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Title: Historias de Reis e Principes
Author: Pimentel, Alberto
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Historias de Reis e Principes" ***

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*Notas de transcrição:*

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1890.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns
pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto,
e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.


       *       *       *       *       *



Alberto Pimentel

HISTORIAS

DE

REIS E PRINCIPES

[Illustration]

PORTO


Cancella Velha, 66

1890

INDICE


     I. Um rei e um conspirador          5

    II. Seis rainhas para um rei        31

   III. D. Beatriz de Portugal          67

    IV. Rei e pastor                   117

     V. Mãi e filhos                   121

    VI. Tradição galante de D. Miguel  147

   VII. Maximiliano em Portugal        163

  VIII. Duas imperatrizes              195

    IX. O paiz dos meninos             265

     X. Um rei entre montanhezes       279

    XI. No harem de Marrocos           287

   XII. Idyllio de amor                295

  XIII. Na morte do Kronprinz          303

   XIV. El-rei D. Luiz nos Jeronymos   311

    XV. Rainha e viuva                 319



HISTORIAS DE REIS E PRINCIPES



    «... le roman est l'histoire des hommes
  et l'histoire le roman des rois.»

      DAUDET—_Souvenirs d'un homme
          de lettres_.



I

UM REI E UM CONSPIRADOR


Fernão da Silveira, filho primogenito do barão de Alvito, foi escrivão da
puridade de D. João II, e figura como poeta no CANCIONEIRO de Garcia de
Rezende.

Estas circumstancias dão-lhe fóros de homem notavel no seu tempo. Mas a
todas sobreleva, perante a historia, a de ter sido um dos conspiradores que
mais incommodaram D. João II.

Parece que o rei não tinha sobejos motivos para confiar no seu escrivão.

Certo dia mandára chamar, por um moço da camara, Fernão da Silveira. D.
João II não se queria referir ao secretario particular, mas a outro Fernão
da Silveira, o coudel-mór, tambem poeta como o seu homonymo.

Comparecendo o escrivão da puridade em vez do coudel-mór, D. João II
agastou-se e perguntou ao moço da camara:

—A quem te mandei chamar?

—A Fernão da Silveira.

—Não era este, replicou o rei, mas o _Bom_.

O escrivão da puridade julgou-se desconsiderado com estas palavras do rei
e, sahindo do Paço, como encontrasse no Rocio D. Martinho de Castello
Branco, desabafou com elle. D. Martinho procurou aquietal-o com bom
conselho, porém Fernão da Silveira insistiu em mostrar-se agastado contra o
rei, de quem jurou vingar-se.

—Mas o que podereis vós fazer? perguntou D. Martinho.

—Matal-o, respondeu o escrivão da puridade.

E correu d'alli a bandear-se com os conspiradores: o duque de Vizeu, o
bispo d'Evora D. Garcia, o irmão do bispo, D. Fernando de Menezes, D.
Guterres Coutinho, D. Alvaro Coutinho e seu filho, o conde de Penamacôr e
seu irmão D. Pedro d'Albuquerque.

D. João II soube das conferencias mysteriosas dos conspiradores, celebradas
em Santarem, fóra de portas.

Por mais de uma delação o soubera.

Tinha o bispo d'Evora certa manceba, de nome Margarida Tinoco, a cujo
irmão, Diogo Tinoco, ella revelára o segredo da conspiração. Foi este homem
que, disfarçado em frade, procurou o rei no convento de S. Francisco em
Setubal, e lhe denunciou os conspiradores, recebendo em troca uma larga
mercê, que a morte, devida talvez a peçonha mandada propinar pelos
denunciados, lhe não deixou gozar.

D. João II recebeu outra denúncia por D. Vasco Coutinho, a quem seu irmão
D. Guterres pozera ao facto da conspiração. D. Vasco arrecadou em premio o
condado de Borba, importando-se pouco com perder o irmão, que veio a acabar
preso na torre de Aviz.

Quando Fernão da Silveira teve conhecimento d'esta delação, e da explosão
da colera do rei para com o duque de Vizeu, exclamou:

—Soube D. Vasco aguçar os pescoços!

Foi, como se sabe, em Setubal que D. João II quiz por suas proprias mãos
fazer justiça no duque de Vizeu. E comquanto emprehendesse esmagar a
conspiração na pessoa dos chefes, não se esqueceu o rei de outros
conspiradores menos qualificados. Enviou officiaes a casa de Fernão da
Silveira para que o prendessem. D. João II sentia-se profundamente
indignado contra o seu escrivão da puridade, que desde pequeno creára no
Paço, pelo que lhe ficára o appellido de _Moço_, honrando-o e agasalhando-o
na côrte, onde o casára com D. Brites de Sousa, filha de João de Mello,
alcaide-mór de Serpa.

Os officiaes foram, e não acharam Fernão da Silveira. Encontraram apenas
uma barjoleta com muitos cruzados, que lhe havia confiado o duque de Vizeu
para occorrer ás despezas da conspiração.

O escrivão da puridade, não tendo já tempo para fugir de Setubal, fôra
esconder-se em casa de um velho escudeiro de seu pai, de nome João Pegas,
que não duvidou recebel-o, a despeito do perigo que por esse facto podia
correr.

Pegas metteu o filho de seu amo dentro de uma grande arca sem fundo.
Fingindo que guardava pão na arca, alimentava todos os dias o conspirador.

Uma escrava preta, que havia em casa, cuidou ouvir gemidos, que sahiam da
arca. Disse-o a João Pegas que, receiando se descobrisse o segredo, ordenou
á preta que se calasse até que elle no dia seguinte verificasse se era
verdadeiro ou não o caso dos gemidos.

Ao outro dia, a escrava tornou a ouvir gemer. Foi dizel-o a João Pegas, que
se levantou do leito immediatamente, e a mandou buscar um balde de agua ao
poço.

Quando a escrava estava tirando a agua, Pegas precipitou-a no poço,
esperando cautelosamente que ella acabasse de escabujar na afflicção
extrema dos afogados.

Logo que reconheceu que estava morta, gritou publicando que a escrava se
afogára.

Mas o segredo do escondrijo de Fernão da Silveira ficou no fundo do poço,
que era o que João Pegas queria conseguir.

Decorreu tempo, e o escudeiro tratou de fazer sahir de Portugal o seu
hospede. Valeu-se para isso de um mercador, que se chamava Bartolo, e que
levou comsigo para Sevilha Fernão da Silveira, disfarçado em mendigo.

Salvo em Castella, o foragido foi bem acceito na côrte de Izabel a
Catholica, e lá lhe acudia com auxilios pecuniarios o conde de Benavente,
fidalgo castelhano, que fôra grande amigo do pai de Fernão. Mandava-lhe
todos os mezes um saco com duzentos escudos, mas Fernão da Silveira só
tirava cinco, e devolvia o resto. O castelhano todos os mezes insistia em
igual remessa, e o portuguez não deixava de insistir na recusa da quantia
excedente a cinco escudos.

Comprehendeu o castelhano que era aquelle um homem retemperado de
invencivel altivez lusitana, e, para acabar de experimental-o, certo dia em
que se juntaram com outros fidalgos na ante-camara dos reis catholicos,
deixou o conde cahir uma luva. Fernão da Silveira, em vez de se dar pressa
em levantal-a, sentou-se n'um bufete. O conde de Benavente não desgostou
d'esta arrogancia tão conforme ao espirito hespanhol, e celebrou-a. A
noticia do facto espalhou-se com applauso na côrte de Castella, e chegou á
de Portugal, onde D. João II, comquanto sempre resentido dos aggravos
recebidos de Fernão da Silveira, e sempre implacavel nos seus projectos de
vingança, commentou a noticia com esta phrase sentenciosa:

—Fernão da Silveira aonde chegar ha de sempre ter lugar.

D. João II mandára citar por carta de éditos Fernão da Silveira, emquanto
estivera escondido em casa de João Pegas, para que se apresentasse perante
o rei e o seu conselho, no termo de quarenta dias, a fim de se livrar «da
dita traição e maldade que contra nós e nosso real estado, e contra o bem,
paz, e assesseguo de nossos reinos cometera, e para sobre todo ser ouvido
com o dito procurador fiscal da nossa justiça.»

Passou-se o praso de quarenta dias, e Fernão da Silveira não appareceu.
N'essa não cahia elle, que bem sabia a sorte que o esperava se apparecesse.

Chegou o dia da audiencia, e o porteiro do tribunal, João Trancoso,
apregoou o réo. Como se não apresentasse, nem outrem por elle, o procurador
da justiça offereceu o libello articulado sobre os seguintes factos
criminosos:

«Que nós criáramos o dito reo de moço pequeno, e que sempre lhe fizeramos
muita honra, gasalhado, e mercê, casando-o, e dando-lhe muita renda com
vontade, e tenção de o muito honrar, e acrecentar, e fiando nós d'elle
nossos segredos, e conselhos, encarregando-o muitas vezes de nosso escrivão
da Puridade, fiando nós nossa vida d'elle reo, e sempre o dito reo obrigado
a nos guardar lealdade não sómente como nosso criado, mas ainda como
vassalo, e nosso subdito, elle o fizera muito pelo contrario, antes como
desleal desobediente Portuguez, fizera, tractára, ordenára e aconselhára
contra nós, e nosso Real Estado, bem, paz e assesseguo, e prol comunal
d'estes nossos reinos e senhorios, as coisas que se adiante seguem. A
saber, que elle dito reo com o Bispo d'Evora, e com D. Diogo, que foi Duque
de Vizeu, tractou, conjurou, e ordenou muitas desleadades contra nós, e
contra o Principe meu sobre todos muito Amado, e Prezado Filho, tractando,
e ordenando muitas vezes, assim na Cidade de Evora como nas Villas de
Santarem e Setubal, e outros lugares de nos matarem, e ao dito Principe meu
Filho, e de se alevantarem com as Villas, e Fortalezas que o dito Duque
tinha, e outras quaesquer, que podessem haver, tractando de metter gente de
fóra d'estes reinos para poderem pôr em obra o seu mau e desleal proposito,
e para contra quem quer que lh'o embargar quizesse, sendo o dito reo o que
principalmente tractava contra nós, induzindo para isso o dito Duque, como
do feito induziu, e outros seus amigos, de que se elle reo fiava, e o
principal conspirador e ajuntador, dos que no dito tracto e conspiração
eram contra nós, e sendo o recebedor, e o que dispendia os dinheiros que
para as ditas traições, e maldades eram juntos, e o pagador d'elles, a quem
era ordenado, como dos ditos dinheiros pagára quinhentos cruzados a Pero de
Albuquerque, para abastimento da Fortaleza do Sabugal, e assim a D. Alvaro
d'Athayde, certa somma de dinheiro que vier em verdade. E que logo como o
dito Duque D. Diogo foi morto, e o Bispo, e alguns dos outros conjurados
presos, pelas ditas maldades e traições serem reveladas a nós, elle dito
reo, temendo-se do que feito tinha, logo sem mais detença se partiu, e foi
d'estes reinos, e amarou sem mais nunca n'elles apparecer, nem ser visto de
seus parentes e amigos, e dos que com elle tinham conversação.»[1]

Ouvido o libello pelo rei e seu conselho, foram julgados procedentes os
artigos de accusação, ordenando D. João II que se o réo tivesse artigos
contrarios, viesse com elles. Como não veio, correu o processo á revelia,
sendo admittida a prova do procurador da justiça, o qual offereceu a
inquirição devassa que por este motivo havia sido tirada.

Fernão da Silveira teve conhecimento dos éditos de citação; mas só quando
se viu salvo em Castella ousou denunciar o seu paradouro, não escrevendo
uma justificação judicial, mas dirigindo particularmente ao rei uma carta
audaciosa, de que vamos extrahir alguns periodos:

«... eu dias ha que estou n'esta Côrte de El-Rei e da Rainha de Castella,
meus Senhores, e bem se sabe em Portugal: poderia tambem responder a elles
(éditos) por direito, outras razões poderia dar n'este caso, mas não quero
alongar a escriptura e ainda d'estes me quero lançar fóra; sómente digo que
os éditos contra mim postos são mandados pôr por vós ante quem o direito
nem justiça não vale nada, nem ousa ninguem de os julgar que claramente
sobre os éditos que contra Ruy Lopes Coutinho mandaveis pôr, dizem de vós
os letrados que não era de direito de se pôrem na forma que querieis,
dissestes _que quem aquillo dissesse o mandarieis esfolar e cobrir a
cadeira de sua pelle_ e isto ao Doutor Nuno Gonçalves, que quizestes lançar
a perder por uma sentença que deu segundo lhe parecia direito no feito de
Cezimbra; d'estas taes pudera dizer muitas, mas, sobre cousa tão clara como
a vossa injustiça, não cumpre muitas provas, bem se sabe que nenhum homem
em vosso reino não ha de julgar, senão o que vós quizerdes, e bem se sabe
que é o que vós quereis; e deixando todas estas cousas, sómente digo que
apéllo de vós para Rei direito e justiçoso, e que o mereça e deve ser, e
ainda que para isto ahi não houvesse prova senão as obras que fazeis
abastariam afóra outras cousas que tenho caladas para quando cumprir, assim
que vossos éditos para mim não são de nenhum valor, nem força, e protesto
que cousa que n'elles digaes, nem sentença que por elles contra mim se der,
não me possa damnar nem empécer em nenhum tempo que seja.

Ora, Senhor, vos quero dar conta de mim e da causa que em minha sahida
d'esse Reino e o porque sei que tanto desejastes, e trabalhastes de me ver
á mão, o que principalmente foi, porque eu não contasse a verdade d'este
feito, e de como mal e como não devieis matastes o Duque de Vizeu que Deus
haja, e eu ouvindo a crueldade de sua morte e lembrando-me o mal que muito
tempo me querieis e mui sem causa, e quanto agora me quereis pelo bem que o
Duque me queria, pareceu-me que não devia estar á misericordia de quem não
tem nenhuma nem esperar vossas injustiças e crueldade, as quaes em mim sei
que muito desejaveis executar que pela grande que com o Duque que Deus haja
tinha cuidaveis que saberia a causa da sua morte, a qual não foi outra
senão o grande mal que sempre lhe quizestes e os grandes aggravos e
deshonras que lhe fazieis, as quaes seriam cousa larga de contar, se
houvesse de contar das escripturas e doações que lhe furtastes do cofre que
a Senhora Infanta sua mãe deixou em guarda da Rainha vossa mulher, e de
como nunca lhe confirmastes cousa que tivesse, antes lhe quebrastes cada
dia suas cartas e privilegios e mandaveis a letrados a revolver livros para
lhe tirar a vintena da Guiné, afóra na paga d'ella terdes tal forma que a
mór parte lhe levaveis, e quebrastes-lhe o trato da canella e fizestes que
em Côrtes que vos requeressem que lhe tivesseis as saboarias e o montado, e
tirastes-lhe o desembargador que trazia na casa e tirastes-lhe a
jurisdicção dos rendimentos das suas rendas, e dissestes que se vos não
tornasse a Ilha da Madeira por terras do Duque que lh'a deitarieis a
perder, e deixando estas cousas e outras muitas que contra elle tendes
feito e commettidas tocantes á sua fazenda, nas quaes ia a maior parte do
seu estado e em muitas todo lhe fazieis e ordenaveis outras em que lhe ia
honra e vida, são tratal-o mui descortez e soberbamente e fallares n'elle
mui feiamente chamando-lhe rapaz e necio, e que não era para nada, e
trazerdel-o em vossa Côrte a seu pesar, que por preso o haviam todos, não
querieis consentir que casasse com uma filha d'El-Rei meu Senhor, e mui
honradamente casára, nem quizestes que casasse Irman com elle desejando-o
ella, e tendo vós promettido á Infante sua Mãe que farieis n'isso o que
pudesseis, fizestes o contrario, por onde visto está, que querieis que elle
não casasse com ninguem por não haver filhos que herdassem o seu, e d'isto
ha outra mui mais certa prova que estas, que é certo que lhe mandaveis dar
cousa para não haver geração, e foi-lhe descoberto, depois lhe foi dito
como mandaveis alguns que o matassem de noite indo elle fóra só, fingindo
que o não conheciam, e foi avisado, e guardou-se, e depois foi avisado
agora em Santarem, que com um cosinheiro trataveis para lhe dar peçonha,
assim que claro está que dias ha que tinheis determinado de fazer o que
fizestes e mais o matastes porque vos elle devia matar que por querer
matar, que se elle tal quizera, não andára tão mal apparelhado para tal
negocio nem viera só ver-vos e deixára-vos os mais dos seus em Palmella,
nem os que com elle culpaes não estiveramos tão mal apercebidos, que eu
n'esse mesmo mez não mandára com meus Irmãos os meus escudeiros e
encavalgados, nem lhe déra os meus cavallos e armas de minha pessoa e
áquella hora estava em casa de meu Pai que Deus haja, sem saber que o Duque
era ido nem D. Alvaro de Athayde vos houvera de matar em Santarem nem D.
Pedro de Athayde inda no ventre, eu muitas cousas pudera dizer em prova
d'isto, mas abasta o que todo o mundo sabe, que matastes o Duque mal, e
como não devieis e por mau respeito, e isto pudera bem provar por direito e
leis e ordenações, mas porque seria longura será melhor que vamos pôr a
batalha: eu estou aqui e affirmo uma duas ou tres vezes, que matastes o
Duque mal e como não devieis, e aleivosamente, e o defenderei a quem por
vossa parte me desafiar, e isto darei empreza para vós mandares tomar a D.
Vasco não já que elle tomou, e d'esta guiza me devieis vós mandar matar que
não á traição, _como me dizem que mandais_ e se por vossa pessoa isto
houvera de ser feito, bem sei que vos não porieis n'este risco, assim
porque sabieis a verdade como por ali, e se isto se ordenar para que venha
a fim, por aqui se saberá a verdade, porque eu espero que será n'isto tão
inteiro juizo como em tudo, e se vos disto escuzardes n'elle espero que
mostrará tal juizo de vós o qual merecem essas obras, e que vingará no
sangue dos mortos, por mãos dos vivos, etc...»[2]

No final da carta, que é um documento importantissimo para a historia da
época, allude Fernão da Silveira á phrase dita por D. João II ao moço da
camara, phrase que determinou o seu procedimento contra o rei:

«... mas como natural e amigo d'esses reinos e por bem d'elles vos
desservirei em tudo o que puder, porque todo o desserviço e nojo que fizer
a vós vem a essa terra e gente d'ella assim grandes como pequenos, os quaes
praza a Nosso Senhor livrar da sujeição e captiveiro em que vivem, e de mim
digo que serei sempre tal inimigo como devem de ser todos os _bons_...»

O processo subiu concluso perante o rei em Relação com os do seu Conselho e
Desembargo, sendo proferida sentença condemnatoria a dez de junho de 1485,
dada na villa de Portel:

«... condemnamos, e mandamos onde quer que fôr achado, e tomado, e
comprehendido dentro em estes Reinos, e seus Senhorios, e em qualquer
Cidade, Villa, ou Lugar d'elles, logo morra cruel morte natural, e seja
esquartejado, e seus quartos de seu corpo sejam postos nas portas da
Cidade, Villa, ou Lugar onde fôr preso, e a sua cabeça seja posta no
Pelourinho: e isto sem elle mais ser ouvido, nem requerido, visto como este
maleficio é claro, e notorio, e que elle principalmente e primeiro o
commetteu, tratou, conspirou a dita maldade, e traição: e havemos todos
seus bens moveis, e de raiz, e assim os da Corôa do Reino, se os trazia, e
os patrimoniaes, e declaramos por confiscados e applicados á Corôa Real
d'estes nossos reinos, a que direitamente pertencem.»

Dois annos depois, ainda Fernão da Silveira estava em Castella, protegido
pelos reis catholicos, que se recusavam a entregal-o a D. João II.

Em 1487, n'um conselho realisado em Santarem, ventilou-se a questão de
assentar no destino a dar ás mulheres dos conspiradores, sobre as quaes
recahiam suspeitas de estarem em intelligencia com os maridos.

Os drs. Fernão Rodrigues e Nuno Gonçalves foram de parecer que deviam ser
enviadas com os filhos aos maridos, não só _para não peccarem com outros_,
mas tambem porque não deviam pagar pelas culpas d'elles. E ainda porque os
filhos dos conspiradores constituiriam um foco permanente de conspiração
pelo desejo que teriam de vingar os pais.

Ao dr. João Teixeira, chanceller-mór, pareceu melhor não renovar a
lembrança de factos que o tempo ia esquecendo. Que, mais aquietadas as
paixões politicas, bem podiam os filhos dos conspiradores ser leaes
servidores d'el-rei.

Por isso entendia que se deixassem sahir com seus filhos e haveres as que
quizessem ir reunir-se aos maridos; mas que não fossem obrigadas a fazel-o
todas, indistinctamente.

Os restantes membros do conselho concordaram com este alvitre. O rei tambem
concordou.

Então Ruy de Sousa disse saber que a mulher de Fernão da Silveira folgaria
de ir para o marido.

Ora um documento da época, que suppomos inedito, diz qual foi a resposta de
D. Brites de Sousa:

«Esta parte tomou el-rei de as não mandar constrangidamente, e mandou a
esta de Fernão da Silveira saber se se queria ir, e ella escolheu a parte
de estar no reino por então.»[3]

Uma tal resposta surprehendeu decerto o leitor, por não ser conforme com a
declaração que no conselho d'el-rei fizera Ruy de Sousa.

Tem comtudo uma explicação, e o leitor vai sabel-a.

D. Brites de Sousa tinha realmente manifestado desejo de ir viver com seu
marido em Castella.

Pesava-lhe a vida que levava longe d'elle, com um filho pequeno nos braços.
Chamava-se João o filho legitimo de Fernão da Silveira. O conspirador tinha
outro filho, illegitimo, que houvera de uma manceba de nome Izabel
Rodrigues, e que havia nascido em 1480.

D. Brites chegára a fallar aos do conselho d'el-rei para que lhe obtivessem
a concessão de passar a Castella. Mas obtida a concessão, soubera que
Fernão da Silveira tinha mandado ir a manceba e o filho.

O seu coração amantissimo não foi superior a este golpe. Resolveu não ir
para castigar a infidelidade do marido, que no homisio preferira as
consolações da familia illegal ás da familia legitima.

Eis-aqui a rasão que determinou a recusa de D. Brites.

O certo era que Fernão da Silveira vivia em Castella sem disfarces de
mancebia. A sua existencia, cortada de continuos sobresaltos e receios, que
o faziam esperar a toda a hora o punhal assalariado por D. João II, achava
lenitivo nas expressões affectuosas da manceba, que na desgraça se tornára
mais dedicada.

Sabia o foragido que o rei de Portugal procurava constantemente actuar no
animo de Fernando e Izabel para leval-os a entregarem-lhe o conspirador.
Receiava que os reis catholicos viessem a ceder, e n'esse caso contava com
uma infallivel morte ignominiosa, com uma vingança terrivel que nem os seus
restos mortaes respeitaria. A pelle do seu corpo serviria para cobrir a
cadeira de D. João II.

Em Castella, nas horas em que não frequentava a côrte, onde assiduamente
concorria para sondar a seu respeito o animo de Fernando e Izabel,
fraquejára por vezes aquelle homem forte, cuja altivez assombrára o conde
de Benavente, e merecêra elogio ao proprio D. João II.

Perante a rigidez indomavel do rei de Portugal, antolhava-se-lhe desolador
o futuro. Se lograsse escapar aos sicarios armados pela colera de D. João
II, o que era muito pouco provavel, teria que viver e morrer longe da
patria com o labéo de conspirador, sempre vexado pela necessidade de
receber agasalho e protecção.

As sombras da noite punham-lhe no espirito o constante receio de
emboscadas; atravessava as ruas com o sobresalto com que póde atravessar-se
um sertão povoado de féras. Não se permittia a fraqueza do medo, não
evitava as horas sinistras da noite, por mais que Izabel Rodrigues lh'o
pedisse; mas tinha sempre presente o espectro da morte por traição.

Quando recolhia a casa, esquecia nos braços carinhosos da manceba, que lhe
apresentava o filho, os sobresaltos d'aquelle dia, e repousava como o
naufrago n'um porto de abrigo.

Ás vezes tinha furias de raiva contra D. João II, o assassino do duque de
Vizeu, o flagello da nobreza portugueza, como elle lhe chamava. Retratava-o
moralmente como um tyranno sedento de sangue e poder. Justificava a reacção
da nobreza, e a sua, declamava como um verdadeiro jacobino do seculo XV,
como um _sans-culotte_ que se tinha antecipado trezentos annos aos da
demagogia franceza.

A manceba ouvia-o tremendo com o filho sentado nos joelhos, e procurava
aquietal-o com palavras brandas.

Mas Fernão da Silveira perguntava-lhe se poderia ter animo tranquillo e
sereno um homem a quem D. João II, se o apanhasse, faria esquartejar,
pregando-lhe os quartos nas portas de qualquer cidade ou villa, e a cabeça
no pelourinho da praça publica.

Lembrava-lhe que o odio de D. João II costumava ser tão profundo e
sanguinario, que não respeitava nem as regalias de nascimento nem os laços
de parentesco.

Perguntava-lhe se não sabia que o duque de Bragança fôra decepado no
cadafalso da praça de Evora; que em Abrantes cevára D. João II a sua
vingança na estatua do marquez de Montemór já que, por se ter refugiado em
Castella, não podéra ceval-a no seu corpo; que o duque de Vizeu, cunhado do
rei, fôra por elle proprio assassinado em Setubal. Agradecia á Providencia
o ter-se encarnado na pessoa de João de Pegas para o salvar; senão,
haver-lhe-ia acontecido o que acontecêra a D. Pedro de Athayde, que fugindo
de Setubal para Santarem fôra preso no caminho, publicamente degolado e
feito em quartos.

Os fidalgos castelhanos continuamente estavam avisando Fernão da Silveira
das repetidas instancias que D. João II fazia junto dos reis catholicos
para que lh'o entregassem. O conspirador teimava em não querer parecer
fraco, deixava-se ficar, sempre intimamente sobresaltado e desconfiado.

Mas em 1488, como D. João II enviasse a Castella uma embaixada a pedir para
o herdeiro da corôa a mão da filha primogenita dos reis catholicos, Fernão
da Silveira, receiando que pelo facto do casamento se estreitassem, como
era natural, as relações de amizade entre as duas côrtes, resolveu-se a
fugir para França acompanhado pela manceba e pelo filho.

Não devia, porém, considerar-se muito seguro em França um conspirador
representante da nobreza insurgida contra o poder absoluto dos reis.

Luiz XI, que tinha morrido poucos annos antes, em 1483, havia sido um
inimigo implacavel dos poderosos senhores do seu reino, que formaram contra
elle a celebre liga do _Bem publico_. Sabe o leitor que Luiz XI se fizera
rodear de gente de baixa estofa, que continuamente atiçava a colera do rei
contra a nobreza. Vivêra mano a mano com o seu barbeiro Olivier Le Daim, e
tratava por compadre o preboste Tristan, executor dos seus planos
sanguinarios.

Estava ainda muito viva a lembrança das crudelissimas represalias de Luiz
XI,—da vingança que tirára do seu ministro Jean Balue, que de simples
presbytero chegára a ser cardeal de Santa Suzana e que, suspeito de ter
atraiçoado o rei com o duque de Borgonha, fôra, no castello de Plessis,
encerrado n'uma gaiola de ferro, onde não podia conservar-se deitado nem de
pé; do supplicio horrivel de Jacques d'Armagnac, duque de Nemours, e de
seus filhos, na fortaleza de Loches; finalmente do drama tragico-burlesco
dos ultimos tempos da sua vida n'aquelle mesmo castello de Plessis, onde
Jean Balue padecêra, e onde Luiz XI, assaltado pelos terrores da morte,
fazia vigiar as avenidas pelo barbeiro Olivier e pelo compadre Tristan, que
se encarregavam de enforcar nas arvores do parque todo o individuo que
podesse inspirar-lhes desconfiança.

Luiz XI havia pois morrido em Plessis, onde passára os ultimos dias
passeiando ao longo d'uma vasta galeria, torturado pelo medo da justiça
eterna, sem que podessem tranquilizal-o o espectaculo dos combates de gatos
e ratos, as danças dos camponezes, as orações e as penitencias a que se
entregava, e sem que podesse avigoral-o o uso de beber o sangue das
creanças no intuito de fortalecer-se e remoçar.

Nem este tonico vivificante, nem o soccorro do eremita da Calabria, que
mandára buscar para consultal-o, e ao qual pedia a vida chorando, haviam
podido salvar da morte Luiz XI.

O herdeiro do throno, Carlos VIII, tinha treze annos quando foi proclamado
rei, e sua irmã, Anna de Beaujeu, investida na regencia, procurava
conservar intacto o poder real, dominando a nobreza.

Depois da batalha de Saint-Aubin, ferida em 1488, em que o duque de Orléans
cahira prisioneiro nas mãos da regente, que o conservou dois annos
encarcerado, diz-se que, principalmente, para vingar-se dos seus desdens
amorosos, Fernão da Silveira entendeu como mais prudente abandonar uma
côrte, onde a nobreza continuava a ser esmagada pelo poder real, e foi
estabelecer o seu _faux ménage_ em Avinhão, a cidade sagrada, que um legado
do papa governava.

Em Avinhão, Fernão da Silveira tinha horas de cerrada melancolia, quando
ermava contemplativo junto ao tumulo da Laura de Petrarcha, e aproximava o
seu destino do destino do poeta italiano, ambos infelizes, posto que por
differente motivo.

Petrarcha apaixonára-se aos vinte annos pela bella Laura, que nunca foi
sua, pois que desposára Hugues de Sade, a quem, victima da peste de 1348,
deixára viuvo com a descendencia bem pouco lyrica de onze filhos.

Fernão da Silveira, menos infeliz pelo que respeitava ao feminino, tinha
comsigo, em mancebia adulterina, a sua Laura, a qual procurava suavisar-lhe
as horas amargas da vida, que eram todas ou quasi todas.

Mas como poeta e exilado, comprehendia a solidão dolorosa de Petrarcha em
Valchiusa, á beira de cuja fonte o portuguez ia muitas vezes sentar-se
juntando idealmente as suas angustias ás do poeta que, tendo alli cantado
um seculo antes, vivêra solitario como elle e como elle perseguido pela
fatalidade do destino.

Entrado o anno de 1489, o espirito de Fernão da Silveira principiou a ser
assaltado por sombrios presentimentos, que elle baldadamente procurava
reprimir.

Tinha frequentes accessos de colera, que o sorriso de seu filho, creança de
pouco mais de oito annos, não lograva serenar.

Imprecava violentamente D. João II, que continuava a denominar o tyranno de
Portugal.

Dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues que a justiça do céo havia de cahir
tarde ou cedo sobre o tyranno, e feril-o na mais sensivel fibra do coração,
se aquelle coração tinha alguma coisa de humano. Parecia que Fernão da
Silveira adivinhava n'esse momento a catastrophe que, tempo depois, havia
de victimar em Santarem o joven principe D. Affonso, herdeiro da corôa.

Recommendava-lhe que, no caso d'elle morrer assassinado por ordem de D.
João II, como presentia, educasse seu filho no odio ao tyranno e no amor da
liberdade.

Mostrava alimentar a esperança de que a sua morte e a dos outros
conspiradores seria vingada pelo veneno ou pelo punhal na pessoa do rei.

Ainda n'isto se não enganou Fernão da Silveira, porque os intestinos de D.
João II parece terem cedido lentamente á acção toxica das drogas preparadas
por mestre João de Masagão de accôrdo com o duque de Beja.

O inverno de 1489 havia sido cruel em toda a Europa. Estava-se em dezembro,
os dias eram plumbeos, as noites tempestuosas.

Fernão da Silveira dizia muitas vezes a Izabel Rodrigues:

—A cada silvo do vendaval sinto-me estremecer interiormente, como um predio
que vai desabar... É o presagio da morte, Izabel. Morro longe da patria,
longe da familia que eu constitui em tempos de felicidade. Morro ao pé de
um filho, e tenho saudades de outro. O coração é assim feito. Foi o tyranno
que me casou, porque na côrte dos reis poderosos nem o coração é livre.
Nunca tive nem podia ter por minha mulher a febre de amor com que tu me
incendiaste os sentidos. É a ti que eu amo, boa alma, que tanto te tens
doído das minhas dôres. Vivo comtigo com o mesmo direito com que o tyranno
abandonava a rainha para se ir emboscar em Cernache do Bom Jardim com D.
Anna de Mendonça, a mãe do bastardo. Se alguem n'este ponto podesse
tomar-me contas, não era por certo o tyranno, tão fragil com mulheres. Mas
da esposa que não amei nunca, tenho um filho que sempre tenho amado, e
peza-me que elle haja de arrastar na sociedade a infamia com que o tyranno
enlameou protervamente o meu nome. Outro filho tenho... é o teu, é o nosso,
Izabel, e d'esse me peza duplamente, porque só póde ser meu filho para
compartir da deshonra do pai com o irmão.

Izabel Rodrigues acudia com palavras carinhosas a desviar-lhe o espirito
para menos lastimosos pensamentos, mas o conspirador quedava-se triste,
calado, dando a perceber que continuava mentalmente os raciocinios que a
manceba meigamente pretendêra interromper.

No dia 8 de dezembro, Fernão da Silveira lembrára-se saudosamente de
Portugal, recordando com grande nitidez de memoria muitos episodios da sua
vida da côrte. Izabel Rodrigues tentou distrahil-o; e como no céo,
anteriormente caliginoso, se fossem rasgando clareiras azues, lembrou-lhe
que sahisse a passeio.

Dos labios do conspirador escaparam em resposta estas palavras presagas:

—Sahir! Procurar a morte!

Mas como se de subito se envergonhasse da sua fraqueza, disse a Izabel
Rodrigues que sahiria.

Lembrou ella que levasse comsigo o filho, que bem podia attrahir-lhe a
attenção para as suas graças infantis.

Fernão da Silveira sahiu, e levou o filho.

Foram, caminho fóra, conversando os dois.

Obedecendo á teimosia dos seus pensamentos, Fernão da Silveira ia fallando
de Portugal ao filho, gravando na sua memoria, a traços de fogo, o retrato
odiento do tyranno.

Á volta de uma rua, encontraram-se a pequena distancia com um fidalgo
catalão, cujo nome e situação Fernão da Silveira muito bem conhecia. Era,
como elle, um conspirador, que andava foragido de Castella: o conde de
Palhaes.

O catalão, em vez de se dispôr a saudar Fernão da Silveira, levou a mão
direita ao peito, insinuando-a no gibão. E, ao passar junto de Fernão da
Silveira, cravou-lhe rapidamente um punhal no coração.

Não teve o portuguez tempo para resistir; cahiu desamparado na rua.

Mas o pequeno Alvaro, vendo o pai morto, desatou em gritos dilacerantes,
que despertaram as attenções, e chamaram gente.

O conde de Palhaes foi logo preso, conduzido ao carcere em nome do rei de
França, que não era já Luiz XI, como sabemos, porque Luiz XI havia morrido
seis annos antes.

A opinião publica alvorotára-se com este acontecimento, pela significação
que realmente tinha. O braço do conde de Palhaes fôra manifestamente armado
por D. João II, que ao catalão fizera _mercê de muita somma de ouro, em que
se primeiro concertou_, como escreve Garcia de Rezende. Não podéra o rei de
Portugal ser feliz nas negociações que para haver á mão Fernão da Silveira
entabolára com os reis catholicos e com o rei de França. Ter-lhe-ia sido
por certo bem mais agradavel que essas negociações houvessem surtido
effeito, porque lhe permittiriam vingar-se do escrivão da puridade pelo seu
proprio braço, como fizera ao duque de Vizeu, ou pelo braço do algoz, como
fizera ao duque de Bragança. Mas, posto falhassem os meios a que primeiro
recorrêra, não desistíra da vingança. Empregou outros, o da corrupção pelo
ouro, sob promessa talvez de que, além do ouro, a sua protecção salvaria o
sicario.

N'este ponto enganou-se D. João II.

Morto Fernão da Silveira pelo conde de Palhaes, o rei de Portugal quiz
effectivamente valer-lhe, como decerto havia promettido. Mas o mais que
pôde conseguir foi que a regente, em nome do rei de França, lhe commutasse
a pena de morte em prisão perpetua.

É natural que o catalão désse ao diabo a empreza, vistos os resultados. O
ouro que recebêra não podéra ganhar-lhe a liberdade; e D. João II apenas
lográra salvar-lhe a vida.

Alvaro Rodrigues, o bastardo de Fernão da Silveira, fôra conduzido a casa
por pessoas compassivas que o acompanharam. Levava o fato salpicado de
sangue do pai, e impressos para todo o sempre na memoria os pormenores do
seu tragico assassinato.

A mãe abraçou-se chorando ao filho, e rompeu em apostrophes violentas
contra o tyranno que assalariára o sicario para que elle, á luz do dia,
perpetrasse um homicidio dentro da cidade dos papas.

Na memoria infantil do pequeno Alvaro condensaram-se, em torno da
recordação do cadaver do pai, todos estes lugubres accessorios, que as
lagrimas e os clamores da mãe a cada momento renovavam.

Quando a noticia chegou a Portugal, outra mãe, D. Brites de Sousa,
esquecendo na sua dôr as infidelidades do marido, recordou a João da
Silveira, seu filho, a historia lacrimosa do pai. Era então menino de
poucos annos João da Silveira, mas a recordação do pai, sempre avivada pela
narrativa da viuva, fez-lhe grave e triste o caracter. Demais a mais, João
da Silveira herdára o talento poetico do pai. Foi, mais tarde, um dos
glosadores dos serões da côrte, e um dos poetas do CANCIONEIRO de Garcia de
Rezende.

Educou-o a expensas suas D. Diogo Lobo, seu tio, e tambem poeta.

D. Manoel, subindo ao throno, tratou de rehabilitar os conspiradores. A
Fernão da Silveira rehabilitou-o na pessoa do filho legitimo, que começou a
sua carreira publica por ir servir em Çafim. João da Silveira chegou a ser
commendador de Montalvão, governador de Ceylão, trinchante de D. João III,
e seu embaixador em França. Morreu em Evora, e foi sepultado na capella do
Espinheiro.

Os dois filhos de Fernão da Silveira nunca se deram. A bastardia de um
explica naturalmente o facto. Izabel Rodrigues, recolhendo a Portugal, não
recorreu á protecção de D. Brites de Sousa, nem D. Brites de Sousa lh'a
offereceu.



II

SEIS RAINHAS PARA UM REI


O que eu vou contar é uma historia verdadeira, tão verdadeira como ter
havido em Inglaterra um rei chamado Henrique VIII, que casou com seis
mulheres e que, sem ter morrido a primeira, passou a segundas nupcias,
contra a vontade do Padre Santo.

Aqui principia, pois, todo o interesse do conto, porque, por causa de uma
mulher, como sempre acontece, separou-se a Inglaterra da communhão
catholica de Roma.

Aquelle rei dos bretões, que ao depois havia de sahir tão voluvel e
tyranno, foi na sua mocidade um bom principe, muito amante da musica e das
letras e, no respeitante a religião, muito orthodoxo. Seu pai, o primeiro
soberano Tudor, acabára dominado pela mania da ambição, que o levára a
vexar o povo, de modo que sorrira com Henrique VIII a esperança de uma nova
época melhor auspiciada, tanto mais que o rei, acclamado em 1509, tinha
casado aos dezeseis annos com a viuva de seu irmão o principe de Galles, D.
Catharina de Aragão, princeza virtuosa, que o devia aconselhar
prudentemente, sendo que este casamento era duplamente vantajoso, porque
d'elle dependia a alliança com a Hespanha e porque evitava que a Inglaterra
tivesse que restituir o dote da princeza.

Tão orthodoxo era o joven rei Henrique, que se condecorava com o titulo de
_defensor da fé_ porque, tendo rebentado o grande scisma de que Luthero
fôra a cabeça visivel, escrevêra contra o lutheranismo, guiado pelas suas
predilectas leituras de S. Thomaz d'Aquino, um livro que intitulou _De
septem sacramentis_.

O cardeal Wolsey, arcebispo de York, que procedia de baixo nascimento, era
junto de Henrique VIII um ministro absoluto. Ora á rainha Catharina pesava
que todo o poder residisse de facto nas mãos d'esse homem ambicioso, e como
o cardeal o soubesse, espreitou occasião propicia para tirar vingança da
rainha.

Conhecendo que Henrique VIII estava namorado de Anna Boleyn, filha do
gentilhomem Thomaz Boleyn, procurou despertar na alma do rei certas duvidas
a respeito da legalidade do seu casamento com D. Catharina d'Aragão,
casamento que aliás havia sido realisado por auctoridade de uma bulla do
papa Julio II.

A rainha Catharina, mais velha seis annos do que Henrique VIII, tinha-lhe
dado cinco filhos, mas só uma sobrevivêra: a princeza Maria. N'isto quiz o
cardeal Wolsey vêr castigo do céo, porque o Levitico fulmina penas contra
todo aquelle que desposar a viuva do irmão. S. Thomaz d'Aquino, o auctor
predilecto do rei, parece que tambem diz a este respeito alguma coisa. Mas
dissesse que não dissesse. O que o cardeal queria era explorar em proveito
proprio a paixão do rei por Anna Boleyn.

Henrique VIII gostou de encontrar uma porta aberta ao divorcio. E sem mais
demora apparentou os seus escrupulos á rainha.

D. Catharina d'Aragão disse que apenas um anno fôra casada com o principe
de Galles, que, pelo seu mau estado de saude, não podéra consummar o
matrimonio. Que depois, para o segundo casamento, houvera dispensação de
Roma. O rei objectou que desejava vêr a bulla. E a rainha expediu logo, a
buscal-a, um gentilhomem seu que se chamava Montoya, e que dentro de vinte
dias viera a Hespanha e voltára a Inglaterra com a bulla.

Então Henrique VIII procurou um novo subterfugio: que queria saber de Roma
se a bulla era falsa ou verdadeira.

E ordenou que, durante dez dias, ninguem, a não ser o seu emissario de
confiança, podesse sahir para Roma.

A rainha, como isto soube, valeu-se ainda de Montoya para que sem demora
partisse occultamente para Antuerpia, e d'alli, tomando um navio flamengo,
procurasse chegar a Roma primeiro do que o postilhão do rei.

Assim aconteceu. O papa, recebendo Montoya, disse-lhe que a bulla era
verdadeira, e que a enviaria a Inglaterra por mão do cardeal Campeggio. E o
mesmo respondeu ao emissario de Henrique VIII, que ficou desesperado quando
teve conhecimento do modo como as coisas haviam corrido.

A rainha, para segurar a vida de Montoya, mandou-lhe recado que se
demorasse em Brugges, e ahi esperasse ordens suas.

Entretanto chegára a Inglaterra o cardeal Campeggio. O rei tomára por seu
patrono o cardeal Wolsey, a rainha o cardeal Campeggio, e marcou-se o praso
de um mez para que cada um dos conjuges litigasse o seu direito.

Catharina de Aragão mandou procurar em Brugges um advogado que, tendo medo,
não acceitou a procuração, de modo que a rainha ficou sem outro defensor
além do cardeal Campeggio.

E reunido um conselho de dezeseis lettrados, oito por parte do rei, oito
por parte da rainha, declarára um dos lettrados do rei que o principe de
Galles, segundo duas testemunhas podiam jurar, tivera conversação com D.
Catharina, porque certa manhã, sahindo da alcôva, dissera alegremente que
tinha passado a noite em Hespanha...

A rainha, ouvindo isto, levantou-se indignada, replicando:

—Que o testemunho era aleivoso, por quanto o rei Henrique bem sabia como a
havia encontrado.

E, ouvidos tambem os debates theologicos entre os cardeaes inglez e
italiano, o conselho dos lettrados reconheceu a dispensação por boa e
authentica, ficando resolvido que aquelles dois dignitarios da Igreja
dariam sentença no dia seguinte.

O cardeal de Wolsey, vencido n'esta lucta, foi desculpar-se junto do
monarcha, que o repelliu agrestemente, accusando-o de não ter sabido levar
a cabo o seu plano.

E Henrique VIII, como cada vez estivesse mais namorado de Anna Boleyn,
chamou os duques de Norfolk e Suffolk, e outros grandes senhores do reino,
para que no dia seguinte, quando os dois cardeaes se reunissem, lhes
dissessem da sua parte que não queria que dessem sentença.

Os duques e os outros grandes senhores cumpriram a ordem do rei, e os
cardeaes não ousaram dar a sentença, indo o de Wolsey lançar-se de joelhos
aos pés de Henrique VIII para que lhe perdoasse e o deixasse sahir incolume
da côrte.

Ora o rei, apesar do que se tinha passado, dissera em segredo a Anna Boleyn
que estivesse certa de que elle a havia de desposar e fazer coroar rainha.

Despedindo o cardeal Campeggio, Henrique VIII fez-lhe saber que estava
resolvido a não reconhecer por mais tempo a auctoridade do bispo de Roma, e
logo, reunindo o seu conselho, communicára-lhe esta resolução, bem como a
de desposar Anna Boleyn.

Foi resolvido que se convocassem côrtes.

Mas, para não perder tempo, o rei Henrique, que estava então em Greenwich
com a rainha, ordenou que Catharina de Aragão partisse sem demora para
Kimbolton, a vinte e seis leguas da côrte, sahindo elle proprio para
Richmond.

A pobre Catharina de Aragão partiu com os seus fieis criados, e o rei casou
em Richmond com Anna Boleyn, sendo celebrante o arcebispo de Cantorbery.

O rei Henrique teimára em passar através de todas as difficuldades.

Uma d'ellas suggeriu-lh'a a propria mãi de Anna Boleyn, filha do duque de
Norfolk, que lhe pedira reflectisse no que ia fazer.

—Porque, disse a mãi de Anna, se vossa magestade examinar bem a sua
consciencia, ha de achar que minha filha tambem é sua filha.

Mas o rei não achou nada.

Henrique VIII, voltando a Greenwich, mandou dizer á cidade de Londres que
passaria n'aquella cidade para ir a Westminster coroar a nova rainha, e
Londres apercebeu-se pomposamente para receber o rei Henrique e a rainha
Anna.

Tres dias depois, Henrique VIII embarcou com Anna Boleyn no bergantim real,
seguido de uma flotilha flammante, sendo saudado tão estrondosamente pela
artilheria, que não ficou n'aquelle dia vidraça inteira desde Greenwich até
Londres.

O rei e a rainha pernoitaram na Torre e, no dia seguinte, Henrique VIII foi
no bergantim real para Westminster, sahindo pouco depois Anna Boleyn com
igual destino, n'umas andas descobertas, precedida de toda a cavallaria e
de gentishomens e damas em hacaneas e coches.

Anna Boleyn levava um vestido de brocado carmezim constellado de pedraria,
no collo um collar de perolas maiores do que amendoas, na cabeça uma
grinalda á maneira de corôa, e nas mãos um _bouquet_ de flôres raras e
bellas.

Na rua de Cheapside havia um arco triumphal, no sitio onde a cidade costuma
dar aos reis que vão coroar-se mil libras sterlinas, que lhes são entregues
por um anjo que desce do arco.

A rainha Anna recebeu a bolsa com o dinheiro, e guardou-a. Logo o povo, que
se lembrava de que a rainha Catharina havia mandado distribuir igual
quantia, quando lh'a deram, pelos alabardeiros e lacaios, ficou ainda mais
desconfiado do que estivera até ahi, dizendo com os seus botões que aquillo
era outra loiça de rainha.

Á porta de Westminster, o rei Henrique VIII esperava a rainha Anna, e,
dirigindo-se todos para o templo, foi a rainha coroada, havendo durante
oito dias grandes justas e torneios, coisa espantosa de se vêr.

Ora o parlamento confirmou tudo quanto o rei havia feito: ratificou o
casamento com Anna Boleyn, jurou a legitimidade da successão que d'elle
resultasse, reconheceu a Henrique VIII o titulo e o poder espiritual de
chefe supremo de igreja anglicana, e outorgou-lhe os rendimentos outr'ora
destinados ao thesouro pontificio.

Como alguns catholicos permanecessem firmes na sua antiga crença, e não
quizessem jurar, foram presos e executados: entre outros João Fisher, bispo
de Rochester, e o chanceller e escriptor Thomaz Moore, a quem Erasmo
dedicou o _Elogio da loucura_, e que fôra, junto de Henrique VIII, o
successor do cardeal de Wolsey.

Tambem quiz o rei obrigar a rainha Catharina e os seus fieis criados a
reconheceram por juramento Anna Boleyn como rainha, e elle como chefe da
igreja anglicana. Catharina de Aragão recusou-se dignamente, mas não queria
sacrificar os criados. Elles limitaram-se a jurar que o rei se tinha feito
cabeça da igreja, negando-se porém terminantemente a reconhecer Anna Boleyn
como rainha de Inglaterra.

Roma fulminára terriveis excommunhões contra Henrique VIII. Paulo III, como
já havia feito Clemente VII, anathematisára o rei de Inglaterra, citando-o
a comparecer perante o tribunal de Roma.

Mas o rei Henrique fez ouvidos de mercador, e ordenou que a filha de Anna
Boleyn, que veio depois a reinar com o nome de Izabel e o cognome de
_Virgem_ (que virgem!) fosse jurada princeza de Galles, sendo declarada
bastarda madama Maria, que tambem foi rainha, filha de Catharina de Aragão.

Desde que na rua de Cheapside a rainha Anna tinha arrecadado a bolsa com as
mil libras sterlinas, que lhe dera a cidade de Londres, ficou-se sabendo
que, na balança do seu coração, o amor ao rei não pesava mais do que o amor
ao dinheiro.

Assim foi que ella cobiçou a corda e as joias que pertenciam á rainha
Catharina.

Ora a rainha Catharina podia, como a condessa de Chateaubriand, quando
Francisco I lhe pediu todas as joias para as dar a Anna de Pisseleu, tel-as
mandado derreter no fogo. Mas não fez assim, devolveu-as honradamente, com
excepção da corôa, porque estava guardada da mão de lord Rutland, que não a
quiz entregar emquanto a rainha Catharina foi viva.

Lord Rutland é o Martim de Freitas inglez.

Mas aquelle e outros golpes acabaram por dilacerar o coração atormentado da
boa rainha Catharina, cujos padecimentos se aggravaram mortalmente.

No seu leito de agonia escreveu ao rei uma carta, que o abbade Millot com
razão classifica de _lettre touchante_, mas que nós, graças á chronica
hespanhola de Julian de Pliego, tão sabiamente annotada pelo marquez de
Molins, podêmos reproduzir na integra:

«Senhor meu e rei meu e marido amantissimo:

«O profundo amor que vos tenho faz-me escrever-vos n'esta hora e agonia de
morte, para admoestar-vos e lembrar-vos que tenhaes conta da saude eterna
da vossa alma mais que de todas as coisas fallazes d'esta vida e de todos
os regalos e deleites de vosso corpo, por cuja causa me haveis dado tantas
penas e fadigas e vos haveis embrenhado n'um labyrintho e pélago de
cuidados e angustias. Perdôo-vos de boa mente tudo o que tendes feito
contra mim, e supplico a Nosso Senhor que tambem vos perdoe. O que vos rogo
é que olheis por Maria, nossa filha, a qual vos recommendo; e vos peço que
para com ella tenhaes cuidados de pai. Tambem vos recommendo as minhas tres
criadas, e que as cazeis honradamente, e todos os outros criados, para que
não padeçam privações; e além do que se lhes deve, desejo que se lhes
entregue o salario inteiro de um anno. E, para concluir, senhor,
certifico-vos e affirmo-vos que não ha coisa mortal que os meus olhos mais
desejem do que vós.»

Boa e santa alma de mulher, que morre amando o seu verdugo!

No céo—e, se o ha, deve ser para os martyres que se volvem anjos—foi
Catharina gozar a eterna felicidade: aquellas grinaldas, de que falla
Shakspeare, e que ella esperava ser digna de gozar.

Porque, a proposito vem dizel-o, uma das tragedias de Shakspeare tem por
assumpto e titulo Henrique VIII. Foi Izabel, a filha de Anna Boleyn, que
lhe pediu que a escrevesse. Ora a obra do tragico inglez, a respeito de
Henrique VIII, é um producto convencional, destinado á filha da rainha
intrusa que depoz Catharina de Aragão.

Anna Boleyn tinha estado na côrte galante de França, fazendo parte da
comitiva da princeza Maria, irmã de Henrique VIII, ultima esposa de Luiz
XII, e saboreára ahi nas festas ruidosas do castello de Blois a vida alegre
e frivola cuja effervescencia é capitosa. Quando a viuva de Luiz XII, que
por amor d'ella se extenuára, voltou a Inglaterra, Anna Boleyn, educada á
franceza, acompanhou-a. Vinha _coquette_. De mais a mais Henrique VIII era
um marido que se saciava de afogadilho, e que nos seus caprichos amorosos
tinha azas como a borboleta, para voar de flôr em flôr.

Anna Boleyn, que começára amando a dança e a musica, acabou por amar os
dançarinos e os musicos.

Assim era que bailava nos seus aposentos com sir Henry Norreys, com Weston
e William Brereton, dois gentishomens de segunda ordem, ao som de uma
orchestra de tangedores, de que fizera parte Marcos Smeaton, um
aventureiro, filho de um carpinteiro pobre, mal vestido e afadistado.

Este Marcos Smeaton foi levado á presença da rainha para exercer a sua
prenda de menestrel, emquanto ella bailava com o primeiro gentilhomem do
rei, sir Henry Norreys; mas a rainha, impressionada pelo filho do
carpinteiro, quiz bailar com elle, mandando a uma dama que tangesse.

Não vá cuidar-se que esta democracia reles era privativa da côrte dos
bretões.

Conta André de Rezende, na _Vida do Infante D. Duarte_, que este infante
tomára por companheiro um tangedor castelhano de appellido Ortiz, que lhe
tocava na guitarra _fados_ contra o papa, e trocava em sucia com o principe
graçolas obscenas de calão fadista.

Marcos Smeaton entrára com o pé direito nos aposentos e nas danças da
rainha Anna, porque, pouco tempo volvido, uma servilheta velha, alcoveta
industriosa, levava de noite o Marcos até ao leito da rainha.

Sir Henry Norreys e William Brereton descobriram mouro na costa, e
recalcitaram. Armou-se uma embrulhada de ciumes, tanto maior quanta era a
pompa de vestuario e galanices que o Marcos exhibia, indicando tolamente as
boas fortunas de que gozava junto da rainha Anna.

A ousadia pimpona de Marcos Smeaton desbragou-o a ponto de se mostrar
altaneiro com lord Thomaz Percy, conde de Northumberland.

Ora ainda n'esta ousadia chibante do menestrel andava o ciume, porque
Thomaz Percy, antigo namorado de Anna Boleyn, lográra ser, á sombra de
Henrique VIII, o mais feliz dos amantes.

A rainha ordenou com descaro a Percy que não maltratasse o Marcos, mas
Percy, ferido talvez mais pelo ciume do que pela desconsideração, foi
denunciar os novos amores da rainha a Thomaz Cromwell, ministro do rei
Henrique.

Cromwell attrahiu a Londres Marcos Smeaton e, pondo-o na tortura,
arrancou-lhe a confissão das relações adulterinas da rainha com os
tangedores e bailarinos da côrte, incluindo elle.

D'alli foi Marcos Smeaton mandado para a Torre de Londres, onde não
tardaram a ser igualmente encerrados Henry Norreys, William Brereton e o
poeta Thomaz Wyat, muito protegido do ministro Cromwell.

N'este lance da nossa historia precisamos conversar um pouco a respeito do
poeta Wyat, aliás famoso, comquanto amorosamente fosse mais pateta do que
poeta.

Creado desde pequeno com Anna Boleyn, estabeleceu-se entre os dois um
d'aquelles idyllios infantis de que Bernardin de Saint-Pierre deixou uma
photographia generica na pastoral de Paulo e Virginia.

Mas os devaneios d'essa idade são gorgeios de rouxinol que ascendem ao
azul, e por lá ficam pairando n'uma alada melodia, que lembra toda a vida
com maior _fiasco_ do que saudade.

Emquanto a pureza dos idyllios platonicos se libra nos ares, as mulheres
positivas que os inspiraram vão cá na terra saboreando as iguarias do
peccado com grande menospreço pelos poetas bucolicos que não souberam ir
além do platonismo piégas.

Conta Pliego que a alcoveta de Anna Boleyn, na noite em que introduzira na
camara da rainha Marcos Smeaton, e no momento de o occultar com o espaldar
do regio catre, dissera para disfarce, pondo junto ao leito uma bandeja:
«Senhora, aqui está a marmelada.»

A marmelada era Marcos Smeaton.

Foi a isto que eu chamei metaphoricamente iguarias do peccado.

O pobre Wyat, quando Anna Boleyn subiu de marqueza de Pembroke a rainha de
Inglaterra, o mais que fez foi chorar sobre as ruinas do seu proprio
platonismo. Compoz, ahi por 1535, uma elegia com o titulo de _Forget not
yet_, que, em versão descolorida, sôa pouco mais ou menos assim:

  Não te esqueça a constancia que meu peito
            No amor provado tem.
  Trabalhos que soffri alegremente
            Não esqueças tambem.

  Não te esqueça do meu antigo affecto
            Seu antigo soffrer.
  Quanto implorei captivo e atormentado
            Não deves esquecer.

  Provas por que passei, desdens, supplicios
            Na memoria retem.
  _Delongas que soffri pacientemente_
            Não esqueças tambem.

  Não esqueças o tempo que vai longe
            No seu longo correr.
  _Que jámais julgou mal meu pensamento_,
            Não deves esquecer.

  Não te esqueças do eleito teu d'outr'ora,
            Do amor que teve e tem.
  Do seu peito a constancia inquebrantavel
            Não esqueças tambem.

Mas o sentimentalismo levava Wyat por caminho errado. Anna Boleyn, na côrte
de Inglaterra, gostava mais dos musicos que das elegias.

Pensam alguns auctores que Thomaz Wiat nunca mais se avistára com Anna
Boleyn. O chronista castelhano desfaz, porém, este equivoco, dando conta da
prisão de Wyat, pouco antes da propria rainha ser presa em Greenwich, onde
acabava de se celebrar um torneio e onde a sua ultima galanteria fôra
deixar cahir o lenço, como favor concedido aos seus amantes. Mas quem
categoricamente tira todas as duvidas é o proprio Wyat n'uma carta que
escreveu ao rei.

Quando os escandalos da rainha chegaram ao conhecimento de Wyat, aggravados
até pela suspeita de incesto commettido com o visconde de Rochford, seu
irmão, achou elle que o melhor que tinha a fazer era chorar menos e
atirar-se mais.

Uma noite, estando Anna Boleyn a oito milhas de Greenwich, Wyat montou a
cavallo e, dirigindo-se ao palacio da rainha, teve artes de se introduzir
na sua camara. Glosou-lhe, á beira do leito, uma nova declaração de amor.
Mas como a rainha se calasse, e como quem cala consente, ousou apolegar-lhe
as carnes. Estavam as coisas em bom caminho, quando de repente ouviu bater
com o pé no pavimento do andar superior. E a rainha, que esperava de certo
este signal, levantou-se do leito e desappareceu por uma escada interior.
Wyat esperou por ella uma hora, mas Anna Boleyn, quando voltou, despediu-o
ariscamente.

Os platonicos, mesmo quando se propõem mudar de escóla, passam por uma
iniciação desastrada e ridicula.

Mas oito dias depois, como era justo, pois que tanto chorára e esperára, o
poeta Thomaz Wiat não foi menos feliz do que Marcos Smeaton e outros
musicos.

Tudo isto contou Wyat ao rei, n'uma carta escripta da Torre de Londres, e o
rei, depois de a lêr, mandou soltar o poeta e ficou estimando-o tanto, que
em 1541 o enviou como embaixador á côrte de Carlos V, mas Wyat morreu dos
incommodos d'esta viagem.

Os outros cumplices de Anna Boleyn não tiveram igual felicidade: o visconde
de Rochford, Henry Norreys, William Brereton e Marcos Smeaton foram
degolados. A alcoveta Margarida foi queimada.

Presa na Torre de Londres, Anna Boleyn negou os crimes de que a accusavam.
Ao bispo de Cantorbery disse ella:

—Eu bem sei a causa de tudo isto. O rei anda namorado de Joanna Seymour, e
achou este meio de se desfazer de mim.

A accusação e a defeza eram por igual verdadeiras.

De nada valeu á rainha encarcerada a carta que da Torre de Londres
escrevêra ao rei, e que o rei leu sem commoção.

Sobre o cadafalso, Anna Boleyn pronunciou um discurso muito habil para não
enganar Deus nem os homens.

—Não penseis, bom povo, que me peza morrer, nem que eu fizesse coisa que
merecesse esta morte: tudo procede da minha grande ambição e do grande
peccado que commetti fazendo com que o rei abandonasse a boa rainha
Catharina por minha causa. Rogo a Deus que ella me perdôe. E para que todos
o ouçaes, digo que sou injustamente accusada. A principal razão da minha
morte é Joanna Seymour, como eu fui a razão da morte da boa rainha
Catharina.

E assim, humilhando-se diante de Deus sem se penitenciar diante dos homens,
foi decapitada no dia 19 de maio de 1536.

Dividem-se as opiniões a respeito do comportamento de Anna Boleyn.

Os escriptores protestantes divinisam-lhe as virtudes; os catholicos põem
em evidencia o desbragamento das suas libertinagens.

A sentença condemnatoria, assignada por Henrique VIII, accusa Anna Boleyn
de traição, adulterio e incesto.

Guilherme Cobbett, comquanto protestante, faz resaltar o contraste da
devassidão dos costumes da rainha Anna com a existencia virtuosa da rainha
Catharina.

David Hume, o notavel historiador inglez, lança as graves accusações
levantadas contra Anna Boleyn á conta das apparencias de _coquetterie_, que
em grande parte ella havia aprendido em França, e das machinações facciosas
dos seus inimigos, incluindo a viscondessa de Rochford, cunhada da rainha,
que insinuou a suspeita do incesto.

Na chronica castelhana de Julian de Pliego vem a designação de que o
auctor, talvez acobertado pelo pseudonymo, fôra contemporaneo dos factos
que narra.

É certo que elle commette alguns anachronismos, como nota o marquez de
Molins, mas não padece duvida que na sua chronica, facilmente escripta, com
uma discreta sobriedade de rhetorica, pouco vulgar nos historiadores
hespanhoes, ha grande copia de preciosas noticias, de interessantes
pormenores, que a fazem estimabilissima.

Em Portugal Anna Boleyn ficou sendo, na tradição popular, sob a
translitteração de _Anna Bolena_, o typo da mulher corrupta e corruptora,
enredadeira e devassa, perturbadora e intrigante.

No que, porém, todos os historiadores estão de accordo é em attribuir a
summaria decapitação de Anna Boleyn ao amor que o rei alimentava por Joanna
Seymour, filha de sir João Seymour, dama formosissima, que fazia parte da
casa da rainha Catharina.

No dia da execução de Anna Boleyn, Henrique VIII, para mostrar a alegria do
seu coração, e porventura a «pureza» das suas intenções, vestiu-se de
branco; e no dia seguinte desposou Joanna Seymour.

David Hume observa, para fazer elogio á consciencia de Henrique VIII, que
este rei não queria conhecer outras ligações além das do casamento. A
desculpa afigura-se pueril e inexacta, porque o rei viveu tres annos
amancebado com Anna Boleyn, antes de se divorciar de Catharina de Aragão.

Fizeram-se grandes festas para solemnisar o casamento de Henrique VIII com
Joanna Seymour, que, tendo sido _dama de honor_ da rainha D. Catharina, se
mostrava muito affeiçoada á princeza Maria, a qual o rei seu pai não tinha
visto havia mais de tres annos.

Esta princeza, que, como se sabe, depois do casamento de Henrique VIII com
Anna Boleyn apenas recebia o tratamento de _madama_, foi educada mais ou
menos sob a influencia dos conselhos de sua mãi, D. Catharina de Aragão, de
quem Rivadaneyra publíca uma carta, dirigida á filha, na qual se lê o
seguinte periodo: «Dá recommendaçoes minhas á condessa de Salisbury:
dize-lhe da minha parte que tenha firmeza de animo, porque não podêmos
ganhar o reino dos céos sem cruz e attribulações.»

A condessa de Salisbury, Margarida Plantagenet, virtuosa dama, fôra aia da
princeza Maria. Morreu justiçada aos setenta annos de idade, em 1539, por
odio do rei, nas luctas contra os catholicos, aos parentes do cardeal Pole,
que era filho da condessa.

Graças á intervenção de Joanna Seymour, a recepção feita pelo rei á
princeza Maria, que não sem repugnancia se havia submettido ao scisma, pois
que a sua educação tinha sido catholica, pareceu ser muito cordeal.

E logo, invertendo facilmente os papeis, ordenou o rei que a filha de Anna
Boleyn passasse a receber o tratamento de _madama_, e a filha de Catharina
de Aragão o de princeza.

Mas Joanna Seymour déra tambem á luz um filho, _o mais lindo que jámais se
viu_, diz Julian de Pliego.

O nascimento de um herdeiro varão causou alegria a Henrique VIII, não
obstante as difficuldades que esse facto trazia para resolver a questão
dynastica, e ter custado a vida de Joanna Seymour, que morreu doze dias
depois do parto.

Como diz Hume, a dôr do esposo foi absorvida pela satisfação do pai, que
fez jurar principe de Galles o filho de Joanna Seymour, concedendo por essa
occasião a dignidade de conde de Hertford a Eduardo Seymour, irmão da
mallograda rainha, já anteriormente nomeado lord Beauchamp.

O baptisado fez-se com grande pompa, recebendo a creança o nome de Eduardo,
que foi o sexto rei d'aquelle nome, e veiu a morrer aos dezeseis annos sem
deixar successão. A princeza Maria, a cuja guarda Henrique VIII confiou o
filho, tocou por madrinha; o conde de Hertford, irmão de Joanna Seymour,
por padrinho.

De todos as mulheres de Henrique VIII foi Joanna seguramente a mais
estimada. Encontram-se de accordo n'este ponto os historiadores. Mas a
razão está decerto, attenta a volubilidade do rei, em que elle não teve
tempo para se enfastiar.

Assim foi que Joanna Seymour logrou morrer rainha, como observa Cobbett, _e
na sua cama_, felicidade que outras esposas de Henrique VIII não gosaram.

Mas o rei, apesar do grande sentimento que lhe causára a morte de Joanna
Seymour, pensou logo em casar.

Deitou primeiro as suas vistas para a duqueza viuva de Longueville, filha
do duque de Guise. Mandou pedil-a a Francisco I. A resposta foi que a
duqueza estava já promettida ao rei da Escocia. Henrique VIII ficou
desesperado, e enviou a França um emissario para o informar da impressão
que a duqueza produzia. O emissario disse que era bonita e gorda. Esta
ultima informação coroou a primeira, porque o rei, que estava então muito
nutrido, preferia uma esposa de gordura condigna á sua.

Francisco I, posto reconhecesse que a alliança da Inglaterra lhe seria mais
proveitosa do que a da Escocia, manteve a sua palavra, mas offereceu a
Henrique VIII, para lhe calmar o animo, Maria de Bourbon, filha do duque de
Vendome.

Henrique VIII, sabendo, porém, que o rei Jacques da Escocia, seu sobrinho,
havia recusado Maria de Bourbon, rejeitou a proposta.

Então Francisco I offereceu-lhe qualquer das duas irmãs mais novas da
duqueza de Longueville.

Henrique VIII respondeu pedindo a Francisco I uma entrevista em Calais, e
indicando-lhe que se fizesse acompanhar das duas princezinhas de Guise e de
todas as mais bellas mulheres da côrte de França, para elle escolher.

Queria um bazar de mulheres, uma feira de noivas!

Francisco I não obtemperou ao pedido. _Picou-se_, como dizem os francezes,
fosse que lhe repugnasse o papel de alcaiote officioso ou que, sendo elle
proprio galanteador do bello sexo, lhe desagradasse a idéa de expôr
mulheres _comme des chevaux au marché_.

Então Henrique VIII lançou vistas para a Allemanha, o que politicamente não
deixava de convir-lhe para encontrar allianças nos principes da liga
protestante contra o imperador Carlos V.

Cromwell indicou-lhe Anna de Cleves, filha do duque d'este titulo.

Mandou-se pedir um retrato. Executou-o Holbein, celebre pintor, que se
gozou das boas graças de Henrique VIII e da amisade de Thomaz Moore e
Erasmo. Conta-se até que estando Holbein a trabalhar um dia no seu
_atelier_, fôra bater-lhe á porta um dos primeiros senhores da côrte.
Holbein desculpou-se de não poder abrir por estar trabalhando. O fidalgo
insistiu. Holbein, impacientado, abriu a porta, e atirou-o pela escada
abaixo. Receioso das consequencias d'essa imprudencia, correu a pedir a
protecção de Henrique VIII, a quem o fidalgo foi sem demora queixar-se. O
rei tentou congraçar o fidalgo com o pintor, mas, vendo que os seus
esforços eram inuteis, disse ao fidalgo, que se vangloriava do titulo de
conde:

—Eu posso facilmente fazer sete condes como vós; mas de sete condes não
poderei fazer um Holbein.

Holbein, comquanto cultivasse a pintura historica, não faltando quem pense
que elle seria o auctor do famoso quadro da Misericordia do Porto, foi
principalmente notavel nos retratos. Pois apesar da habitual fidelidade do
seu desenho e da exacta expressão do seu pincel, Holbein, no retrato de
Anna de Cleves, obedeceu um pouco á adulação palaciana que mandava alindar
os retratos das princezas, embora ficassem menos parecidos.

Um seculo depois dizia o joven Luiz XIV a respeito de Margarida de Saboya:
_Elle est agréable, et, contre l'habitude, ressemble à ses portraits_. O
nosso grande José Estevão, apesar de inventada já a photographia, disse uma
vez no parlamento que todas as princezas eram formosas.

Depois de examinado o retrato, justou-se o casamento, sem embargo da
opposição do eleitor de Saxe, chefe da liga protestante, casado com uma
irmã do duque de Cleves.

Impaciente de vêr a sua quarta noiva, Henrique VIII dirigiu-se
mysteriosamente a Rochester, e esperou-a ahi. Viu-a, e não gostou.
Arrependeu-se então de ter confiado no retrato em vez de adoptar o
expediente que anteriormente havia proposto a Francisco I.

Além de feia, a princeza só fallava o hollandez, lingua que Henrique VIII
não entendia.

O rei reuniu conselho para vêr se seria possivel romper o contracto de
casamento, mas acobardou-o uma consideração politica.

Carlos V e Francisco I estavam então reconciliados. Como surgissem novas
perturbações na Hollanda, principalmente em Gand, Carlos V, que residia em
Hespanha, quiz ir pessoalmente calmal-as. Mas como a viagem por Italia e
Allemanha seria muito longa, o imperador pediu ao seu prisioneiro de Pavia
licença para atravessar a França. Francisco I mostrou-se magnanimo, deu a
licença pedida e recebeu com grandes festas Carlos V. Alexandre Dumas, como
o leitor deve estar lembrado, descreve-as no seu romance _Ascanio_. Ora,
dada a conciliação de Francisco I e Carlos V, bem podiam estes dois
principes, movidos pelo zelo religioso, cahir sobre a Inglaterra com todo o
pezo dos seus exercitos.

Portanto, mais do que nunca, importava a Henrique VIII uma alliança com os
principes allemães, para o que désse e viesse.

Henrique resignou-se por algum tempo, vivendo separado da rainha de dia e
de noite. Dava como desculpa a suspeita de que Anna de Cleves não estava
virgem quando a desposou. E secretamente mandou á Allemanha um emissario de
confiança, o gentilhomem Vaughan, para averiguar o que podesse a este
respeito.

O rei, já a esse tempo enamorado de Catharina Howard, sobrinha do duque de
Norfolk, queria encontrar um pretexto para repudiar Anna.

Partiu Vaughan com dinheiro á ufa e, chegando a Cleves, reuniu em banquete
alguns gentishomens, com o proposito de os embriagar. _In vino veritas._
Depois de haverem esgotado os picheis, elles diriam o que soubessem. Assim
aconteceu. Um d'elles, mais expansivo na embriaguez, posto fosse criado do
duque de Cleves, disse á mesa que a princeza havia desposado um cavalleiro,
que morrêra na Allemanha de desgosto quando soube que acabavam de casal-a
com Henrique VIII.

Surprehendido este fio da meada, Vaughan procurou desfial-a, fazendo-se
acompanhar de cartas justificativas.

Interrogada a propria Anna por Henrique VIII, respondeu que tinha sido
desposada com o duque de Lorena, mas que lhe disseram que elle havia
morrido, e que de mais nada sabia.

Hume assevera que o casamento com o duque de Lorena fôra effectivamente
tratado com Anna de Cleves, quando ambos estavam na infancia, e desfeito
depois por commum accordo.

Todavia isto bastou para que Henrique procurasse divorciar-se da rainha
Anna, allegando que não déra o seu consentimento interior para o casamento,
e que não o consummára.

Esta ultima desculpa não é menos absurda do que a primeira, visto que
Henrique VIII declarára que Anna de Cleves já não estava virgem.

O duque de Norfolk, aproveitando o amor do rei pela sobrinha, conspirou
contra o ministro Cromwell, e empolgára o poder que elle, proscripto por um
bill, fôra obrigado a largar. O clero e o parlamento ratificaram o
divorcio, e Anna de Cleves foi, sem se importar muito com isso, enviada
para Cornwall, onde viveu entregando-se ao prazer, fazendo alegres partidas
de caça.

O seu temperamento frio de allemã não soffreu pois grandemente com o
divorcio, mas altivo, como todos os de sua raça, levou-a a não querer
voltar para a Allemanha.

Diz-se que escrevêra uma carta ao irmão, pois que o pai tinha fallecido,
affirmando-lhe que fôra sempre bem tratada na Inglaterra.

A situação politica da Europa tinha mudado; a reconciliação de Francisco I
com Carlos V não havia sido duradoura. Foi o que valeu a Henrique VIII,
porque as suas relações com os principes da liga protestante esfriaram
depois do divorcio. E o que valeu a Anna de Cleves foi o receio que
Henrique tivera dos principes allemães. Se assim não fosse, em vez de ir
para Cornwall, teria ido para a Torre de Londres, e d'ahi para o cadafalso.

Henrique VIII estava então nos seus quarenta e nove annos. Mas as
velleidades amorosas eram as de um moço. Indo uma vez a casa da princeza
Maria, a cuja guarda estava confiado o principe de Galles, disse a
Catharina Howard, então viçosa donzellinha de quinze annos, que ajoelhára:

—Não mais, Catharina, quero que tornes a ajoelhar-te; bem ao contrario,
ajoelharão diante de ti todas as damas e cavalleiros do meu reino.

Tal foi a explosão amorosa do coração do rei.

O casamento fez-se logo, e Henrique VIII delirava de jubilo por possuir uma
esposa bella e graciosa, julgava-se o mais feliz dos maridos, instituira na
capella real uma oração em acção de graças, e exigira que o bispo de
Lincoln compozesse, pelo mesmo motivo, um hymno gratulatorio.

Catharina, vendo cingidos os seus cabellos com a corôa de Inglaterra,
pompeou esplendores de _toilettes_ e joias nunca vistas. Era uma _coquette_
de peior estofa que Anna Boleyn. Não precisára ter estado em França para se
desmoralisar; o vicio era-lhe ingenito. _Coquette_ e dominadora. Ciosa das
honras dispensadas á princeza Maria e ao principe de Galles, fez com que o
rei lhes pozesse casa á parte. E o rei, preso nos seus amavios,
obedecera-lhe.

Comprehende-se facilmente que um marido de cincoenta annos não bastasse ás
exigencias voluptuosas de uma _coquette_ como Catharina Howard.

Aquillo já vinha de traz.

Frequentava a côrte um gentilhomem, de nome Colepeper, que havia merecido
favores amorosos a Catharina Howard, quando solteira. Colepeper, depois que
Catharina fôra desposada por Henrique VIII, sentira, como sempre acontece,
maior paixão por ella e, na côrte, mostrava-se melancolico para significar
á rainha a sua saudade pelas felicidades do passado.

Catharina Howard trocava com elle olhares furtivos, mas brilhantes de
esperança, scintillantes de promessas.

Animado por este estimulo, Colepeper resolveu-se a escrever á rainha, e um
dia, dançando com ella, entregou-lhe uma carta, a que Catharina respondeu,
decerto confirmando as promessas dos seus olhares. A resposta foi entregue
a Colepeper pela rainha, tambem n'um sarau dançante em que bailaram
emparceirados.

Henrique VIII foi uma victima da dança,—sempre que as rainhas dançavam.

Certo dia Catharina procurou sondar uma criada sua, Maria se chamava ella,
dizendo-lhe:

—Se soubesse que não me denunciarias, confiava-te um segredo.

A criada respondeu:

—Guardarei segredo do que me disserdes, comtanto que não toque pelo rei.

Sangrava-se em saude, a criada, lembrando-se certamente de que a confidente
de Anna Boleyn havia sido queimada.

A rainha disfarçou:

—Outro dia fallaremos n'isso. Mas não é coisa que toque pelo rei.

Passado tempo, Catharina tentou sondar outra criada:

—Joanna, desejo fazer-te bem e conseguir que el-rei te case honestamente.

E, juntando os factos ás palavras, deu-lhe alguns vestidos e joias.

Corridos dias, a rainha abriu-se confidencialmente com a criada.

Disse-lhe que amava Colepeper, que pensára mesmo em casar com elle antes do
rei a requestar. E pediu-lhe que a auxiliasse para ter uma entrevista com
Colepeper, visto que o rei ia sahir para Rionsirche.

A criada teve medo, recusou-se e foi denunciar a rainha ao arcebispo do
Cantorbery. Mas parece que outra criada, menos timida, favorecêra os
intentos de Catharina, porque depois se averiguou, como vamos vêr, que a
rainha tivera effectivamente um _tête-à-tête_ com Colepeper.

O arcebispo soube mais por um individuo chamado Lascelles, cuja irmã havia
estado ao serviço da velha duqueza de Norfolk, e lhe revelára segredos da
vida de Catharina quando solteira, que dois officiaes da casa da duqueza,
Derban e Mannoc, haviam sido admittidos no seu leito, sem que d'isso
fizessem mysterio.

Julgou o arcebispo, depois de ter conferenciado com o conde de Hertford, e
com o chanceller, que devia contar tudo ao rei, e fel-o com certo embaraço,
como era natural. Henrique VIII mostrou-se incredulo, no primeiro momento,
mas o arcebispo, desejando justificar-se, activou decerto novas
investigações. Lascelles foi a Sussex fallar com sua irmã, a qual não só
confirmou mas até ampliou as revelações anteriores. Mannoc e Derban, presos
e interrogados pelo chanceller, disseram tudo o que podiam dizer. Revelaram
pormenores escandalosos. Contaram que tres jovens criadas da duqueza de
Norfolk conheciam o segredo da devassidão de Catharina, porque tinham
algumas vezes passado a noite entre Catharina e os seus amantes.

Averiguou-se mais que a rainha realisára a entrevista com Colepeper, e,
como era natural, suspeitou-se do facto de haver Catharina escolhido
Derban, um dos antigos amantes, para seu criado.

Todos os depoimentos foram lidos ao rei que, apesar de estar habituado a
estes lances, chorou.

Interrogada a rainha sobre as accusações que lhe eram feitas, negou-as a
principio; mas quando lhe apresentaram todas as provas, confessou que
effectivamente se havia conduzido mal antes do casamento, insistindo,
porém, na declaração de que não tinha trahido o rei.

O parlamento, vingador das infelicidades conjugaes de Henrique VIII, tomou
conhecimento do facto.

A rainha, a viscondessa de Rochford, cunhada de Anna Boleyn, sua inimiga, e
confidente dos amores de Catharina, Colepeper, Derban, a duqueza de
Norfolk, avó da rainha, lord William Howard, seu tio, a mulher de lord
Howard, a condessa de Bridgewater, e mais nove pessoas, foram proscriptos.

Como Anna Boleyn, Catharina Howard subiu ao cadafalso, em Tower-hill.

A dois passos do garrote e do algoz, fallou ao povo.

Confessou o seu amor por Colepeper, e que a ambição de ser rainha a
perdêra. Lamentou não ter casado com Colepeper, pesando-lhe que elle por
sua causa morresse. Accrescentou que morria rainha, mas que preferiria
morrer mulher do homem que tinha amado e que a amava.

Um idyllio sobre o cadafalso!

No outro dia foi decapitado Colepeper, que se limitou a pedir ao povo que
rogasse a Deus por elle.

Tambem morreu decapitada a viscondessa de Rochford, com applauso do
publico, que se lembrava de que fôra ella quem mais contribuira para a
perda de Anna Boleyn.

Henrique VIII, afim de se precaver contra novos desastres conjugaes, levou
o parlamento a votar uma lei em que a todos os cidadãos se impunha a
obrigação de denunciarem secretamente ao rei quaesquer infidelidades da
real consorte, e á real consorte o dever, sob pena de alta traição, de
revelar ao rei as faltas que porventura houvesse commettido antes do
casamento.

O povo inglez, vendo através d'esta lei o projecto de um novo casamento,
desatou ás gargalhadas.

Ora Henrique VIII algumas vezes dizia rindo que ainda havia de cahir n'uma
viuva. Chalaça do rei, porque a bem dizer a maior parte das suas mulheres
não eram outra coisa. E não deixa de ser curiosa a coincidencia de que dois
reis femeeiros, Henrique VIII e Luiz XIV, acabassem ambos por desposar uma
viuva authentica, Henrique VIII Catharina Parr, viuva duplicada, de lord
Nelvill e de lord Latimer; Luiz XIV a viuva Scarron.

Catharina Parr ia muitas vezes á côrte visitar a princeza Maria. O rei
escolheu-a para sexta esposa, confiado em que, por ter já conhecido dois
maridos, e contar trinta e seis annos, não prevaricaria extra-canonicamente
no sexto mandamento como as outras.

O casamento fez-se um pouco á capucha. Sem embargo, Anna de Cleves assistiu
e, longe de se mostrar pezarosa, gracejou sobre o caso.

—Que grande peso, disse ella, vai tomar Catharina Parr!

Anna de Cleves fizera um _calembour_, porque o rei estava descommunalmente
obeso.

Posto de parte o _calembour_, a situação de Catharina Parr não era para
invejar. Deviam passar-lhe pela imaginação os espectros das duas esposas
decapitadas de Henrique VIII, tanto mais que, sendo Catharina partidaria de
Luthero, os seus inimigos catholicos não deixariam de trabalhar para
perdel-a.

E quasi o tiveram conseguido.

Henrique VIII, comquanto adversario do papa, zelava a orthodoxia dos
dogmas. Succedêra que Catharina Parr fallára um dia com certa franqueza e
favor a respeito da reforma, acabando por emittir o seu parecer ácerca da
eucharistia.

Soube-o o rei e queixou-se a Gardiner de que a rainha tivesse a ousadia de
pensar de maneira differente d'elle. Chegaram a formular-se officialmente
artigos de accusação contra a rainha; e passou-se a respectiva ordem de
prisão. Este documento cahiu, porém, da algibeira do chanceller, e foi
encontrado por um partidario da rainha, o qual correu a mostrar-lh'o.

Catharina dirigiu-se immediatamente aos aposentos do rei, que, por ser esse
o seu gosto, e para experimental-a, fallou de assumptos theologicos.

Catharina esquivou-se tenaz e artificiosamente a entrar na questão,
dizendo:

—As mulheres estão sujeitas ao homem desde a origem do mundo. O homem foi
creado á imagem de Deus, e a mulher á imagem do homem; é pois ao esposo que
cumpre regular as opiniões da esposa. Mas, como quer que seja, o dever da
mulher é adoptar cegamente os principios do marido. Quanto a mim, obriga-me
um duplo dever, pois que tenho a felicidade de possuir um esposo que, por
sua intelligencia e saber, póde illustrar não sómente a sua familia, mas
até os mais eruditos espiritos de todas as nações.

O rei, muito lisongeado, respondeu:

—Por Santa Maria! sois mais sabia do que o doutor Kate, e estais mais no
caso de dar que de receber lições!

Catharina Parr declinou o elogio por immerecido, dizendo ao marido que o
seu unico empenho era distrahil-o por alguns instantes dos seus grandes
trabalhos e soffrimentos.

Henrique VIII replicou com alegria:

—É pois assim?! Bem está. D'aqui por diante seremos dois bons amigos.

No dia seguinte, o rei e a rainha, completamente reconciliados, conversavam
no jardim quando o chanceller chegou acompanhado de quatro homens, para
prender Catharina.

O rei obeso rebolou-se para elle, e desfechou-lhe epithetos injuriosos.

Quando o chanceller sahiu corrido, a rainha esforçou-se por tranquillisar o
rei.

Henrique VIII disse-lhe:

—Pobre tontinha! Nem tu sabes o que deves a este homem!...

Não sabia a rainha outra coisa! Mas a sua astucia feminil e a experiencia
de um terceiro casamento seguram-lhe a cabeça sobre os hombros.

Desde esse dia o chanceller ficou desprestigiado aos olhos do rei.

E Catharina redobrou de amabilidades para com seu marido, servindo-o á
mesa, curando-lhe carinhosamente as feridas que elle tinha na perna
esquerda e cantando-lhe trovas, para o adormecer, quando o rei, insomnioso,
difficilmente rebolia na cama a sua incommoda rotundidade.

Conta Pliego que Henrique VIII, sentindo avisinhar-se a morte, no anno de
1547, se despedira ternamente da rainha, recommendando-a aos grandes do
reino, e ordenando que lhe dessem sete mil libras, todas as suas joias e
vestidos, se quizesse tornar a casar.

Accrescenta ingenuamente o chronista castelhano: E a boa rainha não pôde
responder pelo muito que chorava.

A sinceridade d'essas lagrimas avalia-se pela fogosa paixão que Catharina
Parr desentranhou pelo almirante Thomaz Seymour, que era amante de Isabel,
filha do rei e de Anna Boleyn. O almirante desposou a rainha viuva, mas os
ciumes de Isabel e a inveja que sua cunhada, a duqueza de Somerset, tinha
da rainha atormentavam-n'o grandemente. Catharina Parr morreu envenenada,
segundo se diz. Havia dado á luz uma creança que não vingou, sem que se
soubesse ao certo se era filha do rei ou do almirante, tão pouco tempo
depois da morte do rei casára ella com o almirante.

Catharina Parr, a respeito de casamentos, lia pela cartilha de Henrique
VIII. A terra lhe seja leve, já que os maridos o não foram.

O almirante teve motivos para sentir a morte da esposa, porque lhe
arrebatou o rendimento annual de sete mil libras. Como compensação,
mancommunou-se com os piratas e ia feito nas extorsões que elles
praticavam. Enriqueceu. Vendo-se rehabilitado, quiz casar com a princeza
Izabel, sua amante, talvez para conseguir que fosse entregue aos seus
cuidados o joven rei Eduardo VI, sendo que estava usufruindo esta honra seu
irmão o duque de Somerset, condecorado com o titulo de protector. O irmão e
a cunhada, para cortar-lhe o vôo das ambições, perderam o almirante,
accusado de cumplice nas extorsões dos piratas. O proprio duque assignou a
sentença de morte do irmão, que foi decapitado.

Henrique VIII deve ter-se encontrado no outro mundo com as suas seis
mulheres, que, se lá se julga melhor, como eu creio, do que cá em baixo,
hão de tel-o visto condemnado pela justiça eterna.

As atrocidades sanguinarias que commettêra contra os catholicos e a bagagem
dos seus vicios far-lhe-iam decerto grande carga.

Elle mesmo, ao expirar, se accusou de não ter poupado algum homem na sua
colera, nem alguma mulher nos seus desejos.

Mas, como quer que fosse, a igreja catholica, inspirando-se na misericordia
christã, deve perdoar-lhe, tanto mais que Henrique VIII, que depois de
velho não cria no Purgatorio, deixou muitas missas com medo d'elle.

Eu até me sentia disposto a rezar um Padre-Nosso por alma de Henrique VIII,
se me não lembrasse de que alfim deve já lá em cima ter recebido alguma
compensação de haver sido casado seis vezes, quasi sempre com maior peso do
que o que canonicamente era justo.



III

D. BEATRIZ DE PORTUGAL


I

Todos nós fomos litterariamente educados com a MENINA E MOÇA, de Bernardim
Ribeiro, o mavioso livro das saudades. Temos de cór, pelo menos, as
primeiras palavras d'esse livro galante e cavalheiresco: «Menina e moça me
leváram de casa de meu pai para longes terras...» Todos nós nos costumámos
a vêr na MENINA E MOÇA, de Bernardim, a infanta D. Beatriz de Portugal,
filha do rei D. Manuel.

Diogo Barbosa Machado, na BIBLIOTHECA LUSITANA, deu curso á lenda,
assignalando a fonte onde a bebêra. E digo _fonte_ para não desaproveitar
um _calembour_, por isso que se trata da _Fuente de Aganipe_, de Faria e
Sousa.

Por sua parte diz Barbosa Machado:

  «Arrebatado de impulsos amorosos (Bernardino ou Bernardim Ribeyro)
  passava muitas noites entre a espessura e solidão dos bosques, explicando
  junto á corrente das aguas, com suspiros e lagrimas, a vehemencia de
  paixão tão violenta que o obrigou a emprehender impossiveis dedicando os
  seus affectos á infanta D. Beatriz, filha do serenissimo rei D. Manuel,
  como elegantemente o contou Manuel de Faria e Sousa...»

Costa e Silva, no ENSAIO BIOGRAPHICO-CRITICO, reproduziu a lenda d'esses
suppostos amores do poeta, desventurosos por desiguaes. Conta-nos o seu
desespero quando o rei de Portugal concedeu a mão da infanta ao duque de
Saboya; o seu ermar solitario pela serra de Cintra, bradando ás penhas e
entalhando no tronco das arvores o nome de Beatriz; finalmente, a partida
do trovador para Saboya, sob o disfarce de peregrino, e o seu furtivo
encontro em Saboya com D. Beatriz:

  «Chegando alli depois dos trabalhos e perigos de tão longa jornada,
  indagou qual era a igreja onde a duqueza costumava ouvir missa, e
  esperando-a na porta, lhe pediu esmola quando passou. A duqueza, que logo
  o conheceu, apesar da differença do traje e do transtorno que as maguas e
  saudades haviam feito em suas feições, parou, e, dando-lhe esmola, lhe
  disse baixo em portuguez:

  —Já lá vai o tempo dos antigos galanteios.»

Segundo a versão de Costa e Silva, Bernardim Ribeiro, recolhendo á patria,
e voltando á serra de Cintra, ahi _terminou em breve os seus dias_.

Era natural, como aconteceu, que esta antiga lenda tão profundamente
sentimental se impozesse á imaginação dos escriptores portuguezes que
floresceram ao tempo de fazer-se entre nós a evolução romantica.

De facto, Garrett, no canto nono do CAMÕES, ensancha-a com felicidade na
descripção de Cintra:

  Tradição é que nomeado vate,
  D'alta beldade mysterioso amante,
  Entre as fragas erguêra a mansão triste,
  Onde cevou de tristes pensamentos
  O coração cortado de saudades.
  _Saudade_ pelas pedras entalhada
  Se lia em caracteres bem distinctos;
  E o nome de _Beatrix_, tambem gravado
  Na silice do monte, lhe responde,
  Como echo das endeixas namoradas
  Do cantor da soidão.

Garrett não podia esquecer o poetico episodio da partida de Bernardim
Ribeiro para Italia:

  Subito um dia, de bordão na dextra,
  Na opa de peregrino disfarçado
  Desce os montes da Lua, e mais erguidas
  Serras demanda; em romaria aos Alpes
  Parte, a levar o coração votado
  A quem talvez, na purpura, suspira
  Pelos andrajos do mendigo amante.
  Vel-o-ha, o objecto de suspiros tantos,
  De saudade tão longa, da romage
  Devota, mas só vêl-o, e adeus eterno,
  E para sempre adeus!... Crueis lhe vedam
  Mais que esse adeus. Voltou á patria, e morre.

Na respectiva nota da primeira edição do CAMÕES, Garrett dá como factos
assentes o isolamento de Bernardim Ribeiro na serra de Cintra e a sua ida
de peregrino aos Alpes. Na segunda edição, porém, revela duvidas a respeito
dos derradeiros dias do poeta, dizendo que «eram a parte menos decifrada e
decifravel do _enigma_ de sua vida» e desculpando-se com ter seguido no
texto do poema a tradição mais vulgar.

No AUTO DE GIL VICENTE, representado com grande applauso no theatro da rua
dos Condes, Bernardim Ribeiro inspira uma dupla paixão a Paula Vicente,
filha de Gil Vicente, e á infanta D. Beatriz. A dedicação de Paula pela
infanta vai até o ponto de sacrificar o seu proprio coração á paixão que a
infanta nutre pelo trovador. Todo o entrecho d'esta peça inicial do moderno
theatro portuguez é fornecido por um auto de Gil Vicente, de que a seu
tempo nos occuparemos. O casamento da infanta realisa-se, e ella parte para
Italia a bordo do galeão «Santa Catharina». Bernardim conseguiu ir a bordo
dizer o ultimo adeus á infanta; mas el-rei D. Manuel chega pouco depois
para se despedir da filha. Bernardim encontra-se n'uma situação
desesperada, receiando comprometter a infanta e Paula Vicente. Prefere
morrer a desacredital-as: precipita-se no Tejo.

O lance é de effeito para um final d'acto, que de mais a mais é o ultimo. E
a responsabilidade historica de Garrett salva-se de algum modo, porque
Bernardim Ribeiro póde não ter perecido no Tejo. Isto mesmo diz Garrett em
nota á segunda edição do CAMÕES: «... Bernardim Ribeiro lança-se ao mar, no
AUTO DE GIL VICENTE, mas nenhum _nuncius_, nenhum _koros_ veio fóra, como
na comedia ou tragedia antiga, dizer ao publico: «Bernardim Ribeiro
afogou-se com effeito; _nunc plaudite_.»

Ora em uma das annotações com que o AUTO DE GIL VICENTE sahiu impresso,
escreveu Garrett:

  «Em a nota E, ao canto nono do poema CAMÕES, no 1.º vol. d'esta
  collecção, pag. 275, se promette illustrar o ponto d'estes amores de
  Bernardim Ribeiro e da sua romanesca vida. Mas não me atrevo por ora a
  cumprir tal promessa. Aqui atirei com elle ao mar, porque me era preciso:
  e o publico disse que era bem atirado. É o que me importa. Se elle foi ou
  não a Saboya depois, como eu já cuidei averiguado, se andou doido pela
  serra de Cintra, tambem me não atrevo a certificar.—O que parece mais
  certo é que _não morreu de paixão_, porque depois foi feito commendador
  da ordem de Christo, e governador de S. Jorge da Mina, onde talvez
  morresse de alguma carneirada: materialissimo e mui prosaico fim de tão
  romantica, saudosa e poetica vida.

  «Aprendei aqui, ó Beatrizes d'este mundo!»

No terceiro volume do ROMANCEIRO encorporou Garrett dois romances
extrahidos da MENINA E MOÇA, de Bernardim Ribeiro: A AMA, AVALOR; e o soláo
CUIDADO E DESEJO, que se encontra entre as eclogas do poeta, appensas á
edição da MENINA E MOÇA, feita em 1852 pela empreza da _Bibliotheca
portugueza_ (Lisboa).

Todas estas tres composições são precedidas de pequenos prefacios
elucidativos.

Fica pois bem accentuada a grande influencia que a tradição poetica dos
amores de Bernardim Ribeiro exerceu no espirito delicado e na imaginação
romantica de Garrett. O caso, em verdade, não era para menos. Cintra, a
formosissima Cintra, como tablado; como actores, uma princeza e um
trovador. E depois ainda a corrente tradicional dos costumes trovadorescos:
«não estava tão longe o tempo em que princezas e rainhas ouviam sem enfado
e acceitavam sem desaire as homenagens dos trovadores.»

Alexandre Herculano, no 3.º volume do PANORAMA, escreveu um artigo a
respeito dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz. Acha
escuro este problema historico, mas acceita a lenda. Lamenta que Garcia de
Rezende, que tão curiosas informações nos legou sobre a partida da infanta
para Saboya, se abstivesse, talvez por considerações palacianas, de tocar o
assumpto. Cita Damião de Goes para mostrar que o casamento fôra mal
recebido dos portuguezes, que não reconheciam no duque de Saboya qualidades
nem de nascimento nem de posição para tomar por mulher uma filha do rei D.
Manuel. E não lhe parece que estas razões fossem as unicas que imperaram no
animo dos portuguezes para desestimar o casamento. Copía, em reforço da sua
opinião, um codice da primeira metade do seculo XVI, existente na
bibliotheca real, da qual transcreve os seguintes periodos com relação á
viagem da infanta:

  «... e a um domingo, dia de S. Miguel, de setembro do anno de 521,
  chegaram a Villa-Franca de Niça, porto do duque de Saboya, a uma hora
  depois do meio-dia; e assi das náus como da villa se fez grão festa
  d'artilharia. E o duque mandou pedir á infante, que não dormisse na nau;
  e ella se escusou de sair por aquella noite; e vendo o duque sua escusa,
  foi lá em pessoa com alguns gentishomens, e lhe pediu que com toda
  maneira saisse: ella o fez por conselho do conde, contra sua vontade, e
  de todos, e saiu com tochas; onde achou doze facas guarnecidas, para si,
  e para as damas, e alguns chibaos para os fidalgos, porque d'alli a Niça,
  onde era a povoação, pelo rio acima, era meia legua; e ahi foram ter. E a
  duqueza de Nemuns (_Nemours_) irman do duque, e mãe d'el-rei de França,
  que ahi estava, saiu fóra ao terreiro das casas, onde o duque pousava, a
  receber; e ahi se fizeram grandes ceremonias e cortezias. E alli foi com
  a infante para dentro, e assi a rainha por hospeda aquella noite. Ao
  outro dia pela manhã foram ouvir missa a um mosteiro de S. Domingos,
  pegado com as casas; e um cardeal, que ahi era, disse missa, e os
  benzeu...

  «O duque é homem pequeno de corpo, e alvo; de rosto comprido, e fêo de
  tudo: tem um hombro mais alto que o outro, e é um pouco azumbado, e as
  pernas delgadas, e muito prudente. A este casamento, eram vindos um
  cardeal e tres bispos, e um marquez, e tres condes, e logo se tornaram.
  Em Niça estiveram oito dias, nos quaes alguns justaram, e o duque deu
  banquete aos portuguezes: e a cabo dos oito dias partiu com a infante
  para Piamonte: e á partida a infante se achou só em uma faca, com dous
  moços d'estribeira; e como ia de cá acostumada de andar d'outra maneira,
  achava-se corrida, e não soube que fazer, senão tornar-se ás lagrimas,
  porque a mór parte dos portuguezes eram já embarcados para se tornar. E
  alguns outros que por a servir aqui se iam acompanhar, não o consentiram,
  que assi lhes era ordenado do duque: e ao passar de uma ponte, uns cem
  alabardeiros lhes pozeram as alabardas nos peitos, e não consentiram que
  passassem ávante. As damas iam em chibaos d'aluguer, com varas nas mãos,
  sem nenhuma companhia d'homem, caindo a cada passo por seguir a infante
  pranteando e chorando sua orfandade, e a pouca honra e gasalhado que dos
  saboianos recebiam; e dizendo d'elle muitas pragas, e a pouca virtude e
  honra com que os tratava.»

D'estas passagens do codice tira Alexandre Herculano as conclusões que
fazem ao seu proposito. Ainda explica a repugnancia da infanta em
desembarcar por estar informada da figura despicienda do duque; mas para
explicar a dureza com que Carlos de Saboya trata D. Beatriz, poucos dias
depois de casada, sendo certo que empregára grandes esforços para obter a
sua mão, recorre Alexandre Herculano á conjectura de que «a noticia dos
amores da infanta com um cavalleiro portuguez teria chegado aos ouvidos do
senhor Vallaison (Claudio) que revelaria a seu amo, depois das nupcias, o
terrivel segredo que levára de Portugal, e porventura o receio de que entre
os que na viagem a acompanharam existisse o seu rival, e de que alguma das
damas o favorecesse.»

O quadro da desamoravel lua de mel, que a infanta D. Beatriz, segundo o
author do manuscripto, tivera em Saboya, não obstante a tradicional
formosura da infanta, contrastaria asperamente com as alegrias com que os
esponsaes foram celebrados na côrte de Portugal, onde Gil Vicente fez
representar a tragicomedia das CÔRTES DE JUPITER, um dos autos que, a nosso
vêr, melhor caracterisam a funcção truanesca que Gil Vicente desempenhava
no paço, pelas allusões pessoaes a personagens importantes que elle
irrisoriamente converte em peixes,—baleia, raia do alto, çafio, etc.

Veremos porém até que ponto, graças a um auxilio poderoso, lograremos
esmiuçar a verdade.


II

Em 1867 publicava Camillo Castello Branco o livro intitulado COUSAS LEVES E
PEZADAS, e ahi, em nota á pagina 17, escrevia o seguinte:

  «O meu parecer é que Bernardim, tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim
  Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S.
  Jorge da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra,
  para Lisboa, senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para Saboya.
  Corre-me obrigação de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão encontrado
  com o de doutos investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque não cabe
  n'este genero de escriptos grande cavar em terra d'onde o que sae, para o
  cummum dos leitores, é pedregulho.

  «Em primeiro, tenho como provavel que Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo
  de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz elle:

    Quando as fomes grandes foram,
    Que Alemtejo foi perdido,
    Da aldéa que chamam Torrão
    Foi este pastor fugido:
    Levava um pouco de gado, etc.

  «E continúa:

    Toda a terra foi perdida;
    No campo do Tejo só
    Achava o gado guarida.
    Vêr Alemtejo era um dó;
    E Jano para salvar
    O gado que lhe ficou,
    Foi esta terra buscar, etc.

  «Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão—naturalidade que todos os
  biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro—em Lisboa no anno das
  grandes fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 9 de agosto de 1521,
  tinha sahido para Saboya.

  «Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou da morte de
  Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é plausivel,
  marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais exacto, porque o
  pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª, diz:

    Agora hei vinte e um annos,
    E nunca inda até agora
    Me acorda de sentir damnos... etc.

  «Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e
  commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do auctor da BIBLIOTHECA
  LUSITANA, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de grande porte.
  O Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina, assistiu em 1526 ao
  cêrco de Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma explosão de polvora. (Veja
  a CHRONICA DE D. SEBASTIÃO, por D. Manuel de Menezes).»

Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do DICCIONARIO BIBLIOGRAPHICO,
pag. 379, não acceitára como definitivos os reparos de Camillo Castello
Branco e appellára para investigações ulteriores.

No 10.º vol. das NOITES DE INSOMNIA, Camillo Castello Branco voltou ao
assumpto, dizendo:

  «Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos,
  levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não
  era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova, da ordem de
  Christo e capitão-mór das naus da India, casado com D. Maria de Vilhena,
  filha de D. Manuel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro,
  governador de S. Jorge.»

Camillo estuda em seguida a genealogia dos tres Bernardins, que andam
fundidos no auctor da MENINA E MOÇA.

O snr. Theophilo Braga publicou em 1872 o volume dedicado, na sua HISTORIA
LITTERARIA DE PORTUGAL, a Bernardim Ribeiro.

Ahi, procurando reconstruir a biographia do poeta pela interpretação
critica das suas obras, sustenta que Bernardim Ribeiro viera do Torrão para
Lisboa em 1496, quando tinha vinte e um annos (Ecloga 2.ª), o que permitte
fixar a época do seu nascimento em 1475.

Parece ao snr. Theophilo Braga que já o poeta teria tido em 1496 o primeiro
amor, inspirado por D. Maria Gonçalves Coresma, que casára com um viuvo do
Alemtejo, chamado Alvaro Mendes Casco.

Suppõe que D. Maria Coresma seja a _Cruelsia_ da MENINA E MOÇA, abandonada
pelo poeta, a quem _Aonia_ enfeitiçára com a sua belleza.

E explica por esta situação moral, em que Bernardim Ribeiro se encontrava,
o vilancete que Boutlerweck publicou na sua HISTORIA DA LITTERATURA
PORTUGUEZA e que vem reproduzido na edição das obras do poeta, feita em
1852 pela _Bibliotheca portugueza_:

  Não sou casado, senhora
  Pois inda que dei a mão
  Não casei o coração.

  Antes que vos conhecesse
  Sem errar contra vós nada,
  Uma só mão fiz casada,
  Sem que mais n'isso mettesse.
  Dou-lhe que ella se perdesse,
  Solteiros os versos são,
  Os olhos, e o coração.

  Dizem que o bom casamento
  Se ha de fazer por vontade,
  Eu a vós a liberdade
  Vos dei, e o pensamento.

  N'isto não me achei contento
  Que se a outra dei a mão,
  Dei a vós o coração.

  Como, senhora, vos vi,
  Sem palavras de presente
  Na alma vos recebi,
  Onde estareis para sempre.
  Não, dei palavra sómente,
  Não fiz mais que dar a mão,
  Guardai vós o coração.

  Casei-me com meu cuidado
  E com vosso desejar,
  Senhora, não sou casado,
  Não m'o queiraes acuitar.
  Que servir-vos, e amar
  Me nasceu do coração
  Que tendes em vossa mão.

  O casar não faz mudança
  Em meu antigo cuidado,
  Nem me negou esperança
  Do galardão esperado:
  Não ma engeiteis por casado,
  Que se a outra dei a mão,
  Dei a vós o coração.

Francamente, a interpretação que o sr. illustre escriptor Theophilo Braga
deu a este vilancete, parece-nos forçada.

A affirmação do poeta, na hypothese de que o vilancete seja realmente seu,
é tão categorica:

  Não me engeiteis por casado,
  Que se a outra dei a mão,
  Dei a vós o coração

que não se acceita sem certa repugnancia a explicação de que elle se
referia apenas ao galanteio que tivera com D. Maria Coresma, solteira ou
casada, mas a quem, em todo caso, não havia _dado a mão_ de esposo.

Este ponto julgamol-o ainda escurentado de grandes duvidas.

Mas, como quer que seja, o snr. Theophilo Braga, occupando-se dos segundos
amores do poeta com a _Aonia_ da MENINA E MOÇA, suppõe que _Aonia_ é o
anagramma de Joanna, e que esta dama é D. Joanna de Vilhena, prima d'el-rei
D. Manuel, e filha de D. Alvaro de Portugal, a qual viera para a côrte no
tempo do casamento da princeza D. Izabel (Beliza) com o principe D. Affonso
em 1491.

D. Joanna de Vilhena casou em 2 de fevereiro de 1516 com D. Francisco de
Portugal, primeiro conde de Vimioso, um dos poetas do CANCIONEIRO de Garcia
de Rezende.

Este casamento é a _catastrophe_ que ensombra a vida do poeta. Na MENINA E
MOÇA, _Bimnarder_, anagramma de Bernardim, sabendo do casamento de _Aonia_
«se foi, e não no viram mais.»

Francisco Antonio Varnhagem, que morreu visconde de Porto Seguro, publicou
um livro, que precedeu o do snr. Theophilo Braga, pois que este escriptor a
elle se refere desfavoravelmente (pag. 107), e que se intitula DA
LITTERATURA DOS LIVROS DE CAVALLARIA (Vienna, 1872).

Varnhagem, que se dedicou muito ao estudo da nossa historia litteraria,
interpretou do seguinte modo os anagrammas da MENINA E MOÇA:

  _Aonia_ por Joanna.
  _Arima_ por Maria.
  _Avalor_ por Alvaro.
  _Beliza_ por Izabel.
  _Boslia_ por Lisboa.
  _Cruelsia_ por Lucrecia.
  _Donanfer_ por Fernando.
  _Enis_ por Ines.
  _Fartesia_ por Tiséfara (?)
  _Godivo_ por Dioguo.
  _Jenao_ por Joane.
  _Lamberteu_ por Bartelmeu.
  _Loribaina_ por Briolanja.
  _Narbindel_ por Bernaldin.
  _Olania_ por Anjola (?)
  _Bomabisa_ por Ambrosia.
  _Tasbião_ por Bastião.
  _Zicelia_ por Cezilia.
  _Lamentor_, modificação de _Lamendor_, por Manuel.

O snr. Theophilo Braga interpreta _Bimnarder_ como outro anagramma de
Bernardim, e _Olania_ por Oriana. Eis os pontos de divergencia entre as
duas interpretações.

Varnhagem commenta:

  «Seja como fôr: o certo é que, decifrados os anagrammas, apparece
  Bimnarder apaixonado de certa Joanna, irmã de Izabel, mulher de
  _Lamentor_. Ora, se admittirmos que este fosse el-rei D. Manuel,
  resultariam os amores de Bernardim, não com a filha d'este rei, mas sim
  com sua cunhada D. Joanna, a mãi de Carlos V, mulher de Filippe o
  _Bello_, e filha (como a rainha D. Izabel sua irmã) dos reis catholicos
  Izabel e Fernando. Em tal caso o mesmo Filippe corresponderia ao _Fileno
  e Orphileno_ (marido da Aonia da novella), etc.»

Não acha natural Varnhagem que Bernardim Ribeiro se apaixonasse por D.
Beatriz, que nascêra em 1504 e a cantasse, quando ella era menina de menos
de doze annos, no CANCIONEIRO de Rezende, que sahiu impresso em 1516.

Mas a verdade é que na MENINA E MOÇA se diz: que «a senhora Aonia ainda
então era donzella d'antre treze ou quatorze annos» e que _menina e moça_ a
levaram de casa de seu pai para longes terras.

Entende tambem o snr. Theophilo Braga que os dizeres com que abre a MENINA
E MOÇA não se podem referir á infanta D. Beatriz, que contava dezesete
annos, quando foi levada para Saboya.

Como se vê, a opinião dominante nos ultimos quinze annos é contraria á
lenda dos amores de Bernardim Ribeiro com a infanta D. Beatriz.

O snr. Theophilo Braga explica a formação da lenda pelo supposto facto de
ter o poeta amado uma dama altamente collocada na côrte, parenta de el-rei
D. Manuel, D. Joanna de Vilhena; pela prohibição, no _Index_ de 1581, da
novella MENINA E MOÇA, o que lançou suspeitas sobre o conteúdo da novella;
e pela coincidencia de Bernardim Ribeiro ter sahido de Portugal quando a
infanta, em 1521, partiu para Saboya.

A lenda, recolhida no seculo XVI por Faria e Sousa, resuscitára com o
romantismo pela reviviscencia das lendas nacionaes.

Acha o snr. Theophilo Braga que a idade do poeta e da infanta, em 1521,
eram incompativeis entre si e a tresloucada paixão que a lenda attribuia a
um homem de quarenta e seis annos por uma donzellinha de dezesete. Acha
outrosim que a ingenita altivez do caracter de D. Beatriz não lhe
permittiria descer até acceitar o galanteio de um trovador, de mais a mais
amadurecido em annos.

No amor não ha incompatibilidades possiveis. Na historia de Portugal
abundam estes desacertos de idade e de condição em assumptos amorosos.

A nós não nos repugna o facto de Bernardim Ribeiro, um poeta, se ter
apaixonado por uma dama da côrte, que todavia, como diremos, não suppomos
fosse a infanta, não obstante a desproporção das idades.

Mas, se D. Beatriz foi a inspiradora da paixão do poeta, o que podêmos
provar com documentos historicos é que ella o esqueceu em Saboya, se algum
dia o amou ou se soube que foi amada por elle.

Não é natural que D. Beatriz, tão magoada como o codice publicado por
Herculano nol-a pinta, se absorvesse tão profundamente, e tão estranha ao
seu proprio passado, nos deveres de esposa e princeza, como realmente
acontecêra em Saboya, e como vamos mostrar.

É verdade que a lenda romantica conta que a duqueza de Saboya, reconhecendo
o poeta no disfarce de mendigo á porta de um templo, lhe disséra, dando-lhe
esmola:—«Já lá vai o tempo dos antigos galanteios.»

Mas tão empenhada a vamos encontrar nos negocios politicos e domesticos da
côrte de Saboya, tão despreoccupada de recordações amorosas, tão adaptada
moralmente ao meio em que se encontrava, que estamos convencido de que, se
Bernardim Ribeiro a amou, não foi correspondido ou só ephemeramente o foi,
o que não seria natural n'uma princeza educada nos serões galantes do Paço
da Ribeira, sabendo-se amada por um poeta, e vivendo sacrificada na
companhia de um marido, que não era poeta, e cujo desgracioso feitio as
chronicas memoram.

Se, como quer o snr. Theophilo Braga, a _Aonia_ da MENINA E MOÇA é D.
Joanna de Vilhena, primeira condessa de Vimioso, a _Condessa Santa_,
completo foi o seu esquecimento do amor que inspirára ao poeta.

«Emquanto viveu o conde, escreve o padre Francisco da Fonseca na EVORA
GLORIOSA, o imitou, e acompanhou em todas as obras virtuosas, attendendo
cuidadosamente á educação de seus filhos, e ao prudente governo da sua
familia, e casa, que debaixo da sua direcção era convento com apparencias
de palacio. Era inimicissima do ocio, e por isso assim ella, como todas as
suas criadas, se occupavam continuamente nos exercicios proprios do seu
estado, umas cosiam, outras fiavam, outras faziam rendas ou fios para curar
os necessitados. O mesmo usava com as senhoras, que a vinham visitar, dando
a cada uma d'ellas algum trabalhinho, com que se entreter; e entretanto, ou
lhe lia algum capitulo dos documentos, que o conde tinha composto, e lhe
contava algum exemplo, ou historia santa, com que adoçar o trabalho; o que
fazia com tanta graça, que assim sua irmã D. Brites, duqueza de Coimbra e
Aveiro, com todas as mais senhoras continuavam e frequentavam com gosto a
escóla de D. Joanna. Morto o conde, se deu totalmente a Deus, e, abraçando
a terceira ordem de Santo Agostinho, fez uma vida verdadeiramente de santa.
Remendava por suas proprias mãos os habitos dos frades, e lhes fazia o
comer, quando estavam enfermos, amando-os e consolando-os a todos, como se
fossem seus filhos: o mesmo praticava com as religiosas de Santa Catharina,
e porque viu as lagrimas e suspiros da pobreza eborense por causa da falta
que lhe fazia a morte de seu querido esposo, tomou muito a sua conta
enxugar-lhe as lagrimas com opportuno remedio: escolheu para capellães e
esmoleres a dous sacerdotes exemplares, em cuja companhia ia todos os dias
visitar os enfermos da sua parochia: seguiam-n'a dous escravos, carregados
de tudo aquillo de que podiam necessitar os enfermos, e ella por si mesma
lhe repartia todos os mimos e os regalos: com estas, e outras muitas santas
obras, continuou a nossa condessa a sua exemplarissima vida até os 24 de
julho de 1559 em que Deus a chamou para a gloria.»

A dama que inspirára a paixão de Bernardim Ribeiro tinha os olhos verdes.

No capitulo XXI da MENINA E MOÇA encontra-se o romance

  Pensando-vos estou filha

que Garrett reproduziu no terceiro volume do ROMANCEIRO com o titulo de _A
Ama_.

N'esse cantar, á maneira de solau, como o classifica Garrett, encontra-se a
seguinte allusão:

  Mas não póde ser, senhora,
  Para mal nenhum nascerdes,
  Com esse riso gracioso
  Que tendes sob _olhos verdes_.

Entre as eclogas de Bernardim Ribeiro encontra-se outro romance, que
Almeida Garrett tambem reproduziu com o titulo de _Cuidado e desejo_, e ahi
depara-se-nos uma outra referencia á côr dos olhos da sua dama:

  Seus _olhos verdes rasgados_
  De lagrimas carregados, etc.

Conhecemos dois retratos da infanta D. Beatriz de Portugal, duqueza de
Saboya.

Um foi publicado no periodico litterario UNIVERSO PITTORESCO. O artigo que
o acompanha tem a assignatura do fallecido escriptor S. J. Ribeiro de Sá.

O artigo nada adianta, mas o retrato é copia do que se encontra em Turim na
galeria dos retratos dos duques e duquezas de Saboya. Enviou-o para
Portugal o snr. Miguel Martins Dantas, hoje ministro de Portugal em
Londres, e então addido á legação de Sua Magestade Fidelissima em Turim.

O snr. Dantas fez acompanhar a copia d'esse retrato, que deve considerar-se
authentico, das seguintes indicações:

  «Rosto claro, _olhos castanhos escuros_, cabellos castanhos claro, bonet
  de velludo preto adornado de pedraria, e uma pluma branca; no pescoço um
  adresse de pedras roxas engastadas em oiro, acabando com uma perola. Uma
  especie de lenço, ao que parece de cambraia, com muito feitio occupa o
  espaço do decote—em roda uma bordadura de ouro. O vestido é de fazenda
  (não velludo) côr de castanha, atirando para roxo, com tufos brancos nas
  mangas, rematados com pedras roxas tambem engastadas em ouro, punhos
  brancos de renda, collar de perolas acabando com tres pedras iguaes ás
  outras: desde a cintura até ao chão ha um cordão formado de pedras
  azuladas engastadas em ouro.»

Pela descripção d'este retrato, existente na galeria de Turim, e que para
todos os effeitos, repetimos, se deve considerar authentico, sabemos que os
olhos da infanta D. Beatriz não eram _verdes_, como os que descreve
Bernardim Ribeiro, mas _castanhos escuros_.

D'aqui, pois, se póde tirar um novo argumento para reforçar a opinião,
aliás hoje dominante, de que não foi a infanta D. Beatriz a mulher amada
pelo poeta das saudades.

Do outro retrato só ha pouco tempo tivemos conhecimento.

No leilão da livraria do fallecido visconde de Juromenha compramos,
unicamente attrahidos pela indicação do respectivo catalogo, um livro
intitulado—NOTIZIE STORICHE INTORNO ALLA VITA ED AI TEMPI DI BEATRICE DI
PORTOGALLO DUCHESSA DI SAVOIA, CON DOCUMENTI PER IL BARONE GAUDENZIO
CLARETTA, MEMBRO DELLA R. DEPUTAZIONE SOVRA GLI STUDI DI STORIA
PATRIA—Torino, 1863, tipografia Eredi Botta, Palazzo Carignano.

Não tinhamos a menor noticia d'este livro, que versava um dos mais
interessantes assumptos da historia de Portugal, não obstante haver sido
publicado em 1863.

E como temos por indispensavel estudar a historia portugueza, para apural-a
com segurança, pelo confronto do que escreveram os nossos historiadores com
os dos paizes que comnosco tiveram relações politicas em determinadas
épocas, fossem essas relações devidas a um casamento, a um tratado, a uma
guerra ou a qualquer outra causa—systema este em que principalmente
baseamos o nosso estudo historico ácerca da Excellente Senhora, _Rainha sem
reino_,—procuramos a todo o custo obter esse livro, para nós desconhecido,
cujo titulo nos aguçára a curiosidade e o interesse de possuil-o.

Mal diriamos n'essa occasião que, tambem pela venda de um espolio,
adquiririamos pouco depois outro livro do mesmo author ácerca de uma época
não menos notavel da historia portugueza.

O barão Gaudenzio Claretta dá n'aquelle seu livro noticia de duas medalhas
que o duque de Saboya Carlos III mandára cunhar para perpetuar a memoria de
sua esposa.

Uma d'ellas tem de um lado a effigie de D. Beatriz com a legenda: _Beatrix
dux Sabavdie_ e do outro os escudos de Saboya e Portugal com esta
inscripção; _Lvsitaniæ regis filia an svæ æt. 36_.

A segunda medalha, que se encontra reproduzida no ante-rosto do livro,
representa a duqueza de Saboya, ricamente vestida, com a legenda: _Beatrix
decvs Portvgallie ducissa Sabavdie_.

Um argumento salta desde já aos bicos da penna.

Se Carlos III tivesse menospresado sua mulher pela revelação do segredo dos
seus amores com um cavalleiro portuguez, como Herculano deprehende do
codice por elle publicado no PANORAMA, não haveria decerto manifestado pela
morte da duqueza um tão profundo sentimento como aquelle que se traduz pelo
facto de haver mandado cunhar não apenas uma só medalha commemorativa—mas
duas.

A effigie de D. Beatriz, gravada na segunda medalha, é claro que nada póde
aproveitar para tirarmos a limpo a côr dos seus olhos. Mas a este respeito
basta o testemunho fidedigno, a que já nos referimos, do snr. Miguel
Martins Dantas. Em todo caso, a medalha é muito interessante, pois que
reproduz, e devemos suppôr que com fidelidade official, as feições da
infanta portugueza e a sua _toilette_.

A medalha representa-a com um toucado de pedras preciosas, que lhe
circumdam os cabellos apartados ao meio e cahidos em madeixas sobre os
hombros. Vestido de decote escanteado. Um pequeno cabeção de recortes com
tres voltas de pedraria. Collar pendente. A meio do peito uma cruz suspensa
da orla do decote.

As feições do retrato enviado pelo snr. Dantas ajustam-se inteiramente ás
da effigie que a medalha representa: Nariz comprido, bocca pequena e
grossa, testa alta, sobrancelhas pouco espessas e arqueadas, pescoço alto e
bem lançado, estatura erecta, porte gentil.


III

Vamos porém á historia do casamento da infanta D. Beatriz de Portugal com
Carlos III, duque de Saboya.

São conhecidos os pormenores da viagem da infanta pelo opusculo de Garcia
de Rezende, que anda nas suas obras, intitulado HIDA DA INFANTE D. BEATRIZ
PERA SABOYA; e pelo capitulo LXX, quarta parte, da CHRONICA DE D. MANUEL,
por Damião de Goes.

Já tivemos tambem occasião de referir-nos ao auto de Gil Vicente que tem
por assumpto a viagem de D. Beatriz.

No tomo II das PROVAS DA HISTORIA GENEALOGICA encontra-se a pag. 439 o
_Contrato do casamento_, e a pag. 445 a longa enumeração dos objectos que
constituiam o opulento enxoval da infanta.

Até aqui o que conhecemos dos livros portuguezes.

Agora passemos a soccorrer-nos da MEMORIA do barão Gaudenzio Claretta, a
fim de a divulgarmos em Portugal, por ser realmente muito pouco conhecida
entre nós.

O casamento realisou-se no 1.º de outubro de 1521, na igreja dos
dominicanos de Niza, lançando a benção nupcial o bispo de Vercelli,
Bonifacio Ferrero, que mais tarde se tornou conhecido pelo nome de cardeal
de Ivrea.

Realisaram-se pomposos festejos publicos, primando entre elles, pelo seu
luzimento, o torneio celebrado junto á porta Marina, no qual cavalleiros
hespanhoes, portuguezes e italianos quebraram lanças em honra dos augustos
esposos.

O codice citado por Herculano conta que a infanta, tendo chegado a Villa
Franca pela uma hora da tarde do dia de S. Miguel (29 de setembro), não
queria sahir da nau, o que fizera a instancias do duque de Saboya.

D'ahi inferiu Herculano que a a «má vontade com que ella desembarcou mostra
que este casamento não lhe era demasiadamente grato.»

Vejamos porém o que diz o texto da MEMORIA de Claretta:

  «Seguendo ora il racconto del Revelli, narra questo storico che il giorno
  29 verso _le tre ore di notte_ sbarcó la principessa a Villafranca, dove
  di comandamento del Duca eransi portati per riceverla e complimentarla
  Lodovico dei Malingri, Gioanni d'Orliè, il vescovo Geronimo d'Arsagis,
  Onorato Cays ed i consoli seguiti dai primi gentiluomini del paese. L'ora
  era già avanzata, _ma pur volle l'infante Beatrice_ la sera medesima
  recarsi a Nizza traversando il colle di Montalban al chiaror di molte
  faci, ed assisa su di una sedia soppannata di velluto e d'armellino,
  sostenuta da quattro gentiluomini portoghesi. Giunta la comitiva ai
  molini di Riquieri le acclamazioni più vive degli astanti annunziarono
  l'incontro del Duca, il quale era giunto quella sera all'abbazia di San
  Ponzio e non aveva voluto far l'ingresso nella città prima che fosse
  arrivata la sposa.»

Vão grifadas as expressões que contrariam a versão do codice publicado por
Herculano.

Como vimos, Claretta apoia-se na narração de Revelli, e não podêmos suppôr
que Claretta occultasse a verdade, por isso que elle a patenteia com
inteira franqueza em varios lances da sua MEMORIA, especialmente, como
veremos, quando se refere á decadencia da côrte de Carlos III.

O condado de Niza offereceu á duqueza, como brinde de casamento, a somma de
cinco mil florins.

Pier Leone di Cavaglià, conego de Santa Maria della Scala de Milão, recitou
uma oração e um epithalamio, de que existe um exemplar na bibliotheca real,
sendo o opusculo que contém as duas peças litterarias muito raro na Italia.
_Oggidi assai raro_, diz em parenthesis Claretta.

A oração é em latim. Claretta dá alguns extractos, e commenta-os. Por
exemplo:

  «... habes uxorem pulcherimam (_ei gli dice_) venustissimamque ut cernere
  est virtutis lacte et cura ut scimus nutritam (_e questo era vero_)
  fæcundam ut optamus.»

Claretta publíca na integra o epithalamio, tambem latino, que foi recitado
pela menina Veronica Leone, de quatro annos de idade apenas—_giovinetta di
quattro anni_.

N'esse epithalamio são grandemente exaltadas a belleza e castidade da
infanta D. Beatriz.

Claretta ainda cita outras congratulações poeticas que por essa occasião
foram publicadas.

A tres de outubro fizeram os duques de Saboya a sua entrada solemne na
cidade de Niza pela porta _Pairoliera_.

Segundo Revelli, cerca de tres mil portuguezes, ricamente vestidos, tomaram
parte no cortejo. Mas outros muitos, não menos ricamente vestidos,
assistiram como espectadores ao desfilar do prestito.

Agora vem algumas linhas de Claretta, que reproduzimos no texto para que
n'ellas sobresaia a impressão profunda, conservada pela tradição, que
causára em Niza o apparato que os portuguezes exhibiram n'esse acto:

  «Soggiunge il citato storico (Revelli) che i Portoghesi sommarono a ben
  cinque mila, e che fu cosa ammirabile il vedere tanti ornamenti d'oro,
  gemme, selle de cavalli com briglie, staffe, speroni e cose simili tutte
  formate di lame e piastre di puro oro, uccelli ed animali peregrini,
  quantità incredibile de aromi di specie diversa, in una parola, tutto che
  di prezioso dall' Africa e dalle Indie, con l'occasione dell' navigazioni
  alle più remote parti, era stato apportato al re di Portogallo.»

Ahi fica mais essa recordação do nosso passado esplendor n'um tempo em que
a riqueza dos cavalleiros igualava a dos arreios dos cavallos, tudo
constellado do ouro e pedrarias, que o descobrimento da India nos permittia
exhibir por entre nuvens de exquisitos perfumes orientaes.

Segundo Claretta, foi no dia 8 de outubro que os noivos partiram de Niza
para o Piemonte.

Esta indicação confere com a do codice publicado no PANORAMA.

É porém durante a jornada que o author do codice se refere a violencias
praticadas contra os portuguezes que acompanharam a infanta.

Claretta cita os nomes dos personagens italianos que fizeram séquito aos
noivos até Vigone, um dos quaes personagens era o governador de Niza, com o
seu logar-tenente. Parece natural que aquelle funccionario e alguns mais
retrocedessem depois de haverem acompanhado os duques por algum tempo.
Accrescenta Claretta que em Vigone se despediu o cortejo, ficando ahi os
noivos, podendo suppôr-se que no gôso da sua lua de mel, livres finalmente
das impertinencias officiaes, que durante oito dias os tinham rodeado.

A 10 de fevereiro de 1522 expedia Carlos III patente de assentamento, a
favor de D. Beatriz, da quantia de nove mil e setecentos florins, com
hypotheca sobre diversos rendimentos publicos, e a 22 de abril passava
quitação ao rei de Portugal da somma de cento e cincoenta mil ducados, com
que a infanta fôra dotada por seu pai.

Os duques demoraram-se em Vigone até ao mez de março, recebendo ahi D.
Beatriz, por parte do estado do Piemonte, um donativo de cincoenta mil
florins, e o duque outro de duzentos mil.

Claretta diz que a entrada dos noivos em Turim fôra saudada pela população,
mas que as festas publicas bem depressa tiveram de ser ensombradas pela
noticia da morte do rei de Portugal, occorrida no mez de dezembro, _e pela
peste que os portuguezes haviam deixado em Niza, cujos habitantes
flagellára por longo tempo_.

A scena da ponte, descripta no codice do PANORAMA, quando uns cem
alabardeiros pozeram as alabardas aos peitos dos portuguezes, que queriam
acompanhar a infanta, teria uma explicação inverosimil pela versão de
Herculano, visto como o duque não havia ainda regulado a situação
financeira de um casamento que tanto lhe convinha e por que tanto instára.

Sendo tamanha, como refere Claretta, a multidão de portuguezes que
assistiram á recepção da infanta D. Beatriz, explica-se facilmente o acto
de violencia praticado pelos alabardeiros como medida prophylatica adoptada
pelo duque contra a invasão de uma epidemia que desde longos annos não
tinha deixado de fazer grande numero de victimas em Portugal. Póde mesmo
ter acontecido que um ou outro caso de peste se houvesse manifestado entre
os cinco mil portuguezes que por occasião das festas do casamento se
encontravam em Niza, incluindo os marinheiros dos dezoito navios que
constituiam a frota portugueza. É porém natural que os portuguezes se
offendessem com essa precaução, e desfigurassem as intenções de Carlos III
tomando-as á conta de descortezes para com a infanta, e de hostis para com
elles.

As condições hygienicas de Portugal eram realmente deploraveis então. A
peste tinha devastado o reino annos antes, e, referindo-se á morte de D.
Manuel, diz Garcia de Rezende na _Miscellania_:

  N'este anno se finou
  o gran rei D. Manoel,
  quantos comsigo levou
  a morte triste, cruel?
  que rei, que gente matou?
  duzentos homens honrados,
  em que iam muitos d'estados,
  vivos que então se finaram
  de modorra, e escaparam
  muitos já quasi enterrados.


IV

É certo que em torno da infanta D. Beatriz se levantaram desde o principio
algumas recriminações. Mas não partiam do duque de Saboya nem procediam de
ciumes. Partiam do povo.

D. Beatriz tinha sido educada na opulencia e, como era natural, não perdêra
facilmente esse habito. Os saboyanos achavam-na altiva, orgulhosa, e
criticavam n'ella os costumes de Portugal.

O duque, bem ao contrario dos sentimentos que lhe attribue o codice citado
por Herculano, transigia com a esposa.

Elle proprio, quando a côrte se dirigiu a Genova, seguia o coche rico que
conduzia a duqueza, montando uma mula, acompanhado pelo abbade de Beaumont.

Os genovezes, segundo o testemunho de Spon, censuravam que Carlos III
dispendesse em pompas, para honrar sua esposa, o dinheiro que melhor seria
empregado em fortificar a cidade.

Não obstante estas censuras, as festas continuaram.

Por sua parte, a duqueza devia sentir-se contrariada porque, tendo sido
educada no esplendor dos Paços da Ribeira, via-se agora condemnada a viver
n'uma côrte pobre e endividada, não sem que o povo murmurasse á menor
despeza que ella fazia.

Mas, é Claretta quem o confessa: a experiencia não devia tardar em
corrigil-a. D. Beatriz inteirou-se das circumstancias, como mostra a sua
correspondencia, que Claretta examinou com cuidado, e que elle proprio
divide em politica e particular.

Desprendida de todos os defeitos de educação, mostrando um espirito
desassombrado, como o de quem não está impressionado por a saudade de um
amor infeliz, como teria sido o de Bernardim Ribeiro, Beatriz de Portugal
principia a cuidar seriamente dos negocios internos do paiz.

Logo em 1524 escrevia ao marquez de Pescara para que fizesse cessar as
violencias que os soldados do imperador Carlos V, depois da victoria de
Pavia, commettiam no ducado de Saboya com grande vexame para os habitantes.
Carlos III implorava tambem no mesmo sentido.

A 13 d'agosto d'esse mesmo anno, D. Beatriz instava de novo, dirigindo-se
ao capitão imperial Fernando d'Alençon para que deixasse de opprimir os
povos do Piemonte, em particular os de Borge e Bognolo _in maniera che li
nostri subdicti li quali gia tanto hano patito non seano in tutto ruynati_.

O imperador, cada vez mais solicitamente instado pelos duques de Saboya,
respondia com boas palavras apenas: em carta, datada de Toledo a 7 de
fevereiro de 1526, diz a Carlos III que tem por elle e por a duqueza sua
cunhada a maior consideração; que os vexames commettidos no Piemonte o
contrariam tambem; mas que espera pôr-lhes termo logo que vá a Italia.

A 12 d'esse mesmo mez de fevereiro, a duqueza de Saboya, D. Beatriz,
escrevendo ao commendador de Murel, dizia-lhe: _Vous n'aues pas a ignorer
les insultes et peilleages que alcuns souldars estantz dans Carmagnole
auecques leurs complices ont fait sur le pays de Monseigneur de maniere que
tous les chemins sont rompuz qui est grant scandalle por tout le pays ce
qui ne voulons plus en durer_.

Mas os vexames, as humilhações continuavam.

A 22 de fevereiro, a duqueza energicamente recommendava á communa d'Ivrea
que lhe enviasse duzentos homens, dos melhores, a fim de policiarem os
logares vexados pelos soldados do imperador.

Em abril, como continuassem as coisas no mesmo pé, D. Beatriz escrevia ao
marquez del Guasto, pedindo-lhe que fizesse retirar as tropas que
devastavam Racconigi.

Sempre valeram as supplicas repetidas e instantes de D. Beatriz junto de
Carlos V.

O imperador calmára um pouco a sua vingança, pois que tivera contas a
ajustar com Carlos III, ao qual em 1521 havia escripto, tratando-o não por
principe italiano, mas por seu _visinho d'Italia_, pedindo-lhe que obstasse
á passagem do exercito de Francisco I: no que fareis o vosso dever, e a mim
me dareis singular prazer, que não será esquecido.

O duque de Saboya não só não obstou á passagem do exercito francez, senão
tambem o forneceu de viveres e munições.

D. Beatriz, logo que pôde inteirar-se dos negocios politicos do paiz, e
intervir n'elles, procurou corrigir o desacerto do marido. Como vimos,
dirigia-se supplicante ao imperador ou aos seus capitães, e tanto captivára
Carlos V, que elle, comquanto sempre dissimulado, acabou por attender-lhe
as supplicas.

Em 1524 D. Beatriz dera á luz um filho.

Os seus deveres de mãi não a inhibiam comtudo de interferir solicitamente
nos negocios politicos do ducado,—com tal zelo, com tal dedicação, que não
deixa no nosso espirito sombra de suspeita de que ella, no caso de ter sido
amada por Bernardim Ribeiro, podesse lembrar-se ainda do infeliz trovador
portuguez.

O duque de Saboya tinha fixado a sua residencia em Chambery, cujo clima
molestava D. Beatriz, nascida e educada nas regiões temperadas do
occidente. Além do que, conservando-se no Piemonte, podia Carlos III
observar de mais perto os acontecimentos da Italia.

Esta ausencia obrigada contrariava muito D. Beatriz, como se vê de uma
carta sua escripta ao duque a 21 de fevereiro de 1526: ... _votre retour
qui mest si long que plus ne pourroit_. Já não podia supportar a ausencia
do marido. Como estaria esquecido Bernardim Ribeiro, se alguma vez tivesse
sido lembrado! No fim da carta falla-lhe do filho. _Du surplus votre filz
se porte tres bien_, etc. Deixou para o fim, como as mulheres sempre fazem,
o pensamento que mais podia attrahir o marido.

Carlos III, reconhecido á intervenção de sua mulher junto do imperador,
escreveu-lhe de Chambery para Turim, em 19 de junho, uma carta que
completamente esmaga a suspeita de qualquer resentimento amoroso.

Diz a carta:

  «Ma femme. J'ay receu toutes vos lettres par Chasteaufort et par luy
  entendu de vos nouuelles que me sont a tel aise et plaisir que plus me
  porrient mesmes vous voyant en bonne santé et les afferez reduitz a
  souhet dons auons a louer notre seigneur et de tant plus quaues heu si
  bon heurt que de faire vne si belle oeuure au bien et soulagement des
  subgectz et a votre gros honneur et reputation. Que vous sera succes et
  accroissement de vertu. Jay ausplus veu vos aduys et vous asseure que
  estre ces gens entierement vuydes ie ne tarderay a vous aller veoir et
  cependant ie men vey des demain Annessy car a... se fait le baptesme qui
  na este retarde que pour attendre les ambassadeurs des ligues et ne fault
  au demorant quaye nul soucy de ma personne car aidan Dieu elle vos sera
  conseruee et de notre fils. Je vous asseure quil fait graces a Dieu
  auquel ie prie qui vous donne ma femme le bien que ie vous desire De
  Cambery le XVIIII jour de juins—Votre bon mary, _Charles_.»

A situação era realmente difficil para Carlos III. Precisava um Cyrineu
dedicado, e encontrou-o em sua mulher, D. Beatriz de Portugal.

A duqueza acompanhava, de Turim, todos os acontecimentos importantes, e
aconselhava resolutamente o marido.

Citaremos um trecho de uma carta sua, varonilmente energica, escripta ao
duque:

  «Quant a la ligue de sept cantons suisses quoy que le pape saiche dire ie
  vous conforte si vous la pouvez conclure a la fere car la nature du
  marchant n'est que de voir a grandir vos voisins et sa mayson pour ruiner
  s'il pouvait la votre ou votre etat et tous les aultres quelque
  dissimulation quil face au contraire.»

Como se sabe, depois do tratado de Madrid, tão vexatorio para a França,
recomeçára a lucta entre Francisco I e Carlos V.

Foi pela Italia que as hostilidades principiaram, sangrentamente. Toda a
gente conhece as crueldades commettidas pelo exercito de lutheranos, que o
duque de Bourbon commandava. E toda a gente sabe que pelo desastre de
Landriano foram os francezes expulsos da peninsula italica.

Carlos V, victorioso, entrou na Italia, realisou a sua annunciada visita,
que tinha por fim fazer com que os senhores dos pequenos estados italianos
reconhecessem a sua suzerania e com que o papa Clemente VII o coroasse rei
de Italia e imperador.

Então, a França teve de assignar um novo tratado pouco menos vexatorio que
o de Madrid: o de Cambrai.

Todavia, a situação do Piemonte não melhorára. As devastações continuavam.
Carlos III lembrou-se de recorrer á intercessão de D. João III de Portugal.
Para isso solicitou uma carta de sua mulher, para o irmão, carta de que foi
portador um cavalleiro saboyano, de nome Honorato Cays,

O resultado d'esta missão diplomatica, em que D. Beatriz interveio, não o
conheceu Claretta.

Mas era esse o momento em que Carlos V devia realisar a definitiva
submissão da Italia.

Todos os principes d'aquella peninsula rodeiaram o imperador suzerano:
Carlos III, teve, junto de Carlos V, um logar de honra. D. Beatriz
offereceu ao imperador uma coberta de leito, do valor de dez mil escudos, e
Carlos V presenteou-a, em troca, com quatro vestidos de igual valor.

Terminada a ceremonia da coroação, D. Beatriz regressava a Turim, _sempre
intendendo all'amministrazione e buon governo dello statto_, diz Claretta.

Mas D. Beatriz não havia perdido politicamente o tempo que estivera em
Borgonha. Induzira o imperador a ceder-lhe, e aos seus descendentes, o
condado de Asti e o senhorio de Chevasco e Ceva, que, pelo tratado de
Cambrai, a França havia cedido a Carlos V.

A carta de doação, escripta em latim, e assignada pelo imperador, tem a
data de 3 de abril de 1531. Carlos V encarregou o gentilhomem D. Gutierres
Lopes de Padilla de legalisar a investidura, que foi celebrada
solemnemente.

Os habitantes do condado de Asti festejaram este acontecimento com
demonstrações de grande jubilo, e resolveram fazer á duqueza D. Beatriz uma
doação de dez mil escudos de ouro.

Em verdade, bem precisada estava de auxilios pecuniarios D. Beatriz.

N'uma carta ao duque dizia ella:

  «Touchant ma despense Monseigneur j ay prins le premier payement de ceulx
  de Cargnan pour contenter partie de ce quest deheu tant seullement du vin
  et vous plaira nen estre marry vous asseheurant que la crierie et
  lextremité y estoit plus grosse que je ne vous ay jamais escript...»

Parece mais uma carta de uma boa mãi de familia burgueza, informando seu
marido, com uma grande dedicação conjugal, do mau estado das finanças
domesticas, do que a carta d'uma princeza, bella e joven, dirigida a um
marido pobre e _um pouco azumbado_, como lhe chama o author do codice
citado por Herculano.

A figura lacrimavel do desditoso trovador Bernardim Ribeiro apaga-se
lentamente, até diluir-se no esquecimento, se procuramos enxergal-a através
da dedicação politica e domestica com que D. Beatriz de Portugal encarou os
seus deveres de esposa de Carlos III de Saboya.

Ahi tem o leitor a plena confirmação de quanto lhe haviamos annunciado.

N'essa mesma carta refere-se D. Beatriz aos disturbios que occorriam entre
os habitantes de Fossan, sendo que os banidos da povoação tinham derrubado
uma grossa muralha. E accrescentava:

  «Mais la difficulté y est quil ny a moyen d'auoir argent por leuer gens
  pour y enuoyer et sans y fere quelque bonne entreprinse et demonstration
  de iustice la chose ne peult tomber que a pis.»

As circumstancias pecuniarias da côrte de Saboya tornaram-se cada vez mais
apertadas, a ponto de não haver dinheiro para pagar aos fornecedores.

D. Beatriz, filha do opulento rei D. Manuel, não tinha uma palavra de
queixume ácerca da má situação financeira da sua casa, como seria natural
que tivesse, especialmente n'essa conjunctura, se, contrariando uma paixão
mallograda, houvesse sido compellida a um casamento que lhe repugnasse.

Oiçamol-a:

  «Au regard du duc d'Albanie sil treuue peu pour bien trecter et par
  faulte d'argent et mon poullalier ne voult plus fournir a cause qui lui
  est deheu pres de mil florins et a mon bouchier environ quatre ou cinq
  cens escuz auquel j ay rebattu sa part de la composition du Carignan
  tousiours en deduction de ce quen luy doibt et por non auoir argent soue
  constrainte dacheter sur la place de ceste ville a mespris.»

Devendo ao fornecedor de aves e até ao talho—oh prosa vil das realidades do
mundo!—a bella princeza de Portugal via-se obrigada a mandar comprar á
praça, como toda a gente!

Tendo de receber como hospedes alguns capitães do imperador, que a
encontraram em Rivoli e a acompanharam por distincção palaciana até Turim,
dizia D. Beatriz ao marido:

  «Reste Monseigneur que ie suis assez mal en ordre de caddretz dune
  naugiere potz flascons platz chandelliers et aultre veisselle dargent. Et
  ne scay si le duc de Millan viene comme le pourray recepuoir a votre
  honneur et myen. Semblablement nya icy aulcune tappisserie ny donzelletz
  de soy combien que iay fait accoustrer le chasteau au myeulx que ma este
  possible.»

Nem baixella, nem tapeçaria, nada! A isto estava reduzida uma filha de D.
Manuel de Portugal, forçada aliás, pela sua alta posição social, a receber
como hospedes os generaes de Carlos V.

Mas não era só a falta de dinheiro a unica difficuldade que tinha a vencer.

No dia 15 de agosto de 1532, foi D. Beatriz, com seu filho, á igreja de S.
João. Ahi travou-se uma grave rixa entre os senhores de Racconigi, de
Masino, o governador de Asti e o conde de Tenda. Houve quem dissesse á
duqueza que essa rixa seria um pretexto para ferir o principe, seu filho,
que tinha comsigo. D. Beatriz, mostrando uma intrepidez admiravel, mandou
suspender a missa, e retirou-se para o côro com o filho, com o prior de
Lombardia, com o abbade Capris, e alguns mais personagens. Acudindo alguns
cidadãos armados, que guardaram as pessoas da duqueza e do principe, D.
Beatriz ordenou que o templo fosse evacuado e, com a intervenção do bispo
de Niza, fez reconciliar os contendores.

Ella propria deu noticia d'este acontecimento a seu marido dizendo-lhe:

  «... et le commancement du debat a tyrer les epes ont este les vallets de
  sorte quy sont venus aus meytres tant quy ly auet byen synt sans espes
  desgenes dedans le glisse et de sorte quy la faglu layser de dyre ma
  messe pour me retirer et jey heu peur pour ce que _tous me disoynt que je
  retyrasse mon fys cuydant quy fut este fet tout espres totefoys ce na
  este synon chosse quy tochet a tus memes_...»

Quando a gente deletrea á luz d'esta realidade cruel a biographia de D.
Beatriz de Portugal, como que sente em torno de si um esvoaçar de aves que
fogem amedrontadas, para não mais voltar.

Sao as ficções da sua lenda poetica—a lenda com que a nossa infancia foi
embalada—que debandam, espavoridas e batidas, para o paiz azul d'onde
vieram...

Emquanto Carlos III, que continuava no Piemonte, via escapar-se-lhe das
mãos a alliança dos genovezes, a duqueza de Saboya, esposa dedicada,
estremecia de cuidados pela saude do duque: «... quil vous plaise ne
trauailler tant votre personne que tomberiez en aulcune malladie car le
plus gros malheur qui sceust venu et a vos enfants seroit qui fussiez mal
desposé.»

N'uma outra carta da duqueza ha ainda um trecho mais expressivo do seu
carinho conjugal: «... si devan lundy ie nen ay nouuelles je deslivre me
mectre en chemin que ne sera encoures bien au long iusquez ie soie aupres
de vous _quest la chose que plus ie desire en ce monde_.»

Se não recebesse noticias, que a tranquillisassem, a respeito da saude do
duque, D. Beatriz dar-se-ia pressa em partir para reunir-se ao marido, pois
que era essa a felicidade que mais desejava n'este mundo.

No coração da infanta portugueza não podiam existir, em face d'estes
documentos authenticos, vestigios de qualquer paixão, absorvente e
mallograda, sobredourada pelo encanto com que a saudade costuma revestir a
imagem dos ausentes queridos. Não se vê, através d'estas cartas, a amante
lendaria de Bernardim Ribeiro; o que se vê é a esposa carinhosa do duque de
Saboya.

Sempre envolvido nas agitações politicas da Italia, Carlos III viu-se a
braços com uma nova controversia. Disputava agora com o duque de Mantua a
successão do Monferrato pela extincção da linha masculina dos Paleologos. A
solução foi favoravel ao duque de Mantua, e os partidarios de Carlos III
aconselhavam-no a empregar a força das armas, a recorrer á violencia.

D. Beatriz de Portugal, que, de longe, acompanhava todas as questões
politicas em que o marido se via lançado, revelava o heroismo do seu animo
apoiando o conselho com resoluta firmeza: «le vrai expedient et moyen de
vostre affere et ni ayez respect ni regard a personne ni a chose du monde.»

Uma dama de tão rija tempera, como D. Beatriz se mostrou em Saboya, não só
nos negocios politicos, mas tambem nos domesticos, não menos apertados e
difficeis, se se houvesse apaixonado por Bernardim Ribeiro, se tivesse
acceitado os galanteios do famoso trovador portuguez, haveria tido a
coragem de resistir a todas as vicissitudes que combatessem os designios do
coração amoroso.

Ao contrario de sua mulher, Carlos III, sempre vacillante, continuava
hesitando entre a França e a Hespanha, entre Francisco I e Carlos V.

D. Beatriz tinha, a este respeito, opiniões definidas, e expunha-as com
clareza ao marido. Ella era pela Hespanha. E n'este sentido aconselhava ao
duque: «... mais que si vous aviez deliberé vous entretenir envers France
comme aviez faict jusqu'ici que ce vous serait chose bien difficile pour
vivre avec tous deux neanmoins j espere selon votre accoutumée prudence
vous y scaurez bien conduire.»

Todavia as circumstancias eram de geito para entibiar qualquer animo menos
forte que o de D. Beatriz de Portugal.

Longe do marido, soffrendo pela saude e pela situação politica d'elle
continuados sobresaltos; luctando com a falta de recursos pecuniarios cada
vez mais aggravada; tendo perdido seu filho Luiz, que expirára em Hespanha,
na companhia de Carlos V, em dezembro de 1536; compromettida, no anno
seguinte, a sua delicada saude pelo extremo estado de gravidez em que se
encontrava; D. Beatriz de Portugal luctára, emquanto pudera, com animo
varonil e esforçado, mas, presentindo a morte, que se avisinhava,
preparou-se serenamente para a viagem eterna, ditando as suas disposições
testamentarias.

Era, nas circumstancias em que se encontrava, uma princeza pobre.

Mas, pela leitura do testamento, reconhece-se toda a humildade dos seus
sentimentos religiosos, na recommendação que faz ácerca da modestia dos
funeraes, e nos pequenos legados, nas ultimas recordações com que
testemunha o seu affecto pelas pessoas que a rodeavam, as suas criadas
particulares, taes como a ama do fallecido principe Luiz e a mulher do
barbeiro do duque.

Herdeiro universal o marido. Aos filhos legava a terça. E recommendava que
se do proximo parto nascesse uma filha, não a casassem sem consentimento de
Carlos V; e sempre com um principe igualmente illustre em nascimento. De
contrario, preferiria que fosse freira.

Legitimo orgulho de uma princeza portugueza que, alongando os olhos para
além do tumulo, procurava evitar que uma filha sua desposasse um d'esses
pequenos principes que enxameavam na Italia. Mãi dedicada, queria que a sua
prole estremecida tivesse um destino mais tranquillo do que ella tivera.

O testamenteiro nomeado por D. Beatriz foi Francisco de Carvalho,
embaixador portuguez junto á côrte de Saboya.

A duqueza déra á luz uma creança do sexo masculino, que recebeu o nome de
João Maria. Mas a saude de D. Beatriz estava de tal modo damnificada, a sua
fraqueza era tamanha, que rendeu a alma ao Creador no dia 8 de Janeiro de
1538.

O duque não assistiu ao passamento de D. Beatriz; o duque, a quem ella
_sempre cosi teneramente aveva amato_, diz Claretta. Sendo informado do
perigo que corria a vida da duqueza, Carlos III dera-se pressa em partir
para Niza, mas foi no caminho, em Genova, que recebêra a fatal noticia.

O duque ficou fulminado. _Dicesi che il dolore da cui il buon Carlo III era
oppresso fosse talmente profondo che dava non poco a dubitare della sua
esistenza._ É o testemunho de Claretta.

Comquanto fossem precarias as circumstancias da côrte de Saboya, Carlos III
ordenou pomposos funeraes. Mas, aggravadas com esta despeza as finanças do
duque, não foi possivel dar inteiro cumprimento á ultima vontade de D.
Beatriz, quanto aos legados que ordenára em testamento.

Para memoria eterna de saudade conjugal, Carlos III mandou gravar em honra
de D. Beatriz, como já dissemos, duas medalhas.

Do casamento de Carlos III com a infanta de Portugal nasceram nove filhos:
seis do sexo masculino, sendo um d'elles o celebre Manuel Felisberto, o
vencedor de S. Quintino, e tres do sexo feminino.

Aqui fica pois reconstruida, graças á monographia de Claretta, a vida da
infanta D. Beatriz depois que sahiu de Portugal.

É o proprio Claretta quem confessa que a duqueza de Saboya tem sido
apreciada por modos diversos; mas a sua opinião exalça-lhe a memoria.
Notando que Brantome faz referencia á altivez de D. Beatriz, diz que, tendo
a duqueza seguido a causa de Hespanha, este facto explica o resentimento de
Brantome. Dueros, na sua HISTOIRE D'EMMANUEL PHILIBERT, explica essa
altivez pela firmeza de caracter, que contrastava com a indecisão do
marido, e entende que D. Beatriz deve ser collocada a par das mulheres
fortes que a historia celebra.

Hoje, conhecidos os importantes documentos que Claretta deu á estampa, a
lenda d'essa paixão contrariada, em que D. Beatriz e Bernardim Ribeiro
durante tantos annos figuraram como victimas, recebeu por certo mais um
golpe.

Se o trovador tivesse sido amado pela infanta, se, como suspeitava
Alexandre Herculano, houvesse chegado até Saboya o segredo d'esses amores
infelizes, de que Carlos III quereria tirar represalias, o caracter de D.
Beatriz, em vez de se dobrar em carinhosas demonstrações de affecto para
com o marido, haveria reagido pelo desdem, e até pelo desprezo.

Mas não é isso o que vemos das proprias cartas da infanta.

E, se por hypothese, D. Beatriz se soube algum dia amada de Bernardim
Ribeiro, a noção do dever apagou completamente no seu coração a recordação
d'esse amor infeliz. Seria, n'esse caso, um idyllio que tivera a duração de
um meteoro, e cujas proporções a historia, rigorosamente descarnada, não
póde avultar.

A nossa convicção, pelos factos que longamente indicamos, é que a tradição
dos amores de Bernardim Ribeiro e D. Beatriz pertence aos dominios da
lenda; que se alguma paixão vehemente infernou a existencia do poeta da
MENINA E MOÇA, não foi D. Beatriz que a inspirou; mas não achamos
sufficientes os elementos até agora apurados para nos determinarmos pela
opinião de Varnhagem ou pela opinião do snr. Theophilo Braga, quanto ao
nome da dama que deve occupar o lugar em que a lenda collocou, no coração
do poeta, a infanta D. Beatriz.



IV

REI E PASTOR

      «O rei James V, que morreu de trinta e tres annos em 13 de dezembro
  de 1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos
  de mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras
  pelas aldeias ou pelos bairros escusos das cidades.»

  GARRETT.


I

  Ao pé do freixo umbroso e da sonora fonte,
  Que dão sombra e frescura ás boninas do monte,
  Glycera, a moça loira, Amyntas, o pastor,
  Juravam-se um ao outro o seu eterno amor.

  Sobre a relva assentada, a formosa Glycera
  Tecia de jasmins e verdes folhas de hera
  Grinaldas e festões, cantando uma canção
  Em que menos cantava a voz que o coração.

  Assim tambem se eleva o cantico suave
  De uma ave que estremece á espera de outra ave
  Nas alcôvas em flôr que tece o mez de abril.

  Não tardou que chegasse, á volta do redil,
  Amyntas, o pastor, já recolhido o gado.
  —«Grinaldas! Para que?»
                                —«Para o nosso noivado»
  Córando de pudor, Glycera respondeu,
  E emquanto elle a fitava, ella os olhos desceu.
  —«Disseste muito bem, minha amada Glycera,
  Vamos ambos colhêr jasmins e folhas de hera.
  Sim!... Tu não serás de outro? É minha a tua mão?
  De mais ninguem será?»
                              —«Eu te juro que não.»
  —«Agora sou feliz! Vou dar-te, porque és minha,
  Aquella ovelha branca, ess'outra malhadinha
  Que valem um milhão! Iguaes inda não vi!
  Mas, porque tu és minha, eu dou-t'as para ti.
  Olha, que lindas são! Valem um bom rebanho
  Na côr, na timidez, no pello e no tamanho!
  Só teu, de mais ninguem, é o fresco laranjal,
  Que dá tão dôce sombra ao meu... ao teu casal.
  Dou-te do meu redil os dois novilhos bravos,
  E as colmêas que tenho, e todo o mel dos favos,
  As arcas, o bragal, peculio do pastor,
  E, acima d'isto tudo, o meu eterno amor.»
  E, sorrindo enlevada, a formosa Glycera
  Alternava jasmins com verdes folhas de hera.


II

  Era o rei James V um joven rei feliz,
  Que de lendas de amor encheu todo o paiz
  Da sua bella Escocia, alcantilada e fria,
  Onde o seu coração a neve derretia.

  Soam trompas de caça, e em célere tropel
  Passa o rei cavalgando o seu veloz corcel
  Entre nuvens de pó; e seguem-no monteiros
  E pagens de libré e mastins e rafeiros.

  Do freixo á verde sombra, assentada no chão,
  Glycera, de medrosa, ouvia o coração.
  —«Bons dias, pegureira.»
                            —«Os mesmos vos desejo.»
  Disse-lhe ella córando ou com medo ou com pejo.
  —«Que fazes por aqui? Esperas teu pastor
  N'este ermo pinheiral?!»
                              —«Não espero, senhor.»
  —«Como te chamas tu?»
                            —«O meu nome é Glycera.»
  —«Que linda e que gentil! Tu és da primavera
  A mais formosa irmã!...»
                              —«Mercê que me fazeis.»
  —«Se alguem te rouba aqui?»
                            —«Sou pobre, bem sabeis.
  Ninguem rouba á pobreza. Ella de si é escassa.»
  —«Excepto quando é o rei que n'estes sitios passa...»
  —«Piedade!»
            E o louco rei, sem resposta volver,
  Aos monteiros bradou:—«Prendei-me essa mulher,
  Conduza-m'a um de vós sentada na garupa
  Do cavallo. A galope! Ávante, corceis! Upa!»

  E tudo se perdeu n'um turbilhão de pó
  Ao longo do caminho. O pinhal ficou só.


III

  Em noites de luar, noites de primavera,
  Ouvia-se dizer:—«Onde estás tu, Glycera?»
  N'esse ermo pinheiral, e um longo choro após.
  Finda a verde estação, calou-se a triste voz,
  E nunca se ouviu mais sahir d'entre os pinheiros.

  Um dia, por acaso, um rancho de vaqueiros
  Passou alli, e viu estendido no chão
  Amyntas, o pastor. Chamaram-no em vão,
  Que elle não respondeu. Era gelado, frio.
  Dizem que succumbiu ao vêr chegar o estio
  Sem Glycera voltar. E tinha a luz do sol
  Por cirio funeral, e folhas por lençol.

  Mas o rei James V, em seu palacio bello,
  Ao pé do lago azul, que espelhava o castello,
  Estranhava a Glycera esse tão louco amor,
  Que nos braços de um rei pranteava um pastor.



V

MÃI E FILHOS


I

A MÃI

Domingo, 23 de dezembro de 1888, á hora em que um bello sol de inverno
doirava pallidamente o céo de Lisboa, convidando a despreoccupada população
a fazer o _trottoir_ da Avenida, achava-me eu na igreja do extincto
convento de Agostinhas Descalças, no sitio do Grillo, em frente do caixão
onde têm repousado esquecidos os restos mortaes de D. Luiza de Gusmão,
rainha de Portugal.

Não vão suppôr que me estou dando ares de poeta funebre da realeza ou de
philosopho merencorio dado a scismar no problema da morte: _to be or not to
be_. Nada d'isso. Sou apenas um _dilettante_ de estudos historicos; tenho
por vezes o mau gosto de preferir os dramas do passado aos do presente, e
as epopêas da historia ás _partituras_ de S. Carlos.

Sabendo que se tratava de remover para S. Vicente de Fóra os restos mortaes
da rainha D. Luiza de Gusmão, e que o feretro ia ser aberto para se
verificar se havia sido violado como constava ás justiças da Boa Hora, não
quiz perder a occasião de examinar por meus proprios olhos os ultimos
despojos d'essa notavel dama do seculo XVII, tão energica junto de seu
marido, tão resoluta na fragilidade do seu sexo, mas tão sincera na firmeza
da sua justa ambição.

Fui.

Antes que o acto judicial principiasse, aproveitei o tempo visitando o
convento, a que D. Luiza de Gusmão se recolheu a 17 de março de 1663, e
onde tres annos depois fallecêra.

É vasto o convento, sem que todavia nada tenha de monumental. As Agostinhas
Descalças não ostentavam pompas monasticas. Ha no interior do convento todo
o aspecto de uma clausura severa: longos corredores sombrios, cellas
estreitas e mal allumiadas, tendo sobre a porta e o fundo da parede alguma
legenda biblica, alguma inscripção religiosa, por exemplo—_Da cella ao
céo—Não póde o servo servir a dois senhores_.

A abundancia de altares—pois vimos n'um a designação de 193—denuncía que o
culto era alli fervoroso, e que não se podia dar um passo no interior do
convento sem ter diante dos olhos a imagem de um santo, de uma santa ou do
Redemptor.

Mas os nichos dos altares estão vazios, as imagens e as reliquias
desappareceram; convento e igreja foram brutalmente despojados; diz-se que
até o sino, apesar do campanario ser alto, desapparecêra!

A rainha D. Luiza de Gusmão, afastada duramente da côrte pelos conselheiros
de seu filho D. Affonso VI, acabou por decidir-se a entrar n'aquelle
convento, mas nada ha alli que denuncie grandeza de aposentos reaes.
Pareceu-nos que esses aposentos seriam uns que ficam voltados ao Tejo—por
serem um pouco melhores do que os outros—constando de uma sala com chaminé
e uma pequena cella, contigua á sala, da qual recebe luz por uma janella
interior.

D. Luiza de Gusmão vivêra pois modestamente entre as Agostinhas Descalças.

Poucos conventos, porém, teriam uma claustra mais vasta do que o do Grillo;
todo o pavimento terreo, que é enorme, serve hoje de deposito de
artilheria, está cheio de peças de campanha.

Algumas freiras, como as inscripçoes tumulares indicam, jazem sob as
carretas.

Havia no Grillo só um côro, pequeno e modesto.

Mas, em compensação, a igreja, comquanto não seja grande, é boa, coberta de
azulejos de valor e de quadros, hoje completamente estragados pela
humidade. A teia do cruzeiro é magnifica, de ébano e mosaico florentino,
com as armas de Portugal e da casa de Medina-Sidonia.

Era dentro da teia que estava o caixão da rainha, coberto com um rico
panno, deteriorado pelo tempo, e encimado pela corôa real, sobre almofada
de estofo igual ao do panno.

Levantada esta cobertura com as formalidades judiciaes que o acto exigia,
reconheceu-se que o caixão, de pau Brazil, excellentemente conservado,
tinha sido violado nas fechaduras lateraes, pelo menos em duas que estavam
encravadas com pregos de arame.

Aberta a tampa do caixão, forrada interiormente de sêda branca lavrada,
apenas emergia de uma espessa camada de cal a caveira, a cuja fronte havia
adherido a renda preta do véo, dando a impressão, á primeira vista, de que
uns restos de cabello a povoavam ainda. A illusão era completa.

A cal estava remexida junto do hombro direito da rainha, e na altura da mão
esquerda.

Verificou-se que o craneo se achava desarticulado da columna vertebral.

A cal afogava completamente as vestes do cadaver, e só por uma estreita
orla, que ficára a descoberto na extremidade inferior do caixão, se pôde
conhecer que o vestido era de seda côr de castanha.

Da energica e virtuosa rainha de outro tempo restava apenas aquillo!

A renda do véo dava a illusão, como já disse, de que a testa da rainha era
de uma estreiteza simiana, quando em verdade D. Luiza de Gusmão, como se
sabe pelo retrato existente na Bibliotheca Nacional de Lisboa, reproduzido
por Benevides nas RAINHAS DE PORTUGAL, fôra uma bonita mulher, de feições
muito regulares: testa espaçosa, olhos grandes e pretos, bocca pequena,
rosto redondo.

O que nós hoje podêmos apenas estranhar n'esse retrato são as exaggeradas
dimensões dos _bandeaux_, que eram moda n'esse tempo, sendo costume
adornal-os com murabuths e estrellas de pedras preciosas.

D. Luiza de Gusmão não morrêra de idade que a velhice a tivesse podido
deformar: tinha apenas 53 annos. E a proposito citarei um documento, por
ser pouco conhecido entre nós: é a certidão de idade, que encontrei,
segundo os meus apontamentos, na HUELVA ILLUSTRADA, por D. Juan Agustin de
Mora (Sevilha, 1762):

  «Que en un libro de baptismos, que comenzó año 1602, y acabó en 1626, que
  no está foliado, como á la mitad de sus hojas está una partida, que á la
  letra, es como se segue:

  «En la villa de Huelva, jueves veinte y quatro dias del mes de octubre,
  año de Nuestro Salvador Jesu Christo de mil y seiscientos y trece años,
  yo el Lic. Diego Muniz de Leon, Visitador General del Arzobispado de
  Sevilla, baptizé á la señora Doña Luiza Francisca, hija del señor D.
  Manoel Alonso Perez de Guzman el Bueno, y de la señora Doña Juana de
  Sandoval, condes de Niebla: fué su padrinho el señor D. Gaspar Alonso
  Peres de Guzman el Bueno, Marqués de Casaza, y le adverti la cognacion
  espiritual, y lo firmé: fecho ut supra.—Lic. Diego Muniz de Leon.»

Por este documento fica rectificado o nome do pai de D. Luiza de Gusmão,
que o snr. Benevides diz chamar-se João Manuel Peres de Gusmão.

Os restos mortaes d'aquella mulher illustre, abstrahindo mesmo da sua
qualidade de rainha, inspiravam respeito.

A sua vida não fôra uma inutilidade grandiosa. Não. Junto de seu marido, D.
Luiza de Gusmão fôra uma conselheira cheia de coragem e de energia,
indispensavel para completar o caracter irresoluto e medroso do duque de
Bragança. Na regencia do reino, todas as côrtes estrangeiras faziam justiça
ao seu animo forte, ao seu espirito esclarecido. Só como mãi fôra infeliz.
Viu morrer o primogenito prematuramente, e os outros dois filhos não
rodearam de carinhos filiaes os ultimos momentos da rainha, que morreu ao
abandono da sua propria familia!

Nas MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA e na CATASTROPHE DE PORTUGAL vem
transcriptas as cartas em que D. Luiza de Gusmão chamava do seu leito de
agonia o rei Affonso VI e o principe D. Pedro para os abençoar.

Sabe-se que a CATASTROPHE é um livro parcial contra o rei, mas, descontada
a paixão politica do author, o principe D. Pedro não se mostra muito
superior ao rei em extremos de amor filial.

A historia fornece-nos sobejas provas de que D. Pedro II não sabia
respeitar melhor do que seu irmão os vinculos de familia.

O bispo do Porto D. Fernando Corrêa de Lacerda diz na CATASTROPHE que o rei
e o infante acompanharam o cadaver da mãi até ao coche funebre:

  «Na segunda feira se dispozeram os funeraes com religiosa, e decente
  pompa, e á terça á noite depois d'el-rei e S. A. lançarem agua benta ao
  cadaver, e o acompanharem á liteira, foi levado á igreja do mosteiro do
  Sacramento de religiosos Carmelitas Descalços, que havia edificado,
  d'onde se sepultou por deposito, até se acabar a igreja das religiosas
  Descalças da recolecção de Santo Agostinho, de que era fundadora, na qual
  tinha mandado escolher a ultima sepultura.»

Ora o desconhecido author da ANTI-CATASTROPHE (livro de que Camillo
Castello Branco diz com razão: tem relanços que inspiram crença; mas lá vem
outros que a desluzem) não menciona o nome do principe, como assistente á
agonia da mãi, e a respeito do rei descreve-o gastando tres dias de
Salvaterra a Lisboa, sem pressa nenhuma de chegar, porque mandava fazer
paragens para ouvir os musicos; e conclue por dizer: «Foi para palacio,
porque, nem ainda morta a quiz vêr.»

O auctor das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, qualquer que seja, diz
que nenhum dos filhos lhe assistiu, supposto chegassem uma hora antes da
rainha expirar, _por estorvados de quem sabia que os conselhos d'aquella
hora, como mais desenganados, são fielmente cridos e ficam na memoria mais
estampados_.

A verdade deve estar no meio termo: os dois filhos importaram-se pouco com
a morte da rainha, quer lhe deitassem agua benta quer não.

Nós é que lh'a não podemos deitar a elles para absolvel-os de tão grave
falta.

Pois esta illustre princeza que tanto luctára toda a sua vida, com o
marido, com o cunhado D. Duarte[4], com Castella, com o irmão e com os
filhos, alli estava reduzida aos seus ultimos despojos, tocados pela mão de
vandalos que remexeram na cal para encontrar decerto alguma joia com que a
rainha tivesse sido amortalhada. O marido, bem menos sympathico do que
ella, está no pantheon real de S. Vicente, mas a benemerita Medina-Sidonia,
que, ainda descontado o natural interesse egoista de antes querer ser
rainha uma hora do que duqueza toda a vida, foi uma collaboradora
importante na restauração da monarchia nacional, tem jazido no esquecimento
e no abandono, tão sem repouso, que o seu cadaver vai agora fazer a
terceira jornada, porventura definitiva[5].


II

A FACA DO MARQUEZ DE CASCAES

O marquez de Cascaes é que fallou claro a el-rei D. Affonso VI.

Entrou, com uma faca na mão, na camara real, em occasião que o monarcha
dormia profundamente.

Sacudiu-o, accordou-o, e pediu licença para dizer uma grande verdade.

D. Affonso VI, se fosse um rei a valer, teria mandado cortar immediatamente
a cabeça ao ousado fidalgo que o ia accordar no melhor do seu somno, não
para lhe levar um copinho de leite quente, mas para lhe dizer uma grande
verdade muito fria!

Era coisa que um rei podesse soffrer! Nem um vassallo a soffreria de boa
mente, quanto mais um rei! Imaginemo-nos accordados por um crédor,
violentamente, para nos dizer que lhe devemos ainda o capital e os juros. É
lá coisa que possa tolerar-se!

Mas D. Affonso VI, recebendo a faca que o fidalgo trazia na mão, limitou-se
a dizer:

—Lá vem o marquez com alguma das suas!

Ora se tudo isto não basta para caracterisar um rei! Accordam-no de
repente, e não se zanga! mettem-lhe uma faca na mão, e fica com ella!
pedem-lhe licença, ainda por cima, para dizer-lhe uma grande verdade, e o
rei responde bonacheironamente: «Pois diga lá!...»

É preciso não ter... alma!

Vai o marquez, e diz:

—Senhor, vós nascestes tolo.

E o rei continúa ouvindo, pacientemente, de faca na mão!

Podia o marquez ter-se ficado por aqui, que já não era pouco nem mau, mas
carregou na tecla, visto ter achado brando o teclado.

—Sois doente, e cheio de enfermidades, accrescentou.

E o rei, sempre de faca na mão, pediu mais.

Então o marquez queimou o seu ultimo cartucho:

—Nem sois para casado.

Era o mais que se podia dizer! Como havia de servir para rei um homem que
não servia para marido?! Rua com elle: era a traducção.

E o rei, diz o author das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA, concordou
com o marquez de Cascaes!

N'esse mesmo dia, 23 de novembro de 1667, D. Affonso VI assignou um termo
de desistencia em favor de seu irmão.

Eis-aqui a synthese de um reinado.

A faca do marquez de Cascaes ha de ficar eternamente na historia portugueza
como symbolo de boa administração: corte-se tudo o que não presta.

Fizesse-se assim sempre, e em tudo, e as coisas iriam melhor...

Sabe a gente estes e outros factos, que testemunhas contemporaneas deixaram
memorados; sem embargo, D. Affonso VI tem uma tradição galante, de
aventuras amorosas... armadas no ar como os castellos de Hespanha.

Eu sei que me corre o dever de ser mais discreto do que a historia. Sei
isso. Não irei revolver as monstruosidades escandalosas da nullidade do
casamento de D. Affonso VI. Nada d'isso. Procurarei apenas, na vida do
successor de D. João IV, o que possa haver de contavel em materia de
galanteria com mulheres.

Supponham que nasceu n'um monturo uma flôr. Tem-se visto. Eu arrancarei
delicadamente a flôr, sem tocar no monturo.

O snr. Andrade Corvo, n'um bello romance historico que eu anteponho, com
muita proeminencia, a varios livros do mesmo genero, á MOCIDADE DE D. JOÃO
V  por exemplo, conta as proezas galantes que D. Affonso VI fizera por amor
da _Calcanhares_, uma hespanhola.

Agora, que estão publicadas as MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA,
sabe-se que o facto é inteiramente verdadeiro, porquanto o author d'este
livro, seja frei Alexandre da Paixão ou não seja, escreve com toda a sua
authoridade de contemporaneo:

  «Acabado o dia soube a rainha que em uma janella do Paço estivera vendo a
  festa uma mulher conhecida tanto pelo nome, como pela vida, celebrada
  pela alcunha de _Calcanhares_, sustentada para feitiço de sua magestade.»

A este simples periodo de um manuscripto do seculo XVII foi o snr. Corvo
buscar habilmente todos os magnificos episodios a que, no seu romance, a
_Calcanhares_ serve de pretexto.

Muita gente, sempre de pé atraz com D. Affonso VI, perguntava, depois de
ter lido _Um anno na côrte_: Mas esta _Calcanhares_ existiu ou não existiu?

Ahi fica dada a resposta.

O sr. Corvo foi até excessivamente meticuloso como romancista historico.
Andou procurando nos codices do seculo XVII, escrupulosamente, certas
minucias, que então não estavam ainda divulgadas, como hoje, pela
publicação das MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA.

Assim, por exemplo, o rei, referindo-se no romance do snr. Corvo á rainha
D. Maria de Saboya-Nemours, trata-a por _Brichota_, com sem-ceremonia
contraria á etiqueta.

Brichota era synonymo de _estrangeira_.

Pois bem. Lá diz o author do famoso codice: «Respondeu-lhe el-rei que lhe
não desse nada da _Brichota_, que fosse, e estivesse, e se ella
fallasse...» O resto não digo eu ainda que me queimem, mas disse-o el-rei
D. Affonso VI.

Este monarcha não tinha papas na lingua, e por isso não estranhou a
descompostura, núa e crúa, que lhe pregou o marquez de Cascaes.

Eu possuo um livro precioso como subsidio para a historia do reinado de
Affonso VI. Intitula-se VITA DI MARIA FRANCESCA DI SAVOIA-NEMOURS, REGINA
DI PORTOGALLO, PER IL BARONE GAUDENZIO CLARETTA. O meu exemplar, comprado
no espolio do visconde de Borges de Castro, é ricamente encadernado, e tem
uma dedicatoria do proprio author.

Pois ahi, a pag. 100, lê-se esta passagem, referente ao rei:

  «_... nan era privo di un tal qual spirito, quantumque non sapesse nè
  leggere, nè scrivere ed usasse basse espressioni, come, per esempio: vá
  bugiar... etc._»

Fiquemos por aqui.

Os grandes amores romanticos de D. Affonso VI tiveram por palco o convento
de Odivellas.

Calumnia-se D. João V quando se diz que elle desacreditou Odivellas.
Aquillo já vinha de traz.

D. Fernando Corrêa de Lacerda, bispo do Porto, conta que D. Affonso VI «se
deu ao galanteio das religiosas, frequentando diversos mosteiros», e que
«sem reparar no decôro que se devia aos lugares sagrados, fazia abrir as
portas das igrejas, sendo alta noite», «succedendo muitas vezes que quando
em outros conventos se levantavam os religiosos para louvar a Deus, o
estava el-rei offendendo nas grades das suas igrejas.»

Umas d'estas freiras era D. Anna Angelica de Moura, conhecida em Odivellas
pela alcunha galante de _Flôr do Sol_.

«Tomou el-rei amizade illicita com D. Anna de Moura, freira de Odivellas;
fazia-lhe continuas assistencias com grande indecencia, e geral reprovação
de toda a côrte. O dia em que D. Anna de Moura fazia annos, foi el-rei
tourear no pateo de Odivellas: deu uma grande queda, de que esteve
sangrado, fazendo-lhe D. Anna de Moura a fineza de se sangrar tambem, lhe
mandou um grande presente, e quando a tornou a vêr, lhe disse que desejava
fazel-a rainha de Portugal.» (VIDA D'ELREI D. AFFONSO VI, publicada por
Camillo Castello Branco, e attribuida ao duque de Cadaval).

Pensa o leitor que esta dupla sangria foi uma galanteria original? Pois
está enganado.

No auto do MOURO ENCANTADO, do quinhentista Antonio Prestes, vem citado o
exemplo que a freira de Odivellas imitou:

  ... Foi como o meu,
  que sou quem o arremendou
  na guerra que a Pirro deu;
  sendo o vencimento seu
  uma mulher captivou
  da qual vindo-se a vencer
  por formosa, elle a amava,
  cousa brava;
  chegou ella a adoecer,
  e se ella se sangrava
  sangrava-se elle, que fava
  de amor póde mais ser?

Decididamente: não ha nada novo n'este mundo. O caso está em saber a gente
onde os outros foram fazer mão baixa.

Ora havia em Odivellas outra freira, que D. Affonso VI deixou para fazer a
côrte a D. Anna de Moura.

Mulher de talento mas com cabellinho na venta, est'outra freira, que se
chamava D. Feliciana de Milão!

Dos seus desbragamentos de linguagem dão ampla noticia Perim no THEATRO
HEROINO e Suppico na COLLECÇÃO DE APOTHEGMAS.

As duas freiras rivaes descompozeram-se em verso... como se valesse a pena!

D. Feliciana desembestou com o rei:

  Meu monarcha, o vosso amor
  e vosso trato amoroso
  tanto tem de primoroso
  quanto de pai e senhor;
  mas, ainda assim, causa dôr
  e não com pouca rasão
  vêr que esta vossa affeição
  muito tem que a desdoura,
  pois adorais uma _Moura_,
  sendo vós um rei christão!

A _Flôr do Sol_ respondeu:

  Com rara desigualdade
  vós murchaes, ella florece:
  Anna deidade parece,
  Feliciana _de idade_.
  Deixai pois essa vaidade
  porque a todos nos enfada,
  pois que sendo só chamada
  ser escolhida queiraes,
  maiormente quando estaes
  affeita a ser engeitada.

Que tolas! tudo isto por que?! Façam favor de lembrar-se da historia da
faca!

O _calembour_ de D. Anna de Moura era, como hoje dizemos, uma _piada_ á
outra, que foi uma grande _calemburista_ do seculo XVII.

Exemplo: D. Anna de Moura tinha um irmão, que se chamava Gil Vaz Lobo.

Um dia as duas freiras travaram outra das suas muitas pegadilhas. D.
Feliciana disse á rival:

—Se vos não aquietaes, dou-vos com vosso irmão pela cara (_Gilvaz_).

O rei pediu a alguem que lhe fizesse versos desconsoladores para D.
Feliciana, e mandou-lh'os. Vai ella, agastada, respondeu:

  Mais que louco atrevimento
  é disparate cantado
  avaliar por cuidado
  _o que é só divertimento_.

Tome lá, real senhor! Não foi só o marquez de Cascaes que lhe disse a mesma
coisa.

Sempre a faca!


III

A FILHA DE D. LUIZA DE GUSMÃO

Em novembro de 1887, publicava um jornal de Lisboa a seguinte noticia, que
transcrevo textualmente:

  «El-rei o snr. D. Luiz acaba de receber um presente, que lhe devia ter
  sido em extremo agradavel.

  «Existia em Londres um magnifico retrato da princeza D. Catharina de
  Bragança, rainha de Inglaterra, e mulher de Carlos II, pintado por um dos
  melhores pintores inglezes d'esse tempo. Esse retrato, depois da queda
  dos Stuarts, soffrêra fortunas varias, até que foi cahir ha pouco tempo,
  por venda em leilão, nas mãos do coronel americano Mac-Murdo,
  concessionario primitivo do caminho de ferro de Lourenço Marques.

  «O snr. Mac-Murdo entendeu que devia presentear com essa tela historica
  el-rei de Portugal, e pediu-lhe licença para lh'o offerecer. Hontem o
  snr. Levis, ministro dos Estados-Unidos em Lisboa, devia ter entregado na
  Ajuda a el-rei D. Luiz a preciosa dadiva do seu compatriota.

  «Dizem que este retrato, magnifico e muito bem conservado, desmente a
  lenda da fealdade da mulher de Carlos II, lenda que se fazia correr
  talvez para desculpar as numerosas infidelidades conjugaes do amante da
  duqueza de Portsmouth. A rainha D. Catharina, tal como o retrato a
  apresenta, sem ser uma formosura, é todavia uma gentil senhora, sobretudo
  com uma grande expressão de bondade.»

_Sem ser uma formosura_, diz o texto da noticia, não era comtudo D.
Catharina de Bragança, rainha de Inglaterra, uma dama despicienda, segundo
o retrato feito por um pintor inglez contemporaneo.

É certo que em torno d'esta illustre dama da casa real portugueza, para
quem o throno britannico fôra pouco menos de um calvario, se formára uma
lenda de fealdade, que os historiadores inglezes confirmam.

Assim, David Hume, o author da historia dos Stuarts, pinta-nos D. Catharina
de Bragança como princeza de uma virtude sem macula, a qual, todavia, não
pôde nunca fazer-se amar do rei pelas graças da sua pessoa nem do seu
espirito.

Dizia-se, até á apparição do retrato offerecido pelo snr. Mac-Murdo, que
Portugal fôra obrigado a dotar a princeza de Bragança com Tanger e Bombaim
como compensação dos dois defeitos que Carlos II notava na sua noiva: ser
feia e ser catholica.

O que é certo é que o casamento custou a realisar-se, e que Portugal, para
vêr no throno inglez a filha de D. João IV, teve que desapossar-se,
effectivamente, de Tanger, que não aproveitou muito aos inglezes, e de
Bombaim, de que elles vieram a fazer uma das primeiras cidades do mundo.

A infeliz princeza não tirou, porém, d'esse casamento as vantagens que se
esperavam. Viveu humilhada pelas leviandades amorosas de Carlos II,
preterida pelas amantes do rei, especialmente pela condessa de Castlemaine,
e, guerreada pelos protestantes, chegou a ser accusada de querer envenenar
o marido.

Tudo isso se sabe, e seria fastidioso recordar n'um artigo fugitivo os
lances dramaticos da vida atribulada de D. Catharina de Bragança em
Inglaterra.

O meu fito é outro.

Eu quero principalmente fazer notar, como curiosidade bibliographica,
alguns opusculos, em prosa e verso, a que deu lugar o casamento da infanta
portugueza com o rei inglez.

Principiarei por fallar de um escriptor que se desenfastiava dos seus
trabalhos nobiliarchicos cultivando as musas.

Refiro-me a Antonio de Villasboas e Sampaio, que escreveu: SAUDADES DO TEJO
E DE LISBOA NA AUSENCIA DA SENHORA CATHARINA, RAINHA DA GRAN-BRETANHA.

Villasboas, na sua qualidade de poeta, tomou a liberdade, que n'essa
qualidade lhe era permittida, de celebrar D. Catharina como um sol de
belleza, uma maravilha de formosura.

Disse uma vez um notavel homem politico do nosso paiz que todas as
princezas eram formosas. O poeta Villasboas justifica plenamente esta
espirituosa affirmação. Ninguem dissera nunca que D. Catharina fosse uma
dama formosa, nem mesmo o proprio retrato, que apenas põe em evidencia _uma
grande expressão de bondade_. No PEVERIL OF THE PEAK, de Walter Scott, a
rainha, que atravessa os ultimos capitulos d'este romance, resalta com essa
mesma expressão de bondade, annuveada de melancholia. Mas Antonio de
Villasboas não se prendeu com estas pequenas teias de aranha, e saudou em
D. Catharina de Bragança a oitava maravilha do mundo, quanto a belleza.

Oiçamol-o:

  Dita será que vejam lá no Norte,
  D'onde o mal até agora ha procedido,
  O bem melhor da lusitana côrte,
  A bellesa maior, que hão conhecido.

Esta hyperbole é um pouco compromettedora para as damas portuguezas, visto
que D. Catharina, não sendo bonita, era inculcada pelo poeta como o _bem
melhor_ da lusitana côrte, a _bellesa maior_!... O poeta offendia
d'est'arte os creditos das damas portuguezas, que sempre tiveram fama de
bellas. Aqui ha prejuizo de terceiro.

Mas os poetas, se lhes dá para serem lisongeiros, teem a vertigem da
hyperbole. Villasboas continúa:

  De dia, se a não via, me alegrava
  Vêr o sol, _que algum tanto a parecia,
  Não em tudo, que a elle lhe faltava
  Da bella infanta a graça e bisarria_:
  De noite co'as estrellas conversava,
  E de todo o meu siso lhe dizia:
  Tendes estrellas, porventura, inveja
  De que a infanta mais formosa seja?

As estrellas, provavelmente, nunca responderam nada.

Outro poeta, Antonio da Fonseca Soares, que veio a chamar-se na religião
frei Antonio das Chagas, já tinha dito, saudando o anniversario natalicio
da princeza:

  Oy bellissima infanta
  Del lusitano sol alba nascistes,
  Y aurora apenas de sus rayos fuistes
  Quando te jusgaron del futuro trono
  Luz feliz, bello annuncio, ilustre abono.

Os poetas são como as Marias: vão uns com os outros.

Por occasião do casamento houve festas pomposas em Lisboa, e são hoje raros
os opusculos que as commemoram.

Por exemplo:

FESTAS REAES NA CÔRTE DE LISBOA _ao feliz casamento dos reis da
Grã-Bretanha Carlos e Catharina em os touros que se correram no Terreiro do
Paço em outubro de 1661. Dedicadas a Europa Princeza da Phenicia e escritas
por Izandro, Aonio e Luzindo, toureiros de forcado. Em Lisboa, 1661._

EPITHALAMIO _aos augustos desposorios de Carlos II e a Senhora D.
Catharina, Reys de Inglaterra, por Antonio Raposo, natural de Aviz_. Em
verso heroico.

Como se vê, os poetas não tiveram mãos a medir por occasião d'este
casamento realengo.

A viagem da noiva tambem foi largamente descripta:

RELAÇAM _dedicada á serenissima senhora rainha da Gran-Bretanha da jornada
que fez de Lixboa athé Por-Tsmouth pello padre Sebastião da Fonseca,
mestre, cappellão, e presidente em o hospital real de Todos os Santos na
Cidade de Lixboa. Londres, 1662_.

Amostra:

  Serenissima senhora
  a quem todo o mundo acclama
  por bella Estrella do Norte
  lusido Sol da Bretanha

Com lisonja,—mas sem pontuação.

RELAÇAM _dedicada ás magestades de Carlos-Catharina reys da Grande Bretanha
da jornada que fizerão de Portsmouth athé Antoncourt e entrada de Londres
pelo P. Sabastião da Fonseca, etc. Londres, 1662_.

É o mesmo padre, sempre com _pello_ e sempre _cappellão_—com dobrada.

RELAÇAM _das festas de palacio, e grandezas de Londres, dedicada á
magestade da serenissima rainha de Gran-Bretanha. Londres, 1663_.

É ainda padre Sebastião o author.

Dos vinte e tres annos que D. Catharina de Bragança viveu como rainha em
Inglaterra, não consta deixassem poetas memoria alguma metrificada.

Mas conhecemos a HISTORIA AMOROSA DA CÔRTE D'INGLATERRA, pelo cavalheiro de
Grammont, que chegou justamente a Inglaterra quando D. Catharina lá chegava
tambem.

Depois de descrever a pessoa amavel do rei, diz o cavalheiro de Grammont
com referencia á sua côrte:

  «Quanto a bellezas, não se podia dar um passo sem as vêr. As de maior
  reputação eram as d'esta mesma condessa de Castelmaine, depois duqueza de
  Cléveland; madame de Chesterfield, madame de Shrewsbury, mesdames
  Roberts, madame Middleton, mesdemoiselles Brook e cem outras da mesma
  formosura que brilhavam na côrte, cujo principal ornamento eram, porém,
  mademoiselle de Hamilton e mademoiselle Stewart.

  «A nova rainha em nada augmentou o brilho do palacio, nem pela sua
  presença, nem pela sua comitiva. O sequito da rainha compunha-se da
  condessa de Panetra, na qualidade de açafata; de seis monstros, que se
  diziam damas de honor, e de uma aia, outro monstro, que se inculcava
  governanta d'estas raras beldades.

  «Os homens eram: Francisco de Mello, irmão da Panetra; um certo
  Taurauvédez, que se appellidava D. Pedro Francisco Correo da Silva, feito
  ao pintar, mas só elle mais tolo do que todos os portuguezes juntos. Era
  mais altivo do seu nome que da sua boa figura; ora o duque de Buckingham,
  ainda mais tolo do que elle, e mais zombeteiro, atrambolhou-lhe a alcunha
  de _Pierre du Bois_. O pobre Correo da Silva indignou-se a tal ponto que,
  depois de muitas queixas inuteis e algumas ameaças sem effeito, teve que
  deixar a Inglaterra, ao passo que o feliz duque de Buckingham herdava
  d'elle uma nympha portugueza, que lhe tinha roubado, bem como dois dos
  seus appellidos, a qual nympha era ainda mais horrorosa que as damas da
  rainha. Completavam o sequito seis capellães, quatro padeiros, um
  perfumista judeu, e um certo official, apparentemente sem funcção, que se
  denominava o barbeiro da infanta _(sic)_. Catharina de Bragança não se
  preoccupou de brilhar na côrte encantadora onde vinha ser rainha, se bem
  que mais tarde conseguisse evidenciar-se algum tanto. O cavalheiro de
  Grammont, desde longo tempo conhecido da familia real e da maior parte
  dos homens da côrte, não teve mais do que fazer conhecimento com as
  damas. Para isso não lhe era preciso interprete. Ellas fallavam o
  bastante para explicar-se, e entendiam o francez preciso para
  comprehenderem o que se lhes dizia.

  «A côrte era sempre numerosa junto da rainha; junto da princeza era
  menor, comquanto fosse mais escolhida.»

Esta narração carece de rectificações.

A condessa de Panetra (por pouco que a não faz condessa de Penetra) era a
condessa de Penalva, irmã de D. Francisco de Mello que fôra agraciado com
os titulos de conde da Ponte e marquez de Sande.

Esta senhora morreu solteira em Inglaterra.

Francisco Corrêa da Silva era o nome do outro fidalgo portuguez roubado
pelo duque inglez; Pedro é que elle se não chamava, nem tão pouco _Correo_.

O cavalheiro de Grammont é apenas citado a titulo de curiosidade historica,
porque, de resto, limita-se a estropear o nome das pessoas e a verdade dos
factos. Acha os portuguezes tolos e as portuguezas monstros. Em
compensação, falla sempre de si com encarecimento.

Morre Carlos II, depois de ter pedido perdão a sua esposa de todos os
desgostos que lhe fizera soffrer, regressa D. Catharina a Portugal, e logo
se reata a série, vinte e tres annos interrompida, dos panegyricos.

Temos pois:

ORAÇOENS GRATULATORIAS _na feliz vinda da muita alta e muito poderosa
rainha da Gram Bretanha, compostas e recitadas na igreja da Divina
Providencia á nobreza de Portugal nas trez ultimas tardes do mez de janeiro
de 1693 pelo padre D. Raphael Bluteau. Lisboa, 1693_.

Seis annos depois, apparecia um folheto em latim, AGILULPHUS, impresso em
Evora, cujo argumento é o seguinte: Agilulfo, rei da Lombardia, idólatra e
perseguidor dos christãos, feito christão pelas orações e industria de sua
esposa, a rainha Teodolinda.

Este opusculo allude ao passamento de Carlos II, que, como conta Macaulay
na sua _History of England_, morreu reconciliado com a igreja catholica,
graças á piedosa intervenção da rainha e do conde de Castel-Melhor.

Fallece em Lisboa D. Catharina de Bragança, em 31 de dezembro de 1705, e os
gemidos saudosos da poesia palaciana não se fazem esperar.

GEMIDOS SAUDOSOS _entre a illustre e luctuosa côrte de Lisboa, e o poderoso
e sentido reino de Inglaterra: aquella lamentando defunta a sua venerada
Infante, e esta suspirando morta a sua melhor rainha a serenissima senhora
D. Catharina, por Pedro de Azevedo Tojal. Lisboa, 1706_.

Pobre rainha! como se lhe não bastasse soffrer um marido leviano, toda a
sua vida teve que aturar os poetas lisongeiros!



VI

TRADIÇÃO GALANTE DE D. MIGUEL


Toda a gente tem mais ou menos ouvido contar aventuras amorosas do rei D.
Miguel de Bragança. Chamo-lhe rei porque de facto, senão de direito, o foi.
Escrevem falsa historia os authores de compendios que na lista dos reis
portuguezes supprimem o nome de D. Miguel, por o considerarem rei intruso.
Mas os tres Filippes, tambem intrusos, não deixam de apparecer em todos os
compendios de historia elementar. Nós temos cá esta especie de critica, e
já agora havemos de ir assim. Mas o que importa ao nosso proposito é dizer
que as aventuras amorosas de D. Miguel, mais ou menos conhecidas de toda a
gente, não deixam este rei n'um plano inferior aos seus collegas em
absolutismo os galantes Henrique IV, Francisco I, Luiz XIV e Luiz XV. Fico
por aqui para não desdobrar um estendal de nomes... estrangeiros. N'isto é
que eu sou patriota.

Ha meio seculo apenas, raro principe sahia lettrado. A educação, vasada
ainda tradicionalmente nos moldes medievaes, tendia a fazer d'elles mais
homens do que sabios. É certo que, mesmo entre nós, D. Diniz, D. João I e
D. Duarte cultivaram as lettras, mas só de passagem. E assim aconteceu até
ao tempo em que floresceram os filhos d'el-rei D. João VI. Equitação, caça,
jogo de armas, alguma musica, e pouco mais como prendas de educação. Ora D.
Miguel foi educativamente modelado á feição e similhança dos seus
antecessores. Sahiu, pois, completamente, um principe do seu tempo.

De minguadissima illustração, exhibia com pericia os dotes da sua educação
physica. Era excellente cavalleiro. Os soldados, quando o viam a cavallo,
ficavam enthusiasmados, e, quando a cavallo tinham de seguil-o, ficavam
estropeados.

D. Miguel partia de Queluz para Lisboa _au grand galop_, tomando uma
dianteira enorme ao esquadrão que o acompanhava. E o seu cavallo, quando
elle apeava, ficava com os peitos abertos.

As mulheres, sentindo a correria doida d'um cavallo, vinham á janella para
vêr passar D. Miguel, que era joven, bem posto, e rei absoluto. Rei
absoluto! A personificação viva de todo o poder terreno, emanado do poder
divino! Era para deslumbrar os homens, quanto mais as mulheres!

Muitas trovas populares fallam ainda hoje da belleza de D. Miguel de
Bragança, conservando através dos tempos um como rescaldo do enthusiasmo
popular com que o endeusavam:

  O senhor D. Miguel,
  _Lindo diamante!_
  Elle já é rei
  E não é infante.

  Eu fui vêr a D. Miguel:
  'Stava n'um somno profundo.
  _Cara mais delicada
  Não a ha em todo o mundo._

  _D. Miguel é delgadinho,
  Bonitinho e bem feito._
  Prometteu aos realistas
  Uma venéra p'r'o peito.

  _D. Miguel é bonito,
  É bonito e bem feito.
  Quebrou as pernas,
  Ficou sem defeito._

Fôra n'uma d'essas correrias doidas, não a cavallo, mas em trem, que D.
Miguel déra uma queda no dia 9 de novembro de 1828. Esse desastre, de que
resultou para o rei fractura d'uma perna, foi, segundo uma versão
vulgarisada, a origem de se dar a alcunha de _malhados_ aos
constitucionaes, porque as mulas infieis que tiravam a carruagem eram
malhadas.

Sem embargo, encontrei outra versão, que é pouco conhecida, para não dizer
desconhecida. É o caso de repetir: _Se non é vero, e bene trovato_. Achei-a
no livro DON MIGUEL, _ses aventures scandaleuses, ses crimes et son
usurpation, par un portugais de distinction; traduit par J. B. Mesnard.
Paris, 1833_.

Ponho a citação em francez para que nada perca da sua inteira
originalidade:

  _Comme D. Miguel aime beaucoup les combats de taureaux, et que l'on a
  remarqué que ceux qui sont tachetés sont les plus féroces, les
  absolutistes ont appellé les libéraux malhados, mais por indiquer que D.
  Miguel devait les traiter como les taureaux._

A fallar verdade, tanto importa, para a offensiva malicia da alcunha, que
se tratasse de mulas como de touros.

Terei ainda que referir-me ao livro cujo titulo deixei indicado, mas, por
agora, observarei, com a trova popular, que o rei _galant'uomo_, apesar da
queda,

  Ficou sem defeito.

Ha em Braga uma escadaria de pedra, que do Campo Novo sobe para a ermida da
Senhora de Guadalupe, dividida por patamares, mas altissima e extensa.

Diz a tradição bracharense que n'um dos predios lateraes d'aquellas escadas
vivia uma mulher galanteada pelo rei, e que D. Miguel, em 1832, quando de
Lisboa sahira para Braga, ia todas as tardes vêl-a, subindo e descendo as
escadas a cavallo.

Das suas faceis aventuras minhotas deve o leitor presumir. Braga estava
completamente fanatisada pelo rei. As mulheres cobriam de beijos as
medalhas e os anneis que se vendiam com o lindo retrato de D. Miguel.

  Se fôres a Braga,
  Traze-me um annel,
  Que tenha o retrato
  D'el-rei D. Miguel.

Braga era a cidade fiel, por excellencia, ao rei.

Nos campos ou nas ruas, mulheres, de lenço encarnado,—a côr miguelista,

  Se fôres a Braga,
  Traze-me _uma fita,
  Que seja vermelha,
  Que eu sou realista_,

cantavam trovas em que o nome de D. Miguel se confundia com o das plantas e
das flôres mais rescendentes.

  O alecrim é verde,
  A rosa tem cheiro:
  Viva D. Miguel,
  D. Miguel primeiro!

E toda a pena das mulheres do Minho era não serem soldados, não serem
granadeiros,

  Para defender
  D. Miguel primeiro.

Ainda ha pouco tempo recolhi em Mafra a tradição de um passatempo galante
de D. Miguel, quando alli ia, e se demorava no convento, cujos corredores
são, como se sabe, extensissimos.

O passatempo a que me vou referir tem todo o caracter d'esses jogos
cavalheirescos da idade-média, que nós ainda hoje vemos com agrado através
do prisma da elegancia antiga, para sempre quebrado.

O rei organisava nos corredores do mosteiro cavalhadas pittorescas. As
damas montavam jumentos, e deviam partir em duas alas e em sentido inverso
á direcção que D. Miguel tomava, tendo partido do extremo opposto do
corredor.

O rei brandia uma tocha accesa, e as damas hasteavam uma roca
abundantemente carregada de estopa. D. Miguel, sempre a galope, devia, ao
passar pelas damas, incendiar-lhes a estopa das rocas,—o que poucas vezes
falhava.

Imagine-se a ruidosa alacridade d'esse galante torneio, em que, não raras
vezes, succederia ás damas o desastre de cahirem _mal_, como aconteceu uma
vez a Marie Antoinette, proporcionando-lhe a queda um bello dito:

—_Ah! dame! quand on monte à âne, il faut être en état d'en tomber._

Não me demorarei pela decencia devida aos leitores de menor idade, e aos
outros, em considerações philosophicas relativamente á estopa das damas e
ao fogo do rei.

Passarei agora a fallar mais detidamente do livro cujo titulo indiquei ha
pouco.

O traductor Mesnard diz no prefacio que se propoz trasladar a francez um
opusculo allemão no principio d'aquelle anno publicado em Hamburgo, e acaba
declarando que Barreto Feio lhe permittira addicionar á versão
interessantes notas, e enriquecel-a com excellentes informações.
Agradece-lhe, reconhecido, esse serviço.

Uma justa curiosidade bibliographica penetrou logo no meu espirito: qual
era o opusculo allemão que Mesnard traduzira em francez?

Um feliz acaso fez com que, volvido tempo, se me deparasse na Bibliotheca
da Academia Real das Sciencias um opusculo escripto em lingua allemã, e
intitulado D. MIGUEL I, USURPADOR DO THRONO PORTUGUEZ. _Um documento para a
historia contemporanea de Portugal por uma testemunha ocular, G. v. E.
Hamburgo, 1832_.

Era este decerto o opusculo, publicado em Hamburgo no principio _d'aquelle
anno_ em que Mesnard trabalhava na versão, que fez estampar no anno
seguinte.

Com o auxilio do snr. Pamplona, official da bibliotheca da Academia e
perito germanista, pude verificar que eu tinha diante dos olhos o original
allemão, cuja traducção franceza possuia.

Restava saber quem era o allemão, G. de E., _testemunha ocular_, qualidade
com que elle proprio se abonava.

De investigação em investigação, cheguei a apurar que a testemunha ocular
era Guilherme de Eschwege, barão d'este titulo, de quem Innocencio dá
noticia no seu DICCIONARIO BIBLIOGRAPHICO, posto a não dê do opusculo
relativo a D. Miguel.

Guilherme de Eschwege nasceu na Allemanha em 1778, entrou ao serviço de
Portugal em 1802 com outros officiaes da sua nação, chamados pelo ministro
D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a fim de serem empregados nos trabalhos de
mineração que se tratava de promover no Brazil.

Em 1822 ou 1823 regressou do Brazil a Lisboa, onde D. João VI o nomeou
intendente geral das minas e mattas do reino, cargo de que tomou posse em
agosto de 1824.

Demittiu-se em 1829 por não querer servir sob o governo de D. Miguel.

Partiu para a Allemanha, onde esteve até 1835, voltando então a Portugal e
sendo reintegrado no exercicio de intendente de minas. Demittido no anno
seguinte, el-rei D. Fernando empregou-o na direcção das obras dos palacios
reaes.

Estava com licença na Allemanha, quando morreu em Wolfsanger, no dia 1 de
fevereiro de 1855.

D. Miguel sae das mãos do barão de Eschwege com a figuração de um monstro
sanguinario, que se refocillava na perpetração de atrocidades selvagens.
Outras testemunhas oculares fornecem depoimentos que podem servir de
contestação a este. Guilherme de Eschwege era um ferrenho adversario de D.
Miguel de Bragança e, para nol-o pintar horrendo de alma, deixa em silencio
os actos que podem igualmente deslustrar o caracter de D. Pedro. Escreveu
quando D. Miguel reinava em Portugal, isto é, escreveu para combatel-o como
adversario irreconciliavel. É preciso que esta consideração entre em linha
de conta.

Mas que subsidio nos póde fornecer o seu livro para uma ligeira monographia
sobre a tradição galante de D. Miguel?

Eis o que importa saber.

Pequeno subsidio recebemos do opusculo do barão de Eschwege; sem embargo, a
biographia galante do filho predilecto de D. Carlota Joaquina não carecia
d'elle.

Diz-nos que D. Miguel não teve como rei nem como infante uma favorita,
posto que em Vienna d'Austria se pensasse que a tivera. _Gosta muito de
variar, o que não pouco contribuiu para o engrandecimento do visconde de
Queluz._ São palavras do opusculo. Depois Eschwege conta que o visconde de
Queluz fôra barbeiro, e que n'essa qualidade assistira ás enfermidades
secretas de D. Miguel.

Noticía que as damas abundavam na côrte, durante os annos em que D. Miguel
reinára; que nos serões do paço se faziam representações, n'uma das quaes o
rei desempenhára o papel de D. Quichote, e que outras noites se organisavam
jogos de prendas, sendo sempre D. Miguel quem _sentenciava_, e sendo muito
seu predilecto o castigo de dar palmatoadas.

Esta pena da palmatoria, aliás usada ainda hoje nos serões de provincia em
que os jogos de prendas florescem, não constitue decerto uma das provas
mais eloquentes e ponderosas para acreditar nos instinctos sanguinarios de
D. Miguel de Bragança.

A fazer-se obra por isto, temos que reputar duplicadamente monstruosas,
pela _gaucherie_ de suas maneiras e pela crueza de seu animo, as damas da
provincia que ainda hoje empregam nos joguinhos de prendas o castigo da
férula, com grande risota dos assistentes, e até dos proprios condemnados.

Conta que D. Miguel dava duas recepções por semana, uma aos homens, outra
_ás damas_. Estranha que de joelhos lhe beijassem a mão, mas informa que a
concorrencia ás recepções era tamanha, que algumas vezes houve conflictos á
porta. Esta accusação tambem me não parece capital. As damas e os
cavalheiros queriam beijar a mão do senhor D. Miguel, e elle dava-lh'a a
beijar. Quem corre por gosto não cansa. É mesmo possivel que o rei alguma
vez retribuisse beijo por beijo. Que monstruosidade é esta?!

De D. Miguel infante refere uma aventura vulgarissima com uma franceza da
rua _des Vieilles-Étuves_ em Paris. Esta mulher tinha uma vida tão
aventurosa quanto escandalosa, e o infante, que não devia ficar
extremamente encantado com a boneja, que era feia, pediu-lhe que reduzisse
a escripta a autobiographia com que lhe prendera a attenção. A franceza
annuiu ao pedido, que o infante provavelmente remunerou, e o autographo foi
subtrahido em Vienna aos papeis de D. Miguel, como consta de uma nota. O
facto denunciado é vulgarissimo na vida dos principes e dos outros; mas a
subtracção de um papel particular, que andava na bagagem de um principe
moço, não me parece grandemente abonatoria da seriedade de quem a praticou.
D. Miguel, que restituiu á corôa portugueza as joias que usofruiu, não
presumia decerto que lhe roubariam as memorias de uma rameira, escriptas
por ella mesma, não podendo valorisar-se como joias nem a escriptora nem as
memorias.

Refere o opusculo outra aventura do infante D. Miguel em Paris, e esta é
mais consentanea á sua indole de principe estouvado e desenvolto.

Deu-se o caso com uma capellista da rua _des Fossés-Saint-Germain_. A
franceza era encantadora: _charmante_, diz Mesnard. D. Miguel, não fazendo
reparo ou não se temendo de um sujeito que estava á porta, e que era o
amante da capellista, quiz, como pretexto para demorar-se, que ella
_deitasse a loja abaixo_, que lhe mostrasse muitas das mercadorias
guardadas nos armarios. A franceza trepou ao balcão para descer um pacote,
e o infante beliscou-a ou palpou-a. A capellista gritou, e o amante sovou
D. Miguel, que teve de recolher-se ao leito no _Hotel Meurice_, onde se
havia hospedado.

Isto sim, isto é verosimil e concorda com outra aventura que D. Miguel
praticára, quando já desthronado, em Roma, e que logo contaremos.

Finalmente, o opusculo dá-nos noticia de que D. Miguel, antes de sahir de
Vienna para Portugal, convidára officiaes e cortesãs para ceiarem com elle
depois do theatro. A ceia, que começára á meia noite, terminou ao
amanhecer, mas o infante lembrou, para remate da festa, que se queimasse um
_punch_ á franceza. Dito e feito. Um leque de chammas phosphorescentes
irradiou da _poncheira_, e á volta, de mãos dadas, n'uma farandola patusca,
o infante e os seus commensaes giravam n'uma especie de dança macabra, que
tinha alguma coisa de satanica. Terpsichore não regeu tão ordenadamente a
chorea, que podesse evitar o tombar a mesa e a _poncheira_. Era natural
depois de libações capitosas. O liquido inflammado alastrou no soalho, e
pelas frinchas das tabuas cahiu n'um palheiro que ficava nos baixos da
casa, incendiando-a.

Duas mulheres e um official pereceram no incendio, e D. Miguel, cujo fato
ficára queimado, correu grande risco.

Não serei eu que prodigalise elogios á patuscada e ao _punch_, se bem que
honestos varões (já não direi o mesmo das donas concomitantes) teem, com o
baptismo do _punch_, sahido excellentes maridos. Mas tambem não lançarei á
conta das responsabilidades de D. Miguel o desastre da mesa e a
coincidencia de haver palha em baixo quando elles comiam em cima.

Aqui está o que pudémos obter da collaboração de tres homens: o barão de
Eschwege, J. B. Mesnard e Barreto Feio.

É pouco, sobretudo se attendermos a que foram tres os informadores, todos
elles dispostos a não ter complacencias respeitosas para com D. Miguel de
Bragança.

Passarei agora a occupar-me da annunciada aventura, que corre parelhas com
a da capellista em Paris. Vamos pois ao encontro de D. Miguel, que se
passou a Roma depois da convenção de Evora-Monte, e admiremos-lhe o bom
humor com que forçadamente desceu do throno.

Não me demorarei a meditar sobre o texto do celebre folheto D. MIGUEL EM
ROMA (Londres, 1844), que pregôa as miserias que aquelle principe soffrêra
na cidade do papa. E não me demorarei porque, sob o ponto de vista d'este
artigo, tenho aquellas miserias por incompativeis com o desassombro de
animo com que o snr. D. Miguel de Bragança refinava em galanterias
audaciosas.

Não vou inventar um caso, mas unicamente apoiar-me n'uma pagina das NOITES
PARISIENSES, de Méry, que, para maior escrupulo, traduzirei quanto possivel
acostado ao texto.

Eis-aqui a narrativa do primoroso estylista francez:

  «D. Miguel, este Tarquinio o Soberbo, expulso de Lisboa, continua agora
  em Roma a historia de Lucrecia e Collatino; com a differença de que
  procede insensatamente, e n'uma igreja! Nero violava as sacerdotizas no
  recinto do templo de Vesta; Nero deve ser em tudo o patrono de D. Miguel.
  Parece que o perfume d'um templo ou d'uma igreja é um aphrodisiaco no
  clima italiano; testemunhas Nero, o sobrinho de Paulo II e D. Miguel.

  «Era a 20 de março, domingo da paixão, _vide_ calendario: que paixão
  dominava D. Miguel? N'esse dia estava elle na tribuna, visinha do tumulo
  de Paulo II, perto do sarcophago onde dorme essa mulher divina que tanto
  inglez haveria desposado, se estatuas de marmore podessem desposar-se. D.
  Miguel, principe catholico, dava pouquissima attenção ao evangelho
  dominical, e devorava com o olhar madame Aldobrandini Borghese, joven
  huguenote que exhibia os seus encantos acirrantes aos olhos dos cantores
  effeminados da capella Sixtina. O papa Gregorio VII officiava sob o
  baldaquino de bronze, fronteiro ao tumulo de S. Pedro; os peregrinos
  beijavam o pé de Jupiter Stator, transformado em principe dos apostolos,
  segundo a metamorphose do raio em chaves; D. Miguel não via senão madame
  Aldobrandini.

  «Ah! não conheceis esta mulher, cujo nome lêdes! Roma inteira se namorou
  d'ella! Figurai-vos a Venus do museu secreto de Napoles; mas com am pé a
  mais, cabellos loiros, e uns contornos capazes de fulminarem os Sátyros
  nos bosques. D. Miguel ardia; escutava o ruge-ruge do setim inglez, e
  esse _duo_ voluptuoso que canta a luva d'uma mulher quando acaricía as
  dobras ondulosas do vestido! Oh! que se eu estivesse em Lisboa! dizia D.
  Miguel em voz baixa e _patois_ portuguez. Á força de contemplar o corpo
  flexivel da sua encantadora visinha, D. Miguel julgou-se transportado a
  Lisboa, deixou pender uma das suas reaes mãos até tocar no hombro de
  madame Aldobrandini.

  «—_Mylord!_ exclamou madame Aldobrandini, repellindo o contacto.

  «O gonfaloneiro empallideceu, Gregorio VII interrompeu a ceremonia, e o
  principe Aldobrandini Borghese arrastou D. Miguel para junto do obelisco
  que Augusto dedicára ao Sol.

  «—_Monsieur_, disse o esposo ultrajado, eu descendo em linha recta de
  Hildebrando, que mandou açoitar os cardeaes francezes Ossat e Duperron,
  representantes de Henrique IV; descendo de Paulo Borghese, o papa que
  concluiu esta basilica e, se duvidais, lêde aquella inscripção: _Paulus
  Borghesius_, etc. Sou pelo menos vosso igual; vinde cruzar a vossa espada
  com a minha, aqui muito perto, nos pinheiraes de _villa_ Negroni. Vinde!

  «D. Miguel respondeu:

  «—Sou rei, e ungido do Senhor. Sou assaz bom para vos poupar um
  sacrilegio e uma excommunhão. Boa tarde.

  «Entretanto chegavam o commissario de policia e o cardeal Somaglia, com
  trinta suissos, vestidos de valetes de oiros.

  «—Grande principe e grande rei, disse elle aos dois, é hoje o domingo do
  perdão. Estendei-vos a mão mutuamente. Sua magestade o rei de Portugal é
  joven e é preciso que a mocidade passe. Vou contar-vos a historia do
  sobrinho do pontifice Paulo.

  «E os tres interlocutores desceram para a rua de Borgo Nuovo, rindo do
  sobrinho d'esse grande papa, esquecendo a historia que no momento os
  interessava; e o principe Aldobrandini convidou D. Miguel a jantar n'essa
  bella _villa_ que se encontra á esquerda, antes de entrar a porta do
  Popolo.»

A historia do sobrinho de Paulo II é que eu não contarei, nem que me
queimem.

Méry teve menos escrupulos do que eu, e o proprio Paulo II não teve mais
quando, sabendo-a, exclamou: _Il faut bien que jeunesse se passe_!

Mas como o livro NUITS PARISIENNES é vulgarissimo, quem quizer que a
procure lá.

Eu d'ahi lavo as mãos.

E, por não enfadar a paciencia do leitor, e por evitar algumas memorias de
caracter escabrosamento pornographico, não irei mais longe.



VII

MAXIMILIANO EM PORTUGAL


I

As MEMORIAS DE MAXIMILIANO foram pela primeira vez impressas em Vienna, em
1862.

Tiraram-se apenas cincoenta exemplares, destinados pelo archiduque ás
pessoas da sua familia, a varios principes estrangeiros, e aos amigos mais
intimos.

A idéa de fazer uma edição para o publico acudiu ao espirito de Maximiliano
em 1863, pouco tempo antes de lhe ser offerecida a corôa do Mexico. Foi ao
barão Münch-Bellinghausen, honrosamente conhecido na litteratura allemã
pelo pseudonymo de Frederico Halm, que o archiduque confiou o trabalho da
edição definitiva das suas MEMORIAS, que principiaram a ser impressas em
Leipzig.

No Mexico, apesar das incessantes attribulações que dolorosamente lhe
preoccupavam o espirito, Maximiliano reviu ainda algumas provas, indicou
correcções especialmente motivadas pelas circumstancias politicas, que
tinham variado desde 1851. Mas a tragica morte do imperador do Mexico
roubaria á publicidade as suas MEMORIAS, se o imperador Francisco José, por
um terno movimento de piedade fraternal, não tivesse dado ordem para que se
concluisse a impressão.

A obra, em allemão, consta de sete volumes e intitula-se AUS MEINEM LEBEN.
REISESKIZZEN. APHORISMEN. GEDICHTE. (Recordações da minha vida. Impressões
de viagem. Aphorismos. Poesias).

O ultimo volume comprehende as poesias escolhidas.

N'esta edição definitiva não foi porém incluida a _Viagem á Grecia_, que em
1868 sahiu impressa em Leipzig.

Eu vou servir-me da traducção das MEMORIAS, unica traducção franceza
authorisada, feita por Jules Gaillard, Paris, 1868.

Consta de dois volumes. O primeiro comprehende impressões de viagem em
Italia, Hespanha, Lisboa e ilha da Madeira; o segundo,—na Algeria, Albania,
além do Equador, Bahia, Matto-Virgem, e os _Aphorismos_.

Foi em julho de 1851 que Maximiliano sahiu da bahia de Trieste, a bordo da
fragata _Novara_, para uma viagem de longo curso, seu ardente desejo. A
mesma fragata o conduziu ao Mexico, quando já imperador. É notavel a
coincidencia.

Jules Gaillard não traduziu integralmente as MEMORIAS DE MAXIMILIANO. Fez
um apanhado do que lhe pareceu mais proprio a interessar o leitor francez,
a caracterisar o espirito e imaginação do author ou a tornar conhecidas as
suas relações com as côrtes estrangeiras.

Portanto temos que contentar-nos, relativamente a Portugal, com as
impressões que a Jules Gaillard aprouve traduzir; mas reputamol-as
bastantes a darem uma idéa precisa do modo de sentir e pensar de
Maximiliano a nosso respeito.

Começa o archiduque recordando o proverbio _Quem não viu Lisboa não viu
coisa boa_, com que a tradição celebra as bellezas de Lisboa, emparelhando
a capital portugueza com as mais formosas cidades do mundo, Constantinopla,
Stockolmo, Napoles e Rio de Janeiro.

Maximiliano não conhecia a lenda germanica, que Ferdinand Denis citou, de
um cavalheiro que em Jerusalem quiz vêr n'um espelho magico a mais bella
cidade da Europa, e viu Lisboa; se conhecesse, tel-a-ia citado
conjuntamente com o proverbio para tornar ainda mais frisante a impressão
não inteiramente agradavel que Lisboa lhe causou.

O archiduque descreve Lisboa, vista do Tejo, como uma agglomeração de casas
sem o caracteristico de edificios distinctos e originaes, e sem o
pittoresco que resulta da harmonia da perspectiva. Lamenta a falta de uma
floresta onde a vista possa repousar, e acha que o ceu e a agua não possuem
o colorido quente e brilhante dos paizes meridionaes.

«Não se vêem nem palmeiras, nem cyprestes, tudo é frio e monotono como em
certas regiões da Allemanha; cidade por cidade, Praga é muito mais
pittoresca. A _Outra banda_ é a unica parte que resalta verdadeiramente
bella, ainda que sem a grandeza precisa para que a impressão que produz
aproveite ao conjunto.»

Ora Maximiliano veio a Lisboa em 1852, e é certo que no decurso de 37 annos
a cidade tem tido um grande desenvolvimento material, mas o aspecto da
casaria, disposta caprichosamente ao sabor das ondulações do terreno,
quer-nos parecer de um bello effeito pittoresco, de uma variedade de
perspectiva encantadora. É tambem certo que falta aos edificios de Lisboa a
originalidade bysantina, a magnificencia oriental de Constantinopla, das
suas mesquitas, minaretos, bazares e _caravansérails_, que se debruçam
sobre as aguas do Bosphoro, produzindo uma impressão surprehendente, tanto
quanto pela photographia se póde avaliar. Mas os edificios de Lisboa, se
não teem uma architectura typica como os de Constantinopla, são comtudo,
pela variedade da construcção e pela sua disposição irregular, mas
graciosa, de um _ensemble_ que alegra os olhos e impressiona agradavelmente
o espirito.

A bahia do Tejo poderá ser inferior á vasta toalha de agua do lago Mœlar,
mosqueada de mil duzentas e sessenta ilhas, que torna deslumbrante a
situação de Stockolmo; poderá ser inferior ao golpho de Napoles, cuja
belleza se opulenta com o espectaculo maravilhoso do Vesuvio, quando em
erupção; poderá ainda ser inferior á bahia do Rio de Janeiro com as suas
grandes massas montanhosas, o _Pão de assucar_, o _Corcovado_, a _Tijuca_,
ao fundo a _Serra dos Orgãos_, e com as suas ilhas numerosas e sorridentes.
Não discutimos primazias pueris. Mas a bahia do Tejo é de uma belleza ampla
e suave, de uma vastidão harmonica e dôce, que seguramente a torna uma das
mais bellas do mundo.

O Tejo teve a infelicidade de ser visto por Maximiliano n'um dia brumoso e
triste, que prejudicava _os tons quentes e brilhantes dos paizes
meridionaes_. Não sei se o ceu de Lisboa é menos azul que o de Napoles, tão
gabado; mas o que sei é que, nos dias claros, o nosso firmamento é de uma
doçura de saphyra incomparavel, de um azul doirado que satisfaz plenamente
as nossas almas de meridionaes.

Maximiliano estranhou a falta de arvoredo, mas, por Deus! não faltam
arvores no conjunto panoramico de Lisboa, vista do Tejo. É verdade que é
núa e arida a serra de Monsanto, pedregoso o corucheu da serra de Cintra,
mas que opulencia de vegetação no pendor e na base d'esta serra famosa! E o
arvoredo da Tapada da Ajuda? E o da cêrca das Necessidades? E ainda o do
cemiterio dos Prazeres? E as manchas verdes com que tantos jardins
particulares cortam a brancura alegre da casaria? Decididamente, o
archiduque Maximiliano teve um mau dia de chegada, escuro e melancolico.

Mas o que eu admiro são as suas saudades pelo cypreste, arvore funebre, de
que todavia alguns exemplares poderia enxergar no cemiterio dos Prazeres,
que aliás menciona. Quanto á palmeira, que é realmente uma bella arvore
ornamental, Maximiliano deveria saber que essa arvore é filha dos climas
orientaes, e que só exoticamente vegeta nos paizes do occidente.

Depois de poucas linhas consagradas á impressão geral que lhe causára o
panorama de Lisboa, Maximiliano principia logo a descrever o interior da
cidade.

Quanto ás ruas e ás praças, o testemunho do archiduque é-nos mais
favoravel.

Falla de _longas ruas regulares e bellas praças como não ha muitas nas
capitaes europêas_. «A _Praça do Commercio_ é verdadeiramente magnifica, o
centro da cidade nova; todos os seus edificios são uniformemente
construidos em estylo neo-romano, e de uma brancura deslumbrante
(_éblouissante_). Muitas largas ruas parallelas confluem perpendicularmente
a esta praça: as mais bellas são a _rua Augusta_ e a _rua Aurea_.»

Chamar o centro da _baixa_ ao Terreiro do Paço é uma liberdade de poeta e
de... principe, pois que uma e outra coisa era Maximiliano.

Á rua da _Boavista_ chama-lhe de _Buanavista_, e menciona-a talvez pela
circumstancia de conduzir ao palacio das Necessidades, onde a rainha D.
Maria II habitava.

«N'estas diversas ruas encontram-se vastos edificios, verdadeiramente
dignos de uma grande cidade, com estabelecimentos ricamente adornados.
Perto das Necessidades as casas tornam-se mais irregulares e menos bem
alinhadas: conforme ao gosto portuguez, são pintadas a oleo em tons
assanhados (_criards_) verdes ou azues.»


II

Maximiliano refere-se á cidade velha, dizendo que ella fórma um completo
contraste com os novos bairros. Classifica-a de _medonho zig-zag que sobe e
desce_: as ruas cheias de excrementos de animaes e de ratos mortos. Julga
precisa uma grande coragem para habital-as, e ainda para transital-as.

Arde-nos? É pimenta. Mas, diga-se a verdade, devia ser assim em 1852, pela
simples razão de que ainda o é em 1889.

Eu não sei bem a que Maximiliano chama a cidade _velha_, se se refere á
collina oriental ou occidental, ao Castello ou ao Bairro Alto. Mas, em
qualquer dos casos, a apreciação é fundamentada.

Ha trinta e sete annos os despejos faziam-se ainda da janella abaixo,
depois da famosa prevenção do _agua-vai_. Ás vezes nem a prevenção se
fazia. Uma anecdota de Bocage conta que, achando-se o poeta n'uma situação
muito naturalista, recebêra sobre o dorso uma baldada d'agua chilra, que
lhe despejára uma criada, a qual elle apostrophou n'este chistoso
improviso:

  Ó menina do toucado,
  Já que tem a mão tão certa,
  Venha buscar a offerta,
  Que ficou do baptisado.

Mas nas tradições da antiguidade grega anda uma anecdota que prova ter
existido entre os héllenos igual costume. Tendo Socrates fugido um dia para
a porta da rua, por já não poder aturar sua mulher Xantippe, ella
aproveitou a occasião para fazer os despejos e encharcal-o, ao que o
philosopho respondeu com a sua habitual serenidade:

  Que não era agua de rosa,
  Mas outra menos cheirosa.

Já expungimos, é certo, o sujo costume do _agua-vai_, mas os ratos mortos e
as cabeças de carapau perfumam ainda as ruas de Lisboa.

É porém injusto o archiduque quando diz que os portuguezes nem por todo o
ouro do mundo quereriam vêr-se livres d'estas montanhas de immundicie. As
narinas nacionaes protestam contra a phrase. Mas é que cêrca de quarenta
annos de incessantes reclamações não teem conseguido ainda estabelecer uma
policia municipal tão vigilante, que ponha cobro a este abuso. De mais a
mais Lisboa é, a respeito dos gatos, uma cidade fetichista. Lisboa adora o
gato, não só o gato domestico, mas tambem o gato vadio, _callejero_, como
diriam os hespanhoes. Toda a gente se julga constituida na obrigação de
alimentar os gatos tunantes atirando-lhes para o meio da rua as cabeças dos
carapaus e as miudezas das pescadas. Em Lisboa o gato não faz nada; quem
caça os ratos não são os gatos, são as ratoeiras. E ao passo que se dá de
comer aos gatos bohemios com uma piedade tradicional, toda a gente compra
uma ratoeira para demonstrar a inutilidade do gato alfacinha. Na capital
portugueza, o gato é um sultão, que tem o seu serralho de bichanas ao ar
livre. Mas se houver uma camara municipal que se proponha arcar com o gato,
não haverá _gatos_ eleitoraes que a aguentem, n'uma reconducção, á bocca da
urna.

Maximiliano impressionou-se em Lisboa com a abundancia dos papagaios.
Parece, diz elle, que estamos n'uma floresta virgem do Brazil. E
accrescenta que as parlendas dos papagaios são de ensurdecer a gente. Digam
que tambem não é verdade, se são capazes! A abundancia de papagaios é
talvez um vestigio do nosso antigo dominio colonial. Dos bons tempos em que
fomos os primeiros a pôr o pé na costa d'Africa e no Brazil restam hoje
apenas as chronicas e os papagaios. O que é certo é que rara casa não só de
Lisboa mas tambem de todo o reino deixa de ter um papagaio, seja pardo ou
verde, da Africa ou do Brazil. Cada brazileiro que chega, traz um papagaio
para si, e tres papagaios para os parentes. E na tradição popular anda o
estribilho dos papagaios, que tem passado de geração em geração com o
_Bernal francez_ e a _Silvaninha_:

  Papagaio real,
  Por Portugal,
  Quem passa?
  O rei que vai á caça.

No glossario nacional conservam-se algumas phrases attinentes aos
papagaios, taes como: _dá cá o pé_, _meu loiro_, etc.; e não contentes com
os papagaios authenticos, temos varios papagaios metaphoricos, as tabuas
divisorias e pintadas de verde que separam as janellas de sacada; as
estrellas de papel que os rapazes lançam ao ar.

Depois da abundancia dos papagaios, estranhou Maximiliano a dos negros e
negras, que enxameam em Lisboa, notando que por um contraste, que parece
ironico, todos os pretos são caiadores.

Aqui está decerto outro vestigio dos nossos bons tempos coloniaes: os
pretos. Elles habituaram-se a Portugal desde o tempo em que vinham como
escravos; a tradição estabeleceu-se, e hoje vêm como livres. Que diria
Maximiliano se soubesse que os portuguezes antigos, incluindo os nossos
primeiros poetas, davam o cavaquinho pelas pretas! Camões, o principe dos
poetas portuguezes, arrastou a aza a uma escrava negra, a famosa Luiza
Barbara:

  Pretidão de amor,
  Tão dôce a figura,
  Que a neve lhe jura
  Que trocára a côr.

Por isso, é certo, lhe fez troça um poeta anonymo da época:

  Negrado, negrigorio, negregante,
  Negrica, negraria, negramento,
  Negrança, negração e negra dura.
  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .
  Luiz, retrato negro dos amores
  Negros seus, aqui jaz; a endurecida
  Luiza negra o fez, com negras dôres,
  Mudar em negra sorte a negra vida.

Nos autos dos poetas comicos do seculo XVI, um preto ou uma preta são
personagens obrigados. Gil Vicente diz na farça do JUIZ DA BEIRA:

  Eu andava namorado
  De ũa moça pretasinha.

No theatro do Prestes e do Chiado a preta ou o preto apparece sempre com a
sua aravia, que era de um effeito seguro.

Na poesia popular ainda hoje vive uma quadra, aliás formosissima, em que o
elemento chamita fornece a belleza do pensamento:

  Os teus olhos são gentios,
  São gentios da Guiné.
  Da Guiné por serem negros,
  Gentios por não ter fé.

Maximiliano falla de uma especie de equipagem, o _sech_, montada sobre duas
rodas enormes, tirada por dois cavallos, muito usada então em Lisboa. Ainda
cá temos pouco mais ou menos o _sech_, mas hoje serve principalmente para
conduzir os mortos ao cemiterio. É um dos espectaculos mais tristemente
irrisorios de Lisboa.

Passa depois a occupar-se dos trajos nacionaes.

«O mundo elegante veste-se á franceza. As mulheres do povo usam lenço
branco na cabeça e grandes capotes muito pezados: é uma precaução contra os
inconvenientes do clima, porque, em pleno estio abrasador, um frio glacial
cae sobre a cidade, e a corrente de ar do Tejo sopra frequentemente
asperrima através das ruas.»

Tem razão quanto ao estrangeirismo dos trajos no mundo elegante. Dão-lh'a
os proprios poetas portuguezes.

Rodrigues Lobo disse:

  Por isso qualquer profano
  Nos toma para entremez,
  Porque fazemos cada anno
  Te no trage portuguez
  Mais mudanças que um cigano.
  Não tomamos isto em grosso;
  Vestimos por tantos modos
  Cada hora, que dizer posso,
  Que não temos trage nosso,
  Porque o tomamos de todos.

E Simão Machado:

  Vel-os-has, disse, _á franceza_,
  Depois d'isso á castelhana,
  Ámanhã á sevilhana,
  Hoje andam á bolonhesa,
  E já nunca á portugueza.

O capote preto e o lenço branco eram, de feito, um trajo nacional, mas não
privativo das mulheres do povo. N'isto se enganou o archiduque. Tambem o
usavam as fidalgas. Em Lisboa já não ha d'isso senão pelo carnaval. Mas nas
provincias do norte ainda existe o capote. No sul, tenho-o visto muitas
vezes em Setubal, sem exclusão das senhoras: capotes de panno finissimo e
brilhante.

Os homens tambem uzavam capote antes da invasão da capa hespanhola e da
capa _á Santo Antonio_; mas era ordinariamente de côr e com mangas.
Chamavam-se estes capotes _josésinhos_.

Camillo Castello Branco diz na ENGEITADA: «Era de mulher o outro vulto
encapotado n'um _josésinho de mangas, como então se dizia d'uns capotes que
tiveram em Portugal reinado longo_.» E Nicolau Tolentino:

  Se a pé, dando o _josésinho_,
  Escoltou Alcino ledo
  A Marcia todo o caminho,
  Foi porque elle tinha medo
  Que lhe cahisse o burrinho.

Isto, leitor, não póde ir de uma assentada. Seguiremos a jornadas vagarosas
o itinerario do infeliz archiduque.


III

«Faz-se entre nós uma idéa muito falsa de Lisboa. Figuramol-a uma cidade
rica em monumentos historicos, graciosissimamente situada, e beneficiada
por um clima dulcissimo: sonhamol-a em todo o brilho das tintas
meridionaes, em toda a magnificencia de uma vegetação tropical; imaginamos
que o Tejo deslisa sob um céo azul á beira de antigos palacios de marmore,
navegado nas suas ondas argenteas por centenas de gondolas doiradas e por
galeões carregados de metaes preciosos; o povo de Lisboa suppomol-o alegre,
cantando estancias melodiosas ao som da guitarra. Pura phantasia tudo
isso!»

A fallar verdade, que culpa podêmos nós ter do que os outros sonham a nosso
respeito?! Que responsabilidade nos póde advir do facto de ter o archiduque
Maximiliano, commandante da marinha austriaca, imaginado em Lisboa uma
vegetação _tropical?! Tropical!_ é forte. Pois não sabia sua alteza qual
era a nossa situação geographica no mappa-mundi?! Suppunha-nos na Africa ou
na America?! Imaginava-nos talvez em Borneo ou Sumatra, na Oceania? Ah!
infeliz archiduque, que culpa tinhamos nós dos erros geographicos de sua
alteza e dos seus compatriotas?!

E as gondolas doiradas?! Quem nos inculcou na Austria como sendo o paiz das
gondolas?! Vossa alteza sonhou! E nas memorias nublosas d'um sonho
confundiu Veneza com Lisboa.

Quanto aos galeões carregados de metaes preciosos, bem poderia sua alteza
tel-os visto, se se lembrasse de visitar Lisboa no seculo XVI. Com uma
antecipaçãosinha de trezentos annos—uma bagatella!—teria sahido o sonho
verdadeiro. Se vossa alteza, desventuroso archiduque, houvesse chegado a
tempo de encontrar el-rei D. Manuel, poderia, visto que estamos em maré de
anachronismos, apostrophar com Julio de Castilho os famosos galeões da
India:

  Lá vem galés Tejo acima!
  lá vem as galés d'el-rei!
  Quero ir vêl-as á Ribeira;
  ó madre, comvosco irei.
  Lá vem, lá vem Tejo arriba,
  lá vem as galés d'el-rei.

  Lá vem as naus da conquista
  sobre os marinhos cachões;
  conheço a nau do Almirante
  entre os outros galeões,
  abertas as azas brancas!
  soberba co'os seus pendões!

Quanto a monumentos historicos, uma pirangaria! Já é ter falta de vista!
Nem meio. O campo, um horror. A abundancia de moinhos de vento fez-lhe
lembrar Leipzig, as longas cordilheiras de collinas recordaram-lhe a
Allemanha. As laranjeiras portuguezas, tão celebradas na Europa, cá estavam
e não eram feias, mas não se podia parar um momento a olhar para ellas,
porque era o mesmo que ter uma constipação no corpo, por causa de um golpe
de sol _tropical_ ou de um golpe de vento igualmente... _tropical_.

E tristes, muito tristes os lisboetas. Mas que diabo de teima a do Paulus
em dizer ainda hoje que

  _Les portugais
  Sont toujours gais!_

Uma patranha de marca! Nós, os portuguezes, somos tão chorões, que até os
reis não escapam ao chôro. Houve um que lagrimejou a ponto de ser
metamorphoseado em chafariz, o qual ainda hoje conserva a denominação de
_Chafariz d'Elrei_. Patranha por patranha. E ainda hoje conservamos tambem
este proloquio lamuriante: _A lagrima é livre_. A alma portugueza é uma
cebola que nos sobe aos olhos: por isso dizemos constantemente que os olhos
são o espelho da alma.

Sua alteza achou-nos muito parecidos com os macacos. N'este ponto não
podêmos deixar de fazer honra á orientação transformista de sua alteza.
Chegamos a estar convencidos de que foi Portugal que suscitou a Darwin a
concepção scientifica da sua theoria; o sabio inglez, tendo conhecido em
Lamarck a lei da hereditariedade e a lei do desenvolvimento dos orgãos,
pôde, graças ao estudo anthropologico que fizera dos portuguezes, ir além
de Lamarck. Foi isto, por força.

E a lingua portugueza?! Como sua alteza a achou desafinada e charra! Tem
graça, porque nós pagamos-lhe na mesma moeda, quanto a lingua. Não ha
portuguez nenhum que não esteja de accôrdo com a opinião de Carlos V,—de
que o allemão é uma lingua para se fallar aos cavallos. Mas para chamar
desafinada á lingua portugueza já é preciso ter dureza de ouvido! E não
dizia o pateta do Filinto:

  Fallemos portuguez _brando e sonoro!_

Sua alteza estava com muita curiosidade de vêr a rainha D. Maria II, porque
era sua proxima parenta e uma princeza reinante, cujo destino havia sido
dos mais agitados.

Quem o archiduque encontrou primeiro a esperal-o no palacio das
Necessidades foi o marechal duque de Saldanha, a quem chama o _genio
universal, o deus ex-machina_, o sol do nosso paiz n'aquelle tempo. N'isto
acerta. Triumphante o movimento politico da regeneração, Saldanha, coberto
do prestigio que lhe haviam dado as campanhas da liberdade, succedêra no
poder ao conde de Thomar. Quando o archiduque Maximiliano chegou a Lisboa,
o ministerio era composto por Saldanha, presidencia e guerra; Rodrigo,
reino; Seabra, justiça; Garrett, estrangeiros; Fontes, fazenda e obras
publicas; Athouguia, marinha.

A Garrett faz o archiduque uma referencia especial, sem o nomear, dizendo:
«Entre os ministros mencionarei o dos negocios estrangeiros que, segundo me
disseram, é o mais celebre escriptor de Portugal. Suspeito-o mais escriptor
que estadista: de resto, falla perfeitamente o francez.»

Maximiliano _esquissa_ o perfil do marechal: «um homem gordo, constellado
de condecorações, com os cabellos crespos e brancos de neve, bigode
retorcido, côr de azeitona e lunetas escuras com aro de aço.»

Finalmente, o archiduque encontra-se com a rainha, com o rei D. Fernando, e
os tres principes mais velhos, D. Pedro, D. Luiz e D. João.

«Maria da Gloria, diz o archiduque, é alta e direita; as suas feições são
nobres e graves, o cabello louro e fino. Tem os olhos azues dos Habsburgos,
mãos pequenas e, por infeliz contraste, uma corpulencia genuinamente
portugueza, horrivelmente exaggerada e realmente inaudita. Não obstante (o
que faz o elogio das suas graças naturaes) e cheia de elegancia e
vivacidade nos movimentos. Vi-a correr como uma donzellinha nos seus
aposentos, e ouvi dizer que dança graciosamente e sóbe com ligeireza o
estribo da carruagem. Vestindo com delicadissimo gosto, é ainda seductora a
despeito da nutrição; poder-se-ia dizer até que, por momentos, é bella.»

Este esboço não destoa dos retratos que conhecemos da rainha e nos quaes é
facil encontrar exacta semelhança com o perfil traçado pelo snr. D. Antonio
da Costa na HISTORIA DO MARECHAL SALDANHA: «gentil, como os seus quatorze
annos, a pelle, setim; a côr, alva; olhos, celestes; cabellos, como o oiro;
porte, nobre; rosto, reflexivo; etc.»

Com taes predicados physicos não ha mulher feia, ainda mesmo que, no dobar
dos annos, o _embonpoint_ se torne um pouco exaggerado.

A principio, o archiduque achou a rainha hesitantemente silenciosa; não
obstante, as suas poucas palavras eram agradavelmente pronunciadas em
francez. Mas á medida que a intimidade se estabeleceu, a rainha revelou-se
alegre e espirituosa, comquanto sempre reservada ou antes preguiçosa em
fallar, e na apparencia um tanto brusca.

Maximiliano louva a rainha como mãi e esposa, considera-a um _raro modelo
de virtudes domesticas no meio d'este Portugal tão corrompido_. Attribue um
pouco isso á simplicidade allemã que o rei Fernando teria introduzido nos
habitos do _ménage_.

«Ao lado de sua corpulenta esposa, o rei, que é de estatura elevada, parece
um pouco _effilé_, revelando grande semelhança com Francisco I de Austria.
Conta apenas trinta e sete annos, mas, como tem o costume de inclinar a
cabeça, afigura-se-nos mais velho.»

Quanto a dotes de espirito e caracter, o archiduque não teve tempo para os
estudar no rei D. Fernando, mas quiz parecer-lhe que não podia medir-se
pela bitola de seu tio Leopoldo da Belgica.

Estranhou que o marido da rainha fosse rodeado por taes homenagens, que,
n'uma viagem á provincia, o povo pediu-lhe a benção. E o rei deu-a. A
fallar verdade, o beija-mão não se distanciava muito da benção.

«Os tres filhos mais velhos estavam presentes, cada um com seu uniforme: o
principe D. Pedro, de general; D. Luiz, meu camarada, de official de
marinha; D. João, de official de infanteria (aliás lanceiros).

«O principe real tem notavel semelhança com a casa d'Austria, o que desde
logo lhe conciliou a minha sympathia. Possue um thesouro de excellentes
disposições naturaes que, infelizmente, não têm sido bem exploradas; a
despeito da boa vontade dos pais, não parece que tenha havido sufficiente
cuidado em formar-lhe esse caracter energico de que um principe tanto
precisa hoje, sobretudo na situação incerta em que se encontra Portugal.»

O archiduque fiava muito da influencia que teriam as viagens no espirito do
principe real.

Quanto ao infante D. Luiz, depois rei, descreve-o como um rapaz alegre e
ladino, propenso a expansões de bom humor. Falla muito, e bem, diz o
archiduque: um jovial sangue viennense corre nas suas veias.

«D. João é a antithese de seus irmãos: silencioso e grave, pallido, cabello
castanho, olhos negros, olhar profundo; nenhum traço de elemento germanico:
um altivo Bragança dos antigos tempos.»


IV

Conta o archiduque que assistíra com a rainha D. Maria II e com el-rei D.
Fernando a um espectaculo no theatro de S. Carlos, que, apesar das suas
amplas dimensões, considera inferior ao _San Carlo_ de Napoles.

Exhibia-se n'essa noite o panorama do Mississipi, que tinha já feito, diz
Maximiliano, _le tour du monde_.

Ao passo que o panorama se desenrolava lentamente, a rainha conversava com
seu primo o archiduque, fallando-lhe com saudade do Brazil, onde nascêra.
Maximiliano estranha que D. Maria II exprimisse tamanho enthusiasmo por um
paiz, como o Brazil, onde o calor é intenso. E observa: qualquer que seja o
paiz em que se nasceu, o amor á patria é sempre o mesmo! Esta observação
fica muito áquem dos meritos litterarios do archiduque. É de uma banalidade
que lhe não faz honra.

Fallou-se tambem de Lisboa, de Portugal. D. Fernando citou com louvor o
livro do principe de Lichnowsky[6], o unico que tinha por exacto,
parecendo, diz Maximiliano, fazer pouco caso do que a condessa Hahn-Hahn
escreveu sobre o mesmo assumpto.

A rainha mostrou-se resentida da surpreza com que a condessa viu na camara
real o bastidor em que sua magestade costumava bordar. Uma pessoa que
governa, havia dito a condessa, não deve occupar-se de taes coisas. A
rainha, que é uma mulher da sua casa (_une femme d'intérieur_), diz o
archiduque, glosava a observação da condessa ironisando-a: «Queria talvez
que eu escrevesse livros!»

Maximiliano teve occasião de assistir á festa do Coração de Jesus na
basilica da Estrella.

«A rainha entrou na igreja ladeada pelo rei-esposo e pelo _Deus ex-machina_
(o marechal Saldanha), os quaes exhibiam, sobre os seus respectivos
uniformes, uma mantilha de rendas: é, nas ceremonias de apparato, a bizarra
insignia dos gran-cruzes portuguezes. D. Maria collocou-se sob o docel,
entre estes dois personagens, e assistiu de pé ao santo sacrificio da
missa. S*** (Saldanha) que, além das suas funcções officiaes parece
desempenhar tambem o papel de bobo da côrte, dizia infinitas jovialidades á
rainha. Que effeito produziria no povo este mau exemplo! D'onde virão a
obediencia e o respeito para com a magestade terrena, se ella propria se
não souber curvar perante a magestade divina!»

É textual. Apesar de parente da rainha, o archiduque não lhe poupa este
epigramma publico. Maximiliano ficou tão indignado, que chamou _bobo_ ao
marechal por estar fazendo espirito na igreja da Estrella. Nós, os
portuguezes, não somos certamente o povo que mais compostamente assiste aos
actos religiosos. Mas no seculo XVII ainda era peor. Foi preciso tomar
medidas repressivas contra as liberdades que se praticavam nos templos.

«A mais encantadora e seguramente a mais espirituosa pessoa da côrte é a
imperatriz viuva Amelia, segunda esposa de D. Pedro. Um cruel destino tem
perseguido com cega obstinação esta soberana desde a sua primeira mocidade.
Ao tempo da minha viagem a Lisboa, a imperatriz vivia em Bemfico
(masculinisação de Bemfica) com sua amavel filha, princeza distincta,
peregrinamente prendada, e que a morte não tardou a arrebatar. _Bemfico_ é
uma deliciosa _quinta_, onde recebi o mais cordeal e o mais digno
acolhimento de uma boa parenta.»

Maximiliano revela, em todas as suas apreciações, uma refinada
intransigencia tudesca. Ora é sabido que a imperatriz Amelia era bávara, e
é justamente a esta princeza que o archiduque elogia sem restricções. Não
podendo deixar de reconhecer as virtudes domesticas da rainha D. Maria II,
não se abstem comtudo de fazer esvoaçar sobre o seu retrato a sombra de
mais de um epigramma. Nem mesmo lhe perdoou o ser nutrida, e chega a dizer
que a rainha convidava sempre para os jantares de gala a duqueza de
Palmella, que, por ser igualmente nutrida, servia para lhe fazer
contrapeso.

Maximiliano assistiu com a rainha a uma tourada. Os principes não foram,
mas as infantas, _duas creanças encantadoras_, acompanharam sua mãi.

O archiduque, a respeito das touradas portuguezas, dá inteira razão á
propaganda que contra ellas tem feito no parlamento o snr. Carlos Testa.

Não as considera um combate cavalheiresco como na Hespanha. Chama a este
divertimento, tal como ainda hoje o temos, um brinquedo ignobil e
despiciendo; uma mascarada, uma _jonglerie_. Acha cobardes os nossos
picadores, e sente a falta do _bello matador, que tão habilmente sabe
provocar o enthusiasmo_.

Ralha dos intervallos comicos dos pretos, que ficavam espapaçados na arena,
e da exhibição dos forcados que, enchumaçados com almofadas, se atiravam á
cabeça dos touros. Classifica de arlequinada insipida este espectaculo,
onde a coragem brilha pela sua ausencia, e que faz rir o povo n'uma
hilaridade boçal.

«Estes vis tormentos por que fazem passar o animal e os homens constituem
um espectaculo que não póde deixar de exercer sobre o povo uma influencia
perniciosa; é um alimento fornecido aos seus instinctos grosseiros, ao
passo que em Hespanha uma lucta ardente e generosa põe em evidencia o
homem. Lá, o touro empenha toda a sua força, o homem toda a sua coragem;
combatem corpo a corpo, o sangue corre, e ha commoções extraordinarias
n'essa lucta; o homem não desce até ao nivel da besta, e a besta até ao
nivel das coisas inanimadas. Em Hespanha, onde ha um combate, aliás leal,
este divertimento popular não chega a parecer cruel; mas aqui, onde apenas
se trata de uma folia baixa e ignobil, a menor desgraça avulta
revoltantemente. Em Sevilha vi cahir numerosos touros, sem que homem algum
fosse ferido; aqui, dois dos luctadores, encarregados de pegar o touro,
ficaram horrivelmente maltratados; cahiram entre as pontas do animal que os
lançou por terra, rasgando-os no ventre e no peito com temerosas marradas;
finalmente, arrastaram-nos para fóra da arena todos ensanguentados e
semi-mortos. Asseguraram-me, porém, que uma pouca de terra do circo,
deitada n'um copo d'agua, bastaria a cural-os prodigiosamente, e que
poderiam reapparecer na lide do domingo seguinte. Tudo isso me fazia
horror, ao passo que em Hespanha senti-me, á vista do combate, emocionado e
arrebatado.»

Mas o archiduque confessa que o divertiu muito o facto de um touro ter
saltado duas vezes á trincheira, e de um outro touro ter investido com um
cavalleiro, que se não desestribou, mas que no embate perdeu a cabelleira.

Então o archiduque riu francamente com o povo.

«N'esse momento, diz Maximiliano, todo o ardor hespanhol despertou em mim,
e por _bravos_ involuntarios, que não seriam talvez muito convenientes na
presença da rainha, testemunhei a minha satisfação ao bravo animal,
desejando-lhe um successo mais decisivo.»

Parece que Maximiliano quereria que o touro houvesse derrubado e amolgado o
cavalleiro.

Como o infeliz archiduque haveria gostado, se lh'a tivessem dado a lêr, da
ULTIMA CORRIDA DE TOUROS EM SALVATERRA, de Rebello da Silva!

Aquillo é que eram touros á castelhana, no tempo do senhor D. José!

Maximiliano foi convidado para um dos grandes bailes do marquez de Vianna,
n'aquella época tão faustosos. Viu ahi a primeira sociedade de Lisboa. Mas
o seu exclusivismo germanico não ficou lisonjeado com os cabellos negros e
as faces morenas que se estadeavam no palacio do Rato. _Poucas_ ou
_nenhumas_ bellezas viu.

Faz justiça á opulencia das salas, que eu proprio ainda pude vêr no dia do
leilão. Por isso digo que _faz justiça_. Mas accrescenta que denunciavam
uma absoluta falta de gosto, _um verdadeiro luxo de «parvenu»_. Ora isto
não é exacto. O que seria se Maximiliano tivesse entrado em salas menos
remotamente fidalgas que as do marquez de Vianna!

Á chegada do archiduque e durante o baile, o hymno austriaco lisonjeou-lhe
sobremodo os ouvidos patriotas.

Apesar de ter appellidado o nobre marquez de «grande senhor da época
_rococó_» e de haver notado falta de gosto nas esplendidas alfaias do
palacio do Rato, não pôde deixar de exclamar, graças ao hymno austriaco
toda a noite soprado pela fanfarra: «Este simples traço basta a
caracterisar o bom marquez.»

Maximiliano já antes tinha estranhado que no Paço das Necessidades as
bandas militares não houvessem tocado o hymno austriaco, mas unicamente o
hymno real portuguez, quando alli foi convidado a jantar duas vezes.

Muito hymneiro este infeliz archiduque!

E a proposito d'aquelles dois jantares de gala diz Maximiliano que, não
obstante a parcimonia habitual da côrte, a mesa era esplendida, e a cosinha
primorosa; que, a ter que queixar-se de alguma coisa, seria da abundancia
dos pratos.

Se não se houvessem esquecido do hymno austriaco, Maximiliano, apesar de
declarar-se abstemio, ter-se-ia levantado da mesa trauteando mentalmente o
antigo _vaudeville_:

  Et la frouchette de Camus
  Est le sceptre du monde.

Foi pena!


V

Maximiliano viu o cemiterio dos Prazeres, e pareceu-lhe uma imitação do
_Père Lachaise_.

Impressionaram-n'o mal os mausoleos ostentosos, que se lhe afiguravam
verdadeiros templos pagãos. E achou pouco christão o contraste d'estes
moimentos faustosos com o systema de enterrar os pobres na valla,—como
cães. As edificações arruadas do cemiterio dos Prazeres deram-lhe a
impressão de um _Corso funerario_ ou de um _Boulevard dos mortos_, sem
caracter religioso.

Para Maximiliano, os cemiterios antigos, em cujos cyprestes e plátanos as
avesinhas cantavam n'uma grande paz melancolica, eram o unico typo
admissivel para necropole. Sob este ponto de vista encantaram-n'o o _Campo
Santo_ de Pisa e as sepulturas da Turquia.

Ora eu posso dar ao leitor dois traços descriptivos do _Campo Santo_.
Fornece-m'os madame Colet, a notavel _touriste_ que tão minuciosamente
visitou a Italia: «_O Campo Santo_ fórma um longo quadrado fechado por
quatro galerias muradas exteriormente, e cobertas de _frescos_;
interiormente, elegantes columnas cingem o recinto destinado aos mortos.
Estas arcadas são de uma leveza maravilhosa, constituidas por duas finas
columnas que emmolduram um pilar quadrado. A sua base assenta sobre a herva
verde e cuidada; o fuste desabrocha em ogivas que recortam flôres sobre o
azul do céo. Aos quatro cantos do prado elevam-se outros tantos cyprestes
enormes figurando guardas taciturnos dos sepulchros. Ao meio uma roseira,
opulentamente florida, balouça-se de encontro ao fuste de uma columna;
sorri aos mortos como um derradeiro amigo. Comecei a minha visita entrando
pela porta do occidente. Antes de examinar os _frescos_ attentei nas
sepulturas cavadas no solo que eu ia pisando: cavalleiros das cruzadas,
nobres, principes, cardeaes e monges estão ahi confundidos na terra.
Sarcophagos antigos descobertos nas escavações e mausoleos modernos avultam
de cada lado da galeria, traçando uma especie de alêa sepulchral.»

Como se vê, o _Campo Santo_ de Pisa não é tão despido de ornatos
esculpturaes como a referencia de Maximiliano poderia fazer suppôr. Eu acho
que o melhor de tudo seria adoptar a incineração, e ter cada um no seu
proprio lar as cinzas dos seus mortos queridos. Os romanos davam o nome de
_Columbaria_ aos nichos, abertos nas camaras sepulchraes, onde cabiam duas
urnas com cinzas, á semelhança de dois pombos em um ninho. D'aqui a origem
da palavra, que poderiamos traduzir por _pombaes dos mortos_. Sem embargo
havia tambem em Roma os sepulchros faustosos, de dois e tres andares. Mas o
que da civilisação dos romanos poderiamos adoptar era o systema da
incineração. Emquanto o não fazemos, o meu ideal de cemiterio é muito mais
exigente em simplicidade que o ideal de Maximiliano. Ha vinte e um annos
publiquei n'um poemeto infantil, que Castilho se dignou prefaciar, o
bosquejo de um cemiterio verdadeiramente christão, segundo o meu ideal:

  D'aldeia o cemiterio era modesto,
        Sem pompa e sem lavores:
  Ao centro, a cruz a dominar c'os braços
  O recinto dos mortos e os espaços...
        De resto... algumas flôres!

Isto, ou então os tumulos aereos da Australia, que o infeliz poeta
portuense Pedro de Lima descreveu por esse tempo:

  São bellos os tumulos
  D'Australia, suspensos
  Nos plainos immensos
  Á beira do mar.
  Alli o cadaver
  Pacifico dorme
  E a lua—olho enorme—
  O vem contemplar.

Para contrastar com a pagina melancolica em que discretêa sobre a morte,
dá-nos Maximiliano a descripção de uma burricada em Cacilhas, a pretexto de
um _lunch_, em que certamente foram convivas os officiaes da fragata
_Novara_, porque o archiduque diz-nos que nem elle nem os seus companheiros
de equitação sabiam uma palavra de portuguez.

Maximiliano não occulta os tormentos por que passaram as azemolas
cacilheiras apertadas sob os joelhos dos cavalleiros austriacos. Era, diz
elle, um _steeple-chase_ furibundo, de collegiaes em gazeio. Volteavamos a
galope—a galope! que sacrificio para um burro de Cacilhas!—punhamo-nos em
pé sobre a sella (queria dizer albarda) fazendo proezas de equilibrio mais
ou menos gracioso.

Os pobres burros é que não acharam decerto graça nenhuma á patuscada
furiosa dos austriacos. Mas vingaram-se, olá! porque um burro vinga-se
sempre. Cada burro de Cacilhas tem na vingança, mal comparado, o coração de
D. Pedro I. Pregaram com os austriacos no chão, enrodilharam-n'os na poeira
do caminho, fizeram d'elles, incluindo o archiduque, gato-sapato. Oh!
triumpho do patriotismo asinino sobre a tyrannia estrangeira! Desconfio que
os austriacos se deram finalmente por vencidos; pois que, desistindo da
perigosa equitação, se agruparam n'um pinheiral para almoçar,—_sur la
verdure_.

Quem imaginam os senhores que pretendeu estorvar-lhes o almoço? Os burros?
Parece á primeira vista, attendendo a que almoçavam sobre a verdura, e os
burros deviam ter fome. Não, senhores: foi uma velha, uma megera, diz
Maximiliano, que os descompoz e ameaçou. Faço idéa das bonitas coisas que a
velha lhes disse, e que elles decerto entenderam se a philippica da heroina
foi acompanhada dos respectivos gestos... philippicos.

Ora, naturalmente, a velha era a burriqueira, que vinha desaffrontar os
sendeiros escalavrados. N'aquelle tempo não estava ainda organisada, com
uma succursal em Cacilhas, a sociedade protectora dos animaes. A velha
demosthenava _pro domo sua: domo_ é synonymo de burro.

O que aconteceu? Os austriacos ouviram tudo a pé quedo, com a
impassibilidade de sphynges de Memphis, e então a velha, reconhecendo que
os estrangeiros não tinham... sangue nas veias, entendeu que seria
cobardia, deshonrosa para a Lusitania, correl-os a pau ou a pá, como fez a
sua compatriota Brites d'Almeida em Aljubarrota.

Mas quem sabe se a derrota soffrida em Cacilhas não contribuiu para azedar
a impressão com que Maximiliano sahiu de Lisboa!

As suas ultimas palavras são accentuadamente pessimistas. Acha que Lisboa
não tem caracter proprio. As edificaçoes apresentam aspecto allemão; as
_toilettes_ são parisienses; a educação nacional é ingleza. Lisboa, emfim,
é uma cidade de Marrocos, morta e triste. Culpa de tudo isto: os nevoeiros
frequentes, a frialdade do ar, e os capotes das mulheres! Uma verdadeira
descoberta do infeliz archiduque.

Achou-nos colonialmente decadentes, e n'isso não exaggerou. Mas, de
descoberta em descoberta, pareceu-lhe que o abatimento nacional provinha da
gordura hydropica dos nacionaes, que degenerava em lympha, e que nos
arrastava á doença e á morte.

«Quando a decomposição começa, peróra Maximiliano, a vida evapora-se e,
como diz o proverbio, «os ratos abandonam a casa que vai desabar.»

É uma ratice, que a historia desmente, porque nós ainda cá estamos, cada
vez mais... gordos,—excepto eu.

Maximiliano tambem passou na ilha da Madeira, que descreve, mas eu cerro
por aqui as suas impressões de viagem, para que o leitor não tenha motivo
de se malquistar commigo pela monotonia do assumpto.



VIII

DUAS IMPERATRIZES


I

A IMPERATRIZ EUGENIA

A viuva de Napoleão III é a filha mais nova do conde de Montijo, da familia
hespanhola dos Guzman, originarios de Granada, e da condessa de Montijo,
_née_ Kirk-Patrick, de origem irlandeza.

Sua irmã, a filha primogenita do conde de Montijo, casou aos dezoito annos
com o duque d'Alba, descendente dos Stuarts pelo marechal de Berwich. Foi
uma das estrellas da côrte de Izabel II. Deixou tres filhos: o actual duque
d'Alba, que casou com a filha do duque de Fernan-Nuñez: a duqueza de
Tamamés e a duqueza de Medina Cœli, que morreu alguns mezes depois de
casada.

Em 1860, a imperatriz Eugenia, estando na Algeria com o imperador, soubera,
depois de sahir de um baile, que a duqueza d'Alba tinha morrido. As duas
irmãs estremeciam-se, a imperatriz sentira profundamente a morte da
duqueza. Pela primeira vez experimentára a imperatriz uma dôr intima; fôra
esse, em meio da vida faustuosa das Tulherias, o primeiro golpe da má
fortuna.

Até ahi, a existencia de Eugenia de Montijo tinha sido um triumpho
ininterrompido de formosura e felicidade, a marcha gloriosa de uma mulher
incomparavelmente bella através da vida.

Fôra em 1840, depois dos acontecimentos de Strasburgo, que ella vira pela
primeira vez o principe Luiz Napoleão, que entrava preso em Paris. A
condessa de Montijo estava então com suas filhas na capital de França, e de
uma das janellas da Prefeitura de policia viram, a convite de madame
Delessert, mulher do Prefeito, chegar o principe.

A _toilette_ de Luiz Napoleão era n'esse momento simplesmente desastrosa. O
official da escolta, vendo-o desprevenido de roupa branca, offerecera-lhe
uma camisa que parecia ser de _onze varas_, não só porque a situação era
critica, mas porque, grande de mais para o principe, todo elle era camisa.

Ninguem poderia dizer, porém, n'esse momento, o que annos depois havia de
acontecer.

Já Luiz Napoleão era presidente da Republica quando, por occasião de um
baile no Elyseu, se encontrou com a condessa de Montijo, e com sua filha
Eugenia, condessa de Teba. Foi n'essa noite que principiou o romance de
amor. Luiz Napoleão ficou encantado com a bella castelhana.

Apesar de se estar em plena republica, o presidente fizera-lhe a _côrte_ na
côrte, porque o presidente rodeava-se de esplendores verdadeiramente
realengos. Preparava elle então o golpe d'estado, e dissera a Eugenia de
Montijo:

—Estamos em vesperas de grandes acontecimentos, e não quero sujeitar-vos ao
perigo das eventualidades. Voltai para Hespanha e, se eu triumphar,
convidar-vos-hei a vir occupar o throno da França.

Mademoiselle de Montijo respondera:

—Aconteça o que acontecer, serei vossa mulher. Se as vossas esperanças se
mallograrem, viveremos no meu paiz, talvez mais felizes do que no throno da
França.

Como se vê, a condessa de Teba respondera precisamente á pergunta... em
verdadeiro genitivo amoroso. Voltando a Hespanha, mademoiselle de Montijo
levava comsigo um talisman, que era o penhor da sua felicidade futura: um
alfinete que representava uma folha de trevo em esmeraldas, contornada de
brilhantes.

Tinha sido o premio com que a fortuna a favorecera n'uma loteria organisada
pelo presidente da republica em Compiégne. Conservou-o sempre, e só se
desapossou d'esse alfinete fatidico depois da morte do principe imperial.
Então, vendo desmoronado todo o castello das suas esperanças de mãi, disse
um dia, em Chislehurst, á duqueza de Mouchy:

—Considerei toda a minha vida este alfinete como um talisman encantado. Era
a minha mais querida reliquia. Não quero que fique abandonado: dou-vol-o
como um penhor de felicidade e de terna amizade.

A duqueza de Mouchy nunca mais deixou de trazer o alfinete da imperatriz.

Ascendendo ao throno imperial da França pelo processo que toda a gente
conhece, Luiz Napoleão, tres annos depois, em Janeiro de 1853, annunciava
aos poderes do estado a sua resolução de casar por amor.

O imperador proclamou no sentido de mostrar a inconveniencia dos casamentos
politicos, que serviam menos a estreitar as boas relações internacionaes do
que os processos de uma politica leal, que elle, aliás, diga-se a verdade,
nem sempre seguiu. A questão do Mexico é uma prova do que affirmamos.
Occupar-nos-hemos mais tarde d'este desgraçado acontecimento, quando
tivermos que fallar da imperatriz Carlota, a segunda imperatriz cuja
biographia bosquejaremos.

A proclamação do novo imperador terminava por estas palavras:

  «Venho, pois, meus senhores, dizer á França: Prefiro uma mulher que eu
  amo e que respeito a uma mulher desconhecida, cuja alliança apenas traria
  vantagens contrariadas por sacrificios. Sem desdenhar de ninguem, cedo á
  minha inclinação, mas só depois de ter consultado a minha razão e as
  minhas convicções. Finalmente, antepondo a independencia, as qualidades
  de coração, a honra de familia aos preconceitos dynasticos e aos calculos
  da ambição, não serei menos forte, porque serei mais livre.

  «Brevemente, dirigindo-me a Notre-Dame, apresentarei a imperatriz ao povo
  e ao exercito; a confiança que elles depositam em mim asseguram a sua
  sympathia por aquella que eu escolhi, e vós, meus senhores, desde que a
  conheçais, ficareis convencidos de que ainda d'esta vez fui inspirado
  pela Providencia.»

O casamento realisou-se na igreja de Notre Dame a 30 de janeiro d'esse
anno.

Uma tradição hespanhola diz que as perolas, com que no dia do casamento se
adornam as noivas, virão a converter-se em outras tantas lagrimas.

Eugenia de Montijo não deu importancia a esta tradição, e completou a sua
_toilette_ de noiva com um collar de perolas.

A tradição não mentiu d'esta vez.

A imperatriz vendeu o collar, com as suas outras joias, depois da guerra
franco-prussiana.

Os imperadores foram viver para o pequeno castello de Villeneuve-l'Etang,
que ainda está de pé no parque de Saint-Cloud.

Vinte e quatro horas depois do casamento, os noivos passeavam n'um phaeton,
que o imperador guiava, através dos bosques estrellados de neve, que um
bello sol de inverno doirava.

Que importava que a neve espelhasse a desolação do inverno, se os corações
dos noivos, ardentes de amor e florescentes de esperanças, cantavam o
epithalamio das suas nupcias, n'essa melopea intima que é a melodia do
silencio!

Eu estou soccorrendo-me de um livro já este anno publicado em França,
SOUVENIRS INTIMES DE LA COUR DES TUILERIES. Authora madame Carette, _née_
Bouvet. Madame Carette é neta do almirante Bouvet, e foi distinguida pela
imperatriz com muitas attenções por occasião da viagem dos imperadores á
Bretanha, em 1858. Mais tarde, madame Carette entrou nas Tulherias como
segunda leitora da imperatriz, porque a primeira era a condessa de Wagner
de Pons.

No fundo d'este livro revela-se uma pequena vaidade de mulher: a imperatriz
fizera reparo na então mademoiselle de Bouvet, quando a viu na Bretanha,
por a ter achado formosa.

Um traço final do livro trae um pouco a intenção da authora. Conta madame
Carette que em 1865, por occasião da cholera morbus, indo a imperatriz
visitar com a sua leitora os hospitaes, lhe dissera, no de Santo Antonio,
ao entrar n'uma enfermaria de variolosos:

—Não quero que entreis. Poderieis ficar feia, e ser-me-ia difficil
casar-vos.

Revela-se aqui a mulher, _Chassez le naturel, il revient au galop_.

As recordações de madame Carette teem, é certo, o peccado original da
parcialidade fanatica, da dedicação amavel, mas, em compensação, levantam o
véo da vida intima das Tulherias, e põem em evidencia alguns factos
interessantes do _ménage_ imperial.

Madame Carette não é precisamente uma estylista. Nas Tulherias o seu cargo
de leitora era apenas um pretexto. Não teve por isso occasião de cultivar
estheticamente o espirito com os primores litterarios de que a França é tão
opulenta. Mas escreve com a facilidade e elegancia que são proprias de toda
a mulher franceza bem educada.

Sob o ponto de vista da contextura historica, o livro é ás vezes descosido,
e outras vezes futil. Mas, descontado o que elle tem de parcial, de frivolo
e de truncado, offerece ainda assim um pequeno filão, que se póde explorar
com interesse.

Madame Carette, remontando-se a 1858, dá o seguinte retrato da imperatriz:

  «Era de estatura mais do que média; podia dizer-se alta. As feições
  regulares, e a linha extremamente delicada do perfil tinha a perfeição de
  uma medalha antiga com alguma coisa de intraduzivel, um peregrino encanto
  pessoal, que fazia com que se não podesse comparar a outra mulher; a
  fronte, elevada, e rectilinea, escanteava-se apertada, as sobrancelhas,
  longas e delicadas, eram um pouco obliquas; as palpebras, muitas vezes
  descidas, seguiam a linha dos supercilios velando os olhos pouco
  distanciados, o que era um caracteristico da physionomia da imperatriz:
  dois bellos olhos de um azul vivo e profundo, opulentos de sombra, de
  alma, de energia e de doçura; bastariam os olhos para dar relevo a uma
  physionomia. O nariz, descendo correctamente desde a raiz até ás fossas,
  finamente recortadas, denunciava uma raça aristocratica; a bocca,
  pequenissima, tinha contornos de uma graça exuberante, e um sorriso
  irresistivel animava essa bocca encantadora; os dentes eram brilhantes, o
  queixo descrevia uma curva delicada, que se dilatava contornando a face,
  nitidamente colorida, de uma brancura transparente. A pelle, muito fina,
  deixava vêr o tecido das veias, e fazia pensar no sangue azul da velha
  nobreza castelhana. O pescoço alto, esculptural. Os hombros, o peito e os
  braços lembravam uma estatua. A cintura estreita, mas redonda, os dedos
  afilados, os pés tão pequenos como os de uma creança de doze annos. O ar
  gracioso e nobre, cheio de distincção nativa. O andar facil,
  desembaraçado. Finalmente, uma completa harmonia entre a pessoa physica e
  a pessoa moral: n'isso estava, creio eu, o segredo do seu irresistivel
  encanto.»

Durante os primeiros tempos de casada, a imperatriz tivera dois móbitos. A
razão de estado fazia com que o imperador desejasse ávidamente um filho.

Quando pela terceira vez a imperatriz se achou gravida, o drama da
maternidade, chamemos-lhe assim, ameaçou, durante tres dias e tres noites,
um desenlace fatal. Para salvar o filho seria preciso arriscar a vida da
mãi. Consultado pelos medicos, o imperador respondeu n'esta dura
alternativa:

—Não pensem senão na imperatriz.

Como o momento fôsse decisivo, a obstetricia teve que ser precipitada, o
que prejudicou grandemente o organismo da imperatriz. Soube-se isto fóra
das Tulherias, e d'aqui nasceu certamente o boato calumnioso de que se não
pudera salvar o filho para garantir a existencia da mãi. Disse-se por essa
occasião que o principe imperial era uma creança qualquer que o imperador
adoptára para acautelar a estabilidade da dynastia. Mas tudo quanto se
passou depois, os carinhos da imperatriz para com o herdeiro do throno, a
sua dolorosa heroecidade na viagem á Zululandia, quando o joven principe
foi morto, provam ainda mais, e melhor; do que as affirmações de madame
Carette.

O que é certo é que, depois de tão laborioso parto, a saude da imperatriz
ficára muito affectada, a ponto de que sua magestade, segundo o testemunho
da sua leitora, _ne pouvait se soutenir que grâce à un appareil d'acier,
dissimulé sous ses vêtements_.

A fim de que a imperatriz podesse fazer a sua _toilette_ o mais
commodamente possivel, os vestidos desciam do andar superior por meio de
uma especie de _montecharge_. Este descensor mecanico, e um tubo acustico
que communicava com o guarda-roupa, poupavam muito tempo, e incommodo para
a imperatriz.

Pois tambem o descensor serviu de cavallo de batalha para a maledicencia
dos pamphletarios. Toda a gente sabe como o imperio de Napoleão III foi
politica e pessoalmente atacado. Vive ainda a senhora que, alvo de crueis
diffamações, se sentava a esse tempo no throno da França. Não está nos meus
habitos faltar ao respeito a ninguem, muito menos a uma dama que a desgraça
feriu. Mas nem mesma madame Carette se exime a recordar as calumnias que
por muitas vezes foram morder o manto da imperatriz.

É visivel a intenção com que madame Carette, referindo-se á princeza de
Metternich, embaixatriz de Austria, essa captivante _jolie laide_ que tanta
impressão causou em todo o Paris, escreve: «A imperatriz tinha uma grande
sympathia por esta mulher seductora, attraía-a a vivacidade do seu espirito
e conversava familiarmente com ella quando as circumstancias officiaes e
mundanas as reuniam; mas não havia intimidade entre ambas. Com excepção de
sua joven prima a princeza Anna Murat, depois duqueza de Mouchy, que a
imperatriz estimava muito, nenhuma outra mulher, além das damas de serviço,
a menos que se não desse uma circumstancia rarissima, era recebida nas
Tulherias sem audiencia.»

Foi o principe de Metternich que no dia 4 de setembro offereceu o braço á
imperatriz, que, como se sabe, teve que sahir precipitadamente das
Tulherias.

Renunciando depois d'isso á vida diplomatica, o principe reside algum tempo
em Vienna, com a princeza, ou nas suas terras da Bohemia. Hoje, a
encantadora princeza de Metternich, que tanto ruido fizera em Paris, pela
graça do seu espirito e pelo esplendor das suas _toilettes_, que mandava
buscar a Vienna ou que encommendava a Worth, o celebre _couturier_ do
imperio, tem a cabeça corôada de cabellos brancos, é avó.

Madame Carette, depois de rebater delicadamente a calumnia que o nome da
princeza de Metternich lhe suscitára, lembra que a imperatriz gostava de
vêr-se rodeada por uma côrte de mulheres bonitas. Ora madame Carette fazia
parte da côrte. Ah! nada se deve perdoar tão facilmente a uma mulher bonita
como o lembrar-se de que o foi, mesmo quando não o é já!


II

A côrte das Tulherias, descripta por madame Carette, revela a vida um pouco
frivola, e até um pouco mexeriqueira, de todas as côrtes, mas tinha a
vantagem de ser, quanto á belleza das damas que rodeiavam a imperatriz,
constituida em harmonia com a celebre phrase de Francisco I: uma côrte sem
mulheres é um anno sem primavera, e uma primavera sem rosas.

A _entourage_ feminina era numerosa, e gentil. Os lyrios da belleza
floresciam nas Tulherias como n'um jardim que a primavera esmalta. Madame
Carette esboça o perfil de todas as grandes damas que rodeiavam a
imperatriz Eugenia. Faz passar diante dos nossos olhos a viscondessa de
Aguado, marqueza de las Marismas, bella e espirituosa, mãi da duqueza de
Montmoreney, uma mulher elegante que morreu aos trinta annos. A insinuante
condessa de Montebello, que tinha sido a amiga intima da duqueza de Alba, e
que fôra embaixatriz em Roma, onde brilhára como estrella no corpo
diplomatico. Madame de Malaret, de uma rara elegancia de linha. A marqueza
de Latour-Maubourg, filha do duque de Trévise, sempre muito ciumenta do
marido. Um dia perguntaram-lhe o que ella faria se soubesse que o marido a
enganava. Morreria de espanto, respondeu a marqueza. A baroneza de Pierres,
que era a mulher da França que montava melhor a cavallo. A condessa de la
Bédoyère, uma _virtuose_ distinctissima, que tinha a belleza das mulheres
do tempo de Luiz XIV. Viuva em 1869, casou com o principe de Moskowa,
porque a sua belleza chegava á vontade para fascinar dois maridos. A
condessa de la Bédoyère tinha uma irmã, a condessa de la Poëze, e ninguem
como estas duas irmãs possuia em grau mais eminente o que póde chamar-se
_l'esprit des cours_. A condessa de Rayneval, formosissima, não casou
nunca: era _chanoinesse_ n'uma ordem da Baviera. Foi ella que serviu de
modelo para a Musa, que no celebre quadro d'Ingres corôa a cabeça de
Cherubini. A baroneza de Viry-Cohendier, em cujo rosto brilhavam dois
olhos, que pareciam carbunculos. A princeza Anna Murat, d'uma belleza
loira, fresca, primaveril. A duqueza de Malakoff, o mais puro typo da
belleza andaluza. A duqueza de Morny, uma flôr de neve da Russia, colhida
pelo duque que alli fôra embaixador, e que representára olympicamente a
França na coroação do czar Alexandre II. A duqueza de Persigny, loira como
Daphne. A esta pleiade de mulheres encantadoras viera reunir-se, nos
ultimos dez annos do imperio, a famosa princeza de Metternich. E occupando
o centro d'este systema planetario de bellezas femininas, um sol: a
imperatriz.

Havia nas Tulherias um _salão azul_ que a imperatriz quizera dedicar
exclusivamente á belleza, povoando-o com os retratos das mais formosas
damas da sua côrte. Nas telas que revestiam as paredes, cada dama
personificava uma das grandes nações da Europa. A princeza Anna Murat
representava a Inglaterra, a duqueza de Malakoff a Hespanha, a duqueza de
Morny a Russia, a condessa Walewska a Italia, e no meio de toda esta
constellação desenhava-se o perfil da imperatriz sobre um medalhão
sustentado por figuras allegoricas.

O incendio das Tulherias, depois da quéda do imperio, carbonisára essas
notaveis télas, de que ficaram apenas, aqui, alli, fragmentos indemnes,
vestigios d'esses retratos que resumiam toda a graça feminina da França
imperial.

De resto a vida das Tulherias agitava-se nas mil intrigasinhas e
rivalidades de que as mulheres, ainda que sejam encantadoras, não sabem
emancipar-se. Eram frequentes as tempestades n'um copo d'agua. Por exemplo.
Um anno, no dia da festa da imperatriz, a 15 de novembro, resolveu-se fazer
quadros vivos, reproduzir o _Déjeuner champêtre_ de Watteau. Foi a princeza
de Metternich, que tinha uma rara habilidade para este genero de
divertimentos, quem ficou encarregada da distribuição dos personagens e dos
_costumes_.

A duqueza de Persigny devia entrar no quadro, mas, não tendo gostado do
_costume_ que a princeza lhe distribuíra, declarou que se vestiria a
capricho, e que appareceria com os cabellos soltos,—uns bellos cabellos
loiros, opulentos como uma floresta.

—Quero, dizia a duqueza, que me vejam o cabello.

—É impossivel! replicava a princeza de Metternich. Isso desarranja o
quadro!

A condessa insistia com a terrivel logica que até nos caprichos é um dos
poderosos apanagios do seu sexo:

—Nós fazemos isto para nos divertirmos, e a mim diverte-me apparecer com o
cabello solto.

—Nada, não! Ou a condessa ha de submetter-se como nós todas, ou não entra
no quadro.

Mas a condessa continuou a reagir.

A princeza de Metternich, exasperada, correu ás Tulherias, foi levar ao
conhecimento da imperatriz este grave negocio de estado.

A imperatriz sorriu, e aconselhou:

—Deixe lá, princeza. É uma novidade que talvez produza effeito.

—É uma festa estragada!

—Mas, princeza, o que quer fazer? A condessa, de qualquer modo que
appareça, ha de ser sempre bonita. Seja indulgente com ella. De mais a mais
sabe que a mãi de madame de Persigny está doida?

—Ah! ripostou a princeza. A mãi de madame de Persigny é doida? Pois meu pai
tambem o é. Não cederei.

E assim era, realmente. O conde Chandor, pai da princeza de Metternich, que
era o melhor _sportman_ da Europa, avariou o cerebro á força de trambolhões
com que se vingavam do seu calção audacioso os cavallos insubmissos.

Outro exemplo das mil _coisissimas nenhumas_ que preoccupavam ás vezes a
côrte das Tulherias.

A condessa de Wagner, que tinha setenta annos, mas que havia sido uma
bonita mulher, appareceu uma vez nas Tulherias com uma cabelleira loira
similhante á que a Schneider exhibia na _Bella Helena_.

Madame Carette desatou a rir quando a viu, e a imperatriz, que n'esse
momento sahia do seu gabinete, quiz saber o motivo de tamanha hilaridade.
Madame Carette disse-lh'o, e a imperatriz quiz vêr, através de uma vidraça,
a cabeça de Medusa da condessa de Wagner. Viu, e tambem desatou a rir. Mas,
passado o primeiro momento, ordenou a madame Carette:

—Diga da minha parte á condessa que lhe peço para tirar immediatamente a
cabelleira. Que ridiculo para a minha côrte, se se soubesse!

Nem nas altas espheras sociaes o espirito feminino perde a fragilidade
pueril que lhe é propria. A imperatriz, que dirigiu muitas combinações
politicas, e que para esse effeito era sempre a mulher do imperador,
deixava-se enleiar muitas vezes, como qualquer simples mortal, nas espiras
d'essas duas serpentes graciosas que se enroscavam nos seus nervos de
mulher: o sangue de hespanhola e a frivolidade parisiense.

Sempre que o ciume lhe cravava no coração a garrasinha adunca, apparecia na
imperatriz a mulher, e só a mulher.

O imperador que, como sabemos, tivera pela imperatriz uma paixão de Romeu,
principiára, dentro da primeira década da vida conjugal, a morder a maçã do
paraiso terrestre.

Ora a condessa de Castiglione, filha das primeiras nupcias do marquez de
Oldoini, ha pouco fallecido, fizera sensação quando pela primeira vez
appareceu n'um baile _costumé_ das Tulherias. A condessa ainda vive hoje.
Deve estar velha, como todas as bellas damas d'aquelle tempo, mas a sua
belleza era, em 1860, a de uma estatua grega, esculptural, posto que dura.

A imperatriz ardia em ciume por causa da condessa de Castiglione, que
conseguiu distanciar da côrte. N'um dos ultimos bailes das Tulherias, em
que a imperatriz appareceu em _costume_ de Marie Antoinette,—a imperatriz
teve sempre uma viva sympathia pela memoria de Marie Antoinette,—a condessa
de Castiglione, que não tinha sido convidada, foi reconhecida n'uma
esplendida _toilette_ negra, de viuva, representando _Marie de Medicis_. A
imperatriz, sabendo que era a condessa, mandou-lhe ordem por um camarista
para que sahisse immediatamente.

Em 1860, o principe Jeronymo déra uma festa no Palais-Royal em honra da
imperatriz, que deslumbrou todos os olhos quando entrou na sala com um
vestido de tulle branco e uma grinalda de violetas de Parma, porque a
imperatriz fez da violeta a flôr imperial.

Á uma hora da noite sahiam o imperador e a imperatriz, encontrando-se na
escada com a condessa de Castiglione.

—Chega muito tarde, condessa! disse-lhe galantemente o imperador.

—Sois vós, sire, que sahis muito cedo! respondeu a condessa.

Póde calcular-se a scena de ciume que se passára dentro do _landeau_
imperial, caminho das Tulherias.

Li ha dois dias um livro de Philibert Audebrand, UN CAFÉ DE JOURNALISTES
SOUS NAPOLEÃO III, em que toda a historia dos amores do imperador com a
condessa de Castiglione é contada sem refolhos, até com visivel acrimonia,
que é a nota predominante de todo o livro.

Essas relações amorosas, segundo Audebrand, chegaram até ao ponto de a
imperatriz partir precipitadamente para a Escocia com a duqueza de
Hamilton, tendo voltado a Paris só depois da promessa formal do imperador
de que romperia com a sua amante.

De passagem, um traço da vida conjugal da condessa de Castiglione. O marido
não pudera nunca reconcilial-a com a sogra, a marqueza de Castiglione. Um
dia em que ambos sahiram de trem, o conde dera secretamente ordem ao
cocheiro para conduzil-os a casa da marqueza. A condessa percebeu a
intenção reservada do marido e, descalçando furtivamente os sapatos, no
momento de passarem uma das pontes do Sena, atirou-os ao charco.

E, voltando-se para o marido:

—Quero crêr que me não forçarás agora a fazer visitas descalça!

Mas, sempre que os nervos da mulher estavam tranquillos, a imperatriz
reapparecia com todos os seus instinctos de interesse dynastico, porque a
imperatriz adorava o filho.

Era ella que recolhia e colleccionava cuidadosamente, todos os dias, os
papeis politicos do imperador.

—Eu sou, dizia a imperatriz referindo-se á correspondencia das Tulherias,
como um rato que apanha as migalhas do imperador.

Toda a correspondencia pôde ser salva, e a imperatriz tem-n'a conservado
religiosamente.

Deve ser interessantissima, mas, nas mãos da imperatriz, é uma arma
partida. Não é preciso que a doblez dos caracteres se affirme por
documentos: essa prova é inutil. Todos sabemos como em todos os tempos e
lugares o caracter humano varía com a altura do sol. Mas no occaso da sua
grandeza, a imperatriz ainda conseguia encontrar algumas dedicações
inabalaveis. Citarei desde já dois nomes: o duque de Bassano, e mr. Rouher.

A imperatriz teve, na politica imperial, uma acção energica. O general
Trochu attribue-lhe a desgraçada operação franco-hespanhola do Mexico, que
desacreditou o imperio, e a desastrosa guerra de 1870, diante da qual
Napoleão III recuava instinctivamente.

Mas, sob o ponto de vista politico, Trochu, apesar de ter procurado
defender-se no tribunal do Sena, e n'um grosso volume, que tenho presente,
de todas as accusações que o _Figaro_ fizera ao governador de Paris,
Trochu, repito, é um pouco suspeito.

A imperatriz viu sempre n'elle um orleanista. Não sei se tinha razão. Mas a
impressão que me ficou de todo o livro de Trochu, um enorme volume de mais
de 500 paginas, é que a imperatriz foi muito abandonada, na hora do perigo,
pelos elementos officiaes que tinham feito a sua carreira á sombra das
Tulherias. Só o almirante Jurien se offereceu para acompanhal-a; só madame
Mebreton Bourbaki a acompanhou. O maior auxilio recebeu-o de dois
estrangeiros: o embaixador de Austria, principe de Metternich, e o
embaixador de Italia.

Não admira que a imperatriz, arrastada pelo seu caracter energico de
hespanhola, se envolvesse nos negocios politicos. Ha uma phrase sua, que a
define. Os prussianos avançavam sobre Paris, o general Trochu parecia
desalentado, mas a imperatriz dissera-lhe:

—_Eh bien, si les prussiens arrivent, j'irai moi-même sur les remparts, et
là je montrerai comment une femme sait braver le danger, quand il s'agit du
salut du pays._

Mas as horas do imperio napoleonico estavam contadas.

A Providencia ia ajustar as suas contas, em nome de Maximiliano, com
Napoleão III e com o marechal Bazaine, e a imperatriz Eugenia, sobrevivendo
a estes dois actores responsaveis da tragedia do Mexico, principiava a vêr
cahir do ceu as primeiras sombras da sua longa noite de agonia.


III

Os aposentos particulares da imperatriz Eugenia, no palacio das Tulherias,
compunham-se de uma série de dez salas, que davam sobre o jardim.

Entrava-se pelo salão dos alabardeiros, a guarda nobre da imperatriz,
commandados por mr. Bignet, a quem as damas do palacio chamavam jovialmente
_la trezième dame du palais_.

Era o chefe dos alabardeiros que inscrevia os nomes das pessoas que
pretendiam ser recebidas pela imperatriz e, se as damas de serviço
faltavam, elle proprio dava conta a sua magestade imperial do numero e
qualidade das pessoas que solicitavam audiencia.

Bignet era um homem discreto, e muito dedicado á imperatriz; guardava
sempre rigoroso silencio sobre as resoluções que a imperatriz lhe
communicava, mas as damas da côrte tiravam pelos domingos os dias santos, e
penetravam ás vezes os segredos de Bignet.

Por exemplo. A imperatriz não dispensava nunca do seu serviço de meza
alguns objectos de estimação, entre os quaes havia uma pequena caixa de
chá, de prata dourada, que tinha pertencido a Napoleão I. Quando este
elegante objecto não apparecia alguma vez, as damas subentendiam que a
imperatriz projectava uma viagem, e que mr. Bignet já tinha preparado as
bagagens. Mas a caixa de chá reapparecia, e as damas ficavam sabendo que o
projecto de viagem havia sido posto de parte. Bignet acompanhou a
imperatriz ao exilio; e morreu em Inglaterra, inconsolavel pela queda do
imperio.

Ao salão dos alabardeiros seguia-se a sala das damas, pintada a fresco
sobre um fundo verde. O tecto representava uma enorme _corbeille_ de
flôres. A mobilia, estylo Luiz XVI, era de madeira dourada com estofos
Gobelins. N'esta sala, como o seu nome indicava, estacionavam lendo,
conversando, bordando, as damas de serviço.

Passava-se d'este a outro salão, côr de rosa, profusamente ornamentado de
flôres: o tecto, representando Flora em triumpho, tinha sido pintado por
Chaplin.

O salão _rose_ communicava com o salão azul, a que já tivemos occasião de
referir-nos, e cujas paredes eram revestidas pelos retratos das mais bellas
damas da côrte, symbolisando as grandes nações da Europa.

Era n'este salão que a imperatriz dava audiencia, destacando-se a sua
gentil figura n'uma atmosphera de saphira, que fazia lembrar o firmamento,
porque a luz passava através de _stores_ de _gaze_ azul, adaptados ás
janellas.

Seguia-se ao salão azul o gabinete da imperatriz. Era ahi que a primeira
dama da França lia, escrevia, colleccionava os papeis do imperador,
rodeiada de todos os objectos queridos que podiam fallar-lhe ao coração,
avivar-lhe uma memoria, despertar-lhe uma saudade.

Forrado de sêda _mate_, com largas bandas de um verde suave, a mobilia
capitonada, as cortinas côr de purpura, as portas de acajú com ferragens de
cobre dourado, tal era o gabinete particular, o aposento predilecto da
imperatriz.

Sobre o panno principal da parede pendia o retrato do imperador, corpo
inteiro, de casaca, pintado por Cabanel. Exactissimo de semelhança. Á
esquerda do fogão, um retrato da duqueza d'Alba coberto de _gaze_ ligeira,
como sorrindo através de uma nuvem. Entre as janellas, o retrato da
princeza Anna Murat, pintado por Winterhalter. E por toda a parte, aqui,
alli, mil obras primas do Oriente e do Occidente, uma bella estatua de
mulher em marmore branco—_A Estrella_,—porque tinha uma estrella na fronte
e, entre as recordações carinhosas, muitos objectos que tinham pertencido á
duqueza d'Alba, e o chapeu, todo crivado, que o imperador levava na noite
do attentado Orsini. A pintura tinha, no gabinete particular da imperatriz,
um grande dominio. Havia um notavel quadro de Hébert, representando
mulheres italianas n'uma fonte subterranea; e um cordão de sêda, pendente
da parede, esperára durante algum tempo por um quadro de Cabanel. Mas o
pintor demorára-se e, n'um dia de recepção, a imperatriz, conduzindo-o ao
seu gabinete, dissera-lhe:

—Esta lacuna contraria-me. Ou me mandais depressa um quadro ou eu vos mando
pendurar n'aquelle cordão,—em vez do quadro.

Cabanel tomou em consideração esta jovialidade da imperatriz, e enviou-lhe
um primoroso quadro biblico,—Ruth, de tunica azul, coberto o rosto por um
longo veu negro.

A imperatriz gostava muito de lêr sentada n'um _fauteuil_, junto do fogão e
contra a luz, com os pés pousados n'uma cadeira mais baixa e inclinada.

Um biombo de sêda verde resguardava-a das correntes da luz e do ar.

Era n'esta posição que a imperatriz escrevia ordinariamente, com uma penna
de pato, pondo o papel sobre os joelhos.

Ao alcance da mão havia uma pequena meza com livros, os mais queridos e,
não longe, n'uma grande meza aberta, todo o trem de desenho, os pinceis,
papel, caixas de tintas, porque a imperatriz tinha grande facilidade para a
aguarella.

Seguia-se um outro compartimento destinado a bibliotheca, povoado de obras
escolhidas na litteratura franceza, ingleza, hespanhola e italiana, linguas
que a imperatriz fallava com destreza. Á mistura com os livros, muitos
primores artisticos: Wouwermans de um valor incalculavel. E numerosos
retratos, do conde de Montijo, do imperador, do principe imperial, da
rainha da Hollanda, da rainha Sophia, etc.

Sahindo-se d'este compartimento, atravessava-se uma ante-camara sem
janella, apenas illuminada por uma lampada accesa de noite e de dia. Vinha
dar a esta ante-camara, que era o esconderijo dos papeis das Tulherias, a
pequena escada que descia directamente para os aposentos do imperador.
Todos os papeis, numerados e alphabetados, estavam ahi guardados n'um
armario secreto.

D'esta ante-camara passava-se a uma vasta sala, allumiada por tres grandes
janellas rasgadas sobre um balcão: era o gabinete de _toilette_ da
imperatriz, todo coberto d'espelhos. A meza de _toilette_ tinha guarnições
de renda branca e sêda azul. E do tecto descia, por um engenhoso
machinismo, a que já tivemos occasião de alludir, o _monte-charge_ que
trazia os vestidos de que a imperatriz precisava.

Uma saleta com uma só janella communicava o gabinete de _toilette_ com o
quarto de cama, dividido em duas peças por um tabique em que, sobre um
fundo de ouro, florejavam pinturas de delicado gosto. Era ahi que estava o
oratorio particular da imperatriz, disfarçado, porque o tabique abria em
dois batentes, para os actos do serviço divino. Foi n'esse oratorio que o
principe imperial commungou pela primeira vez, e que, no dia 4 de setembro
de 1870, a imperatriz ouviu missa, pela ultima vez, nas Tulherias.

O quarto de cama era de uma magnificencia verdadeiramente olympica. No
tecto, grandes molduras douradas inquadravam antigas pinturas allegoricas.
O leito, afofado de ricos estofos, e erguido sobre um estrado, era mais um
throno do que um leito.

Reliquias preciosas velavam o somno da imperatriz: a rosa de ouro que lhe
enviára Pio IX por occasião do baptisado do principe imperial, e o vaso,
tambem de ouro, cheio de folhas e flôres do mesmo metal, finamente
cinzeladas, que o Pontifice costumava offerecer aos seus afilhados de
baptismo. Além de que, todos os annos, em domingo de Ramos, uma palma
abençoada pelo Padre Santo vinha de Roma para o espaldar do leito da
imperatriz.

Na côrte das Tulherias havia, como em todas as côrtes, um horario que
apenas as grandes solemnidades officiaes faziam alterar.

Jantava-se ás sete horas e meia.

O pessoal de serviço esperava os imperadores no salão Apollo, illuminado
por tres grandes lustres, que faziam reverberar o ouro do _plafond_,—uma
glorificação de Apollo com as nove musas.

Este salão ficava entre o _branco_ ou do primeiro Consul, assim chamado por
ter um magnifico retrato do general Bonaparte, e a sala do throno, que era
preciso atravessar para chegar ao salão de Luiz XIV,—a sala da meza.

Pouco depois das sete horas, o imperador subia aos aposentos da imperatriz,
e desciam ambos ao salão de Apollo com o principe imperial, que tinha lugar
á meza do estado desde os oito annos. A imperatriz dava ordinariamente a
mão ao principe. Entrando no salão, a imperatriz cumprimentava com um
sorriso e uma mezura as pessoas da côrte, como n'uma ceremonia official.
Logo que o mordomo do palacio se inclinava silenciosamente diante do
imperador, annunciando o jantar, o imperador, dando o braço á imperatriz,
dirigia-se para a sala de Luiz XIV, e os dignitarios da côrte davam o braço
ás damas, seguindo-o.

O imperador e a imperatriz sentavam-se á meza, junto um do outro. O
principe imperial á esquerda do imperador, o ajudante de campo do imperador
á direita da imperatriz, a primeira dama de serviço ao pé do principe
imperial, a segunda dama á direita do general Rolin, seguindo-se os outros
commensaes, entre elles os officiaes da guarda das Tulherias.

Por detraz da cadeira do imperador e do principe imperial postava-se um
alabardeiro. Por detraz da cadeira da imperatriz, além de mr. Bignet,
commandante da sua guarda, ficava Scander, um joven negro, que tinha vindo
do Egypto, e que, emplumado e armado, produzia um bello effeito decorativo.

Scander tinha um grande orgulho da sua posição, e não obedecia a ninguem
senão á imperatriz.

Um dia passeava elle no Jardim das Tulherias, e lembrou-se de macaquear os
gestos e meneios de um desconhecido qualquer, que, não gostando da parodia,
o admoestou. Mas Scander respondeu-lhe com um pontapé, e o desconhecido,
filando-o por uma orelha, desancou-o com a bengala.

Furioso, mas poltrão, Scander gritava:

—Deixe-me, que eu sou o filho da imperatriz...

O serviço da cosinha era feito por meio de ascensores, e executado com
grande regularidade e presteza.

O salão de Luiz XIV tinha uma grande meza, e ao fundo, sobre o fogão, um
busto monumental d'aquelle soberano, além de um retrato do mesmo rei,
pintado por Lebrun, de um retrato de Anna d'Austria, e de um quadro
representando a apresentação do duque de Anjou aos embaixadores hespanhoes.

Depois do jantar, os imperadores dirigiam-se com a sua _entourage_ para o
salão d'Apollo, onde se servia o café, que Napoleão III tomava sem
sentar-se fumando cigarrilhas.

Era geralmente n'esta occasião que o imperador conversava com os officiaes
da guarda. Toda a côrte se conservava tambem de pé, mas o imperador
convidava quasi sempre as damas a sentarem-se. Fazia-se então circulo,
fallava-se principalmente dos acontecimentos do dia, o marquez de
Havrincourt, o barão de Pieres, o duque de Trévise, dignitarios da côrte e
deputados, commentavam os episodios da sessão do dia. A imperatriz era a
alma, a alegria, a graça d'este circulo de conversação. O imperador acabava
por _fazer paciencias_, e, para entreter o principe imperial, a côrte
jogava algumas vezes o loto, marcando o imperador os seus cartões com
moedas de 50 _centimes_, novas em folha.

Oh! ceus! quem havia de dizer, nos tempos aureos do imperio de Napoleão
III, que os pamphletarios descreviam como nadando nos prazeres de uma orgia
ininterrupta, que ás nove horas da noite, no salão Apollo das Tulherias,
estava a côrte, os imperadores á frente, entregando-se paradisiacamente ao
patriarchal loto, como a essa mesma hora acontecia decerto, em Portugal, na
botica de Castro Daire e no club de Olhão!

Ás dez horas os creados punham, n'uma pequena meza, o serviço de chá, que
as damas faziam. Madame Carette escreve textualmente: «Havia um bulle de
chá de laranjeira que tinha um grande successo entre os homens, e n'um
canto do salão um _plateau_ com refrescos e café gelado. Geralmente o
imperador retirava-se depois de ter tomado uma chavena de chá.»

Então a conversação animava-se mais, estimulada pela imperatriz, que a
prolongava até ás onze e meia.

Os adversarios do imperio atacaram vivamente as festas das Tulherias, os
quadros vivos de Compiégne; aqui tenho eu ao pé de mim Philibert Audebrand,
que me diz ao ouvido, applicando-a a Nopoleão III, a celebre phrase de
Agnés Sorel a Carlos VII:

—Não se perde mais alegremente um reino!

Mas, fóra das grandes festas, não me parece que o loto das Tulherias,
marcados os algarismos com moedas de 50 _centimes_, seja babylonicamente
escandaloso. Um certo conego conheci eu em Braga que, sem ter um throno na
Sé, marcava os seus cartões com peças de 8$000 reis, e este mesmo conego
tambem não desgostava de quadros vivos porque o vi, passados annos,
assistir no Porto a um espectaculo de lanterna magica, realisado pelo Tasso
(não confundir com o poeta nem com o actor) no theatro de S. João.

E o que aconteceu?

O conego—Deus o tenha lá!—morreu muito bem descançado na sua conezia. As
gazetas nunca fallaram d'elle senão para lhe rezar uma necrologia
louvaminheira. Mas Napoleão III perdeu a corôa, o que não aconteceu ao
conego, foi descomposto pelas gazetas, crivado de epigrammas, e acabou no
exilio.

Quanto a epigrammas, até os proprios parentes lh'os faziam. Lembro-me agora
de um, que é do marido da princeza Clotilde, mais conhecido por uma alcunha
grotesca.

Na noite do seu casamento com a condessa de Teba, disse-lhe Napoleão III
que estava muito constipado.

O primo respondeu-lhe:

—_Couche-toi avec tes bas (Tebá) cette nuit, et ça passera._

Foi talvez o unico epigramma que não soube mal a Napoleão III...


IV

Conhece-se, nos seus pormenores, a desastrosa morte do filho da imperatriz
Eugenia na Zululandia. Foi esse acontecimento que desfolhou no coração da
viuva de Napoleão III o ultimo _bouquet_ das suas esperanças, que ella
podéra salvar na revolução de 4 de setembro. Restava-lhe apenas, a
prendel-a ao mundo e a ligal-a ao futuro, esse joven principe que sempre
adorou, e que bem poderia vir a rehaver um dia o throno dos Napoleões. O
desejo de apressar a hora da _revanche_ napoleonica, um sonho de mulher
n'uma noite agitada, preparára, com mais precipitação do que acerto, a
partida do principe Luiz para a Zululandia. Contou decerto a imperatriz com
o effeito vantajoso que poderia despertar no animo enthusiasta dos
francezes a noticia de que seu filho se havia batido com denodo, embora por
um paiz estranho; e depois, como a Zululandia não estava precisamente na
fronteira da França, mas era uma região longinqua da Africa, seria possivel
exaggerar um pouco hyperbolicamente os triumphos do principe,
sobredoiral-os com o prestigio que a distancia costuma dar ás pessoas e aos
factos.

Mas este projecto de rehabilitação politica, que tinha brotado no espirito
ou no coração da imperatriz, offerecia perigos que a precipitação da
partida não deixou antever. Foram porém os perigos que triumpharam sobre as
esperanças. Foi o reverso da medalha, não devidamente estudado, que
triumphou sobre o anverso. A catastrophe da Zululandia apagou o ultimo
rescaldo do imperio napoleonico, e desde essa hora a imperatriz Eugenia,
sem familia, sem esperanças que a prendam á existencia, vendo cahir a seu
lado, velhos e doentes, os amigos mais dedicados do imperio, tem assistido,
como Carlos V, aos seus proprios funeraes, porque sobrevive a si mesma.

Esta é a ultima phase dolorosa da sua vida, que resgata largamente os erros
commettidos durante os dias gloriosos do fastigio do imperio.

Eugenia de Montijo amava ternamente seu filho, que tinha sido educado,
ainda que com extremo carinho, na tradição militar de Napoleão I.

Fôra miss Schaw, uma ingleza, que recebêra o encargo de ser a aia do
principe, por quem tinha uma dedicação fanatica.

Misturando o francez com o inglez, nunca o tratára senão por _My Prince_, e
o pequeno Napoleão pagava-lhe exuberantemente a ternura com que miss Schaw
o tratava.

De tudo quanto eu tenho lido a respeito do principe Luiz, infiro que era
uma boa e nobre alma a sua. Não encontrei ainda nota discordante que
depreciasse o seu caracter ou amesquinhasse a grandeza fidalga do seu
coração.

Um dos jovens amigos do principe foi Luiz Conneau, filho de um medico muito
estimado nas Tulherias. A amizade d'estas duas creanças passava ás vezes,
como era natural, por pequenas tempestades, amúos infantis, que terminavam
sempre por um abraço de reconciliação. N'um dia de banquete official nas
Tulherias, a que o principe, em razão da sua idade, não devia assistir,
foi-lhe permittido jantar, nos seus aposentos, com Luiz Conneau. O
principe, sabendo que o seu amigo apreciava gulosamente um gelado de
morango, pedira que lh'o servissem.

O dia, que era de feriado para ambos, havia corrido na melhor intimidade
d'este mundo, mas, de repente, uma pequenina dissidencia explodira entre os
dois amigos. Luiz Conneau amuou-se, e não houve forças humanas que o
podessem deter nas Tulherias. O principe ficou muito sentido com a partida
brusca do seu amigo, mas, quando ao jantar lhe serviram o gelado de
morango, encheram-se-lhe os olhos de lagrimas, e ordenou ao criado que o
servia:

—Leva d'este gelado ao Conneau, e dize-lhe da minha parte que elle foi um
ingrato em deixar-me.

Toda a educação do principe Luiz obedecia ao desejo de continuar n'elle a
gloria militar do primeiro Napoleão, porque o imperio reconhecia que, em
face dos seus inimigos, precisava retemperar-se com a tradição historica.

Aos oito annos, o principe Luiz montava já a cavallo, e quando sobre um
bonito poney Bouton d'Or passava revista ás tropas ao lado do imperador,
conhecia-se, na sua physionomia radiosa, que o lisonjeava esse bello
espectaculo militar, com cujo prestigio haviam deslumbrado a sua imaginação
infantil.

Como vestia o uniforme de _caporal_ do primeiro regimento de granadeiros da
guarda, tudo se conseguia d'elle, se fazia alguma maldadesinha,
dizendo-lhe:

—_Ne faites pas cela, Monseigneur; vous deshonoreriez l'uniforme._

E o principe aquietava-se.

Fôra seu mestre de equitação mr. Bâchon, homem alegre, de molde a fazer-se
estimar d'uma creança.

Madame Bruat tinha na côrte o elevado cargo de _gouvernante des enfants de
France_, era a preceptora do principe, mas a imperatriz seguia a par e
passo a educação de seu filho.

Em 1867, estando a côrte em Biarritz, encontraram-se mãi e filho n'uma
situação difficil, nada menos que um naufragio.

Tinha-se planeado um passeio a bordo do _Faon_, «pequeno aviso» a vapor, e
o abbade Bauer, que fôra n'esse dia a Biarritz, quiz ser do numero dos
excursionistas. O imperador não gostava de embarcar; não acompanhou por
isso a imperatriz e o principe.

A primeira parte da viagem, ate S. Sebastião, correu sem incidente. Mas
levantou-se vento, e o commandante do _Faon_ declarou que não poderiam
desembarcar senão em S. João da Luz. Por este motivo a viagem teve que ser
mais longa do que se esperava, e a noite principiára a cahir. S. João da
Luz é um pequeno porto de pescadores, accidentado de rochedos, em que o
_Faon_ não poderia atracar. A imperatriz e o principe tiveram que ir para
terra n'uma canôa, com o almirante Jurien e o abbade Bauer, mas a força do
mar levara a pequena embarcação d'encontro a uma fraga, em que se
despadaçou. A imperatriz conservou-se, dentro d'agua, abraçada ao filho,
fluctuando com o auxilio de alguns dos marinheiros da canoa. E ternamente
dizia-lhe:

—Não tenhas medo, Luiz.

—Não, mamã, respondia o principe. Eu sou Napoleão.

Como era natural que acontecesse, foi o abbade Bauer quem, na opinião dos
marinheiros, aguentou a culpa do naufragio.

—Ou não trouxessemos padre a bordo!

A alma do principe Luiz era naturalmente affectiva.

Pela ama que o creára conservou sempre uma dedicação extrema. Até aos oito
annos, não queria adormecer sem que lhe pozessem sobre o travesseiro um
lenço de sêda da India e um retalho de velludo que tinham pertencido á ama.
Era uma superstição de creança. Miss Schaw tinha o maior cuidado em não
perder nunca de vista esses dois pequenos objectos tão queridos.

—_My prince_, dizia ella, _serait inconsolable_.

A respeito da ama do principe: Como todas as amas, sobretudo quando o são
de principes, tinha caprichos, velleidades. Mas como nas Tulherias houvesse
uma outra ama para um caso de urgente substituição, intimidavam-n'a
dizendo-lhe:

—Se está aborrecida, chama-se a outra.

Era como se se deitasse agua na fervura.

Aos oito annos, a _entourage_ do principe deixou de ser feminina.
Deu-se-lhe como preceptor mr. Monier, escolhido ainda segundo os velhos
processos da educação principesca. Mr. Monier era um classico obstinado,
que atravessava a côrte vergando ao peso da sua erudição um pouco fradesca.
Foi substituido por mr. Filon, que dirigiu a educação do principe antes e
depois da sua entrada na escóla militar de Woolwich.

Tendo cahido o imperio, o principe continuou o seu curso n'esta escóla,
onde os condiscipulos o tratavam familiarmente por Luiz. Completos os
estudos militares, foi residir com a imperatriz em Camden-House.
Levantava-se ás seis horas da manhã, tomava uma chavena de chá, e abancava
no seu gabinete d'estudo, até ás dez horas, com mr. Filon.

Em seguida dava um passeio a cavallo, com excepção dos dias em que
acompanhava a imperatriz, a pé, através de Chislehurst-Common, á pequena
igreja gothica de Saint-Mary. Ao domingo todas as attenções se fixavam na
mãi e no filho que iam juntos ouvir missa. A imperatriz já então
principiava a soffrer de rheumatismo articular; e o principe carinhosamente
a ajudava a descer da carruagem, amparando-a nos braços.

Em 1887 publicou-se em Paris, assignado por Charles de Bré, um livro que se
intitula LE ROMAN DU PRINCE IMPÉRIAL. Supponho que com razão se denomina
romance. Eu nem acredito na versão do padre Goddard, que, fallando do
principe morto na Zululandia, dizia _Virgo intacta_, nem acredito na
historieta, contada por De Bré, dos seus amores com miss Carlota Walkyns,
que, segundo o romance, houvera do principe um filho, que está em França a
educar.

Conta De Bré que as entrevistas do principe com miss Carlota se realisavam
no _magasin_ de mr. Floris, em _Jermin street_ n.º 80, e que ella ignorára
durante muito tempo a alta posição social do seu joven apaixonado.

Fôra por occasião do casamento do duque de Norfolk com lady Hastings que
miss Walkyns tivera a revelação d'esse segredo, porque até ahi, como
dissemos, ella desconhecia completamente a condição d'esse moço
estrangeiro, que vira pela primeira vez na estação de New Cross.

Mas, no dia do casamento do duque de Norfolk, miss Walkins surprehendêra o
seu bem amado a conversar familiarmente como o conde de Beaconsfield, e
esse facto impressionou-a vivamente.

Parece que a imperatriz alimentava o projecto de casar o principe imperial
com a princeza Beatriz, filha da rainha Victoria, mas por sua parte o
principe imperial alimentava a esperança de desposar miss Carlota, casando
por amor, como seu pai.

O _romance_ de Carlos De Bré foi contestado por algumas folhas
imperialistas, e, se assentasse n'um facto verdadeiro, esse facto teria
tido em toda a Europa uma notoriedade insistente. Não aconteceu assim. O
livro passou inspirando geral desconfiança sobre as affirmações que
aventava, e eu persisto em consideral-o mais como uma especulação de
livraria, protegida nos seus intuitos mercantis pelo nome de um principe
desventuroso, do que como a expressão exacta da verdade.

Do supposto filho do principe Luiz nunca os jornaes francezes nos tornaram
a fallar, e não é natural que a imprensa de Paris, tão ávida de
_reportage_, abandonasse esse rico filão de noticiario.

Com este artigo, que chega até á vida actual da imperatriz Eugenia no
melancolico retiro de Chislehurst, fechamos por agora a sua biographia.

Nas paginas seguintes occupar-nos-hemos da imperatriz Carlota do Mexico,
que ha tantos annos envelhece na demencia com que os seus incomportaveis
soffrimentos lhe obumbraram o cerebro.

A posição social aproxima estas duas illustres damas, ambas viuvas de
imperadores. Mas ha uma differença profunda entre ellas. Eugenia de Montijo
teve o seu dia de ruidosa gloria, viveu largos annos dominando a Europa na
côrte mais faustosa dos tempos modernos. A imperatriz Carlota não conheceu
nunca senão o conchego intimo do seu ninho de amor conjugal no castello de
Miramar, e a sua passagem pelo imperio do Mexico foi uma agonia em que
principiou por perder a coragem e acabou por perder a razão.


V

A IMPERATRIZ CARLOTA

A historia do imperador Maximiliano e da imperatriz Carlota parece moldada
sobre a tradição biblica de Adão e Eva no paraizo terreal.

Todas as delicias da creação se accumulavam no éden n'aquella primitiva
profusão de luz, de aromas, de flôres, de musicas, que, exuberantemente
creadas, irrompiam ainda em tumulto desordenado, á espera da lei reguladora
da existencia terrena. Todas as maravilhas paradisiacas, pujantes de vida,
deviam ser eternas e imperturbaveis, e Adão e Eva, dominando, n'uma
felicidade virginal, a esphera crystallina onde o sol ensaiava timidamente
o primeiro vôo das suas azas de ouro, deviam viver eternamente n'uma
felicidade casta e perenne. Mas a tentação viera, perfida serpente,
espiralar-se na arvore do bem e do mal, enroscando-se no tronco, colleando
para a fronde d'onde pendia o pomo prohibido, prematuramente sazonado pela
intensidade do sol e pela força creadora da terra. Então o par ditoso, cuja
felicidade devia ser absoluta e immutavel, attrahido pela cupidez da
serpente tentadora, disputou-lhe o pomo, colheu-o, provou-o, e, julgando
ter vencido a serpente, viu-se de subito vencido por ella. Desde essa hora
foi marcado um limite terrivel á felicidade humana, a existencia tornou-se
ephemera e dura, e tudo quanto havia nascido para viver foi condemnado a
viver para morrer.

O paraizo terreal de Maximiliano e Carlota era o castello de Miramar, a uma
legua de Trieste, erguido sobre um promontorio pittoresco, que só avistava
a pureza lucida do ceu infinito e a pureza cerulea do mar immenso. Nunca o
vôo de uma ambição havia cortado o horisonte luminoso do firmamento e do
oceano, nunca a aza de um sonho audacioso havia posto um traço negro no
espelho nitido das aguas e do ar.

O archiduque Maximiliano, commandante da marinha austriaca, era um homem do
mar, que, comquanto houvesse viajado desde o Oriente ao Occidente, desde a
Asia Menor a Portugal, amava a solidão tranquilla, a concentração placida e
meditativa a que a natureza, em pleno mar, convida o espirito. Um dia,
encantado pelo aspecto do promontorio que, a pequena distancia de Trieste,
parecia um throno de granito franjado de espumas, escolheu-o para construir
ahi uma pequena cabana de pescador, emboscada n'uma florestazinha de
plantas exoticas, que o sol não tardou a fazer germinar.

Desposando em 1859 a princeza Carlota, da Belgica, o archiduque Maximiliano
pôde, graças ao dote que lhe trouxera a filha do velho rei Leopoldo, traçar
por sua propria mão o projecto de um castello que nascia da cabanazinha
florida como a opulenta cabaia de sêda de um rajah nasce da folha verde da
amoreira.

O archiduque era apaixonado pela architectura; fôra elle que desenhára o
risco da famosa igreja Votiva de Vienna; póde pois calcular-se com que
alegre e dedicado enthusiasmo veria ir apparecendo, debaixo do seu
_crayon_, as torres denticuladas do futuro castello de Miramar.

Mais feliz do que a snr.ª Porhoet, do ROMANCE DE UM RAPAZ POBRE, cuja
velhice era alimentada pela phantasia de fazer edificar uma cathedral
estupenda, o archiduque vira realisado o seu sonho, e o castello de Miramar
fôra nascendo á beira do oceano, avultando, subindo, fazendo lembrar a
lenda do rei de Thule e da

  ... torre herdada que havia
  ao rés das marinhas aguas.

Emquanto o castello de Miramar se edificava, o archiduque fôra habitar um
_chalet_ que provisoriamente tinha mandado construir no alto da collina, e
que para os dois felizes esposos se convertêra n'uma estancia encantada,
que a madresilva cingia n'um abraço de verdura e de flôres, e envolvia na
atmosphera inebriante de um beijo de perfume. O archiduque gostava
immensamente de flôres, de modo que os jardins de Miramar, que vieram a
contornar o palacio, pareciam realisar o sonho de um poeta que, como Castel
ou Lacroix, vivesse para cantal-as.

Fôra no _chalet_ da collina que o archiduque, mesmo depois de edificado o
castello, permanecêra sempre com a archiduqueza; nas salas do castello
recebia elle os homens de lettras, os artistas, os sabios, os principes que
procuravam a sua companhia, que uma illustrada conversação e uma sumptuosa
hospitalidade tornavam appetecida.

N'este paraizo terreal, n'este éden do Adriatico, insinuára-se um dia a
serpente da ambição, e a França, personificada em Napoleão III, fôra o
espirito do mal que se transformára em serpente para realisar a tentação do
par feliz de Miramar.

Os mais dedicados amigos do imperio de Napoleão III não podem dissimular as
responsabilidades que pesam sobre a memoria do imperador na desgraçada
questão do Mexico. Madame Carette, que pertence a este numero, não achou
meio de desculpar essa _fatalidade do imperio_, que veio a chamar-se a
expedição do Mexico.

«É bem difficil, diz ella, encontrar o fio subtil de toda esta aventura, em
que tanta gente se enleiou e arruinou, que custou tantas victimas e tanto
dinheiro, que teve por desfecho o fatal drama de Queretaro, e que foi
talvez a origem dos acontecimentos que precipitaram a quéda do imperio.»

Como nasceu no espirito de Napoleão III a desastrosa idéa da intervenção da
França nas questões internas do Mexico? Como, e por quê?

O que até ha pouco tempo se sabia, e logo voltaremos ao assumpto, era que
algumas familias mexicanas e alguns membros das colonias estrangeiras
emigraram para a Europa fugindo ás continuadas perturbações politicas
d'aquelle paiz. Essas familias, muitas das quaes vieram estabelecer-se em
Paris, pensavam decerto em voltar á patria, e manobraram n'esse sentido,
auxiliadas pelos estrangeiros repatriados que levaram os seus respectivos
governos a realisar uma conferencia internacional em Londres. Accordou a
diplomacia em pedir indemnisações para os emigrados, mas o governo
mexicano, _à bout de ressources_, declarou que não podia pagar o que lhe
era exigido.

As potencias interventoras, a França, a Inglaterra e a Hespanha,
julgando-se desconsideradas por esta resposta do Mexico, combinaram entre
si fazer uma demonstração energica que impozesse o exacto cumprimento das
deliberações tomadas na conferencia de Londres.

Foi o almirante Jurien de La Gravière que, com poderes discricionarios,
tomou o commando da expedição franceza, aggregando-se-lhe, como adjunto
technico, mr. Dubois de Saligny, antigo ministro no Mexico, que devia
occupar-se do contencioso. A esquadra hespanhola já estava fundeada em
Vera-Cruz quando a esquadra franceza lá chegou. A Inglaterra, reconhecendo
talvez o erro politico d'esta aventura, enviou alguns navios com visivel
hesitação.

Os mexicanos, concentrando-se logo que os hespanhoes chegaram,
deixaram-n'os como que isolados n'uma vasta zona do littoral. Foi pois n'um
deserto que a expedição franceza desembarcou, posto que o governo do Mexico
manifestasse uma certa sympathia pela expedição franceza, considerando-a
como um obstaculo a quaesquer demasias dos hespanhoes, antigos occupadores
e, portanto, antigos inimigos dos mexicanos. Assim, pois, pôde o almirante
Jurien assignar uma convenção que permittia aos francezes o internarem-se
em condições favoraveis de hygiene e abastecimento, com a clausula de que,
se as hostilidades se rompessem, retrocederiam para o littoral.

É n'este ponto que começa a urdir-se uma vasta rêde de intrigas.

O general Prim, commandante da expedição hespanhola e casado com uma
senhora de origem mexicana, parecia aspirar, protegido por Serrano, á
realeza do Mexico. Mr. de Saligny, estomagado pela sua posição secundaria,
escrevia para Paris cartas sobre cartas queixando-se da prudencia com que
procedia o almirante Jurien. A França, dando ouvidos a mr. de Saligny,
enviava novos reforços, e, como adjunto do almirante Jurien, o general
Lorencez. Mas a Hespanha, picada pela supremacia que a França pretendia
accentuar, retirou a sua esquadra, e a Inglaterra, que tratava de procurar
um pretexto, fez o mesmo. Ficou a França isolada, desde esse momento, na
questão do Mexico.

Seria fastidioso enumerar n'uma chronica fugitiva todos os pormenores que
occorreram até ao dia em que o general Forey tomou o commando do exercito
francez, e alcançou sobre as guerrilhas mexicanas de Juarez alguns faceis
triumphos militares.

Foi então que Napoleão III teve o sonho de realisar a transformação
politica do Mexico para contrabalançar na America a influencia dos
Estados-Unidos, e que obedecendo aos manejos da França, uma deputação
mexicana, em outubro de 1863, chegava ao castello de Miramar a fim de
offerecer a corôa imperial do Mexico ao archiduque Maximiliano.

Napoleão III tomára o compromisso de conservar no Mexico, durante tres
annos, um exercito de vinte e cinco mil homens, commandado pelo general
Forey, succedendo-lhe Bazaine, que tinha feito toda a campanha como
commandante da 1.ª divisão; e o Mexico o de pagar immediatamente sessenta
milhões de francos a titulo de indemnisação de guerra, e mais vinte e cinco
milhões por anno, para o que foi levantado nos bancos da Europa, por
emprestimo, o dinheiro necessario, sob garantia do governo francez.


VI

Esqueçamos por um momento a desditosa imperatriz Carlota, para, como
promettemos, indicar o mais que se tem averiguado sobre as razões politicas
que determinaram a intervenção da França.

Uma das ultimas novidades litterarias, que lograram maior successo, é com
certeza o livro de Paul Gaulot: RÊVE D'EMPIRE.

Este livro occupa-se da famosa questão do Mexico, o ephemero imperio de
Maximiliano, e basêa-se em documentos inéditos. D'aqui o seu principal
interesse: um clarão de revelações, importantes e novas, illumina as
trezentas paginas d'esta brochura que tem já terceira edição, comquanto
haja apparecido ha poucos dias.

Envolvia-se até hoje nas sombras de um tal ou qual mysterio a causa da
intervenção da França na questão do Mexico.

Presumia-se que Napoleão III tivera em vista dar um golpe mortal nos
Estados-Unidos, mas o que não passava de uma hypothese adquire agora,
graças ao livro de Paul Gaulot, fóros de certeza.

É comtudo certo que, apesar de conhecida, a intervenção de Napoleão III, a
intervenção da França na questão do Mexico não perde completamente o
caracter de uma aventura perigosa, e um pouco phantasista.

Conta-se que n'um serão das Tulherias, em 1868 ou 1869, a familia imperial
passára a noite jogando _aux petits papiers_. N'um dos papelinhos, que
coube em sorte ao imperador, lia-se a seguinte pergunta: «Qual é a vossa
occupação favorita?» Napoleão III respondeu: «Procurar a solução de
problemas insoluveis».

Esta phrase define até certo ponto o espirito do imperador dos francezes,
sempre propenso á aventura, sempre enthusiasta de emprezas arrojadas ou, se
antes querem, um pouco visionario na politica.

Girando em torno da phrase escripta por Napoleão III, Paul Gaulot lembra
que na sua mocidade o futuro imperador dos francezes fôra filiar-se nas
sociedades secretas d'Italia; que, sendo elle o representante da idéa
napoleonica, isto é, do principio d'authoridade, duas vezes tentou derrubar
o regimen estabelecido; que, subindo ao throno, deteve a acção da Russia no
Mar Negro e no Mediterraneo, sem comtudo querer que a Inglaterra ficasse
senhora d'esses mares; que combateu a Austria para permittir á Italia que
realisasse a sua unidade, impedindo-a porém de attingir este ideal politico
porque elle proprio protegia a conservação dos Estados da Igreja; que,
finalmente, se lançou na expedição do Mexico para contrariar os
Estados-Unidos, sem todavia querer declarar a guerra a esta potencia; que,
nos ultimos annos do seu reinado, tentou unir ao regimen imperial o regimen
parlamentar, abrindo pessoalmente uma brecha na cidadella que tinha
construido desde 1848.

Estes sonhos ousados, e por vezes contradictorios, constituiam o caracter
phantasista de Napoleão III. Como elle mesmo disse, o seu destino parecia
consistir em procurar a solução de problemas insoluveis.

«O pensamento que guiou Napoleão III no negocio do Mexico, diz Paul Gaulot,
era grande, generoso e politico.»

Qual fosse esse pensamento, dil-o tambem Gaulot, confirmando de uma maneira
nitida a hypothese, até hoje vagamente formulada, de que elle pretendia
ferir a republica norte-americana.

«Sobresaltado pelo immenso desenvolvimento que tinham tornado os
Estados-Unidos, depois que com o auxilio dos francezes haviam sacudido o
jugo da Inglaterra e conquistado a independencia, o imperador previa nos
destinos de uma nação, que não tinha cem annos de existencia e que já
possuia a supremacia no seu continente, uma ameaça e um perigo para o mundo
antigo.»

Pensava Napoleão que a Europa viria a ser esmagada pela concorrencia,
especialmente agricola e industrial, da florescente republica do norte da
America.

Os Estados-Unidos estavam novos, vigorosos, ricos, e a sua acção,
encaminhada para a Europa, viria tolher o passo ás grandes nações europêas.

O momento pareceu azado a Napoleão para intervir. O sul dos Estados-Unidos
estava em guerra com o norte. Pensou pois Napoleão III que não poderia
ageitar-se melhor occasião para estabelecer, n'aquelles estados, uma scisão
definitiva, e formar no Mexico um grande imperio latino, que supplantasse a
republica americana, fraccionada e dividida.

Este foi, portanto, o pensamento, embora arrojado, exequivel, do imperador
dos francezes.

A seu lado, nas Tulherias, a imperatriz Eugenia animava o plano audacioso
de Napoleão III, não tanto por previsão politica como por sentimentalidade.
Os exilados mexicanos iam levar ao conhecimento da imperatriz os seus
desgostos e as suas lagrimas, pedir protecção e auxilio. Fallavam-lhe em
hespanhol, a lingua patria da imperatriz, que decerto lhe avivava saudosas
recordações de infancia, predispondo-a á benevolencia. Membros do partido
clerical, os exilados identificavam a sua causa com a da religião e do
clero, attrahindo assim o espirito catholico da imperatriz, captando-o
sentimentalmente.

No seu exaggero partidario, os exilados diziam que tudo se conseguiria com
um simples passeio militar, e que o Mexico e a religião ficariam devendo á
França uma gratidão eterna pelo restabelecimento da paz interior.

De mais a mais os antecedentes historicos favoreciam a propaganda dos
exilados.

O antigo imperio do Mexico contára treze monarchas astecas desde a sua
fundação até á conquista hespanhola.

Depois, durante a laboriosa gestação da independencia, o Mexico fôra
governado por vice-reis, seguindo-se-lhe o ephemero imperio do general
Iturbide, de modo que a formula monarchica encontrava, em seu favor, uns
restos de tradição.

Á frente do partido que desejava o restabelecimento da monarchia estava
Gutierrez de Estrada membro de uma familia illustre, o qual, sendo ministro
dos negocios estrangeiros, em 1840, tinha escripto uma carta ao presidente
da republica, Bustamante, propondo-lhe, como solução ás crises incessantes
que desolavam a patria, a constituição de um governo monarchico.

Esta audacia acarretára-lhe a proscripção.

Gutierrez de Estrada viera refugiar-se na Europa, cada vez mais exaltado na
sua propaganda.

Em 1854 subira á presidencia da republica o general Sant'Anna, que
commungava as mesmas idéas politicas de Gutierrez, e que lhe dera plenos
poderes para tratar, nas côrtes de Paris, Londres, Vienna e Madrid, a
questão do restabelecimento da monarchia no Mexico.

Gutierrez de Estrada dirigiu-se então ao duque de Montpensier, que declinou
o offerecimento.

O presidente Miramon, successor de Zuloaga em 1859, confirmou o mandato
dado por Sant'Anna a Gutierrez, e foi n'este momento que Napoleão III,
informado do que se passava, chamou a attenção de Gutierrez para o
archiduque Maximiliano.

Gutierrez acceitou com enthusiasmo esta indicação do imperador, tanto mais
que uma antiga convenção do Mexico, conhecida pela designação _de Iguala_,
e datada de maio de 1821, estabelecia que se adoptasse o principio da
monarchia constitucional, e que se offerecesse a corôa aos infantes de
Hespanha, irmãos do rei Fernando VII, e, no caso d'estes recusarem, ao
archiduque Carlos d'Austria.

Portanto, apresentar a candidatura de Maximiliano era, de algum modo, fazer
reviver uma tradição antiga.

Aqui estão, succintamente historiados, os fundamentos da intervenção da
França na questão do Mexico.


VII

D. Gutierrez de Estrada, presidente da deputação mexicana que foi a Miramar
offerecer a corôa imperial ao archiduque Maximiliano, dissera-lhe:

—Vimos pedir a vossa alteza que se digne subir ao throno do Mexico, aonde
vos chamam os votos de um paiz ha longo tempo dilacerado pela guerra, pois
que possuis o segredo de conquistar os corações e a sciencia difficil de
governar.

O archiduque respondeu:

—Que accedia aos desejos do povo mexicano, ao qual daria um governo liberal
e constitucional, e que mostraria que a liberdade é compativel com o
regimen da ordem.

Em seguida a esta troca de pequenos discursos, houve permutação de
juramentos sobre o Evangelho: o imperador jurou fazer a felicidade do
Mexico; D. Gutierrez, em nome do Mexico, jurou fazer a felicidade do
imperador.

Como são falliveis e fallazes, tantissimas vezes, estes juramentos
solemnes, cuja realisação não depende dos homens, que os fazem, mas apenas
de Deus, que possue o segredo do futuro!

Maximiliano fiou mais de Napoleão III que d'essa mysteriosa força
reguladora dos destinos humanos, que uns chamam Providencia, outros Acaso.

O deus das Tulherias promettia protegel-o, e tanto bastava n'uma época em
que Bismarck não monopolisava ainda a direcção politica da Europa. De mais
a mais, havia ao lado de Maximiliano uma gentil mulher que o amava, e que
se ufanava de que o marido podesse cingir a cabeça com a corôa de um novo
imperio, de que elle viria a ser o creador ostensivo.

A serpente da tentação silvára o perfido hymno, que já tinha sido escutado
por Eva no Eden. E, pondo os olhos nos sonhados deslumbramentos do futuro,
o par ditoso de Miramar começou a esquecer o seu dôce passado desambicioso,
o _chalet_ florido da collina, as salas tranquillas do castello, o mar
azul, que, mais leal do que o povo mexicano e que o imperador dos
francezes, nunca lhe tinha suggerido a idéa de uma aventura perigosa.

O dia da partida chegára, a fragata austriaca _Novara_ e a fragata franceza
_Thémis_ fundearam no porto de Trieste, todo um enxame de archiduques e
archiduquezas concorrêra ao bota-fóra, o burgomestre, em nome dos
habitantes da cidade, significára ao novo imperador a viva saudade que elle
deixava, e Maximiliano, abraçando o burgomestre, sentira os olhos inundados
de lagrimas, e o coração atormentado por um vago presentimento de desgraça.

—Parece-me que não voltarei mais! dissera o imperador.

Mas a salva festiva de cem tiros, no momento em que o imperador embarcava,
viera suffocar as suas palavras. A _Novara_, desfraldando as côres do
Mexico, esperava baloiçando-se. As archiduquezas atiravam, na ponta dos
seus finos dedos patricios, beijos alados que iam, adejando, procurar a
face da imperatriz. Os archiduques acenavam ao imperador com os seus lenços
brancos, que fluctuavam como outras tantas azas de garça. A multidão seguia
com um olhar attento, curiosamente interessado, todo esse extraordinario
movimento de bateis que ondulavam em torno da _Novara_. E no _chalet_ da
collina de Miramar,—o dôce ninho de amor agora solitario—a madresilva
chorava em lagrimas de perfume insinuante o abandono em que a deixavam os
dois ingratos coroados. E o castello, na grandeza lutuosa das suas ameias,
parecia comprehender as lagrimas da madresilva saudosa, e responder-lhe
agoirentamente: «Como é louca a ambição! como é cega a cobiça!»

A _Novara_, seguida da _Thémis_, levantou ancora, e de pé, no tombadilho,
tanto quanto os oculos de longa vista podiam abranger, Maximiliano, immovel
como uma estatua, voltado para Miramar, devorava com os olhos o seu bello
castello solitario.

Com a prôa na Italia, a _Novara_ navegava desfraldando a bandeira do
Mexico.

Maximiliano queria desembarcar em Italia para ir a Roma. Fazer o quê?
Regular questões religiosas do Mexico, disse-se então. Pedir ao Padre Santo
que abençoasse uma empresa aventurosa, porque não? As almas apprehensivas,
como a sua, precisam, nos lances arriscados, procurar na fé um ponto de
apoio, quando a esperança lhes sorri duvidosa.

Mas em Roma um aviso anonymo, affixado nas ruas da cidade santa, devia ter
soado aos ouvidos de Maximiliano como uma prophecia terrivel, que vinha do
seio mysterioso do incognoscivel.

Dizia o aviso que Roma inteira lêra com surpreza:

  Maximiliano non ti fidare,
  Torna sollecito a Miramare!
  Il trono fradicio di Montexuma
  È nappo gallico, colmo di spuma.
  Il «Timeo Danaos» qui non ricorda
  Sotto la clamide trova la corda.

O que, traduzido em portuguez, dirá, pouco mais ou menos:

  Maximiliano, a Miramar
  Deves solicito voltar,
  Que o throno fragil de Mont'zuma
  É como a taça cheia d'espuma,
  Um laço armado pela França.
  Do _Timeo Danaos_ a lembrança
  Quem a não pesa e a não recorda
  Em vez da purpura acha a corda.

Com que funda e dilacerante angustia não sahiria de Roma o imperador do
Mexico, a cujo encontro affluiam as felicitações festivas e as saudações
lisonjeiras!

O _diario de viagem_ de Maximiliano accusa claramente o desalento intimo da
sua alma. «O mundo, escrevia elle, é pequeno, e todavia como se é baldeado
de uma a outra extremidade da terra! Felizes os que se encontram!»

A _Novara_, sempre seguida pela _Thémis_, passou na ilha da Madeira, onde
Maximiliano havia estado em 1852. Então, doze annos antes, consignára nas
suas MEMORIAS uma impressão deleitosa, de despreoccupada felicidade:
«Surge-me das ondas uma ilha encantada, resplendente dos raios de um sol
tropical. O mar era transparente, ceruleo, o ar impregnado de perfumes
inebriantes. Collinas basalticas, côr de violeta, relevavam d'entre o
arvoredo cuja folhagem, de um verde brilhante, accentuava todas as energias
da primavera. A minha alma, extasiada, inundava-se de alegria. Uma celeste
pureza dominava o quadro...»

Agora, doze annos corridos na existencia placida de Miramar, a impressão
que Maximiliano recebêra na ilha da Madeira fora bem differente. A corôa do
Mexico, que não começára ainda a ser de espinhos, era já, comtudo, um fardo
pesado. Vindo a terra, o imperador visitara os mortos, entrára no cemiterio
do Funchal, e colhêra de uma campa solitaria uma rosa triste, que conservou
toda a sua vida, mais como uma reliquia, do que como uma simples
recordação.

A 28 de maio de 1864 a _Novara_ avistou a costa do Mexico.

Em Miramar deviam florir áquella hora, em toda a pompa da primavera, os
jardins do castello abandonado.

No Mexico uma faxa de areia, arida como um deserto, desenrolava-se ardente,
apesar do fluxo refrigerante das ondas.

Á aridez da terra correspondêra a aridez da recepção. A _Thémis_ tinha-se
adiantado para annunciar a chegada dos imperadores, mas, apesar dos
esforços que o almirante Bosse empregára para salvar as apparencias, o povo
do Mexico conservou uma attitude indifferente, porque não diremos, hostil?
Que contraste entre esta recepção glacial e a despedida affectuosa de
Trieste!

Maximiliano começou a comprehender a terrivel verdade que o pasquim de Roma
lhe annunciára.

A administração franceza, a fim de tranquillisar o espirito sobresaltado do
imperador, comprou talvez a peso de oiro um enthusiasmo postiço, que
tibiamente principiou a manifestar-se desde a estação de Loma Alta, a
ultima do caminho de ferro.

D'ahi por diante os imperadores viajaram n'uma caleche ingleza, que não
seria digna de hospedes menos qualificados. E a sua comitiva pernoitava ao
desabrigo, como uma caravana de bohemios, que apenas podiam contar com uma
hospitalidade desconfiada.

A 12 de junho, os imperadores fizeram a sua entrada solemne na capital.
Todo o apparato d'esse acto official orçou por uma _mise-en-scène_
mediocre. Em nenhuma parte encontrou Maximiliano a franqueza que devia
corresponder ao convite que lhe fôra feito para acceitar a corôa do Mexico.

Á noite houve espectaculo de gala, a que os imperadores assistiram, mas a
maior parte dos camarotes conservou-se fechada.

Um protesto eloquente, posto que tacito, contra a invasão de um soberano
estrangeiro.

A melhor sociedade do Mexico brilhava pela sua ausencia.

O melancolico palacio de Chapultepec, que fôra destinado para residencia
dos imperadores, contrastava dolorosamente não já com a opulencia, senão
tambem com o conforto do castello de Miramar.

E quando os dois esposos coroados quizeram, á volta do theatro,
confidenciar as suas doloridas impressões d'aquella primeira noite do
imperio, acharam-se isolados n'um velho casarão desguarnecido, que tinha
sido residencia dos monarchas astecas e dos vice-reis[7].

Tal era o palacio de Chapultepec, que devia hospedar os fugitivos do
poetico castello de Miramar!


VIII

A installação do imperio devia fazer prever a sua existencia ephemera e o
seu fim desastroso.

O Mexico não poderia ser regenerado por um só homem, por maiores que fossem
a energia e a dedicação d'esse homem. Paiz devastado pelas guerras civis,
estava atrophiado, desorganisado, inculto. Não havia escólas, estradas,
agricultura. Maximiliano teve occasião de o reconhecer quando emprehendeu,
arrostando com grandes perigos e incommodos, uma viagem através do seu novo
imperio.

O roubo parecia guindado á altura de uma instituição nacional. E não eram
só os _leperos_, especie de _lazzaroni_ do Mexico, que roubavam; do palacio
imperial desappareceram por vezes objectos preciosos.

Maximiliano, recolhendo á capital, projectou estradas, fundou escólas,
concedeu caminhos de ferro. Creou uma academia de sciencias e bellas-artes,
e traçou o plano da construcção, sobre o golfo do Mexico, de uma grande
cidade industrial e commercial, a que daria o nome de Miramar.

N'este fervoroso trabalho era auxiliado corajosamente pela imperatriz, que
passava os dias escrevendo a correspondencia politica do imperio, destinada
ás côrtes da Europa.

Entretanto, os perigos que rodeiavam Maximiliano cresciam como uma onda
temerosa. O partido juarista engrossava, as guerrilhas augmentavam, os
bandoleiros faziam audaciosas incursões até ás portas da capital. Bazaine
casára com uma senhora mexicana; creára, portanto, ligações e interesses no
Mexico, a sua sinceridade devia tornar-se suspeita a Maximiliano que, para
conservar-se no throno, não tinha outro ponto de apoio senão a França.

Fôra Bazaine que aconselhára o imperador a decretar uma lei severa contra
todos os bandos armados que infestavam o Mexico.

Era o rastilho que devia incendiar, contra Maximiliano, o espirito
nacional. Mas o imperador dependia exclusivamente de Bazaine, e fez-lhe a
vontade.

Foi leal o conselho de Bazaine? Tudo faz acreditar que não foi. Elle
contava com o effeito seguro d'essa lei sanguinolenta. De facto, no 1.º de
setembro de 1865, descobriu-se uma conspiração contra Maximiliano. Um dos
cabeças da conspiração era o general Uraga, ajudante do imperador.
Quinhentas pessoas foram presas, o corpo de _dragões da imperatriz_
dissolvido, e Bazaine convidado a occupar militarmente o palacio imperial.

Que triste realeza a de Maximiliano, rodeiado de bayonetas no seu proprio
palacio!

Coincidiu com este deploravel estado de coisas o termo da occupação
franceza. Tres annos haviam passado. Napoleão III, que principiára a medir
todo o alcance d'essa louca aventura do Mexico, procurava um pretexto
desleal para mandar retirar a expedição franceza. Os Estados-Unidos
deram-lhe o pretexto. E Maximiliano, vendo-se perdido, enviou á Europa, a
implorar a protecção de Napoleão III, a imperatriz Carlota.

Foi em agosto de 1866 que a desventurosa imperatriz chegou a Saint-Cloud.
Os imperadores vieram recebel-a ao fundo da escada, com esse requinte de
cortezia palaciana cuja intenção nem sempre é sincera. Feitos rapidamente
os cumprimentos do estylo, o imperador e as duas imperatrizes encerraram-se
em conferencia n'um gabinete particular.

Oiçamos agora o testemunho insuspeito de madame Carette:

  «A imperatriz do Mexico, que contava então apenas vinte e seis annos,
  denunciava longas angustias, profundas inquietações. Alta, de um porte
  elegante e nobre, o rosto redondo, os olhos negros e salientes, as
  feições graciosas, a imperatriz trajava um longo vestido de sêda preta,
  ainda vincado das dobras da mala em que fôra acondicionado durante a
  viagem e de que fôra tirado á pressa, sem ter havido tempo de o arejar;
  um mantelete de rendas pretas, e um chapeu branco muito enfeitado, que
  tinha sido comprado n'essa manhã em casa de uma das primeiras modistas. O
  calor era n'esse dia asphyxiante, e fôsse por effeito do longo trajecto
  em carruagem, ao sol, desde Paris a Saint-Cloud ou por effeito das
  commoções que a agitavam, as faces da imperatriz estávam vivamente
  rosadas.

  «Acompanhavam-n'a duas damas de honor, mexicanas, muito feias, morenas,
  pequenas e desgraciosas, que fallavam o francez com difficuldade. Ao
  passo que os soberanos conferenciavam largamente e sem testemunhas,
  esforçavamo-nos por entreter estas duas estrangeiras, que pareciam muito
  perturbadas. Eu consegui trocar algumas phrases com uma d'ellas, e, para
  matar o tempo, offerecemos-lhes alguns refrescos.

  «A dama mexicana pediu-me que mandasse uma laranjada á imperatriz
  Carlota, que, segundo me disse, costumava, áquella hora, tomar esse
  refresco. Dei immediatamente ordem na ucharia para que servissem a
  laranjada. A imperatriz Eugenia, contrariada com a entrada do criado,
  perguntou quem lhe tinha dado a ordem. Respondeu que fôra eu, e foi a
  propria imperatriz Eugenia que serviu a laranjada á imperatriz Carlota,
  tendo que insistir para que a tomasse, porque a imperatriz do Mexico
  parecia hesitar.»

Duas horas durou essa entrevista dos tres personagens. Não valeram razões,
supplicas, rogos. O imperador Napoleão fôra de pedra, elle, o inventor do
imperio do Mexico, elle, a serpente que tentára Maximiliano!

Carlota sahiu de Saint-Cloud pedindo á imperatriz que ao menos interpozesse
o seu valimento para demover Maximiliano a sahir do Mexico.

Foi chorando copiosamente que a imperatriz Carlota deixára Saint-Cloud.
Pobre coração de mulher, que uma dôr incomportavel dilacerava! Entrára em
Saint-Cloud uma imperatriz; sahira uma louca.

De Paris, essa desgraçada senhora fôra para Roma, implorar o auxilio do
chefe da igreja catholica. Receiosa de que a quizessem envenar, depois que
lhe serviram a laranjada em Saint-Cloud, apenas se alimentava de fructas.
Entrou no Vaticano no momento em que Pio IX almoçava. Arrancando da mão do
Papa uma chavena de chocolate, tomou-o soffregamente exclamando:

—Ao menos este não estará envenenado!

Sempre receiando uma cilada, não quiz recolher-se ao _hotel_. Foi preciso
consentir em que pernoitasse no Vaticano, n'uma camara visinha á de Pio IX.
A loucura era completa, manifesta. Maximiliano estava perdido. Fôra esse
crudelissimo desengano que esmagára a razão da pobre imperatriz.

Conduziram-n'a a Miramar, na esperança de que o aspecto de lugares
conhecidos e queridos lhe restituisse a razão. O povo de Trieste,
supersticioso como todo o povo, começou a consideral-a uma santa. Sim,
santa de martyrio, santa de soffrimento. Mas louca para toda a vida. A dôr
santificára-se n'ella em loucura. Deus fôra mais piedoso do que os homens
creados á sua imagem e semelhança.

Bazaine, sahindo do Mexico, abandonára o imperador ás represalias dos
juaristas. Antes de sahir, fizera lançar ao rio Sequia e ao lago Texcoco
todas as suas munições. Que refinada perversidade a d'esse homem, que a
Providencia castigou tão justa e sabiamente! Diz-se até que Bazaine tinha
proposto a Juarez entregar-lhe Maximiliano por 50:000 dollars.
Naturalmente, Juarez, visto que Maximiliano ficava indefeso, achou caro.
Podia tel-o de graça logo que o exercito francez retirasse. E assim foi.
Juarez era mais esperto do que Bazaine, mas não menos ambicioso.

O que fazia entretanto o imperador Napoleão? Nada. Pedia a Maximiliano que
fugisse. Maximiliano respondia nobremente que um Habsburgo não sabia fugir
como um cobarde. Apenas consentiria em sahir como um imperador, renunciando
á corôa.

Foi n'este proposito que Maximiliano partiu para Vera Cruz, onde a corveta
_Dandolo_ o esperava. Mas ahi, quando pensava em restituir ao povo mexicano
a menos invejavel das realezas, o partido conservador fizera-lhe promessas
de homens e dinheiro. Maximiliano acreditou, com essa estranha credulidade
dos espiritos combatidos pelas grandes dôres. A esse tempo já tinha
recebido a noticia da loucura da imperatriz. Naufrago desesperado,
agarrou-se á primeira taboa de salvação, embora fragil, e talvez perfida,
que lhe offereciam.

A Providencia, sempre justa, preparava para Napoleão a derrota de Sedan, e
o exilio; para Bazaine o carcere, a infamia, o homizio. Poucas vezes a
historia nos assignala um ajuste de contas tão rapido e completo; uma
liquidação de responsabilidades que tanto satisfaça a consciencia humana.


IX

A retirada da expedição franceza déra alento a Juarez, que ameaçou ir
cercar a capital.

Maximiliano, querendo poupar os habitantes da cidade aos incommodos e
perigos do assedio, retirou-se para Queretaro, onde, com o auxilio de
alguns generaes, que se lhe conservaram fieis, pudéra reunir um pequeno
nucleo de tropas defensivas.

A sorte das armas deveria decidir da victoria entre o exercito do imperador
e o de Juarez. Os acontecimentos futuros dependiam pois da vantagem que o
azar dos combates désse a um ou a outro dos dois contendores. Mas o coronel
Lopez, ajudante do imperador, apressou, dizia-se, o desfecho do drama com
uma traição ignobil: vendêra Maximiliano aos juaristas por 2:000 onças de
oiro. E todavia Lopez havia sido extremamente beneficiado pelo imperador
com generosas dadivas, sabia-se[8].

Na madrugada de 15 de maio de 1867, o imperador, que costumava levantar-se
muito cedo, viu Queretaro em poder dos juaristas. Graças ao general Rincon,
pôde ainda ir refugiar-se na pequena collina de Cerro de las Campanas, que
domina a cidade.

Escobedo, general juarista, deu-se pressa em sitiar a collina. O imperador,
reconhecendo que toda a tentativa de resistencia seria um sacrificio
inutil, mandou atar um lenço branco na bayoneta de uma espingarda.
Capitulava. Pouco depois entregava a sua espada ao general Corona, e era
conduzido, com os outros prisioneiros, ao convento de Santa Theresita,
d'onde foram transferidos para o convento dos Capuchinhos.

Juarez mandou reunir o conselho de guerra para julgar os prisioneiros.
Maximiliano recusou-se a comparecer. Durante tres dias funccionou o
conselho: no banco dos réos estavam sentados os generaes Miramon e Méjia,
imperialistas. A sentença foi de morte: o imperador e os dois generaes
deviam ser passados pelas armas. Marcou-se a execução para o dia 19, e de
nada valeram os esforços empregados junto de Juarez pelos embaixadores da
Prussia e da Inglaterra para obterem o perdão dos condemnados.

Na noite anterior, Maximiliano pediu uma tesoura ao carcereiro. Foi-lhe
recusada. Supplicou então que lhe cortassem uma madeixa do seu cabello e
incluiu-a n'esta carta que escreveu á imperatriz:

  «Minha querida Carlota. Se Deus permittir que melhores um dia e que leias
  estas linhas, conhecerás a crueldade do destino que não deixou de
  perseguir-me desde a tua partida para a Europa. Levaste comtigo a minha
  felicidade e a minha alma. Por que te não ouvi eu?! Tantos
  acontecimentos, tantas catastrophes inesperadas e immerecidas me teem
  esmagado, que, desamparado da esperança, vejo na morte o anjo da
  redempção. Morro sem agonia. Cahirei com gloria, como um soldado, como um
  rei vencido... Se não tiveres forças para arrostar com tamanho
  soffrimento, se Deus em breve te reunir a mim, abençoarei a sua mão
  paterna e divina que tão rudemente nos feriu. Adeus! adeus!

  Teu pobre—_Max_.»

Max era o diminutivo de familia, com que tambem assignou outras cartas,
escriptas em francez, e dirigidas a sua mãi, á archiduqueza Sophia e a
muitos amigos.

Como se vê, Maximiliano conservou, em frente da morte, uma attitude serena
e calma.

Ás seis horas da manhã do dia 19, um official veiu abrir a porta do
carcere.

—Estou prompto, disse o imperador adiantando-se.

E ao sahir a portaria do convento dos Capuchinhos, erguendo os olhos para o
céo:

—Que bello dia! Sempre esperei morrer n'um dia de sol.

Entrou na carruagem descoberta que lhe era destinada. Os generaes Miramon e
Méjia, cada um em sua carruagem, seguiam a do imperador. Eram escoltados
por quatro mil homens. O funebre cortejo poz-se a caminho para o Cerro de
las Campanas. Os condemnados iam de pé, serenos, tranquillos. As ruas e
janellas estavam cheias de gente. Maximiliano, diz Tissot, nunca pareceu
mais bello do que n'essa occasião. As mulheres desviavam o rosto para
occultar as lagrimas.

Houve um momento em que o general Méjia se perturbou: foi quando sua
esposa, com o filho, recem-nascido, nos braços, rompeu d'entre a multidão,
os cabellos em desordem, o gesto allucinado. Méjia escondeu o rosto entre
as mãos. Foi esta a unica fraqueza no espectaculo heroico d'aquelle
triplice fuzilamento.

Quando a primeira carruagem chegou ao Cerro da las Campanas, Maximiliano
apeiou-se com ligeireza, distribuiu a cada soldado uma onça de ouro, e
disse-lhes:

—Apontai bem, meus amigos; tomai por alvo o meu coração.

Um dos soldados chorou. Maximiliano entregou-lhe a sua carteira de
cigarros, cravejada de pedras preciosas. E, como o official que devia dar a
voz de fogo lhe pedisse perdão, o imperador respondeu:

—Um soldado deve sempre obedecer ás ordens que recebe: cumpre o teu dever.

Em seguida abraçou os generaes Miramon e Méjia, como elle condemnados á
morte.

—Dentro de alguns minutos, vêr-nos-hemos no céo, disse-lhes.

Apertou a mão de Miramon, em primeiro lugar, dando a razão da preferencia:

—General, ao mais bravo, o lugar de honra.

E a Méjia:

—Os que soffrem injustamente são recompensados n'outro mundo.

Depois, subindo a uma pedra, fallou ao povo:

—Mexicanos! Os homens da minha condição e da minha raça são destinados a
fazer a felicidade dos povos ou a serem victimados por elles. Não foi um
pensamento illegitimo que me trouxe ao vosso paiz. Fôstes vós que me
chamastes. Antes de morrer, quero dizer-vos que empreguei todos os esforços
para vos felicitar. Mexicanos! possa o meu sangue ser o ultimo que façaes
derramar e possa o Mexico, minha desgraçada patria adoptiva, ser feliz.
Viva o Mexico!

Um sargento veiu ordenar a Miramon e a Méjia que se voltassem de costas:
deviam ser assim fuzilados como traidores.

—Até á vista, disse-lhes Maximiliano.

E, afastando as suas longas suissas louras, apontou para o coração,
exclamando: Aqui!

Á voz de _Apontar_, um murmurio de indignação sahiu d'entre a multidão dos
indios, em cuja raça é antiga a superstição de que um homem da raça branca
os ha de libertar um dia.

Os officiaes voltaram-se brandindo a espada para reprimir a multidão.
Ouviu-se a voz de fogo.

—Viva o Mexico! disse Miramon.

—Carlota! Carlota! exclamou Maximiliano.

E quando a fumarada se dissipou, tres cadaveres ensanguentados jaziam ao
sol no Cerro de las Campanas.

O drama do Mexico, preparado por Napoleão III, tinha tido o seu ultimo
acto.

O general Lopez, o Judas de Maximiliano, a ser verdadeira a tradição
antiga, não recebeu as duas mil onças de ouro que lhe tinham sido
promettidas, mas apenas sete mil piastras. A execração publica
amaldiçoou-o... pelo menos durante vinte annos.

Napoleão III morreu exilado em Inglaterra, e seu filho acabou ás mãos dos
zulus na Africa.

Bazaine, tendo podido fugir do carcere depois da guerra franco-prussiana,
com o labéo de traidor, expirou em Hespanha, onde se homiziára.

A imperatriz Carlota vive ainda, se dos loucos se póde dizer que vivem. Tem
hoje quarenta e nove annos de idade. Está habitualmente no castello de
Laeken, onde nasceu. Seu irmão e sua cunhada, os reis da Belgica, fazem-n'a
rodear dos maiores carinhos por meio de uma assistencia dedicada e
vigilante. Todos os caprichos da pobre louca são pontualmente satisfeitos.
Ás vezes sonha ella ser ainda imperatriz, quer dar recepções solemnes,
festas magnificas. E os convivas que n'esses momentos a rodeiam são bonecos
vestidos á côrte, que ella saúda com uma longa mesura, arrastando
magestosamente sobre o tapete a cauda roçagante do seu manto imperial.

Um viajante que esteve ha pouco tempo em Laeken viu-a encostada a uma
janella do castello. Scismava. Quem sabe se, através do nevoeiro que lhe
envolve a razão, não avistaria ao longe, muito ao longe, vaga e
confusamente, o seu antigo castello de Miramar, como no fundo de um sonho
doloroso uma memoria truncada!

Graças aos esforços empregados pela Russia, o corpo de Maximiliano foi
restituido em 1867, sendo por essa occasião libertados alguns soldados
austriacos que se conservavam prisioneiros, e perdoado o principe
Salms-Salms, que tinha sido condemnado á morte com o imperador.

De toda a catastrophe do Mexico restam hoje tres viuvas: a de Maximiliano,
de Napoleão III, e do marechal Bazaine.

No Mexico, além da tradição historica que a auctoridade de Juarez não pôde
supprimir, existe uma recordação, tão saudosa quanto delicada, do ephemero
e infeliz imperador: são os rouxinoes que cantam nas florestas de acajú, e
nos _chinampas_, ilhas fluctuantes. No dia em que Maximiliano foi fuzilado,
chegavam ao Mexico, em vez de munições de guerra que elle bem poderia ter
encommendado para se entrincheirar no throno, dois mil rouxinoes que havia
mandado comprar na Styria para com elles povoar as arvores das florestas.



IX

O PAIZ DOS MENINOS...


I

O MENINO DE S. DOMINGOS

É costume portuguez dizer-se por graciosidade ou disfarce, segundo a idade
da pessoa com quem estamos fallando, que _as creanças recemnascidas vieram
de França_.

Os loiros _babys_, que aguardam impacientemente a chegada de mais um irmão
pequenino, contentam-se ingenuamente com a resposta que lhes damos—de que o
menino viera de França—e, annos volvidos, quando a malicia do mundo lhes
revelou o segredo da procreação da especie humana, elles mesmos continuam a
tradição dizendo por sua vez aos filhos curiosos—que viera tambem de França
aquelle lindo menino, que lhes offerecem para irmão.

Mas... ó triste idade a nossa, em que já se não acredita em quasi nada, e
muito menos em _meninos que vêm de França_!... mas por que razão se
escolheu a França como paiz ideal de onde todos os meninos portuguezes são
oriundos! A phrase ficou lendaria entre nós, a tradição subsiste com a
mesma intensidade, com ella ludibriaram a nossa curiosidade infantil, e com
ella, por nossa vez, respondemos á pergunta, por igual curiosa, de nossos
filhos.

Não haveria um facto historico que determinasse a origem d'esta tradição?
Aposto que o leitor nunca pensou n'isto! Nunca! É celebre! Tanto mais
celebre, se é certo que já alguma vez encommendou para França meninos
recemnascidos.

Pois, verdade, verdade, eu nunca tinha pensado tambem, e não o pensaria
jámais, se o licenciado Duarte Nunes de Leão, nas suas chronicas de reis
portuguezes, especialmente na de Affonso III, não tivesse chamado a minha
attenção para uma antiga lenda portugueza, que bem póde ter dado origem á
tradição de que é de França que chegam os meninos recemnascidos.

É possivel que eu esteja em erro, mas como isso não prejudica os meninos,
nem os pais, e menos ainda a França, afoito-me a emittir uma opinião, que
as academias talvez ingratamente repillam, mas que não deixará comtudo de
ter uma tal ou qual apparencia de verosimilhança.

Posto este brevissimo exordio, entremos no assumpto, quero dizer na
chronica de Duarte Nunes.

Depois de ter contado como o infante D. Affonso casára em França com a
condessa Mathilde de Bolonha, viuva de Filippe o _Crespo_, e como, sendo
acclamado rei de Portugal, a repudiára para desposar a filha do rei de
Castella, empenha-se Duarte Nunes em demonstrar, por documentos
authenticos, que a condessa de Bolonha não houvera filhos de D. Affonso de
Portugal.

A dissertação do chronista tem por fim rebater uma lenda, que se enraizára
entre o povo portuguez, e sobre a qual assenta a hypothese que eu pretendo
formular.

Escreve, pois, o historiador:

  «... resta satisfazer ás fabulas da gente popular, que ficaram por
  historia de mão em mão, e que o chronista Fernão Lopes conta na vida do
  dito rei, não sabendo o que seguisse, nem o que fugisse, por a pouca
  informação que d'aquelles tempos rudes pôde alcançar, e por o pouco
  discurso que elle n'isso podia fazer por falta de noticia das historias
  estrangeiras. Primeiramente diz que passados alguns annos depois de o
  infante D. Affonso partir de Bolonha, soube a condessa sua mulher como
  el-rei D. Sancho era fallecido, e o conde D. Affonso seu marido levantado
  por rei. E que não sabendo ser elle casado, armou uma frota, em que veiu
  a este reino. E que aportando a Cascaes, soube do casamento de seu marido
  com a filha d'el-rei de Castella, e estar com ella recreando-se na aldeia
  de Friellas, termo de Lisboa. E que fazendo-lhe saber de sua vinda, e
  requerendo-lhe a recebesse a ella, e se apartasse d'aquella mulher, com
  que estava em peccado, el-rei lhe mandou que se fôsse fóra de seu reino.
  Contam mais que a condessa se tornou para França, deixando-lhe um filho
  que trazia, segundo a opinião de alguns; e outros diziam que o tornou a
  levar, e de lá o mandou depois a Portugal.»

Aqui é que bate o ponto.

O facto era importante como questão politica: tratava-se da successão á
corôa. Uns davam razão ao rei; outros á condessa de Bolonha. E discutia-se
a hypothese de existir um filho do primeiro casamento de D. Affonso III;
fallava-se muito _de um menino que viera de França_.

Duarte Nunes de Leão trata de desmentir a lenda com documentos e razões
chronologicas. Mas a lenda enraizou-se e floresceu em Portugal, a ponto de
sobreviver ao _menino que viera de França_, e que teria morrido de morte
natural ou violenta.

O povo, pelo que se infere de Duarte Nunes, acreditava que o menino estava
sepultado na igreja de S. Domingos.

Diz a chronica:

  «E para que a gente vulgar, que não se move tanto por razões, quanto
  pelos sentidos de vista e ouvida, se satisfaça, é necessario declarar-se
  que sepultura era a de S. Domingos de Lisboa, em que havia fama no povo
  que estava enterrado um menino filho da condessa Mathilde e d'el-rei D.
  Affonso seu marido, que diziam que era o que trouxera comsigo ou _mandára
  de França_.»

Duarte Nunes viu a sepultura, e descreve-a. A caixa era de marmore branco,
com varios ornatos esculpidos á roda, figurando arvoredo e montaria de
porcos e cães. As lettras do epitaphio eram gothicas. Mas as dimensões da
sepultura denunciavam o cadaver de um adulto, não de um moço de pouca
idade. Vinte annos antes de Duarte Nunes escrever a chronica de D. Affonso
III, querendo o prior de S. Domingos «despejar o cruzeiro (onde a sepultura
estava) ou por não lêr aquellas lettras, porque constava jazer alli um
filho do rei, que fundou aquella casa, ou por cuidar que seria algum
menino», abriu-se a sepultura e achou-se um corpo incorrupto, sanissimo,
diz o chronista, reconhecendo-se que era de _homem grosso_. Os ossos foram
trasladados para outra sepultura, proxima á capella de Santo André.

«De maneira, escreve o chronista, que a fama de alli estar um menino filho
de Mathilde, era falsa e vã, e era certo estar alli o infante D. Affonso,
irmão inteiro d'el-rei D. Diniz, que morreu de grande idade com muitos
filhos e netos.»

Como se vê, a lenda do _menino que viera de França_ generalisou-se entre o
povo portuguez, e atravessou os seculos sem perder uma parcella da sua
popularidade. O proprio prior de S. Domingos, que devia ser homem
ilustrado, teve duvidas, e só se desenganou depois de ter mandado abrir a
sepultura.

A lenda cahiria então em algum descredito, que aliás não foi completo, como
logo veremos, mas, a locução, havendo-se tornado tradicional, permaneceria,
chegando até nós. Para de algum modo satisfazer á curiosidade ingenua das
creanças, dir-lhes-iam que todos os meninos _vinham de França_, como o da
lenda. E assim o phenomeno physiologico da maternidade ficaria na
imaginação das creanças envolvido no mesmo mysterio, que pesou sobre o
nascimento de um filho de D. Affonso III e da condessa de Bolonha até ao
dia em que na igreja de S. Domingos foi aberta a respectiva sepultura.

E quantos espiritos populares não passaram d'esta para outra vida com a
convicção de que effectivamente um menino, filho do rei portuguez, _viera
de França_, por ordem de sua mãi! Similhantemente, os espiritos infantis
dos loiros _babys_ acreditam ingenuamente que os seus irmãos pequeninos,
como elles proprios, vieram de França por ordem de sua mãi e... de seu pai.
A differença, que é insignificante, está apenas na parceria da encommenda.

O menino de S. Domingos era um mysterio, um segredo, como aquelle que para
as credulas creaturinhas deve envolver o facto da gestação e do nascimento,
em toda a sua verdade physiologica.

Com o reconhecimento do cadaver desfez-se o mysterio, mas a lenda subsistiu
conservando a locução, tanto mais que ficou a perpetuar a lenda um
monumento em que a imaginação popular a materialisou.

Sabe o leitor que monumento é esse? Não sabe, decerto. São alguns rochedos
que afloram do mar na barra de Lisboa.

Dil-o Duarte Nunes:

  «E para que não fique coisa a que se não responda, outra historia como
  esta andava entre as velhas, e gente popular, porque contavam que quando
  a condessa veiu a Cascaes e foi desenganada d'el-rei seu marido, que a
  não havia de recolher, tornando-se para França, estando já para dar á
  vela, lhe deixou dois filhos, dizendo que dissessem a el-rei que tomasse
  lá seus cachopos, e que por isso se chamou Cachopos áquelle lugar do mar,
  onde os deixou, não entendendo aquella gente vulgar que cachopos é
  palavra portugueza de homens rusticos, por que chamam aos moços de pouca
  idade, e que a condessa Mathilde, franceza da Gallia Belgica, não podia
  fallar por aquelles termos da lingua portugueza, que não sabia, e que
  aquelle lugar da barra de Lisboa, de penedia e bancos, que vão por
  debaixo da agua, onde as naus perigam, se diz cachopos, corrupto o
  vocabulo latino _scopulus_, como se corromperam pela successão dos godos
  e dos mouros outros infinitos vocabulos, que temos da lingua latina,
  d'onde a nossa tem a origem. Isto é coisa de graça...»

Graciosos na sua elegante singeleza são tambem este e os outros relanços da
chronica de Duarte Nunes.

Não sei se o leitor ficará inclinado a acreditar que a lenda do menino de
S. Domingos haja dado origem á locução proverbial de que os meninos
recemnascidos vêm de França.

Se não ficar, releve-me a innocentissima conjectura pelo prazer que decerto
lhe deram as transcripções que fui buscar a Duarte Nunes e que,
aproveitando-lhe a phrase, diga complacentemente com o chronista: Isto é
coisa de graça.[9]


II

O PRINCIPE DA BEIRA

(Março de 1887)

E a proposito...

Toda a semana se fallou muito de um principesinho que ha de vir de França,
n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre
rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem.

Os jornaes não teem fallado de outro assumpto, e os pais de familia vêem-se
sériamente entalados para explicar aos _bebés_ o motivo por que esse lindo
principesinho que ha de vir de França (e que deve ser lindo como todos os
principes) não chegou ainda, a despeito de fazer-se esperar por toda a
familia real e por todos os habitantes do paiz.

Tem sido realmente preciso dar tratos á imaginação para explicar
phantasiosamente o caso d'essa demora imprevista, para satisfazer a justa
curiosidade dos _bebés_, e se o _accouchement_ da princeza Amelia tardar
ainda mais alguns dias, receio muito que chegue a esgotar-se a imaginação
dos pobres pais de familia.

Um dia são os pastores dos Pyrenéos que, sabendo que por alli passa um
principesinho, se juntam para vêl-o, obrigando o portador a parar e a
mostrar-lh'o.

Não tem o portador outro remedio senão parar, descobrir o bercinho, mostrar
o principe.

Então os pastores querem beijal-o por força, e pedem ao portador que se
demore emquanto elles vão buscar a melhor rez do seu rebanho para
offerecel-a áquella linda creança.

Outras vezes é o portador que se enganou no caminho, por ser a primeira
vez, depois de muitos annos, que traz um principe a Portugal.

Outras vezes é ainda o portador que, por ter caminhado com muita pressa,
ancioso de chegar, cansou a meio do caminho e parou.

Finalmente, são as andorinhas que reclamaram para si o direito de vir
trazendo o principesinho nas suas azas, mas como as andorinhas sejam
pequenas ainda mais pequenas do que o principe, o emissario vê-se forçado a
dar-lhes frequentes descansos.

Durante vinte e quatro horas, os _bebés_, não tendo ouvido os foguetes,
acreditam na desculpa que se lhes dá, mas no dia seguinte, como a demora vá
continuando, é preciso inventar uma desculpa, e um pai de familia, por
muito amor que tenha aos seus filhos, póde não ter tanta imaginação que
chegue para cada um d'elles...

Entretanto, os _bebés_ e os adultos vão esperando pelo principesinho que ha
de chegar de França n'um bercinho de verga doirada, deitado n'uma
almofadinha de sêda, entre rendas e flôres, sobrescriptado para o Paço de
Belem.

Já tudo está a postos para o receber. Os condes de Paris esperam, o
principe D. Carlos mostra-se impaciente, e a princeza D. Amelia pergunta ás
flôres dos jardins de Belem se ellas sabem o motivo por que o principesinho
não chega. Nem as flôres, nem o dr. Ravara, nem o dr. Greneau, nem a snr.ª
Prévot teem sido capazes de responder a esta pergunta. Passa-se o dia em
interrogações no Paço de Belem. De vez em quando ha um rebate falso, é
chamada a côrte a toda a pressa, os artilheiros correm a postar-se junto ás
peças, as damas de honor principiam a desdobrar as alfaias do enxoval, os
sineiros sobem aos campanarios, vai emfim chegar o principesinho, faz-se um
grande silencio respeitoso, olha-se para a porta da rua, a sentinella chama
as armas...

E o principesinho não chega!

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .  .

O dr. Ravara encolhe os hombros, a snr.ª Prévot consulta os guias de
viagem, o dr. Greneau pergunta se não estará sonhando, mas o que é certo é
que a pequenina alteza, sabendo talvez que já vai sendo um pouco amargo ser
principe, parece não ter pressa nenhuma de o ser!

Aposto que sua possivel alteza está talvez dizendo a esta hora:

—Querem-me lá para começarem desde logo a discutir-me! Pois vão esperando
por mim. Que o Magalhães Lima vá aguçando a penna, e o Consiglieri Pedroso
vá ensaiando a voz. Eu bem sei que elles não são meus amigos e o meu
coração é tão pequenino que não comporta odios contra ninguem. Como não
saberei odial-os, não estou para os aturar por ora. Que vão esperando. Teem
lá muito que discutir, encham os jornaes republicanos como pudérem, que eu
não estou para me aborrecer. Se eu fosse filho de um saloio de Alcabideche
ou de um piloto de Cascaes, não teria duvida em chegar depressa. Ninguem
daria pela minha chegada, e eu poderia regaladamente dormir o meu primeiro
somno. Mas como sou filho do herdeiro da corôa de Portugal, como eu sei que
tenho de aturar os republicanos e as peças de artilheria, os foguetes e os
jornaes, os repiques de sino e os repiques dos poetas, como eu calculo que
tudo isso deve ser muito massador, vou-me deixando estar onde estou, no
paiz dos possiveis, gozando da regalia que tenho de me fazer esperar, visto
que, depois que eu fôr crescido, todos ralharão se me fizer esperar cinco
minutos em qualquer parte...

O dr. Ravara continúa a vêr-se embaraçado com as perguntas que lhe fazem, o
snr. conde de S. Miguel deixa de jantar, a snr.ª Prévot vê-se sériamente
atrapalhada, mas a verdade é que o principesinho não chega porque não tem
vontade nenhuma de chegar.

E o principesinho tem razão.

—Aqui, dirá sua pequenina alteza, todos os anjos me tratam por tu e brincam
commigo. Está-se muito bem, e elles proprios me informam de que lá em baixo
ha um monstro terrivel, que devora a paciencia, e que se chama a
Pragmatica. Eu tenho medo d'esse monstro, em respeito ao qual todas as
pessoas passarão a tratar-me por alteza, a mim, que sou mais pequenino do
que ellas!

E emquanto sua alteza assim monologava, sem querer chegar, Lisboa,
desesperada por esperar, ia olhando para o Tejo para vêr subir as aguas da
grande maré tão annunciada.

Mas a maré passou, só não chegou ainda a maré de sua alteza chegar n'um
bercinho de verga doirada, deitado n'uma almofadinha de sêda, entre rendas
e flôres, sobrescriptado para o Paço de Belem!

Pobre dr. Ravara!

Pobre snr.ª Prévot!

E pobres pais de familia, porque ámanhã, talvez, já os seus _bebés_ não
acreditarão em desculpas!



X

UM REI ENTRE MONTANHEZES

(Outubro de 1887)


A viagem de el-rei D. Luiz I á serra do Gerez foi durante esta semana
objecto de uma copiosa _reportage_, que diluviosamente inundou todos os
jornaes do paiz.

Para as pessoas que apenas teem feito á roda de Lisboa pequenas excursões
de recreio, a viagem da familia real ao Alto Minho foi motivo de tamanha
surpreza, que muitas d'essas pessoas inclinam-se a pensar que não passa
tudo de uma historia fabulosa, similhante ás que Julio Verne conta nos
livros interessantissimos, posto que phantasticos, das suas _Viagens
maravilhosas_.

Mas a verdade é que o Alto Minho existe realmente com todos os seus
segredos de ethnographia pittoresca, de uma simplicidade primitiva, quasi
prehistorica, e que a familia real portugueza acaba de passar tres dias
n'essa região ignorada, defendida da contacto das gentes pela altitude
penhascosa das suas montanhas alpestres, pela torrente espumosa das suas
rapidas cataractas, e pelo accesso difficil das suas quebradas profundas,
dos seus picos ingentes, e dos seus barrocaes pavorosos.

O Gerez não é precisamente uma serra que os snrs. _reporters_ tenham mais
ou menos phantasiosamente recortado sobre os contornos das montanhas
alcantiladas da Escocia ou da Suissa, eriçadas de sarçaes, esmaltadas de
lagos argenteos e povoadas de raças autochtones, que se manteem na
plenitude da sua originalidade rudimentar.

Os snrs. _reporters_ podem ter, e teem decerto, prendas litterarias para
isso e muito mais, mas ao menos d'esta vez teem sido de uma veracidade
immaculada, de que podem dar testemunho as poucas pessoas que, em relação á
população total do paiz, conhecem a provincia do Minho para além do rio
Cavado e do seu irmão siamez o rio Homem.

O Gerez não é uma fabula, não senhores, é uma cordilheira que existe tão
realmente como a podem vêr os povos confinantes do Minho e Traz-os-Montes,
estendendo-se na direcção de nordéste para suduéste e na extensão de sete
leguas, desde Pitões até Rio Caldo.

Esta serra notavel, cujo terreno é de uma formação geologica primitiva,
conserva, em harmonia com o seu granito silicioso, uma bella
_mise-en-scène_ por igual primitiva, movimentada por actores montesinhos,
que parecem representar alli o drama sacro de um genesis eterno.

Toda a fauna conserva um cunho de selvageria aborigene, porque os lobos, os
javalis, os veados, as cabras montezas, os bufos, as aguias reaes são ainda
hoje os dominadores incontestados das mattas cerradas e dos invios
labyrinthos alpinos das florestas virgens do Gerez.

Houve tempo em que o urso completou o _elenco_ da _troupe_ animal do Gerez,
mas desde que os pastores pensaram em afugental-o com o clarão sinistro das
fogueiras para esse fim accesas durante a noite, o urso, a datar do seculo
XVII, fugiu para não mais voltar.

Toda a serra está povoada de lendas supersticiosas guardadas, de seculo
para seculo, pela inviolabilidade das suas proprias florestas, e pelo
estranho caracter da sua flora e da sua fauna, ainda hoje defendidas pelos
sete sêllos de um segredo por igual inviolavel.

Está por acaso estudada a flora do Gerez em todos os arcanos da sua
vegetação luxuriante? Não está decerto. Pois o mesmo acontece com relação a
essa outra flora, deixem-me assim dizer, das tradições ou das lendas
locaes, de que apenas se conhece vagamente um ou outro _specimen_.

Sobre o _penedo da Santa_ raros olhos terão visto impressos na rocha os
vestigios que os serranos contam ser os dos joelhos e pés de Santa Eufemia,
que alli vivêra vida eremitica, quando andava fugida á perseguição de seu
pai, governador romano da cidade de Braga.

N'um valle de Covide poucas pessoas terão examinado um eito de pedras
lavradas, que lá denominam _fileiras_, e que, segundo a tradição local,
foram alli collocadas de proposito para obstar a que os ursos atacassem as
colmêas, porque os ursos usavam abraçar-se aos cortiços, rolal-os até
encontrarem agua e ahi, afogando as abelhas, comer tranquillamente o mel
dos favos.

Por onde se vê que é injusto chamar urso a um individuo pouco esperto.

Mas todas estas tradições, de que ha memoria escripta, são em tão pequeno
numero, que bem se póde presumir que o _Folk-lore_ da serra do Gerez está
apenas prefaciado por dois ou tres dos nossos chorógraphos.

D'esta quasi absoluta ignorancia em que todos vivemos a respeito da
ethnographia das nossas provincias mais sertanejas e remotas, resulta a
surpreza com que o paiz está lendo as descripções da viagem da familia real
através do Alto Minho, e da sua excursão venatoria na serra do Gerez.

Todo o bom lisboeta, mesmo aquelle que por engano costuma dar _excellencia_
ao rei, ficou hilariantemente surprehendido de que um montanhez minhoto
saudasse o snr. D. Luiz dando vivas ao _reverendo snr. rei, que é um bom
homem_.

N'aquellas regiões alpestres, onde a pureza dos costumes é ante-diluviana,
ainda o _ser bom_ constitue o supremo elogio de quaesquer homens, incluindo
os reis.

Em Lisboa, na _baixa_ ou na _alta_, tanto monta ser bom como ser mau. Mas
no Gerez a ignorancia de formalismos e pragmaticas é tão profunda como a
ignorancia de tudo o mais.

Riram-se poetas alfacinhas de que as camponezas de Lago ensoassem em honra
d'el-rei uma trova de toantes gallaicas, ao sabor dos primeiros monumentos
da litteratura portugueza:

  Vamos, vamos depressa,
  Corramos p'r'a varanda,
  Vêr o rei de Portugal,
  Que vai para a caçada.

Mas é que os parnasianos de Lisboa esqueceram, para rir, as memorias
historicas do passado e as condições autochtones d'essa especie de bascos
da Lusitania, chamados minhotos.

Lembrassem-se elles do seu Frei Luiz de Souza e da pagina que rememora a
visita de Frei Bartholomeu dos Martyres á serra de Barroso.

«Correu a voz, pela serra—diz o classico dominicano—da vinda do arcebispo.
Abalou-se toda; foi o alvoroço e alegria sem medida. Juntavam-se a
recebel-o pelos caminhos com suas danças e folias rudes, que era o extremo
da festa que podiam fazer. E, porque não fossem julgados por menos agrestes
que os seus mattos, nas cantigas, que entoavam entre as voltas e saltos dos
bailes, publicaram logo a quanto chegava o que sabiam do ceu e da fé. Um
dizia assim: _Benta seja a santa Trindade, irmã de Nossa Senhora_.»

Chamar á Santissima Trindade irmã de Nossa Senhora não é menor desacerto do
que chamar reverendo ao rei.

Mas tudo isto denuncía que entre Frei Bartholomeu dos Martyres e o
arcebispo D. Antonio Honorato o Alto Minho tem continuado a dormir, sobre
as coisas da religião como sobre tudo o mais, e que, surprehendido pelos
foguetes dos ultimos dias, accordou estrenoitado, confundindo a
personificação do primeiro poder do estado com o maior poder que o serrano
minhoto tem conhecido até hoje: o clero.

Porque a verdade é que justiças de el-rei não são conhecidas no Alto Minho,
nem lá chega a irradiação constitucional do grande foco da administração
publica chamado governo.

Não se lembram do livro de D. Antonio da Costa, intitulado _No Minho_? Pois
elle lá descreve a communa de S. Miguel de Entre os Rios, que ao nascente
prende com o Gerez e ao norte com o Suajo.

A freguezia está dividida em cantões, governados por um juiz que os
habitantes elegem d'entre si. O povo entrega ao juiz a _carrapita_ (o
busio), e quando o juiz entende que é preciso reunir assembléa geral, para
tomar qualquer deliberação, convoca o povo tocando o busio.

Então, de todas as casas principiam a sahir os homens vestidos de burel,
com calções, polainas e barrete, as mulheres vestidas de lã, colletes
curtos, cabello cortado, lenço de linho na cabeça, e, assim reunida a
communa, resolve, como outr'ora faziam os lusitanos e como ainda hoje
costumam fazer os bascos, representantes dos primitivos iberos.

Eu digo francamente que, se não existisse o Gerez, teria sido conveniente
invental-o, a fim de que el-rei o podesse visitar; como Potemkin inventou,
para illudir Catharina II, panoramas phantasticos ao longo das desoladas
_steppes_ da Russia.

Fizessem muito embora um Gerez de lona, comtanto que o povoassem com os
bons serranos do Minho, que fallam ao rei com o coração nas mãos calosas,
ao contrario dos cortezãos de Lisboa, que fallam ao rei com o coração nos
giolhos postos em terra.

Os de lá curvam-se ao snr. D. Luiz como se curvavam ao arcebispo D. Frei
Bartholomeu dos Martyres, cheios de sincera reverencia e de humildade
respeitosa. Os de cá curvam-se para que as dadivas do rei lhes possam
acertar mais facilmente nas mãos abertas. A distancia moral não é menor do
que a que geographicamente existe entre o Gerez e Lisboa.

O rei tem agora visto o que talvez ignorava,—que ha homens bons no Alto
Minho, de uma innocencia paradisiaca, que se governam sem incommodar o
governo, e que cantam lôas á realeza sem rima, mas tambem sem interesse.

D'isto só no Gerez!



XI

NO HAREM DE MARROCOS

(Outubro de 1867)


A doença do sultão de Marrocos, Muley Hassan, envolve-se n'um veu
romantico, através de cuja gaze a imprensa europêa tem descoberto uma
intriga de serralho.

O sultão, que, de resto, parece revelar maiores tendencias para cultivar a
monogamia do que o harem, affeiçoou-se a uma só mulher tão absorventemente,
que todas as outras, reduzidas a uma ociosidade desprezivel, ter-se-iam
lembrado talvez de deitar um veneno qualquer na taça de café do sultão.

Se assim foi, deveria ter havido interessantes e secretos conciliabulos,
que os eunuchos, apesar de toda a sua vigilancia, não lograriam
surprehender.

Estou d'aqui a ouvir uma oradora do harem discursando, cheia de indignação,
ás suas companheiras de desgraça.

—Senhoras, diria porventura ella, um sultão que não faz uso do seu harem,
por amor de uma só mulher, póde ser um bom marido, mas é com certeza um
detestavel sultão.

Longos e repetidos apoiados.

—Se Muley Hassan está apaixonado, mande-nos embora, e case. Que fique
fazendo uma vidinha santa com a sua querida mulhersinha e os seus meninos;
que saia a passeio com a madama pelo braço; que vá orar á mesquita com ella
e que, inclusivamente, pegue nos pequenos ao collo servindo de ama sêcca...

Hilaridade geral.

—Mas que seja para nós ama sêcca, como o poderia ser para os seus meninos,
não se admitte.

Novos e prolongados applausos.

—Porque a verdade, senhoras, é que nós somos de carne e osso como a
favorita, e que o sultão não chega senão para marido...

Uma voz, com sobresalto:

—Silencio!

—O que é?

—Parece-me que vai passando no corredor a ronda dos eunuchos...

A oradora, intrepidamente:

—Deixal-os! Não ha nada que eu repute n'este mundo tão insignificante como
um eunucho.

Interrupção:

—Ainda ha alguma coisa mais insignificante talvez.

—O que é?

—São dois eunuchos.

Hilaridade.

Uma outra voz:

—Pois eu digo que ainda ha uma coisa peor do que dois eunuchos...

—São tres?

—Nada, não. Vejam lá se adivinham...

—Diga, diga!

—É um sultão eunucho.

Hilaridade geral.

No meio d'esta assembléa tumultuosa, uma das odaliscas puxa d'um jornal
francez.

—O que é isso? perguntam.

—É o _Temps_, uma folha da republica franceza.

—Mas o que tem isso com o sultão?

—Esperem, senhoras! O general Boulanger foi preso.

—Preso!

—Por ter proferido em Clermont-Ferrand umas palavras que o ministro da
guerra julgou attentatorias da disciplina militar.

Vozes:

—Mal feito!

Outras vozes!

—Bem feito!

A mesma odalisca, com o _Temps_ na mão:

—Segue-se que o ministro da guerra ordenou que o general Boulanger
soffresse trinta dias de detenção.

Uma voz:

—E depois?

—Depois Boulanger submetteu-se.

Outra voz:

—O que eu admiro é a energia do ministro da guerra!

Muitas vozes:

—Pois isso é que é!

Uma voz:

—Como se chama o ministro da guerra?

—É o general Ferron.

—Velho?

—Decerto.

—Não importa. Ahi está um general que ainda servia para sultão.

A odalisca do _Temps_:

—Ahi mesmo é que eu queria chegar...

Muitas vozes:

—Apoiado! Apoiado!

A discussão entre as mulheres do harem prolongar-se-ia decerto cada vez
mais animada e cortada de repetidos incidentes.

Quando porventura se tratou da especie de droga que se devia lançar na taça
de café do sultão, é provavel que as opiniões se dividissem,—querendo estas
que fosse veneno, querendo aquellas que fosse outra coisa.

Afinal decidiram pelo veneno, allegando talvez alguma odalisca que um
sultão retirado difficilmente readquire os seus antigos habitos, seja qual
fôr a droga que se lhe propine.

E emquanto as odaliscas conspiravam, é provavel que a favorita, depois de
ter enfiado na cabeça do sultão o barrete de algodão branco, e de lhe haver
conchegado aos sovacos a roupa da cama, principiasse a cantar-lhe qualquer
canção terna que o acalentasse, como por exemplo:

  Dorme, que eu vélo, seductora imagem,
  Grata miragem que no ermo vi!

E o sultão, espirrando:

—Ora esta! Estou constipado!

A favorita:

—Não é nada, meu maridinho. Se queres, mando o primeiro ministro á botica
comprar borragens para tomares um suadouro.

—Deixa vêr se isto passa.

—Pois sim. Pois sim...

E cantando:

  Dorme, dorme, meu sultão rurú,
  Canta Mafoma, e dorme tu.

E o sultão, como um bom chefe de familia, apesar de constipado:

—Os pequenos?

—Deixa lá os pequenos, que já estão recolhidos.

—É que, tendo havido hontem um caso de variola no imperio, preciso mandar
vaccinal-os.

—Então! snr. meu marido! Deixe lá isso e durma, quando não ralho muito
comsigo.

E o sultão, espirrando de novo:

—Atchi! Atchi!

A favorita:

—Queres um lenço?

—Quero. Tira alli da gaveta. Agora, como já não atiro lenço nenhum ás
odaliscas, devo ter ahi muitos.

A favorita, fingindo-se zangada:

—Não quero que se torne a lembrar de aguas passadas. Pegue lá o lenço, e
cale-se. Vamos, faça óó.

E o sultão:

—Pois sim, mulher, pois sim; vou vêr se durmo.

Ora, francamente, sendo assim, as odaliscas tiveram razão.

Não se é sultão para isto, porque a nobreza obriga, e um sultão, que se
prese de o ser, tem deveres a cumprir.

Ouvissem-me as odaliscas agora, e não me faltariam apoiados.

O rei Milan da Servia é que não pensa precisamente como o sultão de
Marrocos.

Agora mesmo, que parecia estar a ponto de se reconciliar com a rainha
Natalia, uma nova aventura veio de subito carregar de nuvens o ceu
conjugal, que promettia tornar-se azul e sereno.

Estão em Pesth duas cantoras de Café-Concerto, mesdemoiselles Morgot e
Elisa Roger, duas irmãs.

Por occasião da sua recente passagem em Pesth, o rei Milan da Servia,
ouvindo elogiar a belleza das duas «chanteuses», manifestou desejo de as
vêr pessoalmente, e, acompanhado do conde Eugenio Zichy, foi visital-as. Um
jornal de Pesth, sabendo da visita, alludiu ao caso, em breves palavras, no
seu noticiario. O incidente não fizera ruido e estava já esquecido, quando,
tres semanas depois, as duas irmãs appareceram subitamente na redacção do
jornal e intimaram o redactor indiscreto a dar-lhes explicações. O redactor
riu-se e gracejou. Resolveram então intentar um processo,—que sem duvida
será picante: o rei Milan e o conde Zichy serão citados a comparecer para
testemunhar que a visita que fizeram ás galantes e formosas cantoras foi
«pura e simples visita de delicadeza».

A rainha Natalia, que é curiosa de mais para deixar de lêr gazetas, teve
naturalmente conhecimento do facto, e, agastando-se de novo, oppoz-se á
reconciliação, que parecia estar em bom terreno.

Quando a gente ás vezes começa a pensar sobre as coisas do mundo, pasma de
que a Providencia ou o acaso, que tão sabiamente regula a maior parte dos
negocios terrenos, tenha de quando em quando desacertos verdadeiramente
inexplicaveis.

Ora digam-me uma coisa:

Com quem devia ter casado a rainha Natalia?

Com o rei da Servia decerto não.

Vamos, adivinhem.

Não dizem! Pois digo eu: com o sultão de Marrocos.

E quem deveria ser o sultão de Marrocos?

Agora é facil a resposta.

—Quem deveria ser o sultão de Marrocos era o rei Milan da Servia.

Exactamente.

Porque, sendo assim, nem a rainha Natalia nem as odaliscas do harem tinham
razão para protestar—pelo mesmo motivo.



XII

IDYLLIO DE AMOR


Um rei dos paizes do norte, o soberano da peninsula scandinava, veio a
Lisboa em maio de 1888, hospedando-se no Paço da Ajuda, que domina, do seu
largo ponto de vista, a corrente do Tejo, o bello rio do sul...

Viagem poetica, cheia de encantadoras antitheses por certo, emprehendida
por um rei poeta, em cuja familia ainda ha poucos dias fallou com
insistencia a Europa inteira a proposito do casamento romantico do duque de
Gothland, segundo filho do rei Oscar.

Na familia real da Suecia os principes conservam não só os ideaes
cavalheirescos da Idade-média, mas até as alcunhas graciosas dos livros de
cavallaria. Assim, o principe Carlos, terceiro filho do rei Oscar, é
conhecido pela designação de _principe azul_, por usar sempre um uniforme
d'essa côr; e o principe Eugenio, o mais novo dos irmãos, é denominado o
_principe vermelho_, em razão dos seus avançados principios liberaes.

Comprehende-se que, dada a influencia do _meio_ geographico, a situação
deliciosa da Suecia haja actuado no espirito do principe Oscar para
contrahir um casamento que não teve como mobil senão o amor.

Paiz de montanhas e de lagos, de cascatas e de rios, de golfos e de
florestas, como que está pondo diante dos nossos olhos a photographia do
amor n'aquellas regiões, amor inabalavel como a dureza dos Alpes
scandinavos, umas vezes sereno como um lago, outras vezes torrentuoso como
uma cascata, resistente como as florestas de pinheiros aos vendavaes
gelados, ousado como a onda dos golfos que rasgam, no seu labutar
constante, os contornos da peninsula...

Paiz das auroras boreaes, comprehende-se que o coração dos seus habitantes
seja de algum modo o espelho onde se reflecte o fogo do ceu.

Stockolmo, a capital que a familia real habita, é, para que assim o
digamos, a synthese de toda a bella natureza scandinava. Disposta sobre o
lago Mœlar, occupa algumas das mil duzentas e sessenta ilhas que mosqueam
toda a feérica superficie do lago. É a Veneza do Norte.

Madame Leonie d'Aunet, a intrepida viajante do Spitzberg, sentiu-se
vivamente impressionada pelo aspecto do palacio dos reis da Suecia, uma
residencia encantadora onde se comprehende que todos os sonhos da
imaginação exaltada possam atear-se.

«O palacio dos reis da Suecia, como a cidade, tira da posição em que se
acha situado, entre o mar e o lago, a sua principal belleza. Quadrado, uma
das fachadas do palacio domina uma soberba ponte de pedra lançada sobre o
Mœlar. Esta ponte, cujo arco central repousa sobre uma pequena ilha
transformada em delicioso jardim, é de um aspecto encantador. A
architectura do palacio recorda a do Louvre, modificada pelo gosto pesado,
sobrio e frio do seculo XVIII; apenas as proporções do conjunto podem ser
gabadas sem reserva; a fachada que olha para o mar, precedida de um jardim,
ornada de um largo balcão de pedra, é de um bello effeito, sobretudo vista
de longe.»

Ahi, d'esse largo balcão de pedra que olha para o mar, diante de um vasto
horisonte sem limites, comprehende-se que os principes romanticos da casa
real da Suecia enviem o seu pensamento alado a emprehender as viagens mais
ousadas e mais audaciosas do amor.

Foi ahi certamente, n'esse largo balcão de pedra que olha para o mar sem
limites, que o principe Oscar, duque de Gothland, pensou uma e muitas vezes
na enorme difficuldade da empreza que o seu coração namorado tentára.

Mademoiselle de Munck, filha de um antigo official do exercito sueco, era a
sua bem amada, e o principe pensava exclusivamente no modo de poder
desposal-a, ainda que para isso fosse preciso arremessar ao mar, do alto do
largo balcão de pedra, a sua corôa de principe, o seu titulo de duque.

Mas o mar ensinava-o a ser forte, embora, para vencer, tivesse de parecer
sereno.

Descendo do seu largo balcão de pedra, o principe Oscar passearia decerto
na collina de Mosebakkan, d'onde toda a cidade de Stockolmo se avista a vôo
de passaro, e desejaria porventura poder depôr aos pés de Ebba Munck toda
essa bella cidade pittoresca como um estranho presente de nupcias.

Se de todo perdesse a esperança de poder realisar o seu sonho de amor, iria
porventura refugiar-se na solidão gelada da Noruega, em Hammerfest talvez,
a cidade mais septentrional do mundo, a dois passos do cabo Norte,
habitando uma d'essas casas exoticas, feitas de troncos de arvore, que os
seus habitantes occupam.

Mas todo o aspecto do paiz o enchia de confiança e de estimulo. Os Alpes
scandinavos diziam-lhe que fosse inabalavel como elles; as torrentes que
fosse impetuoso como ellas; as florestas de pinheiros que as imitasse na
firmeza; os golfos que teimasse, a seu exemplo, em vencer os obstaculos.
Tanto mais que o principe Oscar sabia que era amado...

Dissera-lh'o Ebba Munck, a quem elle abrira o seu coração.

Era certo que ella fugira da côrte, para evitar o olhar do principe que a
dominava, mas amava-o, era amada, eis tudo.

Dama de honor da princeza real da Suecia, fôra outr'ora galanteada,
requestada. Um moço official de cavallaria estivera para desposal-a,
chegára a fazer-se o enxoval, mas o coração de mademoiselle Munck, por um
d'esses presentimentos extraordinarios que se não podem explicar, retirára
á ultima hora o seu consentimento.

Não era aquelle o homem que ella devia amar.

Enfastiada da côrte, pensando já talvez no principe Oscar, como no
impossivel, quando a obrigaram a voltar a Stockolmo, a sua belleza
reapparecêra velada por um veu de dôce melancolia.

Foi então que o principe Oscar fez reparo na belleza de mademoiselle de
Munck,—essa belleza triste das violetas.

Mas as almas namoradas, se avançam um passo para o seu ideal, deliciam-se
em recuar dois passos, como para se atormentarem deliciosamente.

Ebba Munck fugiu da côrte, talvez com o proposito de não voltar mais.

Fez-se irmã da caridade n'um hospicio de Stockolmo, quiz consagrar a Deus o
seu pensamento, mas o amor do principe foi ahi procural-a para adquirir a
certeza de que era correspondido.

Uma affirmação categorica, tanto mais desafogada quanto parecia
irrealisavel, exaltou a paixão do principe, que desde esse dia não teve
senão um unico pensamento: desposar mademoiselle de Munck.

Adivinham-se facilmente as difficuldades que um tal projecto suscitaria a
principio.

Mas, á força de insistencia e de pertinacia, os obstaculos foram
abrandando, e o tempo acabou por consummar a sua obra.

Do alto do largo balcão de pedra, que olha para o mar sem limites, o
principe Oscar, para desposar mademoiselle de Munck, arremessára através do
espaço, para o abysmo das aguas, os seus direitos ao throno, os seus
titulos de duque e de alteza real, e a pensão annual que lhe era votada
pela Dieta.

N'esse dia ficou sendo o mais feliz dos homens, apenas Bernadotte, um
official da marinha sueca, simplesmente.

Em março de 1888, celebrava-se o casamento, baseado na declaração
authentica que o principe, mezes antes, havia dirigido a seu pai.

  «Segundo a constituição, nenhum principe da casa real póde casar, sem
  consentimento do rei. Como depois d'um exame da minha consciencia me acho
  penetrado do mais ardente amor por mademoiselle Ebba Henrietta Munck,
  filha do fallecido coronel Charles Jacques Munck de Tulkila e da sua
  viuva, _née_ baroneza Coderstrom, e como estou convencido da sua
  fidelidade ao meu amor, vejo-me obrigado, tanto pelo respeito e dedicação
  filial, como pela obediencia ás leis, a pedir humildemente o
  consentimento de vossa magestade, meu augusto pai, á minha união com
  mademoiselle Munck. Toda a minha felicidade depende d'esse consentimento.

  «Por este casamento perco evidentemente, segundo o §. 5.º da lei da
  successão, para mim e meus descendentes, todo o direito de successão ao
  throno dos Reinos-Unidos. E como, segundo a minha opinião, não conviria á
  minha situação futura aproveitar as altas dignidades que me teem sido
  concedidas na qualidade de principe herdeiro, peço humildemente
  auctorisação para renunciar não só ao titulo de alteza real e de duque de
  Gothland, mas tambem, por mim e meus descendentes, a todos os outros
  privilegios de que tenho gosado, na qualidade de membro da casa real.

  «Junto a este humilde pedido o desejo de conservar a minha nacionalidade
  sueca e de gosar, depois do meu casamento, dos direitos civicos, que
  pertencem a todo o subdito. Pela vossa benevola auctorisação, sahirei da
  posição excepcional que constitue, segundo a declaração de vossa
  magestade ao conselho de estado, inserida no protocolo de 6 de março, a
  razão que dictou o apanagio dos principes, filhos segundos.

  «Considero portanto o apanagio de 26:000 corôas, que a dieta de 1887 me
  votou, como deixando de existir; renuncio portanto a este apanagio para
  ser restituido á lista civil.

  «Peço igualmente, em virtude do artigo 34.º da Constituição noruegueza,
  para ser isento de todos os meus deveres de subdito norueguez.

  «Stockolmo, 18 de Janeiro de 1888.

  _Oscar._»

O rei communicou o pedido do principe Oscar ao conselho de ministros e
accrescentou:

  «Não attendi ao pedido do meu amado filho, sem madura reflexão. Estando
  assegurada, segundo todas as apparencias, a successão dos Reinos-Unidos,
  não hesitei em não impedir a sua felicidade, concedendo-lhe a
  auctorisação, que me pediu, como seu pai e seu rei.»

Ao casamento de Oscar Bernadotte assistira sua mãi, a rainha da Suecia,
Sophia de Nassau, o _principe azul_, _o principe vermelho_, a princeza da
Dinamarca e a duqueza de Albany.

N'aquelle dia o _Almanach de Gotha_ perdia um nome, mas a chronica do amor
inscrevia mais uma pagina.

E o mundo inteiro fallou d'esse acontecimento ruidoso, que attrahira todas
as attenções para a côrte do rei Oscar, o soberano da Scandinavia, que,
vindo hospedar-se no Paço real da Ajuda, alongou o seu olhar azul de poeta
do norte pela corrente magestosa do Tejo, o bello rio da Europa do sul...



XIII

NA MORTE DO KRONPRINZ


  «Apesar dos desmentidos officiosos, a saude da imperatriz da Austria de
  fórma alguma tem melhorado.

  «As crises terriveis a que está sujeita inspiram graves inquietações.

  «Segundo o diagnostico já estabelecido, a imperatriz está atacada de
  «loucura lucida» caracterisada por uma confusão enorme de idéas.

  «Está constantemente balouçando uma almofada e pergunta ás pessoas que a
  rodeiam se o novo Kronprinz é bonito. Depois cae em grande prostração,
  parecendo de tempos a tempos melhorar para propôr um novo casamento ao
  imperador.»

Ha nas ultimas linhas d'esta noticia o que quer que seja que faz passar
vagamente pelo nosso espirito essa flebil melodia de Meyerbeer, chamada a
_valsa da sombra_, da _Dinorah_.

A bella camponeza de Ploermel, julgando que Hoel a abandonára, perde a
razão e, faltando-lhe a sua cabrinha branca, unica companhia que lhe
restava no mundo, procura-a por entre as moitas floridas até que, suppondo
havel-a encontrado, faz menção de acalental-a nos braços, chorando e
cantando, n'uma loucura ternissima, emquanto o luar cae do ceu n'uma
tristeza saudosa.

Assim a imperatriz da Austria, balouçando a almofada em que imagina vêr
adormecido o Kronprinz, que uma catastrophe fulminára, parece cantar, no
silencio concentrado d'uma loucura melancolica, a _ombra leggiera_ do filho
querido que não mais voltará.

A valsa de Meyerbeer passa certamente soluçando no coração da louca
imperatriz.

De mais a mais ella teve sempre o culto da musica, foi a imperatriz que poz
em moda, tanto em Pesth como em Vienna, a _zither_, a dôce guitarra rustica
dos Alpes tyrolezes.

O seu coração conhece, pois, toda a magia d'essa divina arte capaz de fazer
mover as proprias pedras, segundo a tradição mythologica, e porventura esse
balsamo celeste, que se chama a musica, tivera o condão de ungir durante
algumas semanas as feridas da sua alma, como a harpa de David abrandava as
coleras sombrias de Saul.

Mas a loucura em que a razão brilha ainda como um crepusculo explodira
finalmente.

A catastrophe que lhe roubára o filho primogenito apunhalára-a na fibra
mais delicada de seu coração de mãi.

Apesar das excentricidades que constituem a lenda da imperatriz, o que é
certo é que ella foi sempre uma extremosa mãi.

Quando os seus filhos eram pequeninos, ella propria os acalentava no berço,
cantando, bailando, beijando-os, atirando o fardo da etiqueta para traz dos
moinhos. A imperatriz desapparecia; ficava apenas a mãi.

Quando, com dois annos de idade, lhe morreu a segunda filha, abraçou-se
n'uma effusão de lagrimas ao pescoço de um grande Terra-Nova, que era o
companheiro dilecto da mallograda creança.

Dinorah não teria sido mais carinhosa com a sua cabrinha branca do que a
imperatriz o foi n'esse momento para com o seu Terra-Nova.

***

E todavia ouvia-se dizer muitas vezes em Vienna que a imperatriz, amazona
infatigavel, pensava mais nos cavallos que montava do que nos filhos que
havia gerado.

Uma calumnia revoltante. Victor Tissot, que esteve em Vienna, e que estudou
escrupulosamente a capital austriaca na côrte e na rua, desmente-a
categoricamente.

D'onde veio essa má vontade dos viennenses, tantas vezes manifestada,
contra a imperatriz?

Veio do tempo em que ella, creança de dezeseis annos, tinha, sem o haver
sonhado, cingido a corôa da Austria, e _esquissava_ nos seus albuns a
caricatura mordente dos cortezãos que detestava.

Um cortezão não perdôa nunca: vinga-se curvado e sorridente. Foi o cortezão
de Vienna que principiou a fazer a lenda injusta da imperatriz, que, por
sua vez, aborrecendo o mundo palaciano em que a calumnia serpejava por
entre as alcatifas, preferia as florestas ás salas, e os cavallos aos
cortezãos.

***

E depois a imperatriz fôra creada em plena natureza, á beira do lago de
Traun. Como as outras suas quatro irmãs, que vieram a denominar-se a rainha
de Napoles, a princeza de Tour e Taxis, a condessa de Trani e a duqueza
d'Alençon, vivêra até aos dezeseis annos como pastora nas montanhas. Seu
pai era um velho gentil-homem da provincia, que jámais havia pensado em que
as suas cinco filhas, embora formosissimas, podessem vir a respirar n'outra
atmosphera que não fosse a das collinas que circumdavam o lago azul.

Mas Francisco José amára sempre a caça como um bom montanhez do Tyrol, cujo
fato vestia nas suas excursões venatorias por montes e valles.

Ás vezes os quinteiros ouviam a distancia a grita do hallali, e o seu
pensamento não podia ser outro senão o que o nosso velho Castilho soube
exprimir n'uma quadra:

  Voam corceis e sabujos;
  Apupa, apupa, clarim,
  Que esta sina de fragueiros
  Não tem descanço nem fim.

E as gandaras e os montes tremiam como no rimance da Nazareth; não valiam
os pés ao gamo, nem valia a furia ao javali.

Os caçadores passavam como um tufão ardente.

Era o imperador que andava monteando, tal como nas valladas da Idade-média
usavam fazer os velhos reis sagrados, de que a imaginação popular se lembra
ainda.

Pois bem! Francisco José havia chegado á beira do lago de Traun e, por
descançar das fadigas da caça, sentára-se á porta, de uma casa de campo.
Quatro filhas do velho gentil-homem que alli morava, sahiram a cumprimentar
o imperador, que ficára encantado de encontrar um _bouquet_ de rosas
primaveris perdido entre montanhas, á beira de um lago. Qual d'ellas lhe
parecia mais formosa? Não o saberia dizer. De repente surge na clareira do
bosque uma visão encantadora, vestida de branco, e acompanhada de um fiel
molosso. Então os olhos de Francisco José cegaram deslumbrados. Era Izabel,
a quinta filha do velho gentil-homem: a futura imperatriz da Austria.
Alguns dias depois, n'um baile em Ischl, o imperador, que amava doidamente
a valsa, dançára durante toda a noite com essa deslumbrante creança de
dezeseis annos, que desde logo passou a ser denominada a _fada da
floresta_.

O coração um pouco selvagem de Izabel revoltou-se naturalmente contra a
doblez da côrte. Ella preferia os aromas acres do bosque ás lisonjas
perfumadas de cortezanismo. Ave das montanhas, amava o ceu azul, os
alcantis agrestes, os lagos dormentes. Durante os primeiros tempos de
noivado, um cavalleiro e uma amazona galopavam nas planicies, cortando as
florestas, batendo os bosques. Eram o imperador e a imperatriz.

  Tudo ia em redemoinho,
  Homens, corceis e mastins,
  Ladridos, brados, relinchos,
  Fragor d'armas e clarins!

***

Francisco José é, em toda a extensão da palavra, um homem amavel,—qualidade
indispensavel aos principes.

Tissot decreve-o em dois traços:

  «O som da sua voz é cheio d'encanto, como toda a sua pessoa. O seu olhar
  revela a lealdade e a doçura que seduzem. A testa é alta e larga, o nariz
  bem proporcionado, os dentes brancos, e o labio inferior menos saliente
  que no typo ordinario dos Habsburgos. Quando monta a cavallo, ha no seu
  aspecto elegancia e magestade; mas é preciso vêl-o curvetear no meio de
  uma nuvem de pó, ao estrondo das fanfarras, á frente do exercito!»

Este homem amavel fez-se amado desde os primeiros annos da mocidade, em que
elle proprio escolhia entre as damas do salão a que preferia para sua
parceira de valsa. Quando o seu uniforme branco ondulava nos circulos
vertiginosos das valsas de Strauss, as mulheres, exaltadas, adoravam o
gentil Habsburgo, de quem costumavam dizer:

—Encanta vêl-o valsar!

Á medida que se foi evolando n'uma saudade longinqua o perfume da flôr de
laranjeira, que engrinaldára a cabeça da bella do lago de Traun, o coração
da imperatriz, no seu egoismo montanhez, gotejára sangue.

Acaso o tronco ferido da arvore alpestre não chora, em bagas de resina, o
attentado de que foi victima?

Tenho aqui, entre os meus papeis, um notavel artigo que ha annos appareceu
n'um jornal de Lisboa e foi traduzido por mão desconhecida. Fallando da
imperatriz Izabel, diz:

  «Ella passa caracolando no seu cavallo, como a Diana de Vernon, essa
  imperatriz d'Austria, firme e direita no selim do seu baio fogoso, o veu
  azulado enrolado á copa do seu chapeu alto, não reconhecendo outro
  sceptro além do seu flexivel chicotinho. Toca-se o _hallali_, o animal é
  encurralado na clareira dos bosques, Izabel é a primeira a despedir o
  tiro mortal; galopa com as faces incendidas, as narinas dilatadas e
  frementes, vêde-a bem—o vento apagou na corrida o vestigio das lagrimas
  que ainda ha pouco lhe inundavam o rosto; o seu cavallo passou o rio a
  nado, e o seu vestido de amazona-caçadora embebeu-se na agua gelada;
  parece-lhe que é sangue do seu coração que vai cahindo, gotta a gotta, no
  caminho, e que poderiam seguil-a através d'esse rasto; sabe que os
  latidos das matilhas impacientes, as trompas dos seus caçadores, e o
  tropel dos cavalleiros não ensurdecerão a sua dôr; a imperatriz da
  Austria tem a certeza de que já não é amada!»

***

Natureza fogosamente selvagem, a imperatriz da Austria, tendo visto passar
o idyllio de amor que a fôra arrancar ao lago de Traun, não pôde resistir á
morte desastrosa do filho querido, que era a seus olhos não só a
revivescencia de um passado feliz, mas tambem, certamente, a esperança de
uma gloria futura.

E, similhante á Dinorah da opera de Meyerbeer, balouçando nos braços a
almofada que presume ser o berço do Kronprinz, a sua voz soluça a dolente
melodia de uma valsa que acaricia ainda a sombra ligeira de tudo o que não
voltará mais.



XIV

EL-REI D. LUIZ NOS JERONYMOS

(Outubro de 1889)


Edgar Quinet sentiu pulsar na igreja de Belem a alma navegadora do Portugal
manuelino. São profundamente verdadeiras as suas observaçoes. De feito,
todos os caracteres da vida do mar alli estão, em Belem. Cabos de pedra que
ligam os pilares uns aos outros; altos mastros de mesena que sustentam as
ogivas, os florões, as abobadas: a igreja é o navio que vai largar para os
ousados descobrimentos. No claustro ha já espalhadas com mão profusa as
primicias dos continentes recentemente descobertos: pendurados nos baixos
relevos, os côcos e os ananazes; os macacos do Ganges trepando baloiçados
pelos cabos; os papagaios do Brazil esvoaçando festivamente em de redor da
cruz; elephantes de marmore que conduzem em triumpho a urna funeraria do
rei Manuel. Uma igreja maritima, finalmente, com tão raro primor descripta
por Quinet, erguida no proprio local d'onde Vasco da Gama partira para ir
descobrir a India.

***

No dia 8 de julho de 1497 ninguem trabalhára em Lisboa, apesar de ser um
sabbado. Toda a gente corrêra a vêr partir as naus do ancoradouro do
Rastello. Eram quatro os navios que compunham a esquadra: _S. Gabriel_,
nau-almirante, _S. Raphael_, _Berrio_, e uma barca com mantimentos.

Vasco da Gama tinha ido de vespera, com os seus companheiros, fazer vigilia
na ermida de Nossa Senhora de Belem, fundada pelo infante D. Henrique. Ahi
commungou pela mão de alguns freires do convento de Thomar. O vento norte,
que no estio costuma soprar em toda a costa da peninsula, era favoravel á
navegação.

No sabbado, logo pela manhã, encheu-se de povo o caes do Rastello. A
multidão, ávida de sensações, esperava anciosamente que os navegantes
sahissem da ermida. Finalmente Vasco da Gama e os seus companheiros
assomaram á porta, com cyrios na mão. Seguiam-se-lhe os freires e os
sacerdotes que da cidade tinham ido expressamente para dizer missa. O povo,
em massa, fechava o prestito, respondendo á ladainha que os padres
cantavam.

Havia n'este espectaculo o que quer que fosse de vaga tristeza, aliás
justificada. Uma numerosa tripolação ia affrontar os perigos do oceano,
lançar-se nas incertezas de uma navegação aventurosa.

Chegados junto aos bateis Vasco da Gama e os seus companheiros, o vigario
da ermida, com voz solemne, proferiu uma allocução piedosa, acabando por
lançar a absolvição.

«No qual acto, escreve João de Barros, foi tanta a lagrima de todos, que
n'este dia tomou aquella praia posse das muitas que n'ella se derramam na
partida das armadas que cada anno vão a estas partes que Vasco da Gama ia
descobrir: de onde com razão lhe podêmos chamar praia de lagrimas para os
que vão, e terra de prazer aos que vêm. E quando veio ao desfraldar das
velas que os mareantes segundo seu uso deram aquelle alegre principio de
caminho, dizendo boa viagem: todos que estavam promptos na vista d'elles,
com uma piedosa humanidade dobraram estas lagrimas: e começaram de os
encommendar a Deus, e lançar juizos sobre o que cada um sentia d'aquella
partida!»

Eram oppostos os juizos e as vozes que commentavam a empreza. Muitas
pessoas se mostravam contrarias a ella. De modo que o _velho da Praia do
Rastello_ representa uma prosopopêa historica quando exclama pela bocca de
Camões:

  Oh gloria de mandar! Oh vã cobiça
  D'esta vaidade, a quem chamamos fama!
  Oh fraudento gosto que se atiça
  C'uma aura popular, que honra se chama!
  Que castigo tamanho, e que justiça
  Fazes no peito vão, que muito te ama!
  Que mortes, que perigos, que tormentas,
  Que crueldade n'elles experimentas!

***

Mas Deus protegêra a audacia dos portuguezes, os mares abriram passagem á
frota de Vasco da Gama, e a India, descerrando de par em par as portas
crystallinas dos seus golphos, desde Cambaya a Bengala, inclinava, rainha
do Oriente, a fulva cabeça, radiante de auroras, ao dominio colonial do
nauta do Occidente.

As lagrimas choradas na praia do Rastello, quando a frota levantava ferro,
vieram-nos devolvidas em perolas arrancadas ao oceano Indico no golpho de
Manaar e nas costas de Ceylão.

A melancolia que avassallava os espiritos, na hora em que Vasco da Gama
partiu, transmudára-se, só com passar pelo chrysol da India, no oiro
luminoso de Quiloa, que mestre Gil Vicente ou outro qualquer notavel
artifice do seculo XVI arredondára n'um disco—a famosa custodia dos
Jeronymos—, tão bello como o sol, tão resplendente como elle.

E depois de terem dobrado duas vezes o Cabo das Tormentas, depois de terem
vencido Adamastor duas vezes, as galés d'el-rei subiam em triumpho a
corrente do Tejo, á volta do Oriente, e toda a alma portugueza vibrava de
alegria e de orgulho na impaciencia dos animos e na avidez dos olhos.

  Lá vêm galés Tejo acima!
  lá vêm as galés d'el-rei!

***

Por vocação ou educação, por qualquer d'estes dois factos que constituem
toda a orientação do espirito, el-rei D. Luiz fizera-se marinheiro, passára
no oceano os annos desenfadados da vida, impregnára a sua alma d'essa
antiga tradição maritima, que fôra o maior florão de gloria da dynastia
d'Aviz.

Infante de Portugal, como D. Henrique, tinha o culto da navegação, a
religião do mar. No convez do _Pedro Nunes_ ou da _Bartholomeu Dias_,
recordaria por noites de luar, ao som das aguas, toda a nossa epopêa
maritima, de que esses dois nomes, o do inventor do nonio e o do
descobridor do Cabo, eram como duas estrophes gravadas nos marmores eternos
da Historia. Rei, constrangido a viver em terra como um marinheiro
aposentado, dessedentava saudades contemplando o Tejo do seu miradouro da
Ajuda ou o Atlantico do alto da bateria de Cascaes.

E fôra Cascaes, uma pequena villa de marinheiros, Cascaes, a patria do
aventuroso piloto Affonso Sanches, que recebêra o extremo alento d'esse bom
rei que tanto vivêra profissional e espiritualmente da nossa gloria
maritima. Fôra o mar que soluçára em torno do seu athaude o primeiro
cantico funebre, fôra o mar que, marulhando nos muros da cidadella, viera
receber o seu espirito para o restituir a Deus.

***

Antes de entrar definitivamente no sarcophago de S. Vicente de Fóra, este
rei marinheiro devia, se podesse resuscitar, querer descançar alguns dias
no templo dos Jeronymos,—esse bello navio de pedra, ancorado na gloriosa
praia do Rastello, d'onde Vasco da Gama partira. Fizeram-lhe a vontade,
adivinharam-lhe os desejos. Deram-lhe, por uma semana, a melhor companhia
que podia lisonjear o seu espirito. Alli jazem, se a nossa fé nos não
atraiçoa, as cinzas do proprio Vasco da Gama, o primeiro almirante do mar
das Indias, e de Luiz de Camões, o Homero de toda a vasta epopêa maritima
no seculo aureo de Portugal.

E na sua capella silenciosa e monumental alli jaz Alexandre Herculano, o
ultimo grande historiador das glorias de Portugal, o ultimo varão forte
d'essa extincta raça de chronistas, que principiou em Fernão Lopes e se
continuou em Azurara, Pina, Castanheda, João de Barros e Goes.

Para um rei como D. Luiz I, que amou o seu paiz na tradição mais saliente
dos fastos nacionaes, nada poderia completar melhor a sua physionomia
historica de rei marinheiro, do que esta posthuma _étape_ de alguns dias,
na igreja dos Jeronymos, em caminho do pantheon de S. Vicente.

Se o rei podesse acordar por momentos do somno da morte, adormeceria de
novo dôcemente, demorando o olhar embevecido nos cabos de pedra que ligam
os pilares uns aos outros, e nos altos mastros de mesena que sustentam as
ogivas, os florões, as abobadas...



XV

RAINHA E VIUVA

(Outubro de 1889)


  Só faltava no vosso diadema,
  Que na côrte offuscou pompas e galas,
  Uma joia, uma bella e fina gemma,
  Das perolas irmã, e das opalas.

  Era a lagrima santa, muda e calma,
  Que encerra em sua esphera crystallina
  Toda a magua que vai minando uma alma...
  A lagrima,—essa perola divina.

  Rainha que choraes, e em regio manto
  Vos sentis mais viuva que princeza,
  Vosso vulto é maior! que o vosso pranto
  Engrandece, na dôr, vossa grandeza.


FIM



ERRATAS PRINCIPAES


Pag. 80, onde se lê—Francamente, a interpretação que o sr. illustre
escriptor Theophilo Braga, etc.—deve lêr-se—Francamente, a interpretação
que o illustre escriptor snr. Theophilo Braga, etc.

Pag. 125, linha 6, onde se lê—murabuths—, deve lêr-se—marabuths.

Como explanação ás ultimas linhas da pag. 131 e ás primeiras da pag. 132,
importa accentuar que, embora a CATASTROPHE DE PORTUGAL se refira aos
amores d'el-rei D. Affonso VI com _uma mulher publicamente exposta_ (Pag.
111 e 112), essa mulher só nas MONSTRUOSIDADES DO TEMPO E DA FORTUNA
apparece nomeada pela alcunha de—_Calcanhares_.

Pag. 189, linha 7, onde se lê—Et la frouchette de Camus—, deve lêr-se—Et la
fourchette de Camus.

Pag. 206, linha 6, onde se lê—de Montmoreney—, deve lêr-se—de Montmorency.



Notas.

[1] Documento que encontrámos na Torre do Tombo, gaveta 25, maço 1.º, n.º
    47, de fol. 184 a 187.

[2] Existente na Torre do Tombo, cella M, maço 1:104, fol. 381.

[3] Torre do Tombo, cella M, maço 1:163, fol. 495.

[4] Na HISTORIA DO INFANTE D. LUIZ, recentemente publicada pelo snr. José
    Ramos Coelho (1889) vem indicadas, de pag. 148 a 150, as razões que
    motivaram a discordia entre D. Luiza de Gusmão e D. Duarte de Bragança.

[5] O cadaver da rainha foi em 1666 transferido da igreja do Grillo para a
    de Corpus Christi; em 1691 foi mudado, dentro d'esta igreja, de um
    lugar para outro; em 1713 trasladaram-no da igreja de Corpus Christi
    para a do Grillo. Duas jornadas e tres mudanças. No principio d'este
    anno (1889) fez a terceira Jornada, do Grillo para S. Vicente.

[6] RECORDAÇÕES DE PORTUGAL.

[7] «Entre os pittorescos arrabaldes da cidade destaca-se pela sua
    melancolica belleza o sitio de Chapultepec. Na cumiada de uma collina
    de pequena elevação, a cinco ou seis kilometros distante da cidade,
    levantava-se n'outros tempos uma especie de castello. Era o lugar de
    recreio dos reis astecas, e do alto dos muros avistavam a sua grande
    cidade, e todo o valle em que ella assenta. Em torno d'este castello,
    pelas vertentes da collina, e n'uma grande extensão da planura, quasi
    occultava esta pittoresca vivenda uma floresta mui densa de elevados e
    corpulentos cedros (_cupressus distica_), que já n'essa época
    representavam muitos seculos. O antigo castello desappareceu, e em seu
    lugar se levantou com grande dispendio em 1785 um novo palacio, que tem
    servido de residencia de verão aos vice-reis e presidentes, de escóla
    militar e de observatorio astronomico.» Estas impressões de viagem
    foram colhidas por um portuguez, o snr. visconde de S. Januario, na sua
    missão diplomatica ás republicas da America do Sul (1878-1879).

[8] Já depois de escripto este artigo, que foi suggerido pelo livro de
    madame Carette, appareceu no GIL BLAS (de 25 de setembro de 1889) a
    cópia de um relatorio que o general Escobedo dirigiu ao general
    Porphirio Diaz, presidente da republica do Mexico, e que primeiro fôra
    estampado no NOVO MUNDO, jornal officioso do governo mexicano em Paris.
    O coronel Lopez, que ficára reduzido a viver do producto de uma casa de
    banhos que estabelecêra no Mexico, soffrêra durante vinte annos a
    accusação de traidor, que geralmente lhe era feita, e que sua propria
    esposa acreditou, porque, quando elle voltou ao Mexico, depois do
    fuzilamento de Maximiliano, ella esperára-o á janella, com um filho
    pequeno nos braços e, vendo-o chegar, gritára: «Tu és um traidor e eu
    não quero que esta creança seja o filho de um traidor». Dizendo isto,
    deixou cahir o filho á rua. Lopez tragára em silencio todas estas
    affrontas e injustiças, e só se resolveu a fallar, a pedir um
    testemunho rehabilitador ao general Escobedo, vinte annos depois!
    Escobedo respondeu officialmente com o relatorio, no qual declara que o
    coronel Lopez o procurara a 14 de maio de 1867 para lhe dizer que
    Maximiliano pedia que o deixassem embarcar, devidamente escoltado, no
    porto de Tuxpam ou Vera-Cruz, sob palavra de que jámais voltaria ao
    Mexico. Seria pois para occultar este acto do imperador, que Miguel
    Lopez teria guardado segredo. Lopez abonou a sua declaração com este
    bilhete, que Maximiliano lhe escrevêra, e cuja authenticidade o general
    Escobedo reconheceu: «Mon cher colonel Lopez. Nous vous recommandons de
    garder un profond silence au sujet de la commission dont nous vous
    avons chargé près du général Escobedo, car si ce secret était divulgué,
    notre honneur serait entaché. Votre très affectionné, _Maximilien_.»

    Custa a acreditar que o coronel Lopez atravessasse silencioso vinte
    annos de descredito, mas, se assim foi, o seu nome está rehabilitado. E
    a fraqueza do imperador, na situação desesperada em que se achava
    collocado, não excede os limites da comprehensão humana, posto diminua
    ao perfil historico de Maximiliano o cunho da heroicidade, que o
    engrandecia na desgraça.

[9] Esta hypothese, que aventamos humoristicamente, tomou maior vulto no
    nosso espirito desde que, procedendo a averiguações, soubemos que só na
    peninsula iberica se diz que _o menino veio de França. Hay venido de
    Francia_, diz-se em Hespanha, e esta communidade de locução explica-se
    satisfatoriamente n'este caso, como em muitos outros modismos, adagios
    e gnomas, pelas relações frequentes, que sempre houve, entre os dois
    paizes da peninsula. Mas já nos Açores, que communicam menos facilmente
    com Portugal do que a Hespanha, comquanto sejam territorio portuguez,
    se não emprega a mesma locução. Na Terceira diz-se que _o menino veio
    do Pico_. Mostra isto, talvez, que os Açores não receberam a impressão
    do facto historico occorrido em Lisboa com a mesma insistencia e
    intensidade com que a recebeu a Hespanha, por ser nossa visinha,
    paredes meias.

    As variantes de expressão, que vamos reproduzir, tendem a demonstrar
    que a locução portugueza proveio de um facto privativo a Portugal.

    Em França diz-se que o menino nasceu nas couves, _qu'il est né dans les
    choux_; e até em algumas participações de nascimento se vê representada
    uma creança emergindo d'entre folhas de couve.

    Em Italia a expressão é outra: que a mamã comprou um menino:—_che la
    mammá ha comperato un bambino_. Em Inglaterra a locução tem o mesmo
    sentido que na Italia: _to buy a baby_.

    Na Allemanha ha uma phrase, que corresponde a uma lenda. A phrase é
    esta: _Der Storch bringt die Kinder aus dem Milchbrunnen_. (A cegonha
    traz os meninos do poço de leite). A lenda conta que as creanças jazem
    n'um poço, chamado—das creanças—, o qual é muito fundo. Se os meninos
    querem uma irmãsinha ou um irmãosinho, pedem á cegonha que os vá tirar
    do poço com o seu comprido bico, o que ella faz de noute, mettendo-os
    pela janella da casa, onde as respectivas mamãs os vão buscar.





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