Home
  By Author [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Title [ A  B  C  D  E  F  G  H  I  J  K  L  M  N  O  P  Q  R  S  T  U  V  W  X  Y  Z |  Other Symbols ]
  By Language
all Classics books content using ISYS

Download this book: [ ASCII | HTML | PDF ]

Look for this book on Amazon


We have new books nearly every day.
If you would like a news letter once a week or once a month
fill out this form and we will give you a summary of the books for that week or month by email.

Title: Viagem ao Parnaso - Impressões da leitura da Velhice do Padre Eterno, poema - notavel do distincto poeta Guerra Junqueiro
Author: Ugedio, Frei
Language: Portuguese
As this book started as an ASCII text book there are no pictures available.
Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Viagem ao Parnaso - Impressões da leitura da Velhice do Padre Eterno, poema - notavel do distincto poeta Guerra Junqueiro" ***

This book is indexed by ISYS Web Indexing system to allow the reader find any word or number within the document.



                         IMPRESSÕES DA LEITURA

                                   DA

                        VELHICE DO PADRE ETERNO

                    POEMA NOTAVEL DO DISTINCTO POETA

                           GUERRA  JUNQUEIRO

                           VIAGEM AO PARNASO

                                  POR

                              FREI UGEDIO

                                SANTAREM
                            MINERVA INDUSTRIAL
                                  1885



                         IMPRESSÕES DA LEITURA

                                   DA

                        VELHICE DO PADRE ETERNO

                    POEMA NOTAVEL DO DISTINCTO POETA

                           GUERRA  JUNQUEIRO

                           VIAGEM AO PARNASO

                                  POR

                              FREI UGEDIO

                                SANTAREM
                            MINERVA INDUSTRIAL
                                  1885



Ao seu antigo condiscipulo e velho amigo

ABEL ACCACIO

O. D. E C.

                             _O auctor._



Aos realistas indigenas como testemunho de admiração pelo seu brilhante
estylo.


AO LEITOR

Não aspiro a poeta, não cobiço a gloria,
e por isso meu nome não firma esta historia.


AOS PUBLICISTAS

Ó criticos da Parvonia, ó sabios menestreis:
eu não pretendo applausos; eu só quero uns tantos réis.



VIAGEM AO PARNASO


                I

    Sonhava com as rosas e boninas,
    com o lirio do valle e c'o arroio;
    com as gentis e louras campesinas
    em bucolico e rude amor saloio.

    Sonhava... E já compunha um poema
    na mente escandecida de _poetico_:
    um amor innocente era seu thema;
    estylo... do effeito o mais pathetico.

    Procurei as surprezas com cuidado;
    os nomes dos heroes bem sonorosos;
    e dispunha-me amar, sem ter amado,
    cachopas com uns olhos bem fermosos.

    Julgando-me elevado poetaço,
    a musa invoco todo sobranceiro...
    Eis me sacode as orelhas mão d'aço,
    tão fria como o frio de janeiro.

      *      *      *      *      *

    Arregalei os olhos lestamente,
    esfreguei-os não crendo estar em mim:
    estava, sorrindo, na minha frente,
    um estafermo que descrevo assim:

    Era uma velha esguia e desgrenhada
    com sorrisos bastante insinuantes.
    Vestia á grega; cara descarada;
    os olhos encovados mas brilhantes.

        Sem tempo me dar a pôr-me álerta,
        com gesto de fina regateira,
        mão posta na ilharga e perna aberta,
        um discurso faz, desta maneira:

        --«Larapio e massador!
        tu és um impostor
        que queres imitar,
        de Daphnis e Chloë,
        a maneira de amar.

        Meu tolo, meu pedante!
        eu vou-te, n'um instante,
        mostrar que vaes errado,
        e que tens por cabeça
        grandissimo telhado.»

    Uma pausa fez, e de tom mudando,
    em _pose academica_, foi chiando:

    --«O tempo do romantismo já vae bem longe:
    morreu, quando morreu o derradeiro monge.
    A sciencia moderna dá a orientação
    á arte, á litteratura, á civilisação.
    Segue a sociedade na maneira de ser
    que hoje manifesta; copia-lhe o viver,
    se queres que te leiam, queres que te admirem,
    se queres que te applaudam e por ti suspirem:
    --porque o suspirar, embora termo antigo,
    é um acto real que todos teem comsigo.--

    Descantar amores é carunchoso, é velho:
    atira isso ao lixo, toma o meu conselho.

    As flores não cantes... Canta sómente as brancas,
    a côr da pureza: com isso não espancas
    o realismo puro, embora as côres quentes
    tenham mais procura e sejam as mais decentes,
    --por serem mais sadias á face da sciencia--
    não que as brancas sejam alguma indecencia.

    Não cantes os lirios: isso é velharia;
    tens o roxo das chagas que está mais em dia.

    Nunca falles nas puras aguas do arroio:
    isso é asneira; apenas rima com saloio
    e poucos termos mais. Falla na copahiba,
    que é liquido bom, muito usado lá p'ra riba
    pelas altas regiões do deboche doirado.
    Pódes fallar, tambem, no cel'bre preparado
    de Gibert, de Raquin, e na Salsa-parrilha...»


        --«Quem és tu? minha cara de pandilha!
        serás abelha-mestra, ou boticaria?
        serás bruxa com loja de hervanaria,
        ou annuncio de drogas, por acaso?»

        --«Eu sou a velha musa do Parnaso
        que, inspirada na sciencia dos effeitos,
        despida de rançosos preconceitos,
            abracei a moderna poesia,
        e conquisto mil adeptos por dia.»

        --«Ó musa moderna, eu te saúdo!
        e por ti me declaro amurudo
        se ensinas a fazer al'xandrinos
        mais sonoros, bellos, mais divinos
        que os gorgeios do proprio rouxinol.
        Juro!... nem cantar o girasol,
        que preciso é aqui para rimar.
        Antes, porém, haveis d'explicar
      como, velhos preconceitos tu despindo,
      a vestimenta conservas, que no Pindo
        usavas em a era romanesca.»

        --«Conservo-a por ser bastante fresca.
        A frescura é cousa indispensavel
        para crear um nome perduravel.»

            --«N'esse caso vou cantar o nú
            como diz o dito--mesmo crú.»

    --«Amigo: até isso vae sendo já safado...
    e comtudo explorar o que está explorado,
    por séria difficuldade, passa hoje em dia.
    Com arte fina e certas manhas, todavia,
    tudo se consegue.

                    Vem tu dahi commigo,
    verás como é certo e bem certo o que te digo.»


                II

        Eis-me transportado pelo espaço
        furando por pesada athmosphera,
        com risco de quebrar o espinhaço,
        pois nem umas azas de chimera
        a pulha da musa m'emprestou.
        Ella pela gola me agarrava
        e todo o caminho me levou
        suspendido, emquanto caminhava.

        Por fim pousou-me n'uma rua estreita
        como um bêcco da decantada Alfama.

    --«Amigo! tudo que vires, attento, espreita,
    se queres ser apregoado pela Fama.
    Estamos no meu Reino: aqui tudo respira
    quanto a teu estro falta e tão sedento aspira.»

        E vi o solo lamacento, immundo,
        exhalando o cheiro acre e nauseabundo
        que sae das negras aguas d'um enxurro.
        Aqui, além, saltavam do monturo
        vadios e magros cães de torvo olhar,
        desconfiados que lhes vão disputar,
        andrajosos mendigos seus collegas,
        as presas immergidas nas bodegas.

        Escorregando como um borrachão
        vi-me em risco de beijocar o chão;
        e se a musa amiga me não ampara
        certamente que partiria a cara.

      *      *      *      *      *

        Corridos varios bêccos tortuosos,
        que a bebeda co'os nomes mais pomposos,
        cantando, nomeava alegremente,
        á laia de cicerone intelligente:
        topei com um palacio illuminado,
        e com lacaio á porta enfardalhado.

      --«Quem mora ali?»--perguntei assombrado.

        --«É a orgia! a filha do argentario
        que gasta o ouro vil do usurario,
        que roubando o suor do proletario...»

        --«Ai! Deus meu! historia da carochinha
                que é formosa e bonitinha...»

        --«Não me falles á mão! aliás
        nunca alexandrinos tu farás!

        Presta ao meu discurso toda a attenção
        se queres que te dê inspiração.

        --É a orgia! a filha do argentario,
        que gasta o ouro vil do usurario,
        e que talvez deixasse na miseria
        o pobre proletario--vil materia!

        É a orgia! a impura mulher do vicio!
        que tem ha tanto seculo o baixo officio
        de macular as timidas consciencias.

        É a orgia! que, sem guardar conveniencias,
        prostitue as gordas carnes oleosas
        n'um sidereo leito, ideal, de nublosas.

        É a orgia!... Com seu halito pestifero
        (que é mil vezes ainda mais mortifero
        do que o bacillus-virgula do Ganges)
        mata o coração das _virtuosas_ Langes;
        e tem feito baquear testas coroadas
        quando o povo levanta barricadas.

        É a orgia que fez cahir os Romanos,
            aqui ha uns centos d'annos.

        É filha della a walsa tentadora
        que, veloz, sensual, animadora,
        queima innocencia e queima candura.

        Alcovitas prazer de pouca dura
        e nos dás bellos sonhos côr da rosa:
    mas findas na botica--ó walsa caprichosa--
    comprando copahiba, enxofre e capa rosa.»

        --«Lá estás tu com pharmacia a contas
        e, de rimar, no officio não me apromptas.»

        --«Attenta bem, tu, n'isto, meu bilhostre;
        attenta bem, se queres que te mostre
        os arcanos da sabencia--hodierna,
        que é velho e é soez dizer--moderna.

    --Nas luxuosas salas ostentam roçagantes,
    rafadas toilettes, dignas de farçantes,
    os gotosos e senís peccados mortaes,
    emquanto, ao fogão, as virtudes theologaes
    fazem soalheiro da vida das visinhas.

        E se não fossem umas bellas niñas
        --obras de misericordia positivas--
        com toilettes de verão allusivas
        a appetitosas scenas sensuaes,
        das de comer e de gritar por mais:
        juro-te! ninguem iria ás soirées.
        Pelo menos, eu, não punha lá pés.»

    --«Não comprehendo como, sendo tu mulher,
    em assumptos de--femea--mettes a colher.»

        --«Ó innocente e parvo poetoide,
        acaso serás tu o _purgueroide_?
        Não sabes tu, que a musa e a poetiza
        se podem pôr em mangas de camisa?
        amar como qualquer homem bem macho?

        Em a nossa litteratura ha um facho
        que de homem tem o nome e é mulher,
        e assigna seus artigos como quer.

        O _Antonio Maria_ procurou-lhe o til
        e para tal assumpto não pediu bill.»

    --«Vou explorar o caso, embora indecente!»

    --«Indecente és tu, por seres innocente!»

      *      *      *      *      *

    De novo caminhámos. A manhã rompia.

    ..............................................

    --«Andemos mais depressa...» a musa me dizia,
    «ao novo Parnaso, ao grande laboratorio
    das idéas modernas; não a esse mistiforio
    das drogas litterarias da classica escola:
    d'isso bem sabemos que já não sou carola.
    É bom ficar sabendo que ninguem faz caso
    do velho e carunchoso e classico Parnaso.

    Aperta mais o passo. O ceu está nublado;
    se chove molho-me eu, que só tu tens--telhado,
    pois inda fallas na Flor, no Sonho, e na Lua
    e coisas que só prestam p'ra deitar á rua.

        Apanhamos uma chuvada tesa...
        É mais que provavel, tenho a certeza;
        até parece que senti na cara
        um pingo d'agua...»
                            --«Isso, sim!»
                                          --«Repara.


                    O POETA

            --«A agua que do ceu cae
            e em gotas pousa na planta,
            como a perola a abrilhanta
            até que por fim se vae
                rolando p'ra o chão,
            indo tornar mais fermosa
                co'a vegetação,
            quem tornou, talvez, vaidosa
                pela ostentação.

            --E a gota d'agua singela
            duas vezes a faz bella.»--

                    A MUSA

    --«Cala-te, menino! não digas tanta asneira
    que me obrigas a pôr atraz uma torneira.
    E, demais, isso é velho na fórma e na idéa,
    e foi, com certeza, roubado d'obra alheia.»

    --«Que este pensamento, alguem já tivesse tido,
    isso póde ser, póde ter acontecido;
    porém, não me recordo de o ter encontrado
    em prosa, nem verso d'esta fórma guisado.»

      *      *      *      *      *

    Dez minutos depois chovia em pingos grossos,
    batendo na cara como batem tremoços,
    doendo, como dói jogando entrudo bruto.
    Ameaçava não ficar um fio só enxuto.

    A lua no seu occaso illuminava a chuva
    par'cendo queda de brilhantes bagos d'uva,
    e no dizer da musa--escarros luminosos--
    genuinos rivaes dos--brilhantes fulgurosos.

    Dando uma corrida ligeira, alfim chegámos
    á entrada do Parnaso, onde descançámos.


                III

    Estava n'uma gruta escura e fedorenta.
    Havia emanações d'ardores de pimenta.
    Tal escassez de luz havia á sua entrada
    que adiante do nariz não se via mesmo nada.
    E, como isto estranhasse, a musa me explicava:


    O azeite litt'rario de preço não baixava:
    assim, cada luz tinha apenas a ração
    igual á d'aguardente que d'inverno dão
    aos soldados da Parvonia, filhos de Marte;
    que muito de proposito em aquella parte
    se punham as luzes em menos quantidade,
    a fim de mais brilhar a interna claridade...
    --é a arte dos effeitos, a arte phenom'nal,
    a grande alavanca do moderno ideal.--


    E, caminhando por eterno corredor
    lodacento e escuro e de grande pendôr,
    topamos finalmente co'um largo portão,
    feito por modelo dos de repartição,
    com oculos de vidro e faces de baêta
    de sebenta, ignota côr, mas que par'cia preta.

    Companheira musa com chave original
    (pois era retorcida em fórma d'espiral),
    a porta abrindo, diz, em tom desprezador:


    --«Livraria-museu dos poetas de valor.»


    Espantado, vi mumias negras e mirradas
    em buracas, nas duras rochas escavadas,
    immoveis, lugubres, horrivelmente feias.
    Passeavam por cima vermes e centopeias;
    toldavam-nas o bolor, a humidade e o pó;
    e torpes ratos insultavam-nas sem dó.

    --«Ahi tendes Homero todo encapotado
    pelas teias d'aranha como um juiz togado.
    Vê, á Sapho gentil, como lhe ficam bem
    aquellas vegetações que nos labios tem:
    e como são curiosos esses cogumellos,
    pelo logar onde estão... tão roseos, tão bellos.»

    «Deixa-me, por quem és, ó musa tagarella,
    d'este quadro medonho fazer a--_aguarella_.»

        --«Será a tua estreia: está dito então.
        Mas has de fazel-a, logo, no salão.»

      *      *      *      *      *

    Talhado em rocha escura, formas angulosas
    e salientes, phantasticas e caprichosas,
    era o antro infecto, sinistro, a que a megera
    o pomposo nome--salão--ufana dera.


    No topo havia um throno infame, original,
    feito de coisas varias que cheiravam mal.
    N'elle, repimpada, dirigia os trabalhos
    velha deshonesta, c'roada a resteas d'alhos:
    na dextra aureo sceptro--colossal estadulho;
    e, para dominar a borrasca do barulho,
    empunha, na esquerda, safardana chocalho,
    chavelho retorcido, armado co'um bogalho
    servindo de badalo--estranha campainha!

    Aos pés os classicos por almofada tinha.


    As outras musas estavam acocoradas
    sobre grossos montões de pardas papelladas.
    Eram como gallinhas: estavam no chôco
    chocando muito poema, tal como este,--ôco.


    Em mochos de pinho vil, os modernos bardos
    sobraçando mais pennas que no campo ha cardos,
    com carga de papel manteigueiro, barato,
    como o grosseiro alarve d'um burguez pacato.


    Ao centro do _salão_, crepitante fogueira
    da mais genuina essencia da mais pura asneira,
    aquece com chammas febris, avermelhadas,
    o enorme caldeirão das grandes versalhadas.


    Os olhos em mim postos, o auditorio tinha;
    e quando esp'rava a eterna e velha ladainha
    do--quid petis--chronico, do gráu Coimbrão,
    e me preparava p'ra pedir ser poetão:
    larga dama presidenta um--«como pachaste?»

        Acaso viste já, do rojão a haste
                ao toiro apontada?
        a ferrea ponta penetrar-lhe o coiro,
                e c'o a cruel picada
        saltar feroz com fero olhar de moiro?

        O--como pachaste--foi o rojão;
        o mal ferido toiro o meu coração.

                    A MUSA

    --«Eis a reles conquista pulha que hoje fiz:
    e, com quanto este asno não tenha bom nariz,
    espero delle muito; tem muita vontade.»

                 A PRESIDENTA

    --«Tem cara de pateta;-lá isso é verdade.
    Emfim, mostrar-lhe-hemos n'uma só lição
    o solido material da nossa instrucção.»

                    O POETA

    --«Cobrado tenho o animo, ó musa minha, bella:
    annuncia lá, se queres, a minha aguarella.
    É bom que mostre ao povo que não sou novato,
    e tambem sei usar do material barato
    que por ahi se impinge por bem bom dinheiro.»

                    A MUSA

    --«O neophito conhece o poema--palheiro--
    e diz saber guizar o _miolo d'enxergão_
    p'ra vender ao povo n'uma encadernação.»

                 A PRESIDENTA

    --«Ouçamos. Que titulo tem?»--


                    O POETA

                                    --«Uma aguarella.
    Isto é, vou fazer uma ligeira barrela
    do museu-livraria que tendes á entrada.»

                CORO DAS MUSAS

    --«Fóra! isso de--barrela--não é cá usada.»

                    O POETA

    --«Perdão se acaso offendi as instituições:
    á--limpeza--não quero fazer allusões.»

                 A PRESIDENTA

    --«Não divague, senhor! entre já na materia!
    Não se faça massador e tenha pilheria.»

                    O POETA

        --«Mote.

        Eu vi o Camões c'roado
        com coroa de papel doirado.»

                 A PRESIDENTA

    --«Decimas, amigo, não se usam cá na tenda;
    isso serve só p'ra escrivães de fazenda.
    E, demais, vossê prometteu uma aguarella,
    quer possa, quer não, ha de aguentar-se com ella.»

                    O POETA

        --«Tal é a dôr que este meu peito opprime,
        vendo os classicos tão abandonados,
        que não encontro rima com que rime,
        nem attento, por mal dos meus peccados,
        em descrever o estado lastimoso
        em que os conservam cá pelo Parnaso.

        É preciso ser de peito animoso
        para affrontar tão inaudito caso,
        sem á dôr e á vergonha succumbir,
        ao vêr a Patria Lingua derruir.»

    --«Fóra! Fóra!»--berrou em tremebunda grita,
    dos poetas e musas a _troupe_ maldita.

    Esperando, pela turba, em borra ser desfeito,
    co'os olhos no ceu, cruzo os braços sobre o peito.
    ..................................................

        --«Bravo! Bravo!» me applaudem todos presto.

        --«Salvaste-te sómente pelo gesto.
        Serve-te d'elle; não é má pimenta.»

        Accrescentando logo a presidenta:

    --«Em honra ao teu gesto fradesco e manual,
    vaes ter espectac'lo com todo o ritual.
    Aprestae, minha côrte, as armas, a metralha
    que impavido, o realismo, emprega na batalha.»

      *      *      *      *      *

    Circulam os poetas e giram as musas
    (umas fufias velhas, caras de semi-fusas),
    mechendo em armarios e cortando papel,
    e borrando pinturas co'um grosso pincel,
    d'uns que são usados em lavar certos vasos
    que pomos em serviço em reservados casos.
    Andam sempre em vertiginoso rodopio
    atarefados todos, té que um assobio
    de machina a vapor sibila pelo espaço.

    Entra um prélo gigantesco, luzidio, d'aço,
    puchado p'lo Pegaso e movido a vapor.

    --«A postos, meus senhores, se fazem favor.»


                IV

    Apollo, que até então tinha estado occulto,
    da sombra destacando o luminoso vulto,
    desatrella o Pegaso do prélo bemdito
    e o manda pastar em pello a _aveia do infinito_.

    Depois, berrando como qualquer sacristão
    que na egreja ronca safado cantochão,
    com voz desafinada entoa esta cantiga,
    batendo, á cautella, o compasso na barriga:

        --«Companheiras senís, acanalhadas,
        que, quando era potente, tanto amei:
        o grande caldeirão das versalhadas
                    descei! descei!»

        Ligeiras, como a rapida gazella,
        atiraram-se ao _cabo_ da panella;
        e o caldeirão desceram, pressurosas,
        tomando, pelo esforço, a côr das rosas.

        Depois tomaram posições sensuaes
        dos quadros vivos reles e triviaes.

    E os poetas, então, prostrados pela terra,
    entoaram este côro, na mais alta berra.

            ORAÇÃO DOS POETAS

            --«Ó vestaes da inspiração,
                velhas donzellas:
            assumptos de sensação
                idéas bellas,
            fazei-nos inventar
                em nossos cacos;
            e fazei-nos ganhar
                bem bons patacos.

            Multiplicae os tolos
                p'ra nosso bem,
            que vos daremos bolos.
            Amen, amen, amen.»--

        E, levantando os seus coiros do chão,
        sacudiram o pó co'um escovão.

        A um signal d'Apollo, dado com pratos,
        fizeram as rev'rencias dos gaiatos.

        Longa penna tirando da sacola,
        papel na mão, como rapaz d'escola,
        e p'ra a lição estando muito attentos,
        tomavam com cautella apontamentos.

                APOLLO (_cantando_)

    --«A sciencia genial das bagatellas,
    que tendes como a compota nas tijelas,
            lançae no caldeirão.
    Adjectivos hydropicos, lancinantes,
    figuras colossaes; como os elephantes
            em grossa multidão,
    com quanta massa realista de balelas
            tendes em vossa mão:
            lançae no caldeirão
    co'a sciencia genial das bagatellas.»


    Tres vezes cantou isto e calou-se.
    O Pegaso fóra deu um coice.


        Avançam Euterpe e Clio
        cantando ao som de assobio.


        --«Lançamos no panellão
        um primoroso croquis
        da guerra do Rossilhão
        e dos bordeis de Paris.

        Lançamos a Rigolboche
        com rameiras messalinas,
        fazendo todo o deboche
        junto aos sapos das latrinas.

            N'alma d'um paria,
            Locusta má,
            cantando uma ária
            em tom de lá;

            Cesares romanos,
            Faustos impotentes,
            mil ratas dos canos,
            risos innocentes,

        lançamos com copahiba
        mais o nitrato de prata.
        Tirando d'um carahiba
        luxuria sensual de gata,

    teremos, com toda esta misturada,
    um adubo real p'ra a panellada.»

    Feitos uns fradescos cumprimentos
    as musas tomaram seus assentos.


    Avançam Melpomene e a Thalia
    trazendo material de gran valia.

    --«Lançamos roseas petalas d'alma
                e beijos de Julietta:
    de Tartufo a seriedade calma
                e muita outra peta;

            muitas portas falsas,
            maridos c'roados,
            mulheres com calças,
            noivos esfaimados.

        Tudo isto se acondimenta
        com choradeiras de fel,
        cantharidas e pimenta
        e beijos da lua de mel.»

    Ninguem faz caso d'uma tal cantiga
    porque o theatro não enche barriga.

    De Terpsichore e Urania chega a vez:
    pouco, porém, dão p'ra este entremez.

        --«Lançamos os cometas d'aço
        em leitos sensuaes de nublosas;
        a gran mangedoura do espaço
        alem de--_muchas otras cosas_:

            a abobada commua,
            o grande guarda-sol
            dos requeijões da lua,
            e o tinteiro do sol.

    Refrescamos toda esta panellada
    com agua do ceu e gelo em palitos;
    e p'ra terminar tamanha estopada
    deitamos a dança dos aerolithos.»

    _(Um vate apontou: alguns fandangos...
    uns requeijões da lua com morangos...)_

        Tocou a vez á agoirenta Erato.
        Esta recitou este cavaco:

        --«Não tenho que botar no caldeirão,
        seguindo uma bem sensata opinião,
                        senão:
        coisas funebres e outras porcarias
        na Parvonia publicadas ha dias.

    Acompanhae meu canto, Apollo, ó menestrel,
    tocando n'um pente forrado de papel.

            --Almas côr de rosa,
            subindo p'ra o céu;
            a morte amorosa
            tirando o chapéo.

            Vae n'este bilhete,
            desenhado a giz,
            loculeo banquete:

            podridões gentis,
            larvas proletarias
            em mesa quadrada
            roendo nos parias...

            Não lhes digo nada...
            Se um dia morrer,
            --ai que desprazer!--
            não posso ter dobres
            de modo nenhum:

            foram-se-me os cobres
        *Na valla commum.*


    O ultimo dueto se faz ouvir alfim;
    Calliope e Polymnia cantaram assim


        --«Temos grande collecção
        de hyperboles arrojadas,
        e portentosas rajadas
        de causar admiração.

        Ha no nosso botequim
        gordos melros com chouriço,
        e tonsurado toitiço
        com carcassas d'arlequim;

          evangelhos com trufas
          e Biblia com champagne;
          e ha quem isto amanhe
          tudo em operas buffas.


    Escrevei, ó poetas namorados!
    com a tinta geniosa dos enxurros
    estes sadios e modernos guisados
    capazes só de sustentar os burros.


    Libae poetas! e bebei n'um pulo
            o sangue com gangrena
    pelas aurifras taças de Loculo,
            nos braços da pequena.


      Lambei os lambusados pratos
      d'esta babylonica orgia:
      e p'ra rimar mettei Pilatos,
      mettei no credo a gemonia.


    E Gehovah e Jonas e Vitellio
    almoçaram aqui ventres de sapos,
    e embrulharam-nos em ostias de trapos,
    andando na pandega com Aurellio.

    Astarteia com os dentes de Ugolino
    roe por vezes podridões syphiliticas,
    indo depois ás sergetas mephiticas
    com Torquemada descantar um hymno.


        A luxuria d'um frade
        com varios paradoxos,
        dão da melhor vontade
        relinchos orthodoxos,
    rindo-se do cisco dos ripansos,
    e das varreduras dos missaes,
    e cabritando pelos passaes
    de pescoço alçado como um ganso.

            Aqui temos muitas vezes
            Job e Falstaff e Ezequiel,
            o que rima com Ariel
            e come esterco das rezes.

        Aqui vêm todas as Venus sensuaes,
        carregadas d'escarros luminosos,
        abraçadas com uns pobres gotosos
        que lhes pagam as scenas jantaraes.

        Temos a latrina de Pandora
        p'ra casos do aperto mais velhaco.
        Tambem ha a caverna de Caco
        mas vive n'ella, Agrippina, agora.

        Á noute, luzes ha, de brancos ais,
                velas, tochas de pedantes,
                ais de luz agonisantes
        e mais outras lamparinas que taes.»


    E tomando as reles pinturas allegoricas
    de todas estas hyperboles _semaphoricas_,
    com os recortes das figuras principaes,
    funambulas e grotescas e originaes,
    tudo no panellão deitaram em tropel.


    _(Um poeta não tira os olhos do papel;
    e movendo a penna com rapidez electrica
    escreve, a serio, esta michordia phonetica.)_

      *      *      *      *      *

    Então a musa Clio, que á festa presidiu,
    a palavra alterosa assim me dirigiu:

        --«Neophito! acabas de penetrar os arcanos
        do saber que sómente dão os muitos annos.
        Não julgues porém tu, que sómente com isso,
        que não passa de bagaço e reles palhiço,
        conseguirás talvez hombrear os geniaes,
        altivos, sonorosos poetas actuaes.

    Isso só consegues indo calçar ao ferrador,
    e dando muitos coices, com ataques de estupor,
    na grammatica mais na Lua, em Deus e na Razão.
    Descoberto este segredo serás um sabichão.»--

      *      *      *      *      *

        Termina a festa. Apollo empunha a lyra d'ouro
        e, soltando aos ares o seu cabello louro,
        dedilha, debruçado no instrumento qu'rido,
        o puro do fadinho, o popular, corrido.

            E as musas dando á gambia, á canella,
            batem o fado em roda da panella.

        Com zumbidos feios, torpes emanações,
        a grande panellada ferve em borbulhões
        lascivos de luxuria, quentes, abbaciaes,
        espalhando no espaço vapores sensuaes,
        emquanto que o Pegaso farto de pastar,
        como burro indecente, se poz a ornear.


                V

    Sabes leitor, o que é perder a noute
    no Penin, no Magina, ou nos Penachos?
    ou ir á Brazaliza, ou ao Dáfundo,
    Poço dos Mouros, ou Perna de Pau?
    Farta e boa ceia regada de briol,
    devorada em companhia feminina
    por ventura tu já exp'rimentaste?
    Já comeste bom mexilhão na Pincha,
    os beefs no Gallo, as iscas no Semellas?
    no Magina, nos Cestos, no Cunhal,
    bebeste já o fino de Bucellas?

    Leitor: se nada d'isto tu tens feito
    mal pódes apreciar como se acorda
    depois d'uma tremenda borracheira.
    Emfim, nunca fizeste tal asneira...
    Pois sabe como fica um desgraçado
    depois da cama se ter levantado.

    Os olhos parecem estar pegados
    e, mesmo após o serem esfregados,
    nunca ficam lá muito bem abertos.
    Ouvimos sons determinados, certos,
    exquisitos, raros, indefiniveis.
    Pelo estomago, sensações terriveis,
    quentes e causticas, effervescentes,
    e na barriga ruidos indecentes.
    Lingua sêcca; beiços intumecidos,
    e viscosos, pegados, e feridos.
    O nariz com cheiro acre, apimentado.
    Mesmo que se não tenha vomitado
    temos na bocca, como coiros rélhos,
    --um sabor especial a ferros velhos.--

    Ahi tendes o lastimoso estado
    que encontro esta manhã, sendo acordado
    por um maldito burro d'um visinho.

    Não imagines que hontem bebi vinho.
    Vaes ver o que em tal estado me poz;
    vaes ficar sabendo o nome do algoz:

    --Este damninho sonho no Parnaso.--

    E quem tem toda a culpa d'este caso
              é o poema moderno:

            *VELHICE DO PADRE ETERNO*





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Viagem ao Parnaso - Impressões da leitura da Velhice do Padre Eterno, poema - notavel do distincto poeta Guerra Junqueiro" ***

Doctrine Publishing Corporation provides digitized public domain materials.
Public domain books belong to the public and we are merely their custodians.
This effort is time consuming and expensive, so in order to keep providing
this resource, we have taken steps to prevent abuse by commercial parties,
including placing technical restrictions on automated querying.

We also ask that you:

+ Make non-commercial use of the files We designed Doctrine Publishing
Corporation's ISYS search for use by individuals, and we request that you
use these files for personal, non-commercial purposes.

+ Refrain from automated querying Do not send automated queries of any sort
to Doctrine Publishing's system: If you are conducting research on machine
translation, optical character recognition or other areas where access to a
large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the use of
public domain materials for these purposes and may be able to help.

+ Keep it legal -  Whatever your use, remember that you are responsible for
ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just because
we believe a book is in the public domain for users in the United States,
that the work is also in the public domain for users in other countries.
Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we
can't offer guidance on whether any specific use of any specific book is
allowed. Please do not assume that a book's appearance in Doctrine Publishing
ISYS search  means it can be used in any manner anywhere in the world.
Copyright infringement liability can be quite severe.

About ISYS® Search Software
Established in 1988, ISYS Search Software is a global supplier of enterprise
search solutions for business and government.  The company's award-winning
software suite offers a broad range of search, navigation and discovery
solutions for desktop search, intranet search, SharePoint search and embedded
search applications.  ISYS has been deployed by thousands of organizations
operating in a variety of industries, including government, legal, law
enforcement, financial services, healthcare and recruitment.



Home