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Title: Da terra à lua - viagem directa em 97 horas e 20 minutos
Author: Verne, Jules, 1828-1905
Language: Portuguese
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*** Start of this LibraryBlog Digital Book "Da terra à lua - viagem directa em 97 horas e 20 minutos" ***


Nota do traductor:

      Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram
      tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de
      dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No
      final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

                                   Rita Farinha (Mar. 2009)



OBRA PREMIADA
PELA
ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE FRANÇA

DA TERRA Á LUA

VIAGEM DIRECTA EM 97 HORAS E 20 MINUTOS



Lisboa--Imprensa Nacional--1874



VIAGENS MARAVILHOSAS

JULIO VERNE

DA TERRA Á LUA

VIAGEM DIRECTA

EM 97 HORAS E 20 MINUTOS

TRADUCÇÃO

DE

HENRIQUE DE MACEDO

Lente de mathematica na escola polytechnica e astronomo no observatorio
de marinha

BIBLIOTHECA ILLUSTRADA DE INSTRUCÇÃO E RECREIO

EMPREZA HORAS ROMANTICAS

Rua dos Calafates, 102, 1.^o andar

LISBOA

Traducção auctorisada e reservada



--JULIO VERNE--

[Figura]

DA TERRA Á LUA



CAPITULO I

O GUN-CLUB


Durante a guerra federal dos Estados Unidos fundou-se, na cidade de
Baltimore, mesmo no centro do Maryland, um novo club de grande
influencia.

É notoria a energia com que se desenvolveram os instinctos militares por
entre aquella população de armadores, de negociantes e de machinistas.
Insignificantes mercadores saltaram por cima do balcão e acharam-se de
improviso transformados em capitães, em coroneis e até em generaes, sem
terem passado pelas escolas de applicação de West-Point[1]; em curto
espaço foram na _arte da guerra_ dignos rivaes dos collegas do velho
continente, e, á imitação d'estes, alcançaram, á força de prodigalisar
balas, milhões e homens, brilhantes victorias.

Mas em que os americanos excederam singularmente os europeus foi na
sciencia da balistica; e não porque as armas americanas attingissem mais
elevado grau de perfeição, senão porque apresentaram dimensões
desusadas, e tiveram por consequencia alcances correspondentes e até
então desconhecidos.

Pelo que diz respeito a tiros rasantes, immergentes ou em cheio, a fogos
de escarpa de enfiada ou de revez, já não têem, inglezes, francezes nem
prussianos cousa alguma que aprender; mas os canhões, obuzes e morteiros
europeus são apenas pistolas de algibeira, comparados com os formidaveis
machinismos bellicos da artilheria americana.

Não deve causar espanto o que deixâmos dito. Os yankees, que são os
primeiros mechanicos do mundo, nascem engenheiros como qualquer italiano
nasce musico, ou qualquer allemão, philosopho transcendental; portanto
nada mais natural do que ve-los demonstrar na applicação á sciencia da
balistica o audacioso engenho de que são dotados.

Assim se explicam esses gigantescos canhões, que, muito menos uteis que
as machinas de coser, são pelo menos tão admiraveis e de certo ainda
mais admirados. Os maravilhosos inventos, n'este genero, de Parrott, de
Dahlgreen e de Rodman são bem conhecidos; os Armstrong, os Palliser, os
Treuille de Beaulieu não tiveram mais remedio do que curvar-se vencidos
perante os seus rivaes de alem mar.

Tudo isto deu causa a que, durante a terrivel lucta entre os partidarios
do norte e os do sul, occupassem os artilheiros em toda a parte o
primeiro logar; celebravam-lhes os jornaes da União os inventos com
enthusiasmo, e sem exceptuar o mais insignificante dos logistas ou o
mais ingenuo dos booby[2], todos quebravam a cabeça dia e noite a
calcular trajectorias impossiveis.

Ora quando a uma cabeça de americano acode uma idéa, busca logo o seu
possuidor segundo americano que a acceite: chegam a tres, elegem logo
presidente e dois secretarios; quatro, nomeiam archivista e funcciona a
_mesa_; cinco, convocam-se em assembléa geral, e está constituido um
club. Assim succedeu em Baltimore.

O primeiro que inventou um novo canhão associou-se com o primeiro que o
fundiu e com o primeiro que o perfurou. Tal foi o primitivo nucleo do
Gun-Club[3], que um mez depois da sua inauguração contava mil oitocentos
e trinta e tres socios effectivos, e trinta mil quinhentos e setenta e
cinco socios correspondentes.

A todos que queriam fazer parte da associação era imposta uma condição
_sine qua non_, a de ter inventado, ou pelo menos aperfeiçoado, um
canhão; na falta de canhão uma arma de fogo qualquer. Mas, para dizer a
verdade inteira, bem pouca consideração gosavam os inventores de
revolvers de quinze tiros, de carabinas girantes ou de sabres-pistolas.
Em tudo lhe levavam os artilheiros primazia.

A estima de que é credor qualquer socio, disse um dia um dos mais
entendidos oradores do Gun-Club, é proporcional «ás massas» do canhão
que inventou, e está «na rasão directa do quadrado das distancias a que
alcançam os respectivos projectis!»

[Figura: Os artilheiros de Gun-Club (pag. 12).]

Com pequena differença, era a lei de Newton ácerca da gravitação
universal transportada ás cousas do mundo moral.

Fundado o Gun-Club, facil é imaginar o que produziria n'este genero o
engenho inventivo dos americanos. Os machinismos de guerra assumiram
proporções colossaes, e os projectis foram alem dos limites permittidos
partir em dois bocados inoffensivos transeuntes. Todos estes inventos
deixaram a perder de vista os timidos instrumentos da artilheria
europea. Forme-se juizo pelos seguintes algarismos.

Outr'ora «bom tempo era esse» uma bala de trinta e seis, á distancia de
trezentos pés, varava trinta e seis cavallos apanhados de flanco ou
sessenta e oito homens. Era a infancia da arte. Desde essa epocha
progrediram muito os projectis. O canhão Rodman, que, com uma bala de
meia tonelada[4] alcançava a sete milhas[5], facilmente poria fóra de
combate cento e cincoenta cavallos e trezentos homens. Chegou-se até a
discutir no Gun-Club a conveniencia e possibilidade de submetter a uma
experiencia solemne as qualidades d'este canhão monstruoso. Porém se os
cavallos consentiram em tentar a experiencia, infelizmente a respeito de
homens nem um só se offereceu.

Em todo o caso, o que é fóra de duvida é que o effeito d'estas armas era
extremamente mortifero e que por cada tiro caíam os combatentes como
espigas sob a foice do ceifador. Que valiam, comparados com taes
projectis, aquella famosa bala que, em Contras, em 1785, poz fóra de
combate vinte e cinco homens, ou aquella outra que, em Zorndoff em 1758,
matou quarenta infantes, e o canhão austriaco de Kesselsdorf, em 1742,
que por cada tiro derrubava setenta inimigos?

Que importancia tinham esses surprehendentes fogos de Iena ou de
Austerlitz, que decidiram da sorte de uma batalha? Durante a guerra
federal na America viram-se cousas muito mais de pasmar! No combate de
Gettysburg, um projectil conico lançado por um canhão raiado feriu cento
e setenta e tres confederados, e, na passagem do Potomac, uma bala
Rodman mandou para um mundo evidentemente melhor duzentos e quinze
partidarios do Sul. Não é menos digno de menção um formidavel morteiro
inventado por J.-T. Maston, socio distincto e secretario perpetuo do
Gun-Club, cujos effeitos foram sem comparação mais mortiferos, visto
como, do primeiro tiro de experiencia, matou trezentas e trinta e sete
pessoas; verdade é que o morteiro rebentou!

Que havemos de accrescentar a estes numeros já de per si tão eloquentes?
Nada. Assim, por certo, será admittido sem contradicção o seguinte
calculo apresentado pelo _estatistico_ Pitcairn, que dividindo o numero
das victimas de tiro de bala pelo dos socios do Gun-Club, demonstrou que
cada um d'estes tinha morto em «media», dois mil trezentos e setenta e
cinco homens e uma fracção.

Para quem reflectir em tal algarismo, fica evidente que a unica
preoccupação d'aquella sociedade scientifica era a destruição da
humanidade, com um fim philanthropico, o aperfeiçoamento das armas de
guerra, consideradas como instrumentos de civilisação. Era uma reunião
de anjos exterminadores, e a fóra isto, as melhores pessoas do mundo.

Cumpre-nos accrescentar que estes yankees corajosos a toda a prova, não
se ficavam em formulas e experimentavam com o proprio corpo. Havia no
Club officiaes de todas as graduações, de tenente a general, militares
de todas as idades, dos que debutavam na carreira das armas, como dos
que iam já encanecendo sobre os reparos. Muitos tinham ficado nos campos
de batalha, cujos nomes estavam inscriptos no livro de honra do
Gun-Club, e dos que tinham voltado a maior parte trazia no proprio corpo
signaes indiscutiveis de intrepidez. Moletas, pernas de pau, braços
articulados, mãos de gancho, maxilas de caoutchouc, craneos de prata,
narizes de platina... a collecção era completa. O supradito Pitcairn
calculou tambem que no Gun-Club havia um pouco menos de um braço por
quatro pessoas e sómente duas pernas por cada seis socios.

Mas os valentes artilheiros pouca importancia ligavam a similhantes
ninharias, e com legitimo fundamento se ufanavam, quando o boletim da
batalha contava o numero das victimas pelo decuplo dos tiros disparados.

Porém um dia, triste e lamentavel dia, foi assignada a paz pelos
sobrevivos da guerra; cessaram pouco a pouco as detonações, calaram-se
os morteiros, os obuzes para largo tempo açaimados e os canhões de
cabeça pendida, recolheram aos arsenaes; as balas empilharam-se nos
parques, foram-se apagando as recordações sanguinolentas, brotaram com
magnificencia os algodoeiros dos campos pinguemente adubados, foram-se
fazendo velhos a par das dores e das saudades os fatos de luto, e o
Gun-Club ficou immerso na mais profunda inacção.

Um ou outro trabalhador afferrado e incansavel se entregava ainda a
calculos balisticos e fazia seu pensamento dilecto de bombas gigantescas
e obuzes incomparaveis.

Mas sem pratica de que serviam theorias vãs?

Por isso as salas do Club viam-se desertas, dormiam os creados nas
antecamaras, os jornaes creavam bafio por cima das mesas, ouviam-se
tristes roncos, que partiam dos cantos escuros das salas, e os membros
do Gun-Club, outr'ora tão ruidosos, agora reduzidos ao silencio por uma
paz desastrosa, adormeciam engolfados em meditações de artilheria
platonica.

«Que desconsolação, dizia uma noite o valente Tom Hunter, e no
entretanto ia-lhe o lume do fogão carbonisando as pernas de pau: Nada
que fazer! nem uma esperança! Que fastidiosa existencia! Onde vae o
tempo em que as alegres detonações do canhão nos despertavam todas as
manhãs?

Esse tempo já lá vae, retorquiu o inquieto Bilsby, esperguiçando-se com
os braços que já não tinha. Era um feliz tempo esse. Inventava qualquer
o seu obuz, e apenas fundido, corria a experimenta-lo no inimigo; quando
regressava, ao acampamento sempre tinha ouvido alguma palavra animadora
a Sherman ou recebido um aperto de mão de Mac-Clellan! Mas hoje, os
generaes voltaram aos seus balcões, e em vez de projectis, expedem
inoffensivos fardos de algodão! Ai! por santa Barbara! Está perdido o
futuro da artilheria na America!

--É verdade, Bilsby, exclamou o coronel Blomsberry, são bem crueis estes
desenganos! Deixa a gente um dia os seus habitos socegados, exercita-se
no manejo das armas, troca Baltimore pelos campos de batalha, porta-se
como um heroe, e dois ou tres annos depois, ha de perder o fructo de
tantas fadigas, adormecer em deploravel ociosidade, e encaixar as mãos
nas algibeiras.»

Bem podia fallar o valente coronel, havia de ver-se em graves
difficuldades, se quizesse dar tal prova de inactividade, e não eram as
algibeiras que lhe faltavam.

«E nem uma só guerra em perspectiva! disse então o famoso J.-T. Maston,
coçando com o gancho de ferro o craneo de guttapercha. Não ha uma nuvem
no horisonte, e tanto que fazer na sciencia da artilheria! Eu que lhes
estou fallando, terminei esta manhã a _épure_, com plano, perfil e
elevação de um morteiro que havia de fazer mudar as leis da guerra!

--Sim? replicou Tom Hunter, recordando-se involuntariamente da ultima
experiencia do honrado J.-T. Maston.

--É verdade, respondeu este. Mas para que hão de servir tantos estudos
levados a cabo, tantas difficuldades vencidas? Não será tudo isto
trabalho absolutamente inutil? Parece que os povos do novo mundo se
conluiaram para viver em paz, e até o nosso bellicoso _Tribune_[6]
chegou a prognosticar imminentes catastrophes exclusivamente causadas
pelo escandaloso crescer das populações.

--Comtudo, Maston, retorquiu o coronel Blomsberry, na Europa ainda
continua a guerra para sustentar o principio das nacionalidades!

--E então?

--Então! Talvez se podesse tentar por lá alguma cousa, e se acceitassem
os nossos serviços...

--Pensaes seriamente no que dizeis? exclamou Bilsby. Fazer balistica em
proveito de estrangeiros!

--Sempre era melhor do que não fazer nada, retorquiu o coronel.

--De certo, sempre era um pouco melhor, disse J.-T. Maston, mas nem vale
a pena pensar em similhante expediente.

--E porque? perguntou o coronel.

--Porque no velho mundo tem lá umas idéas ácerca de accesso e promoção,
que estariam em opposição com todos os nossos habitos americanos.
Imagina aquella gente que se não póde ser general em chefe sem ter
servido como alferes, o que vale o mesmo que suppor que ninguem póde
fazer uma boa pontaria, sem ter tambem sido o fundidor do canhão! Ora
isto é nada mais nem menos do que...

--Absurdo! concluiu Tom Hunter, lascando com o «bowie-knife»[7] os
braços da poltrona, e pois que assim é, não temos mais remedio do que ir
plantar tabaco ou distillar azeite de baleia!

--Como assim, prorompeu em altos gritos J.-T. Maston; pois não havemos
de empregar estes ultimos annos da nossa existencia no aperfeiçoamento
das armas de fogo! Não ha de offerecer-se nova occasião de ensaiar o
alcance dos nossos projectis! Nunca mais ha de illuminar-se a atmosphera
com o relampago dos nossos canhões! Nem uma só difficuldade
internacional ha de surgir que nos permitta declarar guerra a alguma das
potencias transatlanticas! Não ha de haver algum francez que metta a
pique um dos nossos _steamers_, ou algum inglez que enforque, em
menoscabo do direito das gentes, ao menos tres ou quatro conterraneos
nossos!

--Não, Maston, respondeu o coronel Blomsberry, não é para nós tanta
ventura. Não! nem um d'esses casos succederá, e que succedesse, nem ao
menos haviamos de aproveita-lo! Vae-se de dia para dia a
susceptibilidade americana. Vamos-nos effeminando.

--É verdade que nos humilhâmos! replicou Bilsby.

--E que nos humilham! accrescentou Tom Hunter.

--Tudo quanto dizeis é mais que certo, replicou J.-T. Maston, ainda com
maior vehemencia. Pairam na atmosphera mil motivos de guerra e não
combatemos! Economisam-se braços e pernas, e em proveito de quem? de
gente que não sabe o que lhes ha de dar que fazer! Não busquemos mais
longe motivos de guerra; pois não é verdade que a America do Norte
pertenceu outr'ora aos inglezes?

--Certamente, respondeu Tom Hunter, espertando furioso o lume com a
ponta da moleta.

--Pois bem! continuou J.-T. Maston, porque é que a Inglaterra não ha de,
por seu turno, pertencer aos americanos?

--Nada mais era do que justiça, retorquiu o coronel Blomsberry.

--Pois vão lá propor a idéa ao presidente dos Estados Unidos e verão
como são recebidos!

--Havia de receber-nos mal, murmurou Bilsby, por entre quatro dentes que
lhe tinham escapado das batalhas.

--Por minha fé, exclamou J.-T. Maston, nas proximas eleições escusa de
contar com o meu voto!

--Nem com os nossos, accrescentaram de commum accordo os bellicosos
invalidos.

--No entretanto, continuou J.-T. Maston, em conclusão, se me não
fornecerem occasião para ensaiar o meu novo morteiro n'um campo de
batalha, dou a minha demissão de socio do Gun-Club, e corro a
enterrar-me nos desertos do Arkansas!

--Iremos todos comvosco, responderam os interlocutores do ousado J.-T.
Maston.

Estavam as cousas n'estas alturas, exaltavam-se os espiritos cada vez
mais, e o club estava ameaçado de proxima dissolução, quando um
acontecimento inesperado veiu impedir a realisação de tão lastimosa
catastrophe.

Logo no dia seguinte áquelle em que se realisou a conversação que
relatámos, cada um dos membros do club recebia uma circular concebida
nos seguintes termos:

«Baltimore, 3 de outubro.--O presidente do Gun-Club tem a honra de
prevenir os seus collegas, que na sessão de 5 do corrente lhes fará uma
communicação, que muito ha de interessa-los. Em consequencia lhes pede
que, pondo de parte qualquer outro negocio, concorram á sessão para que
são convidados pela presente.

«De todos mui cordialmente.--_Impey Barbicane_. P. G. C.»



CAPITULO II

COMMUNICAÇÃO DO PRESIDENTE BARBICANE


No dia 5 de outubro, ás oito horas da noite, havia apertão e multidão
compacta nas salas do Gun-Club (Union-square, 21). Todos os membros
d'aquelle club, que residiam em Baltimore, tinham acudido ao convite do
presidente. Os socios correspondentes apeavam-se aos centos dos comboios
expressos, nas ruas da cidade, e grande como era a «hall» (salão) das
sessões, ainda assim aquella multidão immensa de sábios não pôde caber
lá; assim a multidão refluia para todas as salas proximas e ainda para
os corredores, e até ao meio dos pateos exteriores, onde se encontrava
com o simples popular que fazia apertão ás portas; cada um procurava
alcançar melhor logar; todos avidos de conhecer a importante
communicação do presidente Barbicane, apertavam-se, empurravam-se,
esmagavam-se com aquella liberdade de acção que é peculiar das massas
educadas e creadas nas idéas do _self-government_[8].

N'aquella noite o forasteiro que o acaso tivesse levado a Baltimore, nem
a peso de oiro teria conseguido penetrar no salão grande. Fôra este
exclusivamente reservado para os socios residentes ou correspondentes;
ninguem mais lá podia ser admittido, e até os notaveis da cidade e os
magistrados do conselho dos _selectmen_[9] tinham tido que misturar-se
com a turba dos seus administrados para apanharem de relance alguma
novidade lá de dentro.

Apesar d'isto a immensa «hall» apresentava um espectaculo
verdadeiramente digno de excitar a curiosidade, e o vasto aposento
estava maravilhosamente apropriado ao seu destino. Sustentavam-lhe os
finos lavores da abobada, verdadeira renda esculpida a saca-bocados no
ferro fundido, elevadas columnas compostas de canhões sobrepostos e
apoiados em enormes morteiros. Nas paredes agrupavam-se enlaçadas em
pittorescos florões panoplias de bacamartes, de arcabuzes, de carabinas
de toda a especie, de armas de fogo antigas e modernas. Rebentava a
chamma viva do gaz de um milheiro de revolvers agrupados em fórma de
lustres, completando aquella esplendida illuminação girandolas de
pistolas, e candelabros feitos de espingardas enfeixadas. Modelos de
canhões, amostras de bronze, alvos crivados de buracos, placas quebradas
pelo choque das balas do Gun-Club, collecções completas de calcadouros e
lanadas, rosarios de bombas, collares de projectis, grinaldas de obuzes,
n'uma palavra todas as ferramentas do artilheiro se encontravam ali em
tão surprehendente e admiravel disposição, que levava a crer que o seu
verdadeiro fim era mais ornamental do que mortifero.

Contemplava-se no logar de honra resguardado por uma esplendida
_vitrine_ um pedaço de culatra, quebrado e torcido pela força da
polvora. Era uma preciosa reliquia do morteiro de J.-T. Maston.

No fundo da sala, sobre uma espaçosa esplanada sentava-se o presidente
ladeado por quatro secretarios. A cadeira presidencial levantada sobre
um reparo esculpido, apparentava no conjuncto das robustas fórmas a
figura de um morteiro de trinta e duas pollegadas, em pontaria por um
angulo de noventa graus e suspensa em munhões, por fórma tal que o
presidente podia dar-lhe, como a qualquer _rocking-chair_[10], um
balanço muito agradavel nas occasiões de grande calor. Sobre a mesa,
grande placa de ferro laminado, aguentada por seis coronadas, estava um
tinteiro de gosto delicado: era feito de um biscainho deliciosamente
cinzelado. Ao lado estava uma campainha de detonação, que na occasião
propria soava como um revolver. E nas occasiões de discussão vehemente
mal bastava esta campainha de novo genero para superar as vozes
d'aquella legião de artilheiros enthusiasmados.

Em frente da mesa presidencial estavam dispostos em zig-zags, como as
circumvallações de uma trincheira, formando uma serie de bastiões e de
cortinas, os bancos onde tomavam assento os socios do Gun-Club; e
n'aquella noite podia afoitamente dizer-se «que estava bastante gente
nas muralhas». O presidente era por demais conhecido, para que alguem
acreditasse que havia de incommodar os collegas sem motivo de maior
gravidade.

Impey Barbicane era homem de quarenta annos, impassivel, frio, austero,
de espirito eminentemente serio e concentrado, de temperamento a toda a
prova e de caracter inabalavel; pouco cavalheiresco, e todavia
aventuroso, cingia-se ás idéas praticas, ainda quando empenhado nos mais
temerarios emprehendimentos; era o homem por excellencia da Nova
Inglaterra, o colonisador dos estados do norte, o descendente d'aquelles
Cabeças Redondas, que tão funestos foram para os Stuarts, o inimigo
implacavel dos _gentlemen_ dos estados do sul, legitimos representantes
dos antigos Cavalleiros da mãe patria. N'uma palavra, um yankee de antes
quebrar que torcer.

Barbicane fizera grande fortuna no commercio das madeiras; nomeado
durante a guerra director de artilheria, mostrou-se fertil em invenções,
e cheio de audacia em todas as suas idéas contribuiu poderosamente para
os progressos d'aquella arma, communicando ás indagações experimentaes
incomparavel actividade.

Era homem de corporatura media, e que tinha, rara excepção no Gun-Club,
todos os membros intactos. Parecia que as feições accentuadas lhe tinham
sido talhadas a esquadro e tira-linhas, e se é verdade que, para
adivinhar os instinctos de alguem, devemos olha-lo de perfil, Barbicane,
examinado assim, apresentava os mais seguros indicios de energia, de
audacia e de presença de espirito.

N'aquelle instante, estava immovel na cadeira presidencial, mudo,
absorto, com o olhar vago e profundo, com o rosto semi-occulto pelo
chapéu de fórma alta, cylindro de seda preta que parece seguro a tarraxa
no craneo de qualquer americano.

[Figura: A sessão do Gun-Club (pag. 22).]

Conversavam em torno d'elle e em voz alta os collegas, sem conseguirem
distrahi-lo; abalançavam-se ao campo das supposições, olhavam o
presidente, buscando em vão deduzir o X da sua imperturbavel
physionomia.

[Figura: O passeio á luz dos archotes (pag. 28).]

Quando deram oito horas no relogio fulminante do salão, Barbicane
levantou-se de subito, como que impellido por uma mola; calou-se tudo, e
o orador, em tom um pouco emphatico, usou da palavra nos seguintes
termos:

«Estimaveis consocios, de ha muito que a paz infecunda veiu immergir os
socios do Gun-Club em lastimosa inactividade. Depois de um periodo de
alguns annos, tão cheio de incidentes, fomos forçados a abandonar os
nossos trabalhos e a fazer alto de subito na senda do progresso. Não me
arreceio de proclama-lo em voz bem alta, uma guerra qualquer que de novo
nos pozesse as armas nas mãos, seria bem recebida...

--Apoiado, á guerra! exclamou o impetuoso J.-T. Maston.

--Ouçam! ouçam! disseram de todos os lados.

--Porém a guerra, proseguiu Barbicane, a guerra é impossivel nas
circumstancias actuaes, e por maiores que sejam as esperanças do meu
honrado interruptor, penso que muitos annos hão de correr antes que os
canhões americanos troem de novo no campo de batalha. É portanto
necessario que a isso nos resignemos e que busquemos n'outra ordem de
idéas alimento para a actividade que nos devora!»

A assembléa percebeu que o presidente chegava ao ponto delicado;
redobrou a attenção.

«Ha mezes, valentes collegas, continuou Barbicane, que perguntei eu a
mim proprio se, sem sair da nossa especialidade, poderiamos emprehender
alguma d'essas grandes experiencias dignas do seculo XIX, e se nos
permittiriam os progressos da balistica sair bem do nosso empenho.

Em consequencia, inquiri, trabalhei, calculei, e dos meus estudos
resultou a convicção de que havemos de saír-nos bem de um
emprehendimento, que pareceria impraticavel em qualquer outro paiz. É
este projecto, por longo tempo elaborado, que vae ser assumpto da minha
communicação: é digno de vós, digno do passado do Gun-Club, e não póde
deixar de fazer estrondo no mundo!

--Bastante estrondo? perguntou um artilheiro enthusiasta.

--Muito estrondo, no verdadeiro sentido da palavra, respondeu Barbicane.

--Não interrompam! disseram muitas vozes.

--Peço-lhes, pois, caros collegas, accrescentou o presidente, que me
dêem completa attenção.»

Um fremito percorreu a assembléa inteira. Barbicane, depois de, com
gesto rapido, ter carregado o chapéu na cabeça, proseguiu no seu
discurso com voz placida:

Não ha um só de vós, estimaveis collegas, que não tenha visto a Lua, ou
que, pelo menos, não ouvisse fallar n'ella. E não vos admireis de que
venha aqui fallar-vos do astro das noites. Talvez esteja para nós
reservado sermos os Colombos d'esse mundo ignoto. Seja eu comprehendido,
auxiliado com todo o poder de que os meus socios dispõem, e
conduzi-los-hei á conquista d'esse novo mundo, cujo nome ha de vir
juntar-se aos dos trinta e seis estados que compõem este grande paiz da
União!

--Hurrah pela Lua! gritou, como um só homem, o Gun-Club inteiro.

--Muito se tem estudado ácerca da Lua, continuou Barbicane, a massa, a
densidade, o peso, o volume, a constituição, os movimentos, a distancia
emfim d'este astro, e o papel que elle desempenha no mundo solar estão
perfeitamente determinados: ha mappas selenographicos[11] cuja perfeição
é igual senão superior á dos mappas terrestres: pela photographia
têem-se obtido do nosso satellite provas de belleza imcomparavel.
Resumindo, sabemos ácerca da Lua tudo quanto as mathematicas, a
astronomia, a geologia e a optica poderam ensinar-nos; mas até hoje
ainda se não estabeleceu meio algum directo de communicação com esse
astro.»

A ultima phrase do orador excitou tal interesse e surpreza na assembléa,
que chegou a produzir violenta agitação.

--Permittam-me, continuou este, que lhes traga á lembrança em poucas
palavras, como foi que alguns homens exaltados, tendo embarcado em
espirito para viagens imaginarias, pretenderam ter penetrado os segredos
do nosso satellite. No seculo XVII, um tal David Fabricius, gabou-se de
ter visto com os seus proprios olhos alguns habitantes da Lua. Em 1649,
um francez, João Baudoin, publicou um livro intitulado a _Viagem feita
ao mundo Lunar por Domingos Gonzalez, aventureiro hespanhol_. Na mesma
epocha, deu á luz da publicidade Cyrano de Bergerac, aquella celebre
expedição, que tanto renome teve em França. Algum tempo depois, outro
francez (porque estes senhores entretem-se muito com a Lua) chamado
Fontenelle escreveu a _Pluralidade dos mundos_, que foi, no seu tempo
uma obra prima; verdade é que a sciencia em seu caminhar constante até
as obras primas esmaga. Em 1835 um opusculo traduzido do jornal _New
York American_ contava que sir John Herschell, enviado ao Cabo da Boa
Esperança para ali fazer observações astronomicas, tinha conseguido, por
meio de um telescopio aperfeiçoado por illuminação interior, trazer a
Lua a uma distancia apparente de oitenta jardas[12]. Por esta fórma
observára distinctamente na Lua cavernas, nas quaes viviam hippopotamos,
verdejantes montanhas franjadas de renda de oiro, carneirinhos com armas
de marfim, brancos cabritos montezes e até habitantes com azas
membranosas como os morcegos. Este folheto, obra de um americano chamado
Loche[13], teve grande voga. Mas pouco depois conheceu-se que não era
senão uma mystificação scientifica, e os francezes foram as primeiras a
rir-se d'elle.

--Rir de um americano! exclamou J.-T. Maston; mas isso é um _casus
belli_!...

--Socegue o meu digno amigo, que antes de se rirem tinham sido os
francezes perfeitamente embaidos pelo nosso compatriota. Para terminar
esta breve resenha historica, accrescentarei que um tal Hans Pfaal de
Rotterdam, elevando-se n'um balão cheio de um gaz tirado do azote e
trinta e sete vezes mais leve que o hydrogeneo, chegou á Lua, depois de
dezenove dias de viagem, e tambem que esta viagem não passou, como as
anteriores, de uma tentativa da imaginação; era porém obra de um
escriptor popular na America, engenho singular e contemplativo. É como
se pronunciára o nome de Pöe.

--Hurrah por Edgard Pöe! exclamou a assembléa electrisada pelas palavras
do presidente.

--Conclui o que tinha a dizer-vos, proseguiu Barbicane, no que diz
respeito a tentativas que considerarei puramente litterarias e
absolutamente insufficientes para estabelecer serias relações com o
astro das noites. Devo todavia accrescentar, que alguns espiritos
praticos tentaram já pôr-se em seria communicação com elle. Foi assim
que ha alguns annos um geometra allemão propoz que se mandasse aos
aridos steppes da Siberia uma commissão de homens de sciencia, para que
n'aquellas vastas planicies fizessem desenhar por meio de reflectores
luminosos, immensas figuras geometricas, entre outras a do quadrado da
hypothenusa, vulgarmente chamada pelos francezes «le Pont aux ânes».

«Todo o ser intelligente, dizia este geometra, deve comprehender qual o
destino scientifico de taes figuras; portanto os selenitas[14], se é que
existem, hão de responder por meio de figuras similhantes, e uma vez
estabelecida a communicação, facil será inventar um alphabeto, que dê
meio de conversar com os habitantes da Lua.»

Assim fallava o geometra allemão; mas tal alphabeto nunca teve execução,
e até hoje nenhuma ligação directa existiu entre a Terra e o seu
satellite. Estava reservado para o engenho pratico dos americanos o
porem-se em relação com o mundo sideral. E o meio de consegui-lo é
simples, facil, certo, infallivel, e vae ser o assumpto da minha
proposta.»

Estas palavras tiveram por ecco uma immensa algazarra, uma tempestade de
exclamações e de applausos. Não havia um só dos assistentes que não se
tivesse deixado dominar, arrastar e enthusiasmar pelas palavras do
orador.

Ouçam! ouçam! silencio! era o que se ouvia de todos os lados.

Logoque socegou a agitação, Barbicane continuou em voz mais grave o seu
interrompido discurso:

«Sabeis todos, disse, que progressos se tem feito em balistica de alguns
annos a esta parte, e a que ponto de perfeição teriam chegado as armas
de fogo se a guerra tivesse continuado. Tambem não ignoraes que póde
affirmar-se, em geral, que a força de resistencia do canhão e a potencia
expansiva da polvora não tem limitação. Pois bem! Partindo d'este
principio, perguntei a mim proprio, se usando de um instrumento
adequado, collocado em condições determinadas de resistencia, seria
possivel enviar uma bala até a Lua!»

Ao ouvir a assembléa estas palavras, exhalou-se a um tempo, de mil
peitos arquejantes, uma exclamação de profundo pasmo; houve depois uma
pausa silenciosa, similhante á profunda calmaria que precede as
tempestades.

E effectivamente ribombou o trovão, mas um trovão de applausos, de
gritos, de clamores, que fez tremer a sala das sessões. O presidente
queria fallar, e não podia, só passados dez minutos conseguiu fazer-se
ouvir.

«Deixem-me concluir, disse elle friamente. Estudei a questão sob todos
os seus aspectos, ataquei resolutamente o problema, e dos meus calculos
indiscutiveis resulta, que um projectil animado de uma velocidade
inicial de doze mil jardas[15] por segundo, e dirigido para a Lua, ha de
necessariamente lá chegar. Tenho pois a honra, estimaveis collegas, de
propor-vos que tentemos esta pequena experiencia!»



CAPITULO III

EFFEITO DA COMMUNICAÇÃO BARBICANE


É impossivel descrever o effeito produzido pelas ultimas palavras do
honrado presidente. Que gritos! que vociferações! que successão de
grunhidos, de hurrahs, de «hip! hip! hip!» de todos aquellas onomatopeas
que superabundam na linguagem dos americanos. Era uma desordem, uma
algazarra indescriptivel! Gritavam as bôcas, batiam as mãos, e os pés
abalavam o pavimento das salas. Nem que todas as armas d'aquelle museu
de artilheria se disparassem a um tempo teriam agitado com maior
violencia as ondas sonoras. Nem o caso é para admirar. Artilheiros ha
mais ruidosos que os proprios canhões.

Barbicane permanecêra impassivel no meio de todos estes clamores
enthusiastas; desejava talvez dirigir ainda mais algumas palavras aos
consocios, porque pelos gestos reclamava silencio, e o timbre fulminante
disparou tão violenta como inutilmente. Porém nem sequer o ouviam. Pouco
depois arrancaram-n'o da cadeira presidencial e levaram-n'o em triumpho,
passando das mãos dos fieis camaradas para os braços de uma multidão não
menos exaltada.

Não ha cousa n'este mundo capaz de causar pasmo a um americano. Muitas
vezes se tem repetido que a palavra «impossivel» não é franceza.
Certamente ha n'esta asserção troca de diccionario. Na America é que
tudo é facil, tudo é simples, e pelo que diz respeito a difficuldades
mechanicas, essas estão mortas já antes de nascerem. Nem um só yankee
genuino teria permittido a si proprio sonhar sequer uma sombra de
difficuldade entre o projecto Barbicane e a sua realisação. Dito e
feito.

O passeio triumphal do presidente prolongou-se durante a noite. Foi uma
verdadeira marcha á luz dos archotes. Irlandezes, allemães, francezes,
toda a casta de individuos heterogeneos de que é formada a população do
Maryland, gritavam na sua lingua patria. Os vivas, os hurrahs e os
bravos confundiam-se n'um enthusiasmo inesprimivel.

Por coincidencia a Lua, como se percebêra que d'ella se tratava,
brilhava n'aquella noite com uma serena magnificencia, e eclipsava com a
intensa irradiação todas as luzes terrestres.

Os yankees dirigiam todos os olhos para o disco scintillante do astro:
saudavam-n'o uns com a mão, outros chamavam-lhe os nomes mais
carinhosos; estes mediam-n'a com os olhos, aquelles ameaçavam-n'a de
murro fechado. Um fabricante de instrumentos de optica de
James-Fall-street fez fortuna a vender oculos desde as oito horas até á
meia noite. O astro das noites era contemplado atravez dos vidros das
lunetas, como se fôra qualquer _lady_ da alta sociedade. Os americanos
procediam já para com elle com a sem-ceremonia de verdadeiros
proprietarios. Quem os visse diria, que a loura Phoeba era já dominio
d'aquelles conquistadores audazes, e parte integrante do territorio da
União.

E todavia mal começára ainda a agitar-se o problema de mandar-lhe um
projectil, maneira um tanto aspera de encetar relações, mesmo com um
satellite, porém muito usada entre nações civilisadas.

Meia noite acabava de soar e o enthusiasmo não arrefecia; mantinha-se em
igual nivel em todas as classes da população; magistrados, homens de
sciencia, negociantes, logistas e carrejões, tanto os homens de
intelligencia elevada e culta, como os estupidos e ignaros tinham
sentido abalo profundo na mais delicada fibra de seu ser; o caso de que
se tratava era um emprehendimento nacional, e por isso na cidade alta,
na cidade baixa, nos caes banhados pelas aguas do Patapsco, nos navios
fundeados nas docas, apinhava-se a multidão, ebria de alegria, de _gin_
e de _wisky_; conversavam todos, peroravam, discutiam, disputavam,
approvavam ou applaudiam, desde o _gentleman_, que negligentemente
recostado no canapé de algum botequim, defrontava com a sua _chope_ e de
_sherry-cobler_[16], até ao aguadeiro, que se emborrachava com
_mataratos_[17] n'alguma sombria taberna de Fells-Point.

Comtudo, pela volta das duas horas, acalmou-se a emoção, e o presidente
Barbicane conseguiu recolher a casa, moido, esfalfado e derreado. Nem um
Hercules teria resistido a tal enthusiasmo. A turba foi pouco e pouco
evacuando as praças e as ruas. Os quatro caminhos de ferro do Ohio, de
Susquehanna, de Philadelphia e de Washington, que entroncam em
Baltimore, foram lançar o publico hexogeneo nos quatro extremos dos
Estados Unidos, e a cidade começou de repousar em relativa
tranquillidade.

Enganar-se-ia quem suppozesse que durante aquella memoravel noitada, só
Baltimore fôra victima da agitação que descrevemos. Todas as grandes
cidades da União, Nova-York, Boston, Albany, Washington, Richmond, a
Cidade Crescente[18], Charleston, Mobile, desde o Texas até ao
Massachussets, e desde o Michigan até ás Floridas, todas participaram
d'aquelle delirio, porque os trinta mil socios correspondentes do
Gun-Club, que já tinham conhecimento da carta do seu presidente,
esperavam com igual impaciencia a famosa communicação de 5 de outubro, e
portanto n'esta mesma noite, á medida que as palavras saíam dos labios
do orador, iam correndo pelos fios telegraphicos, através dos Estados da
União, com a velocidade de duzentas e quarenta e oito mil quatrocentas e
quarenta e sete milhas[19] por segundo. Por consequencia póde dizer-se,
com absoluta certeza, que os Estados Unidos, que têem dez vezes o
tamanho da França, soltaram n'um mesmo instante um _hurrah_, unico e
unanime, e que vinte e cinco mil corações, entumecidos de orgulho,
bateram a mesma pulsação.

No dia seguinte lançaram mão do assumpto mil e quinhentos periodicos
diarios, hebdomadarios, mensaes ou bi-mensaes, e estudaram-n'o sob os
differentes pontos de vista da physica, da meteorologia, da economia
politica e da moral; pelo lado da preponderancia politica, e pelo da
civilisação. Discutiam se a Lua era um mundo _acabado_, ou se estaria
ainda em via de transformação. Perguntavam se era similhante á terra na
epocha em que esta não tinha ainda atmosphera, qual era o aspecto da
face lunar invisivel do espheroide terrestre, e ainda que se não tratava
na occasião de mais do que enviar uma bala ao astro das noites, ninguem
duvidava que esse facto seria ponto de partida para uma serie de novas
experiencias, antes todos esperavam que um dia a America havia de
penetrar os mais occultos arcanos do mysterioso disco. Havia até já quem
parecesse arreceiar-se de que a conquista da Lua viesse a transtornar o
equilibrio europeu.

Discutiu-se é verdade o projecto, mas nem um unico jornal poz duvidas á
possibilidade da realisação d'elle; antes pelo contrario até as
revistas, folhetos, boletins e _magasines_ publicados por associações
scientificas, litterarias ou religiosas se encarregaram de demonstrar as
vantagens de tal tentativa. A _sociedade de historia natural_ de Boston,
a _sociedade americana de sciencias e artes_ de Albany, a _sociedade
geographica e estatistica_ de New-York, a _sociedade philosophica
americana_ de Philadelphia, e o _Instituto Smithsoniano_ de Washington
enviaram ao Gun-Club milhares de cartas de felicitação, com
offerecimentos promptos de coadjuvação e dinheiro.

Póde portanto dizer-se que nunca proposta alguma alcançou tão grande
numero de adhesões; de hesitar, duvidar ou arreceiar-se pelo bom exito
d'ella, é que ninguem se lembrou; e se a alguem occorresse, como de
certo teria succedido na Europa, e particularmente em França, responder
com mofas, caricaturas ou cançonetas epigrammaticas á idéa de enviar um
projectil á Lua, de bem mau proveito lhe haviam de servir, que nem todos
os _guarda-vidas_[20] do mundo lhe poderiam guardar as costas contra a
indignação geral.

Ha cousas de que não é permittido rir no novo mundo.

A partir d'aquelle dia foi pois Impey Barbicane considerado como um dos
mais notaveis e maiores cidadãos dos Estados Unidos, uma especie de
Washington da sciencia; um só facto entre muitos bastará para evidenciar
a que ponto chegára aquella infeudação subita de um povo inteiro a um
homem.

[Figura: O observatorio de Cambridge (pag. 35).]

Passados alguns dias depois da famosa sessão do Gun-Club, annunciou, no
theatro de Baltimore, o director de uma companhia ingleza a
representação de _Much ado about nothing_[21]. Ora a população da
cidade, que viu no titulo da comedia uma allusão offensiva aos projectos
do presidente Barbicane, invadiu a sala, escangalhou os bancos, e
obrigou o desgraçado do director a alterar o cartaz. O director, que era
homem fino, soube curvar-se perante a vontade publica, e substituiu a
desventurada comedia por _As you like it_[22]. O resultado foi ter,
durante muitas semanas consecutivas, enchentes phenomenaes.

[Figura: Movimentos de translação da Lua (pag. 43).]



CAPITULO IV

RESPOSTA DO OBSERVATORIO DE CAMBRIDGE


Barbicane, apesar de todas as ovações de que era alvo, não desperdiçou
um só instante. A primeira cousa de que tratou foi de reunir os collegas
da mesa nas salas de commissão do Gun-Club, onde, com previa discussão,
se accordou que fossem consultados os astronomos ácerca da parte
astronomica do projecto, e que depois de conhecida a resposta d'estes,
se discutissem então os meios mechanicos, sem descurar cousa alguma para
tornar seguro o exito da grande experiencia.

Redigiu-se por consequencia uma _nota_ extremamente precisa, contendo
perguntas especiaes, que foi dirigida ao observatorio de Cambridge, no
Massachussets. A cidade de Cambridge, onde foi fundada a primeira
universidade dos Estados Unidos, é justamente nomeada pelo seu
observatorio astronomico, onde se encontram reunidos homens de sciencia
do mais elevado merecimento. É ali que funcciona o potente telescopio,
com o qual Bond conseguiu resolver a nebulosa de Andromedes, e Clarke
descobrir o satellite de Sirius. Todos os precedentes d'este
estabelecimento celebre justificavam portanto a confiança do Gun-Club.

E com effeito, dois dias depois, chegava ás mãos do presidente Barbicane
a resposta tão impacientemente esperada.

Era concebida nos seguintes termos:

«Do director do observatorio de Cambridge para o presidente do Gun-Club,
em Baltimore.

«Logoque se recebeu a vossa honrosa missiva de 6 do corrente, endereçada
ao observatorio de Cambridge em nome dos socios do Gun-Club, de
Baltimore, reuniu-se o pessoal scientifico d'este estabelecimento, e
houve por conveniente[23] responder como se segue:

«As perguntas que lhe foram feitas são as seguintes:

«1.^o Será possivel enviar um projectil até á Lua?

«2.^o Qual é a distancia exacta que ha entre a Terra e o seu satellite?

«3.^o Quanto tempo durará o trajecto do projectil ao qual tenha sido
imprimida a velocidade inicial sufficiente, e por consequencia, em que
momento deverá ser arremessado para que encontre a Lua n'um ponto
determinado?

«4.^o Em que momento prefixo estará a Lua na posição mais favoravel para
ser alcançada pelo projectil?

«5.^o A que ponto do céu deve fazer-se a pontaria com o canhão destinado
a lançar o projectil?

«6.^o Que logar ha de occupar a Lua no céu, no momento da partida do
projectil?

«Em relação á primeira pergunta: Será possivel enviar um projectil até á
Lua?

«Sim, é possivel alcançar a Lua com um projectil, comtanto que se
consiga animar esse projectil de uma velocidade inicial de 12:000 jardas
por segundo. Demonstra o calculo que tal velocidade é bastante.

«Á medida que nos afastâmos da terra, a acção da gravidade diminue na
rasão inversa do quadrado das distancias, isto é, por exemplo, para uma
distancia tres vezes maior, torna-se nove vezes menor. Por consequencia
o peso da bala ha de decrescer rapidamente, até chegar a ser
completamente nullo, o que ha de succeder no momento em que a attracção
da Lua fizer equilibrio á da Terra, isto é, quando tiver percorrido
47/52 avos do seu trajecto. N'esse momento o projectil não terá peso
algum, e se passar alem d'esse ponto ha de caír _para_ a Lua só por
effeito da attracção lunar. Fica portanto irrecusavelmente demonstrada a
possibilidade theorica da experiencia; emquanto ao seu bom exito, esse
depende unicamente da potencia do machinismo que se empregar.

«Com respeito á segunda pergunta: Qual é a distancia exacta que ha entre
a Terra e o seu satellite?

«A Lua não descreve em torno da terra uma circumferencia de circulo, mas
sim uma ellipse, n'um dos focos da qual está situado o nosso globo;
d'ahi vem por consequencia que a Lua está, ora mais proxima, ora mais
afastada da terra, ou em termos astronomicos, agora no apogeo, logo no
perigeo; e a differença entre a maior e a menor distancia é
relativamente bastante consideravel para que não devamos despreza-la.
Com effeito, no apogeo está a Lua a 247:552 milhas (99:640 leguas de 4
kilometros) e no perigeo a 218:657 milhas sómente (88:010 leguas) da
Terra, o que dá uma differença de 28:895 milhas (11:630 leguas), que é
mais da nona parte do percurso total. Portanto a distancia perigea da
Lua é que deve servir de base aos calculos.

«Ácerca da terceira pergunta: Qual será a duração do trajecto do
projectil ao qual tenha sido imprimida a velocidade inicial bastante, e
consequentemente em que momento deverá ser lançado para que vá encontrar
a Lua em um determinado ponto?

«Se a bala conservasse indefinidamente a velocidade inicial de 12 jardas
por segundo, que lhe fosse imprimida no momento da partida, gastaria
apenas nove horas approximadamente para chegar ao seu destino; mas como
a velocidade inicial ha de ir continuamente decrescendo, deduz-se,
feitos os calculos, que o projectil ha de empregar 300:000 segundos ou
83 horas e 20 minutos para chegar ao ponto onde as attracções terrestre
e lunar se equilibram, e a partir d'este ponto ha de cair na superficie
da Lua em 50:000 segundos ou 13 horas, 53 minutos e 20 segundos. Convem
pois lançar o projectil 97 horas, 13 minutos e 20 segundos antes do
momento em que a Lua haja de chegar ao ponto de mira.

«Em relação á quarta pergunta: Em que instante prefixo estará a Lua na
posição mais favoravel para ser alcançada pelo projectil?

«Em consequencia do que deixâmos dito, deve, em primeiro logar,
escolher-se a epocha em que a Lua estiver no perigeo, e simultaneamente
o instante em que passar pelo zenith, circumstancia que ha de diminuir
ainda o percurso do projectil de uma distancia igual ao raio da terra,
isto é, de 3:919 milhas, vindo por esta fórma a ser o trajecto
definitivo de 214:976 milhas (86:410 leguas). Porém a Lua, que passa
todos os mezes pelo seu perigeo, nem sempre se encontra no zenith no
mesmo instante, e só a largos intervallos satisfaz simultaneamente a
estas duas condições. Necessario é portanto esperar a coincidencia da
passagem pelo perigeo com a passagem pelo zenith.

«Por feliz acaso, no dia 4 de dezembro do anno proximo, a Lua ha de
preencher as duas condições indicadas: á meia noite estará no perigeo,
isto é, no ponto da sua orbita d'onde é mais curta a distancia á Terra,
e passará no mesmo instante pelo zenith.

«Em relação á quinta pergunta: A que ponto do céu deve fazer-se a
pontaria com o canhão destinado a lançar o projectil?

«Suppondo admittidas as considerações que precedem, o canhão deve ser
dirigido para o zenith[24] do logar, por maneira que o tiro venha a ser
perpendicular ao plano do horisonte e o projectil fuja assim mais
rapidamente aos effeitos da attracção terrestre. Mas para que a Lua
passe pelo zenith de um logar terrestre, é necessario que este logar não
tenha latitude maior do que a declinação do astro, por outra que o logar
esteja comprehendido entre o equador e os parallelos, que distam d'elle
28^o para norte ou sul. Em qualquer outro logar da terra o tiro havia
necessariamente de ser obliquo, o que seria prejudicial ao bom exito da
experiencia.

«A respeito da sexta pergunta: Que logar deve occupar a Lua no céu, no
instante da partida do projectil?

«No momento em que o projectil for lançado ao espaço, a Lua que avança
em cada dia 13^o, 10' e 35", deve estar afastada do ponto zenithal
quatro vezes esta grandeza, isto é, 52^o, 42' e 20", espaço que
corresponde ao caminho que ha de andar durante o percurso do projectil.
Mas como se deve tambem attender ao desvio que ha de vir ao projectil do
movimento de rotação da Terra, e como, quando a bala chegar á Lua, este
desvio deve ter attingido uma grandeza igual a dezeseis raios
terrestres, que contados sobre a superficie da Lua, dão proximamente
11^o, devem juntar-se estes 11^o aos já mencionados, que exprimem o
atrazo da Lua, o que dá 64^o em numeros redondos.

«Consequentemente o raio visual dirigido para a Lua deve, no momento do
tiro, fazer com a vertical do logar um angulo de 64^o.

«Taes são as respostas ás perguntas feitas pelos socios do Gun-Club ao
observatorio de Cambridge.

«Em resumo:

«1.^o O canhão deve ser collocado n'uma região situada entre o equador e
os parallelos de 28 graus de latitude norte ou sul.

«2.^o Deve ser dirigido para o zenith do logar.

«3.^o O projectil deve ir animado de uma velocidade inicial de doze mil
jardas por segundo.

«4.^o Deve ser lançado no dia 1.^o de dezembro do anno proximo, ás onze
horas menos treze minutos e vinte segundos.

«5.^o O projectil ha de encontrar a Lua, quatro dias depois da partida,
no dia 4 de dezembro á meia noite exacta, no momento em que o astro
passa pelo zenith.

«Devem portanto os socios do Gun-Club dar começo sem demora aos
trabalhos necessarios para realisar um emprehendimento de tal ordem, e
prepararem-se para a execução no momento determinado, porque se deixarem
passar a data indicada de 4 de dezembro, só dezoito annos e onze dias
depois volverá a Lua a entrar nas mesmas condições em relação ao zenith
e ao perigeo.

«O pessoal scientifico do observatorio de Cambridge fica inteiramente á
disposição do Gun-Club para todos os assumptos de astronomia theorica, e
aproveita a occasião da presente para juntar as suas felicitações ás da
America inteira.

«Pelo pessoal scientifico do estabelecimento.--_J. M. Belfast_, director
do observatorio de Cambridge.»



CAPITULO V

O ROMANCE DA LUA


Um observador dotado de vista infinitamente penetrante e collocado no
centro, n'aquelle centro ignoto, em torno do qual gravita o mundo, teria
visto, na epocha cahotica do universo, o espaço cheio de myriades de
atomos. Mas pouco e pouco, com o volver dos seculos produziu-se uma
mudança; manifestou-se uma lei de attracção, á qual obedeceram os atomos
outr'ora errantes; combinaram-se estes atomos chimicamente, segundo suas
affinidades, fizeram-se moleculas e formaram esses aggregados nebulosos
de que estão semeadas as profundezas do céu.

Animaram-se então estes aggregados de um movimento de rotação em volta
do seu ponto central, e este centro formado de moleculas vagas poz-se
tambem a girar sobre si mesmo, ao passo que se ia progressivamente
condensando. Segundo as leis immutaveis da mechanica, á medida que se
lhe minguava o volume pela condensação, ia-se-lhe accelerando o
movimento de rotação e, persistindo estes dois effeitos, de cada centro,
resultou uma estrella principal, novo centro do aggregado nebuloso.

Se o observador olhasse então attentamente, teria visto succeder com as
outras moleculas do aggregado, o mesmo que succedêra com a estrella
central: condensaram-se adquirindo simultaneamente um movimento de
rotação progressivamente accelerado, e gravitaram em torno da central,
transformadas em outras tantas estrellas. E assim ficava formada uma
nebulosa[25]. Não menos de cinco mil nebulosas conhecem, na actualidade,
os astronomos.

Ha uma, entre estas cinco mil nebulosas, a que os homens chamaram via
lactea[26], e que contém dezoito milhões de estrellas, cada uma das
quaes se transformou em centro de um mundo solar.

Se o observador, rodeado por estes dezoito milhões de astros, volvesse
especialmente a attenção para um dos mais modestos e menos
brilhantes[27], para uma estrella de quarta ordem, que orgulhosamente
appellidâmos _o Sol_, debaixo dos olhos lhe teriam succedido todos os
phenomenos a que é devida a formação do universo.

Effectivamente havia de ver esse Sol, ainda no estado gazoso e composto
de moleculas moveis, a girar em torno do proprio eixo para concluir o
trabalho de concentração, e este movimento, subordinado ás leis da
mechanica, havia accelerar-se com a diminuição do volume, e um instante
havia de chegar em que a força centrifuga venceria a força centripeta,
que attrahe as moleculas para o centro.

Outro phenomeno então havia de realisar-se diante dos olhos do
observador, as moleculas situadas no plano do equador, soltando-se como
a pedra da funda de que subito rebenta a corda, haviam de ir formar, em
volta do Sol, anneis concentricos como o de Saturno. A estes anneis de
materia cosmica, animados de movimento de rotação em volta da massa
central, chegaria depois a vez de partir-se e decompor-se em
nebulosidades secundarias, o que vale o mesmo que dizer, em planetas.

Concentrada então toda a attenção do observador sobre os planetas havia
de ver realisarem-se n'elles os mesmos phenomenos que observára no Sol.
De cada um d'elles dimana um ou mais anneis cosmicos, origens dos astros
de ordem inferior a que chamâmos satellites.

Subindo assim do atomo á molecula, da molecula ao aggregado nebuloso, do
aggregado nebuloso á nebulosa, da nebulosa á estrella principal, da
estrella principal ao Sol, do Sol ao planeta, do planeta ao satellite,
examinâmos a serie inteira de transformações por que passaram os corpos
celestes desde os primeiros dias do mundo.

O Sol, que parece perdido na immensidade do mundo estellar, está todavia
ligado pelas ultimas theorias da sciencia á nebulosa chamada via lactea.
Ainda que no meio das regiões ethereas nos pareça pequeno, é todavia o
centro de um mundo, e é enorme, poisque o seu volume é igual a mil e
quatrocentas vezes o volume da Terra. Em torno d'ella gravitam oito
planetas, que nos primeiros tempos da creação lhe sairam das proprias
entranhas. São estes planetas, progredindo do mais proximo até ao mais
remoto, Mercurio, Venus, a Terra, Marte, Jupiter, Saturno, Urano e
Neptuno. Alem d'estes circulam, regularmente entre Marte e Jupiter,
outros corpos de volume menos consideravel, talvez restos errantes de
algum astro quebrado em milhares de pedaços; d'estes conta o telescopio
não menos de noventa e sete[28]. Alguns d'estes servidores que o Sol
mantém nas respectivas orbitas ellipticas por força da grande lei da
gravitação, tambem têem seus satellites. Urano tem oito, Saturno oito,
Jupiter quatro, Neptuno talvez tres, a Terra só um; este, que é um dos
menos importantes do mundo solar, chama-se Lua, e é o que o engenho
audaz dos americanos pretendia conquistar.

O astro das noites, já pela proximidade relativa a que está, já por
virtude do espectaculo rapidamente renovado das diversas phases que
apresenta, partilhou sempre com o Sol a attenção dos habitantes da
Terra; mas o olhar para o Sol cansa, e os esplendores da luz solar
forçam os contempladores d'este astro a baixar os olhos.

A loura Phoeba é mais humana, e cheia de modesta graça deixa-se ver com
complacencia; é suave para a vista, pouco ambiciosa, e comtudo toma ás
vezes a liberdade de eclipsar seu irmão, o radiante Apollo, sem que
nunca fosse eclipsada por este. Comprehenderam os mahometanos a gratidão
que era devida á fiel amiga da Terra; por isso regularam pela revolução
d'ella a contagem dos mezes[29].

Votaram os primeiros povos culto particular a esta casta deusa.
Chamaram-lhe os egypcios Isis, os phenicios Astartea, e os gregos
adoraram-n'a sob o nome de Phoeba, como filha de Jupiter e de Latona, e
explicavam os eclipses por visitas mysteriosas de Diana ao bello
Endymião.

Diz-nos a lenda mythologica, que o leão de Nemea, antes de apparecer na
Terra, percorrêra as campinas da Lua, e o poeta Agesianax, citado por
Plutarcho, celebrou em verso os dois olhos, o encantador nariz e a bôca
amavel, que figuram as partes luminosas da adoravel Seléné.

[Figura: Vista da Lua (pag. 47).]

Porém se os antigos comprehenderam perfeitamente o caracter, o
temperamento, emfim as qualidades moraes da Lua, sob o ponto de vista
mythologico, não é menos verdade, que os mais sabedores d'elles eram
extremamente ignorantes pelo que diz respeito a selenographia.

[Figura: Barbicane levanta-se para fallar (pag. 58).]

Todavia, muitos dos astronomos d'essas epochas longiquas, descobriram
algumas particularidades confirmadas pela sciencia dos nossos dias, e se
os arcadios pretenderam ter habitado a Terra em epocha em que ainda não
existia a Lua, se Simplicius a julgou immovel e ligada á abobada de
crystal, se Tatius a considerou como um fragmento destacado do disco
solar, se Clearco, discipulo de Aristoteles, fazia d'ella um espelho
polido em que se reflectia a imagem do Oceano, se outros finalmente a
consideraram como um aggregado de vapores exhalados pela Terra, ou um
globo, metade de fogo, metade de gêlo, que girava sobre si mesmo, alguns
sabios por meio de observações sagazes, e postoque desajudados de
instrumentos de optica, suspeitaram pelo menos a existencia da maior
parte das leis que regem o astro das noites.

Assim é que Thales de Mileto, 460 annos antes de Jesus Christo, opinou
que a Lua era illuminada pelo Sol. Aristarcho de Samos deu verdadeira
explicação das phases. Cleomene ensinou que o brilho do disco lunar
vinha de luz reflexa. Berosio o chaldaico descobriu que a duração de uma
rotação da Lua era igual á da sua revolução, e explicou por esta fórma o
facto da Lua ser vista da Terra sempre pela mesma face. Finalmente
Hipparco, duzentos annos antes da era christã, reconheceu a existencia
de desigualdades nos movimentos apparentes do satellite da Terra.

Estas differentes observações foram confirmadas no decorrer dos tempos e
serviram de proveito aos astronomos mais modernos. Ptolomeu no seculo
XVI, e o arabe Abul-Wefa no seculo X completaram as indicações feitas
por Hipparco ácerca das desigualdades que apparenta o movimento da Lua
na linha ondulada, que tem por orbita, sob a acção do Sol.

Mais proximos de nós, Copernico, no seculo XV, e Tycho Brahe no seculo
XVI explicaram completamente o systema do mundo e o papel que desempenha
a Lua no conjuncto dos corpos celestes.

N'esta epocha ficaram, com muita approximação, determinados todos os
movimentos lunares, mas da constituição physica do astro pouca cousa era
conhecida.

Foi por esse tempo que Galileu explicou os phenomenos luminosos que
succediam em algumas phases, pela existencia de montanhas lunares, a que
attribuiu uma altura media de 4:500 toezas.

Depois de Galileu, Hevelius, astronomo de Dantzig, avaliou mais pelo
baixo as mais elevadas d'estas alturas em 2:600 toezas; verdade é que
Riccioli, confrade d'este, tornou a corrigir esta apreciação,
elevando-as a 7:000 toezas.

Nos fins do seculo XVIII Herschell, ajudado por um telescopio de
poderoso alcance, reduziu mui notavelmente as medidas precedentes,
attribuindo ás montanhas mais altas a elevação de 1:900 toezas, e
abaixando a media das differentes alturas a 400 toezas, não mais.

Mas tambem Herschell se enganava, e só pelas observações de Shroeter,
Louville, Halley, Nasmyth, Bianchini, Pastorf, Lohrman, Gruithuysen, e
principalmente pelos estudos pacientes de Beer e Moedler se conseguiu
resolver definitivamente o problema. Graças a estes homens de sciencia é
hoje perfeitamente conhecida a elevação das montanhas da Lua.

Por virtude d'estes mesmos trabalhos completava-se o reconhecimento da
Lua; apparecia o astro crivado de crateras, e affirmava-se mais em cada
observação a natureza vulcanica d'elle. Concluiu-se da ausencia de
refracção nos raios dos planetas occultados pela Lua, a falta quasi
absoluta de atmosphera n'este astro.

Da falta de ar seguia-se concludentemente a falta de agua. Ficou
portanto bem claro, que se existiam selenitas, deviam, para existir em
taes condições, possuir organisação especial e notavelmente differente
da dos habitantes da Terra.

Finalmente, graças aos methodos novos, empregaram-se em constantes
inquirições ácerca da Lua instrumentos mais perfeitos; não deixaram os
astronomos por explorar nem um só ponto da sua face visivel, devendo
notar-se que o diametro lunar mede 2:150 milhas[30]; a superficie é 1/13
avos da superficie do nosso globo[31], o volume é 1/49 avos do volume do
espheroide terrestre; mas nenhum dos segredos da Lua podia occultar-se
aos olhos dos astronomos, e estes habeis homens de sciencia foram ainda
mais longe nas prodigiosas observações que relatâmos.

Por esta fórma notaram os observadores, que na epocha da lua cheia
apparecia o disco do astro, em algumas regiões, raiado por linhas
brancas, e nas epochas das outras phases, raiado por linhas negras.
Estudando com mais attenção o phenomeno, conseguiram perceber
exactamente a natureza d'aquellas linhas. Eram sulcos compridos e
estreitos, cavados entre margens parallelas e que em geral iam terminar
nos contornos de crateras.

O comprimento dos sulcos estava comprehendido entre 10 e 100 milhas, e a
largura era proximamente de 800 toezas. Deram-lhes os astronomos o nome
de _ranhuras_; mas a dar-lhe este nome se limitou o seu saber. O
problema de saber se estas ranhuras eram ou não leitos seccos de antigos
rios não poderam resolve-lo completamente. Os americanos já concebiam a
esperança de que, mais dia menos dia, haviam de determinar com exactidão
aquelle facto geologico. Reservavam tambem para opportunidade propria
fazer um reconhecimento sobre a serie de trincheiras parallelas
descobertas na superficie da Lua por Gruithuysen, sabio professor de
Munich, que as reputa um systema de fortificações levantadas pelos
engenheiros selenitas. Estes dois pontos, ainda obscuros, e certamente
muitos outros, nunca poderão ser definitivamente regulados, sem que se
estabeleça primeiro communicação directa com a Lua.

Em relação á luz lunar nada havia já que aprender: era sabido que era
trezentas mil vezes mais fraca que a do Sol, e que o calor que a
acompanha não tem acção apreciavel sobre os thermometros. O phenomeno da
luz cendrada esse explica-se naturalmente pelo effeito dos raios do Sol
reflectidos na Terra, e que depois da reflexão se dirigem para a Lua.

Parece por este phenomeno completar-se o disco lunar, quando nas epochas
da sua primeira e ultima phase se nos apresenta sob a fórma de um
crescente.

O que deixâmos dito representava o peculio de conhecimentos adquiridos,
em relação ao satellite da Terra, peculio que o Gun-Club tentava
acrescentar sob todos os pontos de vista cosmographicos, geologicos,
politicos e moraes.



CAPITULO VI

O QUE NÃO É POSSÍVEL IGNORAR E O QUE JÁ NÃO É PERMITTIDO ACREDITAR NOS
ESTADOS UNIDOS


A proposta Barbicane tivera como resultado immediato trazer para a tela
da discussão todos os factos astronomicos, relativos ao astro das
noites. Todos se empenharam em estuda-lo com assiduidade. Parecia que a
Lua apparecêra pela vez primeira acima do horisonte, e que ninguem ainda
a tinha visto nos céus. Tornou-se o astro da moda; foi durante algum
tempo a _leôa_ do dia, sem que por isso parecesse menos modesta, e tomou
logar entre as _estrellas_, sem que d'ahi lhe viesse maior altivez. Os
jornaes resuscitaram as antigas anecdotas, em que desempenhava papel o
_sol dos lobos_: trouxeram á memoria do publico as influencias que
attribuiu á Lua a ignorancia dos primeiros seculos; cantaram-n'a emfim
em todos os tons, e pouco faltou para que lhe attribuissem algum dito
chistoso. A America inteira foi atacada de selenomania.

As revistas scientificas tambem por sua parte estudaram o assumpto; mas,
tratando mais especialmente dos problemas que diziam respeito ao
projecto do Gun-Club, deram publicidade á carta do observatorio de
Cambridge, commentando-a e approvando-a sem restricções.

Por encurtar diremos que não foi desde então permittido, nem ao mais
illetrado de todos os yankees, ignorar um unico facto relativo ao nosso
satellite, nem á mais crendeira de todas as velhas matronas americanas,
continuar agarrada aos erros supersticiosos, que lhe dizem respeito.
Entrava-lhes a sciencia em casa sob todas as fórmas; penetrava-lhes
pelos olhos e pelos ouvidos; era impossivel ser um asno... em assumptos
astronomicos.

Até então muitas pessoas ignoravam como podéra calcular-se a distancia
que ha entre a Terra e Lua. Aproveitou-se a occasião para lhes ensinar
que esta distancia se avaliava pela medida da parallaxe lunar. E a quem
a palavra parallaxe causava estranheza dizia-se, que significava o
angulo formado por duas linhas rectas tiradas de cada uma das
extremidades do raio terrestre para a Lua.

A quem punha em duvida a perfeição do methodo, provava-se, sem detença,
que não sómente a distancia da Terra á Lua era na realidade de duzentas
e trinta e quatro mil trezentas e quarenta e sete milhas (94:330
leguas), mas tambem que os astronomos não erravam n'esta avaliação nem
setenta milhas (30 leguas).

Aos que estavam pouco ou nada familiarisados com os movimentos da Lua,
demonstravam os jornaes quotidianamente que este astro tem dois
movimentos distinctos, o primeiro chamado de rotação, em torno de um
eixo; o segundo chamado de revolução, em volta da Terra, que ambos se
completam em tempos iguaes, isto é, em vinte e sete dias e um terço
[32].

O movimento de rotação é o que dá origem aos dias e ás noites na
superficie da Lua, devendo notar-se que não ha senão um dia e uma noite
por mez lunar, e que cada dia ou cada noite dura trezentas e cincoenta e
quatro horas e um terço. Mas, por felicidade da Lua, a sua face, que
está voltada para o globo terrestre, é illuminada por este com a
intensidade luminosa de quatorze luas. A outra face, que é sempre
invisivel, tem por isso mesmo trezentas e cincoenta e quatro horas de
noite absoluta, apenas temperada pela _pallida claridade que dimana das
estrellas_. Este phenomeno provém unicamente da particularidade já
citada, de que os movimentos de rotação e de revolução se completam em
tempos rigorosamente iguaes, e realisa-se tambem, segundo Casini e
Herschell, nos satellites de Jupiter, e provavelmente em todos os
demais.

Em certas cabeças bem dispostas, mas um tanto duras, custava a entrar, á
primeira, que a Lua voltava invariavelmente a mesma face para a terra,
durante a sua revolução, pela rasão de que no mesmo lapso de tempo fazia
um giro completo em torno do seu eixo. Mas a estes dizia-se: «Entrae na
vossa casa de jantar, e dae uma volta completa á roda da mesa, olhando
sempre para o centro d'ella; quando tiverdes completado o vosso passeio
circular, tereis feito um giro perfeito sobre vós mesmos, visto como o
vosso olhar ha de ter percorrido successivamente todos os pontos da
sala. Ora pois! a sala é o céu, a mesa é a Terra, e a Lua sois vós!» E
íam-se satisfeitissimos com a comparação.

Como acabâmos de ver, a Lua mostra constantemente a mesma face á Terra;
todavia, para fallar com rigor, devemos acrescentar, que, em virtude de
um certo movimento de oscillação de norte para sul e de oeste para
leste, chamado libração, podemos ver um pouco mais de metade da
superficie do globo lunar, cincoenta e sete centesimos, proximamente.

Quando os ignorantes chegaram a saber, com respeito ao movimento de
rotação da Lua, tanto como o director do observatorio de Cambridge,
começou a inquietar-lhes o espirito o movimento de revolução do
satellite em volta da Terra, mas em curto espaço acabaram de os instruir
vinte e tantas revistas scientificas.

Aprenderam então que o firmamento, com a sua infinidade de estrellas,
póde ser considerado como um immenso mostrador, por sobre o qual passeia
a Lua, indicando a hora verdadeira a todos os habitantes da Terra, e que
é n'este movimento que o astro das noites apresenta as suas differentes
phases. Mais, que é Lua cheia, quando está em opposição com o Sol, isto
é, quando estão os tres astros na mesma linha recta, estando a Terra no
meio; que a Lua é nova, quando está em conjuncção com o Sol, isto é,
quando está entre este e a Terra; e, finalmente, que a Lua entra no
quarto primeiro ou no ultimo, quando está no vertice de um angulo recto,
formado pelas duas rectas que d'ella se dirigem para a Terra e para o
Sol.

Alguns yankees mais perspicazes concluiam d'aqui, que não podia haver
eclipses senão nas epochas de conjuncção e de opposição, e não deduziam
mal. Na conjuncção a Lua póde eclipsar o Sol, e na opposição é a Terra
que póde eclipsar a Lua, e se em cada revolução lunar não ha dois
eclipses, é porque o plano, segundo o qual se move a Lua, é inclinado
sobre a ecliptica, por outra, sobre o plano no qual se move a Terra.

Em relação á altura a que o astro das noites póde subir acima do
horisonte estava tudo dito na carta do observatorio de Cambridge.

Todos ficaram sabendo que tal altura varia com a latitude do logar de
observação, e que as unicas zonas do globo nas quaes a Lua passa pelo
zenith, isto é, vem collocar-se directamente por cima da cabeça dos que
a contemplam, estão forçosamente comprehendidas entre os parallelos de
28^o e o equador. D'ahi vinha a importante recommendação de tentar a
experiencia n'um logar qualquer d'aquella parte do globo, para que o
projectil podesse ser lançado verticalmente, e escapar-se por isso mais
depressa á acção da gravidade. Era esta condição essencial para o bom
exito da empreza, e não deixava de preoccupar vivamente a opinião.

Ácerca da linha seguida pela Lua na sua revolução em volta da Terra,
tinha o observatorio de Cambridge ministrado conhecimentos bastantes,
para que os ignorantes de todos os paizes ficassem sabendo que esta
linha é uma curva reentrante, não um circulo, mas uma ellipse, n'um dos
focos da qual está situada a Terra.

Esta especie de orbitas ellipticas é commum a todos os planetas, assim
como a todos os satellites, e prova-se rigorosamente na mechanica
racional que não podia succeder por outra fórma. Bem entendido estava
que a Lua no apogeo está mais longe da Terra, e no perigeo mais proxima.

Ora eis-aqui o que por vontade ou sem ella sabia qualquer americano, e o
que ninguem decentemente podia ignorar.

Porém, se os verdadeiros principios se vulgarisaram com rapidez, muito
mais difficil foi extirpar grande quantidade de erros e illusorios
temores. Assim, por exemplo, algumas pessoas muito de bem, sustentavam
que a Lua era um antigo cometa, que no percurso da sua orbita alongada
em volta do Sol, tinha vindo a passar proximo da Terra que o retivera no
seu circulo de attracção. Pretendiam taes astronomos de sala explicar
por esta maneira o aspecto requeimado da Lua, desgraça irreparavel de
que accusavam o astro radiante do dia. Verdade seja, que, quando alguem
lhes fazia notar que os cometas tem atmosphera, e que a Lua pouca ou
nenhuma tem, tinham grande difficuldade em responder.

Outros, que pertenciam á raça d'aquelles que por tudo tremem e se
arreceiam, manifestavam singulares temores a respeito da Lua; tinham
ouvido dizer que desde as observações feitas no tempo dos Califas, o
movimento de revolução do astro se ía accelerando em certa proporção;
d'aqui deduziam, é verdade que com rigorosa logica, que á tal
acceleração no movimento devia corresponder diminuição na distancia dos
dois astros, e que prolongando-se este duplo effeito indefinidamente, a
Lua havia de acabar um dia por cair sobre a Terra. Socegaram todavia
estes animos timoratos, e deixaram de temer pela sorte das gerações
futuras, quando lhes ensinaram que, segundo os calculos do illustre
mathematico francez Laplace, esta acceleração do movimento lunar está
comprehendida entre estreitos limites, e que não ha de tardar que lhe
succeda uma proporcional diminuição na velocidade, e que por
consequencia não poderá, nos seculos futuros, ser alterado o equilibrio
do mundo solar.

Restava, por ultimo, a classe dos ignorantes supersticiosos, e estes
nunca se contentam em não saber; sabem até o que não existe, e, a
respeito da Lua, sabiam cousas por ahi alem. Consideravam alguns o disco
lunar como uma especie de espelho polido, por intermedio do qual os
homens se podiam ver uns aos outros e communicarem-se reciprocamente os
pensamentos, ainda que collocados em differentes pontos da Terra; outros
affirmavam que por cada milheiro de Luas novas observadas, novecentas e
cincoenta tinham trazido comsigo notaveis acontecimentos, taes como
cataclysmos, revoluções, tremores de terra, diluvios, etc.

Acreditavam por isso na influencia mysteriosa do astro das noites sobre
os destinos do homem; consideravam-no como _verdadeiro contrapeso_ da
existencia; pensavam que cada selenita está ligado a um habitante da
Terra por um vinculo sympathico; sustentavam, como o dr. Mead, que o
systema vital está inteiramente dependente das influencias lunares,
affirmando, sem admittir replica, que os rapazes nascem quasi
exclusivamente na Lua nova, e as raparigas no quarto minguante, etc.,
etc. Mas por fim não houve mais remedio senão renunciar ás crendices e
erros vulgares, e contentar-se sómente com a verdade, e se a Lua,
despojada da sua influencia, perdeu a importancia para os espiritos de
alguns d'aquelles que são cortezãos de todos os poderes, se alguns lhe
voltaram as costas, nem por isso deixou de ter por si a manifestação de
uma immensa maioria. Consistiu desde então a unica ambição de todos os
yankees em tomar posse d'aquelle novo continente aerio e em arvorar no
mais alto vertice d'elle a bandeira estrellada dos Estados Unidos da
America.



CAPITULO VII

O HYMNO DA BALA


O observatorio de Cambridge tinha estudado, na memoravel carta de 7 de
outubro, o assumpto pelo lado astronomico, mas estava ainda sem solução
o problema mechanico. As difficuldades do caso pareceriam insuperaveis
em qualquer outro paiz do mundo, mas na America resolveu-se o negocio
como de brincadeira.

O presidente Barbicane, sem perda de tempo, tinha escolhido entre os
socios do Gun-Club uma commissão executiva. A commissão estava obrigada
a elucidar, em tres sessões, os tres grandes problemas do canhão, do
projectil e das polvoras; compunha-se de quatro membros todos muito
sabedores no assumpto, Barbicane, com voto de desempate, o general
Morgan, o major Elphiston, e finalmente o inevitavel J.-T. Maston, ao
qual foram confiadas as importantes funcções de secretario relator.

[Figura: A Columbiada Rodman (pag. 61).]

No dia 8 de outubro reuniu-se a commissão em casa do presidente
Barbicane, rua da Republica n.^o 3, e como fosse de grande importancia
que as exigencias do estomago não viessem a perturbar tão grave
discussão, sentaram-se os quatro socios do Gun-Club em volta de uma mesa
coberta de bandejas de sandwiches e de amplos bules de chá. Em seguida
atarraxou J.-T. Maston a pena no gancho de ferro que lhe servia de mão
direita e abriu-se a sessão.

[Figura: O canhão da ilha de Malta (pag. 63).]

Barbicane encetou a discussão pela seguinte fórma:

«Caros collegas, temos de resolver um dos problemas mais importantes da
balistica, a sciencia por antonomasia, a que trata do movimento dos
projectis, isto é, dos corpos arremessados ao espaço, por uma força de
impulsão qualquer e depois abandonados a si proprios.

--Ai! balistica! balistica! exclamou J.-T. Maston em tom commovido.

--Talvez parecesse mais logico, proseguiu Barbicane, dedicar esta
primeira sessão á discussão do machinismo...

--E na verdade, interrompeu o general Morgan.

--Todavia, continuou Barbicane, depois de reflectir maduramente,
pareceu-me que o assumpto projectil devia ter primazia sobre o assumpto
canhão, e que as dimensões d'este deveriam depender das d'aquelle.

--Peço a palavra, gritou J.-T. Maston.

Foi-lhe concedida a palavra com a boa vontade de que se tornava
merecedor pelos seus magnificos antecedentes.

«Meus bons amigos, disse Maston, em tom de inspiração, o nosso
presidente tem rasão em dar a primazia ao assumpto projectil sobre todos
os outros! A bala que ora vamos arremessar á Lua é um mensageiro, um
embaixador, e dêem-me licença que a considere pelo lado puramente
moral.»

Esta maneira nova de encarar um projectil excitou singularmente a
curiosidade dos membros da commissão; todos se prepararam para prestar a
mais solícita attenção ás palavras de J.-T. Maston.

«Caros collegas, proseguiu este; serei breve, porei de parte a bala
physica, a bala que mata, para considerar sómente a bala mathematica, a
bala moral. Para mim a bala é a mais esplendida manifestação do poder do
homem; na bala resume-se este poder todo inteiro, e foi quando a
inventou que o homem mais se approximou do Creador!

--Muito bem! disse o major Elphiston.

--E na verdade, exclamou o orador, se Deus fez as estrellas e os
planetas, o homem fez a bala, que é o _criterium_ das velocidades
terrestres e uma imitação, em menores proporções, dos astros que erram
no espaço, que não são mais do que outros tantos projectis! Pertence a
Deus a velocidade da electricidade, a Deus a velocidade da luz, a
velocidade das estrellas, a velocidade dos cometas, a velocidade dos
planetas, a velocidade dos satellites, a velocidade do som, a velocidade
do vento! Mas a nós os homens a velocidade da bala, cem vezes superior á
velocidade da locomotiva ou do mais rapido corcel!»

J.-T. Maston estava exaltado; entoando á bala este hymno sagrado,
percebiam-se-lhe na voz inflexões lyricas.

«Querem algarismos? proseguiu elle; ei-los, e que fallam bem alto! Olhem
simplesmente a modesta bala de vinte e quatro[33], que corre oitocentas
mil vezes menos veloz que a electricidade, seiscentas e quarenta mil
vezes menos veloz que a luz, setenta e seis vezes menos veloz que a
Terra, no movimento de translação em volta do Sol, e que todavia, quando
sáe do canhão, excede em rapidez o som[34], anda 200 toezas em cada
segundo, 2:000 toezas em 10 segundos, 14 milhas (6 leguas) em cada
minuto, 840 milhas (360 leguas) por hora, 27:100 milhas (8:640 leguas)
por dia, ou, o que vale o mesmo, 7.336:500 milhas (3.155:760 leguas) por
anno, velocidade igual á dos pontos do equador no movimento de rotação
do globo. Gastaria portanto 11 dias para ir á Lua, 12 annos para chegar
ao Sol, 360 annos para alcançar Neptuno, situado no extremo limite do
mundo solar. Eis o que fazia tão modesta bala, producto de mãos humanas!
Que será quando vintuplicando-lhe a velocidade, a arremessarmos com a
velocidade de 7 milhas por segundo! Ah! soberba bala! esplendido
projectil! Exulto em acreditar que has de ser recebida lá em cima com
todas as honras devidas a um embaixador terrestre!»

Com repetidos hurrahs applaudiram os auditores esta altisonante
peroração, e J.-T. Maston sentou-se extremamente commovido e recebendo
felicitações de todos os collegas.

«E agora, disse Barbicane, que já demos largas á poesia, atiremo-nos
directamente ao assumpto.»

--Estamos promptos, responderam os membros da commissão, absorvendo ao
mesmo tempo meia duzia de sandwiches por cabeça.

--Já tendes conhecimento do problema que temos de resolver, continuou o
presidente; trata-se de imprimir a um projectil uma velocidade de 12:000
jardas por segundo.

«Tenho rasões para acreditar que havemos de conseguir bom resultado.
Mas, por agora, limitemo-nos a examinar as velocidades obtidas até hoje;
o general Morgan póde instruir-nos cabalmente a este respeito.

--E com tanta maior facilidade, respondeu o general, que, durante a
guerra, fui eu membro da commissão de experiencias. Dir-vos-hei, pois,
que os canhões de cem de Dahlgreen, cujo alcance era de 2:500 toezas,
imprimiam ao projectil respectivo a velocidade inicial de 500 jardas por
segundo.

--Bem. E a Columbiada[35] Rodman, perguntou o presidente?

--A Columbiada Rodman, ensaiada no forte de Hamilton, proximo a New
York, arremessava uma bala, que tinha de peso meia tonelada, á distancia
de 6 milhas, com a velocidade de 800 jardas por segundo, resultado este
a que nunca chegaram, nem Armstrong, nem Palisser, em Inglaterra.

--Oh! os inglezes! murmurou J.-T. Maston, apontando para o horisonte
leste com o temivel gancho.

São portanto essas 800 jardas o _maximum_ de velocidade, proseguiu
Barbicane, que se tem podido obter até hoje?

--É verdade, respondeu Morgan.

--Todavia, replicou Maston, sempre devo dizer, que, se o meu morteiro
não tivera rebentado...

--Pois sim, mas rebentou, redarguiu Barbicane, acompanhando a resposta
com um gesto amigavel. Tomemos pois por ponto de partida a velocidade de
800 jardas. Ha de ser necessario vintuplica-la, e n'estes termos,
guardando para outra sessão o estudo dos meios proprios para produzir
tal velocidade, chamarei a vossa attenção, caros collegas, para as
dimensões que convem dar á bala.

Bem deveis imaginar que no caso presente não tratâmos de projectis que
pesem quando muito meia tonelada.

--E porque? perguntou o major?

--Porque a bala que estamos discutindo, respondeu promptamente J.-T.
Maston, deve ser bastantemente volumosa para solicitar a attenção dos
habitantes da Lua, se é que lá os ha.

--É verdade, redarguiu Barbicane, e tambem por outra rasão ainda mais
importante.

--E qual é ella, Barbicane ? perguntou o major.

--É que não me parece bastante mandar um projectil á Lua, e ficar só
n'isso; julgo necessario que o acompanhemos durante a viagem e até ao
momento de bater no alvo.

--O que! disseram a um tempo. O general e o major, um tanto
surprehendidos com a proposta.

--Certamente, continuou Barbicane, como quem está conscio do que diz, de
certo, e senão a nossa experiencia não produziria resultado algum.

--Mas n'esse caso, replicou o major, haveis de dar ao projectil
dimensões enormes?

--Nada. Ora tende a bondade de ouvir-me. Sabeis todos que os
instrumentos de optica têem alcançado um elevado grau de perfeição; com
certos telescopios tem-se conseguido obter augmentos de seis mil por um
e trazer assim a Lua á distancia proximamente de 40 milhas (16 leguas).
Ora a esta distancia são distinctamente visiveis os objectos que têem 60
pés de lado. E se não se tem levado mais longe o poder de augmento dos
telescopios é que a amplificação cresce na rasão inversa da clareza, e
porque a Lua, que não é senão um espelho de reflexão, não emitte luz
bastante intensa para que possa admittir amplificações que vão alem do
limite que indiquei.

--E então! que fazer? perguntou o general. Haveis de dar ao vosso
projectil 60 pés de diametro?

--Certamente que não!

--Tereis então de tornar a Lua mais luminosa?

--Justamente.

--Isso lá me parece muito! exclamou J.-T. Maston.

--É muito é verdade, mas muito simples, respondeu Barbicane. Com effeito
se eu conseguir que diminua a espessura da atmosphera que a luz da Lua
atravessa, acaso não terei tornado essa luz mais intensa!

--Evidentemente.

--Pois bem! Para obter tal resultado bastar-me-ha estabelecer um
telescopio em alguma montanha elevada. E é o que havemos de fazer.

--Basta, rendo-me, respondeu o major. Tendes uma tal maneira de
simplificar as cousas!

--E que amplificação esperaes obter por tal expediente?

--Uma amplificação de quarenta e oito mil por um, que ha de trazer-nos a
Lua a cinco milhas de distancia. N'esta hypothese bastará que qualquer
objecto tenha nove pés de lado para que seja perfeitamente visivel.

--Perfeitamente! exclamou J.-T. Maston, o nosso projectil ha de portanto
ter nove pés de diametro?

--Nem mais nem menos.

--Todavia, permittam-me que lhes diga, redarguiu o major Elphiston, que
ainda assim o projectil ha de ter um peso tal que...

--Oh! major, respondeu Barbicane, antes que discutamos o peso do
projectil consenti que vos diga que nossos paes faziam n'este genero
cousas realmente maravilhosas. Longe de mim a idéa de affirmar que a
balistica não tem progredido, mas bom é que se saiba que já na idade
media se obtinham resultados surprehendentes; ousarei até acrescentar,
mais para surprehender que os que nós hoje alcançâmos.

--Ora essa! replicou Morgan.

--Justificae o que affirmaes, exclamou com vehemencia J.-T. Maston.

--Nada mais facil, respondeu Barbicane; sobram-me os exemplos para
apoiar o que asseverei. Assim, no assedio de Constantinopla por Mahomet
II, em 1543, lançaram-se balas de pedra que pesavam mil e novecentas
libras, e que deviam ser de bonito tamanho.

--Oh! oh! disse o major, mil e novecentas libras, é já um algarismo
elevado!

--Em Malta, no tempo dos cavalleiros, um certo canhão do forte de
Sant'Elmo arremessava projectis que pesavam duas mil e quinhentas
libras.

--Parece impossivel!

--Finalmente, segundo diz um historiador francez, no reinado de Luiz XI,
havia um morteiro que lançava bombas do peso sómente de quinhentas
libras; em compensação estas bombas, partindo da Bastilha, logar onde os
loucos encarceravam os de espirito são, iam cahir em Charenton, logar
onde os de espirito são encarceravam os loucos.

--Muito bem! disse J.-T. Maston.

--E depois do que acabo de relatar, em summa, que temos visto? Os
canhões de Armstrong que arremessam balas de quinhentas libras, e as
Columbiadas Rodman projectis de meia tonelada! O que parece, portanto, é
que se os projectis ganharam em velocidade, perderam pelo menos em peso.
Se dirigirmos pois n'este sentido os nossos esforços, havemos de
conseguir, com o auxilio dos progressos da sciencia decuplicar o peso
das balas de Mahomet II e dos cavalleiros de Malta.

--Evidente, respondeu o major, mas que metal pensaes em empregar para
compor o projectil.

--Ferro fundido, nada mais, disse o general Morgan.

--Ora! ferro fundido! exclamou J.-T. Maston com profundo desdem, é cousa
bem ordinaria para fabricar uma bala destinada a ir á Lua.

--Nada de exagerações, honrado amigo, respondeu Morgan; ferro é quanto
basta.

--E então! replicou o major Elphiston; olhem que sendo o peso da bala
proporcional ao seu volume, uma bala de ferro fundido que tenha nove pés
de diametro ha de ainda ter um tal peso que mette medo!

--Assim será, se for massiça, mas não se for oca, disse Barbicane.

--Oca! então é um obuz?

--Onde podem metter-se correspondencias, replicou J.-T. Maston, e
amostras das producções terrestres!

--Sim, um obuz, respondeu Barbicane, assim é absolutamente necessario;
uma bala massiça de cento e oito pollegadas pesaria mais de duzentas mil
libras, peso evidentemente excessivo; todavia como julgo necessario
guardar as condições de estabilidade na construcção do projectil,
proponho que se lhe dê o peso de cinco mil libras.

--Qual ha de ser então a grossura das paredes? perguntou o major.

--Se nos cingirmos á proporção indicada nos regulamentos, continuou
Morgan, ao diametro de cento e oito pollegadas correspondem paredes de
dois pés de espessura, pelo menos.

--Seriam grossas de mais, respondeu Barbicane; notem bem, que se não
trata aqui de uma bala fabricada para furar couraças; basta que a bala
tenha paredes sufficientemente fortes para resistir á pressão dos gazes
da polvora.

O problema portanto é este: qual é a espessura que deve ter um obuz de
ferro fundido para que não pese mais de vinte mil libras?

O nosso habil calculador e bom amigo Maston no-lo dirá sem demora.

--Muito facilmente, replicou o honrado secretario da commissão.

E quando tal dizia ia já traçando no papel algumas formulas algebricas;
viram-se-lhe sair dos bicos da pena [Grego: p] e _x_ elevados ao
quadrado. Pareceu até que, sem lhe pôr a mão, extrahia, uma certa raiz
cubica, e disse:

«As paredes hão de ter apenas duas pollegadas de grossura.»

--E será bastante? perguntou o major, com ares de quem duvida.

--Não, respondeu o presidente Barbicane, é claro que não.

--E então! que se ha de fazer? continuou Elphiston com ares de grande
irresolução.

--Servir-se de outro metal e não do ferro fundido.

--Do cobre? disse Morgan.

--Nada, o cobre ainda é pesado demais, e tenho para vos propor cousa
melhor.

--Então que é? disse o major.

--O aluminium, respondeu Barbicane.

--Aluminium! exclamaram os tres collegas do presidente.

--Certamente amigos meus. Sabeis que um illustre chimico francez,
Henry-Sainte-Claire-Deville, conseguiu em 1854 obter o aluminium em
massa compacta. Ora este precioso metal tem a brancura da prata, a
inalterabilidade do oiro, a tenacidade do ferro, a fusibilidade do cobre
e é leve como vidro; modela-se com facilidade, está espalhado com
profusão na natureza, visto como a alumina é base da maior parte das
rochas, é tres vezes mais leve que o ferro, e parece ter sido
expressamente creado para fornecer-nos materia para o nosso projectil.

--Hurrah pelo aluminium! exclamou o secretario da commissão, sempre
extremamente ruidoso nos momentos de enthusiasmo.

--Mas, caro presidente, disse o major, não será extremamente elevado o
preço do aluminium?

--Assim era, respondeu Barbicane; nos primeiros tempos depois que foi
descoberto, custava a libra do aluminium entre duzentos e sessenta e
duzentos e oitenta dollars (approximadamente 1.500 francos[36]); depois
desceu a vinte e sete dollars (150 francos), e hoje finalmente, está a
nove dollars (48 francos e 75 centesimos).

--Mas a nove dollars por libra, replicou o major, que não cedia á
primeira, vem a dar ainda um preço enorme!

--Sem duvida, caro major, mas não inaccessivel.

--E, n'esse caso, qual ha de ser o peso do projectil? perguntou Morgan.

--O resultado dos meus calculos é o seguinte, respondeu Barbicane: uma
bala de cento e oito pollegadas de diametro e de doze pollegadas de
espessura[37], pesaria, no caso de ser de ferro fundido, sessenta e sete
mil quatrocentas e quarenta libras; sendo de aluminium fundido, o seu
peso ficará reduzido a dezanove mil duzentas e cincoenta libras.

--Muito bem! exclamou Maston, isso agora já cabe no nosso programma.

--Muito bem! Muito bem! Mas acaso ignoraes, que a dezoito dollars por
libra, esse projectil havia de custar-nos...

--Cento e setenta e tres mil duzentos e cincoenta dollars (928:437
francos e 50 centesimos), sei-o muito bem; mas não se assustem amigos,
não ha de faltar dinheiro para a realisação do nosso projecto; por isso
respondo eu.

--Ha de chover dinheiro nos nossos cofres, replicou J.-T. Maston.

--Então! que me dizem ao aluminium! perguntou o presidente.

--Está adoptado, responderam os tres membros da commissão.

--Quanto á fórma da bala, proseguiu Barbicane, pouca importancia tem,
visto como, logo que o projectil passe para alem da atmosphera, ha de
achar-se no vacuo, proponho portanto, que seja redonda, para que gire
sobre si mesmo, se o julgar conveniente, ou se porte como melhor lhe
ditar a phantasia.

Foi este o fecho da primeira sessão da commissão; ficou definitivamente
resolvida a questão do projectil, e J.-T. Maston exultou com a idéa de
mandar aos Selenitas uma Bala de aluminium «que havia dar-lhes a
entender que os habitantes cá da Terra eram uns pimpões!»



CAPITULO VIII

HISTORIA DO CANHÃO


As resoluções tomadas na primeira sessão produziram grandissimo effeito
no publico. Algum mais timorato lá se assustava com a idéa da bala que
havia de pesar vinte mil libras. Punha-se em duvida se poderia
construir-se canhão capaz de transmittir velocidade inicial bastante a
uma massa d'aquella ordem.

A acta da segunda sessão da commissão devia responder triumphantemente a
todas aquellas duvidas.

No dia seguinte ao cair da noite abancaram em volta da mesa os quatro
membros do Gun-Club defrontando com novas montanhas de sandwiches que
marginavam um verdadeiro oceano de chá. Atou-se o fio á discussão, e
d'esta vez sem preambulo.

«Caros collegas, disse Barbicane, vamos occupar-nos do machinismo que ha
a construir, estudando-lhe o comprimento, a fórma, a composição e o
peso. É provavel que havemos de concluir dando-lhe dimensões
gigantescas; mas, por maiores que sejam as difficuldades, o engenho
industrial dos americanos ha de vence-las com facilidade. Queiram
portanto ouvir-me, e não me poupem, venham objecções á queima roupa, que
as não temo!»

Estas palavras foram recebidas com um grunhido de approvação.

«Não esqueçamos, proseguiu Barbicane, a altura a que fomos levados
hontem pela discussão: apresenta-se-nos agora o problema nos seguintes
termos: imprimir a um obuz de cento e oito pollegadas de diametro, e que
pesa vinte mil libras a velocidade inicial de doze mil jardas por
segundo.

Com effeito, é exactamente esse o problema, respondeu o major Elphiston.

Prosigamos, tornou Barbicane. Que factos se passam, quando um projectil
é arremessado ao espaço? Tres forças independentes o solicitam, a
resistencia do meio, a attracção da Terra, e a força de impulsão que lhe
imprimiram. Examinemos estas tres forças. A resistencia do meio, que
aqui é a resistencia do ar, ha de ser de pouca importancia; porque a
atmosphera terrestre não tem mais de quarenta milhas (16 leguas
proximamente) de altura. Ora, com a rapidez de doze mil jardas, o
projectil ha de atravessa-la em cinco segundos, tempo bastantemente
curto para que a resistencia do meio possa ser considerada
insignificante. Passemos á attracção da Terra, ou o que vale o mesmo á
acção da gravidade sobre o obuz.

Sabemos que o peso d'este ha de decrescer na rasão inversa do quadrado
das distancias. Effectivamente ensina-nos a physica o seguinte: quando
um corpo abandonado a si proprio cáe á superfície da Terra, desce quinze
pés[38], e se o mesmo corpo fosse transportado para a distancia de
duzentos e cincoenta e sete mil quinhentas e quarenta e duas milhas, ou
o que é mesmo, á distancia a que está a Lua, o seu descenso ficaria
reduzido a meia linha, proximamente, no primeiro segundo. Quasi que é a
immobilidade. Trata-se portanto de vencer progressivamente a acção da
gravidade. E como havemos de consegui-lo? Pela força de impulsão.

--Ahi é que está a difficuldade, respondeu o major.

--Ahi está, na verdade, continuou o presidente, mas havemos de
supera-la, porque a força de impulsão de que havemos mister ha de
resultar do comprimento do machinismo e da quantidade de polvora que
empregarmos, e a verdade é que esta não tem mais limitação do que a
resistencia d'aquelle.

Tratemos pois hoje das dimensões que havemos de dar ao canhão. Bem
entendido está que podemos estabelece-lo em condições de resistencia,
por assim dizer, infinita, visto como com tal canhão não ha a fazer
manobras.

--Tudo isso é evidente, respondeu o general.

--Até agora, disse Barbicane, os canhões de maior comprimento, as nossas
enormes Columbiadas, nunca excederam o comprimento de vinte e cinco pés,
e portanto a muita gente hão de causar espanto as dimensões que havemos
de ser forçados a adoptar.

--Eh! indubitavelmente, exclamou J.-T. Maston; pela minha parte não me
contento com menos de meia milha de comprimento, para o canhão!

--Meia milha! exclamaram o major e o general.

--Meia milha sim! e talvez devesse dizer o dobro.

--Ora vamos, Maston, isso é exageração.

--Certamente que não, replicou o effervescente secretario, nem percebo,
na realidade, por que me accusaes de exagero.

--Porque ides longe de mais!

--Sabei, senhor, respondeu J.-T. Maston, assumindo os seus mais
imponentes ademanes, sabei que o artilheiro é como a bala, que nunca vae
longe de mais!

Ía a discussão tomando caracter de personalidade, mas o presidente
interveiu.

--Soceguem, amigos, e raciocinemos; evidentemente ha de ser necessario
um canhão de grande tamanho, visto como o comprimento da peça ha de
augmentar a força expulsiva dos gazes accumulados sob o projectil; mas é
inutil ir alem de certos limites.

--Muito bem, disse o major.

--Quaes são as regras applicaveis ao caso? De ordinario o comprimento do
canhão é igual a vinte até vinte e cinco vezes o diametro da bala, e
pesa o canhão duzentas e trinta e cinco a duzentos e quarenta vezes o
peso d'esta.

--Não é bastante, clamou impetuoso, J.-T. Maston.

--Convenho n'isso, meu digno amigo, e, na realidade, se nos cingirmos á
proporção apontada, para um projectil de 9 pés de largura e de 30:000
libras de peso, não terá o machinismo mais do que 225 pés de comprimento
e de 7.200:000 libras de peso.

--É ridiculo, redarguiu J.-T. Maston. Tanto vale usar de uma pistola!

--Tambem penso assim, respondeu Barbicane, e é por isso que tenho tenção
de quadruplicar esse comprimento, e de construir um canhão de 900 pés de
comprido.

O general e o major apresentaram algumas objecções, entretanto a
proposta sustentada com animação pelo secretario do Gun-Club foi a final
definitivamente adoptada.

«Decidido este ponto, disse Elphiston, que espessura havemos de dar ás
paredes?

--Seis pés, respondeu Barbicane.

--De certo que não imaginaes collocar uma massa d'essa ordem em cima de
um reparo? perguntou o major.

--Isso é que havia de ser soberbo! disse J.-T. Maston.

--Mas impraticavel, respondeu Barbicane. Nada, penso que o machinismo
deve ser moldado mesmo no solo, guarnecido de arcos de ferro forjado, e
apertado n'uma obra bem espessa e solida de pedra e cal, por forma que
adquira toda a resistencia do terreno circumdante. Depois de fundida a
peça ha de se lhe brocar, calibrar e polir a alma com extremo cuidado,
para evitar que exista o vento[39] da bala.

[Figura: Vista ideal do canhão de J.-T. Maston (pag. 70).]

Por esta fórma não ha de haver perda alguma de gazes e a força expansiva
da polvora transformar-se-ha toda em impulsão.

[Figura: O monge Schwartz inventando a polvora (pag. 77).]

--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston, já temos canhão.

--Ainda não! respondeu Barbicane, acalmando com o gesto a impaciencia do
amigo.

--E porque não?

--Porque ainda lhe não discutimos a fórma. Ha de ser canhão, obuz ou
morteiro?

--Canhão, replicou Morgan.

--Obuz, redarguiu o major.

--Morteiro, clamou J.-T. Maston.

Nova e vehemente discussão ia encetar-se; cada qual preconisava já a sua
arma favorita, quando o presidente a interrompeu de prompto, dizendo:

«Meus amigos, vou pô-los a todos de accordo; a nossa columbiada ha de
ter alguma cousa de cada uma das tres bôcas de fogo indicadas. Ha de ser
canhão, por ter a camara da polvora de diametro igual ao da alma. Obuz,
porque ha de arremessar obuzes. Finalmente será morteiro, visto como ha
de ser apontada por um angulo de 90^o, e que, sem poder recuar,
inabalavelmente ligada ao solo, communicará ao projectil toda a potencia
de impulsão que se lhe accumular no ventre.

--Adoptado, adoptado, conclamaram os membros da commissão.

--Permittam-me uma simples reflexão, disse Elphiston, ha de ser raiado
esse canh-obuz-morteiro?

--Não, respondeu Barbicane, não; precisâmos de uma enorme velocidade
inicial, e sabeis muito bem que as balas sáem menos velozes dos canhões
raiados do que dos canhões de alma lisa.

--É exacto.

--Até que emfim d'esta vez é que já temos canhão! repetiu J.-T. Maston.

--Ainda não é tanto assim, replicou o presidente.

--Então porque?

--Porque ainda não sabemos de que metal ha de ser feito.

--Decida-se isso sem demora.

--Era o que eu ia propor-vos».

Cada um dos membros da commissão foi engulindo a sua duzia de sandwiches
acompanhadas de um bule de chá, depois recomeçou a discussão.

«Meus bons collegas, disse Barbicane, o nosso canhão deve ter grande
tenacidade e grande dureza, e ser infusivel pelo calor, insoluvel e
inoxydavel pela acção corrosiva dos acidos.

--Isso não tem duvida alguma, respondeu o major, e como ha de ser
necessario empregar uma quantidade consideravel de metal, não havemos de
hesitar muito na escolha.

N'esse caso, disse Morgan, proponho para a fabricação da columbiada a
melhor das ligas que é conhecida até hoje, isto é, cem partes de cobre,
doze de estanho e seis de latão.

--Meus amigos, respondeu o presidente, confesso que esta composição tem
dado excellentes resultados; mas para o nosso caso, custaria
excessivamente cara, e difficilmente poderiamos emprega-la.

Cuido portanto que devemos adoptar uma materia excellente, e de baixo
preço, tal como o ferro fundido.

Não será esta a vossa opinião, major?

--Exactamente, respondeu Elphiston.

--Com effeito, proseguiu Barbicane, o ferro fundido, custa dez vezes
mais barato que o bronze, é de facil fusão, molda-se com simplicidade em
moldes de areia, manipula-se com rapidez; dá pois simultaneamente
economia de tempo e de dinheiro. Alem d'isto esta materia é excellente,
e bem me recordo de que, durante a guerra, no cêrco de Atlanta, algumas
peças de ferro fundido atiraram cada uma mil tiros de vinte em vinte
minutos, sem que por isso soffressem alteração.

--Todavia, o ferro fundido é muito quebradiço, respondeu Morgan.

--É verdade, mas tambem é muito resistente, e de mais asseguro-vos que
não havemos de rebentar, por isso respondo eu.

--Rebentar não é deshonra, replicou em ar de sentença J.-T. Maston.

--Está claro, respondeu Barbicane. Pedirei portanto ao nosso digno
secretario que nos calcule o peso de um canhão de ferro fundido, de
novecentos pés de comprimento e com um diametro interior de nove pés, e
com as paredes de seis pés de espessura.

--N'um instante, respondeu J.-T. Maston.

E, assim como fizera na vespera, escrevinhou umas formulas, com
facilidade de pasmar, e disse passado um minuto.

«Esse canhão ha de pesar sessenta e oito mil e quarenta toneladas
(68.040:000 kilogrammas).»

--E a dois centesimos[40] (10 centimos) por libra, ha de custar?...

--Dois milhões quinhentos e dez mil setecentos e um dollars (13.608:000
francos).»

J.-T. Maston, o major e o general olharam para Barbicane com ar de
inquietação.

«E então! Repito-lhes, senhores, o que já lhes disse hontem, estejam
descansados, que os milhões não nos hão de faltar.»

Seguros na palavra do seu presidente, separaram-se os membros da
commissão, depois de terem combinado para o dia seguinte a terceira
sessão.



CAPITULO IX

QUESTÃO DA POLVORA


Só faltava tratar da questão da polvora. Esperava o publico com
anciedade esta decisão final. Dados o volume do projectil e o
comprimento do canhão, qual seria a quantidade de polvora necessaria
para produzir a impulsão? Aquelle agente temivel, de que o homem,
todavia conseguiu dominar e dirigir os effeitos, ia ser chamado a
desempenhar o seu papel habitual, mas em proporções nunca usadas.

É geralmente acreditado, e diz-se vulgarmente, que a polvora foi
inventada no seculo XIV, pelo monge Schwartz, que pagou com a vida a
grande descoberta que fizera. Mas na actualidade quasi que se póde dar
como provado que esta historia merece ser classificada a par de muitas
outras lendas da idade media. A polvora ninguem a inventou, deriva
directamente dos fogos gregos, como ella compostos de enxofre e de
salitre. A differença é que os mixtos que em tempos remotos davam apenas
polvora de foguete transformaram-se, com o decorrer dos tempos, em
mixtos detonantes ou polvoras de tiro. Porém se os eruditos conhecem
perfeitamente a imaginaria historia da invenção da polvora, pouca gente
ha que saiba devidamente apreciar a sua potencia mechanica, que é
exactamente o que é necessario saber para comprehender a importancia do
assumpto sujeito á commissão.

Um litro de polvora pesa, proximamente, duas libras (900 grammas)[41], e
produz quando se inflamma quatrocentos litros de gazes; estes gazes, em
liberdade, e sob a acção de uma temperatura elevada até dois mil e
quatrocentos graus, occupam um espaço equivalente a quatro mil litros.

Portanto o volume da polvora em grão está para o volume dos gazes
produzidos pela sua deflagração, assim como um está para quatro mil.
Avalie-se por isto a espantosa impulsão que hão de produzir estes gazes,
quando comprimidos n'um espaço quatro mil vezes mais apertado do que o
que naturalmente haviam de occupar.

Isto tudo sabiam, e perfeitamente, os membros da commissão quando no dia
seguinte abriram a sessão. Barbicane concedeu a palavra ao major
Elphiston, que tinha sido director das fabricas de polvora no tempo da
guerra.

«Caros camaradas, disse aquelle notavel chimico, vou começar pela
citação de algarismos irrecusaveis que hão de ser a base dos nossos
calculos. A bala de vinte e quatro, de que em termos tão poeticos nos
fallou antes de hontem o honrado J.-T. Maston, é expellida da bôca de
fogo apenas por dezeseis libras de polvora.

--Estaes seguro d'esse algarismo? Perguntou Barbicane.

--Absolutamente seguro, respondeu o major. O canhão Armstrong carrega-se
só com setenta e cinco libras de polvora para um projectil de oitocentas
libras de peso, e a columbiada de Rodman não gasta mais de sessenta
libras de polvora para arremessar a seis milhas de distancia a sua bala
de meia tonelada. São factos que não podem ter contestação, porque eu
proprio tomei nota d'elles nas actas da commissão de artilheria.

--Muito bem, respondeu o general.

--Ora pois! proseguiu o major, a consequencia que devemos tirar d'estes
dados é a seguinte: que a quantidade de polvora não augmenta na
proporção do peso da bala; e, na verdade, são necessarias dezeseis
libras de polvora para uma bala de vinte e quatro; por outras palavras,
gastam-se nos canhões ordinarios quantidades de polvora que pesam um
terço do peso da bala, mas a proporcionalidade não é constante. Se
fizessemos o calculo, haviamos de reconhecer que para a bala de meia
tonelada, o peso da polvora necessaria, que se reduz a sessenta libras
apenas, seria, segundo a proporção, de trezentas e trinta e tres libras.

--E a que conclusão quereis por ahi chegar? Perguntou o presidente.

Levando essa theoria até aos seus ultimos limites, meu caro major, disse
J.-T. Maston, haveis de chegar á seguinte conclusão final: que, se póde
dispensar a polvora, toda a vez que a bala exceda um certo peso.

--O nosso Maston é sempre faceto, mesmo quando se trata de cousas
serias, mas esteja descansado que lhe hei de propor quantidades de
polvora, capazes de lisonjear o seu amor proprio de artilheiro. O que eu
pretendo que fique claramente estabelecido, é que, no tempo da guerra, o
peso da polvora foi, por experiencia, reduzido para os maiores canhões á
decima parte do peso da bala.

--Nada ha mais verdadeiro, disse Morgan. Lembro entretanto, que será
conveniente que accordemos ácerca da natureza da polvora, antes de
decidir qual é a quantidade d'ella necessaria para a impulsão calculada.

--Havemos de usar da polvora bombardeira, respondeu o major, porque a
combustão total d'esta é mais rapida que a da polvora miuda.

--É verdade, replicou Morgan, mas é muito quebradiça, e no fim de tempos
vem a deteriorar a alma das peças.

--Ora! isso poderia ser um inconveniente para qualquer canhão destinado
a fazer longos serviços, mas para a nossa columbiada não. Perigo de
explosão não temos nós que temer, o que é essencial é que a polvora se
inflamme instantaneamente, para que o seu effeito mechanico seja
completo.

--Talvez se podesse abrir na peça mais de um ouvido, disse J.-T. Maston,
e assim dar fogo em muitos pontos simultaneamente.

--Pois sim, respondeu Elphiston, mas isso iria difficultar a manobra.
Insisto portanto na minha bombardeira, que evita essas difficuldades.

--Vá, respondeu o general.

[Figura: O capitão Nicholl (pag. 78).]

--Rodman, proseguiu o major, usava para carregar a sua columbiada de uma
polvora, cujos grãos eram do tamanho de uma castanha, e fabricada com
carvão de salgueiro mal torrado em caldeiras de ferro fundido. Esta
polvora era dura e luzidia, e incendiando-se na mão não deixava
vestigios; continha hydrogenio e oxygenio em grandes proporções, ardia
instantaneamente, e, apesar de ser muito quebradiça, não deteriorava
sensivelmente as bôcas de fogo.

[Figura: Nicholl publicou grande numero do cartas (pag. 91).]

--Em vista d'isso, respondeu J.-T. Maston, parece-me que não ha que
hesitar, e que a escolha está de per si feita.

--A não ser que deis preferencia ao oiro _pulverisado_, replicou rindo,
o major, riso que o susceptivel secretario pagou com um gesto ameaçador
do seu gancho.

Barbicane conservára-se até aquelle momento estranho á discussão.
Deixava fallar e ouvia. Era evidente que tinha o juizo formado ácerca do
assumpto. Por isso limitou-se a dizer o seguinte:

«Em conclusão, meus amigos, que quantidade de polvora, reputaes
necessaria?»

Entre-olharam-se por um momento os tres socios do Gun-Club.

«Duzentas mil libras, disse por fim Morgan.

--Quinhentas mil, replicou o major.

--Oitocentas mil!» exclamou J.-T. Maston.

D'esta vez não se atreveu Elphiston a alcunhar o collega de exagerado. E
com rasão, que se tratava de arremessar á Lua um projectil de vinte mil
libras de peso, e de communicar a este uma força inicial de doze mil
jardas por segundo. Seguiu-se portanto um momento de silencio á triplice
proposta feita pelos tres collegas.

Quebrou-o finalmente o presidente Barbicane.

«Estimaveis camaradas, disse este com voz placida, parto eu do
principio, que a resistencia do nosso canhão, construido nas condições
requeridas, é illimitada. Portanto vou causar surpreza ao honrado J.-T.
Maston, affirmando-lhe que ainda foi timido nos seus calculos, e
proponho que sejam duplicadas as oitocentas mil libras de polvora em que
fallou.

--Um milhão e seiscentas mil libras? disse J.-T. Maston, dando um salto
na cadeira.

--Nada menos.

--Mas, n'esse caso, voltâmos ao meu canhão de meia milha de comprimento.

--É claro, disse o major.

--Um milhão e seiscentas mil libras de polvora, continuou o secretario
da commissão, hão de occupar um espaço igual a vinte e dois mil pés
cubicos[42] approximadamente; e como o canhão em que accordastes tem um
volume interno apenas igual a cincoenta e quatro mil pés cubicos[43], ha
de ficar cheio até quasi ao meio, sendo por esta forma a alma pequena,
para que a força expulsiva dos gazes imprima ao projectil impulsão
bastante.

Isto não tinha replica. O que J.-T. Maston dizia era a pura verdade.
Voltaram-se todos para Barbicane.

«Apesar de tudo, tornou o presidente, insisto na quantidade de polvora
que indiquei. Reflecti que um milhão e seiscentas mil libras de polvora
hão de transformar-se em seis milhares de milhões de litros de gazes.
Ouviram bem? Seis milhares de milhões!

--Mas então o que se ha de fazer? perguntou o general.

--É muito facil; havemos de reduzir o volume d'esta enorme quantidade de
polvora, sem lhe diminuir por fórma alguma a potencia mechanica.

--Bem! Mas por que meio?

--É o que vou dizer-vos, respondeu sem nenhum entono Barbicane.

Os interlocutores devoravam-n'o com o olhar.

«Com effeito, continuou elle, nada é mais facil do que reduzir essa
massa de polvora a um volume quatro vezes menor. Todos tendes
conhecimento d'essa curiosa substancia que constitue os tecidos
elementares dos vegetaes e que se chama cellulose.

--Ah! interrompeu o major. Começo a comprehender, meu caro Barbicane.

--Essa substancia, disse o presidente, extrahe-se no estado de perfeita
pureza de diversos corpos, e principalmente do algodão, que não é senão
a penugem das sementes do algodoeiro. Ora o algodão, combinado a frio
com o acido azotico, transforma-se em uma substancia eminentemente
insoluvel, eminentemente combustivel e eminentemente explosiva.
Descobriu esta substancia ha já annos, em 1832, o chimico francez
Braconnot, e poz-lhe o nome de xyloidina. Em 1838 outro francez,
Pelouze, estudou-lhe as differentes propriedades; e finalmente em 1846,
Shonbein, professor de chimica em Bâle, propo-la para polvora de guerra.
Esta polvora é o algodão azotico.

--Ou pyroxylo, respondeu Elphiston.

--Ou algodão-polvora, respondeu Morgan.

--Pois não haverá um nome de americano que se possa escrever ao lado
d'essa descoberta? exclamou J.-T. Maston, movido por vivo sentimento de
amor proprio nacional.

--Infelizmente nem um só, respondeu o major.

--Apesar d'isso, continuou o presidente, por dar prazer a Maston, sempre
lhe direi que póde estabelecer-se proxima relação entre os trabalhos de
um nosso concidadão e o estudo da cellulose; porque o collodion, que é
um dos agentes principaes da photographia, não é senão pyroxylo
dissolvido em ether misturado com alcool, e o collodion foi descoberto
por Maynard, que era então estudante de medicina em Boston[44].

--Pois então, hurrah! por Maynard e pelo algodão-polvora! exclamou o
ruidoso secretario do Gun-Club.

--Voltemos ao pyroxylo, proseguiu Barbicane. Conheceis-lhe já as
propriedades que no-lo vão tornar precioso: prepara-se com extrema
facilidade: é mergulhar algodão no acido azotico fumegante durante
quinze minutos, lava-lo depois em grande quantidade de agua, secca-lo e
nada mais.

--É na realidade extremamente simples, disse Morgan.

--Alem d'isto o pyroxylo é inalteravel pela humidade, qualidade que
devemos reputar preciosa, visto como hão de ser necessarios muitos dias
para carregar o nosso canhão; é inflammavel a cento e setenta graus
centigrados, em vez de duzentos e quarenta, e arde tão subitamente, que
póde ser queimado em cima de polvora vulgar, sem que esta tenha tempo de
inflammar-se.

--Perfeitamente, respondeu o major.

--Tem só um inconveniente: é caro.

--Isso que importa? interrompeu J.-T. Maston.

--Em conclusão; communica aos projectis velocidade quatro vezes maior
que a da polvora. Acrescentarei ainda que, misturado com oito decimos do
seu peso de nitrato de potassa, lhe augmenta a potencia explosiva em
proporção notavel.

--E será necessario faze-lo? perguntou o major.

--Creio que não, respondeu Barbicane. Em conclusão, em vez de um milhão
e seiscentas mil libras de polvora, teremos apenas quatrocentas mil
libras de algodão-polvora, e como se podem comprimir sem perigo, em
vinte e sete pés cubicos, quinhentas libras de algodão azotico, esta
substancia vem a encher a nossa columbiada sómente até á altura de
trinta toezas. Por esta maneira terá a bala a percorrer mais de
setecentos pés de alma do canhão, sob a acção do esforço de seis
milhares de milhões de litros de gazes antes de voar em liberdade para o
astro das noites.»

Ao ouvir o final d'este periodo não pôde, de commovido, conter-se J.-T.
Maston; lançou-se nos braços do amigo com vehemencia de projectil;
mettia-lhe as costellas dentro, se a solida construcção de Barbicane não
estivera á prova de bomba.

Terminou com este incidente a terceira sessão da commissão. Barbicane e
os seus audazes collegas, a quem nada parecia impossivel, tinham acabado
de resolver o problema tão complexo do projectil, do canhão e das
polvoras. Elaborado o plano, restava a execução.

«Insignificantes pormenores, bagatella», lhe chamava J.-T. Maston.



CAPITULO X

UM INIMIGO POR VINTE E CINCO MILHÕES DE AMIGOS


O publico americano encontrava poderosos incentivos de curiosidade até
nos mais insignificantes pormenores do emprehendimento do Gun-Club, e
seguia passo a passo as discussões da commissão.

Os preparativos mais simples para aquella grande experiencia, as
questões de algarismos que d'ella nasciam, as difficuldades mechanicas
que havia a resolver, n'uma palavra a sua _mise en train_ eram o que
preoccupava em grau elevadissimo a opinião.

Mais de um anno havia de decorrer ainda entre o começo e o termo final
dos trabalhos preparatorios; mas este intervallo de tempo não havia de
ser esteril em emoções; a escolha de logares para a perfuração, a
construcção do molde, a fundição da columbiada e o perigosissimo
carregamento d'ella, tudo era mais que sufficiente para excitar a
curiosidade publica.

O projectil, apenas expellido, havia de escapar em poucos decimos de
segundo ao alcance da vista; depois para poucos privilegiados era verem
com os proprios olhos o que lhe havia de succeder, como se haveria
através do espaço, e por que fórma havia de alcançar a Lua. Por este
motivo é que os preparativos para a experiencia e os exactos pormenores
da execução eram, para a maioria, a parte verdadeiramente interessante
d'ella.

E todavia o attractivo puramente scientifico do emprehendimento recebeu
de um subito incidente novo incitamento.

Já dissemos de quão numerosas legiões de admiradores e amigos tinha o
projecto Barbicane trazido a adhesão ao seu auctor, e comtudo por mais
honrosa e extraordinaria que fosse, aquella maioria não tinha de ter
unanimidade. Um só homem, um só em todos os Estados da União, lavrou
protesto contra a tentativa do Gun-Club, que atacou com violencia sempre
que se lhe proporcionou para isso occasião; e, tal é a natureza humana,
que para Barbicane valeu mais aquella opposição de um só do que os
applausos de todos os outros.

Apesar de que Barbicane bem conhecia quaes os motivos de tal antipathia,
e d'onde vinha aquella solitaria inimizade, que era pessoal e de antiga
data, e finalmente em que rivalidades de amor proprio creára raizes.

Aquelle perseverante inimigo, nunca o presidente do Gun-Club o tinha
visto. E felizmente, porque o encontro d'aquelles dois homens havia por
certo de trazer consequencias funestas.

Aquelle rival era, como Barbicane, um homem de sciencia, natureza
altiva, audaz, convicta e violenta, um yankee puro. Chamavam-lhe o
capitão Nicholl, e habitava em Philadelphia.

Ninguem desconhece a curiosa luta que durante a guerra federal se travou
entre o projectil e a couraça dos navios blindados; aquelle tinha por
fito especial varar esta; esta obstinava-se decididamente a não se
deixar varar.

D'este facto proveio uma transformação de raiz na marinha dos
differentes estados dos dois continentes.

Bala e couraça lutaram com obstinação nunca vista; crescia o volume de
uma, augmentava logo a espessura da outra, e em constante proporção.

Os navios marchavam para o fogo armados de peças formidaveis e abrigados
por invulneravel concha. Os _Merrimac_, os _Monitor_, os _Ram-Tenesse_,
os _Weckausen_[45] arremessavam enormes projectis, depois de
encouraçados contra os projectis alheios. Faziam a outrem o que não
queriam que lhes fizessem, que é o principio immoral sobre que assenta
toda a arte da guerra.

Ora se Barbicane fôra notavel fundidor de projectis, Nicholl não lhe
ficára a dever nada como forjador de chapas para couraças. Fundia um de
noite e de dia em Baltimore, forjava o outro de dia e de noite em
Philadelphia. Cada um d'elles seguia ordem de idéas diametralmente
oppostas.

Barbicane a inventar nova bala, e Nicholl a inventar nova couraça.
Passava o presidente do Gun-Club a vida a abrir buracos, e o capitão
gastava os dias da existência a impedir-lh'o. D'aqui nasceu uma
rivalidade de todos os instantes, que dos factos foi passando ás
pessoas. Apparecia Nicholl a Barbicane em sonhos sob fórma de
impenetravel couraça de encontro á qual se ia fazer pedaços, Barbicane
apparecia nas visões nocturnas de Nicholl qual projectil que o varava de
lado a lado.

E comtudo, apesar de caminharem por linhas divergentes, estes homens
tinham de encontrar-se um dia, apesar de todos os axiomas da sciencia
geometrica; mas havia de ser no terreno do duello. Muito felizmente para
cidadãos tão uteis ao seu paiz, separavam-nos boas cincoenta ou sessenta
milhas, e os amigos de ambos semearam-lhe o caminho de taes e tantos
obstaculos, que nunca conseguiram encontrar-se.

Lá qual dos dois inventores levava a palma ao outro, é que ninguem sabia
ao certo: os resultados obtidos tornavam difficil apreciar com justiça.
No fim de contas, o que mais plausivel parecia, é que a couraça havia de
ser a primeira a ceder á bala, e todavia para os competentes ainda era
caso de duvida. Por occasião das ultimas experiencias feitas, os
projectis cylindro-conicos de Barbicane tinham ido espetar-se como
alfinetes nas couraças de Nicholl; n'esse dia reputou-se o forjador de
chapas de couraça de Philadelphia plenamente victorioso, e o mais
profundo desprezo pareceu-lhe ainda sentimento demasiadamente elevado
para pagar os merecimentos do seu rival; mas quando este, algum tempo
depois, substituiu por simples obuzes de seiscentas libras as balas
conicas, teve o capitão que descer do alto pedestal das suas pretensões.
E na realidade estes projectis, aindaque animados de mediocre
velocidade[46], esmigalharam, esburacaram, fizeram voar em pedaços as
chapas de melhor metal.

Tinham as cousas chegado a estes pontos, e a todos parecia que a bala
devia ficar com a palma da victoria, quando terminou a guerra no mesmo
dia em que Nicholl dava a ultima demão a uma nova couraça de aço
forjado! No seu genero, era esta verdadeira obra prima, e capaz de
desafiar todos os projectis imaginaveis. Fê-la o capitão transportar
para o polygono de Washington, e mandou cartel ao presidente do
Gun-Club, desafiando-o a vará-la.

Barbicane, como a paz já estava feita, não quiz tentar a experiencia.
Nicholl, então, furioso, offereceu expor a chapa que inventara ao choque
das balas mais inverosimeis, massiças, ôcas, esphericas ou conicas.
Recusa do presidente, que decididamente não queria arriscar os louros da
ultima victoria que alcançára.

Nicholl, ainda mais estimulado por aquella inqualificavel obstinação,
quiz tentar Barbicane dando-lhe de partido todas as probabilidades
favoraveis, e propoz-lhe collocar a chapa a duzentas jardas de distancia
do canhão. E Barbicane a teimar na recusa. A cem jardas? Nem a setenta e
cinco.

«Pois então a cincoenta, clamou o capitão pela voz dos jornaes, ou a
vinte e cinco jardas, e ponho-me eu por detrás da minha couraça!»

Barbicane mandou responder que não atiraria, nem que o capitão Nicholl
se pozesse diante em vez de se pôr de trás.

Ao ler esta ultima replica não pôde Nicholl conter-se mais, e arrastou a
discussão para o campo das personalidades, insinuando que a cobardia era
cousa indivisivel, e que o homem que se recusa a disparar um tiro de
canhão não está muito longe de ter-lhe medo, que em summa esses
artilheiros que nos tempos de agora se batem a seis milhas de distancia
substituiam prudentemente a coragem individual por formulas de
mathematicas, e que no fim de contas tanta coragem havia em esperar
placidamente uma bala detrás de uma couraça; como em arremessa-la com
todas as regras da arte.

Nem palavra respondeu Barbicane a taes insinuações; talvez mesmo nem
d'ellas tivesse conhecimento, que lhe absorviam por então todas as
forças do espirito os calculos previos do seu grande projecto.

Quando Barbicane realisou a famosa communicação ao Gun-Club, é que a
raiva do capitão Nicholl chegou ao paroxysmo. Referviam-lhe com ella
n'alma um ciume immenso e um sentimento de impotencia absoluta! Que
havia de inventar que fosse superior áquella columbiada de novecentos
pés! Qual havia de ser a couraça capaz de resistir a um projectil de
trinta mil libras!

Nos primeiros momentos ficou Nicholl aterrado, aniquilado, esmigalhado
por aquelle «tiro de canhão»; mas depois levantou-se, e resolveu esmagar
a proposta debaixo do peso da sua argumentação.

Combateu por consequencia com grande violencia os trabalhos do Gun-Club;
publicou grande numero de cartas, de que os jornaes não recusaram a
reproducção. Tentou demolir scientificamente a obra de Barbicane, e uma
vez iniciada a guerra, serviu-se de toda a casta de argumentos, que,
força é dize-lo, foram as mais das vezes especiosos e de baixo quilate.

O ataque a Barbicane começou, e com summa violencia, pelas questões de
algarismos; Nicholl tentou demonstrar por A+B que eram falsas as
formulas de que se servia o presidente, e accusou-o de ignorar os
principios rudimentares da balistica. Entre outros erros de que lhe
fazia cargo, apontava-lhe a impossibilidade, demonstrada, segundo os
calculos d'elle Nicholl, de imprimir a um corpo qualquer a velocidade de
doze mil jardas por segundo; sustentou com a algebra em punho, que ainda
mesmo animado d'essa velocidade, nunca projectil de peso tal havia de ir
alem dos limites da atmosphera terrestre! Nem sequer oito leguas havia
de percorrer! Ainda mais. Dado, mas não concedido que se podesse
conseguir tal velocidade, e ainda reputada esta sufficiente, nem o obuz
poderia resistir á pressão dos gazes, que se haviam de desenvolver pela
inflammação de um milhão e seiscentas mil libras de polvora, nem que
resistisse a essa pressão poderia supportar temperatura de tal ordem.
Havia sim de derreter-se ao sair da columbiada, e cair em chuva de fogo
por sobre os craneos dos imprudentes espectadores. Barbicane nem deu
mostras de perceber o ataque, e proseguiu na obra encetada.

[Figura: Foi necessario pôr sentinellas á vista aos deputados (pag.
103).]

Nicholl então discutiu o assumpto por outra ordem de considerações; não
fallando já na provada inutilidade da experiencia sob todos os
respeitos, considerou-a como extremamente perigosa, quer para os
cidadãos que viessem auctorisar com a sua presença tão condemnavel
espectaculo, quer para as cidades que ficassem proximas do deploravel
canhão; fez tambem notar que se o projectil não alcançasse o alvo, o
contrario do que era aliás absolutamente impossivel, evidentemente havia
de cair na Terra, e que a quéda de uma massa d'aquella ordem,
multiplicada pelo quadrado da respectiva velocidade, viria a pôr em
grave risco um qualquer ponto do globo: em conclusão que, em
circumstancias taes, casos havia em que, sem atacar nem de leve os
direitos dos cidadãos livres, se tornava necessaria a intervenção do
governo, poisque se não devia pôr em risco a segurança de todos por dar
satisfação aos caprichos de um só.

[Figura: Abriram-se as subscripções (pag. 108).]

Do que deixâmos dito se deprehende qual o grau de exageração a que se
deixára arrastar o capitão Nicholl. Da opinião que professava era o
capitão sectario unico, e por conseguinte ninguem lhe ligou importancia
ás agourentas prophecias. Deixaram-no gritar á vontade, e que seccasse
os bofes, já que o levava em gosto.

Fizera-se o capitão defensor de uma causa de antemão perdida: ouviam-no,
mas ninguem o escutava, e nem um só admirador pôde arrancar ao
presidente do Gun-Club. Este nem se deu ao trabalho de refutar os
argumentos do adversario.

Nicholl, mettido n'este beco sem saída, e sem poder ao menos arriscar o
corpo em prol da causa que defendia, resolveu arriscar ao menos o
dinheiro. Em consequencia propoz publicamente no _Enquirer_ de Richmond
uma serie de apostas em proporção ascendente, cujo quadro é o seguinte:

Apostava o capitão:


     1.^o Que não chegariam a realisar-se fundos sufficientes para levar
     a effeito o emprehendimento do Gun-Club      1:000 dollars

     2.^o Que a operação de fundir um canhão de novecentos pés de
     comprimento era impraticavel e não podia ter bom exito      2:000
     dollars

     3.^o Que havia de ser impossivel carregar a columbiada, e que o
     pyroxylo se havia de inflammar por si proprio só pela pressão do
     projectil 3:000 dollars

     4.^o Que a columbiada havia de rebentar ao primeiro tiro      4:000
     dollars

     5.^o Que a bala não havia de percorrer nem seis milhas de
     trajectoria, e tornaria a cair na Terra alguns segundos depois de
     disparado o tiro      5:000 dollars


Por aqui se vê que importante somma arriscava o capitão, só por
sustentar a sua invencivel teimosia. Eram nada menos de quinze mil
dollars[47].

Apesar da importancia da aposta, recebeu o capitão no dia 19 de maio um
bilhete lacrado, concebido nos termos de soberbo laconismo que se
seguem:

«Baltimore, 18 de outubro.--Acceito.--_Barbicane_.»



CAPITULO XI

A FLÓRIDA E O TEXAS


Entretanto estava ainda uma questão por decidir; faltava escolher logar
propicio para fazer a experiencia. Segundo as recommendações do
observatorio de Cambridge, devia o tiro ser dirigido perpendicularmente
ao plano do horisonte, isto é, para o zenith; e visto como a Lua não
chega ao zenith senão dos logares terrestres situados entre 0^o e 28^o
de latitude, ou, por outras palavras, como a declinação lunar maxima é
apenas de 28^o[48], estava o problema reduzido a determinar exactamente
o ponto do globo onde deveria ser fundida a immensa columbiada.

No dia 20 de outubro estava reunido o Gun-Club em sessão magna, e
Barbicane levára comsigo um magnifico mappa dos Estados Unidos, de Z.
Belltropp. Porém J.-T. Maston, sem lhe dar tempo nem para o desenrolar,
pediu a palavra com a sua vehemencia habitual, e encetou o debate nos
seguintes termos:

«Honrados collegas, o assumpto que vae hoje aqui ser discutido tem uma
importancia verdadeiramente nacional, e vae offerecer-nos occasião de
praticarmos um grande acto de patriotismo.»

Os socios do Gun-Club olharam uns para os outros, sem que ninguem
lograsse attingir o ponto de mira do orador.

«Nenhum de vós, proseguiu este, pensa sequer em transigir em cousa que
diga respeito á gloria do seu paiz, e se algum direito ha que a União
possa com justiça reivindicar, é por certo o de conter em seus flancos o
formidavel canhão do Gun-Club. Ora, nas circumstancias actuaes...

--Caro Maston, interrompeu o presidente.

«Permitti-me que desenvolva o meu pensamento, proseguiu o orador. Nas
circumstancias actuaes somos forçados a escolher um logar terrestre
sufficientemente proximo do equador, para que a experiencia seja feita
em boas condições...

--Se me daes licença, tornou Barbicane.

--Peço livre discussão das idéas de cada um, replicou o effervescente
J.-T. Maston, e sustento que o territorio d'onde ha de partir o nosso
glorioso projectil deve ser parte integrante da União americana.

--Isso não tem a menor duvida! responderam alguns socios.

--Pois bem! Já que nossas fronteiras não são bastantemente amplas, já
que pela parte do sul o Oceano nos oppõe insuperavel obstaculo, já que
nos é forçoso ir alem dos Estados Unidos e a um paiz limitrophe buscar
esse vigesimo oitavo parallelo, considero o facto como um legitimo
_casus belli_, e proponho que se declare guerra ao Mexico!

--Nada! isso não! exclamaram de todos os lados.

--Não! replicou J.-T. Maston. É essa uma palavra que pasmo de ouvir
n'este recinto!

--Mas attendei!...

--Nunca! Não tenho que attender! exclamou o fogoso orador. Mais tarde ou
mais cedo ha de vir a realisar-se essa guerra, e o que vos proponho é
que rebente hoje mesmo.

--Maston, disse Barbicane, forçando a attenção do orador pela ruidosa
detonação da campainha presidencial, retiro-vos a palavra!

Maston ainda queria replicar, mas alguns dos collegas conseguiram
conte-lo.

«Concordo, disse Barbicane, em que a experiencia não póde nem deve ser
tentada senão em terras da União; mas se o meu impaciente amigo me
tivera deixado fallar, se tivera sequer volvido os olhos para um mappa,
saberia que é perfeitamente inutil declarar guerra aos vizinhos, visto
como algumas das fronteiras dos Estados Unidos se estendem alem do
parallelo vigesimo oitavo. Senão vejam: temos ao nosso dispor toda a
parte meridional do Texas e das Floridas.»

Terminou por aqui o incidente; mas não foi sem custo que J.-T. Maston se
deixou convencer. Decidiu-se, em consequencia, que a columbiada havia de
ser fundida e moldada no solo do Texas ou no da Florida. Porém esta
resolução estava destinada para fazer nascer uma rivalidade sem exemplo
entre as cidades d'estes dois estados.

O vigesimo oitavo parallelo corta a costa americana pela peninsula da
Florida, que divide em duas partes approximadamente iguaes, lança-se
depois no golpho do Mexico, e subtende o arco formado pelas costas do
Alabama, do Mississipi e da Luiziania. Passa d'ahi ao Texas, do qual
corta uma saliencia, e prolonga-se através do Mexico, transpõe a Sonora,
salta por cima da velha California e vae perder-se nos mares do
Pacifico. Não havia pois senão as porções da Florida e do Texas,
situadas ao sul d'esse parallelo, que estivessem nas condições de
latitude recommendadas pelo observatorio de Cambridge.

Na parte meridional da Florida não se encontram cidades de importancia,
e só por ali pullulam fortalezas levantadas para servir de defeza contra
os indios nomadas. Só uma cidade, Tampa-Town, podia reclamar em favor da
sua situação na lide e apresentar-se com alguns direitos a ser
attendida.

Pelo contrario, no Texas são mais numerosas e mais importantes as
cidades. Corpus-Christi no _condado_ de Nucces, e todas as cidades
situadas no Rio Bravo, taes como Laredo, Comalites e Santo Ignacio; no
Web, taes como Roma e Rio Grande City; no Stow, taes como Edimburgo; no
Hidalgo, Santa Rita, El Panda e Brownsville e as do Caméron formaram uma
liga imponente contra as pretensões da Florida.

Assim, logo que se tornou publica a resolução chegaram a Baltimore pela
via mais rapida os deputados floridenses e texianos, e a partir d'esse
momento o presidente Barbicane e os socios de influencia do Gun-Club
viram-se cercados dia e noite de reclamações formidaveis.

Na Grecia foram sete as cidades que disputaram a honra de terem sido
berço de Homero; aqui dois Estados inteiros estiveram quasi a chegar ás
do cabo por causa de um canhão.

Viram-se então aquelles «ferozes irmãos» passeiar armados pelas ruas da
cidade. E sempre que se encontravam era de temer conflicto, que poderia
ter serias consequencias.

Mas emfim lá estavam a habilidade e a prudencia do presidente Barbicane
para conjurar o perigo. Ás demonstrações pessoaes serviu de derivativo a
publicidade dos jornaes dos differentes Estados. Foram sustentaculos da
causa do Texas o _New York Herald_ e a _Tribuna_, ao passo que o _Times_
e a _American Review_ tomaram decididamente as partes pelos deputados
floridenses.

Os socios do Gun-Club é que não sabiam a quem haviam de dar ouvidos.

Apresentava-se altivo o Texas com seus vinte e seis condados, dispostos
a modo de bateria; respondia-lhe a Florida, que para territorio seis
vezes menor valem doze condados mais do que vinte e seis.

O Texas impava com os seus trezentos e trinta mil indigenas; mas a
Florida, que tem menor superficie, jactava-se de poder reputar-se mais
povoada com os seus cincoenta e seis mil; e não ficava por aqui: chegava
a accusar o Texas de possuir certa especialidade de febres paludosas,
que uns annos por outros lhe vinham a custar alguns milhares de
habitantes, e o caso é que não mentia.

O Texas, pela sua parte replicava: que a respeito de febres, nada tinha
a Florida que lhe invejar, e que era, pelo menos, imprudente quem
chamava aos outros paizes insalubres, tendo a honra de ter em casa o
_vomito negro_ no estado chronico. E o caso é que o Texas tambem fallava
verdade.

«Demais a mais, accrescentavam os texianos pela via do _New-York
Herald_, de alguma consideração é credor o estado onde nasce o melhor
algodão de toda a America, o estado que produz a melhor madeira de
carvalho para construcção de navios, o estado que tem nas entranhas dos
seus terrenos soberba _hulha_, e minas taes, que o seu producto em ferro
é de cincoenta por cento do minerio puro.»

A isto replicava o _American Review_, que o solo da Florida, sem ter
aliás tantas riquezas, offerecia todavia melhores condições para moldar
e fundir a columbiada, visto como era composto de areias e terras
argillosas.

Porém, tornavam os do Texas, antes de fundir seja lá o que for n'um paiz
qualquer, é preciso lá ir; e as communicações com a Florida são
difficeis, entretanto que a costa do Texas tem a bahia de Galveston, que
mede quatorze leguas em seu contorno, e que era capaz de alojar a um
tempo todas as esquadras do mundo.

Pois muito bem! É essa então a via de communicação que apresentaes; a
bahia de Galveston, que está situada ao norte do vigesimo nono
parallelo?

E nós não temos a bahia do Espirito Santo, que se abre precisamente no
vigesimo oitavo grau de latitude, e pela qual os navios vão directamente
até Tampa-Town?

--Bonita bahia! respondia o Texas; meia entupida pelas areias!

--Entupidos estarão elles! exclamava a Florida. Cuidam que tratam com
algum paiz de selvagens?

--Verdade é, que os seminolas ainda fazem correrias nas planicies da
Florida!

--E então! e os apaches, e os comanches, é gente civilisada!»

Proseguia este dize tu direi eu havia já dias, quando os da Florida
tentaram arrastar os adversarios para outro terreno. Uma bella manhã o
_Times_ insinuou surrateiramente, que como o emprehendimento era
«essencialmente americano», não podia ser tentado senão em territorio
«essencialmente americano!»

--Estas palavras fizeram ir aos ares os do Texas: «Americanos! e não o
seremos nós com tanto direito como vós outros? Pois o Texas e a Florida
não foram ambos encorporados na União em 1845?

--Ninguem o contesta, respondeu o _Times_, mas nós cá sempre pertencemos
ao numero dos americanos desde 1820.

--Bem sabemos, replicou a _Tribuna_; foram hespanhoes ou inglezes por
alguns duzentos annos, e depois foram vendidos aos Estados Unidos por
cinco milhões de dollars!

--E isso que importa! replicaram os da Florida, é acaso motivo que nos
faça córar? E a Luiziania não foi comprada a Napoleão em 1803, por
dezeseis milhões de dollars!?[49]

É mesmo uma vergonha! clamaram os deputados de Texas. Atrever-se um
miseravel bocado de terra tal como a Florida a querer comparar-se com o
Texas, que em vez de se vender conquistou por seus proprios esforços a
independencia, que expulsou os mexicanos em 2 de março de 1836, que se
declarou republica federativa depois da victoria alcançada por Samuel
Houston nas margens do San-Jacinto sobre as tropas de Sant'Anna!
Finalmente, com um paiz que se uniu voluntariamente aos Estados Unidos
da America!

--É porque tinha medo dos mexicanos!» respondeu a Florida.

Medo! desde o dia em que escapou tal palavra, na realidade um tanto
violenta, a _posição tornou-se_ intoleravel. Era crença geral que
haveria carnificina dos dois partidos nas ruas de Baltimore. Julgou-se
necessario mandar guardar os deputados com sentinellas á vista.

O presidente Barbicane é que não sabia para onde se havia de virar.
Choviam-lhe em casa notas, documentos, cartas prenhes de ameaças. Que
solução havia de adoptar? Em relação ao apropriado do solo, á facilidade
de communicações, da rapidez dos transportes, não havia differença nos
direitos dos dois estados. Ás personalidades politicas não havia que
attender em assumpto tal.

Durava esta hesitação, esta perplexidade ha muito, quando Barbicane
tomou a resolução de cortar de vez o nó; fez por conseguinte reunir os
collegas e propoz-lhes uma solução profundamente sensata, como vae
ver-se.

«Reflectindo seriamente, lhes disse, no que acaba de passar-se entre a
Florida e o Texas, é claro que hão de reproduzir-se as mesmas
difficuldades entre as cidades do estado que favorecermos. A rivalidade
ha de descer do genero á especie, do estado á cidade, e nós ficaremos na
mesma. Ora o Texas possue onze cidades nas condições requeridas, que hão
de disputar entre si a honra do emprehendimento, e se escolhermos alguma
d'ellas, vamos forjar por nossas proprias mãos novos dissabores,
entretanto que a Florida só tem uma. Seja pois a Florida o estado, e
Tampa-Town a cidade escolhida!»

Esta decisão, logoque se deu a publico, foi o ultimo golpe nos deputados
do Texas, dos quaes se apossou _indescriptivel furia_, chegando a
dirigir provocações pessoaes aos socios do Gun-Club. Não tiveram mais
remedio os magistrados de Baltimore, e foi d'elle que usaram, do que
fazer apromptar um comboio especial, onde por vontade ou por força
obrigaram a embarcar os do Texas, que largaram assim da cidade com a
rapidez de trinta milhas por hora.

Porém, apesar da velocidade, com que íam levados, ainda lhes sobrou
tempo para arremessarem aos adversarios um ultimo e ameaçador sarcasmo.

Alludindo á pequena largura da Florida, estreita peninsula apertada
entre dois mares, affirmaram que não havia de resistir ao abalo do tiro,
e que havia de despedaçar-se com a força d'elle.

«Pois deixa-la despedaçar!» responderam os da Florida com laconismo
digno dos tempos antigos.



CAPITULO XII

URBI ET ORBI


Vencidas as difficuldades astronomicas, mechanicas e topographicas,
vinha naturalmente a pêllo a questão de dinheiro. A realisação do
projecto exigia uma despeza enorme. Não havia particular nem mesmo
estado que podesse dispor só por si de tantos milhões quantos eram
necessarios.

Tomou portanto o presidente Barbicane a resolução de fazer do
emprehendimento, ainda que americano, um negocio de interesse universal,
e de pedir a todos os povos a sua cooperação financeira. Era a um tempo
dever e direito de toda a terra intervir nos negocios do seu satellite.
A subscripção aberta em Baltimore n'este sentido estendeu-se ao mundo
inteiro, _urbi et orbi_.

Estava esta subscripção destinada a ter um exito superior a tudo que era
de esperar, apesar de se tratar de quantias dadas que não emprestadas. A
operação era puramente desinteressada, porque não apresentava nem remota
probabilidade de lucro.

Porém o effeito da proposta Barbicane, e que não tinha parado nas
fronteiras dos Estados Unidos; antes tinha saltado por cima do Atlantico
e do Pacifico, para invadir a um tempo a Asia e a Europa, a Africa e a
Oceania. Os differentes observatorios da União pozeram-se desde logo em
communicação immediata com os observatorios do estrangeiro; alguns, como
o de Paris, de Petersburgo, do Cabo, de Berlim, de Altona, de
Stockholmo, de Varsovia, de Hamburgo, de Buda, de Bolonha, de Malta, de
Lisboa, de Benarés, de Madrasta, de Pekin dirigiram cumprimentos de
felicitação ao Gun-Club; outros conservaram-se em prudente expectativa.

[Figura: A fabrica de Goldspring, perto de New York (pag. 112).]

O observatorio de Greenwich, esse, com approvação dos outros vinte e
dois estabelecimentos similares da Gran-Bretanha, foi claro e
terminante; e negou com firmeza a possibilidade de bom exito, seguindo
sem hesitação as theorias do capitão Nicholl. E n'estes termos, ao passo
que muitas sociedades scientificas promettiam até enviar delegados seus
a Tampa-Town, o pessoal scientifico do observatorio de Greenwich reunido
em sessão, apresentada a proposta Barbicane, passou brutalmente á ordem
do dia.

[Figura: Tampa-Town, antes da operação (pag. 117).]

Bello ciume de inglez para americano, nada mais.

Em geral, foi excellente o effeito produzido no mundo scientifico, e
d'ahi se communicou ás massas, que, pela maior parte, se tomaram de
paixão pelo assumpto. Facto este de magna importancia, poisque estas
mesmas massas iam ser convidadas a subscrever para a realisação de um
capital consideravel.

No dia 8 de outubro já o presidente Barbicane tinha publicado um
manifesto cheio de enthusiasmo, no qual appellava para «todos os homens
de boa vontade da Terra.» Este documento, aliás traduzido em todas as
linguas, deu optimo resultado.

Abriram-se as subscripções parciaes nas principaes cidades da União,
para serem centralisadas no banco de Baltimore, rua de Baltimore n.^o 9,
e depois nos differentes estados dos dois continentes:


Em Vienna na casa S.-M. de Rothschild;
Em Petersburgo, casa Stieglitz e C.^a;
Em Paris, no Credito mobiliario;
Em Stockholmo, casa Totie e Arfuredson;
Em Londres, casa de N.-M. de Rothschild e filhos;
Em Turim, casa Ardouin e C.^a;
Em Berlim, casa Mendelsohn;
Em Genebra, casa Lombard, Odier e C.^a;
Em Constantinopla, no Banco ottomano;
Em Bruxellas, casa S. Lambert;
Em Madrid, casa Daniel Weisweller;
Em Amsterdam, no Credito neerlandez;
Em Roma, casa Torlonia e C.^a;
Em Lisboa, casa Lecesne;
Em Copenhague, no Banco privativo;
Em Buenos-Ayres, no banco Mauá;
No Rio de Janeiro, na mesma casa;
Em Montevideo, na mesma casa;
Em Valparaizo, casa Thomás La Chambre e C.^a;
No Mexico, casa Martin Daran e C.^a;
Em Lima, casa Thomaz La Chambre e C.^a


Tres dias depois da publicação do manifesto do presidente Barbicane
estavam subscriptos nas differentes cidades da União, quatro milhões de
dollars[50]. Com esta somma, por conta de maior quantia, já o Gun-Club
podia ir fazendo alguma cousa. Dias depois, noticiavam os despachos
telegraphicos á America que as subscripções no estrangeiro eram cobertas
com verdadeiro enthusiasmo. Alguns paizes faziam-se notaveis pela
generosidade da sua offerta. A outros lá custava mais a desapertar os
cordões á bolsa. Questão de temperamento.

Em summa, mais eloquentes são os algarismos que as palavras, e eis a
descripção official das sommas que foram escripturadas no activo do
Gun-Club, logoque se encerrou a subscripção.

A Russia deu como contingente a enorme quantia de trezentos sessenta e
oito mil setecentos e trinta e tres rublos[51], e só poderá causar
espanto a grandeza da quantia a quem desconhecer o gosto dos russos
pelas sciencias, e o progresso que imprimem aos estudos astronomicos,
devido aos numerosos observatorios que possuem, dos quaes um, o de mais
importancia, custou dois milhões de rublos.

A França começou por se rir das pretensões dos americanos. Serviu ali a
Lua de pretexto a mil calembourgs já estafados, e a algumas dezenas de
_vaudevilles_ em que o mau gosto e a ignorancia disputavam primazias.
Porém os francezes, que já de antiga data trazem o habito de cantar e
ainda em cima pagar, d'esta vez riram, mas tambem depois pagaram,
subscrevendo com a quantia de um milhão e duzentos e cincoenta tres mil
novecentos e trinta francos[52]. Por este preço realmente assistia-lhes
o direito de se divertirem um bocado.

A Austria, apesar dos seus apertos financeiros, mostrou generosidade
bastante. Elevou-se a parte d'esta potencia, na contribuição geral, á
quantia de duzentos e dezeseis mil florins[53], que bem boa conta
fizeram.

Cincoenta e dois mil rixdales[54] foi o obolo da Suecia e da Noruega. A
cifra já era de consideração em proporção do paiz; porém, maior ainda
teria sido, se a subscripção se tivera aberto ao mesmo tempo em
Christiania e em Stockholmo. Seja lá por que rasão for, o caso é que os
norueguezes não gostam de mandar o seu dinheiro para a Suecia.

A Prussia deu testemunho, mandando duzentos e cincoenta mil thalers[55],
de que prestava á tentativa a sua alta approvação. Os differentes
observatorios d'esta nação contribuiram de boa vontade com uma quantia
importante, e foram dos que com mais ardor animaram o presidente
Barbicane.

A Turquia portou-se com generosidade, e não admira porque estava
pessoalmente interessada n'aquelle assumpto, visto ser a Lua quem lhe
fixa o curso dos mezes e a epocha dos jejuns do Ramadan. Nem lhe ficava
bem dar menos de um milhão trezentas e setenta e duas mil seiscentas e
quarenta piastras[56], que foi o que effectivamente deu, e com ardor tal
que parecia até dar a entender que houvera certa pressão da parte do
governo da Porta.

A Belgica distinguiu-se entre todos os estados de segunda ordem por um
donativo de quinhentos e treze mil francos[57], proximamente treze
centimos[58] por habitante.

A Hollanda e suas colonias tomaram parte na operação com cento e dez mil
florins[59], mas sempre foram pedindo cinco por cento de desconto, visto
pagarem de contado.

A Dinamarca, um tanto restricta em extensão territorial sempre rendeu
novecentos mil ducados de oiro fino[60], o que é prova do amor que os
dinamarquezes consagram ás expedições scientificas.

A Confederação germanica cooperou com trinta e quatro mil duzentos e
oitenta e cinco florins[61]; não se lhe podia exigir mais, nem que lh'o
exigissem o daria.

Apesar dos seus grandes apuros a Italia sempre encontrou nas algibeiras
dos seus filhos duzentas mil liras[62], mas foi preciso rebusca-las bem.
Se a Italia já estivera de posse do Veneto melhor iria o negocio, mas o
caso é que ainda não possuia o Veneto.

Os Estados da Igreja entenderam não dever mandar menos de sete mil e
quarenta escudos romanos[63], e Portugal levou a sua dedicação pela
sciencia até trinta mil cruzados.

O Mexico, esse deu o obolo da viuva, oitenta e seis piastras fortes[64];
verdade é que os imperios, nos primeiros tempos da sua fundação, sempre
vivem pouco á larga de meios.

De duzentos e cincoenta e sete francos[65] foi o auxilio modesto
prestado pela Suissa á obra americana. Força é dize-lo e francamente, a
Suissa não percebia o lado pratico da operação; não se lhe afigurava que
o acto de arremessar uma bala á Lua fosse preliminar adequado para
entabolar relações commerciaes com o astro das noites, e n'este
presupposto pareceu-lhe pouco prudente empenhar capitaes em tentativa
tão aleatoria. E no fim de contas talvez a Suissa tivesse rasão.

Em Hespanha é que foi impossivel juntar mais de cento e dez reales[66],
circumstancia a que serviu de pretexto ter a nação que acabar os seus
caminhos de ferro. Mas a verdade é que a sciencia não é cousa lá muito
bem vista em tal paiz, que ainda está um tanto atrazado. E demais, havia
certos hespanhoes, e não eram dos menos illustrados, que não concebiam
com exactidão que relação havia entre a massa do projectil comparada com
a da Lua, e que temiam que o choque fosse alterar a orbita do astro,
perturba-lo no seu papel de satellite, provocando-lhe a quéda na
superficie do globo terrestre. Em casos taes o melhor era abster-se. E
foi o que, com differença de alguns poucos _reales_, fizeram os
hespanhoes.

Falta a Inglaterra. Já dissemos com que desdenhosa antipathia fôra ali
recebida a proposta Barbicane. Os inglezes têem todos uma só e mesma
alma para todos os vinte e cinco milhões de habitantes que povoam a
Gran-Bretanha. Limitaram-se a dar a entender que o emprehendimento do
Gun-Club era contrario ao «principio de não intervenção», e nem com um
ceitil concorreram.

O Gun-Club, quando soube tal nova, deu-se por satisfeito em erguer os
hombros, e proseguiu na sua grande tarefa. Logoque a America do Sul,
isto é, Peru, Chili, Brazil, provincias do Plata, Columbia entregaram a
sua quota de trezentos mil dollars[67], ficou o Gun-Club de posse do
consideravel capital cujo computo detalhado segue:


                                           Dollars
Subscripção dos Estados Unidos            4.000:000
Subscripções estrangeiras                 1.446:675
                                          ---------
                          Somma           5.446:675
                                          ---------


Eram portanto cinco milhões quatrocentos e quarenta e seis mil
seiscentos e setenta e cinco dollars[68], que o publico tinha despejado
nos cofres do Gun-Club.

A ninguem deve causar surpreza a importancia de tal somma. Os trabalhos
de fundição e brocagem, obra de pedra e cal, transporte de operarios e
installação d'estes n'uma região quasi deshabitada, construcção de
fornos e edificios diversos, acquisição de ferramenta para officinas,
polvora, projectil e despezas perdidas, deviam, segundo os orçamentos
feitos, absorve-la quasi por inteiro. Houve tiro na guerra federal que
ficou por mil dollars, não era pois de admirar que o do presidente
Barbicane, unico nos fastos da artilheria, custasse cinco mil vezes
mais.

No dia 20 de outubro assignou-se um contrato com a fabrica de fundição
de Goldspring, perto de New-York, que, durante a guerra, fôra a que
melhores canhões de ferro fundido fornecêra a Parrott.

Estipulou-se entre os outorgantes, que a fabrica de fundição de
Goldspring se obrigava a transportar para Tampa-Town, cidade da Florida
meridional, todo o material necessario para a fundição da Columbiada.

A operação da fundição devia concluir-se, o mais tardar, até ao dia 15
de outubro proximo, e até ao mesmo dia ser entregue o canhão e em bom
estado, sob pena de multa de cem dollars[69] por dia até aquelle em que
a Lua se tornasse a apresentar nas mesmas condições, isto é, por tantos
dias quantos se contam em dezoito annos e onze dias.

O engajamento de operarios, ferias e accommodações necessarias ficavam
por conta da companhia de Goldspring.

O contrato, feito em duplicado e _bona fide_, foi assignado por J.
Barbicane, na qualidade de presidente do Gun-Club, e por J. Murphison,
como director da fabrica de fundição de Goldspring, e cada uma das
partes deu plena approvação ás estipulações da escriptura.



CAPITULO XIII

STONE'S-HILL


Desde que se tornára notoria a escolha feita pelos socios do Gun-Club em
prejuizo do Texas, toda a gente na America, onde tudo sabe ler, se
julgou obrigada a estudar a geographia da Florida. Nunca os livreiros
venderam tanto exemplar de _Bartram's travel in Florida_, do _Romans's
natural history of East and West Florida_, do _William's territory of
Florida_, do _Cleland on the culture of the Sugar-Cane in East Florida_,
etc. Tornou-se necessaria a impressão de novas edições. Era um
verdadeiro delirio.

Barbicane não era homem que se contentasse com leituras, queria ver as
cousas com os proprios olhos e escolher em pessoa a collocação da
Columbiada. Por consequencia, sem perda de um momento, poz á disposição
do observatorio de Cambridge os fundos necessarios para a construcção de
um telescopio, contratou com a casa Broadwill & C.^a de Albany a feitura
do projectil de aluminium, e partiu logo de Baltimore acompanhado por
J.-T. Maston, pelo major Elphiston e pelo director da fabrica de
Goldspring.

No dia seguinte chegavam os quatro companheiros de jornada á Nova
Orleans, onde embarcaram sem demora no _Tampico_, aviso da marinha
federal, que o governo puzera á disposição d'elles. Aquecidas as
fornalhas, em poucos momentos deixaram de enxergar as praias da
Luiziania.

Não foi comprida a viagem; dois dias depois da partida, e tendo
percorrido quatrocentas e oitenta milhas[70], chegou o _Tampico_ á vista
da costa da Florida.

Ao passo que o navio se approximava da costa, ía apparecendo aos olhos
de Barbicane um territorio baixo, chato, com apparencias de pouca
fertilidade.

Depois de costear uma serie de enseadas abundantes em ostras e lagostas,
entrou finalmente o _Tampico_ na bahia do Espirito Santo.

Divide-se esta bahia em duas barras estreitas e compridas, a de Tampa e
a de Hillisboro, cuja apertada embocadura o steamer passou em poucos
momentos. Pouco tempo depois já se destacavam por cima das ondas as
baterias rasantes do forte Brooke, e apparecia a cidade de Tampa
negligentemente recostada no fundo do pequeno porto natural formado pela
foz do rio Hillisboro.

N'este logar fundeou o _Tampico_, a 22 de outubro, pelas sete horas da
noite; os quatro passageiros desembarcaram immediatamente.

Barbicane sentiu que lhe palpitava com violencia o coração quando pisou
o solo da Florida. Parecia palpa-lo com os pés, como faz o architecto
que pretende experimentar a segurança de um edificio. J.-T. Maston, esse
excavava a terra com a ponta do gancho.

«Senhores, disse então Barbicane, não temos tempo a perder, já ámanhã
havemos de montar a cavallo para fazer um primeiro reconhecimento no
paiz.»

No momento em que Barbicane desembarcava, os tres mil habitantes de
Tampa-Town, tinham avançado a saír-lhe ao encontro, honra bem cabida no
presidente do Gun-Club, que os favorecêra na escolha por elle indicada.
Receberam-no com formidaveis acclamações, mas Barbicane escapou-se a
todas aquellas ovações, e conseguiu metter-se n'um quarto do hotel
Franklin, onde não quiz receber pessoa alguma. Decididamente não lhe
quadrava o papel de homem celebre.

No dia seguinte, 23 de outubro, já lhe curveteavam debaixo das janellas
uns pequenos cavallos de raça hespanhola, todos fogo e vigor. Mas não
eram quatro senão cincoenta, com outros tantos cavalleiros.

Barbicane desceu acompanhado pelos tres companheiros, e admirou-se a
principio de se achar rodeado de tão numerosa cavalgata. Tambem fez
reparo em que cada cavalleiro trazia a sua carabina a tiracolo e
pistolas nos coldres. Mas foi logo informado por um moço floridense dos
motivos de similhante apparato de força.

«Senhor, é por causa dos seminólas.

--Quaes seminólas?

--Os selvagens que percorrem a planicie; foi por isso que julgámos
prudente escoltar-vos.

--Ora qual! interrompeu J.-T. Maston, conseguindo içar-se por escalada
ao dorso do animal que lhe fôra destinado.

--Emfim, volveu o floridense, sempre é mais seguro.

--Meus senhores, respondeu Barbicane, agradeço-vos as vossas attenções,
e agora a caminho!

E o pequeno rancho abalou logo, desapparecendo no meio de nuvens de
poeira. Eram cinco da manhã, o sol já estava resplandecente e o
thermometro marcava 84^o[71]; entretanto as frescas virações do mar
moderavam a ardencia excessiva da temperatura.

Barbicane logoque saíu de Tampa-Town inclinou para o sul, seguindo a
costa com o fim de alcançar o creek[72] de Alifia, que é um arroio que
vae desaguar na bahia de Hillisboro, doze milhas abaixo de Tampa-Town.
Continuaram Barbicane e companheiros seguindo a margem direita, subindo
para leste.

Dentro em pouco foram-se escondendo por detrás de um accidente do
terreno as aguas da bahia, e não viram os viajantes senão campinas da
Florida.

A Florida póde dividir-se em duas partes: uma ao norte, mais abundante
em população, menos abandonada, tem por capital Tallashassêa e possue
Pensacola, um dos mais importantes arsenaes maritimos dos Estados
Unidos; a outra, encerrada entre a America e o golpho do Mexico, que a
estreitam entre suas aguas, é apenas uma delgada peninsula corroida pela
corrente do Gulf-Stream, lingua de terra como que perdida por entre as
ilhas de um pequeno archipelago, e que incessantemente dobram os
numerosos navios que buscam o canal de Bahama. É como que um posto
avançado do golpho das grandes tempestades.

[Figura: Tiveram de passar a vau muitos rios (pag. 120).]

A superficie da Florida é de trinta e oito milhões e trinta e tres mil
duzentos e sessenta e sete acres[73], dentro dos quaes se devia escolher
um situado para áquem do vigesimo oitavo parallelo, e em condições
convenientes para a tentativa; por isso Barbicane, ao passo que
cavalgava, ía examinando com attenção a configuração e a particular
distribuição do solo.

[Figura: Os trabalhos avançavam regularmente (pag. 129).]

A Florida, descoberta por Juan Ponce de Leon em 1512, no domingo de
Ramos, deveu a esta circumstancia seu primeiro nome de Paschoa-Florida,
encantadora denominação bem mal cabida n'aquellas costas aridas e
abrazadas.

Mas a algumas milhas da praia, ía pouco e pouco mudando a natureza do
terreno, e o paiz mostrando-se digno do nome primitivo; o solo era
cortado por uma rede de creeks, de rios, de ribeiros, de lagoas e de
pequenos lagos; mas logo a campina começou a elevar-se sensivelmente, e
dentro em pouco deixou ver plainos onde se davam admiravelmente todas as
producções vegetaes do norte e do meio dia, campos immensos, onde todas
as despezas e trabalhos da cultura são feitos pelo sol dos tropicos e
pelas aguas retidas no subsolo de argilla, e finalmente prados de
ananazes, de inhames, de tabaco, de arroz, de algodão, de canna de
assucar, que se estendiam a perder de vista, ostentando com descuidosa
prodigalidade immensas riquezas.

Barbicane mostrou-se muito satisfeito quando verificou que o terreno se
ía elevando progressivamente, e como J.-T. Maston o interrogasse a tal
respeito:

--Meu digno amigo, respondeu, temos interesse de primeira ordem em
fundir a Columbiada em terreno alto.

--Para estar mais perto da Lua? exclamou o secretario do Gun-Club.

--Não, respondeu Barbicane sorrindo-se; que valem algumas poucas toezas
de mais ou de menos? Não é por isso, mas porque no centro de terrenos
elevados hão de proseguir com maior facilidade os nossos trabalhos: não
teremos de lutar com as aguas, circumstancia que nos ha de poupar
tubagens compridas e caras, o que é objecto de vulto quando se trata de
abrir um fosso de novecentos pés de profundidade.

--Tendes rasão, disse então o engenheiro Murchison, devemos afastar-nos
quanto possivel dos lençoes de agua na direcção da brocagem; entretanto
se encontrarmos nascentes, não é mal sem remedio, ou havemos de
esgota-las com machinas, ou desvia-las. É caso diverso dos poços
artesianos[74], estreitos e escuros, onde verruma, cubo e sonda, toda a
ferramenta do perfurador, em summa, trabalha ás escuras. Aqui não.
Havemos de trabalhar com o céu á vista, á luz do dia, com o alvião e
picareta em punho; e com o auxilio de algumas minas, a tarefa ha de ir
andando com rapidez.

--Todavia, replicou Barbicane, se pela elevação do solo ou pela natureza
do terreno podérmos evitar a luta com as aguas subterraneas, mais rapido
e perfeito ha de ser o trabalho: tratemos pois de abrir fosso em terreno
situado a algumas centenas de toezas acima do nivel do mar.

--Tem rasão, senhor Barbicane, e se me não engano, dentro em pouco
havemos de achar sitio adequado.

--Ai! o que eu queria era ouvir já a primeira enxadada, disse o
presidente.

--E eu a ultima! exclamou J.-T. Maston.

--Lá havemos de chegar, senhores, e acreditem que a companhia da fabrica
Goldspring não ha de ter que pagar-lhe a multa por mora.

--Por Santa Barbara! que deveis ter rasão! replicou J.-T. Maston; cem
dollars por dia até que a Lua volte a estar nas mesmas condições, isto
é, durante dezoito annos e onze dias, vem a dar, como bem deveis saber,
seiscentos e cincoenta e oito mil e cem dollars[75]?

--Não, senhor, nem o sabemos, respondeu o engenheiro, nem havemos de ter
necessidade de que no-lo façam saber.»

Por volta das dez horas da manhã; já o pequeno rancho tinha andado a sua
duzia de milhas: ás campinas ferteis succedêra a região das florestas.
Desenvolviam-se ali com profusão tropical as mais variadas essencias.
Eram formadas aquellas quasi impenetraveis florestas de romeiras,
laranjeiras, limoeiros, figueiras, oliveiras, damasqueiros, bananeiras,
e grandes cepas de vinha, cujos fructos e flores rivalisavam em colorido
e perfume. Á fragrante sombra d'aquellas magnificas arvores cantavam e
esvoaçavam numerosissimas aves pintadas de brilhantes côres, entre as
quaes se distinguiam mais particularmente as garças americanas, cujo
ninho deveria ser um guarda-joias para ser digno d'aquellas
preciosidades empennadas.

J.-T. Maston e o major não podiam ter diante de si tão opulenta natureza
sem lhe admirar as esplendidas bellezas.

Mas o presidente Barbicane é que era pouco sensivel a tantas maravilhas,
e estava com pressa de proseguir, porque região tão fertil por sua mesma
fertilidade lhe desagradava. Não era hydroscopo[76], mas apesar d'isso
presentia a agua debaixo dos pés, porque debalde procurava signaes de
aridez incontestavel.

Entretanto íam avançando; tiveram de passar a vau alguns rios, e não sem
perigo, que os caïmans de quinze a dezoito pés de comprimento abundam
por aquelles logares. J.-T. Maston ameaçava-os atrevidamente com a
temivel ganchorra, mas não conseguia atemorisar senão pelicanos,
narsejas e phaetontes, selvagens habitantes d'aquellas margens. Té os
grandes flamingos côr de rosa o olhavam com ar de estupidez.

Por fim aquelles habitantes das regiões humidas tambem foram
desapparecendo; já as arvores, menos grossas, appareciam rareadas em
matas menos espessas; alguns grupos isolados se destacavam nas infinitas
planuras onde perpassavam em manadas os gamos assustados.

«Até que emfim! exclamou Barbicane, levantando-se nos estribos, chegámos
á região dos pinheiros.

--Que é tambem a dos selvagens,» respondeu o major.

E viam-se na verdade no horisonte alguns seminólas; agitavam-se, corriam
de uns para os outros nos rapidos corseis, brandindo compridas lanças ou
descarregando as espingardas de detonação surda de que costumam usar.
Tambem ficaram-se n'estas demonstrações de hostilidade, sem mais
inquietar Barbicane e companheiros.

Estes estavam collocados no meio de um plaino pedregoso, local vasto e
descoberto, de grande numero de acres de extensão, que o sol inundava
com raios abrazadores. Era este plaino formado por uma grande
entumescencia de terreno, que parecia offerecer aos socios do Gun-Club
todas as condições requeridas para a collocação da Columbiada.

«Alto! disse Barbicane, parando. Este sitio tem nome cá no paiz?

--Chama-se Stone's Hill[77],» respondeu um dos da Florida.

Barbicane, sem dizer mais palavra, apeou-se, pegou dos instrumentos e
começou a determinar a posição com grande precisão; o pequeno rancho
reunido em volta d'elle olhava-o em profundo silencio.

N'aquelle momento passava o sol pelo meridiano. Barbicane, passados
instantes, escreveu rapidamente o resultado da observação que fizera e
disse:

«Este logar está situado a trezentas toezas acima do nivel do mar, a
27^o 7' de latitude e a 5^o 7' de longitude oeste[78]; afigura-se-me que
a sua natureza arida e penhascosa apresenta todas as condições
favoraveis para a experiencia; será portanto n'esta planura que havemos
de construir armazens, officinas, fornos, cabanas para operarios, e será
d'aqui, d'aqui mesmo, repetiu batendo com o pé no vertice de
Stone's-Hill, que o nosso projectil ha de alar-se para os espaços do
mundo solar!»



CAPITULO XIV

ALVIÃO E TROLHA


N'aquella mesma noite voltava Barbicane e companheiros a Tampa-Town, e o
engenheiro Murchison tornava a embarcar no _Tampico_ para Nova Orleans.
Tinha de engajar ali um exercito de operarios, e de trazer comsigo, no
regresso, a maior parte do material. Os socios do Gun-Club ficaram em
Tampa-Town, para organisarem os primeiros trabalhos com o auxilio da
gente do paiz.

Oito dias depois do da partida, voltava o _Tampico_ á bahia do Espirito
Santo acompanhado de uma esquadrilha de barcos de vapor. Murchison tinha
conseguido angariar mil e quinhentos trabalhadores. Nas tristes epochas
da escravidão todo o tempo e trabalho que se empregasse em tal empenho
teria sido perdido. Porém, desde que a America, terra da liberdade, não
conta em seu seio senão homens livres, correm estes onde quer que os
chama trabalho bem retribuido. Ora dinheiro é que não faltava ao
Gun-Club, que offerecia aos seus salariados, alem de uma feria elevada,
gratificações consideraveis e em proporção.

O operario engajado para a Florida podia contar, concluida a obra, com
um capital depositado em seu nome no banco de Baltimore. Murchison pôde
portanto, sem mais incommodos, escolher á vontade e levantar a bitola no
que dizia respeito á intelligencia e habilidade dos operarios.

É de crer que alistasse n'aquella legião do trabalho a flor dos
machinistas, fogueiros, fundidores, caleiros, mineiros, tijoleiros e
trabalhadores de todos os generos, pretos ou brancos, sem distincção de
cores.

No dia 31 de outubro, pelas dez horas da manhã, desembarcou toda aquella
multidão nos caes de Tampa-Town; imagine-se que movimento e que
actividade haviam de reinar na pequena cidade, cuja população se elevou
ao dobro no espaço de um só dia. Tampa-Town havia de lucrar enormemente
com a iniciativa do Gun-Club, não tanto com os operarios, que
immediatamente foram mandados para Stone's-Hill, como com a affluencia
de curiosos que a pouco e pouco foram convergindo de todos os pontos do
globo para a peninsula floridense.

Nos primeiros dias trabalhou-se na descarga da ferramenta que viera na
esquadrilha, assim como machinas, viveres e grande numero de casas de
ferro, em peças separadas enumeradas, para se poderem armar.

Pela mesma epocha ia Barbicane cravando as primeiras bandeirolas de
alinhamento de um caminho de ferro de quinze milhas, destinado a ligar
Stone's-Hill com Tampa-Town.

São bem conhecidas as condições em que são construidos os caminhos de
ferro na America: rodeios a capricho, declives arrojados, obras de arte
e parapeitos põem-se de parte, collinas sobem-se de escalada, valles
saltam-se, e está feito um caminho de ferro que corre ás cegas, sem se
importar com linhas rectas; nem custa grandes quantias nem grandes
trabalhos; tem só um inconveniente, completa liberdade de
descarrilamentos e de saltos. O de Tampa-Town a Stone's-Hill foi uma
perfeita bagatella, que nem grande dinheiro nem grande trabalho exigiu
para ficar prompto.

Quanto ao mais, Barbicane era a alma d'aquelle mundo que surgira á sua
voz. Era elle quem tudo animava, e a todos communicava a propria vida,
enthusiasmo e convicção; em toda a parte estava, como se possuíra condão
de ubiquidade, e sempre acompanhado de J.-T. Maston, que desempenhava
junto d'elle o papel de mosca zumbideira. Com Barbicane, nem havia
obstaculos, nem difficuldades, nem hesitações; era tão mestre nos
officios de mineiro, de pedreiro ou de machinista como no de artilheiro;
tinha sempre resposta prompta para qualquer pergunta, e resolução para
qualquer problema. Sustentava correspondencia activa com o Gun-Club ou
com a fabrica de Goldspring, aguardando-lhe as ordens, no molhe de
Hillisboro, o _Tampico_, sempre com as fornalhas accesas e o vapor sob
pressão, a toda a hora do dia e da noite.

Saiu Barbicane no 1.^o de novembro de Tampa-Town com um destacamento de
trabalhadores, e já no dia seguinte se erguia em volta de Stone's-Hill
uma cidade de casas mechanicas, que cercaram de palissadas, e em poucos
dias, em relação a movimento e actividade, parecia uma das grandes
cidades da União. A vida foi ali regulada disciplinarmente, e deu-se
começo aos trabalhos em perfeita ordem.

A natureza do terreno fôra já reconhecida por via de sondagens
cuidadosamente praticadas, e pôde-se dar começo á excavação a 4 de
novembro.

N'aquelle dia convocou Barbicane para uma reunião todos os chefes de
officina, e disse-lhes:

«Meus amigos, é conhecido de vós todos o motivo por que vos reuni n'esta
região selvatica da Florida. Trata-se de fundir um canhão de nove pés de
diametro interior, com seis pés de espessura de parede, e dezenove pés e
meio no revestimento exterior de pedra; em summa, o que é necessario
excavar, é, por consequencia, um poço de diametro de sessenta pés e de
novecentos pés de profundidade. Mais. Esta obra momentosa ha de estar
concluida dentro de oito mezes; tendes portanto dois milhões quinhentos
e quarenta e tres mil e quatrocentos pés cubicos de terreno a extrahir,
em duzentos e cincoenta e cinco dias, isto é, em numeros redondos, dez
mil pés cubicos de desaterro por dia. Esta obra que nem difficuldade
poderia dizer-se para mil operarios que trabalhassem á sua vontade e com
os movimentos perfeitamente desembaraçados, ha de ser muito mais ardua
no espaço relativamente apertado em que tendes de trabalhar. Entretanto,
já que tal trabalho tem de fazer-se, feito ha de ser, e conto tanto com
a vossa habilidade, como com a vossa coragem.»

Ás oito horas da manhã deu-se a primeira enxadada no terreno da Florida,
e desde aquelle instante nem um só momento esteve ocioso o valente ferro
nas mãos dos mineiros. Os operarios revezavam-se de seis em seis horas.

A operação, aindaque collossal, não ia alem do limite das forças
humanas. Bem longe d'isso. Quantos trabalhos ha de mais real
difficuldade, e nos quaes é necessario combater frente a frente os
elementos, em que se tem obtido bom resultado! Restringindo-se a obras
analogas, bastará citar o _Poço do padre Joseph_, construido perto do
Cairo pelo sultão Saladin, e em tempos em que ainda não havia machinas
que centuplicassem a força humana, poço que alcança até ao nivel do
Nilo, a trezentos pés de profundeza! E aquell'outro poço aberto em
Coblentz pelo margrave João de Bade, que entra seiscentos pés pela terra
dentro! Pois bem! em summa, aqui o que havia a fazer? Triplicar essa
profundidade, mas em largura decupla, circumstancia que aliás tornava
mais facil a perfuração! Por estas rasões não havia contramestre nem
mesmo simples operario que tivesse duvidas ácerca do bom exito da
operação.

Houve uma importante decisão tomada pelo engenheiro Murchison, de
accordo com o presidente Barbicane, que permittiu ainda maior rapidez no
andamento dos trabalhos. Fôra estipulado n'um dos artigos do contrato
que a Columbiada havia de ser apertada por arcos de ferro forjado e
batido quente. Era luxo de precauções inuteis, porque o colossal
machinismo podia evidentemente dispensar os taes anneis compressores.
Desistiu-se portanto de tal clausula, e d'ahi veiu grande economia de
tempo, porque se tornou então possivel empregar o novo systema de
excavação, já agora adoptado na construcção de todos os póços, e por
meio do qual se vae fazendo a obra de pedra e cal simultaneamente com a
brocagem.

Graças a este processo extremamente simples, já não é necessario
aguentar as terras com estroncas; é a parede construida que as aguenta
com resistencia inabalavel, e que ao mesmo tempo vae descendo pelo
proprio peso.

Esta manobra não devia começar senão quando o alvião tivesse chegado á
parte solida do terreno.

A 4 de novembro, cincoenta operarios excavaram mesmo no centro do
recinto da estacada, isto é, na parte mais alta de Stone's-Hill, uma
abertura circular de sessenta pés de diametro.

A primeira camada que encontrou o alvião era uma especie de terra
vegetal preta, e tinha seis pollegadas de espessura. Seguiram-se uns
dois pés de areia fina, que se guardou com cuidado, porque tinha de
servir para a feitura do molde interno.

Depois da areia appareceu argilla branca, bastante compacta, similhante
aos marnes de Inglaterra, acamada na espessura de quatro pés.

Faiscou por fim o ferro das picaretas de encontro á camada dura do
terreno, especie de rocha composta de conchas petrificadas, muito secca,
muito solida e ultima que até a final o ferro encontrou.

N'estas alturas tinha a abertura seis pés e meio de fundo, e deu-se
começo á obra de pedra e cal.

Construiu-se no fundo da excavação uma _roda_ de madeira de carvalho,
especie de disco bem cavilhado e de solidez a toda a prova; era furada
no centro, e a abertura tinha diametro igual ao diametro exterior da
Columbiada. Em cima d'esta roda é que vieram assentar as primeiras bases
da obra de pedra e cal, cujas pedras estavam ligadas com inflexivel
tenacidade por cimento hydraulico.

Feito o revestimento interno, da circumferencia para o centro, ficaram
os operarios encerrados n'um poço de vinte e um pés de largura.

Acabada esta parte da obra, volveram os mineiros á picareta e alvião.
Começaram a atacar a rocha mesmo por baixo da roda, com o cuidado de a
ir sempre aguentando em _tins_[79] extremamente resistentes.

Sempre que o buraco alcançava mais dois pés, tiravam-se successivamente
os _tins_; descia a roda a pouco e pouco e em cima d'ella o massiço
annular de pedra e cal, na camada superior do qual trabalhavam sem
descanso os pedreiros, deixando regularmente distribuidos respiradouros
por onde haviam de saír os gazes durante a operação da fundição.

[Figura: A fundição (pag. 137).]

Aquelle genero de trabalho exigia da parte dos operarios extrema
habilidade e constante attenção; mais de um foi gravemente e até
mortalmente ferido pelos estilhaços de pedra, mas nem por isso affrouxou
a actividade um só instante, quer de dia quer de noite: de dia, á luz do
sol que, mezes depois, irradiava noventa e nove graus[80] de calor por
sobre aquellas calcinadas planuras; de noite, ao clarão de jactos de luz
electrica.

[Figura: Tampa-Town depois da operação (pag. 141).]

O ruido da picareta batendo na rocha viva, as detonações das minas, o
estridor das machinas, os turbilhões de fumo espalhados no ar, envolviam
então Stone's-Hill n'um circulo tal de terror, que nem manadas de
bufalos, nem destacamentos de seminolas se atreveram a transpo-lo.

Entretanto iam proseguindo os trabalhos com toda a regularidade, e os
guindastes a vapor tornavam rapida a safa do aterro e entulho;
obstaculos inesperados poucos, e das difficuldades previstas todos se
foram saíndo com habilidade.

Decorrido o primeiro mez tinha o poço chegado á profundidade de antemão
calculada em proporção do praso, isto é, a cento e doze pés.

Em dezembro era duplicada e em janeiro triplicada a altura. No decurso
do mez de fevereiro tiveram os trabalhadores que lutar com um lençol de
agua que surdiu através da crusta de terra. Foi necessario recorrer a
poderosas bombas e a apparelhos de ar comprimido para estancar as aguas
e poder assim betumar o orificio das nascentes, como quem veda a
abertura por onde um navio faz agua. Por fim sempre conseguiram
vencer-se as malditas correntes.

No entretanto, em virtude da pouca consistencia do terreno, a roda cedeu
em parte e houve um desabamento parcial. Imagine-se qual seria a
espantosa impulsão d'aquelle disco de pedra e cal de setenta e cinco
toezas de altura! O accidente custou a vida de alguns operarios.

Tiveram de se perder tres semanas a escorar e concertar o revestimento
de pedra e a tornar a pôr a roda nas condições de solidez primitiva.
Mas, graças á habilidade do engenheiro e á potencia das machinas
empregadas, volveu ao prumo a edificação, por momentos em risco, e os
trabalhos de perfuração continuaram.

Nenhum outro incidente interrompeu o andamento regular da obra, e a 10
de junho, vinte dias antes de expirarem os prasos fixados por Barbicane,
tinha o poço, completamente revestido do seu paramento de pedras,
attingido a altura de novecentos pés. No fundo assentava a obra de pedra
e cal n'um cubo massiço de trinta pés de espessura; no limite superior
vinha nivelar com o terreno.

Barbicane e os socios do Gun-Club felicitaram cordialmente o engenheiro
Murchison; aquelle trabalho de cyclopes fôra realmente concluido em
extraordinarias condições de brevidade.

No decurso dos oito mezes que levou a obra não deixára Barbicane um só
instante Stone's-Hill; seguindo sempre de perto as obras de perfuração,
não lhe dava menos constante cuidado o bem-estar e a saude dos
operarios. Tão feliz que conseguiu evitar as epidemias que são vulgares
nas grandes agglomerações de homens e tão fataes em regiões, como
aquella, expostas a todos os influxos do tropico.

Verdade é que muito operario pagou com a vida as imprudencias inherentes
a tão arriscados trabalhos; mas desgraças d'essa ordem, aliás
lamentaveis, não é possivel evita-las, são pormenores com que pouco se
preoccupam os americanos. Mais cuidado lhes dá a humanidade em geral do
que cada individuo em particular. Barbicane, todavia, professava, por
excepção, doutrinas contrarias, a que em todas as occasiões dava
applicação. E por esta rasão, graças aos cuidados d'elle, á
intelligencia que demonstrou e á intervenção que tinha em todos os casos
difficeis, á prodigiosa e caritativa sagacidade que soube desenvolver, a
media das catastrophes não excedeu o que costuma succeder nos paizes
d'aquem mar, ainda nos que são citados pelo luxo de precauções, em
França, por exemplo, em que se conta, termo medio, com um accidente por
cada duzentos mil francos de obras.



CAPITULO XV

A FESTA DA FUNDIÇÃO


No decurso dos oito mezes que levou a operação da perfuração, tinham-se
simultaneamente, e com grande rapidez, realisado os trabalhos
preparatorios da fundição; bem surprehendido ficaria qualquer
forasteiro, que por aquella occasião viesse a Stone's-Hill, com o
espectaculo que se lhe havia de apresentar diante dos olhos.

Em disposição circular, em torno do poço como centro, e a seiscentas
jardas d'elle, erguiam-se mil e duzentos fornos de reverberação, cada um
de seis pés de largura, e separados uns dos outros por um intervallo de
meia toeza. A linha, que contornava os mil e duzentos fornos, tinha duas
milhas[81] de comprimento. Eram todos construidos pelo mesmo modelo, de
chaminé alta e quadrangular, e produziam effeito extremamente singular.
J.-T. Maston achava soberba aquella disposição architectonica, que lhe
trazia á lembrança os monumentos de Washington. Para esse é que não
havia nada mais bello, nem mesmo na Grecia, «onde aliás, segundo elle
proprio confessava, nunca tinha posto os pés».

Deve o leitor estar lembrado que, na terceira sessão da commissão, se
decidira que a Columbiada havia de ser de ferro fundido, e em especial
de ferro fundido gris.

E com rasão, porque o ferro em taes circumstancias tem maior tenacidade
e ductilidade e é mais macio, mais facil de polir e apropriado para
todas as operações de molde, e ainda porque, tratado pelo carvão
mineral, é de qualidade superior para todas as obras de grande
resistencia, taes como canhões, cylindros de machinas a vapor, prensas
hydraulicas, etc.

Mas raras vezes com uma só fusão se consegue obter ferro fundido
bastante homogeneo; na segunda fusão é que elle se refina e purifica,
abandonando os ultimos depositos terrosos.

Por este motivo, já o minerio de ferro, antes de ser expedido para
Tampa-Town, fôra transformado em carbonato, submettendo-o nos altos
fornos de Goldspring ao contacto com carvão e silicium levados a uma
elevada temperatura[82]. Depois d'esta primeira operação é que o metal
foi mandado para Stone's-Hill. Mas como se tratava de cento e trinta e
seis milhões de libras de ferro fundido, massa cuja expedição pelos
caminhos de ferro havia de ficar excessivamente cara, só o preço do
transporte vinha a dobrar o preço do material. Pareceu portanto
preferivel fretar navios em New York e carrega-los de ferro fundido em
barra; foram necessarias nada menos de sessenta e oito embarcações de
mil toneladas, verdadeira esquadrilha, que a 3 de maio largou das
paragens de New York, tomou a via do oceano, prolongou-se com as costas
da America, embocou pelo canal de Bahama, dobrou a ponta da Florida e,
entrando a 10 do mesmo mez na bahia do Espirito Santo, veiu largar
ferro, sem avaria, no porto de Tampa-Town. Ahi se fez a descarga dos
navios para os wagons da via ferrea de Stone's-Hill, e pelo meado de
janeiro estava toda aquella enorme massa de metal no logar para que fôra
destinada.

Facilmente se concebe que não eram de mais mil e duzentos fornos para
liquefazer simultaneamente sessenta mil toneladas de ferro fundido. Cada
forno podia conter proximamente quatorze mil libras de metal, e todos
tinham sido construidos pelo modelo dos que tinham servido para fundir o
canhão Rodman, que eram de fórma trapesoidal e muito baixos de tecto. A
fornalha e a chaminé eram nos extremos oppostos do forno, por fórma que
em toda a extensão d'elle havia a mesma temperatura. As paredes dos
fornos eram construidas de tijolo refractario, e encerravam apenas uma
grelha para fazer arder o carvão mineral e um crysol chato para collocar
as barras de ferro, inclinado por um angulo de vinte e cinco graus para
deixar escorrer o metal em fusão para as caldeiras destinadas a
recebe-lo; d'estas caldeiras conduziam-no mil e duzentas caleiras
convergentes para o poço central.

No dia seguinte áquelle em que finalisaram as obras de pedra e as de
perfuração, fez Barbicane dar começo á construcção do molde interno. O
caso estava em erguer no centro do poço e na direcção do eixo d'elle, um
cylindro de novecentos pés de altura e nove de largura, que enchesse
exactamente o espaço reservado para a alma da Columbiada. Foi este
cylindro feito de areia e barro argilloso de mistura com palha e feno. O
intervallo que ficava entre o molde interno e o revestimento de pedra e
cal havia de preenche-lo o metal fundido, que vinha assim a formar em
torno do molde uma parede de seis pés de espessura.

Para manter em equilibrio o cylindro, foi necessario reforça-lo com
gatos de ferro e aguenta-lo de distancia a distancia com espeques
chumbados no revestimento interno de pedra, o que não apresentava
inconveniente algum, porque, depois da fundição, haviam de ficar os
espeques como que perdidos no grosso da massa de metal.

Concluiu-se esta operação a 8 de julho, e fixou-se o dia seguinte para a
fundição.

«Que bella ceremonia ha de ser a da festa da fundição, disse J.-T.
Maston ao amigo Barbicane.

--De certo, respondeu Barbicane, mas festa publica é que não!

--Como assim! pois não haveis de mandar abrir as portas d'este recinto a
quem quer que venha?

--D'essa me livrarei eu, Maston; a fundição da Columbiada é operação
delicada, por não dizer perigosa, e prefiro realisa-la á porta fechada.
Quando o projectil largar, quantas festas quizerem, até lá nada.»

E o presidente tinha rasão; a operação podia apresentar perigos
imprevistos, a que uma grande affluencia de espectadores estorvaria de
occorrer. Era mister conservar inteira liberdade de movimentos. Por
consequencia a ninguem se deu entrada no recinto, excepto a uma
delegação dos socios do Gun-Club que, expressamente para assistir á
festa, fizera jornada até Tampa-Town. Figuravam n'ella, entre outros, o
fogoso Bilsby, Tom Hunter, coronel Blomsberry, major Elphiston, general
Morgan e _tutti quanti_, tomavam a fundição da Columbiada como negocio
seu pessoal. J.-T. Maston tinha-se feito cicerone d'estes, e não lhes
perdoou nem o mais insignificante dos pormenores; levou-os a toda a
parte: aos armazens, ás officinas, por entre as machinas, e até os
obrigou a fazer visita aos mil e duzentos fornos um por um. Quando
chegaram a mil e duzentos já não tinham alma para mais.

A fundição estava fixada para o meio dia em ponto, e já de vespera
ficára cada forno carregado com cento e quatorze mil libras de metal em
barras dispostas em pilhas encruzadas, para que o ar quente podesse
circular em liberdade por entre ellas. Desde pela manhã que as mil e
duzentas chaminés arrojavam para a atmosphera torrentes de chammas, e
que o solo era agitado por surdas trepidações. Havia a queimar tantas
libras de hulha, quantas eram as libras de metal que se íam derreter.
Eram portanto sessenta e oito mil toneladas de carvão que arremessavam
por diante do disco solar um espesso véu de fumo negro.

Dentro em pouco tornou-se o calor intoleravel dentro do circulo dos
fornos, cujos roncos pareciam trovões; a tudo isto vinha juntar-se o
soprar continuo de potentes ventiladores que saturavam de oxygenio todos
aquelles focos incandescentes.

Dependia essencialmente o bom exito da operação da rapidez. A um signal
dado por um tiro de peça deviam todos os fornos simultaneamente dar
saída ao metal em fusão e vasarem-se completamente.

Tomadas estas disposições, esperavam, tanto os chefes como os operarios,
com impaciencia misturada de boa dóse de emoção, o instante prefixado.
Já não estava mais ninguem no recinto, e todos os contra-mestres
fundidores estavam a postos, cada um junto a uma das aberturas por onde
o ferro em fusão havia de entrar no molde.

Barbicane e os collegas assistiam á operação situados n'uma eminencia
proxima. Diante d'elles estava uma peça de artilheria prompta a dar fogo
ao primeiro signal dado pelo engenheiro.

Alguns minutos antes do meio dia começaram a correr as primeiras gotas
de metal, encheram-se pouco e pouco as caldeiras, e quando o metal
chegou a completa liquefacção, deixaram-no assentar por alguns instantes
para facilitar a separação das substancias estranhas.

Soou meio dia, e no mesmo instante ribombou o canhão arremessando pelos
ares o fulvo relampago. Abriram-se a um tempo as mil e duzentas
aberturas, e alastraram-se na direcção do poço central mil e duzentas
serpes de fogo, desenrolando-se em anneis incandescentes. Ali foram
precipitar-se com temeroso estrepito, na profundidade de novecentos pés.
O espectaculo era magnifico e para impressionar. Tremia a terra, e
aquelle mar de metal em fusão arrojando ao céu turbilhões de fumo, ao
mesmo tempo volatilisava a humidade do molde e a expellia pelos
respiradouros do revestimento de pedra, sob a fórma de impenetraveis
vapores. Desenrolavam-se aquellas nuvens artificiaes em espiraes
espessas e erguiam-se para o zenith até quinhentas toezas de altura.
Algum selvagem errante para alem dos limites do horisonte podia crer que
se estava formando alguma nova cratéra nos seios da terra floridense, e
comtudo nem era aquillo erupção, nem tromba, nem tempestade, nem luta de
elementos, nem nenhum dos phenomenos terriveis que só a natureza é capaz
de produzir! Não! O homem é que tinha dado o ser áquelles avermelhados
vapores, áquellas chammas gigantescas e dignas de qualquer vulcão,
áquellas oscillações estrondosas similhantes ao sacudir dos tremores de
terra, áquelles mugidos rivaes dos furacões e das tempestades, e a mão
do homem é que precipitára um Niagara inteiro de metal em fusão n'um
abysmo tambem por mãos humanas cavado.



CAPITULO XVI

A COLUMBIADA


E teria tido feliz resultado a operação da fundição? O caso só podia
apreciar-se por conjecturas. Entretanto tudo levava a crer que o
resultado fôra bom, visto como o molde absorvêra a massa inteira do
metal fundido nos fornos. Fosse lá como fosse, por muito tempo havia de
ser impossivel verificar a cousa directamente.

Effectivamente, quando o major Rodman fundiu o seu canhão de cento e
sessenta mil libras de peso, nada menos de quinze dias levou o metal a
arrefecer. Quanto tempo então haveria de furtar-se ás vistas de seus
admiradores, coroada de turbilhões de fumo e defendida pelo seu intenso
calor, a Columbiada monstro? Era cousa difficil calcula-lo.

Durante esse lapso de tempo passou por uma prova real a paciencia dos
socios do Gun-Club. Mas não havia outro remedio. J.-T. Maston ia ficando
assado por excesso de dedicação. Quinze dias depois da fundição ainda se
erguia para o céu immenso pennacho de fumo, e ainda o chão queimava os
pés n'um raio de duzentos passos em volta do cume de Stone's-Hill.

Passaram-se dias e dias, decorreram semanas e semanas. Não havia meio de
arrefecer o immenso cylindro; era até impossivel approximar-se d'elle.
Era força esperar, e os socios do Gun-Club mordiam-se de impacientes.

«Estamos já a 10 de agosto, disse uma bella manhã J.-T. Maston. Temos
apenas quatro mezes d'aqui até 1 de dezembro! Sacar o molde interno,
calibrar a alma da peça, carregar a Columbiada, tudo está por fazer!
Nada, já não temos tempo para nos apromptar! Nem ainda a gente se póde
approximar do canhão! Pois elle nunca ha de acabar de arrefecer. Isso é
que era uma caçoada cruel!

Tentavam todos, mas debalde, moderar o impaciente secretario; só
Barbicane não dizia palavra, mas o silencio d'este occultava surda
irritação. Ver-se absolutamente detido por um obstaculo que só o tempo
podia vencer, e então o tempo, que é implacavel inimigo em taes
circumstancias, e estar á discrição do inimigo, que era tão duro para
aquella gente bellicosa.

Entretanto as observações quotidianas denunciavam certa mudança no
estado do solo.

Por volta de 15 de agosto tinham diminuido notavelmente em intensidade e
espessura os vapores projectados para o céu. Dias depois já o terreno
exhalava apenas ligeira fumaça, ultimo alento do monstro encerrado no
seu tumulo de pedra.

Pouco e pouco vieram a diminuir as oscillações do solo, e o circulo de
calorico estreitou-se; approximaram-se os espectadores mais impacientes;
n'um dia conseguiram avançar duas toezas, no seguinte quatro, e, a 23 de
agosto Barbicane, os collegas e o engenheiro, poderam finalmente tomar
logar mesmo em cima do jacto solidificado de ferro fundido que nivelava
com o vertice de Stone's-Hill, logar seguramente muito hygienico, porque
não era possivel ter lá os pés frios.

«Até que emfim!» exclamou o presidente do Gun-Club, soltando immenso
suspiro de satisfação.

Recomeçaram os trabalhos no mesmo dia.

Tratou-se immediatamente de extrahir o molde interno para desembaraçar a
alma da peça; alvião, picareta e ferramenta de brocar, tudo trabalhou
sem descanso; o barro argilloso e a areia tinham adquirido extrema
consistencia sob a acção do calor; mas com auxilio de machinas,
conseguiu-se vencer aquelle mixto ainda inflammado pelo contacto das
paredes de ferro fundido; o material extrahido safaram-n'o com rapidez
carros movidos a vapor, e tanto fizeram, tanto ardor houve no trabalho,
Barbicane apertou tanto com os trabalhadores, e tão fortes argumentos
empregou, sob fórma de dollars, que, a 3 de setembro, tinha
desapparecido o ultimo vestigio de molde.

Começou desde logo a operação da calibragem; installaram-se sem demora
os machinismos adequados que faziam mover com rapidez potentes brocas de
polir, cujo gume cortante mordia nas rugosidades do ferro fundido.
Poucas semanas depois estava exactamente cylindrica a superficie interna
do tubo, e a alma da peça perfeitamente polida.

[Figura: Festim na Columbiada (pag. 146).]

Finalmente, no dia 22 de setembro, menos de um anno depois da
communicação Barbicane, o enorme machinismo, rigorosamente calibrado,
n'uma exactissima posição vertical verificada por via de instrumentos
delicados, ficou prompto para funccionar. Faltava só esperar pela Lua,
mas essa certo era que não havia de falhar ao ajustado encontro.

[Figura: O presidente Barbicane á sua janella (pag. 151).]

A alegria de J.-T. Maston não tinha limites; esteve até por pouco a dar
uma horrorosa quéda, quando intentava penetrar com a vista a
profundidade do tubo de novecentos pés. Se não lhe acudíra Blomsberry
com o braço direito, que o digno coronel por fortuna conservára, o
secretario do Gun-Club teria, qual novo Erostrato, encontrado a morte
nas profundezas da Columbiada.

Estava pois terminado o canhão; nem já era permittido ter duvidas ácerca
de sua perfeita execução; n'estes termos, a 6 de outubro, o capitão
Nicholl, com vontade ou sem ella, desempenhou-se para com o presidente
Barbicane, e este inscreveu no seu livro de contas e na columna das
receitas, a quantia de dois mil dollars.

Devemos suppor que a furia do capitão chegou ao ultimo extremo. No
entretanto havia ainda ajustadas mais tres apostas de tres, quatro e
cinco mil dollars, e comtantoque o capitão ganhasse duas fazia negocio,
que sem ser já excellente, ainda não era de todo mau. Porém o dinheiro
nem sequer lhe entrava nos calculos; o bom exito obtido pelo rival que
conseguira fundir um canhão, a que nem chapas de dez toezas de espessura
poderiam resistir, é que fôra para Nicholl terrivel golpe.

Desde 23 de setembro que se tornára francamente accessivel ao publico o
recinto de Stone's-Hill. Qual foi a affluencia de vizitantes facilmente
se comprehenderá. E na realidade, convergia de todos os pontos dos
Estados Unidos para a Florida uma quantidade de curiosos sem conta. A
cidade de Tampa tinha augmentado prodigiosamente no decurso d'aquelle
anno inteiramente consagrado ás obras do Gun-Club, e contava então cento
e cincoenta mil almas. A cidade que começára por entrelaçar o forte
Brooke n'uma rede de ruas, estendia-se agora por sobre a lingueta de
terra que separa os dois molhes da bahia do Espirito Santo; bairros
novos, novas praças, uma floresta inteira de casas tinham como que
brotado d'aquellas praias ainda ha pouco desertas, pela intensidade do
calor do sol americano. Organisaram-se companhias para construir
igrejas, escolas e habitações particulares, e em menos de um anno estava
a cidade dez vezes maior.

É bem sabido que o yankee nasce commerciante; para onde quer que o
arremesse o destino, da zona gelida á zona torrida, hão de
exercer-se-lhe com utilidade os instinctos de negocio. Por esta rasão os
simples curiosos, a gente que viera á Florida com o unico fito de seguir
as operações do Gun-Club, deixou-se arrastar para operações commerciaes
logoque se achou installada em Tampa. Os navios fretados para
transportar o material e os operarios tambem tinham trazido ao porto um
grau de actividade sem igual, e dentro em pouco muitos outros navios de
todas as fórmas e tonelagens sulcaram a bahia e os dois molhes;
estabeleceram-se vastos estabelecimentos de armador e escriptorios de
corretor de navios, e a _Shipping-Gazete_ registava todos os dias novas
embarcações entradas no porto de Tampa.

Ao passo que se iam multiplicando as estradas em torno da cidade,
mereceu esta a final ser ligada por via ferrea aos Estados meridionaes
da União, em consideração ao prodigioso augmento que se realisára na sua
população e commercio. Assentou-se um railway entre a Mabile e
Pensacola, o maior arsenal maritimo do sul; e em seguida d'este ponto
importante para Tallahassee.

D'ali já estava construido um pequeno ramal de via ferrea de vinte e uma
milhas de comprimento, que punha em communicação Tallahassee com
Saint-Marks, localidade do littoral. Foi este ramal que se prolongou até
Tampa-Town, e que na passagem veiu despertar ou dar vida ás regiões
adormecidas ou mortas da Florida. Tampa, graças áquelles milagres da
industria, devidos á idéa que um bello dia despontára n'um cerebro
humano, póde assumir com legitimo fundamento ares de grande cidade.
Cognominaram-na _Moon-City_[83]. A capital das Floridas é que soffreu
ecclypse total e visivel de todos os logares do globo.

Toda a gente comprehenderá agora por que fôra tão grande a rivalidade
entre Texas e Florida, e a irritação dos texianos quando viram
indeferidas as pretenções que tinham á preferencia do Gun-Club.

Com previdente sagacidade tinham os do Texas comprehendido quanto
qualquer paiz haveria de ganhar com a experiencia tentada por Barbicane,
e de que somma de beneficios havia de vir acompanhado um tal tiro de
canhão. Perdia o Texas com a decisão que o desfavorecêra um importante
centro de commercio, varios caminhos de ferro e um augmento consideravel
de população. Estas vantagens todas iam parar áquella miseravel
peninsula floridense, arremessada qual outro marachão entre as ondas do
golpho e as vagas do oceano atlantico. Por isso Barbicane partilhava com
o general Sant'Anna todas as antipathias dos texianos. Entretanto,
apesar de entregue ao furor do commercio e ao ardor da industria, a
população nova de Tampa-Town não esqueceu por fórma alguma as
interessantes operações do Gun-Club. Pelo contrario. Tomavam todos calor
e paixão pelos pormenores mais infimos da obra, pela mais insignificante
enxadada. Era um constante vae-vem entre a cidade e Stone's-Hill, uma
procissão, ou para melhor dizer, uma romaria.

Já podia prever-se que, no dia da experiencia, a agglomeração de
espectadores havia de contar-se por milhões, porque já elles de todos os
pontos da Terra iam chegando e accumulando-se na estreita peninsula.

Emigrava a Europa para a America. Mas, até áquelle ponto, força é
dize-lo, pouca e mediocre satisfação tivera a curiosidade dos que, em
grande numero, íam chegando. Muita gente esperava assistir ao
espectaculo da fundição e só lhe viu o fumo. Era pouco para olhos tão
avidos, mas Barbicane não quiz admittir pessoa alguma a presenciar a
operação. Em consequencia não faltou quem praguejasse, murmurasse ou por
qualquer outra fórma mostrasse descontentamento; censuravam o
presidente; accusavam-n'o de absolutismo; declaravam finalmente que o
procedimento d'elle era «pouco americano».

Ía havendo sedição em volta das palissadas de Stone's-Hill.

Barbicane, já se sabe, conservou-se inabalavel na resolução que tomára.

Mas desde o momento em que se deu por inteiramente acabada a Columbiada,
é que não foi possivel conservar por mais tempo porta fechada; e tambem
fechar as portas em tal caso, seria prova de má vontade, ou o que é
ainda cousa peior, imprudencia que iria tornar hostil á empreza o
sentimento publico.

Barbicane mandou portanto abrir as portas do recinto a toda a gente;
entretanto inspirado pelo seu espirito pratico, resolveu fazer dinheiro
com a curiosidade publica.

Já não era pouco contemplar a immensa Columbiada, porém descer-lhe ás
profundezas, isso é que se afigurava aos Americanos ser o _non plus
ultra_ das felicidades d'este mundo. Nem um só curioso por consequencia
deixou de querer experimentar o goso de visitar o interior d'aquelle
abysmo de metal. Os espectadores podiam satisfazer a sua curiosidade por
meio de apparelhos suspensos de um sarilho a vapor. A cousa fez furor.
Mulheres, creanças, velhos, todos tomaram como obrigação penetrar até ao
fundo da _alma_ nos mysterios do colossal canhão. Fixou-se o preço da
descida em cinco dollars por cabeça. E apesar de ser preço alto, tal foi
a affluencia de visitantes, que metteu nas burras do Gun-Club, no
decurso dos dois mezes que antecederam a experiencia, perto de dois
milhões e quinhentos mil dollars[84].

Escusado é dizer que os primeiros visitantes da Columbiada foram os
socios do Gun-Club, vantagem esta justamente reservada para aquella
illustre assembléa. Realisou-se esta visita solemne no dia 25 de
setembro. Desceu então uma caixa de honra com o presidente Barbicane,
J.-T. Maston, major Elphiston, general Morgan, coronel Blomsberry,
engenheiro Murchison e outros socios de distincção do celebre Club. Ao
todo seriam uns dez. Fazia ainda um calor menos mau no fundo do comprido
tubo de metal!

Mal se podia respirar! Mas que alegria! que contentamento! Estava mesa
posta para dez convivas em cima do massiço que aguentava a Columbiada, e
o interior d'esta illuminado _a giorno_, por um jacto de luz electrica.
Numerosas e delicadas iguarias, que pareciam descer do céu, vieram
successivamente collocar-se em frente dos convivas, e correram com
profusão os mais finos vinhos de França durante o esplendido banquete
servido a novecentos pés debaixo da terra.

O festim correu extremamente animado e até extremamente ruidoso;
cruzavam-se numerosos os _toasts_; bebeu-se em honra do globo terrestre,
do seu satellite, do Gun-Club, da União, da Lua, de Phoebea, de Diana,
de Seléne, do astro das noites, e finalmente «do pacifico correio
feminino do firmamento!»

Tantos foram os hurrahs, repercutidos em ondas sonoras dentro d'aquelle
immenso tubo acustico que chegaram á extremidade d'elle qual trovão, e a
multidão acampada em torno de Stone's Hill, unia-se pelo coração e pelos
gritos aos dez convivas soterrados no fundo da gigantesca Columbiada.

J.-T. Maston nem já podia ter mão em si; e é ponto difficil de averiguar
o que é que elle fez em maior escala, se gritar e gesticular, se beber e
comer. Em todo o caso, o que elle não largava era o logar, nem a troco
de um imperio. «Não, aindaque o canhão estivera carregado, escorvado,
prompto a dar fogo por instantes, e a arremessa-lo feito em estilhas aos
espaços planetarios».



CAPITULO XVII

UM DESPACHO TELEGRAPHICO


Estavam, póde assim dizer-se, concluidas as grandes obras emprehendidas
pelo Gun-Club, e no entretanto ainda tinham de decorrer dois mezes antes
de chegar o dia em que o projectil havia de largar vôo para a Lua. Dois
mezes, que á impaciencia universal haviam de parecer dois annos! Até
então tinham tido reproducção na imprensa diaria até os mais infimos
pormenores da operação, e os jornaes eram devorados com olhos avidos e
ardentes; mas era de temer que d'ora ávante aquelle «dividendo de
noticias interessantes», distribuido até então ao publico, diminuisse
notavelmente; e todos se assustavam com a idéa de não terem já de
receber a respectiva quota de emoções quotidianas. Pois nada d'isto
succedeu; um incidente, o mais extraordinario, o mais incrivel, o mais
inverosimil dos incidentes, veiu de subito fanatisar os espiritos
anhelantes, e lançar novamente o mundo inteiro sob a influencia de uma
sobrexcitação pungente.

Certo dia, 30 de setembro, ás tres horas e quarenta e sete minutos da
tarde, chegou com direcção ao presidente Barbicane um telegramma
transmittido pelo cabo submarino immerso entre Valentia (na Irlanda),
Terra Nova e a costa americana.

O presidente Barbicane rasgou o sobrescripto, leu o despacho, e, apesar
da faculdade que tinha em alto grau de dominar-se, empallideceram-lhe os
labios, e turvou-se-lhe a vista com a leitura das vinte palavras do
telegramma.

Eis o texto do tal despacho, que na actualidade figura entre os
documentos do archivo do Gun-Club:

«França, Paris, 30 de setembro, ás quatro horas da manhã--Barbicane,
Tampa, Florida, Estados Unidos.--Substituir obuz espherico por projectil
cylindro-conico. Partirei dentro. Chego pelo vapor _Atlanta_.--_Miguel
Ardan_.»



CAPITULO XVIII

O PASSAGEIRO DO ATLANTA


Se aquella nova fulminante, em vez de ter voado pelo fio electrico,
tivera chegado simplesmente pelo correio, fechada e lacrada; se os
empregados telegraphicos da França, da Irlanda, da Terra Nova e da
America não estivessem, por necessidade de officio, no segredo do
telegrapho, certamente Barbicane nem por um instante teria hesitado.
Calava-se não só por prudencia, mas para não desacreditar a propria
obra.

Era bem possivel que sob a fórma de telegramma ali se, encobrisse uma
caçoada, demais a mais vindo o telegramma de um francez. Por ventura era
de crer que houvesse homem bastantemente ousado para conceber sequer o
pensamento de uma viagem tal? E, ainda no caso de existir tal homem, não
seria porventura um louco, mais no caso de se encerrar n'uma gaiola do
que n'uma bala?

Porém o texto do telegramma era de certo já conhecido, porque os
apparelhos de transmissão electrica são por sua propria natureza pouco
discretos, e a proposta de Miguel Ardan corria já seguramente pelos
differentes estados da União. Consequentemente Barbicane não tinha
motivo algum para se calar; portanto reuniu os collegas que estavam em
Tampa-Town, e sem dar mostra do que lhe ía no pensamento, sem discutir o
maior ou menor credito de que o telegramma era merecedor, leu-lhes
friamente o laconico texto.

«É impossivel! Inverosimil! Pura chalaça! Mangaram comnosco! Ridiculo!
Absurdo!» Em poucos minutos ouviu-se ali uma collecção completa de todas
as expressões que servem para exprimir duvida, incredulidade ou
qualificar a tolice e a loucura, e com acompanhamento de gestos usuaes
em taes casos. Todos sorriam, riam, encolhiam os hombros ou desatavam ás
gargalhadas, cada um segundo a respectiva disposição e genio. J.-T.
Maston foi o unico que teve uma saída soberba:

«E não é má idéa, não!»

--É verdade, respondeu o major; mas se é permittido ter de vez em quando
idéas d'essas, é só com a condição de nem por sonhos pensar em leva-las
á execução.

--E porque não? replicou com vivacidade o secretario do Gun-Glub, já
prompto para discutir. Mas não quizeram pica-lo mais.

Entretanto já o nome de Miguel Ardan corria de bôca em bôca pela cidade
de Tampa. Forasteiros e indigenas olhavam-se, interrogavam-se e mofavam,
não do europeu, especie de mytho ou individualidade chimerica, mas de
J.-T Maston, que tinha chegado a acreditar na existencia de tal
personagem lendario. Quando Barbicane propozera arremessar um projectil
á Lua todos acharam o emprehendimento natural, praticavel, pura questão
de balistica! Mas offerecer-se um ente racional para tomar passagem
dentro do projectil e tentar aquella viagem inverosimil, isso lá era
proposta de phantasia, zombaria, caçoada, ou, querendo usar de um termo
que tem traducção exacta e precisa na linguagem familiar franceza,
_humbug_![85]

Até á noite sem interrupção durou a risota, podendo até affirmar-se que
a União inteira desatou a um tempo n'uma casquinada de riso
inextinguivel, o que aliás não está lá muito nos habitos de um paiz em
que até as emprezas mais claramente impossiveis encontram com facilidade
panegyristas, adeptos e partidarios. Todavia a proposta de Miguel Ardan,
como succede a toda a idéa nova, não deixou de dar que fazer a certos
espiritos. A cousa sempre vinha alterar o curso das emoções habituaes.
«Ninguem pensára em tal!» E o incidente por sua mesma estranheza em
breve se tornou como que em pesadelo geral. Caso é que já n'elle
pensavam. Quantas cousas se negam na vespera, e que o dia seguinte vem
transformar em realidades! E porque é que tal viagem se não havia de vir
a fazer mais tarde ou mais cedo? Em todo o caso, o homem que assim
queria arriscar a pelle era forçosamente doido, e decididamente já que o
projecto que sonhára não podia ser tomado a serio, melhor era ter-se
calado, do que vir inquietar um povo inteiro com tão ridiculos
devaneios.

Mas, e antes de tudo; acaso tal personagem existia realmente? Magna
questão! Aquelle nome de «Miguel Ardan» já não era inteiramente
desconhecido na America! Senão que pertencia a um europeu muito citado
por seus ousados emprehendimentos. De mais a mais aquelle telegramma
enviado atravez das profundezas do Atlantico, aquella indicação positiva
do navio em que o francez dizia ter já tomado passagem, e a da data
proxima em que havia de chegar, tudo eram circumstancias que davam á
proposta certo caracter de verosimilhança. O que todos desejavam era uma
solução clara e positiva que lhes socegasse o espirito. Pouco a pouco
reuniram-se em grupos os individuos isolados; os grupos foram-se
condensando por influencia da curiosidade, como os atomos se aggregam em
virtude da attracção mollecular, e a final vieram a transformar-se em
multidão compacta, que tomou em direitura á morada do presidente
Barbicane.

Este, desde que chegára o telegramma, não dera por fórma alguma a
conhecer o que d'elle pensava; deixára correr a opinião de J.-T. Maston,
sem manifestar approvação nem censura; estava mettido ao canto, e na
idéa de esperar pelos acontecimentos, mas com que elle não contava era
com a impaciencia publica; por isso viu com olhos de pouca satisfação
accumular-se-lhe debaixo das janellas a população de Tampa. Em breve o
forçaram a mostrar-se ao publico, mil murmurios e vociferações. É de ver
que o presidente tinha todos os deveres e portanto todos os incommodos
attributos da celebridade.

Logo que Barbicane appareceu reinou silencio na multidão e um cidadão
que tomou a palavra dirigiu-lhe, sem mais rodeios, a seguinte pergunta:
«O personagem designado no telegramma pelo nome de Miguel Ardan, seguiu
ou não viagem para a America?

--Meus senhores, respondeu Barbicane, tanto o sei eu como vós outros.

--Pois é necessario sabe-lo, exclamaram algumas vozes impacientes.

--O tempo é que nos ha de desenganar, respondeu friamente o presidente.

--Ao tempo não assiste direito para conservar um paiz inteiro em
suspensão, replicou o orador. E os planos do projectil já se mandaram
modificar, como se pede no telegramma?

[Figura: Michel Ardan (pag. 154).]

--Ainda não, meus senhores; mas, todos têem muita rasão, é necessario
desenganarmo-n'os; o telegrapho foi que causou todas estas emoções, pois
seja o telegrapho quem complete as noticias que trouxe.

--«Ao telegrapho! ao telegrapho!» bradou a multidão.

[Figura: O meeting (pag. 161).]

Barbicane desceu de casa, e tomando á frente d'aquelle immenso
ajuntamento dirigiu-se para a repartição da administração dos
telegraphos.

Poucos minutos depois enviava-se um telegramma ao syndico dos corretores
de navios de Liverpool em que se lhe pedia resposta ás seguintes
perguntas:

«Que especie de navio é o _Atlanta_?

«Quando é que largou esse navio da Europa?

«Estaria a bordo um francez chamado Miguel Ardan?»

Duas horas depois recebia Barbicane esclarecimentos por tal fórma
precisos, que nem deixavam logar á menor duvida.

«O paquete _o Atlanta_, de Liverpool, fez-se ao mar no dia 2 de outubro,
fazendo-se de véla para Tampa-Town; a bordo ia um francez, inscripto no
livro dos passageiros com o nome de Miguel Ardan.»

Quando o presidente viu assim confirmado o conteúdo do primeiro
telegramma, brilharam-lhe os olhos em subita chamma, cerraram-se-lhe
violentamente os punhos, e houve até quem o ouvisse murmurar:

Então, sempre é verdade! sempre é possivel! existe esse francez! e
dentro em quinze dias ha de estar aqui! Mas é, por certo, um louco! um
cerebro escandecido!... Nunca consentirei...»

E apesar d'isso, n'aquella mesma noite já escrevia á casa Breadwill e
C.^a, para lhe pedir que suspendesse até nova ordem a fundição do
projectil.

Relatar a emoção que se apossou da America inteira; como o effeito da
communicação Barbicane foi excedido no decuplo; o que disseram os
jornaes da União, por que modo acceitaram a nova e em que rythmo
contaram a chegada do heroe do velho continente; pintar a febril
agitação, em que todos viviam contando as horas, os minutos e os
segundos; dar idéa mesmo longiqua, da pesada obsessão que se apoderou de
todos os cerebros dominados por um pensamento unico; mostrar como todas
as occupações cederam a uma unica preoccupação; os trabalhos parados, o
commercio suspenso, navios que estavam promptos a levantar ferro a
ficarem ancorados no porto para não faltarem á chegada do _Atlanta_, os
comboios a chegarem cheios e a saírem vasios, a bahia do Espirito Santo
sulcada sem cessar por _steamers_, _packets-boats_, hiates de recreio e
_fly-boats_ de todas as dimensões; enumerar os milhares de curiosos que
no espaço de quinze dias quadruplicaram a população de Tampa-Town, a
ponto de terem de acampar em barracas como um exercito em campanha, é
tarefa que excede as forças humanas, e que sem temeridade ninguem
poderia emprehender.

No dia 20 de outubro, pelas nove horas da manhã, dava o telegrapho
semaphorico do canal de Bahama noticia de fumo espesso no horisonte.
Duas horas depois um grande _steamer_ trocava com o telegrapho signaes
de reconhecimento. Immediatamente foi expedido para Tampa-Town o nome do
_Atlanta_. Ás quatro horas dava o navio inglez entrada na bahia do
Espirito Santo. Ás cinco passava a barra de Hillisboro a todo o vapor.
Ás seis largava ferro no porto de Tampa.

Ainda a ancora não tinha mordido no fundo de areia, já quinhentas
embarcações estavam em volta do _Atlanta_, e tomavam o _steamer_ de
assalto. Barbicane foi o primeiro que saltou ao convez, e que em voz de
que debalde tentára occultar a commoção exclamou:

«Miguel Ardan!--Presente!» respondeu um individuo que estava no castello
de popa.

Barbicane, cruzados os braços, com o olhar interrogador e a bôca
silenciosa, olhou fito para o passageiro do _Atlanta_.

Era este homem de quarenta e dois annos, alto, mas já um tanto curvado,
como os cariatides que aguentam nos hombros as sacadas dos balcões. A
cabeça volumosa, verdadeira cabeça de leão, sacudia a cada instante a
cabelleira ardente que a adornava como verdadeira juba. A cara curta,
larga nas fontes, enfeitada por um bigode hirsuto como as barbas de um
gato, e com pincelinhos de pellos amarellados que irrompiam mesmo do
meio das faces, os olhos redondos e um tanto desvairados, o olhar de
myope, completavam-lhe a physionomia eminentemente felina. Mas o nariz
era ousadamente modelado, a bôca particularmente humana, a fronte alta,
intelligente e sulcada qual campo que nunca esteve de pousio. Finalmente
o tronco robustamente desenvolvido e assente a prumo em cima de
compridas pernas, os braços musculosos como possantes e bem articuladas
alavancas, faziam do europeu um maganão de solida construcção, «feito na
forja, que não no cadinho», como diria quem quizesse ir buscar á arte
metallurgica termos de comparação.

Qualquer discipulo de Lavater ou de Gratiolet encontraria sem
difficuldade no craneo e na physionomia do personagem os indicios mais
indiscutiveis da combatividade, isto é, da coragem na occasião do
perigo, e da tendencia para despedaçar todos os obstaculos; como tambem
os da benevolencia e da _maravilhosidade_, instincto que incita certos
temperamentos a tomarem-se de paixão pelas cousas sobrehumanas; em
compensação era absoluta a carencia das bossas que indicam os instinctos
de posse e acquisição, que os phrenologos designam pela palavra
_adquisividade_.

Para dar o ultimo toque na descripção do typo physico do passageiro do
_Atlanta_, convem notar que o fato que usava era largo de fórmas e
folgado de cavas. A calça e o _paletot_ eram feitos com tal abundancia
de fazenda, que o proprio Miguel Ardan chamava a si mesmo o
_mata-panno_; a gravata desapertada, o colleirinho aberto com largueza,
deixavam ver o pescoço robusto; dos punhos invariavelmente desabotoados
saiam-lhe as mãos febris. Bem se via que era homem que, nem na maior
força do inverno, nem na maior força do perigo, havia de ter frio, nem
mesmo na raiz do cabello.

Nunca estava quieto, no tombadilho do _steamer_, no meio da multidão, de
cá para lá, sem nunca parar «navegando sobre as amarras», como dizia a
maruja; sempre a gesticular, tratando todos por tu e roendo as unhas com
nervosa avidez. Era um d'aquelles typos originaes que o Creador inventa
n'um momento de phantasia, quebrando-lhe desde logo o molde.

E na realidade, a personalidade de Miguel Ardan dava campo largo ás
observações do analysta. Aquelle homem espantoso vivia em perpetua
disposição para a hyperbole, não passára ainda alem da idade dos
superlativos; desenhavam-se-lhe os objectos na retina com dimensões
desmarcadas, e d'ahi lhe vinha uma associação de idéas gigantescas; via
tudo em ponto grande, excepto os homens e as difficuldades. E comtudo
isto era de uma natureza luxuriante, artista por instincto, moço de
espirito, que sem dar descargas de ditos chistosos, sabia entretanto na
conversação esgrimir como o mais habil atirador. Nas discussões, pouca
importancia lhe merecia a logica. Rebelde ao syllogismo, que por certo
nunca teria inventado, tinha um modo de argumentar só proprio d'elle.

Passando por cima de tudo e de todos, atirava em cheio ao adversario uns
argumentos _ad hominem_ de effeito certeiro e seguro, e fazia gosto em
defender com unhas e dentes as causas perdidas.

Entre outras manias tinha a de se proclamar «um ignorante sublime», como
Shakspeare, e fazia profissão do desprezo pelos sabios: «Elles, dizia,
entretem-se a marcar os pontos, e nós cá é que jogâmos a partida».

Em summa, era um bohemio do paiz dos montes e das maravilhas,
aventuroso, mas não aventureiro, uma cabeça ôca, um Phaetonte que guiava
a toda a brida o carro do Sol, um Icaro com azas de sobresallente. E era
homem que sabia arriscar e arriscar a serio a propria pessoa, que se
arrojava de cabeça levantada ás mais loucas emprezas, cortando a si
proprio a retirada com mais enthusiasmo ainda do que Agathócles quando
incendiou a esquadra que commandava. Prompto a toda a hora a arriscar a
pelle, tinha por sorte invariavel, por maior que fosse a cambalhota,
caír sempre de pé como os bonequitos de sabugo com que brincam as
creanças.

Em duas palavras, tinha por divisa: _dê por onde der!_ e por _ruling
passion_[86], segundo a bella expressão de Pope, o amor pelo impossivel.

Mas tambem era para ver-se como aquelle maganão emprehendedor possuia os
defeitos inherentes ás suas boas qualidades. Diz o vulgo, que quem se
não aventurou não perdeu nem ganhou.

Miguel Ardan bastas vezes se tinha aventurado, e nem por isso tinha
ganho!

Para dar cabo de dinheiro era um verdugo, um tonel das Danaïdes. Homem
aliás perfeitamente desinteressado, tantas eram as asneiras que lhe
dictava o grande coração, como as que lhe insinuava a estouvada cabeça;
esmoler, cavalheiroso, incapaz de assignar o «enforque-se» do seu mais
cruel inimigo, mas muito capaz de se vender para resgatar um negro.

Em França, na Europa, toda a gente conhecia este personagem brilhante e
estrepitoso. Nem era para admirar que assim succedesse a quem trazia já
enrouquecidos de servi-lo e apregoar-lhe o nome as cem vozes da fama, a
quem vivia como que dentro de uma casa de vidro, e tomava por confidente
dos seus mais intimos segredos o universo inteiro. Por estas mesmas
rasões tambem Ardan possuia uma admiravel collecção de inimigos, de
entre aquelles que elle, acotovelando para abrir caminho por entre a
multidão, mais ou menos maguára, ferira ou derrubára sem dó nem piedade.

E no entretanto era geralmente bemquisto e até tratado com excessivo
mimo. Era d'aquelles homens a quem póde applicar-se a expressão popular
«é pegar ou largar», e o caso é que todos lhe pegavam, todos tomavam
interesse nos arrojados commettimentos d'elle, e lhe seguiam com
inquietação as peripecias porque já era de todos conhecida a imprudente
audacia que o caracterisava. A algum amigo, que no intuito de lhe
suspender os designios, vinha prophetisar-lhe catastrophe imminente,
respondia sempre Ardan com amavel sorriso: «Da lenha das proprias
arvores nasce e lavra o incendio da floresta». Quem lhe diria a elle que
citava então o mais bonito de todos os proverbios arabes!

Tal era o passageiro do _Atlanta_, sempre em agitação, sempre a ferver,
sempre debaixo da acção de um fogo interior, sempre commovido, não pelo
que vinha fazer á America, que nem em tal cogitava, mas por virtude da
ardente organisação de que era dotado.

Nunca houve duas personalidades que apresentassem contraste mais
saliente que o francez Miguel Ardan e o yankee Barbicane; todavia ambos,
cada um lá a seu modo, eram emprehendedores, atrevidos e audaciosos.

Em breve foi interrompida pelos hurrahs e vivas da multidão a
contemplação a que se entregára o presidente do Gun-Club em presença do
rival que viera desterra-lo da posição principal para o segundo logar. E
tão phrenetica se tornou a gritaria, tornaram-se por tal fórma pessoaes
as manifestações do enthusiasmo, que Miguel Ardan, depois de ter
apertado um milheiro de mãos, em que ia deixando os dez dedos das
d'elle, teve que se refugiar no camarim.

Barbicane seguiu-o sem lhe ter dito nem palavra.

«Sois Barbicane? perguntou Miguel Ardan logoque se acharam a sós, e com
a intonação de quem fallava a um amigo de vinte annos.

--Sou, respondeu o presidente do Gun-Club.

--Pois então muito bons dias, Barbicane. Como vae isso? Excellentemente?
Ora vamos; bom é que assim seja: tanto melhor!

--Com que, disse Barbicane, sem buscar melhor entrada em materia, sempre
estaes decidido a partir?

--Absolutamente decidido.

--E nada poderá impedir-vo-lo?

--Cousa alguma. E os planos do projectil mandaste-los modificar em
harmonia com as indicações do meu telegramma?

--Estava á espera da vossa chegada. Mas, perguntou Barbicane, insistindo
novamente, reflectistes bem?...

--Reflectir! E que tempo tenho eu para o estar a perder!? Apanho
occasião de ir dar um passeio até á Lua, e aproveito-a, nada mais. Nem
me parece que seja cousa que mereça maiores reflexões.»

Barbicane devorava com o olhar aquelle homem que fallava de tal projecto
de viagem com tanta leviandade, tão completo socego e tão perfeita
ausencia de cuidados.

--«Mas pelo menos, disse, haveis de ter plano formado, meios de
execução.

--Excellentes, meu caro Barbicane. Mas dae-me licença que faça uma só
observação: o que eu gostava era de contar a minha historia toda de uma
vez só e a toda a gente, e não tratar mais do assumpto. Evitam-se assim
as repetições. Consequentemente, salvo melhor conselho, convocae os
vossos amigos, vossos collegas, toda a cidade, a Florida inteira, a
America em peso, se vos parecer, e ámanhã estou prompto para expor os
meus meios como para responder a todas as objecções, sejam lá quaes
forem. Descansae que hei de espera-las a pé firme. Convem-vos isto?

«Convem-me», respondeu Barbicane.

Accordado isto, saiu o presidente do camarim e veiu communicar á
multidão a proposta de Miguel Ardan.

Receberam-lhe as palavras com pateadas e grunhidos de alegria. A cousa
assim feita obviava a todas as difficuldades. No dia seguinte todos
poderiam contemplar á vontade o heroe europeu. Entretanto um ou outro
espectador houve mais cabeçudo que não quiz largar o tombadilho do
_Atlanta_, e passou a noite a bordo. Entre outros, J.-T. Maston, que
tinha atarraxado a ganchorra no parapeito do castello de pôpa; nem um
cabrestante de lá poderia arranca-lo!

«É um heroe! um heroe! berrava elle em todas as intonações, nós é que
somos umas fracas mulheres, em comparação com esse europeu!»

O presidente, esse depois de convidar a retirarem-se todos os
visitantes, volveu ao camarim do passageiro e não mais o largou até ao
momento em que a sineta de bordo tocou o quarto da meia noite. Mas
n'essa occasião, já os dois rivaes em popularidade se apertavam
reciproca e calorosamente as mãos, e Miguel Ardan já tratava por tu ao
presidente Barbicane.



CAPITULO XIX

UM MEETING


No dia seguinte levantou-se o «astro do dia» um tanto tarde para
corresponder á impaciencia publica. Para desempenhar o papel de Sol na
illuminação de similhante festa, acharam-n'o um tanto preguiçoso. Por
vontade de Barbicane, que se arreceiava de perguntas indiscretas para
Miguel Ardan, teria o auditorio sido reduzido a um pequeno numero de
adeptos, os collegas, por exemplo. Mas isso!.. era mais facil pôr um
dique á corrente do Niagara. Por consequencia teve de renunciar ao que
projectára, e de consentir que o amigo de recente data corresse todos os
riscos de uma conferencia publica. Apesar das suas dimensões colossaes,
julgou-se ainda insufficiente para a realisação de tal ceremonia a nova
sala da Bolsa de Tampa-Town, porque a reunião projectada assumira
proporções de verdadeiro meeting.

O logar escolhido foi uma vasta planicie situada fóra da cidade, e em
poucas horas conseguiram abriga-la dos raios solares; todos os arranjos
necessarios para a construcção de uma barraca colossal foram ministrados
pelos navios surtos no porto, abundantes em velame, cordame, mastros e
vergas de sobresalente.

Dentro em pouco estendia-se por sobre a planicie calcinada, a defende-la
contra as ardencias do dia, um immenso céu de panno debaixo do qual
trezentas mil pessoas acharam abrigo para poderem aguentar impunemente
por espaço de muitas horas, emquanto esperavam pelo francez, uma
temperatura de abafar. De toda aquella turba de espectadores só á
primeira terça parte era dado ver e ouvir; a segunda mal via e nem
palavra ouvia; quanto á terceira, essa nada via, e ainda menos ouvia. E
nem por isso foi a menos prompta a prodigalisar applausos.

Ás tres horas, realisou-se a apparição de Miguel Ardan, em companhia dos
socios principaes do Gun-Club. Dava Miguel o braço direito ao presidente
Barbicane e o braço esquerdo a J.-T. Maston, mais radiante e quasi tão
rutilante como o Sol ao meio dia. Ardan subiu a um estrado, de cima do
qual se lhe estendia a vista por sobre aquelle oceano de chapéus.

Não se percebia n'elle o menor signal de acanhamento, nem de impostura;
estava ali como quem está em sua casa, alegre, familiar e amavel; depois
de responder com uma graciosa inclinação de cabeça aos hurrahs com que o
acolheram, e de reclamar com um gesto de mão silencio, tomou a palavra
em inglez, exprimindo-se, com extrema correcção de linguagem, nos
seguintes termos:

«Meus senhores, apesar do grande calor que faz, tomarei a liberdade de
abusar dos vossos momentos para dar algumas explicações ácerca de
projectos que, segundo parece, vos interessam.

«Não sou orador nem homem de sciencia, e não contava fallar em publico;
disse-me porém o meu amigo Barbicane que isso vos seria agradavel, e
tanto bastou para me decidir a esse sacrificio. Consequentemente,
escutae-me com os vossos seiscentos mil ouvidos, e tende a bondade de
desculpar os erros do auctor.»

Mereceu grande apreço aos circumstantes aquelle exordio sem ceremonia;
um immenso murmurio de satisfação deu prova do contentamento da
multidão.

«Meus senhores, proseguiu Ardan, todos e quaesquer signaes de approvação
ou desapprovação são permittidos. Isto posto, começarei Em primeiro
logar, não deveis esquecer que estaes tratando com um ignorante, e tão
longe vae sua ignorancia, que até as difficuldades ignora. Pareceu-lhe
portanto cousa simples, natural e facil tomar passagem dentro de um
projectil, e partir para a Lua. Era viagem que mais tarde ou mais cedo
se havia de vir a fazer, e pelo que diz respeito ao modo de locomoção
adoptado, esse não era mais do que simples consequencia da lei do
progresso. O homem começou por viajar com as mãos pelo chão, depois, um
bello dia, só nos dois pés, depois n'uma carroça, depois em caleça,
depois em carroção, depois em diligencia, depois em caminho de ferro;
pois bem! o projectil é a viatura do futuro; que, a fallar a verdade, os
planetas não são senão outros tantos projecteis, simples balas de canhão
arremessadas pela mão do Creador.

[Figura: Os comboios de projecteis para a Lua (pag. 163).]

«Mas voltemos ao nosso vehiculo. Algum de vós, senhores, poderá ter
pensado que a velocidade que tem de imprimir-se-lhe, é excessiva; pois
não é assim; todos os astros têem superior rapidez, e a propria Terra,
em seu movimento de translação em volta do Sol, nos leva comsigo com
triplicada velocidade. Vou apresentar-vos alguns exemplos, e pedirei
permissão para me exprimir contando por leguas, porque não estou muito
familiarisado com as medidas americanas e tenho receio de me embarulhar
nos calculos.»

[Figura: Ataque e replica (pag. 174).]

Ninguem oppoz difficuldades á concessão pedida, que pareceu
perfeitamente rasoavel, e o orador continuou o discurso:

«Eis-aqui, senhores, a velocidade dos differentes planetas. Apesar da
minha ignorancia, força é confessa-lo, conheço com muita exactidão estas
miudezas astronomicas. Mas em menos de dois minutos estareis a esse
respeito tão instruidos como eu. Sabei pois, que Neptuno anda cinco mil
leguas por hora; Urano, sete mil; Saturno, oito mil oitocentas e
cincoenta e oito; Jupiter, onze mil seiscentas e setenta e cinco; Marte,
vinte e duas mil e onze; a Terra, vinte e sete mil e quinhentas; Venus,
trinta e duas mil cento e noventa; Mercurio, cincoenta e duas mil
quinhentas e vinte; certos cometas, um milhão e quatrocentas mil leguas
no perihelio! Nós cá, verdadeiros passeiantes, gente de poucas posses,
não havemos de ir alem de nove mil novecentas leguas de velocidade, e
mais ha de esta ir sempre diminuindo. Perguntarei eu agora, se ha aqui
motivo para pasmar, e se todas estas velocidades não hão de ser um dia
excedidas por outras ainda maiores, de que provavelmente serão agentes
mechanicos a luz ou a electricidade?»

Ninguem pareceu pôr em duvida a asserção de Miguel Ardan.

«Caros auditores, proseguiu este, se formos a dar credito a uns certos
espiritos acanhados,--e é exactamente esta a qualificação que melhor
lhes cabe--está a humanidade encerrada n'um circulo de Popilius, que
alem do qual não póde dar passo, e condemnada a vegetar no globo
terraqueo sem esperança sequer de poder abrir vôo para os espaços
planetarios! Pois não é assim! Agora vamos á Lua, e ainda havemos de ir
aos planetas, ainda havemos de ir ás estrellas, como se vae hoje de
Liverpool a New-York, com facilidade, rapidez e segurança. Em breve
serão atravessados o oceano atmospherico, bem como os oceanos da Lua! A
distancia é apenas um termo de relação, e havemos de chegar a final a
reduzi-la a zero.»

A assembléa, apesar de muito enlevada pelo heroe francez, ficou um tanto
attonita com aquella theoria audaciosa. Miguel Ardan pareceu percebê-lo,
e proseguiu com amavel sorriso:

«Parece-me que não estaes lá muito convencidos, estimaveis hospedes.
Pois bem! Discutâmos um pouco. Sabeis quanto tempo seria necessario a um
comboio expresso para chegar á Lua? Trezentos dias. Nada mais. O
trajecto é de oitenta e seis mil quatrocentas e dez leguas, mas isso que
é? Não chega a ser nove vezes um circuito em volta da Terra; não ha
marinheiro ou viajante digno d'esse nome que não tenha andado mais do
que isso no decurso da vida! Pensae pois, que eu não hei de gastar mais
de noventa e sete horas no caminho! Ah! estaes imaginando que a Lua está
a grande distancia da Terra, e que não seria mau reflectir antes de
tentar a aventura! Que dirieis então se se tratasse de ir a Neptuno que
gravita a um milhão cento e quarenta e sete mil leguas do Sol! Isso é
que é viagem que poucos poderiam intentar, ainda que mais não custasse
que a cinco soldos por kilometro! Nem o barão de Rothschild com os seus
mil milhões tinha com que pagasse o logar; faltavam-lhe ainda cento e
quarenta e sete milhões para não ficar no caminho!»

Esta maneira de argumentar pareceu ser muito do agrado da assembléa.
Miguel Ardan, por sua parte, bem possuido como estava do assumpto,
deixava-se arrastar ao sabor da argumentação com soberbo enthusiasmo;
percebêra que era ouvido com avidez, e proseguiu portanto com admiravel
confiança: «Pois bem, amigos, ainda esta distancia de Neptuno ao Sol não
é nada, se a compararmos com a das estrellas; effectivamente para
avaliar o afastamento de taes astros é necessario lançar mão de uma
classe de numeros deslumbrantes, o menor dos quaes tem nove algarismos,
tomar emfim por unidade o milhar de milhões. Peço-vos perdão de me
mostrar tão sabido no assumpto, mas é por ser de um interesse
palpitante. Ouvi e julgae. Alpha do Centauro está a oito billiões de
leguas, Wega a cincoenta billiões, Sirius a cincoenta billiões, Arcturus
a cincoenta e dois billiões, a Polar a cento e dezesete billiões de
leguas, a Cabra a cento e setenta billiões, as outras estrellas a
milhares de billiões e de trilliões de leguas! E ainda haverá quem falle
na distancia que medeia entre o Sol e os planetas! E haverá ainda quem
sustente que existe tal distancia! Erro, falsidade! aberração dos
sentidos! Quereis saber o que eu penso ácerca d'esse mundo que começa no
astro radiante e acaba em Neptuno? Quereis conhecer a minha theoria? É
muito simples! Para mim o mundo solar é um corpo solido, homogeneo; os
planetas que o formam, apertam-se, tocam-se, adherem, e o espaço que
entre elles existe é como o espaço que medeia sempre entre as molleculas
do mais compacto metal, seja prata, seja ferro, oiro ou platina! Julgo
portanto ter direito para affirmar, e repito-o com convicção, que ha de
communicar-se a vós todos: «A distancia é uma palavra vã, a distancia
nem sequer existe!»

--Bem dito! Bravo! Hurrah! gritou _una voce_ a assembléa electrisada
pelo gesto, pela accentuação do orador e pelo ousado das concepções.

--Não, exclamou J.-T. Maston ainda mais energicamente que os outros, a
distancia não existe!»

E, arrastado pela violencia dos movimentos, pelo impulso do proprio
corpo que mal podia dominar, ía caíndo do alto do estrado no chão.
Conseguiu, todavia, retomar a posição de equilibrio, e livrar-se de uma
quéda que lhe havia de provar brutalmente que a distancia não era
palavra de todo vã. Em seguida proseguiu no seu discurso o attrahente
orador.

«Amigos, disse Miguel Ardan, cuido que tal problema deve já agora ter-se
como resolvido. Se não logrei convencer-vos a todos, foi de certo porque
fui timido nas demonstrações, fraco na argumentação, e a culpa é da
minha insufficiencia de estudos theoricos. Seja lá como for, repito, a
distancia da Terra ao seu satellite é realmente pouco importante e
indigna de preoccupar qualquer espirito grave. Creio que não será ir
muito alem da verdade affirmar que em breve se hão de vir a estabelecer
trens de projecteis, nos quaes poderá fazer-se com toda a commodidade a
viagem da Terra á Lua. N'estes é que não haverá que receiar, nem
choques, nem abalos, nem descarrilamentos, e chegar-se-ha ao termo da
viagem, sem cansaço em linha recta, «a vôo de abelha», para fallar na
linguagem dos caçadores cá da America. D'aqui a vinte annos, de certo já
metade da Terra tem ido visitar a Lua!

«Hurrah! hurrah! por Miguel Ardan, clamaram os circumstantes ainda os
menos convencidos.

--Hurrah por Barbicane!» respondeu modestamente o orador.

Aquelle acto de gratidão para com o promotor da empreza, foi recebido
pelos espectadores com applausos unanimes.

«Agora, amigos, proseguiu Miguel Ardan, se alguem tem qualquer pergunta
a fazer-me, por certo que embaraçará um pobre homem como eu, entretanto
farei todos os esforços para responder.»

Até aquelle momento não tivera o presidente do Gun-Club senão motivos de
satisfação pela direcção que a discussão tomava. Versando esta sobre
theorias especulativas, Miguel Ardan, levado pela sua viva imaginação,
mostrava-se extremamente brilhante. Por consequencia, o que a Barbicane
parecia necessario, era pôr impedimento a que se desviasse para questões
praticas, de que por certo Ardan se havia de saír menos airoso.

Barbicane apressou-se portanto a tomar a palavra, para perguntar ao
amigo de recente data qual era o seu modo de ver em respeito a
habitantes da Lua e dos planetas.

«É um grande problema esse que me propões para resolver, meu digno
presidente, respondeu o orador sorrindo; todavia, se me não engano,
homens de grande intelligencia, taes como Plutarco, Swedenborg,
Bernardin de Saint-Pierre e muitos outros pronunciaram-se pela
affirmativa. Olhando a questão pelo lado da philosophia natural, sou
levado a pensar em harmonia com a opinião d'elles; a mim proprio digo
que cousa alguma inutil existe no mundo, e respondendo á tua pergunta,
com outra pergunta, affirmarei que se os mundos são habitaveis, é porque
são habitados, porque o foram, ou porque ainda o hão de ser.

Muito bem! clamaram as primeiras linhas de espectadores, cuja opinião
tinha força de lei para com as ultimas.

--Com mais logica e a proposito é que não ha responder, disse o
presidente do Gun-Club. A minha pergunta transforma-se portanto na
seguinte: «Serão porventura os mundos habitaveis?»

--Pela minha parte parece-me que o são.

E eu cá por mim, estou seguro d'isso, respondeu Miguel Ardan.

--Todavia, replicou um dos circumstantes, argumentos ha que vão de
encontro á theoria da habitabilidade dos mundos. Para que estes podessem
ser habitaveis, era evidentemente necessario, que na maior parte
d'elles, fossem modificados os principios da vida. N'estes termos, e não
me referindo já senão a planetas, n'uns d'elles seria o homem queimado e
n'outros gelado, segundo a respectiva distancia solar.

--Sinto, respondeu Miguel Ardan, não conhecer pessoalmente o meu honrado
contradictor. A objecção que apresenta tem seu valor, mas creio que póde
ser combatida com bom exito, assim como todas as que se oppõe á
habitabilidade dos mundos. Se eu fôra um physico, havia de dizer-lhe
que, se ha menos calorico em movimento nos planetas proximos do sol, e
pelo contrario mais, nos planetas mais afastados, esse mesmo phenomeno é
bastante para equilibrar o calor e tornar a temperatura de todos os
mundos supportavel para seres organisados como nós outros. Se fôra
naturalista havia de repetir-lhe, depois de o terem dito muitos sabios
illustres, que a natureza mesmo cá na Terra nos fornece exemplos de
animaes que vivem em condições bem diversas de habitabilidade; que os
peixes respiram n'um ambiente que é mortal para os outros animaes; que
os amphibios têem uma existencia dupla bastante difficil de explicar;
que ha certos habitantes dos mares que se mantem nas camadas de grande
profundidade, onde aguentam, sem serem esmagados, pressões de cincoenta
ou sessenta atmospheras; que ha diversos insectos aquaticos insensiveis
á acção da temperatura, que se encontram tanto nas nascentes de agua a
ferver como nos plainos gelados do oceano polar; e finalmente que é
força reconhecer na natureza uma diversidade de meios de acção por vezes
incomprehensivel, mas que nem por isso é menos real, e que chega até á
omnipotencia. Se eu fôra chimico, havia de dizer-lhe que os aerolithos,
corpos evidentemente formados fóra do mundo terrestre, tem revelado pela
analyse vestigios indiscutiveis de carbonio, e que esta substancia só
tem origem nos seres organisados, e que, em virtude das experiencias de
Reichenbach, deve necessariamente ter estado «animalisada». Emfim, se
fôra theologo, dir-lhe-ía que, segundo S. Paulo, parece que a redempção
divina se applicára, não sómente á Terra, mas a todos os mundos
celestes. Mas não sou theologo, nem chimico, nem naturalista, nem
physico. E portanto, na minha perfeita ignorancia das grandes leis que
regem o universo, limitar-me-hei a responder:

--Não sei se os mundos são ou não habitados, e por isso mesmo que não
sei, vou lá ver!»

Se o adversario de Miguel se abalançou ou não a apresentar outros
argumentos é que nós não podemos dizer, porque os gritos freneticos da
multidão tornaram-se então capazes de impedir que qualquer opinião fosse
sequer ouvida. Logoque se restabeleceu o silencio, ainda nos mais
afastados grupos, o triumphante orador terminou, contentando-se em
acrescentar as seguintes considerações:

«Bem deveis pensar, estimaveis Yankees, que apenas toquei de leve tão
momentosa questão; eu não vim aqui para fazer um curso publico e
defender theses ácerca de tão vasto assumpto. Ha ainda uma collecção
completa de argumentos de natureza inteiramente differente a favor da
habitabilidade dos mundos. Pô-los-hei de parte. Dêem-me entretanto
licença que insista ácerca de um unico ponto. Áquelles que sustentam que
os planetas não são habitados, deve responder-se:--Póde ser que tenhaes
rasão, se é que está demonstrado que a Terra é o melhor dos mundos
possiveis; mas isso é que não é assim, apesar do que Voltaire disse a
tal respeito. A Terra tem um só satellite, emquanto Jupiter, Urano,
Saturno e Neptuno têem muitos ao seu serviço, vantagem que não é para
desdenhar. Mas o que, mais que tudo, torna o nosso globo pouco
_confortable_, é a inclinação do eixo sobre a orbita. D'esta vem a
desigualdade dos dias e das noites; d'esta a incommoda diversidade das
estações. No nosso desgraçado espheroide faz sempre frio ou calor
demasiado; gela-se por cá no inverno, e arde-se no estio; é o planeta
dos defluxos, dos coryzas e das constipações, emquanto na superficie de
Jupiter, por exemplo, cujo eixo tem pequena inclinação[87], os
habitantes, se é que existem, podem gosar temperaturas invariaveis; ali
ha uma zona das primaveras, uma zona dos estios, uma zona dos outonos e
uma zona de invernos perpetuos; cada habitante de Jupiter póde escolher
o clima que mais lhe convier, e pôr-se para toda a vida ao abrigo das
variações de temperatura. Haveis portanto de conceder-me sem
difficuldade a superioridade de Jupiter em relação ao nosso planeta, sem
fallar já das revoluções annuas d'aquelle astro, que duram cada uma doze
annos dos nossos! Ainda mais, é para mim evidente, que com taes
auspicios e em tão maravilhosas condições de existencia, os habitantes
d'esse mundo afortunado são entes superiores; que ali os sabios são mais
sabios, os artistas mais artistas, os maus peiores, e os bons melhores.
Ai! e que nos falta a nós, pobre espheroide, para chegar a tal
perfeição? Bem pouca cousa. Um eixo de rotação, com menos inclinação
sobre o plano da orbita!

--Pois bem! clamou uma voz impetuosa, unâmos os nossos esforços,
inventemos machinas e indireitemos o eixo da Terra!

Rebentou ao ouvir-se tal proposta uma trovoada de applausos; o auctor da
proposta fôra, e nem outro podia ser, J.-T. Maston. É provavel que o
fogoso secretario se deixasse arrastar a aventar tão ousada idéa pelos
seus instinctos de engenheiro. Força é dize-lo porém, porque é a
verdade, muitos o applaudiram com enthusiasmo, e por certo se tivessem o
ponto de apoio que Archimedes reclamava, os americanos teriam construido
uma alavanca capaz de levantar o mundo e de endireitar-lhe o eixo. Mas o
que lhes faltava, áquelles temerarios constructores, era exactamente o
ponto de apoio.

Entretanto aquella idéa «eminentemente pratica» teve um exito enorme;
suspendeu-se a discussão por um bom quarto de hora, e por muito tempo,
por muito tempo ainda, se fallou nos Estados Unidos da America da
proposta formulada, com tanta energia pelo secretario perpetuo do
Gun-Club.



CAPITULO XX

ATAQUE E REPLICA


Parecia que aquelle incidente devia pôr termo á discussão. Estava dita
«a ultima palavra» e a melhor não poder ser. Todavia, quando acalmou a
agitação, ouviram-se as seguintes palavras, pronunciadas por uma voz
forte e severa:

«Agora que o orador já deu mais do que devêra dar á phantasia, por certo
não se negará a entrar de novo no assumpto, construindo menos theorias,
e discutindo a parte pratica da expedição que intenta?»

Volveram-se todos os olhares para o personagem que fallava d'aquella
fórma. Era um homem magro, secco, de physionomia energica, com
abundantes barbas, talhadas á americana, que lhe saíam debaixo do queixo
inferior. Conseguira pouco e pouco collocar-se nas primeiras filas, á
sombra dos diversos movimentos que se tinham realisado na assembléa.
Ali, cruzados os braços, com o olhar ousado e scintillante, fixava-o
imperturbavelmente no heroe do meeting. Depois de ter formulado a
pergunta, calou-se sem parecer impressionado pelos milheiros de olhares
que para elle convergiam, nem pelo murmurio desapprovador, que
suscitaram as palavras que pronunciára. E como a resposta se ía fazendo
esperar, repetiu de novo a pergunta, com a mesma accentuação precisa e
terminante, e acrescentando:

«Estamos aqui para tratar da Lua, que não da Terra.

--Tendes rasão, senhor, respondeu Miguel Ardan, a discussão desviou-se
um tanto do caminho regular. Volvamos á Lua.

--Senhor, replicou o desconhecido, affirmaes que o nosso satellite é
habitado. Bem. Mas se existem selenitas, certamente essa especie de
gente vive sem respirar, porque--e por interesse vosso é que vos vou
prevenindo--não ha uma unica mollecula de ar á superficie da Lua.»

Ao ouvir tal asserção, sacudiu Ardan a fulva juba: comprehendeu que com
aquelle homem é que a luta ía engajar-se a serio e na parte mais
melindrosa do assumpto.

Olhou tambem fixo para elle e disse:

«Ah! Então não ha ar na Lua! E, se me dá licença, quem é que o affirma?

--Os homens da sciencia.

--Na verdade?

--Na verdade.

--Senhor, replicou Miguel Ardan, fóra de qualquer brincadeira, tenho
profunda estima pelos homens de sciencia que sabem, mas tambem profundo
desdem pelos sabios que nada sabem.

--E conheceis alguns que pertençam á ultima categoria?

--Muito particularmente. Em França ha um que sustenta que
«mathematicamente» as aves não podem voar, e outro cujas theorias
demonstram que os peixes não foram feitos para viver na agua.

--Não é d'esses que trato, senhor, e para apoiar a minha asserção
poderia citar-vos nomes que de certo não havieis de recusar.

--N'esse caso, senhor, muito havieis de embaraçar um pobre ignorante,
que, aliás, nada deseja tanto como instruir-se!

--Então, se não estudastes as questões scientificas, porque é que vos
abalançaes a discuti-las? perguntou com bastante rudeza o desconhecido.

--Porque? respondeu Ardan. Pela simples rasão que é sempre arrojado
aquelle que nem suspeita tem dos perigos! Nada sei, é verdade, mas é
exactamente n'esta fraqueza que consiste a minha força.

[Figura: Arrancaram o estrado de repente (pag. 184).]

--A vossa fraqueza chega a ser loucura, exclamou o desconhecido com
intonação de mau humor.

[Figura: Irrompeu Maston pelo quarto dentro (pag. 187).]

--Sim!? Tanto melhor, replicou o francez, se essa loucura me levar até á
Lua!

Barbicane e os collegas devoravam com o olhar o intruso, que com tanto
arrojo vinha apresentar-se em opposição á empreza. Ninguem o conhecia, e
o presidente pouco seguro ácerca das consequencias da discussão tão
francamente posta, olhava com tal ou qual apprehensão para o seu novo
amigo. A assembléa mostrava-se attenta e seriamente inquieta, porque a
disputa tivera como resultado chamar-lhe a attenção para os perigos, ou
talvez verdadeiras impossibilidades da expedição.

«Senhor, proseguiu o adversario de Miguel Ardan, são numerosas e
indiscutiveis as rasões que provam a ausencia completa de atmosphera em
volta da Lua. Até _a priori_ póde affirmar-se que se alguma vez existiu
essa atmosphera da Lua, deve ter-lhe sido subtrahida pela Terra. Prefiro
entretanto objectar-vos factos irrecusaveis.

--Objectae, senhor, respondeu Miguel Ardan com perfeita cortezania,
objectae á vossa vontade!

--Sabeis, disse o desconhecido, que quando os raios luminosos atravessam
um meio qualquer tal como o ar, são desviados da linha recta, ou, por
outras palavras, que experimentam uma refracção. Pois bem! quando a Lua
occulta alguma estrella, os raios luminosos que emanam d'esta, mesmo
quando são tangentes á peripheria do disco lunar, nunca experimentam o
menor desvio nem dão o mais leve indicio de refracção. D'ahi flue como
consequencia evidente que a Lua não está circumdada por uma atmosphera.»

Olharam todos para o francez, porque admittida que fosse a observação,
as consequencias tiradas eram perfeitamente rigorosas.

«Em verdade, respondeu Miguel Ardan, é esse o vosso mais valioso, por
não dizer o unico, argumento, e qualquer homem de sciencia havia de
ver-se extremamente embaraçado para responder-lhe; eu cá direi sómente
que tal argumento não tem valor absoluto, porque suppõe que o diametro
angular da Lua está perfeitamente determinado, o que não é exacto. Mas
passemos adiante, e dizei-me, meu caro senhor, se admittis a existencia
de vulcões á superficie da Lua.

--De vulcões extinctos, sim; inflammados, não.

--Deixar-me-heis comtudo acreditar, e sem transpor de certo os limites
da logica, que esses vulcões estiveram em actividade em outra epocha?

--Isso é positivo, mas como tambem era possivel que os proprios vulcões
fornecessem o oxygenio necessario para a combustão, o facto das erupções
não prova de modo algum a existencia de atmosphera lunar.

--Passemos adiante, respondeu Miguel Ardan, e ponhâmos de parte tal
genero de argumentos para chegarmos ás observações directas. Previno-vos
porém que vou citar os nomes proprios.

--Pois citae.

--É o que farei. Em 1715, os astronomos Louville e Halley, na observação
do eclipse de 3 de maio, notaram certas fulminações de natureza
singular. Essa especie de relampagos, rapidos e a miudo repetidos, foi
por estes observadores attribuida a tempestades que se desencadeavam na
atmosphera da Lua.

Em 1715, replicou o desconhecido, tomaram os astronomos Louville e
Halley por phenomenos lunares phenomenos que eram puramente terrestres,
taes como bolidos, aerolithos ou outros similhantes, e que se realisaram
na nossa atmosphera. É isto o que responderam os homens da sciencia á
enunciação de taes factos, e é o que eu com elles responderei tambem.

--Adiante pois, respondeu Ardan, sem se perturbar com a replica.

E Herschel, em 1787, não observou um grande numero de pontos luminosos
na superficie da Lua?

--É certo, mas o proprio Herschel, que aliás não deu explicação alguma
ácerca da origem d'esses pontos luminosos, não tirou por conclusão do
que observára a forçada existencia de uma atmosphera lunar.

--Bem respondido, disse Miguel Ardan cumprimentando o antagonista, vejo
que sois muito entendido em selenographia.

--Verdade é que sou bastante entendido no assumpto, senhor; devo porém
acrescentar, que os mais habeis observadores, os que mais a fundo têem
estudado o astro das noites, os srs. Beer e Moedler, estão commigo de
accordo ácerca da falta absoluta de ar na superficie d'elle.»

Houve certa sensação entre os circumstantes, que pareceram
impressionados pelos argumentos do singular personagem.

«Continuemos a passar adiante, respondeu Miguel Ardan com a maior
placidez, que chegaremos a final a um facto importante. Um habil
astronomo francez, M. Laussedat, na observação do eclipse de 18 de julho
de 1860, verificou que as extremidades do crescente solar estavam
arredondadas e truncadas. Ora tal phenomeno só podia ser produzido por
um desvio dos raios solares que atravessassem uma atmosphera da Lua;
outra explicação admissivel não ha.

--E esse facto é positivo? perguntou com vivacidade o desconhecido.

--Absolutamente positivo!»

Realisou-se então na assembléa um movimento inverso do anterior, e que
fez de novo pender os espiritos para o heroe favorito, cujo antagonista
ficára silencioso. Ardan retomou a palavra, e sem se ufanar com a
decidida vantagem que acabava de obter, disse com simpleza:

Vêdes por consequencia, meu caro senhor, que não devemos pronunciar-nos
de uma fórma absoluta contra a existencia de atmosphera á superficie da
Lua; essa atmosphera é provavelmente pouco densa, muito subtil, mas na
actualidade a sciencia admitte geralmente a existencia d'ella.

--Não nas montanhas, em que vos peze, replicou o desconhecido, que não
queria dar o braço a torcer.

Não, mas no fundo dos valles, e sem que a sua altura passe de alguns
centos de pés.

--Em todo o caso, não será mau que tomeis todas as precauções, porque
esse ar ha de estar terrivelmente rarefeito.

--Oh! meu estimavel senhor, sempre ha de haver que farte para um homem
só; e demais, depois de lá estar em cima, eu tratarei de o economisar o
melhor que podér; não respirarei senão nas grandes occasiões!»

Retumbou uma estrepitosa gargalhada aos ouvidos do mysterioso
interlocutor, que estendeu a vista por toda a assembléa, como que
desafiando-a, altivo.

«Consequentemente, proseguiu Miguel Ardan, visto como estamos de accordo
ácerca da existencia de tal ou qual atmosphera, somos forçados a
admittir tambem a presença de tal ou qual quantidade de agua. E é uma
consequencia esta com que, pela minha parte, me alegro em extremo. Alem
d'isto permittirá o meu amavel contradictor que lhe submetta ainda mais
outra observação. Nós só conhecemos uma das faces do disco da Lua, e se
pouco ar póde haver na face que olha para nós, é possível que haja muito
na face opposta.

--E porque rasão?

--Porque a Lua, em virtude da attracção terrestre é que tomou a fórma de
um ovo, que nós vemos pelo lado da ponta mais achatada; e d'ahi vem a
consequencia obtida pelos calculos de Houven, que o centro de gravidade
da Lua está situado no outro hemispherio. E d'ahi tambem por conclusão,
que todas as massas aereas e aquosas devem ter sido arrastados para a
outra face do nosso satellite nos primeiros tempos da sua creação.

--Puras phantasias! exclamou o desconhecido.

--Isso não! mas sim puras theorias, aliás fundadas nas leis da
mechanica, e que me parecem de difficil refutação. Appello portanto para
o juizo da assembléa, e ponho á votação a questão de saber se a vida,
tal como existe na Terra, é ou não possivel na superficie da Lua?»

Trezentos mil auditores applaudiram simultaneamente a proposição. O
adversario de Miguel Ardan ainda quiz fallar, mas nem podia fazer-se
ouvir. Caíu-lhe em cima como uma saraivada de gritos e ameaças.

«Basta! Basta! diziam uns.

--Fóra o intruso! repetiam outros.

--Fóra! Fóra! clamava a multidão irritada.

O desconhecido porém, firme, agarrado e bem seguro ao estrado, não
arredou pé e deixou passar a tormenta, que teria assumido proporções
formidaveis se Miguel Ardan não a tivera apaziguado com um gesto. Ardan
era muito cavalheiro para abandonar um adversario em taes extremos.

«Desejaes acrescentar mais algumas palavras? perguntou Ardan com a mais
graciosa intonação.

--Um cento! ou um milheiro! respondeu iracundo o desconhecido. Ou, para
melhor dizer, não, basta só uma! Se perseveraes na empreza, é porque
sois...

--Imprudente! E com que fundamento me trataes vós por similhante fórma,
a mim, que até pedi ao meu amigo Barbicane que a bala fosse
cylindro-conica, só para não andar á roda no caminho como qualquer
esquilo?

--Mas, desgraçado, logo á partida ha de fazer-vos em estilhas a
horrorosa repercussão do tiro!

--Meu caro contradictor, agora sim, agora é que pozestes o dedo na
chaga, na verdadeira e unica difficuldade; entretanto o conceito que
formo do engenho industrial dos americanos é muito elevado para que me
permitta acreditar que não hão de conseguir resolve-la.

--E o calor desenvolvido pela velocidade do projectil ao atravessar as
camadas da atmosphera?

--Oh! as paredes do projectil são espessas, e depois tanto é o tempo que
eu hei de levar a atravessar a atmosphera!?

--Mas viveres e agua?

--Já calculei que podia levar commigo provisões para um anno, e a viagem
dura só quatro dias!

--E ar para respirar no caminho?

--Hei de fabrica-lo por processos chimicos.

--Mas a quéda na Lua, dado mesmo que consigaes lá chegar?

--Ha de ser seis vezes menos rapida do que o seria na superficie da
Terra, visto como a gravidade é seis vezes menor na superficie da Lua.

--Ainda assim ha de ser mais do que sufficiente para vos fazer em
pedaços como a um bocado de vidro!

--E quem é que me ha de impedir de retardar a queda por meio de foguetes
convenientemente dispostos e inflammados em occasião opportuna.

--Mas, emfim, demos que estão resolvidas todas as difficuldades,
aplanados todos os obstaculos, e que se juntam ainda a vosso favor todas
as probabilidades, admittamos que chegaes á Lua são e salvo, como é que
haveis de voltar?

--Não volto!»

Ao ouvir tal resposta sublime em sua mesma simplicidade, a assembléa
ficou muda. Mas aquelle silencio era mais eloquente do que quaesquer
clamores de enthusiasmo. D'elle se aproveitou o desconhecido para lavrar
o seu ultimo protesto.

--É um suicidio infallivel, exclamou, e a vossa morte, que será apenas a
morte de um insensato, nem ao menos servirá de proveito á sciencia!

--Continuae, generoso desconhecido, prognosticaes, na verdade, por modo
tão agradavel!

--Ah! isto é de mais! exclamou o adversario de Miguel Ardan, nem sei
porque tenho estado a perder o meu tempo em discussão tão pouco seria!
Prosegui á vontade n'essa empreza louca. A culpa não é a vós que se deve
tornar!

--Oh! não faça ceremonia!

--Não! a outrem cabe a responsabilidade inteira dos vossos actos.

--Então a quem, se me faz favor? perguntou Miguel Ardan com voz
imperiosa.

--Ao ignorante que organisou essa tentativa tão impossivel como
ridicula.»

O ataque era directo. Barbicane que desde que o desconhecido interviera
na discussão fazia esforços violentos para se conter, e «queimar o
proprio fumo» como as fornalhas fumivoras de certas caldeiras, vendo-se
agora claramente designado e com tamanha affronta, levantou-se
precipitadamente e ía já sobre o adversario que o desafiava cara a cara,
quando de subito se viu separado d'elle.

Cem braços vigorosos arrancaram n'um momento o estrado, e o presidente
do Gun-Club teve que partilhar com Miguel Ardan as honras do triumpho. O
broquel era pesado, mas os que o levavam revezavam-se de continuo,
disputando, lutando todos e combatendo para prestarem com os proprios
hombros decidido apoio á manifestação.

E todavia o desconhecido não se aproveitára do tumulto para se escapar.
E porventura teria podido faze-lo, rodeado como estava por aquella
multidão compacta? Por certo que não.

Caso é que se conservára na primeira fila, e de braços cruzados devorava
com os olhos o presidente Barbicane.

Este por sua parte não o perdia de vista; os olhares d'aquelles dois
homens estavam em cruzamento permanente como duas espadas frementes.

Os clamores da multidão immensa mantiveram-se no _maximum_ de
intensidade durante todo o tempo que durou a marcha triumphal. Miguel
Ardan deixava-se levar com evidente satisfação ao sabor das turbas.
Irradiava-lhe do rosto a alegria. Por vezes o estrado parecia jogar de
pôpa a proa, e de bombordo a estibordo como um navio batido pelas ondas.
Mas os dois heroes do _meeting_ que tinham pé de marinheiro, nem
vacillavam; e chegou-lhes a nave sem avaria ao porto de Tampa-Town.

Miguel Ardan conseguiu, por fortuna, escapar-se aos ultimos amplexos e
apertos de mão dos seus vigorosos admiradores; safou-se para o hotel
_Franklin_, subiu com presteza para o quarto, e metteu-se rapidamente na
cama, emquanto um exercito de cem mil homens velava debaixo das
janellas.

N'aquella mesma hora passava-se entre o personagem mysterioso e o
presidente do Gun-Club uma scena curta, porém grave e decisiva.

Barbicane apenas se vira livre, caminhára direito ao adversario.

«Vinde!» lhe disse com voz breve.

O outro seguiu-o para o caes e, dentro em pouco, acharam-se a sós á
entrada de um _Warfe_ que deitava para Jone's-Fall. Chegados áquelle
logar miraram-se os dois inimigos ainda então desconhecidos um para o
outro.

«Quem sois vós?» perguntou Barbicane.

--Sou o capitão Nicholl.

--Já o suspeitava. Até este momento nunca o acaso nos proporcionára
occasião de nos vermos frente a frente...

--Busquei-a eu!

--Insultastes-me!

--E em publico.

--Haveis de dar-me satisfação do insulto!

--Já.

--Não. Desejo que se passe tudo secretamente e só entre nós. Ha um
bosque situado a tres milhas de Tampa-Town, o bosque de Skersnow.
Conheceis-lo?

--Conheço.

--Será do vosso agrado entrar lá ámanhã ás cinco da manhã por
determinado lado?...

--Sim, se á mesma hora lá entrardes pelo outro.

--E que não esqueça o _rifle_? disse Barbicane.

--«Tanto como vós haveis de esquecer o vosso», respondeu Nicholl.

Pronunciadas friamente estas palavras, o presidente do Gun-Club e o
capitão separaram-se. Barbicane voltou para casa, mas em vez de
descansar por algumas horas, passou a noite a buscar meios de evitar a
repercussão do tiro dentro do projectil, a resolver o difficil problema
que Miguel Ardan apresentára na discussão do _meeting_.



CAPITULO XXI

COMO UM FRANCEZ ARRANJA UMA PENDENCIA DE HONRA


Emquanto entre o presidente e o capitão se discutiam as convenções do
duello, duello terrivel e selvagem, em que cada um dos adversarios se
transforma em caçador de outro homem, repousava Miguel Ardan das fadigas
do triumpho.

Repousar não é na realidade o termo adequado, porque as camas na America
podem disputar primazias em dureza com qualquer mesa de marmore ou de
granito. Dormia por consequencia Ardan, mas mal, dava voltas e voltas
entre os dois guardanapos que lhe serviam de lençoes, sonhando que
installava dentro do seu projectil uma camasinha mais _comfortable_,
quando um estrepito violento veio arranca-lo da região dos sonhos.
Empurravam-lhe a porta com pancadas desordenadas, que pareciam dadas com
instrumento de ferro. De envolta com aquelle tumulto excessivamente
matutino, ouviam-se formidaveis berros.

«Abre! abre, pelo amor de Deus!

Ardan não tinha motivo algum para annuir a um pedido feito com tanto
arruido. Não obstante levantou-se, e foi abrir a porta, no instante em
que ella estava para ceder aos esforços do teimoso visitante.

Irrompeu pelo quarto dentro o secretario do Gun-Club, que nem uma bomba
teria entrado com maior semcerimonia.

«Hontem á noite, prorompeu J.-T. Maston _ex abrupto_, o nosso presidente
foi insultado em publico no _meeting_! Desafiou o adversario, que é nem
mais nem menos que o capitão Nicholl! Batem-se esta manhã no bosque de
Skersnow! De tudo fui informado pela propria bôca de Barbicane! A morte
d'este é a aniquilação de nossos projectos! Por consequencia é
necessario pôr impedimento a tal duello! Um só homem n'este mundo exerce
no espirito de Barbicane influencia bastante para desvia-lo de seus
intentos, e esse homem é Miguel Ardan!»

Emquanto Maston assim dizia, Miguel Ardan, que logo desistíra de o
interromper, precipitára-se dentro das vastas calças, e menos de dois
minutos eram passados, já os dois amigos chegavam á desfilada aos
suburbios de Tampa-Town.

[Figura: No centro da teia debatia-se uma avesinha (pag. 193).]

No decurso d'aquella rapida carreira é que Maston foi pondo Ardan mais
ao facto da situação. Contou-lhe então as verdadeiras causas da
inimisade de Barbicane e Nicholl, como era de antiga data tal inimisade,
e por que rasões, nunca até áquella occasião, Barbicane e o capitão
tinham logrado encontrar-se cara a cara, graças aos esforços de communs
amigos; disse-lhe tambem que não havia ali mais do que rivalidade de
bala e chapa, e finalmente que a scena do _meeting_ fôra apenas a
occasião de ha muito procurada por Nicholl, para satisfazer antigos
rancores.

[Figura: Mappa da Florida (pag. 113).]

Nada ha mais terrivel que a fórma de duello peculiar da America, em que
os contendores se buscam por entre as matas, se espreitam pelas abertas
das çarças, e atiram um ao outro, no meio das devezas, como quem atira a
um animal feroz.

N'esse momento é que ambos os adversarios devem ter inveja das
maravilhosas qualidades que caracterisam os indios das planicies, da
rapida intelligencia e da engenhosa astucia de que estes são dotados, do
faro e da peculiar percepção dos rastos que os distinguem, quando seguem
pela pista o inimigo. Em taes occasiões é que o menor erro, a menor
hesitação, um passo só que seja, dado em falso, podem trazer por
consequencia a morte. Em taes recontros levam por vezes os yankees de
companhia os seus cães, e perseguem-se assim durante horas inteiras,
desempenhando a um tempo os papeis de caça e caçador.

«Que diabo de gente são estes americanos! exclamou Miguel Ardan, depois
que o companheiro acabou de lhe descrever com extrema energia todas
aquellas scenas.

--Somos assim tal qual, respondeu com modestia J.-T. Maston; mas vamos
apressando o passo.»

Entretanto por mais que Maston e Ardan corressem através da planicie,
ainda humida do orvalho da noite, passando arrozaes e ribeiros, tomando
sempre pelo caminho mais curto, não lograram chegar ao bosque de
Skersnow, antes das cinco horas e meia. Barbicane já havia boa meia hora
que devia ter-lhe passado a orla.

Trabalhava ali um velho _bushman_, cuja occupação era desfazer em
cavacos as arvores que derrubava com o machado.

Maston correu para elle a gritar:

«Vistes entrar na mata um homem armado de _rifle_, Barbicane, o
presidente... o meu melhor amigo?...»

O digno secretario do Gun-Club pensava ingenuamente que o seu presidente
havia por força de ser conhecido do mundo inteiro. Mas o _bushman_ não
deu mostras de o comprehender.

«Um caçador, disse então Ardan.

--Um caçador, sim vi, respondeu o _bushman_.

--E ha muito?

--Ha de haver uma hora.

--Já é tarde! clamou Maston.

--E ouvistes tiros de espingarda? perguntou Miguel Ardan.

--Nada.

--Nem um só?

--Nem um. Não me parece que o tal caçador tenha feito lá muito grande
caçada!

--Que se ha de fazer? disse Maston.

--É entrar na mata, mesmo correndo risco de apanhar algum balasio, que
não nos fosse destinado.

--Ah! exclamou Maston com accentuação, de cuja franqueza não era
permittido duvidar-se, antes eu queria apanhar dez balas na minha
propria cabeça, de que acertasse uma só na de Barbicane.

--Então ávante!» replicou Ardan, apertando a mão do companheiro.

Segundos depois desappareciam os dois amigos na espessura da mata, que
era formada de cyprestes-gigantes, sycomoros, tulipeiras, oliveiras,
tamarindos, carvalheiras e magnolias. Entrelaçavam-se as ramadas
d'aquellas differentes arvores, em tão emmaranhada confusão, que não
consentiam que a vista alcançasse muito ao longe. Miguel Ardan e Maston
caminhavam um junto do outro, passando em silencio por entre as hervas
altas, abrindo caminho por entre agudas silvas e vigorosas trepadeiras,
inquirindo com o olhar as moitas ou as ramadas perdidas por entre a
sombria espessura da folhagem, e esperando a cada instante ouvir a
temivel detonação dos _rifles_.

Rasto de Barbicane, na sua passagem através do bosque, é que não
logravam reconhecer. Caminhavam ás cegas por aquellas veredas apenas
pisadas, em que qualquer indio teria seguido passo por passo a marcha do
adversario.

Passada uma hora em pesquizas inuteis, fizeram alto os dois
companheiros. Redobrára-lhes a inquietação de espirito.

«É porque está tudo acabado, disse Maston desanimado. Barbicane não era
homem que jogasse astucias com o inimigo, nem que lhe armasse laços ou
usasse de manobras! É franco e corajoso de mais para isso. Caminhou em
frente, direito ao perigo, e por certo a tal distancia do _bushman_ que
o vento levou, sem que este a ouvisse, a detonação das armas de fogo!

--Mas nós! respondeu Miguel Ardan. Desde que entrámos no bosque não
haviamos de ter ouvido alguma cousa!

--E se chegámos tarde! exclamou Maston com intonação de desespero.

--Miguel Ardan como não tinha replica que dar-lhe proseguiu com Maston
na marcha interrompida.

De tempos a tempos davam grandes gritos: chamavam ora por Barbicane, ora
por Nicholl; mas nenhum dos dois adversarios respondia ás vozes d'elles.
Apenas alegres bandos de aves, despertadas pelo ruido, desappareciam por
entre as ramadas, ou algum gamo assustado fugia precipitado através da
mata.

Por mais uma hora ainda se prolongaram as pesquizas. Já fôra explorada a
maior parte da mata, e nada que revelasse a presença dos combatentes.
Era caso para pôr em duvida as asserções do _bushman_, e Ardan pensava
já em desistir de continuar por mais tempo uma busca inutil, quando, de
subito, Maston estacou.

--Chit! murmurou elle. Está acolá alguem!

--Alguem? respondeu Miguel Ardan.

--Sim! um homem! Parece estar immovel. Já não tem o _rifle_ nas mãos.
Que estará fazendo?

--Mas reconheces-lo? perguntou Ardan, a quem, myope como era, de pouco
servia a vista em tal conjunctura.

--Sim! sim! Lá se volta, respondeu Maston.

--E é?

--O capitão Nicholl!

--Nicholl! clamou Miguel Ardan, que sentiu apertar-se-lhe violentamente
o coração.

«Nicholl sem arma! Seria por nada ter já que receiar do adversario?

«Vamos ter com elle, disse Miguel Ardan; ficaremos desenganados.»

Mas apenas teriam caminhado uns cincoenta passos, elle e o companheiro
estacaram, para mais attentamente examinarem o capitão. Cuidavam
encontrar um homem sequioso de sangue, todo entregue a pensamentos de
vingança!

Ao verem-no pararam estupefactos. Distendia-se entre dois tulipeiros
gigantescos uma rede de apertada malha; mesmo no centro da teia,
debatia-se uma avesinha presa pelas azas, soltando lastimosos gritos. O
passarinheiro que assim dispozera a inextricavel rede não fôra um ser
humano, senão uma peçonhenta aranha, peculiar d'aquellas regiões, de
volume igual ao de um ovo de pomba e dotada de pernas enormes. Mas o
horrendo animalejo, no momento em que ía arrojar-se sobre a presa,
tivera de retirar, buscando asylo nas altas ramadas do tulipeiro, porque
por sua vez fôra ameaçado por temivel inimigo.

Effectivamente, Nicholl largára a espingarda e esquecido dos perigos da
situação, tratava de desembaraçar com extremos de delicadeza a victima
enlaçada nas redes da monstruosa aranha. E quando concluiu a obra, deu a
liberdade á pequena avesinha, que bateu alegremente as azas e
desappareceu.

Ainda Nicholl contemplava enternecido a avesinha que fugia de ramo em
ramo, quando ouviu as seguintes palavras ditas em tom de commoção:

«Isto é que é homem valente e de alma bem formada!»

Voltou-se, e encarou com Miguel Ardan, que repetia em todas as
intonações:

«É homem que merece ter amigos!»

--Miguel Ardan! exclamou o capitão. Que vindes fazer aqui, senhor?

--Apertar-vos a mão, Nicholl, e impedir que mateis Barbicane, ou que
sejaes morto por elle.

--Barbicane! exclamou o capitão, Barbicane, que eu procuro ha duas horas
sem lograr encontra-lo! Onde estará elle escondido?

--Nicholl, disse Miguel Ardan, isso é falta de cortezia! deve sempre
prestar-se respeito ao adversario; descansae, que se Barbicane é vivo
havemos de encontra-lo, e com tanta maior facilidade que, se é que não
passou o tempo como vós, entretido em soccorrer alguma avesinha
opprimida, deve andar em vossa procura. Mas quando dermos com elle, sou
eu, Miguel Ardan quem vo-lo diz, não é de duellos que se ha de tratar.

--Entre mim e o presidente Barbicane, respondeu com gravidade Nicholl,
ha rivalidades de tal ordem, que só a morte de um dos dois...

--Ora vamos, vamos, replicou Miguel Ardan, homens valentes e almas bem
formadas como vós outros, é possivel que se detestem, mas por certo
tambem se estimam. Não haveis de bater-vos.

--Hei-de bater-me, senhor!

--Isso é que não.

--Capitão, disse então J.-T. Maston com generoso animo, sou amigo do
presidente, o seu _alter ego_, outro elle; se desejaes absolutamente
matar alguem, disparae sobre mim, que é exactamente o mesmo.

--Senhor, disse Nicholl apertando com mão convulsa o _rifle_, essas
zombarias...

--O amigo Maston não está zombando, respondeu Miguel Ardan, e eu cá por
mim comprehendo perfeitamente a sua idéa de se fazer matar em vez do
homem de quem é amigo! Mas nem elle nem Barbicane hão de cair aos tiros
do capitão Nicholl, porque tenho a fazer aos dois rivaes uma proposta
por tal fórma seductora, que por certo hão de acceita-la com
enthusiasmo.

--Que proposta é então essa? perguntou Nicholl com visivel
incredulidade.

--Haja paciencia, respondeu Ardan, não posso fazer a communicação senão
na presença de Barbicane.

--Pois vamos por elle, exclamou o capitão.

No mesmo instante pozeram-se os tres a caminho; o capitão desarmou o
_rifle_, po-l'o ao hombro, e caminhou com passo soffreado, sem dizer
palavra.

Por espaço de meia hora ainda, foram inuteis todas as pesquizas. Maston
sentia-se dominado por sinistro presentimento, e observava Nicholl com
severidade, perguntando a si proprio se não estaria já satisfeita a
vingança do capitão, e Barbicane jazendo ferido de bala ao pé de alguma
moita ensanguentada. Miguel Ardan parecia dominado pelas mesmas idéas, e
ambos inquiriam com os olhos o capitão Nicholl, quando Maston estacou de
subito.

Encostado ao tronco de uma catalpa gigantesca via-se a uns vinte passos
o busto immovel de um homem com o corpo meio occulto por entre as
hervas.

«É elle!» murmurou Maston.

Barbicane nem se movia. Ardan olhou fito para os olhos do capitão, mas
este não trepidou. Ardan deu alguns passos, gritando:

«Barbicane! Barbicane!»

Nada de resposta.

Ardan encaminhou-se precipitado para o amigo, mas no momento em que ía
agarra-lo pelo braço, estacou de repente, soltando uma exclamação de
surpreza.

Barbicane, de lapis em punho, escrevia fórmulas e traçava figuras
geometricas n'uma carteira. A espingarda, essa jazia desarmada no chão.

O homem de sciencia, absorto pelo trabalho, esquecendo por sua parte
duello e vingança, nada víra nem ouvíra. Mas quando Miguel Ardan lhe poz
a mão nas d'elle, levantou-se e olhou com ar de espanto.

--Ah! exclamou por fim, tu aqui! Encontrei, amigo! encontrei!

--O que?

--Os meios!

--Mas que meios?

--Meios de annullar o effeito da repercussão do tiro á partida do
projectil!

--Realmente? disse Miguel Ardan, olhando de soslaio para o capitão.

--É verdade! agua, agua pura servirá de almofada.

Ah! Maston! exclamou Barbicane, tambem vós!

--Em propria pessoa, respondeu Miguel Ardan, e dá-me licença que te
apresente tambem por esta occasião o estimavel capitão Nicholl!

--Nicholl! exclamou Barbicane, levantando-se de subito. Perdão, capitão,
tinha-me esquecido... mas estou prompto...»

Miguel Ardan metteu-se de permeio sem dar tempo aos dois inimigos para
que se interpellassem.

«Por vida minha! disse Ardan, que foi uma verdadeira felicidade que dois
homens de alma generosa e elevada como vós dois se não tivessem
encontrado mais cedo! Tinhamos agora que estar chorando um dos dois! Mas
graças a Deus, que se metteu no negocio, já nada ha que receiar. Quando
dois homens esquecem os seus odios para se entregarem á resolução de
problemas de mechanica ou fazer partidas ás aranhas, é porque taes odios
não são perigosos para ninguem.»

E Miguel Ardan narrou ao presidente a aventura do capitão.

--«Ora perguntarei eu agora, disse Miguel em conclusão, se duas boas
pessoas como vós outros foram feitas para se esmigalharem reciprocamente
a cabeça a tiros de carabina?»

Havia n'aquella situação, um tanto ridicula, alguma cousa de tão
inesperado, que Barbicane e Nicholl não sabiam como comportar-se um em
relação ao outro. Miguel, que bem o percebeu, resolveu precipitar a
reconciliação.

«Estimaveis amigos, disse deixando apontar aos labios o mais agradavel
dos sorrisos, nunca houve entre vós dois senão equivocos. Nada mais.
Pois bem! para dar prova de que todas as contendas estão terminadas, e
visto como sois homens que não temem arriscar a pelle, acceitae sem
hesitar a proposta que vou fazer-vos.

--O amigo Barbicane pensa que o seu projectil ha de ir direitinho á Lua?

--Certamente que sim, replicou o presidente.

--E o amigo Nicholl está persuadido que o projectil ha de caír na Terra.

--Estou seguro d'isso, exclamou o capitão.

--Muito bem! proseguiu Miguel Ardan. Eu é que não tenho pretensões a
pôr-vos de accordo, mas sómente vos direi mui lhana e simplesmente:
Vinde commigo, para vermos assim se ficâmos ou não a meio caminho.

--Hum!» exclamou J.-T. Maston estupefacto.

Ao ouvirem tão inesperada proposta, os dois rivaes levantaram os olhos
um para o outro. Observavam-se attentamente. Barbicane aguardava a
resposta do capitão. Nicholl estava á espreita da primeira palavra do
presidente.

«Então? disse Miguel Ardan com intonação das mais convidativas. Visto
nada haver que receiar da repercussão!...

--Acceito! exclamou Barbicane.

Mas, por depressa que esta palavra fosse pronunciada pelo presidente,
tambem Nicholl a concluira ao mesmo tempo.

--Hurrah! bravo! viva! hip! hip! hip! clamou Miguel Ardan estendendo as
mãos aos dois adversarios. E agora que a pendencia está pacificamente
terminada, meus amigos, consintam-me que os trate á franceza. Vamos
almoçar.»



CAPITULO XXII

O NOVO CIDADÃO DOS ESTADOS UNIDOS


N'aquelle mesmo dia toda a America foi informada a um tempo do desafio
de Barbicane com o capitão Nicholl, e da aventura singular que lhe
puzera termo. O papel que desempenhára n'aquelle recontro o cavalheiroso
europeu, a proposta inesperada que viera cortar todas as dificuldades, a
acceitação simultanea dos dois rivaes, aquella conquista do continente
lunar, para emprehender a qual íam marchando de accordo França e Estados
Unidos, tudo se reuniu para ainda mais augmentar a popularidade de
Miguel Ardan.

É sabido qual o phrenesi com que os yankees se apaixonam por qualquer
individualidade. Imagine-se qual seria a paixão desencadeada em favor do
audacioso francez, n'aquelle paiz onde até os mais graves magistrados
não duvidam puxar á carruagem de qualquer dansarina para a levarem em
triumpho. Se não desatrelaram os cavallos de Ardan, foi provavelmente
porque elle os não tinha, que no demais foram-lhe prodigalisadas todas
as provas imaginaveis de enthusiasmo. Não houve um só cidadão que senão
unisse a elle de alma e coração. _Ex pluribus unum_, que é a divisa dos
Estados Unidos.

A partir d'aquelle dia, não teve Miguel Ardan um só momento de socego.
Vinham procura-lo deputações de todos os cantos da União, que o
attribulavam e que não promettiam ter fim, nem tregua. E o mais é que
tinha que as receber, com vontade ou sem ella. Quantos apertos de mão
deu, a quanta gente tratou por tu, é cousa que nem póde calcular-se.
Dentro em pouco tempo estava exhausto de forças, a voz já mal lhe saía
dos labios em sons inintelligiveis, rouca dos innumeraveis _speechs_; ía
arranjando uma gastro-enterite de tanto _toast_ que se viu obrigado a
fazer a todos os condados da União. Um triumpho tal teria subido á
cabeça a outro qualquer logo no primeiro dia, mas Ardan teve artes de
nunca passar de uma espirituosa e encantadora semi-ebriedade.

Entre as deputações de todos os generos que por aquella occasião o
assaltaram, não soube esquecer quanto devia ao futuro conquistador da
Lua, a dos «lunaticos». Certo dia, alguns d'estes pobres diabos,
abundantes na America, vieram ter com elle e pedir-lhe que os levasse
comsigo para o paiz natal. Alguns houve que affirmaram saber fallar a
«lingua selenita» e que até a quizeram ensinar a Miguel Ardan.
Prestou-se este de bom grado a tão innocente mania, e até se encarregou
de recados e encommendas para os amigos que os pobres diabos diziam ter
na Lua.

«Singular loucura, disse Ardan a Barbicane, depois que os despediu, e
loucura que ataca as mais das vezes as intelligencias mais agudas.
Dizia-me Arago, um dos nossos mais illustres homens de sciencia, que
muitas pessoas, aliás extremamente sensatas e cautelosas nas suas
concepções, se deixam arrastar a grande exaltação e a incriveis
singularidades, todas as vezes que se occupam da Lua. E tu não dás
credito á influencia da Lua sobre as doenças?

[Figura: Parti commigo para vermos (pag. 197).]

--Pouco, respondeu o presidente do Gun-Club.

[Figura: O gato tirado da bomba (pag. 206).]

--Tambem eu não; apesar de que a historia tem registrado factos que,
pelo menos, são para causar admiração. Assim em 1693, durante certa
epidemia, morreu muita mais gente no dia 21 de janeiro, por occasião de
um eclipse. O celebre Bacon desmaiava nas occasiões de eclipse da Lua, e
só voltava a si depois da completa emersão do astro. O rei Carlos VI
recaíu por seis vezes em demencia, no decurso do anno de 1399, e sempre
em occasião de Lua nova ou de Lua cheia. Affirmam alguns medicos que a
epilepsia deve classificar-se entre as doenças que acompanham as phases
da Lua. As molestias nervosas tambem por vezes parecem depender da
influencia lunar. Conta Mead que havia no seu tempo um menino que
entrava em convulsões logo que a Lua entrava em opposição. Gall notou
que a exaltação das pessoas debeis cresce duas vezes em cada mez, uma no
_novi-lunio_, outra no _pleni-lunio_. Finalmente, ha mais de um milheiro
de observações d'este genero, em respeito a vertigens, febres malignas e
ataques de somnambulismo, que todos tendem a provar que o astro das
noites gosa de mysteriosa influencia sobre o curso das doenças
terrestres.

--Mas como? porque? perguntou Barbicane.

--Porque? respondeu Ardan. Á fé que te hei de dar a mesma resposta que
Arago repetia dezenove seculos depois de Plutarco: «Talvez seja
exactamente por não ser verdade!»

No meio do seu triumpho, não logrou Miguel Ardan escapar-se a nenhuma
das massadas inherentes ao estado de homem celebre. Os especuladores de
vogas e celebridades de occasião tentaram pô-lo em exhibição. Barnum
chegou a offerecer-lhe um milhão para adquirir o direito de o
transportar de cidade em cidade, em todos os Estados Unidos, e mostra-lo
qual animal raro. A resposta de Miguel Ardan foi alcunha-lo de _cornac_,
e manda-lo a elle Barnum... passeiar.

Todavia, recusando-se aliás a satisfazer por tal fórma a curiosidade
publica, deixou Ardan pelo menos que seus retratos corressem pelo mundo
inteiro e occupassem logar de honra em todos os albums; d'elles se
tiraram provas de todas as dimensões, desde as de tamanho natural até as
da grandeza microscopica da estampilha do correio. Estava ao alcance de
toda a gente possuir a imagem do heroe, em qualquer das posições
imaginaveis; cabeça só, meio corpo, corpo inteiro, de frente, de perfil,
de tres quartos e até de costas. Tirou-se mais de milhão e meio de
exemplares. A occasião era bem boa para se desfazer em reliquias, mas
Ardan é que a não soube aproveitar. Só a vender os cabellos a dollar
cada um, podia fazer uma fortuna, e mais já não eram muitos!

A popularidade, querendo fallar com inteira franqueza, não lhe era
desagradavel. Pelo contrario, Ardan punha-se á disposição do publico, e
correspondia-se com o universo inteiro. Por toda a parte se contavam,
repetiam e propalavam os ditos conceituosos d'elle, muito principalmente
os que elle nem tinha proferido. Como é uso, por isso mesmo que n'essa
parte lhe sobrava a riqueza, é que mais lhe queriam dar ou emprestar. E
não sómente soube tornar propicios os homens, senão tambem as mulheres.
Bastaria que lhe tivesse passado pela cabeça a phantasia de «entrar no
rol dos homens serios», para ter arranjado um numero infinito de «bellos
casamentos». Principalmente as velhas _misses_, d'estas que ha bons
quarenta annos se mirravam por não casar, todas devaneiavam dia e noite
diante das photographias d'elle.

Certo é que teria achado companheiras aos centos, aindaque lhes
impuzesse como condição acompanharem-n'o na aerea viagem; que as
mulheres quando lhes não dá para de tudo terem medo, são verdadeiramente
intrepidas. Porém, como Ardan não tinha intento de fazer estirpe no
continente lunar, nem de para lá transportar raça atravessada de francez
e americano, recusou-se formalmente a todos os enlaces.

«Ir eu lá para cima, dizia elle, fazer o papel de Adão com uma filha de
Eva, obrigado! E se lá encontrasse serpentes!...»

Ardan, logoque alfim logrou subtrahir-se ás alegrias exageradamente
repetidas do triumpho, foi com os amigos fazer uma visita á Columbiada,
que bem lh'o merecia. De mais a mais, depois que Ardan vivia em contacto
com Barbicane, J.-T. Maston e _tutti quanti_ tinha-se tornado muito
sabedor em questões de balistica. O seu maior prazer consistia então em
repetir aos estimaveis artilheiros, que não eram elles mais do que
amaveis e sabios assassinos. Ácerca de tal assumpto nunca se lhe
esgotava a musa epigrammatica. No dia em que visitou a Columbiada,
admirou-a com enthusiasmo e desceu até ao fundo da alma do gigantesco
morteiro, que em breve havia de arremessa-lo para o astro das noites.

«Este canhão ao menos, disse, não ha de fazer mal a ninguem; o que da
parte de um canhão já não é pouco para admirar. Mas não me venham cá
fallar d'esses machinismos que destroem, que incendeiam, que despedaçam,
que matam, e ainda menos dizer-me que têem «alma», que lá isso é que eu
nunca hei de acreditar!»

Vem a pêllo narrar n'este logar um caso que diz respeito a J.-T. Maston.
Quando o secretario do Gun-Club ouviu que Nicholl e Barbicane acceitavam
a proposta de Miguel Ardan, resolveu lá no intimo juntar-se com elles, e
fazer assim «uma parceirada de quatro»; um bello dia pediu para entrar
na viajata. Barbicane, sentindo immenso ter que lhe responder com uma
recusa, fez-lhe ver que o projectil não tinha lotação para tanto
passageiro. J.-T. Maston, desesperado, foi ter com Miguel Ardan, que o
convidou a resignar-se, fazendo até valer certos argumentos _ad
hominem_.

«Ora pensa bem, meu velho Maston, e não vás tomar as minhas palavras em
mau sentido; mas aqui para nós, a verdade é que estás muito incompleto
para te apresentar assim na Lua!

--Incompleto! exclamou o velho invalido.

--Sim! meu estimavel amigo! Ora põe-te no caso de encontrarmos
habitantes lá em cima. Quererias tu dar-lhes tão triste idéa do que se
passa cá por baixo, patentear-lhe o que é a guerra, demonstrar-lhes que
empregâmos por cá o melhor do nosso tempo a devorar-nos, a comer-nos, a
quebrar-nos reciprocamente pernas e braços, e isto n'um globo que
poderia alimentar cem mil milhões de habitantes, e que apenas tem mil e
duzentos milhões d'elles? Ora vamos, meu digno amigo, isso era até caso
de nos pôrem de lá fóra, por tua causa!

--Mas se vós lá chegardes feitos em pedaços, replicou J.-T. Maston,
estareis tão incompletos como eu!

--De certo, respondeu Miguel Ardan, mas a verdade é que não havemos de
chegar lá feitos em pedaços!»

Effectivamente, uma experiencia preparatoria, que se tentou a 18 de
outubro, dera optimo resultado e fizera conceber as mais fundadas
esperanças. Barbicane, que desejava conhecer exactamente o effeito da
repercussão do tiro no momento da partida do projectil, fez trazer do
arsenal de Pensacola um morteiro de trinta e duas pollegadas (0,75
centimetros), que installaram na praia do molhe de Hillisboro, para que
a bomba viesse a cair no mar e o choque da quéda fosse amortecido pela
agua, visto tratar-se sómente de experimentar ácerca do abalo á partida
e não do choque á chegada.

Foi preparado com os maiores cuidados para a realisação d'esta curiosa
experiencia um projectil ôco. Estofava-lhe as paredes internas um
expesso acolchoado assente em cima de uma rede de molas de aço da mais
fina tempera. Era um verdadeiro ninho cuidadosamente almofadado.

«Que pena não caber eu lá dentro!» dizia J.-T. Maston, lamentando que o
proprio volume lhe não consentisse tentar a aventura. N'aquella
encantadora bomba, que fechava por meio de uma tampa de rosca,
introduziram primeiro um gato, depois um esquilo pertencente a J.-T.
Maston, e a que o secretario do Gun-Club tinha particular affeição. Mas
havia desejos de saber como é que aquelle animalsinho, pouco sujeito a
vertigens, supportaria a viagem de experiencia.

Carregou-se o morteiro com cento e sessenta libras de polvora, e
collocada a bomba na peça, fez-se fogo. No mesmo instante elevou-se
rapidamente o projectil, descreveu magestosamente a sua parabola, chegou
á maxima altura de approximadamente mil pés e foi-se abysmar por entre
as vagas, descendo por graciosa curva.

Dirigiu-se sem perda de tempo uma embarcação para o logar onde caira a
bomba, precipitaram-se habeis mergulhadores debaixo de agua e amarraram
cabos ás auriculas da bomba que de prompto foi içada a bordo. Nem cinco
minutos tinham decorrido entre o momento em que os animaes tinham sido
encerrados na bomba e aquelle em que se lhes desatarraxou a tampa da
prisão.

Ardan, Barbicane, Maston e Nicholl estavam na embarcação e assistiram á
operação com um sentimento de interesse facil de conceber. Apenas se
abriu a bomba, saltou fóra o gato um tanto machucado é verdade, mas
cheio de vida, e sem ares de quem regressava de tal expedição. Mas a
respeito de esquilo é que nada. Procurou-se. Nem rasto. A final não
houve mais remedio de que reconhecer a verdade. O gato tinha comido o
companheiro de viagem.

J.-T. Maston ficou extremamente contristado com a perda do pobre
esquilo, e assentou que devia inscrever-lhe o nome no martyrologio da
sciencia.

Caso é que depois d'aquella experiencia desappareceram todas as
hesitações e todos os temores. Demais, os planos de Barbicane ainda
haviam de aperfeiçoar o projectil e annullar quasi completamente os
effeitos da repercussão. Portanto nada mais restava a fazer, senão
partir.

Dois dias depois Miguel Ardan recebeu uma mensagem do presidente da
União, honra a que se mostrou notavelmente sensivel.

O governo, tomando exemplo do que se praticára para com o cavalheiroso
marquez de La Fayette, compatriota de Ardan, conferira a este o titulo
de cidadão dos Estados Unidos da America.



CAPITULO XXIII

O WAGON-PROJECTIL


Depois que ficára concluida a celebre Columbiada, volvêra-se
immediatamente a attenção publica para o projectil, novo vehiculo
destinado a conduzir através do espaço os tres ousados aventureiros. A
ninguem esquecêra, que Miguel Ardan tinha pedido, no telegramma de 30 de
setembro, que se modificassem os planos combinados pelos membros da
commissão.

Pensava então o presidente Barbicane, e com justa rasão, que era de
pouca importancia a fórma do projectil, porque depois de atravessar a
atmosphera em poucos segundos, havia de realisar o resto do percurso no
vasio absoluto.

Adoptára por consequencia, a commissão a fórma espherica, para que a
bala podesse girar sobre si propria e comportar-se como lhe acudisse á
phantasia. Mas logoque a transformavam em vehiculo, o caso era outro.

Miguel Ardan nenhum prazer tinha por certo em fazer viagem á maneira de
esquilo; desejava subir, sim, mas de cabeça para cima e de pés para
baixo, com tanta dignidade e compostura como se viajára na barquinha de
qualquer balão; seguramente com maior rapidez, mas sem se ver obrigado a
fazer uma serie de cambalhotas menos decorosas.

[Figura: Chegada do projectil a Stone's-Hill (pag. 210).]

Mandaram-se portanto novos planos á casa Breadwill e C.^a de Albany, e
com expressa recommendação de os pôr sem demora em execução.

[Figura: J.-T. Maston tinha engordado! (pag. 217).]

O projectil fundiu-se, com as modificações apontadas, a 2 de novembro, e
foi expedido immediatamente para Stone's-Hill pela via ferrea de leste.

A 10, chegou sem accidente ao logar a que era destinado. Miguel Ardan,
Barbicane e Nicholl esperavam com a maior impaciencia «o
wagon-projectil» em que haviam de tomar passagem para voarem á
descoberta de um mundo novo.

O projectil, força é confessá-lo, era uma peça de metal magnifica, um
producto metallurgico que dava honra ao engenho industrial dos
americanos. Pela vez primeira fôra o aluminium obtido em massa tão
consideravel, e esse resultado só por si merecia com justiça ser
considerado como um prodigio.

O precioso projectil scintillava aos raios do sol. Quem o visse com
aquellas suas fórmas de metter respeito, coberto com o seu chapéu
conico, facilmente o tomaria por uma d'aquellas macissas torres em fórma
de pimenteiro, que os architectos da idade media suspendiam dos angulos
dos castellos fortificados. Só lhe faltavam grimpa e setteiras.

«Está-se-me figurando, exclamou Miguel Ardan, que vae d'ali saír um
homem de armas com o seu arcabuz e o seu corsalete de aço. Havemos de
estar lá dentro quaes senhores feudaes. Se levassemos alguma artilheria
poderiamos d'ali fazer frente a todos os exercitos selenitas, se é que
ha exercitos na Lua.

--Com que então agrada-te o vehiculo? perguntou Barbicane ao amigo.

--Sim! Sim! de certo, respondeu Miguel que o estava examinando como
artista.

--Sinto unicamente que não tenha as fórmas mais esbeltas e ligeiras, o
cone mais gracioso; deviam ter-lhe posto como remate um florão de
ornatos de metal lavrado, com uma chimera, por exemplo, uma carranca, ou
uma salamandra a saír do fogo com as azas desdobradas e as fauces
abertas...

--E para que servia tudo isso? disse Barbicane, cujo espirito positivo
era pouco sensivel ás bellezas da arte.

--Para que servia, amigo Barbicane! Ai de mim! só pelo facto de m'o
perguntares fico quasi seguro de que nunca o has de vir a comprehender!

--Vae sempre dizendo, estimavel companheiro.

--Pois ouve lá; é minha opinião que devemos sempre attender um pouco á
arte em tudo quanto fazemos. Conheces acaso uma comedia india intitulada
o _Carro do menino_?

--Nem de nome, respondeu Barbicane.

--Tambem não admira, proseguiu Miguel Ardan. Sabe pois, que n'essa
comedia ha um ladrão que na occasião em que está para furar a parede de
uma casa, cogita se ha de dar ao buraco a fórma de lyra, de flor, de ave
ou de amphora?

Ora responde lá, amigo Barbicane, se n'aquella epocha fosses membro do
jury, condemnavas o tal ladrão?

--Sem hesitar, respondeu o presidente do Gun-Club, e com a circumstancia
aggravante do arrombamento.

--Pois eu cá absolvia-o, amigo Barbicane! E aqui está a rasão porque tu
nunca me has de comprehender!

--Nem trato d'isso, meu valente artista.

--Pelo menos, proseguiu Ardan, já que o exterior do nosso
_wagon-projectil_ fica áquem dos meus desejos, hão de me dar licença que
o mobile a meu geito e com todo o luxo que quadra a embaixadores da
Terra!

--Lá a esse respeito, meu caro Miguel, respondeu Barbicane, farás o que
te dictar a phantasia, deixar-te-hemos fazer o que melhor te aprouver.»

O presidente do Gun-Club porém, antes de passar ao agradavel, cuidára do
util, e conseguira fazer applicar os meios por elle inventados para
diminuir os effeitos da repercussão, com perfeita intelligencia.

Tinha Barbicane pensado, e com rasão, que nenhuma especie de molas teria
força bastante para amortecer o choque, e no decurso d'aquelle famoso
passeio da matta de Skersnaw, conseguíra resolver aquella grande
difficuldade por uma fórma engenhosa. Á agua é que elle contava ser
devedor de tão assignalado serviço. Eis por que maneira:

Encher-se-ia o projectil, até a altura de tres pés, de uma camada de
agua destinada a aguentar um disco de madeira perfeitamente estanque que
escorregasse com attrito pelas paredes internas do projectil.

Em cima d'aquella especie de jangada é que haviam de ir collocados os
viajantes. A massa liquida havia de ser dividida por tabiques
horisontaes que o choque á partida espedaçaria successivamente. N'esse
mesmo momento todos os lençoes de agua, desde o debaixo até ao de cima,
saíndo por tubos de despejo para a parte superior do projectil, fariam
almofada; não podendo o disco, aliás guarnecido como era de possantes
chapuzes, ir de encontro á culatra do projectil senão depois de terem
sido successivamente esmagados os differentes tabiques. Por certo que os
viajantes sempre haviam de soffrer violenta repercussão depois da saída
completa da massa liquida, mas o primeiro choque havia de ser quasi
completamente amortecido por aquella mola de grande potencia. Verdade é,
que tres pés de altura de agua n'uma área de cincoenta e quatro pés
quadrados haviam de pesar perto de onze mil e quinhentas libras; mas a
força elastica dos gazes accumulados dentro da Columbiada na opinião de
Barbicane, havia de ser bastante para vencer mais aquelle augmento de
peso; demais o choque havia de expellir aquella agua toda em menos de um
segundo, e o projectil de prompto retomaria o peso normal.

Era isto o que o presidente do Gun-Club imaginára, esta a maneira por
que pensava ter resolvido o importante problema do amortecimento da
repercussão do tiro.

De mais a mais, aquelle trabalho fôra comprehendido com perfeita
intelligencia pelos engenheiros da casa Breadwill, e tambem
maravilhosamente executado. Produzido o effeito desejado, e expellida a
totalidade da agua, podiam os viajantes, desembaraçar-se com facilidade
dos tabiques espedaçados, e desarmar o disco movel que os aguentára no
momento da partida.

As paredes superiores do projectil, essas eram cobertas de um acolchoado
expesso de couro, assente sobre espiraes do mais fino aço, tão flexiveis
como molas de relogio. Os tubos de esgoto escondidos por debaixo do
acolchoado nem deixavam suspeitar que existiam.

Tinham-se portanto tomado por aquella fórma todas as precauções
imaginaveis para amortecer o primeiro choque, e, segundo dizia Ardan,
quem ainda assim se deixasse esmagar, é porque era «de má raça.»

Media o projectil, pela parte de fóra, doze pés de altura sobre nove de
largura.

E, para que não excedesse o peso calculado, tinham-lhe diminuido um
pouco a espessura das paredes, e reforçado a culatra que tinha de
aguentar toda a violencia dos gazes desenvolvidos pela deflagração do
pyroxylo.

Assim succede geralmente com as bombas e obuzes cylindro-conicos, cuja
maior espessura é sempre na culatra.

A entrada para aquella torre de metal era por uma estreita abertura
reservada nas paredes do cone, similhante aos «buracos de homem» que
têem as caldeiras a vapor, e que fechava hermeticamente por meio de uma
chapa de aluminium, apertada da parte de dentro por possantes parafusos
de pressão. Podiam portanto os viajantes saír á vontade da sua movel
prisão, logoque lograssem chegar ao astro das noites.

Mas o caso não estava só em ir, estava tambem em ir vendo pelo caminho.
Nada mais facil. Por debaixo do acolchoado das paredes estavam quatro
vigias com vidros lenticulares de grande espessura, duas abertas na
parede circular do projectil, uma no fundo e outra no chapéu conico.
Teriam portanto os viajantes toda a facilidade para observarem durante o
percurso, quer a Terra que deixavam, quer a Lua que íam buscar, quer os
espaços constellados do céu.

As vigias estavam defendidas do choque á partida por chapas fortemente
encaixadas, que era facil fazer caír para a parte de fóra desatarraxando
porcas collocadas pela parte de dentro. Tornavam-se por aquella maneira
possiveis quaesquer observações, sem que o ar contido no projectil
podesse de lá saír.

Todos aquelles mechanismos, admiravelmente construidos e collocados,
trabalhavam com a maior facilidade; os constructores tambem não deram
menor prova de intelligencia na arrumação interna do wagon-projectil.

Para a conducção da agua e viveres necessarios para os tres viajantes
havia recipientes solidamente seguros, e até aos passageiros era dado
obter fogo e luz, porque tambem levavam gaz armazenado em recipiente
especial debaixo de uma pressão equivalente a muitas atmospheras. Era
abrir uma torneira, e tinham gaz para lhes illuminar e aquecer o
confortable vehiculo para seis dias.

Claro está que não lhes faltava nada do que se póde reputar essencial á
vida ou mesmo á commodidade. Alem d'isto, e graças aos instinctos de
Miguel Ardan, veio ainda o agradavel juntar-se ao util, sob fórma de
obras de arte; Miguel se não lhe faltára espaço, fazia do projectil um
verdadeiro _atelier_ de artista.

Errada seria a supposição de quem imaginasse que tres pessoas não
estavam bem á larga n'aquella torre de metal.

Media-lhe a capacidade interna uma superficie de proximamente cincoenta
e quatro pés quadrados por dez pés de altura, espaço que já consentia
aos viajeiros certa liberdade de movimentos. Nem que fossem no mais
_confortable_ wagon dos Estados Unidos estariam tanto á sua vontade.

Estando resolvida a questão de mantimentos e illuminação, faltava ainda
a questão do ar. Era evidente que o ar contido no projectil não podia
chegar para a respiração dos tres viajantes pelo espaço de quatro dias;
effectivamente, cada homem gasta n'uma hora todo o oxygenio contido em
cem litros de ar. Barbicane, os dois companheiros e dois cães que
tencionavam levar, haviam de consumir só em vinte e quatro horas, dois
mil e quatrocentos litros de oxygenio, em peso proximamente sete libras.
Forçoso era portanto renovar o ar do interior do projectil. Mas como?
Por um processo muito simples, o dos srs. Reiset e Regnault, o mesmo a
que Miguel alludíra no correr da discussão do meeting.

É vulgarmente sabido que o ar se compõe essencialmente de vinte e uma
partes de oxygenio e setenta e nove de azoto. E o que é que succede no
acto da respiração? Um phenomeno muito simples. O homem absorve o
oxygenio do ar, gaz eminentemente proprio para sustentar a vida e
expelle o azoto intacto. O ar expirado perdeu perto de cinco por cento
do seu oxygenio e contém um volume proximamente igual de acido
carbonico, que é o producto definitivo da combustão dos elementos do
sangue pelo oxygenio inspirado. Portanto, em qualquer logar fechado, ha
de succeder sempre, depois de certo tempo, transformar-se todo o
oxygenio do ar em acido carbonico, gaz que é essencialmente deleterio.

Como o azoto se conservava intacto, reduzia-se portanto a questão ao
seguinte: 1.^o, refazer o oxygenio absorvido; 2.^o, destruir o acido
carbonico expirado. E não ha nada mais facil, por meio do chlorato de
potassa e da potassa caustica.

O chlorato de potassa é um sal que se apresenta sob fórma de palhetas
brancas; aquecido a uma temperatura superior a quatrocentos graus,
transforma-se em chloreto de potassium, abandonando todo o oxygenio que
contém. Dezoito libras de chlorato de potassa rendem por este processo
sete libras de oxygenio, isto é, a quantidade d'elle necessaria aos
viajantes para vinte e quatro horas. E aqui está como se havia de fazer
o oxygenio.

A potassa caustica, essa é uma substancia muito avida do acido carbonico
misturado com o ar. Basta agita-la no ambiente para que elle se apodere
do acido carbonico, formando bicarbonato de potassa. E aqui está tambem
como havia de ser destruido o acido carbonico.

Estes dois meios combinados restituem seguramente ao ar viciado todas as
suas qualidades vivificadoras. Prova-o a experiencia feita com bom exito
pelos dois chimicos, os srs. Reiset e Regnault.

Mas, força é confessar, que as experiencias até então feitas tinham
sempre sido realisadas _in anima vili_. Ignorava-se absolutamente qual
seria o effeito d'ellas sobre o homem, apesar da extrema precisão
scientifica com que tinham sido executadas.

Esta foi a observação que a todos se offereceu na sessão em que foi
ventilado tão grave assumpto. Miguel Ardan, que nem por sombras duvidava
da possibilidade de viver por meio do ar, assim artificialmente
preparado, offereceu-se para experimenta-lo antes da partida.

Porém Maston reclamou para si proprio com energia a honra de tentar o
ensaio.

«Já que me não deixam partir, dizia o valente artilheiro, não será
grande favor deixarem-me ao menos habitar no projectil por uns oito
dias.»

Recusar em tal caso, era prova de má vontade. Satisfizeram-lhe portanto
os desejos. Puzeram-se á disposição de Maston quantidades de chlorato de
potassa, de potassa caustica e viveres bastantes para oito dias: em
seguida e depois do aperto de mão aos amigos, encaixou-se o estimavel
secretario no projectil, cuja tampa foi hermeticamente fechada, a 12 de
novembro ás seis horas da manhã, recommendando expressamente que lhe não
abrissem a prisão antes do dia 20 ás seis horas da tarde.

O que lá dentro se passava no decurso d'aquelles oito dias, não era
possivel imagina-lo, que a espessura das paredes do projectil impedia
que se percebesse cá de fóra qualquer ruido interior.

A 20 de novembro, ás seis horas em ponto, desaparafusou-se a chapa: os
amigos de Maston sempre estavam um tanto desassocegados de espirito. Mas
de prompto lhes serenou o animo uma voz alegre, que soltava formidavel
hurrah.

Pouco depois appareceu no vertice do cone o secretario do Gun-Club em
postura de triumphador.

Tinha engordado!



CAPITULO XXIV

O TELESCOPIO DAS MONTANHAS PENHASCOSAS


A 20 de outubro do anno anterior, depois de fechada a subscripção, tinha
o presidente do Gun-Club aberto um credito a favor do observatorio de
Cambridge, no valor das quantias necessarias para construir um enorme
instrumento optico. Devia tal apparelho, luneta ou telescopio, ser de
força bastante para tornar visivel na superficie da Lua qualquer objecto
de nove pés de largura maxima.

Ha uma differença importante entre uma luneta e um telescopio, que é
conveniente recordar aqui: a luneta compõe-se de um tubo, que tem na
extremidade superior uma lente convexa, chamada objectivo, e na
extremidade inferior outra lente chamada ocular, a que se applica o olho
do observador. Os raios que emanam do objecto luminoso atravessam a
primeira lente e vão, em virtude da refracção, formar uma imagem
invertida do objecto no foco[88] d'ella. Essa imagem é que é observada
por meio do ocular, que a amplifica exactamente como qualquer lupa.
Claro está pois que o tubo da luneta fica fechado n'uma e n'outra
extremidade pelo objectivo e pelo ocular.

O tubo do telescopio, pelo contrario, é aberto na extremidade superior.
Os raios luminosos que partem do objecto observado penetram livremente
no tubo e vão incidir n'um espelho metallico concavo, e portanto
convergente. D'ahi partem esses raios depois de reflectidos a encontrar
um espelho menor que os envia para um ocular, disposto por fórma que
amplifique a imagem produzida.

Nas lunetas portanto desempenha papel principal a refracção, nos
telescopios a reflexão. É d'ahi que vem dar-se ás primeiras o nome de
refractores, e aos segundos o de reflectores. A principal difficuldade
de execução de taes apparelhos de optica está na construcção dos
objectivos, quer sejam lentes, quer espelhos metallicos.

Entretanto na epocha em que o Gun-Club tentou a sua grande experiencia,
estavam já estes instrumentos notavelmente aperfeiçoados, e davam
resultados magnificos. Longe ia o tempo em que Galileu observára os
astros com a sua pobre luneta, que apenas amplificava na proporção de
sete para um, se tanto. Do seculo XVII até então tinham os instrumentos
de optica crescido em comprimento e largura em proporções consideraveis,
que permittiam explorar os espaços estellares até uma profundidade até
áquella epocha ignorada.

Entre os instrumentos refractores que já então funccionavam, podem
citar-se a luneta do observatorio de Pulkowa, na Russia, cujo objectivo
mede quinze pollegadas (38 centimetros[89]), em largura, a luneta do
constructor francez Lerebours, que tinha um objectivo igual ao da
anterior, e finalmente a luneta do observatorio de Cambridge, com um
objectivo de dezenove pollegadas de diametro (48 centimetros).

A respeito de telescopios, dois eram já conhecidos de notavel força e de
gigantescas dimensões. O mais antigo, construido por Herschel tinha
trinta e seis pés de comprimento e um espelho de quatro pés e meio de
largura. Com este instrumento se obtinham amplificações de seis mil por
um. O segundo fôra construido na Irlanda, em Kreastle no parque de
Parsoastown, a expensas de lord Rosse. O comprimento do tubo d'este
ultimo era de quarenta e oito pés, e a largura do espelho de seis pés (1
metro e 93 centimetros)[90]; amplificava na proporção de seis mil e
quatrocentos para um, e fôra necessario construir uma immensa mole de
pedra e cal para dispôr os apparelhos necessarios para a manobra do
instrumento, que pesava vinte e oito mil libras.

Mas, como acabâmos de ver, apesar d'estas colossaes dimensões, não
podéra obter-se amplificação em proporção superior a seis mil para um,
numeros redondos; ora uma amplificação na proporção de seis mil para um,
apenas trás a Lua á distancia de trinta e nove milhas (16 leguas),
distancia á qual os objectos que têem sessenta pés de diametro são
apenas perceptiveis, a não ser que sejam extremamente alongados.

[Figura: O telescopio das Montanhas penhascosas (pag. 225).]

E como no caso em questão, se tratava de um projectil de nove pés de
largura por quinze de comprimento, forçoso era trazer a Lua a cinco
milhas (2 leguas) pelo menos, e n'esse intuito, realisar amplificações
na proporção de quarenta e oito mil para um.

[Figura: Interior do projectil (pag. 231).]

Era este o problema proposto ao observatorio de Cambridge, a quem
sómente incumbia resolver difficuldades materiaes, pois que as
pecuniarias lhe não tolhiam o passo.

Primeiro que tudo, teve o observatorio de optar entre telescopios e
lunetas. As lunetas levam certa vantagem aos telescopios. Com igual
objectivo, obtem-se por meio de uma luneta amplificações em proporção
mais consideravel, porque os raios luminosos que atravessam as lentes
perdem menos pela absorpção de que pela reflexão no espelho metallico do
telescopio. Em compensação a espessura de que é possivel construir-se
uma lente é limitada, porque sendo a lente demasiado espessa, não deixa
passar os raios luminosos. Alem d'isto a construcção das enormes lentes
a que nos vamos referindo é extremamente difficil e leva um tempo tão
consideravel, que se mede aos annos.

Conseguintemente, apesar de serem as imagens mais illuminadas nas
lunetas, vantagem aliás de subido preço quando se trata de observar a
Lua que apenas emitte luz reflectida, decidiu o observatorio usar de um
telescopio que se podia construir com mais promptidão e que permittiria
obter amplificações em proporção maior. E como os raios luminosos perdem
grande parte da sua intensidade no atravessar da atmosphera, resolveu o
Gun-Club que o instrumento fosse assente n'uma das mais elevadas
montanhas da União, circumstancia esta que havia de diminuir a espessura
das camadas aereas atravessadas pela luz lunar.

Nos telescopios, como já dissemos, é a lente collocada no olho do
observador, o ocular, que produz a amplificação, e o objectivo que
maiores amplificações consente, é o que tem mais extenso diametro e
maior distancia focal. Para conseguir amplificações na proporção de
quarenta e oito mil para um, forçoso era ir nas dimensões muito alem das
objectivas de Herschell e de lord Rosse. E exactamente ahi é que estava
a difficuldade, porque a fundição dos espelhos de tal grandeza é
operação estremamente delicada.

Por fortuna, inventára poucos annos antes, um homem de sciencia do
instituto de França, Léon Foucault, um processo que tornára muito facil
e muito rapida a operação de polir os objectivos telescopicos,
substituindo os espelhos metallicos por espelhos prateados. Por este
processo basta fundir um pedaço de vidro do tamanho requerido,
metallisar-lhe depois a superficie por meio de um sal de prata, e está
construido e polido o espelho. Foi este o processo, de resultados aliás
excellentes, que se empregou na fabricação do objectivo.

Acrescente-se a isto, que o espelho objectivo foi collocado em harmonia
com o methodo que Herschell imaginára para os seus telescopios. No
grande apparelho do astronomo de Slough vinha a imagem dos objectos
reflectida pelo espelho inclinado formar-se no fundo do tubo, na outra
extremidade d'elle onde estava collocado o ocular. Por esta disposição o
observador, em vez de estar collocado na parte inferior do tubo,
içava-se a parte superior d'elle, e d'ali, munido da respectiva lupa, é
que mergulhava a vista dentro do enorme cylindro. Esta combinação tinha
a vantagem de supprimir o espelho pequeno cuja funcção é reenviar a
imagem para o ocular. A imagem passava assim por uma reflexão unica em
vez de duas. Por consequencia, menor era a quantidade de raios luminosos
extincta, e menos enfraquecida ficava a imagem, obtendo-se portanto
maior clareza, vantagem preciosa especialmente na observação que havia a
fazer[91].

Tomadas estas resoluções, começaram os trabalhos. Segundo os calculos do
pessoal do observatorio de Cambridge, o tubo do novo reflector devia ter
duzentos e oitenta pés de comprido, e o espelho dezeseis pés de
diametro. Por mais colossal que fosse tal instrumento, nem sequer era
digno de comparar-se com um telescopio de dez mil pés (3 kilometros e
meio) de comprimento, cuja construcção o astronomo Hooke propunha ha
poucos annos. E no entretanto as difficuldades que apresentava a
construcção e assentamento, tal como era, já não eram pequenas.

A questão da collocação, essa foi de prompto resolvida. Tratava-se de
escolher uma elevada montanha, e as montanhas de grande elevação não
abundam nos Estados Unidos.

Effectivamente, o systema orographico d'aquelle grande paiz reduz-se
apenas a duas cadeias de montanhas de mediana altura, entre as quaes
corre o magnifico rio Mississipi que os americanos appellidariam «o rei
dos rios» se para elles não fôra inadmissivel uma realeza qualquer.

A leste, estão os Apalaches, cujo vertice mais elevado, no
New-Hampshire, não vae alem de cinco mil e seiscentos pés, altura na
realidade extremamente modesta.

A oeste, pelo contrario, encontram-se as Montanhas penhascosas, immensa
corda que começa no estreito de Magalhães, acompanha a costa occidental
do sul com o nome de Andes ou Cordilheiras, transpõe o isthmo de Panamá
e corre através da America do Norte até ás praias do mar polar.

Não são muito elevadas estas montanhas; os Alpes ou o Hymalaya podiam
com justa rasão olha-las de alto da propria grandeza com supremo desdem.

Com effeito, o mais alto vertice d'ellas tem apenas dez mil e setecentos
pés de altura, ao passo que o monte Branco mede quatorze mil
quatrocentos e trinta e nove, e o Kintschindjinga[92], vinte e seis mil
setecentos e setenta e seis, acima do nivel do mar.

O Gun-Club, porém, visto ter empenho em que o telescopio assim como a
Columbiada fossem assentes nos Estados da União, teve de se contentar
com as montanhas Penhascosas, e mandou dirigir todo o material
necessario para a cumiada de Long's Peak, no territorio do Missouri.

Nem a penna nem a palavra humana poderiam narrar as difficuldades de
todos os generos que os engenheiros americanos tiveram de vencer, os
prodigios de audacia e de habilidade que realisaram. Este trabalho foi
um verdadeiro _tour de force_. Foi necessario levantar pedras
monstruosas, pesadissimas peças forjadas, pilastras de ingente peso, os
pedaços enormes do cylindro, o objectivo, que só por si pesava trinta
mil libras, e levantar tudo acima do limite das neves perpetuas, a mais
de dez mil pés de altura, e isto depois de ter transposto planicies
desertas, florestas impenetraveis, temerosos «saltos» em torrentes
impetuosas, longe dos centros de população, em meio de regiões selvagens
em que cada um dos pormenores da existencia se transformava em problema
quasi insoluvel.

Apesar de tantos obstaculos o engenho dos americanos de tudo soube
triumphar. Menos de um anno depois do começo dos trabalhos, pelos
ultimos dias de setembro, o gigantesco reflector erguia nos ares o seu
tubo de duzentos e vinte e quatro pés de comprido suspenso de um enorme
andaime de ferro, manobrando com facilidade por meio de engenhosos
machinismos em direcção a todos os pontos do céu, e podendo seguir os
astros de um a outro extremo do horisonte no decurso da sua marcha
através do espaço.

Custára este telescopio mais de quatrocentos mil dollars. A primeira vez
que o dirigiram para a Lua, experimentaram os observadores uma sensação
mixta de curiosidade e inquietação. Que iriam descobrir no campo
d'aquelle telescopio que amplificava na proporção de quarenta e oito mil
para um as dimensões dos objectos observados? Populações, rebanhos de
animaes lunares, cidades, lagos, oceanos? Não, nada que á sciencia não
fôra já conhecido: a natureza vulcanica da Lua verificou-se com absoluta
precisão em todos os pontos do disco.

Entretanto o telescopio das montanhas Penhascosas, antes de servir ao
Gun-Club, prestou immensos serviços á astronomia.

Graças ao poder de penetração de tal instrumento, sondaram-se até aos
ultimos limites as profundezas do céu, poderam medir-se com rigor os
diametros apparentes de muitas estrellas, e até M. Clarke, membro do
pessoal technico de Cambridge, decompoz a _crab nebula_[93] de Taurus,
que o reflector de lord Rosse não lográra reduzir.



CAPITULO XXV

ULTIMOS PORMENORES


Contava já vinte e dois dias o mez de novembro, e a partida suprema
devia realisar-se dez dias depois. Faltava ainda conseguir feliz exito
n'uma unica operação, mas delicada, perigosa, que demandava infinitas
precauções, e contra o bom resultado da qual ajustára o capitão Nicholl
a sua terceira aposta.

Era o caso, carregar a Columbiada introduzindo-lhe as quatrocentas mil
libras de algodão-polvora. Pensára Nicholl, e com justo fundamento
talvez, que da manipulação de tão formidavel quantidade de pyroxylo
haviam de provir graves catastrophes, e que, quando peior não
succedesse, aquella massa eminentemente explosiva havia de inflammar-se
por si mesma sob a pressão do projectil.

Havia n'isto serios perigos, que maiores se tornavam pela negligencia e
leviandade habitual dos americanos. Haja vista o que succedeu durante a
guerra federal: ninguem se incommodava a tirar o charuto da bôca para
carregar uma bomba. Mas lá estava Barbicane, que tinha a peito chegar a
bom resultado e não naufragar já dentro do porto; que escolheu por
consequencia os melhores operarios, e que os fez trabalhar debaixo das
suas proprias vistas, não os largando de olho um só momento, conseguindo
assim á força de prudencia e de precaução, pôr a seu favor todas as
probabilidades de bom exito.

Antes de tudo, teve Barbicane o maior cuidado em não mandar a carga
inteira de uma vez para o recinto de Stone's-Hill, senão a pouco e pouco
e em caixotes perfeitamente fechados. As quatrocentas mil libras de
pyroxylo foram depositadas em pacotes de quinhentas libras, dando assim
para oitocentos grandes cartuchos fabricados com o maior esmero pelos
mais habeis pyrotechnicos de Pensacola. Cada caixão tinha capacidade
para dez cartuchos, e os caixões íam chegando uns após outros pela via
ferrea de Tampa-Town; por esta fórma nunca havia a um tempo mais de
cinco mil libras de pyroxylo dentro do recinto. Caixão que chegava era
logo descarregado por operarios descalços, e cada cartucho transportado
para o orificio da Columbiada para dentro da qual descia por meio de
guindastes manobrados a braço.

Tinham-se posto de parte todas as machinas que trabalhavam a vapor, e
apagado todos os fogos n'um circuito de duas milhas de raio. Já era mais
que bastante ter que preservar dos ardores do sol, mesmo em novembro,
aquellas massas de algodão-polvora.

O trabalho, por este motivo, era de preferencia feito de noite ao clarão
de uma luz produzida no vacuo por meio dos apparelhos de Ruhmkorff, que
ministrava uma illuminação artificial que chegava ao fundo da
Columbiada. Dentro do canhão ficavam os cartuchos arrumados com perfeita
regularidade e ligados uns aos outros por meio de um fio metallico
destinado a conduzir instantaneamente ao centro de cada um d'elles a
faisca electrica.

E effectivamente por meio da pilha, é que se havia de dar fogo aquella
massa de algodão-polvora.

Os fios metallicos todos envolvidos em capas de substancia isoladora,
iam reunir-se em um só n'um estreito orificio aberto na altura em que o
projectil havia de ficar; n'esse ponto atravessavam a espessa parede de
ferro fundido, subindo depois até ao solo por um dos respiradouros do
revestimento de pedra, especialmente reservado para este fim.

A partir do vertice de Stone's-Hill corria o fio por sobre postes pelo
espaço de duas milhas, terminando n'uma pilha de Bunsen munida do
competente apparelho de interrupção. Por consequencia logoque que se
carregasse no botão do apparelho a corrente electrica restabelecia-se
instantaneamente e ía dar fogo ás quatrocentas mil libras de
algodão-polvora. Claro está que a pilha só tinha de funccionar no ultimo
momento.

A 28 de novembro, já os oitocentos cartuchos estavam arrumados no fundo
da Columbiada. Lográra bom exito esta parte da operação.

Mas quantos incommodos, quantas inquietações, quantas luctas tinha
soffrido ou sustentado o presidente Barbicane? Debalde prohibíra a todos
a entrada de Stone's-Hill; todos os dias um ou outro curioso subia por
escalada as palissadas, e alguns houve que, levando a imprudencia até á
loucura, foram pôr-se a fumar mesmo no meio dos fardos de
algodão-polvora. Barbicane tinha ataques de furor todos os dias. J.-T.
Maston fazia quanto em si cabia para o auxiliar, dando caça aos intrusos
com grande vigor, e apanhando as pontas de charuto ainda a arder que os
yankees deitavam para toda a parte. E a tarefa era de estafar, que mais
de 300:000 pessoas faziam cêrco em volta das palissadas. Verdade é que
Miguel Ardan tambem se offerecêra para escoltar os caixões até á bôca da
Columbiada; mas o presidente do Gun-Club, que o apanhou em propria
pessoa com um enorme charuto na bôca, ao tempo que ia perseguindo alguns
imprudentes a quem dava assim tão funesto exemplo, logo percebeu que não
podia contar com tão intrepido fumista, e viu-se obrigado a faze-lo
vigiar a elle, e com muita especialidade.

Emfim, como é certo que ha um Deus especial para os artilheiros, não
houve a menor explosão, e conseguiu-se a final pôr a carga inteira a são
e salvo. Muito duvidosa estava portanto a terceira aposta do capitão
Nicholl. Faltava só introduzir o projectil na Columbiada e collocá-lo em
cima da espessa camada de algodão-polvora.

Antes porém de se dar começo a esta ultima operação, foram collocados e
arrumados no wagon-projectil todos os objectos necessarios aos
viajantes, que eram bastante numerosos e que, se tivessem deixado fazer
a Miguel Ardan a sua vontade, dentro em pouco teriam enchido todo o
espaço reservado para as pessoas. Ninguem imagina que cousas o amavel
francez queria levar para a Lua. Uma verdadeira carregação de
inutilidades. Interveio porém Barbicane, e não houve mais remedio de que
reduzir-se ao estrictamente necessario. Na caixa dos instrumentos ía
grande numero de barometros, thermometros e de oculos de alcance.

Os viajantes estavam com curiosidade de examinar a Lua no decurso da
viagem, e levavam, para facilitar o reconhecimento d'aquelle novo mundo,
um excellente mappa de Beer e Moedler, o _Mappa selenographico_,
publicado em quatro folhas, e que, com justo fundamento, tem fama de
verdadeira obra prima de observação e paciencia. Reproduz este mappa com
escrupulosa exactidão os mais insignificantes pormenores da face do
astro que olha para a Terra; montanhas, valles, circos, crateras, picos,
ranhuras, tudo ali se encontra com exactidão nas dimensões e fidelidade
na orientação e denominações, desde os montes Doerfel e Leibnitz, cujas
altas cumiadas se erguem no extremo oriental do disco até ao _Mare
Frigoris_, que se estende pelas regiões circumpolares do norte.

Era portanto este mappa, para os viajantes, um guia precioso, porque
lhes tornava possivel o estudo do paiz, antes de lá porem os pés.

Levavam tambem os viajantes tres _riffles_ e tres carabinas de caça do
systema de bala explosiva, e alem d'isto grande quantidade de chumbo e
polvora.

Dizia a este respeito Miguel Ardan: «Nós não sabemos com quem vamos lá
haver-nos; sejam homens ou sejam animaes podem levar a mal que lhes
vamos fazer uma visita! Por consequencia convem que cada qual tome as
suas precauções».

Acrescentaremos, que as armas de defeza pessoal iam acompanhadas de
picaretas, alviões, serras de mão e a mais ferramenta indispensavel, sem
fallar dos vestuarios adequados para todas as temperaturas, desde o frio
das regiões polares até aos calores da zona torrida.

Miguel Ardan desejava levar na expedição certo numero de animaes, que se
não chegava a ser um casal de cada uma das especies conhecidas, é porque
Ardan não reputava cousa necessaria acclimar na Lua nem serpentes, nem
tigres, nem crocodilos, nem quaesquer outros animalejos damninhos.

«Tanto não, dizia elle a Barbicane, mas alguns animaes de carga, por
exemplo bois, vaccas, burros ou cavallos, não só haviam de fazer bello
effeito na paizagem, como nos haviam de servir de grande utilidade.

«Estou de accordo, meu caro Ardan, respondia o presidente do Gun-Club,
mas o nosso wagon-projectil é que não é nenhuma arca de Nóe. Nem tem
capacidade que chegue, nem para isso foi destinado; por consequencia
fiquemo-nos nos limites do possivel.»

Finalmente, depois de longa discussão, concordou-se em que os viajantes
tinham de se contentar em levar uma excellente cadella de caça que
pertencia a Nicholl, e um vigoroso Terra-Nova de força prodigiosa.
Entraram tambem no numero dos objectos uteis muitas caixas de sementes
das mais usuaes. Miguel Ardan, por sua vontade levaria tambem alguns
sacos de terra para as semear. Em todo o caso, sempre foi mettendo a um
canto do projectil uma duzia de arbustos embrulhados em bainhas de
palha.

Restava ainda a questão de viveres, porque necessario era ir prevenido
para o caso de arribar a alguma região da Lua completamente esteril.

Barbicane tanto fez, que conseguiu metter no projectil provisões para um
anno. É necessario acrescentar, para que ninguem d'isto se admire, que
estes viveres consistiam em conservas de carnes e legumes, reduzidas ao
minimo volume pela acção da prensa hydraulica, que todavia continham
grande abundancia de elementos nutritivos; a variedade é que não era
grande; mas tambem n'uma expedição d'aquellas não era occasião propria
para alguem se mostrar niquento. Levavam tambem os viajantes uma reserva
de aguardente, que montaria a uns cincoenta gallões[94], e agua para
dois mezes apenas, porque, na verdade, em consequencia das ultimas
observações astronomicas, já ninguem punha em duvida a existencia de
certa quantidade de agua á superficie da Lua. Quanto a viveres,
reputar-se-ía até insensato quem suppozesse que habitantes da Terra não
haviam de lá encontrar farto alimento.

Miguel Ardan não conservava sombra de duvida a tal respeito. Se a
conservára por certo não estaria decidido a partir.

«E demais, disse elle um dia aos amigos, os camaradas cá da Terra de
certo nos não hão de abandonar completamente, antes terão todo o cuidado
em nos não esquecer.

[Figura: Desde pela manhã uma multidão... (pag. 236).]

--Certamente, respondeu J.-T. Maston.

--Como se entende isso? perguntou Nicholl.

[Figura: Fogo! (pag. 241).]

--Muito simplesmente, respondeu Ardan. Porventura não continua a
Columbiada a estar no mesmo logar? Pois então! não poderão mandar-nos
obuzes carregados de viveres que nós esperaremos em dias prefixos, por
exemplo, todas as vezes que a Lua se apresentar em condições favoraves
de zenith, senão de perigeo, isto é, quasi uma vez por anno?

--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston como quem lá tinha a sua idéa;
isso é que é bem dito! De certo, estimaveis amigos, de certo que vos não
havemos de esquecer!

--Conto com isso!

«E assim teremos, como acabaes de ver, e com toda a regularidade
novidades do globo, e pela nossa parte tambem, só se formos muito pouco
habilidosos é que não havemos de conseguir pôr-nos em communicação com
os nossos bons amigos da Terra!»

Respirava n'estas palavras tão grande confiança, que Miguel Ardan com o
seu ar resoluto e soberbo denodo teria levado atrás de si o Gun-Club
inteiro. Tudo quanto Ardan dizia parecia simples, elementar, facil, de
bom exito seguro; era preciso que alguem estivesse na realidade agarrado
com muito apoucamento a este miseravel globo terraqueo, para que
ouvindo-o se não promptificasse a ser companheiro dos tres viajantes na
sua expedição lunar.

Logoque ficaram collocados e arrumados no projectil os diversos
objectos, introduziu-se entre os respectivos tabiques a agua destinada a
amortecer a repercussão, e no recipiente proprio o gaz de illuminação.
De chlorato de potassa e de potassa caustica mettêra Barbicane, que se
arreceiava das demoras imprevistas no caminho, no projectil, quantidade
tal d'estas substancias que chegava para renovar o oxygenio e absorver o
acido carbonico por espaço de dois mezes. A restituição ao ar das suas
qualidades vivificadoras e a purificação completa d'elle, estavam a
cargo de um apparelho extremamente engenhoso, que funccionava
automaticamente. Conseguintemente estava prompto o projectil, e nada
mais restava a fazer senão po-lo no fundo da Columbiada, operação aliás
cheia de difficuldades e de perigos.

Conduziram o enorme obuz ao cume de Stone's-Hill, onde ficou seguro e
suspenso de possantes guindastes por cima do poço de metal.

Aquelle momento foi palpitante! Se succedesse quebrarem-se as cadeias
com o enorme peso, a quéda de similhante massa seguramente teria
produzido instantanea inflammação do algodão polvora. Felizmente não
succedeu assim, e algumas horas depois, o wagon-projectil que descêra
lentamente pela alma do canhão, descansava em cima da sua cama de
pyroxylo, verdadeiro _édredon_ fulminante. O unico resultado que veio da
pressão do projectil foi ficar mais atacada a carga da Columbiada.

«Perdi», disse o capitão, entregando ao presidente Barbicane a quantia
de tres mil dollars.

Barbicane não queria receber dinheiro de um companheiro de viagem; teve
porém que ceder perante a obstinação de Nicholl, que tinha empenho em
satisfazer quantos compromissos contrahíra, antes de deixar a Terra.

«Á vista d'isso, disse Miguel Ardan, só uma cousa tenho a desejar-vos,
meu estimavel capitão.

--Qual? perguntou Nicholl.

--Que vos dêem igual proveito as outras duas apostas. Se assim succeder,
estaremos seguros de não nos ficarmos no caminho.



CAPITULO XXVI

FOGO!


Chegára o primeiro dia de dezembro, dia fatal, porque se a partida do
projectil se não effeituasse n'aquella mesma noite ás dez horas quarenta
e seis minutos e quarenta segundos da tarde, mais de dezoito annos
haviam de decorrer antes que a Lua volvesse a apresentar-se nas mesmas
condições simultaneas de zenith e perigeo.

O tempo estava magnifico; apesar da proximidade do inverno, o sol
resplandecia e banhava com seus radiantes effluvios aquella mesma Terra
que tres dos habitantes d'ella íam abandonar em troca de um mundo novo.

Quanta gente mal dormiu durante a noite que precedeu aquelle dia com
tanta impaciencia desejado! Quantos peitos opprimidos pelo pesado fardo
da anciedade! Todos os corações palpitaram de inquietação, excepto o
coração de Miguel Ardan. Este personagem impassivel andava de cá para lá
com o seu ar habitual de quem tem muitos affazeres, mas nada denunciava
n'elle preoccupação insolita. Dormira a somno solto, como dormia Turenne
antes da batalha, encostado ao reparo de um canhão. Desde pela manhã
innumeravel multidão cobria as planicies que se estendem a perder de
vista em torno de Stone's-Hill.

De quarto em quarto de hora chegava pela via ferrea de Tampa-Town um
comboio carregado de novos curiosos; em breve espaço assumiu aquella
emigração proporções fabulosas; segundo a estatistica do _Tampa-Town
Observer_, pisaram, n'aquelle dia memoravel, o solo da Florida cinco
milhões de espectadores.

Havia já um mez que a maior parte d'aquella multidão acampava em volta
do recinto, dando começo á fundação de uma cidade que depois se chamou
Ardan's-Town. A planicie estava coberta de abarracamentos, cabanas,
choupanas e tendas, habitações ephemeras que davam guarida a uma
população bastantemente numerosa para causar inveja ás maiores cidades
da Europa.

Ali tinham representantes todos os povos da Terra, fallavam-se ali a um
tempo todos os dialectos do mundo. Dir-se-ía que reinava lá a confusão
das linguas como nos tempos biblicos da torre de Babel. Ali se
confundiam em absoluta igualdade as diversas classes da sociedade
americana. Banqueiros, lavradores, maritimos, moços de recados,
corretores, cultivadores de algodão, negociantes, barqueiros,
magistrados, tudo ali se acotovelava com sem cerimonia primitiva.
Fraternisavam os creoulos da Luiziania com os fazendeiros da Indiana; os
_gentlemen_ do Kentucky e do Tenessee, os virginienses elegantes e
altivos mettiam conversa com os caçadores semi-selvagens dos Lagos, e
com os contratadores de gado de Cincinnati. Usavam na cabeça chapéu de
castor branco de aba larga ou o classico panamá, vestiam calça de
guinguamp azul, das fabricas de Opelousas, envolviam o corpo nas dobras
de elegantes blusas de cotim cru, e os pés em botins de cores
brilhantes, trazendo em exposição extravagantes bofes de fina cambraia,
e fazendo scintillar nos peitos das camisas, nos punhos, nas gravatas,
nos dez dedos, e até nas orelhas, um sortimento completo de anneis,
cadeias, argolas e _breloques_, cujo mau gosto corria parelhas com o
subido preço. Outras tantas mulheres, creanças e creados, em trajes não
menos opulentos acompanhavam, seguiam, precediam ou rodeiavam aquelles
maridos, paes ou amos, que mais pareciam chefes de tribu cercados das
innumeraveis familias. Era cousa digna de ver-se aquella gente toda ás
horas de refeição deitar-se ás iguarias peculiares dos Estados Unidos e
devorar, com appetite ameaçador para o abastecimento de viveres da
Florida, alimentos que causariam repugnância a qualquer estomago
europeu, taes como rãs de fricassé, macacos estufados, fish-chowder[95],
sariguêa assada, opossum ainda em sangue, ou racoon na grelha.

Mas em compensação tambem, que variada serie de licores e de bebidas
para facilitar a digestão d'aquelles indigestos alimentos! Que gritos
excitantes, que vociferações convidativas echoavam nos _bar-rooms_ ou
nas casas de pasto profusamente adornadas de copos, cangirões, frascos,
garrafas brancas e pretas de fórmas inverosimeis, de almofarizes para
pisar o assucar, e de mólhos de palha!

«Aqui ha o julepe de hortelã!» gritava o dono de um estabelecimento em
tom retumbante.

--Prompta! a _sangaree_ de vinho de Bordéus! replicava outro em voz de
pipia.

--E o _gin-sling_, repetia o segundo.

--E o _cocktail_! e _brandy-smash_! gritava o primeiro.

--«Quem quer provar do verdadeiro _mint-julep_, á ultima moda?» gritavam
alguns destros vendedores, fazendo passar com rapidez de um para outro
copo, como qualquer prestidigitador faria a uma noz muscada, o assucar,
o limão, a hortelã verde, o gêlo partido, a agua, o cognac e o ananás de
que se compõe aquelle refresco.

Habitualmente, repetiam-se e cruzavam-se no ar, produzindo infernal
barulho, aquelles incitamentos dirigidos ás guellas seccas pela acção
abrasadora das especiarias. Mas n'aquelle dia, no primeiro de dezembro,
eram raros os gritos. Tambem bem poderiam os vendedores enrouquecer a
provocar os freguezes, que todos os seus esforços seriam baldados.
Ninguem pensava em comer nem beber; quantos espectadores circulavam por
entre a multidão, que ás quatro horas da tarde ainda nem tinham comido o
seu _lunch_ do costume! Symptoma ainda mais significativo, a paixão
violenta dos americanos pelo jogo fôra vencida pela emoção. Quem visse
os paulitos do _tempins_ deitados no chão, os dados do _creps_ a dormir
nos copos, a _roleta_ immovel, o _cribbage_ abandonado, as cartas do
_whist_, do vinte e um, do _rouge et noire_, do _monte_ e do _faro_
socegadamente fechadas em seus envolucros intactos, logo comprehendia
que o acontecimento do dia absorvêra qualquer outra necessidade, e não
deixára logar para distracções.

Até á noite correu pela multidão anhelante uma agitação surda, sem
clamores, como a que precede as grandes catastrophes. Dominava os
espiritos uma ancia indescriptivel, um torpor pesado, um sentimento
indefinivel que opprimia o coração. O que todos desejavam era que «já
estivesse tudo acabado».

Entretanto, por volta das sete horas, dissipou-se repentinamente aquelle
pesado silencio. Nascia então a Lua no horisonte, e muitos milhões de
_hurrahs_ lhe saudaram a apparição. Era exacta ao _rendez-vous_.

Subiram os clamores até aos céus, rebentaram applausos de todos os
lados, e a loura Phoebéa brilhava serena no céu admiravel acariciando
com os mais affectuosos de seus raios a multidão innebriada.

N'aquelle momento appareceram os tres intrepidos viajantes. Ao vê-los,
redobraram em intensidade os clamores. Unanimemente, instantaneamente,
soltou-se de todos aquelles peitos anhelantes a canção nacional dos
Estados Unidos, e o _Yankee doodle_, repetido em côro por cinco milhões
de cantores, ergueu-se como uma tempestade sonora até ao extremo limite
da atmosphera.

Depois, passado aquelle primeiro e irresistivel arranco de enthusiasmo,
emmudeceu o hymno, extinguiram-se pouco e pouco as derradeiras
harmonias, os echos perderam-se no espaço, e vagueou por sobre a
multidão tão fundamente impressionada um rumorejar silencioso. No
entretanto, o francez e os dois companheiros tinham transposto o recinto
reservado em torno do qual se apertava a multidão immensa.
Acompanhavam-nos os socios do Gun-Club e as deputações enviadas pelos
differentes observatorios europeus.

Barbicane ia frio e sereno e dava tranquillamente as ultimas ordens.
Nicholl, de beiços apertados e mãos encruzadas atrás das costas,
caminhava com passo firme e pausado.

Miguel Ardan, sempre despreoccupado, em traje de perfeito viajante,
polainas de coiro nos pés, bolsa de viagem a tiracolo, mochilla ás
costas, a nadar dentro do amplo fato de velludo castanho, de charuto na
bôca, distribuia na passagem cordeaes apertos de mão com prodigalidade
de principe. Prosa e alegria nunca lhe faltavam; ria, chalaceava e fazia
ao digno J.-T. Maston partidas de garoto, n'uma palavra mostrava-se
«francez», e, o que peior é, «parisiense» até ao ultimo segundo.

Soaram dez horas. Era chegado o momento de tomar logar dentro do
projectil, porque a manobra necessaria para descer, o aparafusar da
chapa-tampa, e a safa dos guindastes e andaimes que pendiam dentro das
fauces da Columbiada, sempre haviam de levar ainda algum tempo.
Barbicane regulára o seu chronometro, com erro inferior a um decimo de
segundo, pelo do engenheiro Murchison, encarregado de dar fogo á
polvora, por meio da faísca electrica; d'esta maneira os viajantes
podiam, encerrados dentro do projectil, seguir com os olhos o ponteiro
impassivel que havia de marcar o instante exacto da partida.

Chegára o momento das despedidas. Foi uma scena tocante. Miguel Ardan,
apesar de toda a sua febril alegria, sentiu-se commovido. J.-T. Maston
lográra encontrar sob as aridas palpebras uma velha lagrima que estava
como de reserva para aquella occasião, e que o bom do secretario verteu
na fronte do seu caro e estimavel presidente.

«E se eu tambem fosse? disse elle, ainda estâmos a tempo!

--É impossível, meu velho Maston», respondeu Barbicane.

Poucos instantes depois, estavam os três companheiros de viagem
installados no projectil, cuja chapa-porta tinham aparafusado pela parte
de dentro, e abria-se livremente para o céu, inteiramente desembaraçada
a bôca da Columbiada.

Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan estavam definitivamente entaipados no
wagon de metal.

Quem poderia pintar a anciedade universal, que então attingíra ao seu
paroxysmo?

A Lua ía caminhando n'um firmamento de limpida pureza, e apagando na
passagem os lumes scintillantes das estrellas; percorriam aquelle
momento a constellação dos Gemeos e estava a igual distancia do
horisonte e do zenith. Para todos era facil de comprehender que a
pontaria era feita adiante do alvo, como a faz o caçador que aponta
adiante da lebre que quer ferir.

Pesava por sobre aquella scena toda um silencio atterrador. Nem um sopro
de vento na terra! Nem um suspiro de tanto peito. Nem os corações
ousavam palpitar. Os olhos fixavam-se todos como que assustados nas
fauces abertas da Columbiada. Murchison seguia com os olhos o ponteiro
do chronometro. Faltavam apenas quarenta segundos para soar o instante
da partida. Cada segundo parecia um seculo.

Ao bater do vigesimo segundo tudo estremeceu; é que accudíra ao
pensamento d'aquella multidão que tambem os audaciosos viajantes
encerrados no projectil contavam aquelles segundos terriveis!
Soltaram-se então gritos isolados que diziam:

«Trinta e cinco! trinta e seis! trinta e sete! trinta e oito! trinta e
nove! quarenta! Fogo!!!»

No mesmo instante, Murchison, carregando com o dedo no interruptor do
apparelho, restabeleceu a corrente electrica e lançou a faísca para o
fundo da Columbiada.

Instantaneamente produziu-se uma detonação horrorosa, inaudita,
sobrehumana, de que cousa alguma poderia dar idéa, nem o ribombar do
trovão, nem o estampido das erupções. Das entranhas do solo, como de uma
cratera, surgiu um jacto immenso de fogo. A terra tremeu e abriu-se, e
apenas um ou outro espectador pôde por instantes entrever o projectil
que fendia victoriosamente os ares envolto em chammejantes vapores.



CAPITULO XXVII

CÉU ENCOBERTO


No momento em que se ergueu para os céus, até prodigiosa altura, o jacto
incandescente, a effusão de labaredas illuminou a Florida inteira; por
inapreciaveis instantes, tornou-se a noite em claro dia n'uma extensão
consideravel de territorio. Aquelle immenso penacho de fogo viu-se a cem
milhas de distancia no mar, tanto no Atlantico como no golpho, e mais de
um capitão de navio notou no diario de bordo a apparição d'aquelle
gigantesco meteoro.

A detonação da Columbiada foi acompanhada de um verdadeiro tremor de
terra. A Florida sentiu-se abalada até ás entranhas. Os gazes da
polvora, dilatados pelo calor, repelliram com violencia incomparavel as
camadas atmosphericas, e aquelle furacão artificial, cem vezes mais
rapido que o furacão das tempestades, passou como um cyclone através dos
ares.

Nem um só espectador ficou de pé; homens, mulheres, creanças, todos
foram deitados ao chão, como espigas pela borrasca; houve um
inexprimivel tumulto, e grande numero de pessoas que ficaram gravemente
feridas. J.-T. Maston, que de encontro a todos os dictames da prudencia
estava perto de mais, foi arremessado a vinte toezas de distancia, e
passou por sobre as cabeças dos seus concidadãos como uma bala.

Trezentas mil pessoas ficaram por alguns momentos surdas, e como que
tocadas de estupor.

A corrente atmospherica depois de ter derrubado os abarracamentos, de
ter virado de pernas ao ar cabanas, de ter desarreigado arvores, n'um
raio de vinte milhas, de ter impellido os comboios do caminho de ferro
até Tampa, caiu sobre a cidade como uma _avalanche_, destruindo um cento
de casas, entre outras a igreja de Saint-Mary, e o novo edificio da
Bolsa, que abriu fendas em toda a sua extensão. Algumas das embarcações
surtas no porto, abalroando umas de encontro ás outras, foram a pique, e
uns dez navios fundeados no molhe foram até á costa, partidas as amarras
como fios de algodão.

Mas o circulo das devastações estendeu-se muito mais ao largo, ainda
alem dos limites dos Estados Unidos. O effeito da repercussão, auxiliado
pelos ventos de oeste, fez-se sentir no Atlantico a mais de trezentas
milhas das praias da America. Arremessou-se por sobre os navios com
inaudita violencia uma tempestade artificial, uma tempestade inesperada,
que nem o almirante Fitz-Roy podéra prever; muitas embarcações
envolvidas n'aquelles horrorosos turbilhões, sem tempo sequer para
colher panno, sossobraram a panno largo, entre outros o _Childe-Harold_,
de Liverpool, catastrophe esta muito para lamentar, que deu origem a
recriminações violentas por parte da Inglaterra.

Finalmente, para tudo relatar, aindaque o facto não offereça maior
garantia do que a affirmação de alguns indigenas, asseguram os
habitantes da Goréa e de Serra Leôa ter ouvido, meia hora depois da
partida do projectil, um abalo surdo, derradeiro fremito das ondas
sonoras, que depois de terem atravessado o Atlantico, vinham morrer nas
plagas africanas.

Mas volvâmos á Florida. Passados os primeiros instantes do tumulto
despertaram os surdos, os feridos, emfim a multidão inteira, e
ergueram-se até aos céus clamores freneticos de: hurrah por Ardan!
hurrah por Barbicane! hurrah por Nicholl! Milhões de homens de ventas
para o ar, armados de telescopios, de lunetas, de oculos de alcance,
interrogavam o espaço, esquecidos de contusões e emoções, para se
occuparem exclusivamente do projectil. Mas debalde pesquisavam, que o
projectil já não podia ver-se, e força era resignar-se a esperar pelos
telegrammas de Long's-Peak.

[Figura: Effeito da detonação (pag. 243).]

O director do observatorio de Cambridge[96] estava no seu posto, que a
elle, astronomo habil e perseverante, é que tinham sido confiados os
trabalhos de observação. Porém um phenomeno imprevisto, aliás facil de
prever, e contra o qual nada havia a fazer, veiu dentro em pouco
submetter a dura prova a impaciencia publica.

[Figura: O director estava no seu posto (pag. 245).]

O tempo até ali tão bello, mudou do repente, o céu de subito toldado
cobriu-se de nuvens. Nem podia deixar de assim succeder, depois da
terrivel deslocação das camadas atmosphericas e da dispersão de tão
enorme quantidade de vapores, producto da deflagração de quatrocentas
mil libras de pyroxylo.

A ordem natural fôra completamente perturbada. Nem é cousa que cause
admiração, visto como, nos combates navaes, por vezes se têem observado
repentinas modificações do estado atmospherico, exclusivamente causadas
pelas descargas de artilheria.

No dia seguinte surgiu o sol de um horisonte carregado de espessas
nuvens, pesado e impenetravel véu estendido entre o céu e a terra, e que
por desgraça alcançava até ás regiões das montanhas Penhascosas. Foi uma
fatalidade. Ergueu-se de todos os cantos do globo um concerto de
reclamações. A natureza porém pouco se commovia; decididamente já que os
homens tinham perturbado a atmosphera com a detonação, justo era que lhe
soffressem as consequencias.

No decurso do primeiro dia todos diligenceavam penetrar o opaco véu de
nuvens; baldados esforços! Deve tambem notar-se que todos se enganavam
levantando os olhos para o céu, porque em consequencia do movimento
diurno do globo, o projectil corria n'aquelle momento pela linha dos
antipodas. Fosse como fosse, quando a Lua volveu acima do horisonte,
envolvida como estava a Terra em noite impenetravel e profunda, foi
impossivel distinguir o astro das noites; era caso para dizer que a Lua
de proposito se furtava ás vistas dos temerarios que lhe tinham atirado.

Consequentemente não havia possibilidade de observação, e os despachos
de Long's-Peak não fizeram mais do que vir confirmar aquelle
desagradavel contratempo.

Entretanto, se é que a experiencia lográra feliz exito, os viajantes que
tinham partido no 1.^o de dezembro ás dez horas quarenta e seis minutos
e quarenta segundos da tarde, deviam chegar no dia 4 á meia noite, e
portanto até áquella epocha, e visto como, por fim de contas, sempre
havia de ser muito difficil observar em taes condições corpo tão pequeno
como o obuz, todos se mostraram pacientes sem grande alarido.

A 4 de dezembro, das oito horas da tarde até á meia noite devia ser
possivel seguir o rasto do projectil, que devia apparecer qual ponto
negro no disco brilhante da Lua. Mas o céu conservou-se encoberto sem
piedade, facto que levou a exasperação publica ao paroxysmo. Chegaram
até a injuriar a Lua, só porque se não mostrava. Triste compensação das
cousas d'este mundo!

J.-T. Maston, desesperado, partiu para Long's-Peak. Desejava observar
por seus proprios olhos. Não lhe restava duvida de que os amigos deviam
ter chegado ao termo da viagem. E tambem a ninguem constava que o
projectil tivesse tornado a caír em qualquer ponto das ilhas ou dos
continentes terrestres, e J.-T. Maston não queria admittir nem por
instantes a possibilidade da quéda nos oceanos que cobrem as tres
quartas partes da extensão do globo terraqueo.

No dia 5, tempo, o mesmo. Os grandes telescopios do velho mundo, o de
Herschell, o de Rosse, o de Foucault estavam invariavelmente apontados
para o astro das noites, porque o tempo na Europa estava exactamente
n'aquella occasião magnifico; mas o pouco alcance relativo de taes
instrumentos, impedia qualquer observação util.

No dia 6, tempo, o mesmo. Mordiam-se de impaciencia as tres quartas
partes do globo. Chegaram a propor-se os meios mais insensatos para
dissipar as nuvens accumuladas no ar.

No dia 7, pareceu que o estado do céu se modificava um tanto. Renasceu a
esperança, mas não durou por muito tempo; á noite, já as nuvens de novo
acastelladas defendiam a abobada estrellada contra todas as inspecções.

O caso então tornou-se serio. Effectivamente no dia 11, ás nove horas e
onze minutos da manhã devia a Lua entrar no ultimo quarto. Passado esse
momento havia de ir declinando, e aindaque o céu limpasse diminuiriam
notavelmente as probabilidades de observação; com effeito a Lua havia de
mostrar então uma parte sempre decrescente do disco, até tornar-se em
Lua nova, isto é, até que nascesse e se pozesse simultaneamente com o
Sol, cujos raios a tornariam absolutamente invisivel. Seria portanto
necessario esperar até 3 de janeiro até ao meio dia e quarenta minutos
para que voltasse a Lua cheia, e se podessem recomeçar as observações.

Os jornaes publicavam estas reflexões com mil commentarios, e não
occultavam ao publico, que era necessario armar-se de angelica
paciencia.

No dia 8, nada. No dia 9 o sol appareceu por um instante como para
zombar dos americanos. Cobriram-no de vaias, e offendido, certamente com
tal acolhimento, mostrou-se avaro de seus raios.

No dia 10, nada de mudança. J.-T. Maston ia enlouquecendo, chegou a
haver suas apprehensões em relação ao cerebro daquelle estimavel
cavalheiro, tão bem conservado até então, pelo seu craneo de
gutta-percha.

No dia 11 porém desencadeou-se na atmosphera uma d'aquellas horrorosas
tempestades privativas das regiões inter-tropicaes. Varreram fortes
ventaneiras de leste as nuvens ha tanto tempo encastelladas, e á noite o
disco meio corroido do astro das noites ostentou-se magestoso por entre
as limpidas constellações do céu.



CAPITULO XXVIII

UM ASTRO NOVO


N'aquella mesma noite, a palpitante nova com tanta impaciencia esperada
rebentou como um raio nos Estados da União, e d'ali correndo através do
oceano, percorreu todos os fios telegraphicos do globo. O projectil fôra
visto, graças ao gigantesco reflector de Long's-Peak.

Eis a nota redigida pelo director do observatorio de Cambridge, que
contém as conclusões scientificas da grande experiencia do Gun-Club.

«Long's-Peak, 12 de dezembro.--Aos ex.^{mos} srs. membros do pessoal
technico do observatorio de Cambridge.

«O projectil arremessado pela Columbiada de Stone's-Hill foi visto pelos
srs. Belfast e J.-T. Maston, no dia 12 de dezembro, ás oito horas e
quarenta e sete minutos da tarde, já a Lua entrára no ultimo quarto.

«O projectil não deu no alvo, passou-lhe ao lado, mas todavia
bastantemente proximo para ficar retido pela attracção lunar.

«Chegado ali, transformou-se-lhe o movimento rectilineo em movimento
circular de rapidez vertiginosa, e actualmente percorre uma orbita
elliptica em volta da Lua, da qual se tornou verdadeiro satellite.

«Os elementos do novo astro não poderam ainda determinar-se. Nem é
conhecida a sua velocidade de translação, nem a de rotação. A distancia
a que está da superficie da Lua, póde avaliar-se em duas mil oitocentas
e trinta e tres milhas approximadamente.

«N'estes termos, uma de duas hypotheses póde realisar-se, que ha de ter
por consequencia modificação no actual estado de cousas.

«Ou vencerá a attracção da Lua, e n'este caso chegarão os viajantes ao
termo da sua viagem;

«Ou o projectil mantido n'uma ordem immutavel, gravitará até final dos
seculos em volta do disco lunar.

«É o que nos hão de dizer um dia as observações; até agora porém, a
tentativa do Gun-Club não colheu outro resultado senão enriquecer com um
astro novo o nosso systema solar.--_J. T. Belfast_.»

Quantos problemas surgiram d'esta inesperada solução! Que situação cheia
de mysterios reservava o futuro ás investigações da sciencia! Graças á
coragem e á dedicação de tres homens, aquella empreza apparentemente
assás futil, de arremessar uma bala á Lua, acabava de ter um resultado
immenso, e cujas consequencias eram incalculaveis. Os viajantes
encerrados no novo satellite, se não tinham realisado o seu fim, faziam
pelo menos parte do mundo lunar; gravitavam em torno do astro das
noites, cujos mysterios o olho do homem ía pela vez primeira penetrar.
Os nomes de Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan devem portanto para todo o
sempre ser celebrados nos fastos da astronomia, porque estes ousados
exploradores, avidos de alargar o circulo dos conhecimentos humanos,
lançaram-se audaciosamente através do espaço, e jogaram a vida na mais
notavel tentativa dos tempos modernos.

Como quer que fosse, logoque foi do dominio publico a nota de
Long's-Peak, apossou-se do universo inteiro um sentimento de surpreza e
de espanto. Acaso seria possivel prestar auxilio áquelles ousados
habitantes da Terra? Não, por certo, que se tinham collocado fóra da
humanidade, logo que transpozeram os limites impostos por Deus ás
creaturas terrestres. Ar podiam elles obte-lo pelo espaço de dois mezes.
Viveres, levavam-n'os para um anno. Mas depois?... Ao formular-se tal
pergunta palpitavam até os corações mais insensiveis.

Só havia um homem, um só, que não podia admittir que a situação fosse
para desesperar. Um só tinha confiança, e era esse o amigo dedicado dos
tristes, e tanto como elles audaz e resoluto, era o estimavel J.-T.
Maston.

E tambem não os largava de olho. Assentára definitivamente os penates no
posto de Long's-Peak, onde tinha por unico horisonte o espelho do
immenso reflector. Logoque a Lua surgia acima do horisonte, fixava-a no
campo do telescopio e não a perdia de vista nem um momento, seguindo-a
com assiduidade na sua marcha através dos espaços estellares; observava
com eterna paciencia a passagem do projectil pelo disco de prata; na
realidade podia dizer-se que o estimavel secretario estava em perpetua
communicação com os tres amigos, que ainda, um dia esperava tornar a
ver.

«Havemos de nos corresponder com elles, dizia a quem queria ouvi-lo,
logoque as circumstancias o permittam. Havemos de ter novidades de lá, e
elles tambem as hão de ter de cá! E demais, eu conheço-os, são homens
engenhosos. Juntos os tres, levaram comsigo para o espaço todos os
recursos da arte, da sciencia e da industria. Com taes elementos faz-se
tudo quanto se quer. Hão de saír-se da difficuldade, e senão veremos!»



FIM DE «DA TERRA Á LUA».



INDICE DOS CAPITULOS


Capitulos                            Pag.

I O Gun-Club      5
II Communicação do presidente Barbicane      16
III Effeitos da communicação Barbicane      27
IV Resposta do observatorio de Cambridge      34
V Romance da Lua      40
VI O que não é possivel ignorar, e o que já não é permittido acreditar
nos Estados Unidos      49
VII Hymno da bala      55
VIII Historia do canhão      68
IX A questão da polvora      76
X Um inimigo por vinte e cinco milhões de amigos      86
XI A Florida e o Texas      95
XII _Urbi et Orbi_      103
XIII Stone's-Hill      112
XIV O alvião e a trolha      122
XV Festa da fundição      132
XVI A Columbiada      137
XVII Um despacho telegraphico      147
XVIII O passageiro do _Atlanta_      148
XIX Um _meeting_      161
XX Ataque e replica      174
XXI Como um francez arranja uma pendencia de honra      186
XXII O novo cidadão dos Estados Unidos      198
XXIII O wagon-projectil      207
XXIV O telescopio das montanhas penhascosas      217
XXV Ultimos pormenores      226
XXVI Fogo!      235
XXVII Céu encoberto      242
XXVIII Um astro novo      249
*/


Notas:

[1] Escola militar dos Estados Unidos.

[2] Papalvo.

[3] Litteralmente, «club-canhão». Pelo sentido, club dos artilheiros.

[4] Quinhentos kilogrammas.

[5] Cada milha vale 1:609 metros e 31 centimetros. Sete milhas valem
approximadamente tres leguas kilometricas.

[6] O jornal abolicionista mais enthusiasta dos Estados Unidos.

[7] Navalha de folha larga.

[8] Governo de si proprio.

[9] Administradores da cidade eleitos pelo povo, vereadores.

[10] Cadeiras de balouço, muito usadas nos Estados Unidos.

[11] De [Grego: selênê] (seléne), palavra grega, que significa Lua.

[12] A jarda vale approximadamente 91 centimetros.

[13] Este folheto foi publicado em França pelo republicano Laviron,
morto no assedio de Roma em 1849.

[14] Habitantes da Lua.

[15] Approximadamente 11:000 metros.

[16] Mistura de rhum, sumo de laranja, assucar, canella e noz moscada. É
uma bebida de côr amarellada.

[17] Bebida horrorosa do povo mais baixo; em inglez litteralmente:
_thoroug knoch me down_.

[18] Cognome da Nova Orleans.

[19] Cem mil leguas. É a velocidade da electricidade.

[20] _Guarda-vida_ (life-preserver). Arma de algibeira, formada de um
feixe de barbas de baleia, ligadas n'uma das extremidades por uma bola
de metal.

[21] _Muita bulha para nada_, comedia de Shakspeare.

[22] _Como vos aprouver_, outra comedia de Shakspeare.

[23] Está no texto a palavra _expedient_, que é absolutamente
intraduzivel em portuguez.

[24] O zenith é o ponto da abobada celeste, situado na vertical que
passa pelo observador.

[25] A nebulosa é, como se deprehende do texto, um aggregado de alguns
milhões de soes ou estrellas que estão entre si a grandissimas
distancias. Estes aggregados, por virtude da enorme distancia de cada
uma das suas partes á terra, apparecem-nos á vista simples, como se
fossem corpos continuos, nuvens, d'ahi lhes vem a denominação. Exemplo
notavel de nebulosa é a _via lactea_ ou estrada de S. Thiago, da qual o
nosso sol é estrella componente.

                                                (_Nota do traductor._)

[26] Da palavra grega [Grego:galachtos], que significa leite. É
conhecida vulgarmente pelo nome de estrada de S. Thiago.

[27] O diametro de Sirius é, segundo Wolaston, doze vezes maior que o do
Sol, isto é, igual a 4.300:000 leguas.

[28] Alguns d'estes astros são tão pequenos, que se poderia fazer n'um
dia a passo gymnastico uma volta completa em volta d'elles.

[29] Vinte e nove dias e meio approximadamente é o que dura uma
revolução lunar.

[30] Oitocentas e sessenta e nove leguas, um pouco mais da quarta parte
do raio da terra.

[31] Trinta e oito milhões de kilometros quadrados.

[32] Esta é a duração da revolução sideral, isto é, intervallo de tempo
que ha entre duas passagens consecutivas da Lua pela mesma estrella.

[33] Isto é de calibre vinte e quatro, que pesa vinte e quatro libras.

[34] É por esta rasão que depois de termos ouvido a detonação da peça já
não podemos ser feridos pela bala.

[35] Columbiadas chamaram os americanos áquellas enormes machinas de
destruição.

[36] Duzentos e setenta mil réis ao cambio medio de cento e oitenta réis
por franco.

                                                (_Nota do traductor._)

[37] Trinta centimetros: a pollegada americana vale 25 millimetros.

[38] Isto é, 4 metros e 90 centimetros. Á distancia a que está a Lua o
descenso seria sómente de 1 millimetro e 1/3 ou 590 millesimos da linha.

[39] Intersticio que existe ás vezes entre a bala e a alma da peça, e
que provém de não serem exactamente iguaes os diametros.

[40] Centesimos do dollar, 36 réis approximadamente.

[41] A libra americana vale 453 grammas.

[42] Pouco menos de oitocentos metros cubicos.

[43] Dois mil metros cubicos.

[44] N'esta discussão reivindica o presidente Barbicane para um
compatriota seu a invenção do collodion.

Em que pese ao estimavel Maston, diremos que ha aqui erro, que vem da
similhança de nomes. Em 1847, Maynard, estudante de medicina em Boston,
teve, é verdade, a idéa de applicar o collodion ao tratamento das
chagas; mas o collodion já era conhecido desde 1846. É a um francez,
espirito distincto, homem de sciencia, a um tempo pintor, poeta,
philosopho, hellenista e chimico, Luiz Ménard, que cabe a honra d'esta
grande descoberta.

[45] Navios de guerra americanos.

[46] O peso de polvora empregado era apenas um duodecimo do peso do
obuz.

[47] Oitenta e um mil e trezentos francos ou quatorze contos seiscentos
e trinta e quatro mil réis, a cento e oitenta réis o franco.

[48] A declinação de um astro é a sua distancia ao equador celeste
medida no seu meridiano. A ascensão recta é o arco do equador
comprehendido entre o meridiano do astro e o ponto vernal.

[49] Quatorze mil setecentos e sessenta contos de réis ao cambio de
novecentos e dezoito réis o dollar.

[50] Tres mil seiscentos setenta e dois contos de réis.

[51] Duzentos sessenta e cinco contos e quinhentos mil réis.

[52] Duzentos e vinte e cinco contos setecentos e sete mil e
quatrocentos réis.

[53] Noventa e tres contos e seiscentos mil réis.

[54] Cincoenta e dois contos novecentos e setenta e oito mil cento e
quarenta réis.

[55] Cento e sessenta e oito contos setecentos e cincoenta mil réis.

[56] Sessenta e dois contos trezentos e oito mil e oitocentos réis.

[57] Noventa e dois contos trezentos e quarenta mil réis.

[58] Vinte e tres réis e quatro decimos.

[59] Quarenta e dois contos trezentos e setenta e dois mil réis.

[60] Vinte e um contos cento e trinta e quatro mil quinhentos e vinte
réis.

[61] Doze contos novecentos e sessenta mil réis.

[62] Trinta e seis contos de réis.

[63] Seis contos oitocentos e quarenta e dois mil oitocentos e oitenta
réis.

[64] Trezentos e dez mil oitocentos e sessenta réis.

[65] Quarenta e seis mil duzentos e sessenta réis.

[66] Cinco mil cento e setenta réis.

[67] Duzentos e noventa e dois contos seiscentos e oitenta mil réis.

[68] Cinco mil trezentos e treze contos setecentos e setenta e sete mil
e doze réis.

[69] Noventa e sete mil quinhentos e sessenta réis.

[70] Proximamente duzentas leguas.

[71] 84^o do thermometro Fahrenheit, que equivalem a 28 do thermometro
centigrado.

[72] Riacho.

[73] 15 365:440 hectares.

[74] Gastaram-se nove annos para abrir o poço de Grenelle, que tem
quinhentos e quarenta e sete metros de altura.

[75] Seiscentos quarenta e dois contos, quarenta e dois mil trezentos e
sessenta réis.

[76] Em termo vulgar, vedor.

                                                (_Nota do traductor_.)

[77] Collina das pedras.

[78] A contar do meridiano de Washington. A differença para o meridiano
de Lisboa é de 67^o 56' 31",35. Esta longitude é portanto, em relação ao
meridiano de Lisboa 73^o 3' 31",35 O.

                                                (_Nota do traductor_.)

[79] Tin, especie de cavalete.

[80] 40 graus centigrados.

[81] Tres mil e seiscentos metros, proximamente.

[82] Em portuguez chama-se vulgarmente ferro fundido (traducção do termo
francez «fonte de fer») não ao ferro puro em fusão ou depois de ter sido
fundido, mas a um carbonato silicioso de ferro que se obtem submettendo
o minerio de ferro a differentes operações.

                                                (_Nota do traductor_.)

[83] Cidade da Lua.

[84] Quatrocentos e trinta e tres contos e seiscentos mil réis.

[85] Mystification. Mystificação.

[86] Paixão dominante.

[87] A inclinação do eixo de Jupiter, sobre a sua orbita, é apenas de
3^o 6'.

[88] Ponto onde se reunem os raios luminosos depois de refractos.

[89] Custou oitenta mil rublos, isto é, cincoenta e sete contos e
seiscentos mil réis.

[90] De muitas outras lunetas reza a chronica que tinham bem maior
comprimento, entre outras uma construida por iniciativa de Domingos
Cassini, no observatorio de Paris, que tinha trezentos pés de foco;
convem todavia saber que taes lunetas não tinham tubo. O objectivo
estava suspenso nos ares por meio de mastros, e o observador
collocava-se com a possivel exactidão no foco do objectivo, com o ocular
na mão. É bem patente quão pouco commodo haveria de ser o emprego de
taes instrumentos, e a difficuldade que haveria em ajustar os centros de
duas lentes collocadas em similhantes condições.

[91] Esta especie de reflectores chamam-se «front view telescope», isto
é «telescopios de visão directa».

[92] O mais alto cume do Hymalaya.

[93] Nebulosa que tem a fórma de um carangueijo.

[94] Duzentos litros approximadamente.

[95] Comida composta de diversos peixes.

[96] J. M. Belfast.


Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correcção       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pág.  106| Ábriram-se          | Abriram-se           |
  |#pág.  107| trinte              | trinta               |
  |#pág.  111| surpeza             | surpreza             |
  |#pág.  202| todos as dimensões  | todas as dimensões   |
  |#pág.  223| annos annos         | annos                |
  |#pág.  236| falubosas           | fabulosas            |
  |          |                     |                      |
  |#nota    9| eleito              | eleitos              |
  +----------+---------------------+----------------------+

Os nomes próprios foram mantidos tal e qual como surgiram impressos.





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