
conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã
propozeram-me um passeio até á ilha, que me affiançaram ser
extraordinariamente pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais
tempo do que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua
causa, repito.

Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:

--O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a
inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que
tinha o maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura
nas condições que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e
por serie de representações.

Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos.

Por fim disse:

--É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.

--Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A
sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não
deixou de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o
nome dos nobres avós d'um fidalgo da provincia, mas, _per Bacco!_ não
lhe merecerá mais consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu
nome pessoal, o seu nome artistico, o grande nome que conquistou pelo
seu talento previlegiado? Não posso deixar de lhe lembrar que seu pae
tambem era conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos
lhe chamavam o grande violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho
que a filha proceda de fórma contraria, deixando offuscar o seu glorioso
nome de artista pelo vulgar titulo de nobreza!

O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras
correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.

A viscondessa não respondeu.

Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente.

O tenor perguntou:

--Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, não
é verdade?

Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:

--Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!

--Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde
confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria,
á arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe
esse conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a
engana o coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está
farta da vida que leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem,
pertence a todos! Eu nem um instante duvidei que a Linda voltaria
para o theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã!

Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:

--Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?

--Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido.
Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido
para a America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao
certo para onde tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da
Linda, excepto eu, que nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube
pelo barytono Gressier, que elle fôra convidado para cantar n'um
espectaculo de beneficencia, em Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo
era a terra da naturalidade do visconde de Bizeux. Tratei de ler os
jornaes da provincia, e n'um, o _Correio d'Ille-et-Vilaine_, vi que o
conde de Bizeux era o vice-presidente da commissão que promovia o
espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle encontrei os nomes da
baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei immediatamente «o
director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o participar,
estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda!
Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me
desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou
reconhecidamente o meu valioso concurso, em telegramma. No dia seguinte,
munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para Saint-Malo,
onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de seu
sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que
considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da
sr.ª baroneza de Pontual--uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse
o tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não
corresponda á belleza com que Deus a dotou!

--Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura
inquieta. Disse-lhe quem eu era?

--Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza
fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que
a sr.ª viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e
não trahi o seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa
hypothese e resolvido não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.

--Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação
com Lauretto.

D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da
primeira.

--Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o
maximo desejo em que veja em mim apenas um amigo. Escute-me, Laura:
ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar em si. A
sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de felicidade
que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me atrevo a
relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe diga,
o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!

A viscondessa endireitou o corpo, irritada.

Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:

--Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e
respeito?

Lauretto não poude responder.

Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.

Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:

--Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido.

Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um
cabaz.

Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.

A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.

--Lauretto Mina! disse elle apenas.

--Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se, e
assim é, que o mundo é enorme. Pois apesar d'isso os amigos
encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, apesar de
ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para
cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta
ilha. A tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus
charutos devem estar molhados; permitti-me que lhe offereça um?

--Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um
gesto de recusa.

O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava.

Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse:

--O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada
me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os
por mais tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a
honra de o cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a
homenagem do meu mais profundo respeito!

Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana.

Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.

--Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.

--Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu!

O visconde interrogou a velha.

--Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha para _ver a
vista_. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava
deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou.

--O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou
as explicações.

--Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me
offerecer escriptura, tambem.

--E que lhe respondeste?

--Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro.

--É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas
palavras offensivas?

Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?

Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli.

Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:

--Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em
Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim,
promettendo-me até fingir que não me conhecia.

--Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino
ironicamente.

--O que tens? perguntou Laura com meiguice. Não admira que te
contrariasse o encontro com esse homem, mas isso não é rasão para me
tratares com modos bruscos!

--Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem
irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela
impertinente polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que
pronunciava fizeram-me ferver o sangue nas veias!

--Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir
forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.

Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.

Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada.

O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.

Mal provaram os alimentos.

Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram.

Pensavam.

Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da
fadiga physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae
victorioso, estava agora triste e inquieto.

Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que
sentia pela esposa, fazia com que o visconde visse para além das
apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam.

Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que,
no pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma
sombra que lhe fugia e lhe era contraria.

Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras
perspectivas que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino
nem pronunciára uma palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de
novo fazia regeitando as propostas do director da Opera.

Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando
ella lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias
palavras que então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta.

Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe
testemunhava uma especie de desconfiança amargurada?

Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como
mulher honesta, ella repellira?

Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um
perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle,
enlaçados n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social,
procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam e dilaceram.

No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade.

E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer,
uma vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.

A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas
necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer.

Prepararam-se para partir.

Antonino continuava pensativo.

Laura perguntou-lhe porque estava triste.

Elle desculpou-se com a fadiga.

A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha.

O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.

Laura insistiu com sollicitude.

--Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?

Antonino hesitou, mas por ultimo disse:

--Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou desgostoso!
Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o
obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo
companheiro no theatro, e, principalmente, a certeza de que elle,
como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse
supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço que não
consentiria que tu cantasses tambem.

--Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e
a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te
que essa tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque
talvez assim tu fiques completamente socegado.

--Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque
desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só
por essa fórma conseguirei libertar-me.

--Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita como
tu.

Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas.
Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.

Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de
Pontual.

O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas
as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha
para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior
enthusiasmo.

Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.

O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua
mulher fosse riscado do programma do espectaculo.

Mas o conde declarou:

--É completamente impossivel! É tarde para isso!

E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião
sobre o caso.

Não comprehendia os escrupulos do filho.

Vira e fallára com Lauretto Mina.

O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.

Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á
sua antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com
a viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos.

O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam
ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de
Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois
disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar
pessimamente o conde que, como vice-presidente da commissão promotora do
espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a
Saint-Malo para ouvir a viscondessa.

Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.

Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.

Portanto Antonino disse:

--Pois bem, Laura cantará!



XIX

O escandalo


Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um
somno febril, cortado de sonhos sinistros.

Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham
causado as scenas d'aquelle dia.

De manhã teve nova emoção.

Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o
nome de Remissy.

O que significava aquelle caso?

Porque não a tinham prevenido?

Estaria Remissy em Saint-Malo?

Na vespera não o vira e nada lhe constára!

Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a
viscondessa a si propria fez.

O tenor dizia o seguinte:


                                                  _Senhora viscondessa_

Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava
parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada
com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella.
Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a
Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle
tambem não queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e
juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle,
como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.

Remissy respondeu-me:

«Ver e ouvir mais uma vez a Linda, _poi morir_. Sim, sim, irei, mas não
espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos
ambulantes. Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha
um comboio que chega a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha
entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, ás nove horas
precisas da noite em que elle se efectua. Á cautella, peço-lhe que faça
com que o meu nome feche o programma. A _Marselheza_ está
interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas
locaes. Executarei, pois, a _Marselheza_ hungara, o hymno de Rakoçki.»

Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se
inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever
ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou
telegramma. Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle
saiba que é compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira
indiscrição. Remissy é, como eu, excessivamente dedicado á sr.ª
viscondessa, e por isso estou certo que elle annuirá ao meu pedido, e
procederá de fórma que não a comprometta.

Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,

                                                     Seu humilde criado.

                                                     «_Lauretto Mina._»


Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser
lida pelo visconde.

Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.

A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.

--Um risco mais! disse elle.

E depois de pensar, por instantes, accrescentou:

--Afinal a quantidade pouco importa.

Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.

Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico.

A casa fôra completamente passada.

Renderia mais de cincoenta mil francos.

Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a
quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.

O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar,
fazendo-lhe assim a vontade.

Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.

--Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma senhora
nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo
theatro.

O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dos
_prejuizos gothicos_ que ella tinha.

Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem
está segura do que executa.

Na vespera fizera substituir no programma a aria _O Rei dos Alamos_ por
um outro trecho de Schubert, _Margarida_, que exigia mais sentimento,
mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente
que a dama d'alta sociedade o executasse.

Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para
que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava
era a viscondessa de Bizeux.

Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um
desusado rodar de carruagens.

Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do
Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.

Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo
braço do conde de Bizeux.

A entrada da viscondessa produziu sensação.

Estava adoravelmente formosa.

Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada
epiderme do collo.

Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao
collar.

O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta,
collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e
cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario
brilho.

Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe
os microscopicos sapatos de velludo azul.

O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa, dando o braço á irmã,
que vestia uma _toilette_ simples, de seda preta, sem enfeites.

Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.

Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da
estação de La Fresnays.

Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a
demorar-se por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo
antes da meia-noite.

Não podiam, pois, contar com Remissy.

A noticia alegrou Antonino e Laura.

O salão do Casino estava repleto, brilhante de _toilettes_ primorosas e
caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.

Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.

O espectaculo constava de duas partes.

A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e
mulheres do povo.

Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.

A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na _Ave Maria_
de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.

Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura
cantou a aria _Fidelio_.

O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou
o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo
indiscriptivel.

O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á
viscondessa.

A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior
d'uma alma d'_elite_.

Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.

Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria,
a custo retinha as lagrimas.

Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia
sobre _motivos_ da Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.

O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira,
era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy.

Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux
levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o
descarrillamento, e que, por isso, Remissy não estava presente.

O conde começou dizendo:

--Um descarrillamento entre as estações de...

Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino
debaixo do braço, avançou lentamente, e disse:

--O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem
em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á
hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.

As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.

Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se
passára.

Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o
sacco de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays,
tranquillamente.

Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a
Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de
casaca e gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas
leguas.

Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o
hymno de Rakoçki.

Como sempre, foi extraordinario d'execução.

As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o _thema_ do hymno foi
exposto com firmeza e arte.

Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento,
como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.

Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.

Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se
o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.

Era a isso que elle chamava _tocar nas estrellas_.

Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi
indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.

Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas
furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.

Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.

Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os
espectadores gritaram:

--Bis!... bis!...

Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:

--Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei
qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.

E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre o
_Carnaval de Veneza_.

Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade,
que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.

Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens
dos companheiros da _Commedia dell'arte_.

Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical,
passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.

As palmas retiniram novamente.

Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.

Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia
modestamente.

O ultimo numero do programma, era a _Margarida_, de Schubert, cantado
pela viscondessa de Bizeux.

Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou
Remissy, que se retirava.

O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:

--Ah! encontro-a emfim! não a via...

A viscondessa não o deixou terminar.

Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.

Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.

A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão
a cadeira que Laura acabava de deixar.

O violinista approximou-se.

A baroneza disse-lhe então:

--Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?

Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não
se dando mesmo ao trabalho de responder.

Lauretto Mina não estava longe.

Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera,
de que a Linda desejava guardar o incognito.

Não se moveu, porém.

--O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a
censurar-me por faltar ao compromisso tomado.

A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores,
cumprimentou graciosamente antes de começar.

Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande
espanto da baroneza:

--Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!

Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e
nitida pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se
uma só das palavras ditas pelas cantoras.

--Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca
qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!

Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a
potencia da sua maravilhosa voz, enchendo, por assim dizer, o salão
com a mais bella e profunda sonoridade.

Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.

Os bravos resoavam.

Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!

--Bravo, diva!... bravo, Linda!...

Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.

Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.

Augmentava a sua surpreza.

--Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará
a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?

Laura proseguia.

Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os
e pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.

A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido,
a emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão
adoravel expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.

Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola
occulta.

As damas choravam.

Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de
bravos, de gritos d'admiração unanime.

Remissy estava fóra de si.

Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.

A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.

--Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É extraordinarissima!...

Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.

Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação
quasi semelhante.

É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle
centuplicado effeito.

Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual
Laura cantára.

A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era
feita.

Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:

--Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha
querida Linda!... Se não te beijar, rebento!

E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.

Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao
violinista:

--Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!

--Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto.

E lançou em volta um olhar admirado.

Era curiosa a mudança operada no auditorio.

Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.

Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o
seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os
agora.

Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.

E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.

--O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria
familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por
tu!.. Beijou-a em publico!... _Shocking!..._ É escandaloso!... É
ridiculo!...

Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual,
que gritava, com irreprimivel satisfação:

--A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a
Linda!

Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente
do salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:

--_Vade retro, Satanaz!_

Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:

--O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?

Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.

O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago,
indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:

--Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por
acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a
Linda é o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é a _Margarida_ que
beijo, selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e
marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza é _Honny soit qui
mal y pense_?

Antonino approximára-se de sua mulher.

Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe:

--Anda, Laura, vem.

Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.

Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e
sereno o olhar.

Os espectadores abriram alas.

Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.

Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos
como no fim da aria.

Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:

--Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa
querida Linda, pratiquei uma grande tolice!

Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:

--Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.

O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:

--Parece-lhe?



XX

Discordia conjugal


Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.

Iam tristes.

Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.

O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que
tão fóra de proposito rebentára.

Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia
seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa,
mas jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão
estrondosas e desagradaveis.

Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo
certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer
por completo.

Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que
se passaria no dia seguinte.

Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu
pae, a frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda,
de sua esposa não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de
Saint-Malo.

Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que
nada tinha de que censurar-se.

Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar
parte n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.

Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas
instancias do marido e do sogro.

Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado
enthusiasmo, transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho?

Chegaram a casa sem trocar uma só palavra.

Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois
seres, que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se.

As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas
vezes affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem.

Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a
porta, retirando-se.

--Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.

Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura,
e respondeu:

--Voltarei d'aqui a pouco.

A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe
fazia sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe
despiu o vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um
outro, de trazer por casa.

Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da
janella aberta.

Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.

Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas
desfazendo-se na areia da praia.

Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega.

No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa
facha branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel.

Um sino badalou triste, lugubremente.

Aquelle som fez-lhe mal.

Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro.

Seria esse morto o seu amor?

Abriu-se a porta do quarto.

Laura voltou-se.

Era Antonino que entrava.

Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.

--Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que
poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?

--Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que
soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que
succedeu.

Antonino replicou com amargura:

--E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos
e bem ridiculos!

--Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias
das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se
era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia
evitado se, como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto.
Pois se eu não tivesse como que uma especie de pressentimento de que se
passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para
não ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não
annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque não podia deixar de o fazer. O
enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal não
teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter
cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser accusada
d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo d'ahi
as minhas mãos.

--A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu
Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um
nome que tornaste celebre, e que estimas,--sem duvida muito mais,--do
que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia,
esse nome, cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o publico,
vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá e
diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos,
passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os
amigos e os parentes.

--N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu Laura.

--Não digo tanto, mas...

--Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para
que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa
sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as
probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi
aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem
por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que,
casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem
que não é assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto
d'abnegação, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que até então
fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse
sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e
renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto elle por
vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a
França, depois que vivo n'esta atmosphera de provincia em que
respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que
possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me é
querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! É
muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças,
recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o
theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te
envergonha, mas que é a minha maior gloria!

--Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do
sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como
te amava d'antes?

--Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado da
sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!

--A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella..

--Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é
verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a
dó. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma
estranha, em que eu não passava de pária!

Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.

Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:

--Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos
lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre
esse assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te.
Ámanhã estarás mais socegada. Até ámanhã...

Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:

--Até ámanhã.

Laura respondeu a meia voz:

--Pois sim... deixa-me. Até ámanhã.

Antonino olhou-a, ancioso.

Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de
voltar.

Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.

Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de
passos, que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em
soluços.

Chorou muito tempo.

As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.

Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora
encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação.

Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e,
pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.

O quarto estava vasio!

Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.

Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.

Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.

Davam quatro horas n'um relogio da casa.

Vestiu apressadamente uma _toilette_ de viagem.

Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta,
precipitadamente:


                                                   _Antonino_

Reclamo de ti a palavra dada.

Volto para o theatro.

Parto sem te ver.

Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.

Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.

A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me
despresa, era para mim impossivel.

Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:

Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar vivendo comtigo
uma vida que me incommodaria, mas espero e peço-te que me dês a
felicidade de viver commigo a minha vida passada.

Sou e serei sempre tua

                                                     _Laura._



XXI

A fuga


Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa
louca inconsciente, Jacintha.

Pensou:

--Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?

Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que
a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.

Depois de reflectir, resolveu-se.

Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao
quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.

Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais occultamente que lhe
fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia.

Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel,
designando-a por _madame_ Linda.

A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o
Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.

Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:

--Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.

Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias,
cartas, alguns objectos insignificantes,--pura recordação,--e outros
essenciaes.

Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para
aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.

Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.

Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as
aguas da bahia.

As ondas tomavam reflexos cinzentos.

Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade,
e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas
estrellas se perdiam.

Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.

No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que
manchavam a côr d'ardosia do mar.

Laura saccudiu bruscamente a cabeça.

Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a
torturavam.

Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta
para Antonino ficasse bem em evidencia.

Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa
cinzenta.

A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a
rua, do lado da casa opposto ao mar.

A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.

Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na
ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto
d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma
porta para aquella escada.

No patamar parou por um minuto.

O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.

Antonino não estava deitado.

Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.

Passeiava vagarosamente.

A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos
braços.

Resistiu á tentação.

Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e
principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.

Um dos degraus gemeu sob o peso.

Teve medo.

Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o
tapete que havia ao fim da escada.

Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu
para a rua.

O ar frio da madrugada fez-lhe bem.

Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da
velha cidade.

Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.

Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos,
dirigindo-se ao trabalho.

As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de
legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo
alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para
attrahirem a attenção dos homens que encontravam.

Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e
ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.

Quando chegou á _gare_ era dia.

O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.

Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera,
pensativamente.

Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o
silvo da locomotiva a chamou á realidade.

Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou
apressadamente na _gare_.

De repente estremeceu.

A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.

Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:

--Parte para Paris, Linda?

--Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.

Mas logo em seguida perguntou:

--Remissy não parte agora?

--Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está
muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque
necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que
lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora
era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a
viscondessa de Bizeux?

--Proceda como entender...

Chegou ao compartimento que tomára.

Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:

--Mas diga-me, _cara mia_...

--Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê,
estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me
acompanhar por mais tempo.

E subiu lestamente para a carruagem.

Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.

Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por
entre dentes:

--Tu me pagarás, vibora!

Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu
algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e,
logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a
quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:

--Para o telegrapho.

O telegramma era concebido da seguinte fórma:


_Visconde de Bizeux.--Saint-Malo._

Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.

                                     _Um amigo._


Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado,
respirando a custo.

Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não
ter chamado.

Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:

--Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha
mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.

O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o
telegramma.

Leu e soltou um grito estridente.

Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o
corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.

O leito estava intacto.

Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.

Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.

Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por
uma congestão cerebral.



XXII

Uma representação dos «Huguenottes»


O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os _Huguenottes_,
cantando a Linda a parte de Valentina.

Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro
tenor, que adoecera.

Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e
magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então
recentemente abertas nos _boulevards_, e comprava um _fauteuil_
d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da
casa.

Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura
abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a
Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.

Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,--_enviados por Marieta
Dauvin_,--seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais
roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e
que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.

Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu
profunda anciedade.

O que significava aquelle silencio?

N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a
prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem
reflectir.

Agora estava livre.

Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.

Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se,
saudosa, do seu amor.

O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda,
pedira-lhe uma entrevista.

Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.

Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo
a queria contractar.

Lia todas as manhãs o _Correio de Saint-Malo_, que mandava comprar á
agencia Havas.

Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,--uma partida,
um accidente imprevisto--encontraria a noticia n'aquella folha local.

Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella
procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi
mencionado pelo jornal.

A quem devia dirigir-se? A quem escrever?

Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.

Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com
pessoa alguma.

Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.

Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:


«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta que te deixei? Não
comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei?
Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.»


Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que
podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.

Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.

Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.

A carta era do conde de Bizeux.

Escrevia o pae d'Antonino:


                                                        Minha senhora:

Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a
senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a
desolação e o lucto.

Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura,
nem em seu nome, nem em nome do filho.

Desejou ser livre _para voltar para o theatro_. Satisfez o seu desejo,
está livre.

Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que
nos importune quem quer que seja.

Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.

                                              _Augusto, conde de Bizeux._


Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.

Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!

Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares
de juiz justiceiro!

O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que
justificasse uma tal attitude?

Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e
deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!

Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso
geral, se assim fosse.

Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das
leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu
sogro ou por seu marido.

A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e
altivo de Laura.

A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada
de semelhante modo.

Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o
mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor
quebra.

Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director
da Opera solicitára.

O emprezario queria escriptural-a.

Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das
magnificas condições que lhe offereciam.

Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o
contracto por um limitado numero de representações.

O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir
alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de
Laura, e acceitou.

A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez
do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando
os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.

Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta
annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as
funcções de cosinheira.

Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua
nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se,
pelo menos, senhora absoluta das suas acções.

Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.

Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se
soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.

Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não
percebia o estado em que se achava.

A doença aggravara-se dia a dia.

Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava
condemnado.

A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença

D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia
perder o filho unico, a quem tanto amava.

Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por
Laura a Antonino.

O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que
a nora deixára em casa, á partida.

Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.

D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.

Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?

Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que fôra como que um
punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.

Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.

Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?

Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho.
O conde não era juiz, era pae.

Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua
indignação lhe inspirára.

Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar
essa mulher.

A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas
semanas.

Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.

O delirio não o abandonára um só instante.

Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.

Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:

--É possivel salvar-se.

Quinze dias depois accrescentaram, emfim:

--Está salvo!

Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de
si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao
leito.

Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:

--Laura?...

Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.

Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia
pesada, que era a sua salvação.

A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar
completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder
supportar a verdade.

Recordou-se de tudo.

Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de
chamar, não estava alli, abandonára-o.

Porque?

Quando?

Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...

Mas ella fugira só?

Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...

Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,--d'uma carta d'ella!--que não
tivera tempo d'abrir.

Interrogou seu pae.

O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só
podia fazer bem ao doente.

E com efeito assim foi.

Antonino poude chorar.

O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.

--Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me. Chama-me,
espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me
espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me
perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram
noticias minhas?

O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que
lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta
implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que
jámais teria noticias de seu marido.

De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter
acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura
mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:

--Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque
declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue
o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a
certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente
tambem horror!

O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o
filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.

Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe,
chamando-a para junto d'elle sem detença.

O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que
ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o,
arriscava-se a peorar.

Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo,
resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse
que o podia fazer.

Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura
de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.

Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de
Linda na Opera.

Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:

--Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu
sonho doirado. Voltará depois mais socegada.

O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os
medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não
morreria, estava louco de satisfação.

Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no
futuro.

De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera
com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a
Antonino.

Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para
nobremente lhe pedir perdão.

Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.

Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura
tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da
Linda.

Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.

Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.

Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção
absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia
ser para Laura.

Não lhe restava a maior duvida.

Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam
verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar
outro homem.

Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas
caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e
percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só
d'elle.

E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o
despresava.

Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.

Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma
no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.

Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter
avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e
Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os
labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio,
pouco antes do comboio se pôr em marcha.

De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer
indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.

Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e
quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando
meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.

Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara
qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu
amor n'um tom serio que não lhe era habitual.

--Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a
quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar
d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha
amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso
admirador.

A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com
uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.

Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a
prudencia com que estava resolvida a responder.

Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que
sentia por elle.

Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e
tornou-se inimigo de Laura.

--Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!

Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro
Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:

--Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!

Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito,
porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus
cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de
ser bem succedido.

--Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os
labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde
está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que
quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a
predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:--A Linda será
d'elle!

O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na
occasião em que Antonino chegou a Paris.

O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em
primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por
Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel
doença que o ia matando.

Mas Antonino tinha a sua idéa.

Instou com o pae para que o deixasse partir só.

Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar
a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença
avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas
partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.

Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.

Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na
sua antiga casa de solteiro, no _boulevard_ Haussmann.

Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde,
descançando, sonhando.

Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um _fauteuil_
d'orchestra n'uma agencia theatral dos _boulevards_.

Em seguida foi jantar ao _Café Inglez_, e ás sete horas e meia entrava
na Opera.

Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver
sua mulher,--de tornar a ver a Linda,--cantando a parte de Valentina dos
_Huguenottes_, que era justamente o papel que ella representára a ultima
vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.

Tornaria a vel-a, do seu _fauteuil_ d'orchestra, apenas como um simples
espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.

Esperava sentir dupla alegria.

Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua
adorada mulher.

Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.

A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que
sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem
tanta exhuberancia d'amor.

A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel
crise.

Mas a convalescença chegara.

Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de
renascimento.

A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.

Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes
a amara.

Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo,
admirou a escadaria, o _foyer_, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!

Extasiou-se ante as _toilettes_ claras das senhoras, que sobresahiam do
vermelho do forro dos camarotes.

Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos
candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino,
que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.

Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.

Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.

Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da
orchestra levantou a batuta.

A opera começou.

Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho,
apenas vagamente via passar Lauretto Mina.

Todo o seu ser esperava por Laura.

Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena,
sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes
a soltar um grito.

Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para
ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.

Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.

A representação seguia como um encanto para o visconde.

No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.

Disse a phrase

    _A offensa mortal do ingrato..._

com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino
marejaram-se de lagrimas.

A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina,
que abre o terceiro acto, e começa

    _Estou só com a minha dor!_

Quando Laura soltou o grito doloroso:

    _Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal..._

a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não
podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se
lamentava e não Valentina.

O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de
terror gelado.

Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que
cantava, unicamente a elle que se dirigia.

Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer,
entre ella e elle.

Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.

Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.

Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.

O dueto sublime começou.

Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer
outra arte, nem a pintura ou a poesia.

Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor
dos sentidos.

Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com
todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis
da voluptuosidade!

E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!

Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.

D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e
_virtuosidade_ que possuia, com vigor e expressão.

Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.

N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.

Agora sentia, recordava-se.

No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.

Quando viu Laura--porque, para elle, aquella mulher deixára de ser
Valentina--lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto--que já não
considerava como Raul--acerbo ciume se apossou d'elle.

Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á
ficção uma realidade terrivel.

O salão, o publico, desappareceram.

Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor
entre sua mulher e aquelle homem detestado.

E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:

--Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse
indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão
ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o
contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?

Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;

    _Fica, Raul, eu amo-te!_

o visconde mordeu a mão para não gritar:

--Miseravel!

Raul parte e Valentina cae desmaiada.

Antonino, no seu _fauteil_, parecia ter desmaiado tambem.

Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e
Marcial.

A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o
despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação
theatral.

Os olhos viram claro.

Laura passou novamente a ser Valentina para elle.

Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.

Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o
inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por
assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava,
que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem
que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua
imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que
podem gosar duas almas irmãs.

E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera,
como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas
verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já
completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo,
para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado
fez a Laura.

O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de
partir para Paris.

Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco,
perguntando ao porteiro onde era o camarim de _madame_ Laura Linda.

Entrou.

Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do _foyer_.

O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver
Antonino, recuou admirado.

--O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.

Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e
accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:

--O sr. visconde procura sem duvida _madame_ Laura Linda?... É a segunda
porta, n'esse corredor da direita. Creio que _madame_ Linda está só esta
noite.

Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.

Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto
murmurou colerico:

--Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao
total!

Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.

Jacintha foi abrir.

Ao ver o visconde soltou um grito.

Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim,
para o qual correu, gritando:

--Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!

Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante
d'um espelho.

--O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.

No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos,
phantasma de si proprio.

Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto
nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:

--Laura!

Depois caminhou para ella lentamente.

A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.

Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.

--Minha Laura... amo-te!

Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:

--Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!

Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.

Foi longo o abraço.

Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:

--Mas porque estás n'este estado?

O visconde respondeu, sorrindo:

--Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre
a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando
uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae,
afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia
anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle
está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em
estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.

Quiz tomal-a nos braços.

Ella impediu-o de realisar a intenção.

Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.

--Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de
ti! Porque não me chamaste?

--Estive muito tempo sem consciencia...

--Mas depois?

--Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra,
não quiz privar-te da liberdade promettida Não desejei ser um
impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro,
que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar
algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite
em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia
inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a
sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me
como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem
Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por
tua causa?

--Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito:
assististe ao espectaculo de hoje?

--Assisti.

--Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em
ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o
papel de Valentina, cheio de _phrases_ que parecem ter sido escriptas
para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me
mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando
a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora
melhor do que d'antes?

--Sim, sim, cem vezes melhor!

Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:

--Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!

Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.

A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.

Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.

Ella proseguiu:

--A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas
vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente
meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes,
junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a
nostalgia do teu amor!

Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.

Laura estava completamente entregue á sua querida arte.

A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos
d'outr'ora.

Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma
bronchite.

Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a
Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.

Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem nos seus
aposentos do _boulevard_ Haussmann.

Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.

--Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu
senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?

--Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os
longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que
seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste
bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona
para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma.
Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti,
deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?

--Quero, sim, quero, porque é a verdade!

--Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha.
Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e
prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto,
apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou
incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente,
clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos
correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde, e tu convidar-me-has
algumas vezes para jantar com Despujolles.

--Oh! mas isso é encantador! disse Laura.

--Agrada-te a minha idéa?

--Immenso!

--Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama
Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias.
Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa
felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será
lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.

--E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!

Antonino levantou-se.

Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:

--Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.

Beijaram-se longamente, ardentemente.

Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.



XXIII

O amante legitimo


Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.

No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em
busca d'uma casa onde fizesse o _ninho_ promettido.

Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de
Laura e d'aquella em que elle vivia.

Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.

Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada
principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo
portão, uma entrada particular que abria para a rua.

A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande
e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.

Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais
conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas
horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.

O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo,
para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.

Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.

Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois
corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga
e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha.

O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas
figuras biblicas.

A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.

O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto
d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de
Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem
celeste.

Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.

A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros
que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de
Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau,
assignado pelo mestre.

Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora
crepuscular, de Corot.

O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.

Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns
gabinetesinhos de _toilette_.

O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha
por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão,
em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.

Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para
Antonino, queriam dizer Laura Linda.

Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes,
bordados, representando paysagens com figuras finamente desenhadas
e admiravelmente coloridas.

Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.

Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano
valor.

Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem
presidira á decoração das casas.

O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que
respeitasse a cosinha.

D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.

Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.

Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.

Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.

O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.

Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha,
satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.

Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto
de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.

A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente oito dias
depois da representação dos _Huguenottes_.

N'essa noite a Linda cantava o _Roberto o Diabo_.

Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou,
encantado,--tanto como ella, de resto,--da sua nova felicidade conjugal.

Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras
noites, que elles partiriam para o _ninho_ em seguida a cada
representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe
causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que
desempenhára e da vida propria.

Antonino assignára um _fauteuil_ d'orchestra junto á scena.

Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás
acclamações que a chamavam nos finaes d'acto.

Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o
extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.

Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.

Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle
se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.

O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer
que fosse.

Ambos se consideravam felicissimos por aquella encantadora vida,
alegre como a phantasia, doce como o habito.

O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa,
dizia que elle ficava em casa de Linda.

Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa,
pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.

Geralmente Antonino voltava para o _boulevard_ Haussmann ao amanhecer.

Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.

Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.

O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira
a Linda.

De dia os dois esposos viam-se officialmente.

Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para
o theatro.

Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.

De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a
esposa muitas vezes.

Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente
com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros
amigos.

Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes
na rua de Bolonha.

Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e
que o eram tambem do visconde.

Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela
Linda.

Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino,
que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.

Apenas não tinham perdido completamente a coragem.

Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e
esperavam com paciencia digna de melhor sorte.

Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva
nem possuia identica paciencia.

No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.

O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o
visconde, e agourava bem d'essa situação.

Um dia disse á Linda, no _foyer_ dos artistas, motejando:

E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de
Cézambre,--lembra-se?--que o seu casamento não me parecia dos mais
serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece
que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De
resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale
mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.

--Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura
no mesmo tom.

--Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que
estão apaixonados pela sua pessoa,--e eu creio que pelo menos conhece
um,--veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades
favoraveis.

--Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não
augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu
amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.

--Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.

E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no
_foyer_:

--Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais
probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de
que tendo na frente o marido?

--Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se Laura a responder
sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro
homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso
lhe pertencera o meu amor.

E voltando as costas ao tenor, sahiu.

--Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier,
rindo.

--Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera
extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te
darei provas irrefutaveis do que avanço.

Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação
do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.

Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino
e Lauretto.

Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que
o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do
_foyer_.

Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a
attenção de toda a gente.

--Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos
duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por
mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando
provocado, a só me bater se o insulto recebido fôr d'ordem a não
acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.

Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas
impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.

Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.

Ella era tão feliz!...

E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só
nuvem que a escurecel-a.

Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.

Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o
seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma
tal situação.

--Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se
occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece
razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais
sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.

Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?

Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo
manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á
escada que descia para a rua.

Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.

Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.

Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se
levantara.



XXIV

Jacintha


Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.

Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe
sobreviveria por muito tempo, com certeza.

O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do
irracional.

As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar
deveras, porque possuia um bom coração.

Mas arrependia-se e não se emendava.

A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.

Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos
pretos e brilhantes, a tez morena e fresca d'andaluza, a cintura
delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um
grande numero de cumplices.

Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.

O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.

Colhera-a e passára.

Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.

Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na
collecção dos seus admiradores, um _artista_, um verdadeiro artista, de
que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a
posse, segundo ella suppunha.

Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha,
sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada.

E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.

Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada
de Laura.

Afinal, na grande sociedade--está provado!--as cosinhas não recebem peor
gente que os salões.

Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar
a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.

No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura
admoestou-a com toda a severidade, como costumava.

Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de
Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida,
Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.

Disse-lhe que a devia abandonar completamente.

Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a
sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.

E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.

Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.

Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo
seguir os seus exemplos.

Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.

A admoestação aproveitar-lhe-ia.

Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.

Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem
solidas, eram com certeza sinceras.

Entretanto tomou algumas precauções.

Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua
Boudreau.

Escolheu um casal já idoso.

O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.

Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.

Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha
a porta do camarim.

Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos
começavam a cicatrisar.

A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe
terrivel effeito.

Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava
novamente a andar mais ligeira.

Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos,
accelerados tambem, no espirito.

Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria
melancholia.

--Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem
feliz!...

--Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia
um bom marido.

--A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar,
necessitarei procurar.

Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza
inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado,
comprehenderia o perigo, verificaria que a virtude começava a ser
demasiado pesada para Jacintha.

Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara
com Lauretto Mina.

O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a
outra, e disse-lhe:

--Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei
tanto como agora.

Não se contentou com palavras.

Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco
alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na
bocca.

Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.

O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!

Devia haver muitas senhoras que o invejassem!

Esta circumstancia foi mais uma tentação.

Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?

Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto
um quarto tão encantador como aquelle.

Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.

Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.

Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o
visconde ou sobre a Linda.

Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente bem desempenhada
pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a
dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar
n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.

Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa,
ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor,
para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no
quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.

O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o
visconde tivesse partido.

Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.

Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres
horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.

Áquella hora a creada dormia profundamente.

Lauretto levantou-se sem fazer ruido.

Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.

O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões
d'um reposteiro.

Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e
approximou-a levemente da esquerda.

Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:

--Já te levantaste?

--Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.

Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de
Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido.
Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.

Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava,
prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.

Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.

O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.

Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.

Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi
imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a
roupa da cama.

Depois, o tenor vestiu-se lentamente.

Entreabriu a porta do quarto, e escutou.

Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia,
destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça.

A infeliz estava desmaiada.

O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.

Antes que a creada recuperasse completamente os sentidos, Lauretto
tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as
narinas a descoberto.

Depois voltou novamente para junto da porta.

Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.

Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.

Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.

Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.

O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella
cahira estupidamente, como uma ingenua.

Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.

A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das
impertinencias de Lauretto.

Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas
palavras pronunciadas pelo tenor.

Não podia duvidar.

Era Laura quem elle desejava.

A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.

E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a
entregara áquelle miseravel!

Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.

Deixaria ella commetter um tão infame crime?

Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.

As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como
arrancar a mordaça?

Como cortar os cordões que a atavam?

O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.

As lagrimas corriam-lhe pelas faces.

Olhou para o candieiro acceso.

Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?

Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.

Nem um instante hesitou.

Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos
cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do
travesseiro.

Esta operação difficultosa durou dez minutos.

Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a
elle, e, com um esforço acabou de se elevar.

Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões
que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.

A dôr era insupportavel.

Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da
luz.

Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel
cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada.

Uma das voltas do cordão quebrou por fim.

Mas não era a que formava o nó.

Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.

E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:

--Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!

O cordão cedeu emfim.

Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a
prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os
pulsos--porque o tempo urgia--sentou-se na cama, e desligou os pés,
ainda que com bastante custo.

Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.

Estava livre!

Vestiu-se sem perda d'um segundo.

As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente
cumpriam a sua missão.

Sentia-se banhada em suor frio.

Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.

Pensava.

O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia
hora antes. N'aquelle momento, como era possivel que o crime
estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle
negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.

Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a
meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.

Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.

Não duviu o menor rumor.

Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?

Não se atrevia a decidir.

Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta
e achou-se na rua, deserta áquella hora.



XXV

O infame


Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de
Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.

Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que
ella trazia, tel-a-hia tomado por surpreza na sombra, e a Linda
podia então considerar-se perdida.

Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo
com a colera da cantora.

Portanto mostrou-se, apresentou-se.

--Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que
Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a
hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de
mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.

Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.

O tenor proseguiu:

--Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos,
a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por
ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares
ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o
visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi
desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o
teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça--e eis-me aqui!

--Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de
resignação.

Voltára-lhe a presença d'espirito.

Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente
do tenor e entrou no quarto.

--Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto
sorrindo victoriosamente.

Como ella não respondesse, o tenor continuou:

--Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se
devem desprezar estas palavras: amo-te!

Laura encostára-se a uma secretária Riesener.

O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:

--Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?

Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.

Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria,
pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.

E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um
revolver que acabava de engatilhar.

--Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.

Lauretto empallideceu horrivelmente.

Mas replicou, tentando sorrir-se:

--Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...

--Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o
revolver.

--Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com
afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o
corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem
desarmado, entretanto...

E ia dar mais um passo.

Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:

--Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso.
Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão
extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos
_pampas_. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo.

Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto
era certo que omittia um pormenor importante.

O revolver estava descarregado.

Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto
Mina, não podia deixar de ser cobarde.

Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.

Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo
gatilho.

Entretanto, fazendo-se forte, disse:

--Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e
então...

--Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha
o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto,
de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue
horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer.

Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de
silencio, com riso forçado:

--Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um
para o outro, como dois cães de faiança?

Laura não respondeu.

Conservava-se immovel como uma estatua.

--Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.

Ella replicou:

--Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma
vez sentado, o prohibirei de se levantar.

--Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé.

--Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom.

--Devéras?... disse Lauretto indiciso.

Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em
retirada.

Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.

O negocio falhára, decididamente.

Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?

No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos
collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.

Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.

Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco
mais firme:

--Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.

--Qual?

--Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma
na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as
palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só
amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado
mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos
não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a
gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e
tomada pela raposa!

--Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.

Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.

No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.

O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.

Os minutos passavam com uma lentidão mortal.

Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.

A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir
as forças do corpo.

Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um
ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço
meio estendido, empunhando o revolver.

O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.

Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia
defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos
assustando o seu inimigo.

Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do
seu lado.

Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse
sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um
bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se.

E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir
infame d'aquelle miseravel.

O relogio deu cinco horas.

Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e
d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.

Disse portanto em voz alta:

--Cinco horas!

Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:

--Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste
que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo
mesmo,--o que é duvidoso,--que consiga sustentar até ao fim esse
magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos
deshonrada. Quer saber como?

Laura não respondeu.

O tenor proseguiu:

--O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não
poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo
de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido
n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado,
motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que
mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus
braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até,
conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das
hypotheses, deve concordar que as apparencias são por mim. Por
agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que,
para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...

Laura sorriu com desdem.

Elle continuou:

--Deixe-me acabar e ria depois. Medite,--porque ainda é tempo,--e verá
que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha
generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o
declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que
fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.

O tenor fez uma pausa.

A Linda deu aos hombros despresadoramente.

--Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a
tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá
contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça
explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as.
Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente
succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse
duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras
deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as
minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar
vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura, ao lado do
retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o--para possuir uma
recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que
deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao
ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão
matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou
tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr.
visconde de Bizeux...

--É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.

A cantora soltou um grito d'alegria.

--Antonino! disse ella.

O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de
braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu
corpo herculeo.

Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta.
Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.

Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.

Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.

O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:

--É triste que eu venha desmanchar as suas combinações infames.
Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi
chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em
violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa
figura.

Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.

Apenas teve força para balbuciar:

--Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...

--Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que
quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto
d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou
na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou
sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de
lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não
sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca
offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno
que me roubasse a bolsa!

--Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de
vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é
verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.

Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe que
isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e
para esta senhora.

--Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que
parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais
fallar d'elle.

--Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com
voz timida.

--Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez
soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de
sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal
começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe
concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não
ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba
de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite
aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em
tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se
esqueceria d'esta noite!

E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.

--Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a
dizer.

--Está em frente d'um justiceiro!

--Como?... O que vae fazer?...

--O que o senhor proprio projectava.

Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.

--Vamos... venha!...

--Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão.
Protesto contra as suas indignas violencias!

O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.

--Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.

Mas Antonino nada escutava.

Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais
terrivel.

Repetiu

--Vamos!... venha!...

E accrescentou, dirigindo-se á creada:

--Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.

Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva
resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.

Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.

Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.

Desceram ao vestibulo.

Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:

--Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.

Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.

O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.

O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de
camisa e de chinellas.

--O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?

--Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em
minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!

--Oh! que patife! disse o porteiro!

Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao
pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:

--Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?

--Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.

O porteiro abriu a porta.

Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.

Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo do tenor,
objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente.

A porta foi fechada quasi immediatamente depois.

Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e
estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:

--Chegar-me-ha a vez!

E distanciou-se com passo rapido.



XXVI

O desafio


Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada
aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:

--Oh! minha senhora, perdôe-me!

Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito,
a sua coragem.

--Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no _boulevard_
Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda,
e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos
confessar que foi ella tambem que tudo remediou.

Laura socegou Jacintha, consolou-a.

Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados
da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento,
acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.

Voltou para junto d'Antonino.

Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.

Cahiu sobre um _fauteuil_ e chorou, murmurando:

--Ah! que noite! que scena!...

--Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos.
Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!

--Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse
terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso
perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste
terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma
alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.

--Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que
o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.

--E se fôr?

--Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me
com esse homem.

--Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida
incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te
escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses
agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e
poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos.
Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que
foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.

Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.

Depois proseguiu:

--Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua
mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as
nossas existencias, como puzemos os nossos corações?

Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.

Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa
com phrases ternas.

--Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma
hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a
annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a
dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A
noticia...--fallemos baixo!--desejava esperar alguns dias para te fallar
nisso... Mas não... não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é
que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim!
Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o
sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje
pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha
mãe!

Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco
d'alegria.

--Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.

E cobriu-lhe de beijos as mãos.

Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:

--És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem
sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora
novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é
nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra
d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina,
exporás a tua vida contra a d'esse miseravel.

Antonino hesitou.

--Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.

--Ah! hesitas!... disse Laura.

Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.

Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso
tomado por aquella fórma, mas que em taes circunstancias esse
compromisso não obriga um homem.

Portanto replicou:

--Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.

--Ah! obrigada!...

Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.

Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da
sua nova vida.

Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida,
assim precipitada, semelhava a fuga.

Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.

Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar
multa na Opera.

Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.

Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha,
Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.

Conversaram até ás sete horas da manhã.

A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.

Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde
procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.

Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino
voltar á casa do _boulevard_ Haussmann apenas para tratar de pormenores
materiaes.

Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.

Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre
um canapé.

Não podia conciliar o nome.

Previa, preoccupado, o que se ia passar.

Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida,
principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na
questão.

Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre
elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.

Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista,
e de Gressier, o baritono.

Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas
as visitas.

Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.

Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como
Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo,
e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.

Foi Nobillet quem fallou.

--Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O
nosso collega assegura que vossa ex.ª o insultou esta noite,
gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para
vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso
constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações
com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que
essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior
no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem
razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se
fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome
d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o
depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr.
visconde?

--Completamente...

--Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós
estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer
honrar-nos.

--Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto
Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella
habita. Irritei-me e pul-o fóra.

--Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O
sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.

--Ignorava e ignoro esse facto.

Nobillet proseguiu:

--Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não
é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á
indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade,
de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens
honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois,
que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões.

Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle
negocio.

Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto
Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.

Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na
conclusão do conflicto.

Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao
menos um pretexto para declinar a sua penosa missão.

Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.

O visconde, porém, limitou-se a responder:

--Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a
mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu
procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não
existem.

As duas testemunhas olharam-se consternadas.

Depois Gressier disse:

--Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não
offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo,
portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.

--Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De
resto supponho que não seriam acceites.

--É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a
escolha das armas... disse Gressier.

--E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino,
sorrindo.

E levantando-se, accrescentou:

--Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção,
e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em
relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de
Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.

Os tres cumprimentaram-se com silencio.

O visconde acompanhou-os até á escada.

Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais
inquietas que o proprio visconde.



XXVII

Preliminares


Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para
comsigo:

--Era fatal este resultado!

E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar
as suas disposições.

Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que
tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o
expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.

A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e
encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do _boulevard_ Hausmann
ás nove horas.

Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.

Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o
barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.

Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.

O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com
ar preoccupado:

--Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional.
Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu
gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel
explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta
victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes
tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e
vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas
considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são
poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é
duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar
desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto
apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos,
Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de
dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe
explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é
verdade, barão?

Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.

--Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas
não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem,
sabendo bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu
recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que
fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu
fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de
futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda
de tempo.

--Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas
instrucções a dar-nos?

--Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze
horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.

Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do _boulevard_
Hausmann, pelas dez horas da manhã.

Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.

Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.

Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava
possuido.

Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o
baritono fez um gesto de profundo desgosto.

É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o
visconde acceitava o desafio.

Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no _foyer_ dos
artistas:

--N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:

--Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem
duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.

--Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o
visconde! Hei de matal-o!

Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára
as ultimas palavras.

Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o
peso d'aquella desagradavel impressão.

O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:

--Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um
adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr.
visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza.

Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as
testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um
meio que os levasse a não continuar com as negociações.

Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac
disse, segundo o costume, que a sorte decediria.

Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde
de Bizeux, disse Nobillet.

--O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde.

--N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.

O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção,
affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.

Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.

O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.

Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.

Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.

Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um
salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.

Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:

--Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou
convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em
punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor
d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia.

Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.

Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer
não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.

O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa
de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.

Chegando a casa, disse a Laura:

--Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.

--Desejava antes jantar só comtigo.

E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:

--Nada de novo sobre Lauretto Mina?

--Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.

O jantar correu alegremente.

A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o
visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse
um telegramma.

Antonino voltou para junto da esposa.

Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.

--É um telegramma de teu pae? perguntou.

--Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida.
Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã,
talvez...

--Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.

--Curiosa!... respondeu elle, rindo.

Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.

Laura pensou immediatamente:

--Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.

Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus
pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.

--Em que pensas? perguntou-lhe elle.

--Penso que teu pae será um magnifico avô.

E não fallaram mais senão no pae e no filho.

No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.

Ás oito horas estava prompto para sahir.

Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:

--Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...

O visconde calculou:

--Não desconfia de nada!

E Laura dizia para comsigo:

--Não suppõe que eu adivinhei tudo!



XXVIII

O duello


A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.

Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se com um
adversario tão habil como pouco escrupuloso.

O conde disse-lhe com toda a energia viril:

--Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda
a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.

Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.

Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.

O conde abraçou o filho, dizendo:

--Mais uma probabilidade a teu favor.

O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de
coração, que dirigia a sua mulher.

O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.

O dr. não podia occultar a sua inquietação.

Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado
reanimou um pouco Despujolles.

Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.

As testemunhas e o medico subiram para outra.

O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se
completamente estranho a elle.

O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.

Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma
nuvem de melancholia.

As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco
antes das onze horas.

As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O
conde não se apeiou.

Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não
pronunciou uma só palavra.

Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o
velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu
filho, tanta era a sua commoção.

A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do
theatro não se fez esperar.

As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.

Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.

No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.

O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.

Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella
natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.

A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.

A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.

Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse
para os dois adversarios:

--Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.

Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.

Despiram os sobretudos e os casacos.

As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.

--Vamos, meus senhores, disse Bauriac.

Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.

Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.

Depois deram a conhecer o jogo.

Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma
calculada defensiva.

Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto,
contentando-se com _parar_, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do
adversario.

O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.

Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.

Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.

Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde
mudasse de tactica.

O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.

Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro
pallido, ondeavam.

O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:

--Podem descançar, meus senhores.

Lauretto vestiu o sobretudo.

O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados
sobre o peito.

Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para
Lauretto, disse-lhe:

--Quando quizer.

Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde.

Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as
forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas
se assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado
definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas
concederiam aos combatentes bastavam para Lauretto se refazer.

Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:

--Podem descançar.

O segundo descanço foi apenas de cinco minutos.

Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro
assalto, para pôr fim ao duello.

Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio.

Dirigiu um bote ao visconde, mas Antonino _parou-o_ e _ripostou_ com
energia.

Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se,
tacteando os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua.

Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez
do raio.

Lauretto _parou em prima_ e _ripostou_.

Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo de _parar_
e foi _tocado_..

Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu
Lauretto, trespassando-o.

O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.

Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.

--Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o dr.

O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:

--Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está
curado!

Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto
Mina, que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem
que os conduzira.

Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua
de Boudreau.

Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que
abriram a porta, ella correu para o medico.

Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria
extraordinaria.

--Ah! Antonino está vivo, não é verdade? perguntou-lhe Laura.

--O que!... Pois sabia?

--Adivinhei... Mas diga-me, elle está ferido?...

--Está, ligeiramente. Se assim não fosse eu não estaria alegre. Já vae ver.

Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fôra
deitado Antonino, que tinha entre as suas as mãos de seu pae, dizia-lhe:

--Meu querido Antonino!... é a terceira vez que expões a tua vida por
minha causa!

--E agora abandonarás tudo por mim?

--Ah! sim! E não terás completamente apenas a esposa, terás tambem a mãe!


FIM





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "O Romance d'uma cantora" ***

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