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Title: Eurico o presbytero
Author: Herculano, Alexandre
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Eurico o presbytero" ***

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    *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
    texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
    de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
    deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.

                                             Rita Farinha (Junho 2014)



[Figura]



EURICO O PRESBYTERO


QUINTA EDIÇÃO


LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1864



Para as almas, não sei se diga demasiadamente positivas, se
demasiadamente grosseiras, o celibato do sacerdocio não passa
de uma condição, de uma formula social applicada a certa classe
d'individuos cuja existencia ella modifica vantajosamente por um lado
e desfavoravelmente por outro. A philosophia do celibato para os
espiritos vulgares acaba aqui. Aos olhos dos que avaliam as cousas
e os homens só pela sua utilidade social, essa especie d'insulação
domestica do sacerdote, essa indirecta abjuração dos affectos mais
puros e sanctos, os da familia, é condemnada por uns como contraria ao
interesse das nações, como damnosa em moral e em politica, e defendida
por outros como util e moral. Deus me livre de debater materia tantas
vezes disputada, tantas vezes exhaurida pelos que sabem a sciencia do
mundo e pelos que sabem a sciencia do céu! Eu, por minha parte, fraco
argumentador, só tenho pensado no celibato á luz do sentimento e sob a
influencia da impressão singular que desde verdes annos fez em mim a
idéa da irremediavel solidão d'alma a que a igreja condemnou os seus
ministros, especie de amputação espiritual, em que para o sacerdote
morre a esperança de completar a sua existencia na terra. Supponde
todos os contentamentos, todas as consolações que as imagens celestiaes
e a crença viva podem gerar, e achareis que estas não supprem o triste
vacuo da soledade do coração. Dae ás paixões todo o ardor que poderdes,
aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a maxima energia
e convertei o mundo em paraizo, mas tirae delle a mulher, e o mundo
será um ermo melancholico, os deleites serão apenas o preludio do
tedio. Muitas vezes, na verdade, ella desce, arrastada por nós, ao
charco immundo da extrema depravação moral; muitissimas mais, porém,
nos salva de nós mesmos e, pelo affecto e enthusiasmo, nos impelle
a quanto ha bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na
existencia dos anjos revelada nos profundos vestigios dessa existencia
impressos n'um coração de mulher? E porque não sería ella na escala da
creação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, á humanidade
pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espiritos puros pelo amor e
pelo mysterio? Porque não sería a mulher o intermedio entre o céu e a
terra?

Mas, se isto assim é, ao sacerdote não foi dado comprehendê-lo; não
lhe foi dado julgá-lo pelos mil factos que no-lo tem dicto, a nós
os que não jurámos juncto do altar repellir metade da nossa alma,
quando a providencia no-la fizesse encontrar na vida. Ao sacerdote
cumpre acceitar esta por verdadeiro desterro: para elle o mundo deve
passar desconsolado e triste, como se nos apresenta ao despovoarmo-lo
daquellas por quem e para quem vivemos.

A historia das agonias íntimas geradas pela lucta desta situação
excepcional do clero com as tendencias naturaes do homem sería bem
dolorosa e variada, se as phases do coração tivessem os seus annaes
como os tem as gerações e os povos. A obra da logica potente da
imaginação que cria o romance sería bem grosseira e fria comparada com
a terrivel realidade historica de uma alma devorada pela solidão do
sacerdocio.

Essa chronica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros quando elles
desabavam no meio das nossas transformações politicas. Era um buscar
insensato. Nem nos codices illúminados da idade média, nem nos pallidos
pergaminhos dos archivos monasticos estava ella. Debaixo das lageas
que cubriam os sepulchros claustraes havia, por certo, muitos que a
sabiam; mas as sepulturas dos monges achei-as mudas. Alguns fragmentos
avulsos que nas minhas indagações encontrei eram apenas phrases soltas
e obscuras da historia que eu buscava debalde; debalde, porque á pobre
victima, quer voluntaria, quer forçada ao sacrificio, não era lícito o
gemer, nem dizer aos vindouros:--«sabei quanto eu padeci!»

E, por isso mesmo que sobre ella pesava o mysterio, a imaginação vinha
ahi para supprir a historia. Da idéa do celibato religioso, das suas
consequencias forçosas e dos raros vestigios que destas achei nas
tradições monasticas nasceu o presente livro.

Desde o palacio até a taberna e o prostibulo; desde o mais esplendido
viver até o vejetar do vulgacho mais rude, todos os logares e todas as
condições tem tido o seu romancista. Deixae que o mais obscuro de todos
seja o do clero. Pouco perdereis com isso.

O _Monasticon_ é uma intuição quasi prophetica do passado, ás vezes
intuição mais difficultosa que a do futuro.

Sabeis qual seja o valor da palavra monge na sua origem remota, na sua
fórma primitiva? É o de--_só e triste_.

Por isso na minha concepção complexa, cujos limites não sei de antemão
assignalar, dei cabida á chronica-poema, lenda ou o que quer que seja
do Presbytero godo: dei-lh'a, tambem, porque o pensamento della foi
despertado pela narrativa de certo manuscripto gothico, affumado e
gasto do roçar dos seculos que outr'ora pertenceu a um antigo mosteiro
do Minho.

O _Monge de Cister_, que deve seguir-se a _Eurico_, teve, proximamente,
a mesma origem.


     AJUDA--NOVEMBRO DE 1843.



EURICO O PRESBYTERO



I

OS WISIGODOS


     A um tempo toda a raça goda, soltas as redeas do governo, começou
     a inclinar o animo para a lascivia e suberba.

                                    Monge de Silos: _Chronicon. c. 2._


A raça dos wisigodos conquistadora das Hespanhas subjugara toda a
Peninsula havia mais de um seculo. Nenhuma das tribus germanicas
que, dividindo entre si as provincias do imperio dos cesares, tinham
tentado vestir sua barbara nudez com os trajos despedaçados, mas
esplendidos, da civilisação romana soubera como os godos ajunctar
esses fragmentos de purpura e ouro para se compôr a exemplo de povo
civilisado. Leuwighild expulsara da Hespanha os derradeiros soldados
dos imperadores gregos, reprimira a audacia dos frankos, que em suas
correrias assolavam as provincias wisigothicas d'além dos Pyreneus,
acabara com a especie de monarchia que os suevos tinham instituido
na Gallecia e expirara em Toletum, depois de ter estabelecido leis
politicas e civis e a paz e ordem publicas nos seus vastos dominios,
que se estendiam de mar a mar e, ainda, transpondo as montanhas da
Vasconia, abrangiam uma grande porção da antiga Gallia narbonense.

Desde essa epocha a distincção das duas raças, a conquistadora ou goda
e a romana ou conquistada, quasi desapparecera, e os homens do norte
haviam-se confundido com os do meio-dia em uma só nação, para cuja
grandeza contribuira aquella com as virtudes asperas da Germania, esta
com as tradições da cultura e policia romanas. As leis dos cesares,
pelas quaes se regiam os vencidos, misturaram-se com as singelas
e rudes instituições wisigothicas, e já um codigo unico, escripto
na lingua latina, regulava os direitos e deveres communs quando o
arianismo, que os godos tinham abraçado abraçando o evangelho, se
declarou vencido pelo catholicismo, a que pertencia a raça romana. Esta
conversão dos vencedores á crença dos subjugados foi o complemento
da fusão social dos dous povos. A civilisação, porém, que suavisou a
rudeza dos barbaros era uma civilisação velha e corrupta. Por alguns
bens que produziu para aquelles homens primitivos trouxe-lhes o peior
dos males, a perversão moral. A monarchia wisigothica procurou imitar
o luxo do imperio que morrera e que ella substituira. Toletum quiz ser
a imagem de Roma ou de Constantinopola. Esta causa principal, ajudada
por muitas outras, nascidas em grande parte da mesma origem, gerou a
dissolução politica por via da dissolução moral.

Debalde muitos homens de genio revestidos da auctoridade suprema
tentaram evitar a ruina que viam no futuro: debalde o clero hespanhol,
incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquellas eras tenebrosas
e cuja influencia nos negocios publicos era maior que a de todas as
outras classes junctas, procurou nas severas leis dos concilios,
que eram verdadeiros parlamentos politicos, reter a nação que se
despenhava. A podridão tinha chegado ao amago da arvore, e ella devia
seccar: o proprio clero se corrompeu por fim. O vicio e a degeneração
corriam soltamente, rota a ultima barreira.

Foi então que o celebre Ruderico se apossou da coroa. Os filhos do
seu predecessor Witiza, os mancebos Sisebuto e Ebbas, disputaram-lh'a
largo tempo; mas, segundo parece dos escaços monumentos historicos
dessa escura epocha, cederam por fim, não á usurpação, porque o throno
gothico não era legalmente hereditario, mas á fortuna e ousadia do
ambicioso soldado, que os deixou viver em paz na propria corte e os
revestiu de dignidades militares. D'ahi, se dermos credito a antigos
historiadores, lhe veiu a ultima ruina na batalha do rio Chryssus ou
Guadalete, em que o imperio gothico foi anniquilado.

No meio, porém, da decadencia dos godos algumas almas conservavam
ainda a tempera robusta dos antigos homens da Germania. Da civilisação
romana ellas não haviam acceitado senão a cultura intellectual e
as sublimes theorias moraes do christianismo. As virtudes civís e,
sobretudo, o amor da patria tinham nascido para os godos logo que,
fixando o seu domicilio nas Hespanhas, possuiram de paes a filhos o
campo agricultado, o lar domestico, o templo da oração e o cemiterio
do repouso e da saudade. Nestes corações, onde reinavam affectos ao
mesmo tempo ardentes e profundos, porque nelles a indole meridional se
misturava com o caracter tenaz dos povos do norte, a moral evangelica
revestia esses affectos d'uma poesia divina, e a civilisação ornava-os
de uma expressão suave, que lhes realçava a poesia. Mas no fim do
seculo septimo eram já bem raros aquelles em quem as tradições da
cultura romana não haviam subjugado os instinctos generosos da barbaria
germanica e a quem o christianismo fazia ainda escutar o seu verbo
intimo, esquecido no meio do luxo profano do clero e da pompa insensata
do culto exterior. Uma longa paz com as outras nações tinha convertido
a antiga energia dos godos em alimento das dissensões intestinas, e
a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em logar della o
habito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos
infames e das abjecções ambiciosas. O povo, esmagado debaixo do peso
dos tributos, dilacerado pelas luctas dos bandos civis, prostituido ás
paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras
de seus avós. As leis de Wamba e as expressões de Erwig no duodecimo
concilio de Toletum revelam quão fundo ía nesta parte o cancro da
degeneração moral das Hespanhas. No meio de tantos e tão duros vexames
e padecimentos, o mais custoso e aborrecido de todos elles para os
afeminados descendentes dos soldados de Theoderik, de Thorsmund, de
Theudes e de Leuwighild era o vestir as armas em defensão daquella
mesma patria que os heroes wisigodos tinham conquistado para a legarem
a seus filhos, e a maioria do povo preferia a infamia que a lei impunha
aos que recusavam defender a terra natal aos riscos gloriosos dos
combates e á vida fadigosa da guerra.

Tal era, em resumo, o estado politico e moral da Hespanha na epocha em
que aconteceram os sucessos que vamos narrar.



II

O PRESBYTERO


     Sublimado ao grau de presbytero.... quanta brandura, qual
     caridade fosse a sua o amor de todos lh'o demonstrava.

                         Alvaro de Cordova: _Vida de S. Eulogio c._ 1.


No reconcavo da bahia que se encurva ao oeste do Calpe, Carteia, a
filha dos phenicios, mira ao longe as correntes rapidas do estreito que
divide a Europa da Africa. Opulenta outr'ora, os seus estaleiros tinham
sido famosos antes da conquista romana, mas apenas restam vestigios
delles; as suas muralhas haviam sido extensas e solidas, mas jazem
desmoronadas; os seus edificios foram cheios de magnificencia, mas
cahiram em ruinas; a sua povoação era numerosa e activa, mas rareiou
e tornou-se indolente. Passaram por lá as revoluções, as conquistas,
todas as vicissitudes da Iberia durante doze seculos, e cada
vicissitude dessas deixou ahi uma pégada de decadencia. Os curtos annos
d'explendor da monarchia wisigothica tinham sido para ella como um dia
formoso d'inverno, em que os raios do sol resvalam pela face da terra
sem a aquecerem, para depois vir a noite, humida e fria como as que a
precederam. Debaixo do governo de Witiza e de Ruderico a antiga Carteia
é uma povoação decrepita e mesquinha, á roda da qual estão espalhados
os fragmentos da passada opulencia e que, talvez, na sua miseria,
apenas nas recordações que lhe suggerem esses farrapos de louçainhas
juvenis acha algum refrigerio ás amarguras da malfadada velhice.

Não!--Resta-lhe ainda outro: a religião do Christo.

O presbyterio, situado no meio da povoação, era um edificio humilde,
como todos os que ainda subsistem alevantados pelos godos sobre o sólo
da Hespanha. Cantos enormes sem cimento alteiam-lhe os muros, cobre-lhe
o ambito tecto achatado, tecido de grossas traves de carvalho sobpostas
ao ténue colmo: o seu portal profundo e estreito presagia de certo modo
a mysteriosa portada da cathedral da idade-média: as suas janellas, por
onde a claridade, passando para o interior, se transforma em tristonho
crepusculo, são como um typo indeciso e rude das frestas que, depois,
alumiaram os templos edificados no decimo quarto seculo, através das
quaes, coada por vidros de mil cores, a luz ia bater melancholica
nos alvos pannos dos muros gigantes e estampar nelles as sombras das
columnas e arcos enredados das naves. Mas se o presbyterio wisigothico,
no escaço da claridade, se approxima do typo christão d'architectura,
no resto revela que ainda as idéas grosseiras do culto de Odin não se
tem apagado de todo nos filhos e netos dos barbaros, convertidos ha
tres ou quatro seculos á crença do crucificado.

O presbytero Eurico era o pastor da pobre parochia de Carteia.
Descendente de uma antiga familia barbara, gardingo na corte de Witiza,
tiuphado ou millenario do exercito wisigothico, vivera os ligeiros dias
da mocidade no meio dos deleites da opulenta Toletum. Rico, poderoso,
gentil, o amor viera, apesar disso, quebrar a cadeia brilhante da
sua felicidade. Namorado d'Hermengarda, filha de Favila, duque de
Cantabria, e irman do valoroso e depois tão celebre Pelagio, o seu
amor fora infeliz. O orgulhoso Favila não consentira que o menos nobre
gardingo pusesse tão alto a mira dos seus desejos. Depois de mil provas
de um affecto immenso, de uma paixão ardente, o moço guerreiro vira
submergir todas as suas esperanças. Eurico era uma destas almas ricas
de sublime poesia a que o mundo deu o nome d'imaginações desregradas,
porque não é para o mundo entendê-las. Desventurado, o seu coração de
fogo queimou-lhe o viço da existencia ao despertar dos sonhos do amor
que o tinham embalado. A ingratidão d'Hermengarda, que parecera ceder
sem resistencia á vontade de seu pae, e o orgulho insultuoso do velho
procer deram em terra com aquelle animo, que o aspecto da morte não
sería capaz de abater. A melancholia que o devorava, consumindo-lhe
as forças, fe-lo cahir em longa e perigosa enfermidade, e, quando a
energia de uma constituição vigorosa o arrancou das bordas do tumulo,
semelhante ao anjo rebelde, os toques bellos e puros do seu gesto
formoso e varonil transpareciam-lhe a custo através do véu de muda
tristeza que lhe entenebrecia a fronte. O cedro pendia fulminado pelo
fogo do céu.

Uma destas revoluções moraes que as grandes crises produzem no
espirito humano se operou então no moço Eurico. Educado na crença viva
daquelles tempos; naturalmente religioso porque poeta, foi procurar
abrigo e consolações aos pés d'Aquelle cujos braços estão sempre
abertos para receber o desgraçado que nelles vai buscar o derradeiro
refugio. Ao cabo das grandezas cortesans o pobre gardingo encontrara
a morte do espirito, o desengano do mundo. Ao cabo da estreita senda
da cruz acharia elle, porventura, a vida e o repouso intimos? Era este
problema, no qual se resumia todo o seu futuro, que tentava resolver o
pastor do pobre presbyterio da velha cidade do Calpe.

Depois de passar pelos differentes gráus do sacerdocio, Eurico recebera
ainda de Siseberto, o predecessor de Oppas na sé de Hispalis, o encargo
de pastoreiar esse diminuto rebanho da povoação phenicia. O moço
presbytero, legando á cathedral uma porção dos dominios que herdara
junctamente com a espada conquistadora de seus avós, havia reservado
apenas uma parte das proprias riquezas. Era esta a herança dos
miseraveis, que elle sabia não escaceiarem na quasi solitaria e meia
arruinada Carteia.

A nova existencia d'Eurico tinha modificado, porém não destruido o
seu brilhante caracter. A maior das humanas desventuras, a viuvez
do espirito, abrandara, pela melancholia, as impetuosas paixões do
mancebo e apagara nos seus labios o riso do contentamento, mas não
podera desvanecer no coração do sacerdote os generosos affectos do
guerreiro, nem as inspirações do poeta. O templo havia sanctificado
aquelles, moldando-os pelo evangelho, e tornado estas mais solemnes,
alimentando-as com as imagens e sentimentos sublimes estampados nas
paginas sacrosanctas da Biblia. O enthusiasmo e o amor tinham resurgido
naquelle coração que parecera morto, mas transformados; o enthusiasmo
em enthusiasmo pela virtude; o amor em amor dos homens. E a esperança?
Oh, a esperança, essa é que não renascera!



III

O POETA


     Nenhum de vós ouse reprovar os hymnos compostos em louvor de
     Deus.

                                     _Concilio de Toledo IV. can._ 13.


Muitas vezes, pela tarde, quando o sol, transpondo a bahia de Carteia,
descia affogueiado para a banda de Mellaria, dourando com os ultimos
resplendores os cimos da montanha pyramidal do Calpe, via-se ao
longo da praia vestido com a fluctuante stringe o presbytero Eurico,
encaminhando-se para os alcantis aprumados á beira-mar. Os pastores
que o encontravam, voltando ao povoado, diziam que, ao passarem por
elle e ao saudarem-no, nem sequer os escutava e que dos seus labios
semi-abertos e tremulos rompia um sussurro de palavras inarticuladas,
semelhante ao ciciar da aragem pelas ramas da selva. Os que lhe
espreitavam os passos, nestes largos passeios da tarde, viam-no
chegar ás raizes do Calpe, trepar aos precipicios, sumir-se entre os
rochedos e apparecer, por fim, lá ao longe, immovel sobre algum pincaro
requeimado pelos soes do estio e poido pelas tempestades do inverno.
Ao lusco-fusco, as amplas pregas da stringe d'Eurico, branquejando
movediças á mercê do vento, eram o signal de que elle estava lá, e,
quando a lua subia ás alturas do céu, esse alvejar de roupas tremulas
durava, quasi sempre, até que o planeta da saudade se atufava nas aguas
do Estreito. D'ahi a poucas horas, os habitantes de Carteia que se
erguiam para os seus trabalhos ruraes antes do alvorecer, olhando para
o presbyterio, viam, através dos vidros corados da solitaria morada de
Eurico, a luz da lampada nocturna que esmorecia, desvanecendo-se na
claridade matutina. Cada qual tecia então sua novella ajudado pelas
crenças da superstição popular: artes criminosas, tracto com o espirito
mau, penitencia de uma abominavel vida passada e, até, a loucura,
tudo serviu successivamente para explicar o proceder mysterioso do
presbytero. O povo rude de Carteia não podia entender esta vida
d'excepção, porque não percebia que a intelligencia do poeta precisa de
viver n'um mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão
mesquinhos limites.

Mas Eurico era como um anjo tutelar dos amargurados. Nunca a sua mão
benefica deixou de estender-se para o logar em que a afflicção se
assentava; nunca os seus olhos recusaram lagrymas que se misturassem
com lagrymas d'alheias desventuras. Servo ou homem livre, liberto ou
patrono, para elle todos eram filhos. Todas as condições se livelavam
onde elle apparecia; porque, pae commum daquelles que a providencia
lhe confiara, todos para elle eram irmãos. Sacerdote do Christo,
ensinado pelas largas horas de intima agonia, esmagado o seu coração
pela suberba dos homens, Eurico percebera, emfim, claramente que o
christianismo se resume em uma palavra--fraternidade. Sabía que o
evangelho é um protesto dictado por Deus, para os seculos, contra as
vans distincções que a força e o orgulho radicaram neste mundo de lodo,
d'oppressão e de sangue; sabía que a unica nobreza é a dos corações e
dos entendimentos que buscam erguer-se para as alturas do céu, mas que
essa superioridade real é exteriormente humilde e singela.

Pouco a pouco, a severidade dos costumes do pastor de Carteia e a sua
beneficencia, tão meiga, tão despida das insolencias que costumam
acompanhar e encher d'amargor para os miseraveis a piedade hypocrita
dos felizes da terra; essa beneficencia que a religião chamou caridade,
porque a linguagem dos homens não tinha palavra que exprimisse
rigorosamente um affecto revelado á terra pela victima do Calvario;
essa beneficencia que a gratidão geral recompensava com amor sincero
tinha desvanecido gradualmente as suspeitas odiosas que o proceder
extraordinario do presbytero suscitara a principio. Emfim, certo
domingo em que, tendo aberto as portas do templo, e havendo já o
psalmista entoado os canticos matutinos, o ostiario buscava cuidadoso o
sacerdote, que parecia ter-se esquecido da hora em que devia sacrificar
a hostia do cordeiro e abençoar o povo, foi encontrá-lo adormecido
juncto á sua lampada ainda accesa e com o braço firmado sobre um
pergaminho cuberto de linhas desiguaes. Antes de despertar Eurico,
o ostiario correu com os olhos a parte da escriptura que o braço do
presbytero não encobria. Era um novo hymno no genero daquelles que
Isidoro, o celebre bispo de Hispalis, introduzira nas solemnidades
da igreja goda. Então o ostiario entendeu o mysterio da vida errante
do pastor de Carteia e as suas vigilias nocturnas. Não tardou em
espalhar-se na povoação e nos logares circumvizinhos que Eurico era
o auctor de alguns canticos religiosos transcriptos nos hymnarios de
varias dioceses, e uma parte dos quaes brevemente foi admittida na
propria cathedral d'Hispalis. O caracter de poeta tornou-o ainda mais
respeitado. A poesia, dedicada quasi exclusivamente entre os wisigodos
ás solemnidades da igreja, sanctificava a arte e augmentava a veneração
publica para quem a exercitava. O nome do presbytero começou a soar por
toda a Hespanha, como o de um successor de Draconio, de Merobaude e de
Orencio.

Desde então ninguem mais lhe seguiu os passos. Assentado nos alcantis
do Calpe, vagabundo pelas campinas vizinhas ou embrenhado pelas selvas
sertanejas, deixaram-no tranquillo embalar-se nos seus pensamentos.
Na conta de inspirado por Deus, quasi na de propheta, o tinham as
multidões. Não gastava elle as horas que lhe sobejavam do exercicio
de seu laborioso ministerio n'uma obra do Senhor? Não deviam esses
hymnos da soledade e da noite derramar-se como um perfume ao pé dos
altares? Não completava Eurico a sua missão sacerdotal, revestindo a
oração das harmonias do céu, estudadas e colhidas por elle no silencio
e na meditação? Mancebo, o numeroso clero das parochias vizinhas
considerava-o como o mais veneravel entre os seus irmãos no sacerdocio,
e os velhos procuravam na sua fronte, quasi sempre carregada e triste,
e nas suas breves mas eloquentes palavras o segredo das inspirações e o
ensino da sabedoria.

Mas, se os que o acatavam como um predestinado soubessem quão negra era
a predestinação do poeta, porventura que essa especie de culto de que
o cercavam se converteria em compaixão ou antes em terror. Os hymnos
tão suaves, tão cheios d'uncção, tão intimos, que os psalmistas das
cathedraes de Hespanha repetiam com enthusiasmo eram como o respirar
tranquillo do somno da madrugada que vem depois de arquejar e gemer
de pesadello nocturno. Rapido e raro passava o sorrir nas faces de
Eurico; profundas e indeleveis eram as rugas da sua fronte. No sorriso
reverberava o hymno pio, harmonioso, sancto dessa alma, quando,
alevantando-se da terra, se entranhava nos sonhos de um mundo melhor.
Ás rugas, porém, da fronte do presbytero, semelhantes ás vagas varridas
pelo noroeste, respondia um canto lugubre de colera ou desalento, que
rebramia lá dentro, quando a sua imaginação, cahindo, como a aguia
ferida, das alturas do espaço, se rojava pela morada dos homens. Era
este canto doloroso e tetrico, o qual lhe transsudava do coração em
noites não dormidas, na montanha ou na selva, na campina ou no estreito
aposento, que elle derramava em torrentes de amargura ou de fel sobre
pergaminhos que nem o ostiario nem ninguem tinha visto. Estes poemas,
em que palpitava a indignação e a dor de um animo generoso, eram o
Gethsemani do poeta. Todavia, os virtuosos nem sequer o imaginavam,
porque não perceberiam como, tranquilla a consciencia e repousada a
vida, um coração póde devorar-se a si proprio, e os maus não criam
que o sacerdote, embebido unicamente em suas esperanças credulas, em
suas cogitações d'além do tumulo, curasse dos males e crimes que roíam
o imperio moribundo dos wisigodos; não criam que tivesse um verbo de
colera para amaldicçoar os homens aquelle que ensinava o perdão e o
amor. Era por isto que o poeta escondia as suas terriveis inspirações.
Monstruosas para uns, objecto de ludibrio para outros, n'uma sociedade
corrupta, em que a virtude era egoista e o vicio incredulo, ninguem o
escutara ou, antes, ninguem o entenderia.

Levado á existencia tranquilla do sacerdocio pela desesperança,
Eurico sentira a principio uma suave melancholia refrigerar-lhe a
alma requeimada ao fogo da desdita. A especie de torpor moral em que
uma rapida transição de habitos e pensamentos o lançara pareceu-lhe
paz e repouso. A ferida affizera-se ao ferro que estava dentro della,
e Eurico suppunha-a sarada. Quando um novo affecto veio espremê-la
é que sentiu que não se havia cerrado e que o sangue manava ainda,
porventura, com mais força. Um amor de mulher mal correspondido a
tinha aberto: o amor da patria, despertado pelos acontecimentos que
rapidamente succediam uns aos outros na Hespanha despedaçada pelos
bandos civis, foi a mão que de novo abriu essa chaga. As dores
recentes, avivando as antigas, começaram a converter pouco a pouco os
severos principios do christianismo em flagello e martyrio daquella
alma, que, a um tempo, o mundo repellia e chamava e que nos seus
transes d'angustia sentia escripta na consciencia com a penna do
destino esta sentença cruel:--nem a todos dá o tumulo a bonança das
tempestades do espirito.

As scenas de dissolução social que naquelle tempo se representavam na
Peninsula eram capazes de despertar a indignação mais vehemente em
todos os animos que ainda conservavam um diminuto vestigio do antigo
caracter godo. Desde que Eurico trocara o gardingato pelo sacerdocio,
os odios civís, as ambições, a ousadia dos bandos e a corrupção dos
costumes haviam feito incriveis progressos. Nas solidões do Calpe
tinha reboado a desastrada morte de Witiza, a enthronisação violenta
de Ruderico e as conspirações que ameaçavam rebentar por toda a parte
e que a muito custo o novo monarcha ía affogando em sangue. Ebbas e
Sisebuto, filhos de Witiza, Oppas, seu tio, successor de Siseberto na
sé de Hispalis, e Juliano, conde dos dominios hespanhoes nas costas
d'Africa, do outro lado do Estreito, eram os cabeças dos conspiradores.
Unicamente o povo conservava aínda alguma virtude, a qual, semelhante
ao liquido transvasado por cendal delgado e gasto, escoara inteiramente
atravez das classes superiores. Opprimido, todavia, por muitos generos
de violencias, esmagado debaixo dos pés dos grandes que luctavam,
descrera por fim da patria, tornando-se indifferente e covarde,
prestes a sacrificar a sua existencia collectiva á paz individual e
domestica. A força moral da nação tinha, portanto, desapparecido, e a
força material era apenas um phantasma; porque, debaixo das lorigas dos
cavalleiros e dos saios dos peões das hostes não havia senão animos
gelados, que não podiam aquecer-se ao fogo do sancto amor da terra
natal.

Com a profunda intelligencia de poeta, o Presbytero contemplava este
horrivel espectaculo de uma nação cadaver e, longe do bafo empestado
das paixões mesquinhas e torpes daquella geração degenerada, ou
derramava sobre o pergaminho em torrentes de fel, d'ironia e de colera
a amargura que lhe trasbordava do coração ou, recordando-se dos tempos
em que era feliz porque tinha esperança, escrevia com lagrymas os
hymnos de amor e de saudade. Das elegias tremendas do Presbytero alguns
fragmentos que duraram até hoje diziam assim:



IV

RECORDAÇÕES


     Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?

     S. Eulogio: _Memorial dos Sanct. liv._ 3.^o

                         _Presbyterio de Carteia. Á meia noite
                             dos Idos de Dezembro de 748._


1

Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu
sem lua é vivo e tremulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo;
em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e
tetrica.

Era a hora em que o homem está recolhido nas suas mesquinhas moradas;
em que pelos cemiterios o orvalho se pendura do topo das cruzes
e, sósinho, goteja das bordas das campas; em que só elle chora os
mortos. As larvas da imaginação e o gear nocturno affastam do campo
sancto a saudade da viuva e do orpham, a desesperação da amante, o
coração despedaçado do amigo. Para se consolarem, os infelizes dormiam
tranquillos em seus leitos macios!... em quanto os vérmes íam roendo
esses cadaveres amarrados pelos grilhões da morte. Hypocritas dos
affectos humanos, o somno enxugou-lhes as lagrymas!

E depois, as lousas eram já tão frias! Nos seios de um torrão humido o
sudario do cadaver tinha apodrecido com elle.

Haverá paz no tumulo? Deus sabe o destino de cada homem. Para o que ahi
repousa sei eu que ha na terra o esquecimento!

Os mares pareciam naquella hora recordar-se ainda do rugido harmonioso
do estio, e a vaga arqueiava-se, rolava e, espreguiçando-se pela praia,
reflectia a espaços nas golfadas de escuma a luz indecisa dos céus.

E o animal que ri e chora, o rei da creação, a imagem da divindade,
onde é que se escondera?

Tremia de frio em aposento cerrado, e sentia confrangido a brisa
fresca do norte que passava nas trevas e sibilava contente nas sarças
rasteiras dos maninhos desertos.

Sem dúvida, o homem é forte e a mais excellente obra da creação. Gloria
ao rei da natureza que tiritando geme!

Orgulho humano, qual és tu mais?--feroz, estupido ou ridiculo?


2

Não eram assim os godos do oeste quando, ora arrastando por terra as
aguias romanas, ora segurando com o seu braço de ferro o imperio que
desabava, imperavam na Italia, nas Gallias e nas Hespanhas, moderadores
e arbitros entre o Septemtrião e o Meio-dia:

Não era assim, quando o velho Theoderik, semelhante ao urso feroz da
montanha, combatia nos campos catalaunicos rodeiado de tres filhos
contra o terrivel Attila e ganhava no seu ultimo dia a sua ultima
victoria:

Quando a larga e curta espada de dous gumes se convertera em fouce de
morte nas mãos dos godos, e diante della retrocedia a cavallaria dos
gépidas, e os esquadrões dos hunos vacillavam, dando roucos gritos
d'espanto e terror.

Quando as trevas eram mais cerradas e profundas viam-se á claridade
das estrellas relampagueiar as armas dos hunos, volteiando em roda dos
seus carros, que lhes serviam de vallos. Como o caçador espreita o
leão tomado no fojo, os wisigodos os vigiavam, esperando o romper da
alvorada.

Lá, o sopro gelado da noite não fazia confranger nossos avós debaixo
das armaduras. Lá, a neve era um leito como outro qualquer, e o rugir
do bosque, debatendo-se nas azas da tempestade, era uma cantilena de
repouso.

O velho Theoderik cahira atravessado por uma frecha despedida pelo
ostrogodo Handags, que com os da sua tribu combatia pelos hunos.

Os wisigodos viram-no, passaram ávante e vingaram-no. Ao pôr do sol,
gépidas, ostrogodos, scyros, burgundos, thuringios, hunos, misturados
uns com outros, tinham mordido a terra catalaunica, e os restos da
innumeravel hoste d'Attila, encerrados no seu acampamento fortificado,
preparavam-se para morrer; porque Theoderik jazia para sempre, e o
frankisk dos wisigodos era vingador e inexoravel.

O romano Aecio teve, porém, piedade d'Attila e disse aos filhos de
Theoderik:--ide-vos, porque o imperio está salvo.

E Thorsmund, o mais velho, perguntou a seus dous irmãos Theoderik e
Friederik:--está acaso vingado o sangue de nosso pae?

De sobejo o estava elle! Ao apparecer do dia, por quanto os olhos
podiam alcançar, não se viam senão cadaveres.

E os wisigodos deixaram entregues a si os romanos, que, desde então,
não souberam senão fugir diante d'Attila.

Quem contará, porém, as victorias de nossos avós durante tres seculos
de gloria? Quem poderá celebrar o esforço d'Eurik, de Theudes, de
Leuwighild; quem saberá todas as virtudes de Rekkáred e de Wamba?

Mas, em qual coração resta hoje virtude e esforço no vasto imperio
d'Hespanha?


3

Era, pois, n'uma destas noites como a que desceu do céu depois do
desbarato dos hunos; era n'uma destas noites em que a terra, envolta
no seu manto d'escuridade, se povôa de terrores incertos; em que o
sussurro do pinhal é como um coro de finados, o despenho da torrente
como um ameaçar d'assassino, o grito da ave nocturna como uma
blasphemia do que não crê em Deus.

Nessa noite fria e humida, arrastado por agonia intima, vagava eu ás
horas mortas pelos alcantis escalvados das ribas do mar e enxergava ao
longe o vulto negro das aguas balouçando-se no abysmo que o Senhor lhes
deu para perpetua morada.

Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do
vento, como o rugido do mar.

Porque o vento e o oceano são as duas unicas expressões sublimes do
verbo de Deus, escriptas na face da terra quando ainda ella se chamava
o cahos.

Depois é que surgiu o homem e a podridão, a arvore e o verme, a bonina
e o emmurchecer.

E o vento e o mar viram nascer o genero-humano, crescer a selva,
crescer a primavera;--e passaram, e sorriram-se.

E, depois, viram as gerações reclinadas nos campos do sepulchro,
as arvores derribadas no fundo dos valles seccas e carcomidas, as
flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio;--e passaram, e
sorriram-se.

Que tinham elles, de feito, com essas existencias, mais passageiras e
incertas que as correntezas de um e que as ondas buliçosas do outro?


4

O mundo actual nunca poderá entender plenamente o affecto que,
vibrando-me dolorosamente as fibras do coração, me arrastava para as
solidões marinhas do promontorio, quando os outros homens nos povoados
se apinhavam á roda do lar acceso e falavam das suas mágoas infantis e
dos seus contentamentos de um instante.

E que m'importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra d'Hespanha
gerações que comprehendam as palavras do Presbytero.

Arrastava-me para o ermo um sentimento intimo, o sentimento de haver
acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida e de que hoje
ninguem acorda, senão depois de morrer.

Sabeis o que é esse despertar de poeta?

É o ter entrado na existencia com um coração que trasborda d'amor
sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajunctarem-se os homens e
lançarem-lhe dentro do seu vaso d'innocencia lodo, fel e peçonha e,
depois, rirem-se d'elle:

É o ter dado ás palavras--virtude, amor patrio e gloria--uma
significação profunda e, depois de haver buscado por annos a realidade
dellas neste mundo, só encontrar ahi hypocrisia, egoismo e infamia:

É o perceber á custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar
descrer, o experimentar desenganar-se e a esperança nas cousas da
terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tenue que ondeia em
horisonte áquem do qual está assentada a sepultura.

Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abysmos da sua alma só ha
para mandar aos labios um sorriso de desprezo em resposta ás palavras
mentidas dos que o cercam ou uma voz de maldicção desabridamente
sincera para julgar as acções dos homens.

É então que para elle ha unicamente uma vida real--a intima; unicamente
uma linguagem intelligivel--a do bramido do mar e do rugido dos ventos;
unicamente uma convivencia não travada de perfidia--a da solidão.


5

Tal era eu quando me assentei sobre as fragas; e a minha alma via
passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e
forte, porque sem horror derrama em luctas civis o sangue de seus
irmãos.

E o meu espirito atirava-se para as trévas do passado.

E o sopro rijo do norte affagava-me a fronte requeimada pela amargura,
e a memoria consolava-me das dissoluções presentes com a aspiração
suave do formoso e energico viver d'outr'ora.

E o meu meditar era profundo como o céu, que se arqueia immovel sobre
nossas cabeças; como o oceano, que, firmando-se em pé no seu leito
insondavel, braceja pelas bahias e enseadas, tentando esmigalhar e
desfazer os continentes.

E eu pude, emfim, chorar.


6

Que fora a vida, se nella não houvera lagrymas?

O Senhor estende o seu braço pesado de maldicções sobre um povo
criminoso: o pae que perdoara mil vezes converte-se em juiz inexoravel;
mas, ainda assim, a Piedade não deixa de orar juncto dos degráus do seu
throno.

Porque sua irman é a Esperança, e a esperança nunca morre nos céus. De
lá ella desce ao seio dos máus antes que sejam precítos:

E os desgraçados na sua miseria conservam sempre olhos que saibam
chorar.

A dor mais tremenda do espirito quebrantam-na e entorpecem-na as
lagrymas.

O Sempiterno as creou quando nossa primeira mãe nos converteu em
réprobos: ellas servem, porventura, ainda de algum refrigerio lá nas
trévas exteriores, onde ha o ranger dos dentes.

Meu Deus, meu Deus!--Bemdicto seja o teu nome, porque nos déste o
chorar.



V

A MEDITAÇÃO


     Então os godos cahirão na guerra;
     Então fero inimigo ha-de opprimi-los
     Com ruinas sem conto, e o susto e a fome.

     _Hymno de_ S. Isidoro _em_ Lucas de Tui. Chronicon liv. 3.^o

            _No templo--Ao romper d'alva--Dia de Natal da era de 748._


1

Mais de sete seculos são passados depois que tu, oh Christo, vieste
visitar a terra.

E as tuas palavras foram escutadas pelos indomaveis filhos da Gothia, e
elles ajoelharam aos pés da cruz.

Era que nessas palavras divinas havia uma poesia celeste, a qual as
almas rudes mas virgens do septemtrião sentiam casar-se com as suas
primitivas virtudes.

Tu evangelisavas a liberdade e condemnavas todo o genero de tyrannia:
tu restituias ao valor a sua generosidade, á generosidade a sua
modestia; tu revelavas inauditos mysterios no esforço do morrer: a
constancia dos teus martyres escurecia a dos nossos guerreiros quando,
debaixo do punhal de inimigo victorioso, recusavam confessar-se
vencidos.

Tu convertias o amor, esse sentimento delicioso, até então limitado
ao goso material da mulher, em um grande e sublime affecto: alargavas
o ambito do coração por toda a terra, por tudo quanto nella vive e
respira, e davas-lhe para conquistar todas as existencias dos céus.

A generosidade, o esforço e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua
sublimidade: só nas almas dos barbaros estavam elles em germen. Não
para os romanos corrompidos, mas para nós, os selvagens septemtrionaes,
era o christianismo. Para estes o evangelho assemelhava-se ao sol
que rompe d'além das serras e que illumina, aquece e alegra; para os
escravos abjectos dos cesares assemelhava-se ao sol mergulhando-se no
mar, que só deixa nos campos escuridão, frialdade e tristeza.

Por isso, emquanto elles voltavam as costas á tua cruz ou a lançavam
d'envolta com os idolos nos seus mesquinhos lararios, nós quebravamos
no fundo das selvas ou no topo das montanhas as imagens d'Odin, de Thor
e de Freda e corriamos a abraçarmo-nos com ella.

Tem compaixão de nós, oh Christo: lembra-te de que os ossos dos que
assim o fizeram ainda não são inteiramente cinzas debaixo das lousas;
porque só quatro seculos tem passado por cima delles.


2

Quem é hoje christão e godo nesta nossa terra d'Hespanha?

Uma geração degenerada pisa os restos d'heroes: homens sem crença,
blasphemos ou hypocritas, succederam aos que criam na grandeza moral do
genero-humano e na providencia de Deus.

D'antes, os principes do povo eram os capitães das hostes: a espada dos
reis a primeira que se tingia no sangue dos inimigos da patria.

D'antes, o sacerdote era o anjo da terra: os que passavam curvavam-se
para beijar a fimbria da sua stringe; porque a paz e a esperança
entravam em todas as moradas sobre que desciam as bençams delle.

D'antes, o juiz era o pae do opprimido, o tribunal o abrigo do
innocente, a justiça o nervo do imperio gothico.

D'antes, nos concelhos dos prelados, dos nobres, dos homens livres as
leis íam buscar a sancção da sabedoria e afferir-se pela utilidade
commum. Lá, o rei sabía que o poder lhe vinha de Deus e da vontade dos
godos, que o sceptro era cajado de pastor, não cutello d'algoz, e a
coroa uma carga pesada, não uma aureola de vangloria.

Hoje, nos paços de Toletum só retumba o ruido das festas, os frankos e
os vasconios talam as provincias do norte, e a espada dos guerreiros só
reluz nas luctas civís.

Hoje, os principes na embriaguez dos banquetes esqueceram-se das
tradições d'avós; esqueceram-se de que era aos capitães das hostes da
Germania que os romanos imbelles davam o nome de reis.

Hoje, a prostituição entrou no templo do Crucificado: os claustros das
cathedraes velam com o seu manto de pedra as abominações da torpeza, e
as mãos do sacerdote deixam muitas vezes humedecida a tela que veste os
altares com vestigios do sangue derramado covarde e vilmente.

Hoje, a cubiça assentou-se no logar da equidade: o juiz vende a
consciencia no mercado dos poderosos, como as mulheres de Babylonia
vendiam a pudicicia nas praças publicas aos que passavam, diante da luz
do dia.

Hoje, a espada substituiu o conselho dos prelados, dos nobres e dos
homens livres: a coroa é uma conquista, a lei uma vontade do deshonrado
vencedor de pelejas domesticas, a liberdade uma palavra mentida.

Imperio d'Hespanha, imperio d'Hespanha! porque foram os teus dias
contados?


3

O sol oriental que ora bate ridente no pavimento da igreja afflige a
minha alma, porque me parece que, alumiando esta terra condemnada, se
assemelha a homem cruel que viesse dar uma risada juncto ao leito do
moribundo.

Porque te havia eu de amar, oh sol, se tu és o inimigo dos sonhos do
imaginar; se tu nos chamas á realidade, e a realidade é tão triste?

Pela escuridão da noite, nos logares ermos e ás horas mortas do alto
silencio a phantasia do homem é mais ardente e robusta.

É então que elle dá movimento e vida aos penhascos, voz e entendimento
ás selvas que se meneiam e gemem á mercê da brisa nocturna.

É então que elle collige as suas recordações; une, parte, transmuda as
imagens das existencias que viu passar ante si e estampa nas sombras
que o rodeiam um universo transitorio, mas para elle real.

E é bello esse mundo de phantasmas aereos, por entre cujos labios
descorados não transpiram nem perjurio nem dobrez e a cujos olhos sem
brilho não assoma o reflexo de animos pervertidos.

Ahi ha o repouso, a paz e a esperança que desappareceram da terra;
porque o mundo das visões cria-o a mente pura do poeta: ella dá corpo
e vulto ao que já só é ideal, e o passado, deixando cahir o seu
immenso sudario, ergue-se em pé e, pondo-se diante do que medita,
diz-lhe:--aqui estou eu!

E este o compara com o presente e recúa d'involuntario terror:

Porque o cadaver que se alevanta do pó é formoso e sancto, e o presente
que vive e passa e sorri é horrendo e maldicto.

E o poeta atira-se chorando ao seio do cadaver e
responde-lhe:--esconde-me tu!

É lá que esta alma, arida como a urze, sente, quando ahi se abriga,
refrescá-la um como orvalho do céu.



VI

SAUDADE


     Christo!--dá-me o perdão; dá-me remedio;
     Que entre tão vario mal fraqueia a mente!

     Eugenio Toledano: _Opusculos--XI._

                      _Na Ilha-verde. Ao pôr do sol das
                      kalendas de abril da era de 749._


1

O mar estava tranquillo, e o ar puro e diaphano. As costas d'Africa
fronteiras, lá na extremidade do horisonte, pareciam uma orla escura
bordada no manto azul do firmamento.

A aragem do norte encrespava suavemente a superficie das aguas: as
ondas vinham espraiar-se preguiçosas no areial da bahia.

O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmonio.
Uma saudade indizivel attrahia-me para o mar.

Saltei na barca; o ruido que fiz despertou Ranimiro.--«Ao
largo»--disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos.

«Para onde, Presbytero?»--perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns
momentos em silencio.

«Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais
nada:--repliquei.--Leva-me para onde te approuver.»

--Se vos parece--tornou Ranimiro--rodeiaremos a Ilha Verde, entraremos
no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ella estará agora
esmaltada de verdura e boninas.»

Calei-me: o barqueiro tomou por approvação o meu silencio. Voltando a
proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeiando a sua margem
occidental, abicámos em terra pelo lado da enseada que a separa do
continente.

Ranimiro não se enganara: como uma tapeçaria riquissima lançada ao som
das aguas, a superficie da ilha agitava-se trémula com a aragem da
terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da
relva.

Assentado á sombra de uma rocha que formava um promontoriosinho do lado
do sul, lancei os olhos em volta até onde se descubria o horisonte.
Lá, no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na
ponta da Africa os cimos das torres de Septum fronteiras aos cerros
escalvados do Calpe. De Septum para o occidente as costas africanas
contrastavam nas suas ondulações suaves com a penedia aspera das
ribas hispanicas, e, confrangido entre os dous continentes, o mar
balouçava-se resplandecente com os raios já inclinados do sol.

De roda de mim a atmosphera estava impregnada de um halito perfumado:
era a natureza que sorria affagada pela primavera. As aves aquaticas
redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as aguas e pareciam, nos seus
vôos incertos, ora vagarosos, ora rapidos, folgarem com os primeiros
dias da estação dos amores.

Uma melancholia suave se me erguia lentamente no coração, debaixo
daquelle céu puro, n'aquella atmosphera balsamica, ante aquelles
horisontes saudosos. As lagrymas rebentaram-me involuntariamente dos
olhos.

Era feliz neste momento, porque repousava d'amarguras. Olhei para a
barca: Ranimiro adormecera de novo á proa. Repousavam bem perto um do
outro a materia e o espirito.

Bemaventurado, pensei eu comigo, aquelle em quem os affagos de uma
tarde serena de primavera no silencio da solidão produzem o torpor dos
membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do
ruido da vida!

E este pensamento trouxe-me pouco e pouco á memoria as tempestades do
passado. Ai de mim! Logo se me enchugaram as lagrymas, porque eram de
consolação, e essa lembrança as estancou!


2

Porque não adormeço eu, como o rude barqueiro, ao murmurio das vagas
somnolentas, ao sussurro da brisa do norte?

Porque mulher barbara não entendeu o que valia o amor d'Eurico; porque
velho orgulhoso e avaro sabía mais um nome de avós do que eu, e porque
nos seus cofres havia mais alguns punhados d'ouro do que nos meus.

As mãos imbelles de uma donzella e de um velho esmagaram e despedaçaram
o coração de um homem, como os caçadores covardes assassinam no fojo o
leão indomavel e generoso.

E, todavia, este coração sentia a voz da consciencia pregoar-lhe largos
destinos! Porque não emmudeceu essa voz quando do portico do templo
lancei ao mundo a maldicção da despedida?

Porque me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas
esperanças?

É porque o viver é o éculeo do espirito: a alma estorce-se como
agonisante no meio dos mais incomportaveis tormentos, sem nunca poder
expirar, e os seus affectos profundos são com ella; não lhes é dado o
morrer.

Paz e esquecimento, oh meu Deus!


3

Os raios derradeiros do sol desappareceram: o clarão avermelhado da
tarde vai quasi vencido pelo grande vulto da noite, que se alevanta do
lado de Septum. Nesse chão tenebroso do oriente a tua imagem serena e
luminosa surge a meus olhos, oh Hermengarda, semelhante á apparição do
anjo da esperança nas trevas do condemnado.

E essa imagem é pura e sorri; orna-lhe a frente a coroa das virgens;
sobe-lhe ao rosto a vermelhidão do pudor; o amiculo alvissimo da
innocencia, fluctuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhes as fórmas
divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos bellas que a realidade.

É assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas,
em sonhos ou desenhada no vapor do crepusculo, tu não és para mim mais
do que uma imagem celestial; uma recordação indecifravel; um consolo e
ao mesmo tempo um martyrio.

Não eras tu emanação e reflexo do céu? Porque não ousaste, pois, volver
os olhos para o fundo abysmo do meu amor? Verias que esse amor do poeta
é maior que o de nenhum homem; porque é immenso, como o ideal, que elle
comprehende; eterno, como o seu nome, que nunca perece.

Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! adorava-te só no
sanctuario do meu coração, emquanto precisava de ajoelhar ante os
altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dous templos?

Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre.

Porque vens, pois, pedir-me adorações quando entre mim e ti está a cruz
ensanguentada do Calvario; quando a mão inexoravel do sacerdocio soldou
a cadeia da minha vida ás lageas frias da igreja; quando o primeiro
passo alèm do limiar desta será a perdição eterna?

Mas, ai de mim! essa imagem que parece sorrir-me nas solidões do espaço
está estampada unicamente em minha alma e reflecte-se no céu do oriente
através destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes
queimou as lagrymas.

Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!... Crês que morri, ou,
porventura, nem isso crês; porque para creres era preciso lembrares-te,
e nem uma só vez te lembrarás de mim!

Lá, no tumulto dos cortezãos, onde o amor é calculo ou sentimento
grosseiro, terás achado quem te chame sua, quem te aperte entre os
braços, quem tivesse para dar a teu pae o preço do teu corpo e te
comprasse como alfaia preciosa para serviço domestico. O velho estará
contente, porque trocou sua filha por ouro.

A isto chama prudencia o mundo estupido e ambicioso; a isto, que não é
mais do que uma prostituição abençoada sacrilegamente perante as aras
sacrosanctas.

Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante me tem feito vagueiar
louco pelas montanhas, uivando como o lobo esfaimado e tentando
despedaçar os rochedos com as mãos, d'onde me goteja o sangue!

E tu folgas e ris! Oxalá nunca saibas quão intenso e atroz é o
meu tormento, que devo velar diante dos homens debaixo de aspecto
tranquillo, como se, em vez de martyrio, elle fosse um abominavel crime.


4

E quem te disse, Presbytero, que o teu amor não era um crime?

Tens razão, consciencia! Quando aos pés do veneravel Siseberto o
gardingo Eurico jurou que abandonava o mundo devia despir as paixões
que do mundo trouxera.

A luz brilhante d'affeições e esperanças a que vivia e que me povoava o
coração de felicidade devia apagar-se então, como a lampada do templo
ao amanhecer; porque eu voltava-me para o céu, buscando a luz do Senhor.

Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo desappareceu no occaso, e os
que me creem alumiado mal pensam que vivo em trevas!

As minhas paixões não podiam morrer, porque eram immensas, e o que é
immenso é eterno.

E assim, nem ouso pedir a paz do sepulchro; porque para mim não haveria
paz, senão no anniquilamento!

O anniquilamento! Que mal te fiz eu, oh meu Deus, para me não deixares
cá dentro mais que uma idéa risonha, mais que um desejo capaz de encher
o abysmo da minha desventura? Que mal te fiz eu para que esse desejo,
essa idéa seja a que unicamente resta ao precíto que se revolve em
perpetuas angustias?

Mas para mim, como para elle, tal pensamento é vão e mentido!
Eternidade, eternidade, a alma do homem está encerrada e captiva no
illimitado do teu imperio!



VII

A Visão


     No espelho da visão está a segurança da verdade.

         _Codigo wisigothico--I-1-2._

       _Presbyterio. Antemanhan. Oito dos idos d'abril da era de 749._


1

O somno ou a vigilia, que me importa esta ou aquelle? As horas da minha
vida são quasi todas dolorosas; porque a imaginação do homem não póde
dormir.

Para o povo, ignorante e impiamente credulo, a noite é cheia de
terrores; em cada folha que range na selva elle ouve um gemido de alma
que vagueia na terra; em cada sombra de arvore solitaria que se balouça
com a aragem sente o mover de um phantasma; as exhalações dos bréjos
são para elle luz de demonios, alumiando folgares de feiticeiras.

Mas, quando jaz no leito do repouso, o seu dormir é tranquillo. Ao
cruzar os umbraes domesticos esses terrores sumiram-se com os objectos
que os geraram. A sua alma parece despir-se da phantasia grosseira,
como o corpo se despe da stringe aspera que lhe resguarda os membros.

Não assim eu. Quando as palpebras, cerrando-se, m'escondem o mundo das
realidades, os olhos do espirito volvem-se para o mundo das existencias
ideaes. Ás vezes, a felicidade e a esperança vem consolar-me então;
muitas mais, porém, os sonhos maus me perseguem; e por bem alto preço
me saem os instantes de ventura transitoria trazidos por visões
consoladoras.

Esta foi para mim uma noite cruel. Ainda o suor frio que me corria da
fronte se não seccou; ainda o coração parece mal caber no peito, e o
pulso bate desordenado e violento.

Terribilissimos foram os sonhos que Deus mandou ao Presbytero; mas,
porventura, mais terrivel é a sua significação.

Diz-me voz intima que esse doloroso espectaculo a que assistiu a minha
alma é, oh Hespanha, o mysterio dos teus destinos.

E esta foi a visão:


2

Eram as horas das trevas profundas. Sem saber como, achava-me no viso
mais alto do Calpe: traspassava-me a medúla dos ossos o vento frio da
noite, e parecia-me que os membros hirtos se me haviam pregado no topo
da penedia.

Olhava fito ante mim, e os meus olhos rompiam a escuridão do horisonte,
como se a luz do sol o illuminasse.

O espectaculo maravilhoso que se passava nesse espaço insondavel
fazia-me erriçar os cabellos, que o norte me açoutava com o sopro
gelado.

Eis o que eu vi nessa hora de agonia, depois de estar alli alguns não
sei se instantes ou seculos.

O mar cessou de agitar-se e rugir, semelhante ao metal fervente
destinado para a feitura d'estatua colossal que resfriasse de subito em
vasta caldeira.

E era horribilissimo ver convertido em cadaver, de todo immovel e mudo,
o oceano; aquelle oceano que ha mais de quarenta seculos nem um só dia
deixou de revolver-se e bramir em torno dos continentes, como o tigre
ao redor da rez que jaz morta.

O sibillar das rajadas tambem cessou completamente. Parado sobre a face
da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a
gleba que o cobre, frio, humido, pesado, sem ranger, sem movimento,
cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar
compassado dos pulmões.

Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuissima foi avultando pouco a
pouco, derramando-se pelo horisonte e repintando a abobada immensa dos
céus.

Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas,
dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se abatido
e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos
nos primeiros dias do estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e
morto na caldeira mais funda do valle fechado.

Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, affogueiado, como a
atmosphera que pesava em cima delle: e, além, jazia o cadaver do mar.

Eu, o Silencio e a Solidão eramos quem estava ahi.


3

Subitamente, naquelle vasto horisonte, até então puro na sua luz
horrenda, dous castellos de nuvens cerradas e negras começaram a
alevantar-se, um da banda da Europa, outro do lado d'Africa.

Os bulcões conglobados corriam um para o outro e multiplicavam-se,
vomitando novos castellos de nuvens, que se diffundiam, fluctuando
ennoveladas com fórmas incertas.

E aquellas montanhas vaporosas e negras rasgaram-se d'alto a baixo em
fendas semelhantes a algares profundos, e os seus fragmentos informes e
cambiantes vacillavam tremulos em ascensão diagonal para as alturas do
céu.

Ao approximarem-se, os dous exercitos de nuvens prolongaram-se em
frente um do outro e toparam em cheio. Era uma verdadeira batalha.

Como duas vagas encontradas, no meio de grande procella, que, tombando
uma sobre a outra, se quebram em cachões que espadanam lençoes de
escuma para ambos os lados, antes que a menos violenta se incorpore
na mais possante, assim aquellas nuvens tenebrosas se despedaçavam,
derramando-se pela immensidão da abobada affogueiada.

Então, pareceu-me ouvir muito ao longe um choro sentido misturado com
gritos agudos, como os do que morre violentamente, e um tinir de ferro,
como o de milhares de espadas, batendo nas cimeiras de milhares de
elmos.

Mas este ruido foi-se alongando e cessou: os bulcões alevantados da
banda d'Africa tinham embebido em si os que subiam da Europa, e desciam
rapidamente para o lado dos campos gothicos.

Depois, sentí lá embaixo, na raiz da montanha, um rir diabolico. Olhei:
o Calpe esboroava-se ao redor de mim, e os rochedos sobre que eu estava
assentado vacillavam nos seus fundamentos.

Despertei. Tinha os cabellos hirtos, e o suor frio manava-me da fronte
aquecida por febre ardente.

Senhor, Senhor! foste tu que déste a ler á minha alma a ultima pagina
do livro eterno em que a providencia escreveu a historia do imperio
godo?

Contam-se cousas incriveis desses povos que assolam a Africa, chamados
os arabes, e que, em nome de uma crença nova, pretendem apagar na terra
os vestigios da cruz. Quem sabe se aos arabes foi confiado o castigo
desta nação corrupta?

Já as nossas praias foram visitadas por elles, e para os repellir
cumpriu que desembainhasse a espada o illustre Theodemiro, o ultimo
guerreiro, talvez, que mereça o nome de neto dos godos.

Terra em que nasci, se o teu dia de morrer é chegado, eu morrerei
comtigo. Na procella que se alevanta d'Africa deixarei submergir o meu
debil esquife, sem que a esses gemidos que ouvi se vão ajunctar os
meus. Que m'importa a vida ou a morte, se o padecer é eterno?



VIII

O DESEMBARQUE


     E eu estava em um angulo, observando com temor.

                           Paulo Diacono: _Vidas dos PP. Emeritenses_.


DO PRESBYTERO DE CARTEIA AO DUQUE DE CORDUBA


                                           Ao Duque Theodemiro, saude!


Quando Witiza reinava, na corte esplendida de Toletum, havia dois
tiuphados que a todos serviam d'exemplo d'intima e sincera amizade.
Opiniões e intentos, alegrias e tristezas eram communs para ambos.
Chamava-se Theodemiro o mais velho, Eurico o mais moço. Nas suas
esperanças de mancebos, as Hespanhas foram-lhes, muitas vezes, limitado
theatro para illusões de ambição. A gloria era o seu perpetuo sonho,
e as recordações das façanhas dos antigos godos embriagavam-lhes os
animos ao lembrarem-se de que as armas dos seus avós da Germania tinham
brilhado victoriosas sempre sobre os membros despedaçados do imperio
romano. Quando o grito da revolta soou na Cantabria as tiuphadias dos
dous mais irmãos que amigos acompanhavam Witiza na expedição contra
os montanhezes rebeldes e contra os frankos seus alliados. Então,
n'essa guerra d'exterminio, os dous mancebos viram saciada sua sede
de renome. Como os macissos de neve que se despenham das montanhas
escarpadas da Vasconia, as duas tiuphadias de Theodemiro e de Eurico
appareciam, ás vezes, subitamente, nos visos das serras e, apenas os
primeiros raios do sol faziam reluzir as armas, semelhantes no brilho
tremulo ao alvejar da geada, ei-las que pareciam rolar-se pela encosta,
e, dentro de pouco, os acampamentos dos frankos e cantabros ficavam
esmagados debaixo do impeto irresistivel dessas pinhas de soldados
que eram arremessados sobre os inimigos por duas vontades emulas de
gloria. Expulsos os estrangeiros e submettidos os rebellados, a hoste
real entrou victoriosa em Tárraco. O duque Favilla recebeu em triumpho
os pacificadores de Cantabria, e Theodemiro e Eurico obtiveram a
recompensa do que combateu pela patria, a gratidão dos seus naturaes.

Foi ahi que o destino preparou a separação dos dous guerreiros
que parecia só a morte poder dividir. Favilla tinha dous filhos,
Hermengarda e Pelagio. Pelagio saía apenas da infancia, mas para
Hermengarda despontavam já então os risonhos dias da juventude. A sua
formosura era celestial: Eurico viu-a e amou-a. Quando as tiuphadias
foram chamadas a Toletum, Eurico voltou triste á terra da sua infancia.
Dir-se-hia que eram os contentamentos da patria que elle trocava
pelas tristezas do desterro. Debalde buscou Theodemiro apagar aquella
paixão violenta no coração do seu amigo, lançando-se com elle nas
festas ruidosas de uma corte dissoluta. A embriaguez dos banquetes era
para Eurico tristonha; as caricias feminís, facilmente compradas e
profundamente mentidas, atrás das quaes correra loucamente outr'ora,
tinham-se-lhe tornado odiosas; porque o amor, com toda a sua virgindade
sublime, lhe convertera em podridão asquerosa os deleites grosseiros
que o mundo offerece á sensualidade do homem. Theodemiro acreditara na
efficacia da bruteza para matar o mais formoso dos affectos humanos;
mas o amor devorou na mente de Eurico todos os outros sentimentos, como
a lava candente devora tudo o que encontra, quando o vulcão a vomita,
alagando a superficie da terra.

Favila veio á corte: Hermengarda acompanhava-o. Theodemiro
recordar-se-ha ainda de qual foi o desfecho do amor de Eurico, que
ousou dizer ao velho procer: «Dá-me por mulher tua filha.» A amizade de
Theodemiro salvou então o desprezado gardingo da morte do corpo, mas
não pôde salva-lo da morte da alma. Razões, rogos, lagrymas; quanto a
eloquencia de affeição mais que fraterna tem de vehemencia; quantas
cordas do coração sabe fazer vibrar a mão de um amigo, tudo elle tentou
debalde! Não ha palavras que possam erguer um espirito que deu em
terra; mão nenhuma tira sons de cordas que estalaram. Eurico ou, antes,
a sua sombra, fugiu do lado de Theodemiro, e da porta do sanctuario
disse-lhe um adeus eterno, como ao resto do mundo.

Mal sabía o desgraçado que n'esse adeus a sua consciencia mentia a
si propria! Theodemiro, tu hoje és duque de Corduba: entre os povos
sujeitos ao teu imperio; entre os que abençoam a tua justiça e bondade,
n'um angulo da vasta provincia da Betica, em Carteia, vive um pobre
presbytero que para ti pede ao Senhor tanto o renome e o poderio quanto
para si deseja a obscuridade e o esquecimento. Este presbytero é quem
te escreve; quem limitou a bem poucos annos a eternidade do adeus
que te dissera; é aquelle que se chamava no mundo o gardingo Eurico,
aquelle de quem foste amigo, e que foi teu rival de gloria.

Duque de Corduba, não creias que o meu espirito se volte hoje para as
miserias da terra, impellido por uma tardia saudade. Não! De que me
serviriam o ouro, o poder e a grandeza? Para tomar um punhado desse
lodo não se curvaria o Presbytero. O unico affecto eterno que, talvez,
resta a este coração depurado pelo fogo ardente da desdita, o amor
da patria, sentimento confuso e indefinido, mas indelevel, é quem
obriga Eurico a dizer-te o logar em que veio coar gota a gota as horas
aborridas da sua tormentosa existencia.

Theodemiro! Theodemiro! Um dia tremendo se approxima em que a Hespanha
deve ser o tumulo da raça goda. Em sonhos antevi esse dia, e, após
dos sonhos, a medonha realidade ahi se me alevanta diante dos olhos.
Carteia está deserta, como as demais povoações vizinhas. Apenas eu
ouso demorar-me nas immediações do Calpe; porque sei, passo a passo,
todas as veredas que guiam ao topo dos desfiladeiros, tendo-as regado
muitas vezes com lagrymas, tendo-lhes muitas mais confiado a historia
das minhas agonias. As cidades despovoam-se, e, como ellas, os campos
convertem-se em ermos. Embora ainda sorriam no vecejar das searas,
no florescer dos pomares, no murmurar das fontes: semelhante sorrir
consterna; porque o homem desappareceu do meio desta scena formosa, e
o ruido da vida converteu-se em silencio de morte.--Os arabes!--eis o
unico grito que o interrompe; e esta palavra maldicta é como a peste
quando passa: seguem-na o susto e o desacordo. A vileza do coração
humano surge após ella em toda a hediondez do seu aspecto. O terror
acabou com os mais sanctos affectos e, até, com o amor filial e
paterno. Cada qual busca salvar-se a si proprio. Os netos dos nobres
godos converteram-se n'um bando desprezivel de covardes egoistas.

Ha tres dias, ao romper da manhan, um grande numero de velas
branquejava sobre as aguas do Estreito; vinham do lado de Septum.
Corremos á praia. Dentro de poucas horas entraram na bahia de Carteia,
e algumas entestaram com a Ilha-Verde. Via-se distinctamente o reluzir
das armas, e varios soldados que tinham ajudado a repellir os primeiros
saltos dos africanos nas costas d'Hespanha reconheceram logo os trajos
e as armas dos arabes. Entre estes, porém, divisavam-se muitos godos,
pelas armaduras pesadas, pelos largos ferros dos frankisks e pelas
stringes mais curtas que as amplas vestiduras dos filhos do Oriente.
D'ahi a pouco toda a frota velejou para o lado do Calpe, e, quando
anoiteceu, as faldas da montanha appareceram alumiadas por muitos
fachos. Os arabes tinham desembarcado.

A anciedade era indizivel. Demudadas as faces, olhavamos uns para os
outros. Elles tremiam por si: eu pela sorte da Hespanha. Mas porque
entre esses que pareciam inimigos se achava tão avultado numero de
godos? Esta pergunta significava a nossa derradeira esperança.

Ao entenebrecer, alguns barqueiros saíram ao largo e, vogando
surdamente, foram espiar a frota. Tomando os atalhos mais curtos, eu
encaminhei-me sósinho para o Calpe, cujo vulto gigante, rodeiado de
fachos ao sopé, negrejava no topo sobre o fundo alvacento do céu limpo
de nuvens, onde a lua passava tranquilla, embargando com o seu clarão
pallido o scintillar das estrellas.

Era alta noite quando cheguei á montanha. Subindo pelas quebradas,
salvando precipicios, cozendo-me com as fragas tortuosas, descendo
pelos leitos das torrentes, cheguei a um rochedo contiguo á planicie
que das raizes da serrania vai morrer no rolo do mar, na costa oriental
da bahia. Era ahi que os arabes, desamparando a frota, se haviam
acampado. Comprimindo o alento, approximei-me insensivelmente de uma
tenda mais vasta, alevantada juncto do penhasco a que eu chegara sem
ser percebido. Por uma fenda que deixavam as telas mal unidas do
pavilhão descortinei o que se passava no interior á luz das tochas que
tinham nas mãos dous ethiopes, cujos rostos negros contrastavam com a
brancura das suas roupas. Assentado no chão, com os braços cruzados,
um arabe mancebo parecia escutar attentamente um guerreiro godo que,
em pé no meio de outros dous, tinha as costas voltadas para mim. Com
espanto e ao mesmo tempo com alegria, percebi que se exprimia em romano
rustico, o qual, d'ahi a pouco, vi que o moço arabe falava como se
fosse a propria linguagem. Comecei então a escutar attentamente.

«Tarik--dizia o godo--ámanhan ao romper d'alva é necessario que todos
estes penhascos empinados sobre nossas cabeças se coroem de teus
soldados e que não tardes em fortificar essa estreita passagem que une
o promontorio do Calpe com o resto do continente. É aqui, nestas serras
inaccessiveis, que deves esperar o resto dos libertadores da Hespanha:
é d'aqui que deves saír com os teus irmãos do deserto para quebrar o
sceptro do tyranno Ruderico. Se a sorte das armas nos for contraria,
esperaremos neste logar novos soccorros d'Africa. Septum nos fica
fronteiro, e Septum entreguei-t'o eu...»

Tarik não o deixou continuar. Como o leão, pulando subitamente dos
juncaes da Mauritania, o moço arabe pôs-se em pé, com o gesto colerico,
e exclamou:

«Wali dos christãos! quem te fez crer que Tarik podia ser vencido? Vi
em sonhos o propheta de Deus que me disse:--a Hespanha curvar-se-ha ao
koran:--e Mohammed não mente! Ainda sem ti, eu me teria arrojado sobre
o imperio godo, e a minha lança o faria cahir a meus pés moribundo,
quando Sebta me tivesse fechado as portas; quando todos vós os godos
estivesseis unidos contra mim. Deus é grande, e Mohammed o seu
propheta!»

As palavras violentas do arabe revelaram-me quem era o guerreiro godo.
Juliano capitaneiou, como nós, uma tiuphadia na guerra cantabrica e
foi valente soldado. Sabía que elle fora elevado á dignidade de conde
de Septum e que ahi se cubrira de gloria, repellindo os inimigos do
imperio, que já tinham tentado conquistar aquella provincia. Como e
porque atraiçoou a terra natal? Odios civís o levaram a tanta infamia,
segundo entendi das suas palavras. Parricida e fratricida a um tempo,
busca vingar-se, talvez de bem poucos de seus irmãos, esmagando-os
debaixo das ruinas da patria. A memoria deste malaventurado será
reproba e maldicta das gerações remotas!

Juliano parecia querer responder ao mancebo, quando um soldado entrou
com um rolo de pergaminho na mão e, entregando-o a Tarik, proferiu
algumas palavras em arabe. Tarik olhou então para Juliano com um
sorriso e, estendendo-lhe a dextra, disse-lhe em voz baixa:

«Wali de Sebta! perdoa-me este impeto, como me tens perdoado tantos
outros. Bem sei que não podes comprehender o que é a fé viva de um
mosselemano na protecção de Deus: mas eu sería réu do inferno, se
duvidasse um instante das promessas do Propheta. O judeu Zabulon acaba
de chegar com essa carta do que vós chamaes bispo de Hispalis. Lê-a e
dize-me que novas ha de Ruderico.»

Juliano desdeu o nó da carta e leu. Batia-me o coração de furor; mas
procurei tranquillisar-me. Importava-me assás conhecer o que ella
continha para dever prestar toda a attenção possivel ás palavras do
conde Juliano.

«Ruderico--disse este, acabando de correr com os olhos o rolo de
pergaminho--entregue aos banquetes e festas, não acredita que o dia
da vingança amanhecesse para a Hespanha: todavia, logo que a noticia
indubitavel da nossa vinda retumbar sob os tectos dourados dos paços de
Toletum, elle convocará os seus numerosos soldados, as suas tiuphadias
veteranas, e arremessar-se-ha contra nós; porque Ruderico é dissoluto e
perverso, mas nunca foi covarde. O prudente Oppas pensa, como eu, que
importa fortificar-nos no Calpe. Aconselha-o a sciencia da guerra, e,
se, como crente, confias no teu propheta para contar com a victoria,
como capitão deves seguir os conselhos da prudencia humana. Tambem
eu espero no Deus das batalhas--proseguiu o conde em tom de mofa,
batendo no punho da espada;--tambem eu tenho a minha providencia; mas
a aguia, quando se arroja sobre a prêa, tem já construido o seu ninho
no penhasco da montanha, e as penedias do Calpe devem ser o ninho das
aguias que pairam sobre o throno de Ruderico.»

Tarik ficou por alguns momentos calado e pensativo:

«Seja como te aprouver:--disse por fim.--Busca no exercito os melhores
artifices arabes e com elles e com os teus godos alevanta esses vallos
em que põe sua confiança o teu coração descrido.»

«Houve um tempo em que não o foi:--replicou Juliano com o accento da
colera misturada de indignação e tristeza:--mas Witiza dorme debaixo
d'uma lousa o somno da eternidade, e o seu assassino chama-se o rei dos
godos. Elle folga e ri assentado no throno que lhe deu a traição e o
perjurio. Tarik, o teu propheta inspira-te em sonhos; mas a vingança
é mais segura inspiração, porque é o sonho perenne do homem desperto,
quando vê, assim, falhar a justiça do céu, se é que nelle ha justiça.»

Proferindo estas palavras blasphemas, Juliano saíu da tenda. Tarik
bateu as palmas, e um guerreiro ethiope, cujos olhos lhe reluziam
sanguineos na pretidão do rosto, entrou com os braços cruzados e ficou
immovel e curvado diante de Tarik. Pareceu-me que este lhe ordenava o
que quer que fosse; mas falava na sua linguagem barbara, e não o pude
entender.

Sabía assás qual era a situação e quaes os accidentes do solo de
todos os desvios do Calpe para perceber que a minha demora naquelles
sitios podia tornar-me impossivel a saída. A defensa do promontorio
consistia unicamente em cortar com vallos e cavas o isthmo que o liga
ao continente. Juliano começaria, talvez, a alevantar as tranqueiras
nessa mesma noite; era, portanto, necessario partir.

Quando atravessei a serra pelos trilhos mais curtos e escusos, conheci
que o meu receio fora bem fundado. Parando no topo de uma penedia,
donde se divisava ao redor quasi toda a montanha, vi centenares
de fachos que vacillavam, correndo tortuosamente pelas ladeiras,
sumindo-se, tornando a apparecer, retrocedendo. O todo daquella
illuminação terrivel estendia-se em volta da montanha, formando uma
extensa meia lua, cujas pontas cresciam para o isthmo, ao passo que se
approximavam uma da outra, estreitando o cume da serrania. Era visivel
que alguem practico nas apertadas gargantas, nas sendas intrincadas
do promontorio, guiava os barbaros. Convinha fugir, não porque
m'importasse o morrer, mas porque, talvez, a Providencia me guiara
á tenda de Tarik para que as Hespanhas fossem salvas, se é que ella
não escreveu irrevogavelmente a sua condemnação no livro dos eternos
designios.

Theodemiro, vê que a traição, semelhante ao veneno recentemente bebido,
que gyra nas veias e ainda não apparece no aspecto, está por toda a
parte e, até, penetra no sanctuario. É necessario esforço e vigilancia,
já que as dissenções civís quizeram que os golpes do frankisk godo
hajam de se vibrar sobre a fronte de godos que combatem ao lado do
estrangeiro infiel; já que a perfidia póde abrir as portas das nossas
cidades aos africanos, sem que estes tenham de passar por cima dos
cadaveres de seus irmãos, para se assenhoreiarem dellas. Cumpre que
avises Ruderico. Em Hispalis está Oppas, e Oppas tem comsigo numerosos
clientes, que, porventura, entregarão aos invasores a mais formosa e
opulenta entre as povoações da Betica. Não tardará que os arabes desçam
do Calpe e se derramem pelas provincias da Hespanha. Ha dous dias,
em que vagueio, quasi só, nas immediações de Carteia, não se passa
uma hora, sem que os navios d'Africa venham vomitar na bahia novos
esquadrões de soldados. Semelhante aos éstos do mar, é rapido o seu ir
e voltar. Dentro d'oito dias, bem custoso sería resistir a Tarik com
todo o poder do imperio, quanto mais divididos os godos em dous bandos,
um dos quaes pelejará ao lado dos inimigos.

Dir-to-hei, Duque de Corduba: tambem eu não amo Ruderico; porque a
memoria de Witiza nunca morrerá no coração do seu antigo gardingo. Sei
por quaes meios Ruderico subiu ao throno, que não obteria pela eleição
dos godos. Mas não é a sua coroa que os filhos das Hespanhas tem hoje
que defender; é a liberdade da patria; é a nossa crença; é o cemiterio
em que jazem os ossos dos nossos paes; é o templo e a cruz, o lar
domestico, os filhos e as mulheres, os campos que nos sustentam e as
arvores que nós plantámos. Para mim, de todos estes incentivos, apenas
restam dous; o amor da terra natal e a crença do evangelho. No dia do
combate, Eurico despirá a stringe innocente do sacerdocio e vestirá
as armas para defender estes objectos queridos dos seus derradeiros
affectos. Que, tambem, esses que ainda se enlaçam ás illusões e
esperanças, como a hera ás ruinas, se ergam para pelejarem batalhas
tremendas, porque o serão, por certo, as que nos aguardam; e oxalá que
os meus tristes sonhos sejam desmentidos pelo esforço dos guerreiros
godos; oxalá que não esteja para bater a derradeira hora do dominio da
cruz nesta terra do occidente, regada pelo sangue de tantos martyres!

De Mellaria, aonde me acolhi com grande numero dos moradores de Carteia
e dos seus arredores, continuarei as minhas correrias nocturnas para as
bandas do Calpe, com os homens mais ousados que quizerem acompanhar-me,
até que os arabes desçam da sua guarida, e seja inutil o vigiá-los; até
que chegue o dia em que os desgraçados, como eu, achem na morte honrada
das pelejas o repouso das amarguras da vida, se é que além do morrer ha
o repouso do espirito.


DO DUQUE DE CORDUBA AO PRESBYTERO.


                                            Ao Gardingo Eurico, saude!


Vives ainda Eurico! Perto de Corduba, onde existia o seu antigo irmão
d'armas, o heroe da guerra cantabrica nunca teve um impulso de affecto
que o levasse a revelar o mysterio do seu retiro, em que enviasse uma
palavra de consolação para a saudade fraterna. Accusas de egoismo e
fereza os filhos da Hespanha, e cahiste na mesma culpa: foste egoista
e cruel. Não podias crer por certo que eu me houvesse esquecido de ti:
larga experiencia te ensinou que as minhas affeições são duradouras
e profundas. Mas aquelle que te amou tanto; aquelle que poria a vida
para salvar a tua; que nunca teve contentamento ou magua que fosse
para ti segredo, tractaste-o com o mesmo desprezo, com que, no teu
nobre orgulho de desgraçado, tractaste o resto do mundo; e do limiar
do templo disseste-lhe, talvez, o mesmo adeus de odio e despeito que
disseste ao resto do genero humano.

É nos dias em que se abre para a patria uma longa carreira de
desventuras, que tu surges, gardingo, como a lembrança querida dos
formosos dias da nossa mocidade; é na vespera de uma lucta em que se
vai resolver se ha-de ser livre ou serva a terra dos godos; em que mil
cogitações tristemente solemnes me assaltam o espirito e me obrigam a
não me afastar de Corduba, onde incessantemente trabalho por ajunctar
os valentes companheiros de nossas glorias de outr'ora; é quando a voz
do dever me tem como captivo, que d'um angulo da Betica me dizes--eu
vivo!--Embora! Já que não me é dado buscar-te, serás tu que virás
lançar-te nos braços do teu amigo.

Sim, gardingo!--Hoje que o imperio é abalado nos seus fundamentos;
que os pagãos d'Africa ameaçam derribar a cruz erguida no cimo das
nossas cathedraes; hoje, tu despirás a stringe sacerdotal e cingirás
de novo a deposta e esquecida espada. Em Corduba, onde se ajunctam já
as tiuphadias da Betica, Eurico achará bom numero dos seus antigos
guerreiros, e os mais ousados mancebos, que ora encetam a vida dos
combates em defesa da patria e da fé, acceitarão com jubilo para seu
capitão o homem que deixou um nome que não morrerá emquanto durar a
memoria do desbarato dos vasconios e francos. Na ebriedade da gloria
que te espera, porventura, achará o teu pobre coração, despedaçado
pelas paixões que ahi passaram, o allivio e conforto que vejo teres
buscado debalde nos braços de uma piedade austera, de uma vida
d'humildade e abnegação. Esta gloria será tanto maior, quanto é certo
que nunca o imperio godo se viu tão perto da sua ultima ruina e que
nunca foram postos a tão dura prova o esforço e a lealdade dos seus
filhos.

As novas que me dás da traição do bispo d'Hispalis são assás
graves; mas são necessarias a circumspecção e a prudencia. Os teus
ouvidos podem ter-te enganado. Se essa trama horrivel existisse,
estender-se-hia por toda a Hespanha. Sabes que Oppas é tio dos moços
Sisebuto e Ebbas, cujas pretensões á coroa são conhecidas, pretensões
que os beneficios de Ruderico ainda, por certo, lhes não fizeram
esquecer. Diz-se que o rei dos godos lhes confiará o mando de uma das
alas do exercito com que se encaminha á Betica. Este procedimento
generoso obstaria a que rebentasse a conjuração. Não se tracta agora de
satisfazer odios de parcialidades civís: tracta-se de salvar o imperio.
Fora mais que infamia; não tem nome, immolar a Hespanha no altar de
ambiciosa vingança. Não! Embora estejamos corruptos: o exemplo do conde
de Septum não será entre nós seguido.

Vem, Eurico, para que reverdeçam os louros da tua gloria. Ouves a voz
da patria? É ella que te brada:--Vem combater por salvar-me, tu, o mais
valente dos meus filhos!


DO PRESBYTERO AO DUQUE DE CORDUBA.


                                           Eurico a Theodemiro, saude!


Não comprehendeste, duque de Corduba, quão fundo é o abysmo cavado
neste coração pela desventura. Não me queixo de ti; porque nem a
ti, nem a ninguem é dado comprehendê-lo. Medes o meu espirito pelos
affectos humanos; mas é porque não sabes como elle saíu depurado do
crisol de padecer infernal.

Gloria! Que m'importa a mim a gloria? Que posso fazer dessa riqueza,
inutil como as outras riquezas?

Examina bem a consciencia e dize-me qual é para os corações puros
e nobres o motivo immenso, irresistivel das ambições de poder, de
opulencia, de renome? É um só--a mulher: é esse o termo final de todos
os nossos sonhos, de todas as nossas esperanças, de todos os nossos
desejos. Para o que encontrou na terra aquella que deve amar para
sempre, aquella que é a realidade do typo ideal que desde o berço
trouxe estampado na alma, a mira das mais exaltadas paixões é a aureola
celestial que cinge a fronte da virgem, idolo das suas adorações.
Para o que anda, por assim dizer, perdido nas solidões do mundo,
porque ainda não descubriu a estrella polar da sua existencia, o astro
que ha-de illuminar-lhe a noite do coração, como o sol com os seus
primeiros raios illumina as trevas de um templo, para esse a mulher é
uma idéa vaga e confusa, mas formosa e querida. Não a conhece, não sabe
onde esteja a imagem visivel da filha da sua imaginação, e, todavia,
é para lhe pôr aos pés gloria, poderio, riqueza, que elle cubiça tudo
isso. Tirae do mundo a mulher, e a ambição desapparecerá de todas as
almas generosas. Realidade ou desejo incerto, o amor é o elemento
primitivo da actividade interior; é a causa, o fim e o resumo de todos
os affectos humanos.

Theodemiro, eu amei como ninguem, talvez, ainda amara. Este amor foi
desprezado e ludibriado e, depois, comprimido pelo desprezo e pelo
ludibrio no fundo do coração do teu pobre amigo. Sabes o que faz um
amor immenso assim recalcado?--Devora e consome o futuro e entenebrece
para sempre o horisonte da vida. Nada ha, depois disso, que possa
restaurar o que elle tragou: nada que possa rasgar as trevas que
elle estendeu. No mesmo sepulchro não ha porvir d'esperança, nem,
porventura, luz de consolação; porque ao passamento do corpo precedeu a
morte do espirito.

Não, eu não quero a gloria inutil e inintelligivel hoje para mim. Não,
eu não quero o mando e o poderio, porque já não sei para o que elles
prestam. Como o febricitante em dia ardente do estio, que aspira a
brisa da tarde, a qual não póde sará-lo, mas que lhe refrigera por
momentos o ardor do sangue, assim eu ainda me deixo affagar pela
idéa de me atirar ao maior fervor das batalhas pelejadas em nome da
patria: esse delirio dos perigos, essa loucura que o cheiro de sangue
produz é um respiradouro por onde resfolegará a indignação e a colera
enthesourada por annos neste coração. Tiuphado, seria constrangido a
vigiar as acções dos outros, a usar do valor tranquillo que affronta
immovel a morte; mas que é tal valor para aquelle a quem a vida serve
só de martyrio? Uma hypocrisia mais; mais um meio de enganar o mundo. E
que tenho eu com o mundo para curar d'enganá-lo?

Homem de paz--dir-me-has tu--pela profissão do sacerdocio; tendo
buscado o repouso á sombra eterna da cruz, como é que desejas só o que
nos combates ha mais brutal, ignobil e obscuro, o furor da matança, e
recusas o que nelles ha mais nobre e puro, a intelligencia com que um
unico individuo move milhares delles e lhes multiplica a força com a
rapidez das idéas, com a sublimidade das concepções, com a robustez de
uma vontade immutavel? Homem de paz, cingindo a espada do guerreiro,
que outro mister deverá ser o teu?

Busquei, é verdade, o repouso e a paz no sanctuario de Deus!--Dias
e dias, passei-os orando com a fronte unida ás lageas do pavimento
sagrado, esperando que da morada dos mortos surgisse para mim descanço
e esquecimento; mas o sepulchro foi esteril. Noites e noites,
vagueei-as pelas solidões: assentei-me ao luar sobre os penhascos dos
promontorios, com os olhos cravados no céu ou errantes pela vastidão
das aguas, e onde todos acham lagrymas de consolo e d'esperança eu não
achei uma só, porque as minhas morriam apenas brotavam. O Senhor não
me escutou as preces: não me acceitou a resignação. Este espirito, que
tentava erguer-se nas asas da philosophia do Christo para as alturas,
despenhava-se de novo para o pelago medonho das recordações amargas.
Ainda os homens abençoavam o Presbytero, e já a consciencia lhe
bradava, a todos os momentos:--condemnação para a tua alma!

Quando o céu é um deserto para a esperança, onde a acharei na terra?
Que póde hoje embriagar-me, senão uma festa de sangue?

Já me teria assentado a esse phrenetico banquete nas guerras civís, se
ainda não vivesse em mim o sentimento moral, ultimo que se desvanece
naquelle que por largos annos viveu vida pura de crimes. Mas, sem
crime, se póde assentar a elle um desgraçado como eu, ao chamar por nós
todos, no meio de um grande perigo, a terra de que somos filhos.

Theodemiro, breve virá, talvez, o dia em que vejas que o braço do
gardingo não enfraqueceu debaixo das roupas do Presbytero; em que elle
te prove que a mortiça côr de uma negra armadura póde ser tão bella
ao sol das batalhas como as couraças e os elmos resplandecentes de
nobres guerreiros: que o frankisk grosseiro de um obscuro soldado póde
contribuir para a victoria como a pericia militar de capitão famoso.
Oxalá que, entretanto, seja verdade o que dizes!--Oxalá que eu me
enganasse, e que a traição não tenha tornado inuteis a intelligencia e
o braço do homem para salvar as Hespanhas!



IX

JUNCTO AO CHRYSSUS


     Congregados todos os godos, oppôs-se á entrada dos arabes e
     valorosamente foi ao encontro da invasão.

                       Rodrigo de Toledo: _Das Cousas d'Hesp. L._ 3.^o


Poucos dias haviam passado depois que o duque de Corduba recebera a
ultima carta do infeliz Eurico. Á frente das suas tiuphadias, elle se
encaminhara para Hispalis, seguindo as margens do Betis. Ao chegar á
antiga Romula, o bispo Oppas recebeu-o com demonstrações de alegria
taes, que as suspeitas de Theodemiro, suscitadas, máu grado seu,
pelas revelações do Presbytero, quasi se desvaneceram. Na linguagem
do sacerdote parecia reverberar-se uma indignação profunda contra o
conde de Septum e contra os demais godos que tentavam, unidos com os
barbaros, assolar a terra natal. O metropolita, segundo os costumes
daquella epocha, tinha deposto o baculo de pastor para cingir a espada
do guerreiro, e aos paços episcopaes de Hispalis viam-se chegar todos
os dias os parentes de Oppas e, por isso, de Witiza, cujo irmão este
era. Os nobres que tinham seguido o bando dos mancebos Sisebuto e Ebbas
e que, pela maior parte, viviam longe da corte ajunctavam os seus
servos e clientes á hoste do bispo guerreiro, que promettia acompanhar
o rei godo com um esquadrão mais lustroso que os de seus sobrinhos, a
quem Ruderico dera de feito o mando supremo de uma das alas do exercito
que congregara em Toletum.

Em Hispalis, como por todos os angulos da Hespanha, os martellos dos
fundidores e armeiros retumbavam nas bigornas com ruido incessante;
açacalavam-se as armas, puliam-se e provavam-se as armaduras, e os
corceis rapidos e robustos da Betica e da Lusitania, impacientes nas
tendas alevantadas em roda dos muros da cidade, mordiam os freios
brilhantes e pareciam adivinhar que estava proximo um dia de combate.
Os servos e os libertos, em competencia com os homens livres e nobres,
corriam a rodeiar os pendões da independencia da patria, e o sangue
generoso dos godos como que se despertava mais ardente e cheio de vigor
ao grito da guerra sancta, depois de uma somnolencia de seculos, em que
a sua antiga ousadia só dera signaes de vida nas luctas sem gloria das
dissenções intestinas.

E toda esta energia, todo este recordar-se da rica herança d'esforço
legado pelos conquistadores septemtrionaes a seus netos da Iberia,
dir-se-hia que eram suscitados pela Providencia para salvar a monarchia
gothica, porque de tudo isso ella carecia para resistir aos invasores.
Desde que o exercito destes, semelhante a serpe monstruosa, tinha
cingido estreitamente a montanha do Calpe, não se passara um unico dia
em que não se fortalecesse e engrossasse. As encostas do Abyla e os
despenhadeiros do Atlas, os valles da Mauritania e os areiaes de Sahara
e de Barca de contínuo arrojam para a Europa, através do Estreito, os
seus filhos tostados ao sol fervente d'Africa. Sem pericia militar,
estes barbaros são todavia temerosos nas pelejas, porque os capitães
experimentados da Arabia os dirigem e movem como lhes apraz, e porque,
sectarios de uma religião nova, credulos martyres do inferno, buscam
os embusteiros e torpes deleites que, além da morte, lhes prometteu
o propheta de Yatrib, arremessando-se com um valor que se creria de
desesperados diante do ferro dos seus contrarios e contentando-se de
acabar, com tanto que sobre seus cadaveres se hasteie victorioso o
estandarte do Islam.

A esta gente bruta e indomavel, cujo esforço vem das crenças da outra
vida, se ajunctam os esquadrões dos cavalleiros sarracenos que vagueiam
pelas solidões da Arabia, pelas planicies do Egypto e pelos valles da
Syria, e que, montados nas suas eguas ligeiras, podem rir-se do pesado
frankisk dos godos, acommettendo e fugindo para acommetterem de novo,
rapidos como o pensamento, volteiando ao redor dos seus inimigos,
falsando-lhes as armas pelas juncturas das peças, cerceiando-lhes
os membros desguarnecidos, quasi sem serem vistos, e, apesar da
sua incrivel destreza, pelejando, quando cumpre, frente a frente,
descarregando tremendos golpes de espada, topando em cheio com a lança
no riste, como os guerreiros da Europa, e assás robustos para, muitas
vezes, os fazerem voar da sella nestes recontros violentos: homens,
emfim, que, sem orgulho, se podem crer os primeiros do mundo n'um campo
de batalha, pelo valor e pela sciencia da guerra. É esta cavallaria
irresistivel que constitue o nervo da hoste dos mosselemanos e em que
funda todas as suas esperanças o impetuoso Tarik.

Pouco depois da chegada de Theodemiro a Hispalis, um dia ao romper
do sol, viu-se ao longe para a banda das serranias ao norte do Betis
resplandecerem as cumiadas das montanhas, como se um grande incendio
devorasse as brenhas e os carvalhaes antigos que povoavam as quebradas
das serras. Era a hoste do rei dos godos, que, saíndo de Oretum, se
encaminhava por Ilipa e Italica, seguindo a margem direita do rio,
para a antiga capital da Betica. D'aqui, engrossando com as tiuphadias
de Theodemiro e com os que seguiam o pendão de Oppas, o exercito de
Ruderico devia marchar para acommetter os arabes e entregar á sorte das
batalhas os futuros destinos da Hespanha.

Era já tempo. A torrente dos inimigos descera, emfim, do Calpe ou
Geb-al-Tarik, cujo nome de muitos seculos o capitão arabe tinha
apagado, para escrever o proprio nome no collar servil de muralhas
que lhe lançara. O estandarte do propheta de Mekka já fluctuava nos
campos da Betica, e a sua passagem era assignalada com ruinas, sangue e
incendios. Por onde quer que os mosselemanos tinham atravessado ficavam
assentados o silencio do sepulchro e a assolação do anniquilamento.
Tarik era o anjo exterminador mandado por Deus ás Hespanhas, e a sua
espada o raio despedido do céu para fulminar o imperio dos godos.

Saíndo do seu ninho d'aguia, construido no promontorio do Estreito,
os invasores internavam-se no coração da provincia. Depois de haverem
transposto as montanhas que se alteiam desde as ribas septemtrionaes
do Belon até Lastigi, onde as serranias se enlaçam com as alturas de
Nescania, tinham-se assenhoreado sem resistencia da cidade episcopal
d'Asido, e, descendo d'alli para os valles que serpeiam de Gades a
Segoncia, haviam assentado as tendas do Islam nas margens do Chryssus.
Tarik esperava lá o recontro dos godos. Desde que partira do Calpe,
todos os dias, quasi todas as horas, se viam chegar á hoste dos
mosselemanos christãos vindos do lado d'Hispalis, conduzidos pelos
caudilhos dos almogaures ou corredores africanos. Apenas estes homens
desconhecidos eram levados ante o capitão arabe, elle enviava um dos
seus cavalleiros ao logar onde tremolava o pendão de Juliano, e o conde
de Septum não tardava a vir ajunctar-se com Tarik. Por vezes, á sombra
de carvalho frondoso, no meio dos bosques cerrados das montanhas ou
debaixo do pavilhão alevantado á hora da sésta em campina abrazada do
sol, demoravam-se os dous, por largo espaço, a sós com esses homens, em
cujo aspecto era facil ler estampada a traição e a vileza. Depois, os
desconhecidos partiam, sem que ninguem ousasse atalhar-lhes os passos;
e, quando Juliano voltava para a pequena ala dos soldados da provincia
transfretana, via-se-lhe o rosto, não radiante do contentamento que
ressumbra de um coração puro quando folga, mas como sulcado por um raio
da alegria feroz do criminoso que vê chegar o momento do crime ha muito
meditado e previsto.

Havia dous dias que nenhum incognito atravessava o Chryssus para falar
a sós com Juliano e Tarik. Estes passavam horas inteiras vagueiando nas
alturas vizinhas do acampamento pelo lado do meio-dia e do oriente.
D'alli olhavam para a montanha em cujo cimo campeiava a antiga
povoação d'Asta, e, depois de a examinarem por largo espaço, voltavam
ao campo ou corriam as atalaias, que se multiplicavam continuamente.
Depois, tudo recahia no silencio e na escuridão; porque as almenaras
ou fogueiras nocturnas, que eram d'uso entre os arabes, haviam
inteiramente cessado desde a primeira noite em que estes assentaram as
tendas perto da beira do rio.

Ia em meio a terceira noite após aquella em que os crentes do Islam
tinham parado nas faldas septemtrionaes das cordilheiras de Asido. Eram
profundas as trevas que se dilatavam pela face da terra, mas os raios
scintillantes das estrellas rareiavam o manto negro da atmosphera. Esta
luz incerta reverberava tremula e fugitiva nas pontas das lanças dos
atalaias, que, apinhados na coroa dos outeirinhos ou embrenhados entre
as sebes dos vallados, observavam os picos agudos que, ao longe para o
norte, negrejavam como recortados nas profundezas do céu. O Chryssus
murmurava lá em baixo, e a esteira da corrente faiscava, tambem, com o
reverberar da luz dos astros, emquanto o vento, passando pelas ramas de
algumas arvores solitarias, respondia ao seu murmurar com o gemer da
folhagem movediça.

Subitamente, no meio deste silencio, alguns esculcas e vigias lançados
além do rio, na margem direita, creram perceber um ruído longinquo, que
menos exercitados ouvidos não saberiam distinguir de remoto e quasi
imperceptivel despenhar de torrente. Então elles se debruçaram no
chão e, unindo a face á terra, escutaram por alguns momentos. Depois,
erguendo-se a um tempo, ouviu-se entre elles uma voz sumida, que
dizia--Os romanos!--e a turba repetiu:--Os romanos!

E, unindo-se n'uma fileira, encurvaram os arcos e ficaram immoveis.

Pouco a pouco aquelle ruído, mal sentido a principio, cresceu e
tornou-se mais distincto. Brevemente, facil foi de perceber o tropeiar
de milhares de cavallos e o bater confuso dos pés de milhares d'homens.
Os esculcas arabes conservavam-se unidos e em silencio.

De repente o grito de:--Allah!--retumbou d'além do Chryssus: seguiu-se
um estridor de poucas frechas, e n'um instante os atalaias do campo
viram alvejar fitas d'escuma, que se estendiam através do rio para
a margem esquerda. Eram os esculcas que o cruzavam a nado, tendo
empregado na dianteira dos godos os seus primeiros tiros.

Uma nuvem de settas respondeu ao sibillar das dos esculcas arabes:
algumas das fitas de escuma ondeiaram, derivaram pela corrente e
desvaneceram-se no dorso escuro e scintillante das aguas. O Chryssus
recolhia os primeiros despojos de um terrivel combate.

Na principal atalaia dos mosselemanos soou então uma trombeta;
centenares dellas responderam por todos os angulos do campo a este
convocar para a morte. Os esquadrões uniam-se com a rapidez do
relampago e, abandonando o recincto das tendas, arrojavam-se para a
margem do rio.

Os godos, porém, tinham a vantagem de caminharem ordenados e, por isso,
haviam topado com a corrente, antes que os seus contrarios começassem
a atravessar a planicie fronteira. As frechas cahiam sobre os arabes
que se approximavam, como saraiva espessa: largas e solidas jangadas,
trazidas em carros puxados pelas mulas possantes da Lusitania,
baqueiavam sobre a agua e, desdobrando-se com engenhosa arte, cresciam
até entestar com a margem opposta. Então, os melhores cavalleiros
godos, curvando-se para diante, com o frankisk erguido, corriam para as
pontes, vergadas debaixo do peso dos cavallos e dos homens cubertos de
armaduras, e vinham bater em cheio nos corredores arabes, que, no meio
das trevas, não podiam esquivar-se aos golpes do ferro inimigo. Já,
nas bocas d'algumas dessas estradas movediças, os cadaveres amontoados
começavam a embargar os passos dos vivos; mas por outras, onde os
arabes ainda mal ordenados e menos numerosos não tinham podido resistir
ao impeto dos godos, golfavam torrentes de guerreiros, que, marchando
unidos para uma e outra parte, accommettiam de lado os arabes, os
quaes, feridos pela frente e pelas costas, vacillavam e retrocediam.
Debalde a voz retumbante de Tarik sobrelevava por cima dos gritos de
furor e de agonia de mosselemanos e christãos. O numero dez vezes maior
dos godos tornava impossivel a resistencia, e a passagem do exercito de
Ruderico para a margem esquerda do Chryssus só Deus a poderia impedir.

Era quasi manhan quando o capitão arabe se desenganou da inutilidade
de se oppôr por mais tempo á passagem dos inimigos. As tiuphadias
godas achavam-se pela maior parte na campina onde se deviam resolver
os destinos da Hespanha, e, bem que a este tempo todo o exercito do
Islam estivesse já em ordem de pelejar, a noite dava grande vantagem
aos godos, cuja cavallaria, cuberta de armas defensivas mais solidas
que as dos arabes, resistia facilmente aos cavalleiros do deserto,
para quem a maior ligeireza e o mais déstro modo de acommetter eram
baldados no meio das trevas. A um signal das trombetas os esquadrões
mosselemanos começaram a recuar e, alongando-se pela frente do
acampamento, esperaram o romper do dia emquanto o exercito godo acabava
de transpôr o rio e vibrava milhares de frechas perdidas para o lado
onde os capilhares alvissimos dos arabes branquejavam á luz duvidosa do
céu recamado d'estrellas.

Quando o sol, rompendo detrás dos outeiros de Segoncia, veiu com o
seu clarão avermelhado inundar as veigas do Chryssus o espectaculo
que ellas offereciam era variado e sublime. De um lado as tendas
dos arabes, derramadas pelas raizes dos montes e pelos cimos dos
outeiros, podiam comparar-se ao acampamento das tribus do deserto, que,
emprazadas á voz do propheta, se houvessem ajunctado n'um ponto unico
das solidões onde vagueiam. Diante desta cidade immensa e movediça, os
esquadrões dos mosselemanos, divididos por familias e raças, estavam
firmes e cerrados em frente de seus pendões, que os alféreces, montados
em ginetes possantes, sustinham erguidos na rectaguarda de cada
tribu. Os raios matutinos faziam alvejar os turbantes e scintillavam
nos ferros das lanças que os cavalleiros tinham em punho, e os leves
escudos orbiculares, que os compridos saios de malha pareciam tornar
inuteis, embraçados já para o combate, brilhavam com as suas cores
vivas e variadas á claridade serena do romper do dia.

Os esquadrões arabes eram a flor do exercito de Tarik; mas a catadura
selvagem dos africanos seus alliados, neophytos do Islamismo, produzia,
porventura, mais temor do que o aspecto delles. Torvos e ferozes eram
o gesto e os meneios destes homens sem disciplina, cujas paixões se
lhes pintavam nos rostos tostados e rugosos, nos olhos banhados de fel
e orlados de sangue, e de cuja bruteza e miseria davam testemunho os
mangoaes que lhes serviam d'armas (armas terriveis, com que abolavam
os elmos mais reforçados), e a hediondez dos seus albornozes pardos,
immundos e despedaçados. Tudo, emfim, nelles contrastava com as
armas brilhantes, com os ricos trajos e com os vultos magestosos dos
cavalleiros do oriente, que, conservando-se em silencio e immoveis,
pareciam desprezar as tribus bereberes de Zeneta, de Mazmuda, de
Zanhaga, de Ketama e de Hoara, que formavam as alas e que, brandindo as
rudes armas, com gritos medonhos se appellidavam para a batalha.

Tal era o espectaculo que offerecia o exercito dos mosselemanos.
Defronte delle, a hoste goda apresentava os massiços profundos dos
seus soldados, cobrindo, como grossa muralha de metal reluzente,
a margem esquerda do rio. Rodeiado dos mais illustres guerreiros,
Ruderico estava no centro das tiuphadias formadas pelos espadaúdos
soldados da Lusitania septemtrional e da Gallecia, em cujas feições se
divisava ainda que descendiam dos indomaveis suevos. Unidos com elles
sob os pendões reaes, estavam os guerreiros veteranos da Narbonense,
habituados a cruzar diariamente as espadas com os orgulhosos frankos,
que estanceiavam pelas Gallias, além das fronteiras do imperio. A
ala direita, dividida em dous esquadrões capitaneiados pelos dous
filhos de Witiza, Sisebuto e Ebbas, continha a flor dos cavalleiros da
provincia Carthaginense. Com estes estava o corpo que o metropolitano
de Hispalis ajunctara, composto em grande parte de nobres que haviam
deposto a espada desde que Ruderico subira ao throno e que a cingiam de
novo nesta guerra de independencia. A ala esquerda, mais pequena que
as outras duas, não parecia por isso menos de temer para os arabes. O
duque de Corduba, Theodemiro, era o capitão dessa ala, em que estavam
todos os veteranos que o tinham ajudado a repellir as primeiras
tentativas dos mohametanos e que já conheciam por experiencia o modo
de pelejar delles. Estes velhos soldados deviam levar ao combate os
mancebos que, á voz de Theodemiro, tinham corrido ás armas de todos
os lados da Betica e em cujos corações o affamado guerreiro soubera
despertar o sentimento da gloria e do amor da patria. Com elle
militavam, emfim, as reliquias dos soldados tingitanos que não tinham
querido associar-se á traição do conde de Septum.

Como os arabes, os godos tinham no meio de si uma nuvem de peões
armados, não menos barbaros e ferozes que os filhos da Mauritania. Os
montanheses do Herminio na Lusitania, aborigenes, talvez, daquelle
paiz, os quaes, na epocha das invasões germanicas, bem como já na
da conquista romana, a custo haviam submettido o collo ao jugo de
extranhos, e os vasconios, habitadores selvagens das cordilheiras dos
Pyrenéus, constituiam com os servos um grosso de gente a que hoje
chamariamos a infantaria do exercito. As suas armas offensivas eram a
cateia teutonica, especie de dardo, a funda, a clava ferrada e o arco e
a setta. Requeimados pelo sol ardente do estio ou pelo vento gelado dos
invernos rigorosos das serranias, incapazes de conhecerem a vantagem
da ordem e da disciplina, estes homens rudes combatiam meios nús e
desprezavam todas as precauções da guerra. O seu grito de acommetter
era um rugido de tigre. Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão;
porque, vencedores, não havia a esperar delles misericordia. Taes eram
os soldados que a Hespanha oppunha á mourisma que circumdava os arabes.

Por algum tempo os dous exercitos conservaram-se em distancia um do
outro, como dous antigos gladiadores, observando-se mutuamente antes de
começarem uma lucta que para algum delles tinha de ser, forçosamente, a
ultima. A consciencia da terribilidade do drama que ía representar-se
penetrou, por fim, até nos corações dos barbaros de um e d'outro campo:
as vozerias que sussurravam ao longe foram pouco a pouco esmorecendo,
até cahirem n'um silencio tremendo, só cortado pelo respirar comprimido
de tantos homens ou pelo relinchar dos cavallos que, impacientes,
escarvavam a terra.



X

TRAIÇÃO


     A transgressão dos juramentos tem crescido despeiadamente, e o
     costume de trahir os nossos principes cada vez é mais frequente.

                                        _Concilio Toledano XVI c. 10._


O sol ía já em alto quando o grito d'_Allah-hu-Acbar_! soou no centro
dos esquadrões do Islam. Era a voz sonora e retumbante de Tarik.
Repetido por milhares de bocas, este grito restrugiu e ecchoou, como
o estourar de uma trovoada distante, pelos pendores das serras e
murmurou e perdeu-se pelos desfiladeiros e valles. A cavallaria arabe,
enristando as lanças, arremessou-se pela planicie e desappareceu n'um
turbilhão de pó.

«Christo, e avante!--bradaram os godos, e os esquadrões de Ruderico
precipitaram-se ao encontro dos mosselemanos. São como dous bulcões
ennovelados que, em vez de correrem pela atmosphera nas azas da
procella, rolam na terra, que parece tremer e vergar debaixo do
peso daquella tempestade d'homens. O ruído abafado e bem distincto
do mover dos dous exercitos vai-se gradualmente confundindo n'um
som unico ao passo que o chão intermedio se embebe debaixo dos
pés dos cavallos. Essa distancia entre as duas muralhas de ferro
estreita-se, estreita-se! É apenas uma faixa tortuosa lançada entre
as duas nuvens de pó. Desappareceu! Como o estourar do rolo de mar
encapellado, tombando de subito sobre os alcantis d'extensas ribas,
as lanças cruzadas ferem quasi a um tempo nos escudos, nos arnezes,
nos capacetes. Um longo gemido, assonancia horrenda de mil gemidos,
sobreleva ao som cavo que tiram as armaduras batendo na terra.
Baralham-se as extensas fileiras: cruzam-nas espantados os ginetes
sem donos, nitrindo de terror e de colera, com as crinas erriçadas
e respirando um alento fumegante. Não se distingue naquelle oceano
agitado mais que o afuzilar tremulo das espadas, o relampagueiar
rapido dos frankisks, o scintillar passageiro dos elmos de bronze; não
se ouve, senão o tinir do ferro no ferro e um concerto diabolico de
blasfemias, de pragas, d'injurias em romano e em arabe, intelligiveis
para aquelles a quem são dirigidas, não pelos sons articulados, mas
pelos gestos de odio e desesperação dos que as proferem. De vez em
quando, um brado retumba por cima do estrupido: são os capitães que
buscam ordenar as batalhas. Debalde! As fileiras tem rareiado: o
combate converteu-se n'um duello immenso ou, antes, em milhares de
duellos. Cada cavalleiro arabe travou-se com um cavalleiro godo, e
os dous contendores esquecem-se de tudo quanto os rodeia: são dous
inimigos, cujo odio nasceu e encaneceu n'um momento, e n'um momento
esse rancor é intenso quanto o fora, se por largos dias se accumulara
sem poder resfolgar. Firmes, os guerreiros christãos vibram a pesada
acha d'armas que tomaram dos frankos ou jogam a espada curta e larga
dos antigos romanos; porque as lanças voaram em rachas, tanto das
mãos dos godos, como das dos arabes. Estes, curvados sobre os collos
dos cavallos e cubertos com os leves escudos, volteiam em roda dos
adversarios e, quasi ao mesmo tempo, os acommettem por um e por outro
lado, tão rapido é o seu perpassar. Nesta lucta da força e da destreza,
ora o duro neto dos wisigodos, deslumbrado pelo incessante dos golpes,
esvaído pelas muitas feridas, suffocado pelo peso da armadura, vacilla
e cai, como o pinheiro gigante; ora o ligeiro agareno vê coriscar
em alto o frankisk e logo o sente, se ainda sente, embargar-lhe o
ultimo grito na garganta, até onde rompeu, partindo-lhe o craneo e
sulcando-lhe o rosto. Assim, os centros dos dous exercitos semelham
o tigre e o leão no circo, abraçados, despedaçando-se, estorcendo-se
ennovelados, sem que seja possivel prever o desfecho da lucta, mas tão
sómente que, ao adejar a victoria sobre um dos campos, terá descido
sobre o outro o silencio e o repouso do anniquilamento.

Os soldados que seguiam a bandeira de Theodemiro tinham-se abalado para
o combate apenas viram partir os esquadrões de Ruderico. A ala direita
dos mohametanos era capitaneiada pelo amir da cavallaria africana,
Mugueiz, a quem a sua origem christan fizera dar o nome de Al-Rumi.
O amir era o mais valente e experimentado dos capitães de Tarik, e
por isso este fiara do renegado o mando daquella ala, na qual tambem
esvoaçava o pendão de Juliano, que, se não abandonara, como Al-Rumi,
a crença do Calvario, tinha, comtudo, amaldicçoado tambem a sancta
religião da patria. Estes dous guerreiros, ferozes ambos, um por indole
e habito, outro por vingança e ambição, amavam-se mutuamente, porque
os fizera irmãos uma palavra escripta em suas consciencias, a maxima
affronta humana, o nome de renegados.

O recontro dessa ala foi semelhante em tudo ao do grosso das suas
hostes, salvo que ahi o frankisk encontrava no ar o frankisk, a injuria
de godos respondia á injuria proferida por bocas de godos, e as
imprecações do odio trocavam-se com maior violencia ainda. Theodemiro
combatia á frente das suas tiuphadias onde mais acceso ía ser o travar
da batalha, sem, todavia, esquecer o officio de capitão. Era isto;
era o exemplo que tornava invenciveis os seus soldados. Guiando os
cavalleiros tingitanos, Juliano tambem rompera primeiro adiante dos
arabes. Os dous antigos companheiros de combates haviam topado em
cheio, e as lanças voaram-lhes das mãos em rachas. Os cavalleiros
passaram um pelo outro como relampagos, para logo tornarem a voltar,
arrancando das espadas.

«Circumcidado!--bradou Theodemiro, ao perpassar por Juliano na rapidez
da carreira.

«Escravo!--replicou o conde de Septum, rangendo os dentes.

A injuria vibrada pelo duque de Corduba penetrara mui fundo. Semelhante
a Judas, o conde da Tingitania trahira a patria pela cubiça e,
defendendo o estandarte do propheta de Medina, fazia triumphar o koran.
Duas vezes a sua alma era a d'um circumciso.

Os dous cavalleiros godos acommetteram-se com toda a furia de rancor
entranhavel: as espadas, encontrando-se no ar, faiscaram como o
ferro abrazado na incude; mas a de Theodemiro fora vibrada por braço
mais robusto e, postoque o golpe descesse amortecido, ainda entrou
profundamente no escudo que o seu adversario levava erguido sobre a
cabeça. Entretanto Juliano, revolvendo ligeiro a espada, rompeu a
couraça do duque de Corduba e feriu-o levemente no lado.

«Vencedor dos vasconios,--gritou, rindo diabolicamente, o conde de
Septum--olha por ti! Nas margens do Chryssus não ha taças de vinho,
como aquellas com que te embriagavas nos paços do teu senhor. Aqui o
que corre é sangue!»

Theodemiro tinha já desencravado a espada do escudo de Juliano, em que
ficara embebida. Rapidamente ella descera de novo guiada pela raiva de
que abafava o guerreiro. O golpe quebrou o escudo já falsado e bateu no
elmo brilhante do conde, com tal furia, que este perdeu a luz dos olhos
e, curvando-se para diante, se abraçou ao collo do cavallo, quasi sem
sentidos. Outra vez que o duque de Corduba vibrasse o ferro, Juliano
estava perdido: o caminho da morte lá lhe ficara indicado no elmo.

«Que olhas para o chão, traidor?--disse Theodemiro, com voz tremula de
colera e d'escarneo e segundando o golpe.--É a terra da patria, que
vendeste aos infieis como tu!»

O ferro, porém, não pôde chegar á cimeira do capacete do conde. Outro
ferro, seguro por mão robusta, se metteu de permeio. Era a espada de
Mugueiz, o qual, passando, vira o perigo imminente do seu amigo e
correra para o salvar.

Então Theodemiro voltou-se contra o renegado, e um violento combate
se travou entre ambos. Mugueiz não era menos déstro que o principe
da Betica. Mais membrudo e robusto que elle e, além disso, ainda não
ferido, a vantagem era toda sua; mas o esforço de Theodemiro suppria
essa inferioridade.

Entretanto Juliano recobrara o alento: a vergonha, o despeito, a sede
de vingança estorciam-lhe o coração. O nobre ginete em que cavalgava,
sentindo seu senhor semi-morto, tinha corrido espantado até onde a
multidão de christãos e arabes, travados em peleja sanguinolenta, lh'o
consentia. O conde, cravando-lhe os acicates, com a espada erguida na
mão, arremessou-o para o logar onde o duque de Corduba pelejava com
Mugueiz. Era um feito covarde; mas que importava a Juliano a deshonra?
Assignalado com o ferrete indelevel de traidor, havia-se habituado a
viver para um sentimento unico--a vingança. E a vingança era quem o
impellia.

Neste momento, por uma das pontes já desertas lançadas na noite
antecedente sobre o Chryssus, soava um correr de cavallo á rédea solta.
Alguns soldados que andavam mais perto da margem volveram para lá os
olhos. Um cavalleiro d'extranho aspecto era o que assim corria. Vinha
todo cuberto de negro: negros o elmo, a couraça, e o saio; o proprio
ginete murzello. Lança não a trazia. Pendia-lhe da direita da sella uma
grossa maça ferrada de muitas púas, especie de clava conhecida pelo
nome de borda, e da esquerda a arma predilecta dos godos, a bipenne dos
frankos, o destruidor frankisk. Subiu rapido a encosta, d'onde Ruderico
attendia aos successos da batalha. Parou um momento e, olhando para
um e outro lado, endireitou a carreira para o logar em que fluctuavam
os pendões das tiuphadias da Betica. Como um rochedo pendurado sobre
as ribanceiras do mar, que, estalando, rola pelos despenhadeiros e,
abrindo um abysmo, se atufa nas aguas, assim o cavalleiro desconhecido,
rompendo por entre os godos, precipitou-se para onde mais cerrado em
redor de Theodemiro e Mugueiz fervia o pelejar.

Juliano tinha-se aproximado no emtanto do esforçado duque de Corduba,
que, ferido e obrigado a combater com o déstro e feroz renegado, a
custo se poderia defender dos golpes do conde, golpes que o odio e
a colera dirigiam. Alguns cavalleiros da Betica voaram a soccorrer
Theodemiro; mas os arabes com que andavam travados tinham-nos seguido
de perto e, rodeiando Mugueiz, haviam tornado inutil o soccorro dos
cavalleiros christãos. O apertado revolver das armas formava uma
selva de ferros em volta dos dous capitães inimigos, através da qual
debalde o conde de Septum buscara muitas vezes abrir caminho para
ferir Theodemiro, até que, finalmente, galgando por cima de um arabe
derribado, podera vibrar um golpe. O elmo do nobre godo restrugira, e o
guerreiro vacillara. A ultima pagina da sua vida parecia estar escripta
no livro dos destinos. Os dous adversarios do duque de Corduba íam
tingir de negro as que ainda lhe restavam em branco.

Mas o cavalleiro desconhecido havia passado através da hoste goda
e chegara á dianteira dos arabes. Com a maça jogada ás mãos ambas
abolava e rompia as armas mais bem temperadas, e as púas, entrando
pelas carnes dos que se lhe punham diante, iam esmigalhar-lhes os
ossos. Por onde elle atravessava nem as fileiras se uniam, nem os godos
achavam adversarios. Como a charrúa tirada com violencia em chão batido
de planicie deixa após si grossas glebas revolvidas, assim aquella
arma irresistivel deixava, ao passar, uma larga cauda de cadaveres
entretecida de moribundos debatendo-se em terra. Os godos, espantados,
perguntavam uns aos outros quem sería aquelle temeroso guerreiro; mas
entre elles ninguem havia que podesse dizê-lo. Se combatesse pelos
mosselemanos, crêlo-hiam o demonio da assolação; mas, pelejando pela
cruz, dir-se-hia que era o archanjo das batalhas mandado por Deus para
salvar Theodemiro e, com elle, os esquadrões da Betica.

No instante em que o cavalleiro negro chegou ao logar onde já o duque
de Corduba só procurava amparar-se contra Mugueiz e Juliano, este,
cego de furor, descia com segundo golpe: a espada, porém, voou-lhe das
mãos em pedaços, batendo na maça do cavalleiro negro, que, deixando
depois cahir a pesada borda ao longo da ephippia, ergueu o frankisk
e, descarregando-o sobre o hombro do renegado, lhe fez uma ferida
profunda. A dor arrancou um brado a Mugueiz, a cujo som o seu ginete
amestrado o arrebatou para o meio dos arabes, e Juliano, vendo-se
desarmado, fugiu após elle. Então o desconhecido disse a Theodemiro
algumas palavras sumidas e, sem esperar resposta, internou-se outra vez
no meio dos esquadrões agarenos.

Desde este momento a ala direita dos mosselemanos começou de affrouxar,
porque Mugueiz, mal ferido, se retrahira para o acampamento. Alguns
cheiks illustres jaziam moribundos ou mortos ás mãos do cavalleiro
negro, que parecia escolher as suas victimas entre os mais nobres
guerreiros do Islam. Animados por elle, os godos, cobrando novos brios,
procuravam imitá-lo e arremessavam-se destemidos através da hoste
inimiga, que debalde procurava resistir á torrente. Os signaes da
victoria dos godos eram já dolorosamente certos para os mosselemanos.

Ruderico viu isto e exultou. O sol inclinava-se para o occaso, e o
centro do exercito arabe, onde se achava Tarik, estava firme; mas os
clamores do triumpho, que já soavam na ala esquerda dos christãos,
começavam a espalhar a incerteza entre os soldados do propheta. Foi
então que o rei dos godos ordenou á sua ala direita descesse contra os
bereberes e, dispersando-os, acommettesse os esquadrões de Tarik, que
pareciam haver lançado raizes no solo ensanguentado do campo da batalha.

Um quingentario partiu á rédea solta para levar a ordem fatal aos
filhos de Witiza. Á frente dos seus soldados os dous irmãos falavam a
sós com Oppas e contemplavam o combate. Apenas ouviram o que se lhes
ordenava, Sisebuto e Ebbas, voltando-se para os esquadrões que lhes
obedeciam, clamaram:--vingança!--Este brado foi repetido por Oppas e
pelos nobres que o seguiam. Então, no meio daquella espessa selva de
lanças repercutiu um grito que respondia ao dos capitães:--Gloria ao
rei Sisebuto! Morte ao traidor Ruderico!

E os filhos de Witiza e o hypocrita bispo d'Hispalis, com as lanças
aprumadas e as espadas na bainha, lançaram-se pelo valle abaixo, e
a mór parte dos esquadrões seguiram-nos. Apenas Pelagio, duque de
Cantabria, ficou immovel á frente dos selvagens vasconios e d'algumas
tiuphadias da Gallecia e da Narbonense que, alheias á traição daquelles
mal-aventurados, recusaram segui-los.

Ruderico viu ennovelarem-se nos ares os rolos de pó que se alevantavam
sob os pés dos ginetes: Valentes mancebos--exclamou--hoje a Hespanha
vai ser salva por vós! Vêde--accrescentava, sorrindo e falando com os
guerreiros que o cercavam, muitos dos quaes haviam condemnado a sua
arriscada confiança na generosidade dos filhos de Witiza:--vêde como
elles voam contra os africanos! Quando um grande risco ameaça a patria
não ha odios entre os godos; todos elles são irmãos, porque todos elles
são filhos desta nobre terra d'Hespanha.

E o quingentario que voltava gritou de longe:--Somos trahidos!

Ruderico empallideceu. A certeza da victoria tinha-se desvanecido.



XI

DIES IRAE


     Por quantas desventuras a patria dos Godos tem sido abalada: quão
     repetidos a pungem os golpes dos fugitivos e a nefanda suberba dos
     transfugas, quasi ninguem ignora.

                                          _Codigo wisigothico II-1-7._


A passagem de tão avultado numero de godos para os inimigos e o
crepusculo que descia obrigaram Ruderico a fazer cessar o combate,
emquanto a noite pousava tranquilla sobre aquella campina povoada de
afflicções e dores. A aurora rompeu meiga e serena, como nos dias em
que vinha trazer as alvoradas alegres ás malhadas dos pastores que,
colmadas, amarelejavam outr'ora pelas margens relvosas do Chryssus,
em vez das tendas de guerra que alli alvejavam agora com os primeiros
resplendores da madrugada. O homem debatia-se ahi nas vascas da morte,
e o sol passava envolto na sua gloria, indifferente ás angustias
d'aquelles que, em seu ridiculo orgulho, se chamavam monarchas e
conquistadores do mundo; passava, sem lh'importar se os vermes vestidos
de ferro chamados guerreiros se despedaçavam uns aos outros, com o
delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.

Pelas trevas, um ruído sumido, mas incessante, de passadas d'homens
e de tropeiar de cavallos soara horas inteiras em um e em outro
campo. Era que em ambos elles surgira uma idéa unica. O rei godo
havia resolvido formar um corpo só das reliquias da sua hoste e com
elle acommetter a principal batalha dos inimigos, para a destruir
rapidamente antes que as alas podessem soccorrê-la. O mesmo pensamento
tivera Tarik. Semelhante á trovoada do estio, que se amontoa durante a
noite em dous polos encontrados e ao alvorecer semeia de coriscos as
solidões do céu e povoa d'estampidos discordes os echos da terra, assim
cada um dos campos se agglomerava em uma pinha gigante; convertia-se
n'um homem só, para em duello de morte resolver com o seu contendor se
os filhos das Hespanhas deviam acceitar a lei do koran ou continuar a
abrigar-se á sombra da divina cruz.

Tarik lançara na frente da hoste mosselemana os transfugas do inimigo.
Sisebuto, Ebbas, o bispo d'Hispalis e o conde de Septum com os seus
numerosos guerreiros constituiam a vanguarda. Seguia-se a cavallaria
arabe: os bereberes cingiam este massiço de homens e ginetes, em parte
cubertos de ferro, e os indisciplinados cavalleiros da Mauritania,
dispersos como almogaures, deviam vagar soltos para fazer entradas nas
alas inimigas e impedir assim que ellas podessem a tempo soccorrer o
centro do exercito, que o general arabe esperava desbaratar no primeiro
impeto.

Ruderico, pela sua parte, tinha posto na vanguarda as tiuphadias
victoriosas de Theodemiro, os cavalleiros da Cantabria guiados pelo
moço Pelagio, filho de Favilla, que succedera a seu pae no governo
daquella provincia, e, finalmente, os guerreiros escolhidos da
Lusitania e da Gallecia, que elle proprio capitaneiava. Como Tarik,
o rei godo collocara de um e de outro lado da hoste apinhada os
frecheiros e fundibularios selvagens do Herminio e os montanhezes
vasconios, antiga raça de celtas, irmãos em linhagem, em valor, em
crueza, em armas e em costumes. Na retaguarda estavam os soldados da
provincia Carthaginense que não tinham seguido o exemplo dos transfugas
por andarem derramados em outros logares ou, talvez, porque, não
corrompidos, guardavam ainda no coração vestigios d'amor da patria.

Ao amanhecer, cada um dos capitães inimigos viu com assombro que
a mesma traça de guerra de que pretendera valer-se para obter a
victoria occorrera á mente do seu adversario. Era, porém, tarde
para alterar a ordem da batalha. Ao mesmo tempo as trombetas
godas e os anafis arabes deram o signal do combate, e o grito
de--Christo e ávante!--confundiu-se em estampido medonho com o brado
de--_Allah-hu-Acbar_--o brado de guerra dos pelejadores sarracenos.

O chão pareceu affundir-se com o encontro daquellas duas mós enormes de
homens armados, e o echo dos botes das lanças nos escudos convexos e
nas armas sonoras dos cavalleiros repercutiu nas encostas fronteiras e
desvaneceu-se ao longe, murmurando entre as quebradas. Desde o primeiro
embate, não mais fora possivel distinguir os exercitos, travados como
dous luctadores furiosos. Eram um vulto só, indelineavel, monstruoso,
immenso, cujo topo ondeiava, semelhante ao de cannaveal movido pelo
vento, cujos contornos indecisos se agitavam, torciam, alargavam,
diminuiam, oscillavam, como tapete de nenuphars sobre marnel revolto
pelo despenhar das torrentes. Nuvens de settas sibillavam nos ares:
as espadas sarracenas cruzavam-se com as espadas godas: a cateia
teutonica ía, zumbindo, abrir fundos regos nas fileiras arabes, e os
membros ossudos dos peões lusitanos e cantabros estouravam debaixo das
pancadas violentas dos mangoaes da peonagem mourisca. Muitos ginetes
vagueiavam sem donos; muitos cavalleiros combatiam a pé. Desgraçado do
que, ferido, cahia em terra; porque para elle não havia misericordia:
o punhal acabava o que o frankisk ou a cimitarra começara. Dir-se-hia
que os regatos de sangue, serpeiando por entre as duas hostes enredadas
e salpicando as frontes e corpos, eram as veias descarnadas e rotas
daquelle grande vulto, coleiando na derradeira agonia.

O cavalleiro negro, ao cessar a batalha do dia antecedente,
desapparecera do campo, sem que ninguem soubesse dizer como ou
onde se escondera. Só Theodemiro parecia não o ignorar; porque, ao
falarem do desconhecido e das suas quasi incriveis façanhas, os
tiuphados e quingentarios que em volta delle esperavam o romper da
manhan e o recomeçar da peleja, o duque de Corduba buscara sempre
mudar de conversação ou respondera, carregando-se-lhe o semblante de
tristeza:--«É, porventura, algum desgraçado que procura o repouso da
morte, e para o homem que resolveu morrer, que feito de valor será
impossivel? Se elle não quer deixar na terra nem o echo vão de um nome
glorioso, respeitae-lhe os desejos, porque profundo deve ser o abysmo
da sua desventura!»

Ao som, porém, das trombetas que annunciavam o renovar do combate, o
cavalleiro negro não tardara a apparecer onde mais accesa andava a
briga. Via-se, comtudo, que era principalmente nas fileiras dos arabes,
onde as púas agudas e cortadoras da sua temerosa borda ou maça d'armas
faziam maiores estragos. Mas, quando algum dos godos transfugas ousava
esperar-lhe os golpes ou tentava ferí-lo, ouvia-se-lhe um rugido como
o de maldicção preso na garganta por colera immensa, e o seu miseravel
contrario não tardava a golfar o sangue na terra da patria que trahira
e a entregar aos demonios a alma tisnada pela infamia da perfidia. Os
arabes supersticiosos quasi criam ver nelle Iblis, o rei infernal do
Gehenna, armado da espada percuciente, solto por Deus para os punir
das offensas commettidas contra o divino koran. Diante delle recuavam
os mais esforçados mosselemanos, e só de longe os frecheiros lhe
disparavam alguns tiros, que se lhe empennavam no escudo ou, roçando
por este, vinham bater-lhe na armadura, debaixo da qual manava já o
sangue de algumas feridas, e os membros lassos começavam a desmentir a
impetuosidade do espirito.

Como na vespera, o sol inclinava-se das alturas do céu para o occaso,
e ainda a batalha estava indecisa, se é que o terror que incutia o
cavalleiro negro no logar onde pelejava não fazia pender um pouco a
balança do lado dos godos. De repente, um grito agudo partiu do mais
espesso revolver do combate; este grito gigante, indizivel, d'intima
agonia, era o brado unisono de muitos homens; era o annuncio doloroso
de um successo tremendo. O cavalleiro negro, que, impellido pela
ebriedade do sangue, e semelhante a rochedo que se despenha pelo
pendor da montanha, ia derramando a morte através dos esquadrões do
Islam, volveu os olhos para o logar onde soara o bramido retumbante
da multidão. Era no centro do exercito godo. As tiuphadias vergavam
em semicirculos para a banda do Chryssus, como o açude minado pela
torrente, a ponto de desprender-se das margens, oscilla e se curva,
bojando sobre a veia inferior das aguas. A muralha de ferro que,
posta entre o Islamismo e a Europa, dizia á religião do propheta
d'Yatrib--não passarás d'aqui--vacilla, como a quadrella da cidade
fortificada batida muitos dias por vaivem d'inimigos. Por fim,
aquelles vastos massiços d'homens ligados pela cadeia fortissima da
disciplina, do pudor militar e do esforço, derivam rotos ante os
turbilhões dos arabes, ondeiam e derramam-se na campina. Pelo boqueirão
enorme aberto no centro da hoste goda precipitam-se as ondas dos
cavalleiros mohametanos, e, após elles, a turba dos bereberes, com um
bramido barbaro. Debalde as alas tentam ajunctar-se, travar-se uma com
outra, soldar os membros despedaçados do leão iberico. Passa por lá
a impetuosa corrente dos netos d'Agar, que envolve e arrasta os que
pretendem vadeia-la. Deus contara os dias do imperio de Lewighild, e o
sol do ultimo delles era o que descia já para o occidente!

O cavalleiro negro vira a fuga das batalhas godas, advertido pelo
clamor que a precedera. Voltando as rédeas do seu murzello, esporeiou-o
para aquella parte. Levava lançado ás costas o escudo, onde os tiros
dos archeiros africanos ciciavam, como a saraiva no inverno batendo
nos troncos despidos do roble. Pendia-lhe da esquerda do arção a borda
ensanguentada, da direita o frankisk. O ginete tresfolegava na furia
da carreira, açoutando os ares com as crinas ondeiantes e atirando-se
ao meio da especie de voragem aberta nas fileiras christans, a qual
como que tragava uns após outros os esquadrões mosselemanos. Ao chegar
á confluencia daquellas encontradas torrentes de homens armados,
o guerreiro parou e, olhando em roda por um momento, ouviu-se-lhe
um grande brado. Era a primeira vez que a sua voz soava no meio
da batalha, e a unica palavra que lhe saíu da boca foi o nome de
Theodemiro. Esse brado devia chegar longe, reboando como o trovão.
Dir-se-hia que o cavalleiro estava habituado á conversação do bramido
dos mares revoltos e do rugir das ventanias pelas fragas das serras;
porque naquelle grito, conjuncto inexplicavel de colera e de dor, havia
uma semelhança, uma harmonia com o gemido immenso da natureza quando
lucta comsigo mesma no passar da tempestade.

Mas aos ouvidos de Theodemiro não podia chegar a voz do desconhecido.
Arrastado pelos turbilhões de fugitivos, forcejando por obrigá-los
a voltar o rosto contra os arabes, ora com palavras de amarga
reprehensão, ora com o exemplo, o duque de Corduba combatia mui longe
delle. Em vão o cavalleiro negro lhe repetia o nome: era inutil
este chamar e, apenas, servia para attrahir os golpes dos agarenos
victoriosos. As achas d'armas, as cimitarras, os dardos faziam
centelhar a armadura e o escudo do desconhecido, que, tomado, ao que
parecia, d'um pensamento doloroso, alongava os olhos por toda a parte
em busca de Theodemiro. Com um gemido de desalento, o cavalleiro saíu,
emfim, da especie de torpor que o tornava immovel ante o espectaculo de
tanta desventura, e o seu despertar foi tremendo. Erguendo em alto a
maça d'armas e vibrando-a furiosamente em volta de si, começou a partir
espadas e a abolar armaduras. Em breve, ao redor delle, no meio dos
mosselemanos vencedores, o terror invadia os animos, como na vespera,
como nesse mesmo dia, se espalhara por toda a parte onde haviam
reluzido as púas da sua ensanguentada borda ou o ferro do seu cortador
frankisk.

Apenas, á força de golpes, o cavalleiro negro abriu no meio dos
mosselemanos vencedores uma larga clareira, esporeiando o ginete,
lançou-se para o lado em que os godos desordenados se retrahiam ante as
espadas do Islam. No espaço intermedio entre os fugitivos e os arabes
fluctuava sem recuar o pendão do duque de Corduba. Em volta desse
pendão tremolavam as signas das tiuphadias da Betica, que, cercadas
por todos os lados, resistiam ainda ao embate dos sarracenos. No meio,
porém, dos que abandonavam vilmente o campo de batalha nem uma unica
bandeira se hasteiava; mas, pelo esplendido das armas, o guerreiro
conheceu aquelles que não ousavam resgatar com a vida a deshonra da
Hespanha. Eram os soldados escolhidos de Ruderico; era a brilhante
cavallaria que elle proprio capitaneiava! A indignação trasbordou da
alma do guerreiro:

«Rei dos godos, rei dos godos!--exclamou elle--és covarde! Embora vás
esconder a tua ignominia nos muros de Toletum. Ainda neste campo de
batalha restam homens valentes: ainda Theodemiro combate, não por teu
throno deshonrado, mas pela terra de nossos paes. Foge tu com os que
não sabem morrer pela patria; que nas margens do Chryssus ficam os que
hão-de perecer com ella! Maldicto o godo e christão que foge para ser
servo!»

E o cavalleiro apertou de novo as esporas ao possante murzello.

Não tardou, porém, que o furor se lhe convertesse em tristeza, e que
as lagrymas, rebentando-lhe dos olhos, lhe apagassem a maldicção que
haviam murmurado os labios. O seu valente cavallo galgava na carreira
por cima de cadaveres e de moribundos, de christãos e de infiéis, e a
terra, convertida em bréjo de sangue, apenas soava debaixo dos pés do
ligeiro animal. Passando por meio dos esquadrões sarracenos, podia-se
dizer que o desconhecido se assemelhava ao anjo do Senhor, quando desce
por entre os mundos onde habitam os demonios, solitario e temido no
imperio dos filhos das trevas que o odeiam. A fama das suas façanhas
tinha-o cercado d'uma auréola de terror supersticioso, e, quando
passava, os guerreiros do deserto apontavam para elle e em voz sumida
diziam uns aos outros--«Ei-lo que vem! ei-lo, o cavalleiro negro!»

Mas, porque parou elle, soffreiando subitamente o ginete? Que ha ahi,
nessa extensa seara ceifada de homens de guerra, que possa attrahir os
olhos do mais incansavel dos segadores? No sitio em que parou estava,
poucas horas antes, hasteiada a signa real: era o centro da hoste goda;
mas dos que ahi pelejavam, uns lá vão ao longe precipitar-se no abysmo
da ignominia; outros, os mais felizes, adormeceram do seu ultimo somno
no regaço da patria. O guerreiro fitou os olhos no chão: a fouce da
morte, passando por alli, cerceiara a derradeira esperança do imperio
de Theoderik. O espectaculo que se lhe antolhava era a explicação do
terror que se apossara de tantos homens valentes. Fugiam: Ruderico,
porém, estava ahi! mas retalhado de golpes; mas sem vida! Já não sería
debaixo de seus pés que o throno da Hespanha se desfaria aos golpes do
machado dos arabes. Um sceptro sem dono em Toletum e mais um cadaver
juncto ás margens do Chryssus, eis o que restava do ultimo rei dos
godos! Com a sua morte fenecera ao redor delle a esperança, e com a
esperança dera em terra o esforço dos animos mais robustos. As alas
ignoravam este triste acontecimento e por isso pelejavam ainda.

Mas pouco tardou a ser geral a róta; porque pouco tardou a espalhar-se
aquella nova fatal. Um dia bastara para anniquilar o imperio que
durante quatro seculos fora o mais poderoso e civilisado entre as
nações germanicas estabelecidas nas diversas provincias romanas. A
corrupção dos ultimos tempos concluira a sua obra, e o edificio da
monarchia gothica, ainda rico de magestade exterior, mostrara, emfim,
desconjunctando-se e desabando, o ferver dos vermes que interiormente
o roíam. A cruz, derribada com elle, só devia tornar a hasteiar-se
triumphante em todos os angulos da Hespanha depois do combater de oito
seculos.

Uma parte do exercito godo ainda podera salvar-se atravessando o rio;
mas as pontes lançadas na vespera tinham por fim estalado, derivando
pela corrente, debaixo do peso dos fugitivos, e as aguas devoravam
muitos que o ferro havia poupado. Theodemiro, que não perdera o animo
no meio daquella desventura, alcançara fazer passar á margem opposta
as reliquias dos soldados da Betica e os restos de muitas tiuphadias
de outras provincias. Nos arraiaes, os arabes, senhores do campo,
saudavam a victoria com o som dos instrumentos barbaros e com clamores
de alegria que íam sussurrar ao longe pelos valles e campos, desertos
dos seus moradores. Um homem só combatia ainda daquelle lado á beira
do rio. Era o cavalleiro negro. Cercavam-no muitos sarracenos, mas de
longe, porque os que ousavam approximar-se delle cahiam a seus pés
moribundos. Ás vezes, como que tentava romper por entre os inimigos,
mas era tentar o impossivel. No volver dos olhos inquietos para um
e para outro lado, parecia buscar descubrir alguma cousa naquelle
vasto campo, onde só descortinava os cadaveres dos vencidos e os
vultos ferozes dos vencedores. Por fim, voltando o rosto para a margem
opposta, viu fluctuar sobre uma eminencia o pendão de Theodemiro.
Uma expressão fugitiva de contentamento lhe assomou então ao gesto.
Despedindo das mãos a borda ensanguentada, que sibilou por meio dos
arabes apinhados em volta, o guerreiro arrojou-se á torrente. Á luz
do sol que se punha, viu-se-lhe umas poucas de vezes reluzir o elmo,
alongando-se pela superficie das aguas e desapparecendo por largos
espaços. As trevas, que já desciam densas, e a impetuosidade da
corrente que o arrastava não permittiram prever-se qual sería a sua
sorte. Eurico era a ultima e tenuissima esperança que bruxuleiava nos
horisontes do imperio godo: como uma estrella cadente que se immerge
nos mares, aquelle esforço brilhante se desvanecera na escuridão que
tingia as aguas do Chryssus!



XII

O MOSTEIRO


     Se a todos se convertessem todos os membros em linguas, ainda
     assim não caberia nas forças humanas o narrar as ruinas d'Hespanha
     e os seus tão diversos e multiplicados males.

                                         Isidoro de Béja: _Chronicon_.


O mosteiro da Virgem Dolorosa estava situado n'uma encosta, no topo
da extrema ramificação oriental das que a dilatada cordilheira dos
Nervasios estende para o lado dos Campos-gothicos. A pouca distancia
do valle onde se viam as ruinas de Augustobriga, caminho de Legio,
no meio de uma solidão profunda aquella silenciosa morada de virgens
innocentes achava-se convertida em praça de guerra. Edificio sumptuoso,
construido no tempo de Rekkáred, as suas grossas muralhas de marmore
pareciam, na verdade, quadrellas de castello roqueiro; porque na
architectura dos godos a elegancia romana era modificada pela solidez
excessiva do edificar germanico ou saxonio, que os rudes wisigodos
do tempo de Theoderik e de Ataulph haviam introduzido no meio-dia
da Europa. Os restos dispersos das tiuphadias da Gallecia tinham-se
encerrado em todas as povoações e logares fortificados ou por qualquer
modo defensaveis, e os habitantes dos povoados, acolhendo-se ahi com
elles, deixavam desertas as suas moradas, incertos do dia em que
veriam reluzir ao longe as lanças dos agarenos, que já devastavam
o norte da Lusitania e parecia encaminharem-se para o lado de
Tude. Os muros fortissimos daquelle vasto edificio, as suas portas
tecidas de ferro e carvalho, as estreitas frestas, que apenas lhe
deixavam penetrar no interior uma luz duvidosa, os tectos ameiados
e, finalmente, os fossos profundos que o circumdavam, tudo o tornava
acommodado para larga defensão. Com algumas decanias de veteranos
que no meio do terror podera ajunctar, o quingentario Atanagildo se
havia acolhido ahi, e com elle um grande numero dos mais abastados
habitantes d'aquelles contornos. Protegido pela vizinhança das serras
das Asturias, ainda livres, Atanagildo cria que o mosteiro fortificado
sería sempre inexpugnavel barreira contra a violencia e cubiça dos
arabes. Entretidos em submetter e pôr a sacco as opulentas cidades do
meio-dia, contentes com as veigas feracissimas da Betica, da Lusitania
e da Carthaginense e com o sol quasi africano que as aquecia, que
viriam elles buscar nas brenhas intractaveis e frias da Gallecia e
da Cantabria? Sería, apenas, algum troço dos inquietos e selvagens
bereberes, os que se derramavam por estas partes; mas, contra esses,
eram de sobra os tiros de catapulta arrojados das torres do mosteiro
e as cateias e frechas despedidas d'entre as ameias que lhe cingiam
a fronte, como a coroa de um rei gigante, e que não podiam ser
derribadas pelos mangoaes brutescos, unicas armas dos broncos e seminús
montanheses do Atlas.

No centro do immenso edificio erguia-se o templo monastico; peça
quadrangular, construida de grossos cantos de marmore, arrancado
das pedreiras inexgotaveis que se estendem desde os Nervasios até
as cercanias de Legio. No exterior do templo, do meio d'um vasto
pateo que o rodeiava, viam-se negrejar na sua cincta de estreitas
cellas as vestiduras severas das monjas, cuja oração contínua, quer
em commum no sanctuario, quer na solidão das suas breves moradas, só
era interrompida por somno curto, dormido sobre a dura enxerga da
penitencia. Esta parte do mosteiro era a que ellas unicamente occupavam
havia alguns dias. Os seus claustros pacificos e saudosos, onde nunca
soara o ruido tormentoso da vida, onde nunca as dolorosas realidades
do mundo haviam penetrado, salvo nos sonhos passageiros e dourados de
algum coração mais ardente, restrugiam com o bater das armas, com o
amontoar das provisões, com o carpir dos que abandonavam seus lares,
com a violenta e brutal linguagem da soldadesca. No meio daquella vasta
mole de marmore, em que os sons discordes reboavam, ecchoando soturnos
nas arcadas e corredores profundos, o templo, aonde se acolhera a
quietação monastica, era como um oasis frondoso e abrigado por seus
palmares no meio do deserto que o sopro infernal do simûm revolve,
fazendo redemoinhar nos ares aquelle oceano de areia fervente.

Era ao anoitecer de um dia de novembro. Por entre o nevoeiro cerrado
que, alevantando-se do valle vizinho, trepava pela encosta, deixando
apenas livres as negras agulhas dos cerros, lá no viso da montanha,
divisavam-se a custo as ameias e muralhas á luz baça do crepusculo,
refrangido em céu pardo e humido. A brisa morna de oeste gemia nos
troncos dos castanheiros nús, nas ramas esguias dos pinheiros bravos,
e as passadas monotonas dos vigias ao longo dos adarves formavam um
concerto accorde com o aspecto melancholico do céu e da terra.

A esta hora duvidosa entre a claridade e as trevas, uma numerosa
cavalgada atravessava o ribeiro no fundo do valle e encaminhava-se
para o mosteiro da Virgem Dolorosa. Dez cavalleiros, cujas barbas
alvas lhes cahiam sobre o peito, saíndo por baixo das redes de ferro
que lhes serviam de gorjal, rodeiavam uma dama, cujo rosto occultava o
comprido véu que, pendente do retíolo, lhe descia sobre o alvo amiculo,
mas cujos meneios airosos e talhe esbelto revelavam nella o viço e as
graças da idade juvenil. Seguiam-na alguns pagens desarmados, cujos
rostos imberbes já o temor e o desalento que se pintavam em todos os
semblantes nesta epocha desastrada haviam sulcado de rugas. Vadiado
o rio, a cavalgada encaminhou-se por uma senda tortuosa que ía dar á
entrada do mosteiro, aonde, ao que parecia, desejavam chegar antes
que de todo se fechasse a noite. Ao approximar-se aquella comitiva,
os vigias conheceram que eram godos--provavelmente alguns desgraçados
que vinham buscar o abrigo dos seus muros fortificados--, e as grossas
portas não tardaram a abrir-se para recolherem mais esses pobres
fugitivos.

Apenas os recem-chegados, atravessando o atrio do fundo portal, saíram
á cerca interior, o que parecia mais auctorisado entre os velhos
cavalleiros pediu para falar a sós com Atanagildo. Levado o ancião
á torre onde o quingentario habitava, não tardou este em descer á
cerca, no meio da qual, ainda a cavallo e sem erguer o véu, a dama
desconhecida esperava rodeiada dos seus. Com todos os signaes de
respeito, Atanagildo dirigiu-lhe algumas palavras em voz submissa
e, tomando a redea do palafrem, guiou-o para uma porta contígua ao
frontispicio da igreja. A um signal seu a porta abriu-se, e um vulto
negro de monja appareceu no limiar della.

O quingentario, tomando pela mão a desconhecida e apresentando-a á
monja, disse-lhe:

«Veneravel Chrimhilde, acolhei entre as puras virgens que vos obedecem
uma das mais nobres donzellas d'Hespanha: é por uma noite, apenas, que
ella vos pede abrigo: ámanhan ao romper d'alva partirá para Legio.»

«Ámanhan ou depois, que importa?--replicou a monja, cujo semblante
austero descubria não tanto a decadencia dos annos, como os vestigios
da penitencia:--emquanto Chrimhilde reger o mosteiro da Virgem
Dolorosa, nunca a hospitalidade será refusada nelle ao que a implorar.
E quando a virtude de nobre donzella tiver um fiador tal como vós, esta
achará sempre em mim o carinho de mãe e nas escolhidas do Senhor, que
me alevantaram do meu nada ao tremendo ministerio de sua abbadessa,
encontrará o amor e o gasalhado d'irmans para com irman querida.»

Dizendo isto, a boa abbadessa tomou pela mão a desconhecida e,
internando-se com ella pelas arcadas que diziam para o interior do
edificio, allumiadas escaçamente pelas lampadas turvas que d'espaço
a espaço pendiam das abobadas achatadas, desappareceu aos olhos de
Atanagildo.

A noite vai no seu fim: a campa do mosteiro dá o signal do terceiro
nocturno. Subitamente, o sanctuario illumina-se, e os vidros multicores
jorram nas trevas externas a claridade dos candelabros e tochas, como,
de dia, deixam transudar a luz do sol no ambito interior da igreja;
ésto perpetuo de resplendores, que ora descem do céu para a terra, ora
tentam, subindo da terra para as alturas, desfazer o manto das trevas.
N'uma extensa fileira, a cuja frente vem a veneravel Chrimhilde, as
monjas entram no coro e, tomando para um e outro lado, param voltadas
para o altar. Juncto da abbadessa uma donzella de trajos brancos
sobresái entre as monjas vestidas de negro, não tanto pela alvura das
roupas, como pela formosura: e todavia, são formosas muitas das virgens
que a rodeiam, pela maior parte ainda no viço da vida. É a nobre dama
recem-chegada, á qual nem o cansaço de trabalhosa jornada, nem o habito
dos commodos do mundo poderam impedir acompanhasse na oração aquellas
que o tracto de poucas horas já lhe fazia amar como irmans. Chrimhilde
prostra-se com a face no chão: as monjas e a dama vestida de branco
seguem o seu exemplo. Através desses labios innocentes que beijam
o pavimento do templo murmuram durante alguns instantes as orações
submissas. Depois, a abbadessa ergue-se, e pouco a pouco aquelles
semblantes, que cobre uma pallidez d'ineffavel repouso e brandura,
vão-se alevantando da terra, com os olhos voltados para o céu,
semelhantes aos de anjos de marmore ajoelhados em roda de um tumulo,
que surgissem pouco a pouco animados por vida repentina e, cheios de
saudade da morada celeste, enviassem aos pés do Senhor o seu primeiro
suspiro. Então a psalmista começa a entoar um dos hymnos sacros do
Presbytero de Carteia que havia pouco se tinham introduzido no ritual
gothico, e as demais monjas respondem em córos alternos. O hymno dizia
assim:

«As azas da tua providencia, oh Senhor, despregam-se por cima da terra,
e o justo desgraçado acolhe-se debaixo dellas:»

«Porque ahi moram os sanctos contentamentos; esquecem as dores da vida;
vive-se á luz da esperança.»

«Confiado em ti, o fraco affronta as tyrannias do forte; o humilde ri
das suberbas do poderoso.»

«Quem revelou aos pequeninos e oppressos esta divina guarida? Quem nos
ensinou a esperar? Quem a ser felizes pela fé no meio das agonias?»

«Foi Christo, o teu filho querido. A tua justiça condemnava á dor o
genero-humano, ainda no berço: elle nos conquistou para a felicidade no
meio dos tormentos da cruz.»

«Nós tomaremos, tambem, esta em nossos hombros: ella é a guia da
bemaventurança.»

«O seu peso é suave; porque sob ella os espinhos da existencia que
ensanguentam os membros do peregrino sem repouso, chamado o homem,
convertem-se em prado macio de relva e boninas.»

«Que reine para sempre a cruz!»

«Erguei-a sobre todos os pincaros das serranias, gravae-a em todas as
arvores dos bosques, hasteae-a sobre as rochas maritimas, estampae-a
nas muralhas das cidades, na fronte dos edificios, apertae-a ao
coração.»

«E depois, que o genero-humano se prostre e adore nella a redempção que
nos trouxe o Ungido de Deus.»

«A cruz triumphará eterna!»

Neste momento aquellas vozes harmoniosas cessaram, como se de subito
nos labios de todas as monjas se houvesse posto o sello da morte. A
porta do templo, aberta com violento impulso, rangera nos gonzos, e
um velho ostiario viera cahir de bruços sobre as lageas do pavimento,
soltando o grito doloroso que por tantos milhares de bocas diariamente
se repetia na Hespanha:--Os arabes!

As vozes confusas dos vigias, misturadas com o tinir do ferro,
responderam, como um uivar de feras, ás palavras do ostiario: as faces
pallidas das virgens empallideceram ainda mais.

A alvorada começava a repintar na terra a claridade do sol, escondido
ainda no oriente. Os godos com as armas nas mãos coroavam as ameias.
Do alto de uma das torres Atanagildo observava a campanha, e a fronte
entenebrecia-se-lhe com um véu de tristeza.

Naquella noite muitos nobres senhores de terras tinham chegado ao
mosteiro, vindos da banda de Legio. Um numeroso exercito d'arabes
apparecera subitamente na vespera juncto aos muros da cidade, que logo
fora acommettida pelos pagãos. Era o que sabiam. Fugitivos desde o
apparecimento dos inimigos, ao anoitecer haviam enxergado para aquella
parte um clarão grande e duradouro. Se eram as fogueiras dos arraiaes
arabes, se o incendio de Legio, não o podiam resolver; só, sim, que
sería impossivel resistir por largo tempo cidade tão mal defendida a
tamanha copia d'infiéis, que não tardariam a derramar-se para o lado do
mosteiro, proseguindo nas suas devastadoras conquistas pela Gallecia e
pela Tarraconense.

Era esta negra prophecia dos fugitivos que se tinha verificado ao
romper da manhan. Atanagildo, do alto da torre principal, vira ao longe
um vulto negro que descia dos outeiros, onde já allumiava tudo a luz
matutina. Esse vulto assemelhava-se a serpe monstruosa que, rolando-se
do monte para a planicie em collos tortuosos, se lhe reflectissem nas
duras conchas os raios solares; porque naquelle corpo gigante havia um
contínuo e rapido scintillar. Atanagildo percebera o que era, e por
isso a tristeza lhe obscurecia a fronte.

Como a faisca electrica, o terror se espalhara no mosteiro apenas se
dissera que os arabes se approximavam. Mais de um coração de guerreiro
batia apressado, como o do pobre ostiario que buscara na piedade de
Deus o amparo que mal podia esperar das muralhas do forte edificio;
do pobre ostiario, que, sem o saber, fora desmentir o hymno triumphal
da cruz, diariamente derribada dos altares nos templos profanados da
Hespanha.

Dentro em breve, o exercito do Islam se approximara a tão curta
distancia que facilmente se distinguiam os esquadrões dos filhos do
deserto e as turmas dos berebéres. Tambem os arabes tinham observado o
reluzir das armas através das ameias do mosteiro. A hoste inteira parou
no valle, e alguns cavalleiros encaminharam-se pela senda tortuosa que
findava na ponte levadiça contigua ao grande portal, erguida desde que
pelos fugitivos constara que os mosselemanos se avizinhavam.

Quando o quingentario conheceu que os arabes paravam no fundo do valle,
o seu coração generoso verteu sangue com a lembrança de que todo o
esforço dos soldados que coroavam os adarves do mosteiro, por muito que
houvera sido, não fora bastante para salvar os desgraçados que tinham
buscado abrigo á sombra daquellas muralhas. Viu o desalento pintado nos
semblantes dos mais valorosos, e a ultima esperança varreu-se-lhe da
alma. Todavia, esperou com rosto seguro a chegada dos cavalleiros que
subiam a encosta.

Estes approximaram-se, emfim. Pelo seu aspecto e trajo via-se que na
maior parte eram godos. Com as espadas nas bainhas, pareciam vir em som
de paz: tambem, por isso, nem uma frecha só se disparou contra elles
dos muros.

Pouco antes de chegarem ao fosso profundo que circumdava o edificio,
um cavalleiro que parecia o principal daquelle pequeno esquadrão,
adiantando-se aos demais, veio topar com a entrada da ponte e, olhando
para as muralhas, onde reluziam immoveis as lanças dos christãos,
chamou:--«Atanagildo!»

Ao ouvir aquella voz, o quingentario empallideceu: com visivel
anciedade, voltou-se para um centenario que estava juncto delle e
disse-lhe:

«Mandae descer a ponte e dae passagem franca a esse cavalleiro que
proferiu o meu nome: mas a elle, unicamente a elle!»

O centenario obedeceu. D'ahi a pouco as armas do guerreiro tiniam
pelas escadas da torre. Apenas subiu ao terrado, encaminhou-se para
Atanagildo e, estendendo-lhe a dextra, exclamou:--«Meu irmão!»

O quingentario, em cujas faces pallidas passara um relampago de
vermelhidão, recuou e, com voz affogada, respondeu:

«Atanagildo teve um irmão; mas esse morreu para elle: porque entre
elle e Suintila está a cruz quebrada aos pés dos pagãos; está o céu
e o inferno. A minha herança é a ignominia do vencimento, os ferros
d'escravo e as promessas do Christo: a tua as riquezas, a victoria e a
maldicção de Deus. Não tróco os nossos destinos, nem quero a amizade
do precíto. Arrepende-te, abandona os infiéis, e então Atanagildo te
apertará ao peito e te dará aquelle nome tão suave da nossa infancia, o
sancto nome de irmão.»

«Estás louco!--replicou Suintila--...Porém, não foi para disputar
comtigo que vim aqui: vim para te salvar. Olha para o valle: áquella
hoste numerosa que lá vês poucas horas poderão resistir estes muros mal
guarnecidos, Abdulaziz, o invencivel filho do amir d'Africa, é quem
a capitaneia: Legio cahiu hontem em nosso poder, e de parte nenhuma
podes ser soccorrido. O bispo d'Hispalis e o conde de Septum, que vem
comnosco, offerecem-te o mando de um dos seus esquadrões. Os arabes
pedem aos godos que os seguem fidelidade ao estandarte do kalifa, não
á crença do Islam: pódes guardar tua fé. Eis o que Suintila alcançou
a teu favor. Estas velhas muralhas e as donzellas encerradas nestes
claustros, que Abdulaziz soube serem pela maior parte formosas e que
elle destina para enviar a Kairwan, são o vil preço da tua salvação.
Suintila aconselha-te que o entregues; porque, apesar das injurias,
ainda se não esqueceu de que é irmão de Atanagildo. Resolve e responde:
que devo dizer a Juliano e a Oppas, a quem suppliquei para ser mandado
aqui?»

«Dize-lhes--atalhou o quingentario, cujos olhos faiscavam
d'indignação--que eu respeito a vida de um aráuto, ainda quando este é
um miseravel renegado, como tu ou como elles, aliás não fora Suintila
quem lhe levaria minha resposta. Dize-lhes que as suas infames offertas
são para mim tão abominaveis como elles. Dize-lhes que, antes de um
sacerdote sacrilego e de um conde traidor poderem estampar o ferrête
da prostituição na fronte das innocentes virgens do Senhor, terão de
passar por cima das ruinas destes muros e dos cadaveres dos seus e dos
meus soldados. E tu, renegado, sae d'aqui! Possa eu nunca mais vêr-te o
rosto e esquecer-me na hora de morrer de que nessas veias gyra o sangue
de nossos nobres e generosos avós.»

«Como te aprouver, meu irmão!»--replicou Suintila, e um sorriso lhe
deslisou nos labios, descorados por mal disfarçada colera. Proferidas
estas palavras, desceu as escadas da torre.

A cavalgada, que lenta subira a encosta, descia-a rapidamente
emquanto Atanagildo, visitando os muros, exhortava os guerreiros da
cruz a pelejarem esforçadamente. Quando estes souberam quaes eram as
intenções dos arabes ácerca das virgens do mosteiro, a atrocidade do
sacrilegio affugentou-lhes dos corações a menor sombra d'hesitação.
Sobre as espadas juraram todos combater e morrer como godos. Então
o quingentario, a quem parecia animar sobrenatural ousadia, correu
ao templo. Era necessario que as monjas soubessem qual futuro as
aguardava. Resignado a acabar defendendo-as, Atanagildo nem por isso
esperava salvá-las das mãos dos agarenos. Dolorosa era a nova; mas
cumpria não lhes esconder o seu horrivel destino.

As mulheres e os velhos que tinham vindo buscar asylo no mosteiro
enchiam já o templo, em cujas abobadas murmuravam e repercutiam
os gemidos e as preces. Rompendo pela multidão, o quingentario
encaminhou-se para o coro e chamou por Chrimhilde, que com as
monjas acompanhava o povo nas suas orações fervorosas. A abbadessa
aproximou-se das reixas douradas que a separavam do guerreiro.

«Chrimhilde,--disse Atanagildo em voz baixa--é necessario valor! Dentro
de poucas horas sobre os muros do mosteiro da Virgem Dolorosa estará
hasteiado o pendão dos infiéis, e eu terei deixado d'existir, porque
jurei sobre a cruz desta espada ficar sepultado debaixo das ruinas
delle. O exercito dos arabes é irresistivel, e a unica esperança que
me resta é que o Senhor acceitará o meu sangue, derramado em seu nome,
como um testemunho da minha fé.»

«Os infiéis--acudiu a abbadessa, procurando dar ás palavras
que proferia um tom de firmeza que o tremulo da voz lhe
desmentia--contentar-se-hão, talvez, com as riquezas aqui amontoadas
imprudentemente e com a posse destes logares. Se é isto o que
pretendem, saiamos e cedamos ao culto impio de Mohammed o templo do
Deus vivo, já que para o salvar sería inutil todo o sangue que se
vertesse. Com as virgens esposas do Senhor buscarei os ermos das
serras do norte, e, como as monjas primitivas, ahi acharemos a paz e
o repouso, emquanto o pae celestial nos não chama á nossa verdadeira
patria.»

«Prouvera a Deus, veneravel Chrimhilde--tornou o quingentario--que nos
fosse licito desamparar estes muros: deixar só entregues ás profanações
dos infiéis a pedra e o cimento! Mas uma atroz mensagem acaba de me ser
mandada por quem, como eu, devia horrorisar-se della. Repelli-a, porque
se me offereciam vida e honras a troco de perpetua infamia. Agora
resta-me unicamente o morrer como godo e como soldado da cruz.»

«E qual era essa mensagem?--perguntou a abbadessa anciosamente.--Em
nome de quem vinha ella?»

«Do bispo d'Hispalis e do conde de Septum; de um sacerdote e de um
nobre. O preço da nossa liberdade era a prostituição das vossas
filhas queridas, das monjas consagradas á Virgem Dolorosa, que esses
malaventurados destinam para saciar as paixões brutas daquelles a quem
venderam a terra d'Hespanha. Para o obter cumpre-lhes, porém, passar
por cima dos membros despedaçados dos guerreiros que povoam estas
muralhas. Pela cruz assim o jurámos todos. Havemos de cumpri-lo.»

As palavras de Atanagildo vibraram no coração de Chrimhilde, como vibra
o primeiro dobre pelo finado que ainda jaz em seu leito da derradeira
agonia na alma do bom filho, que resa, chorando, ajoelhado ao pé delle.
Recuou atterrada e, volvendo para o céu os olhos enxutos, porque a
afflicção nelles estancara as lagrymas que despontavam, ficou por
alguns momentos com as mãos erguidas, como implorando uma inspiração
de cima. Pouco a pouco, porém, as suas faces tingiram-se da cor da
vida, o sorriso da esperança rodeiou-lhe os labios, e as lagrymas,
consolo supremo das maiores magoas e, tambem, expressão eloquente dos
contentamentos mais intimos, lhe rebentaram com força e lhe orvalharam
a negra estamenha do habito.

«O martyrio! o martyrio!--murmurou a abbadessa.--Oh Christo! bemdicto
seja o teu nome.»

«O martyrio, sim:--interrompeu o quingentario--mas depois do
sacrilegio; mas depois que as victimas da corrupção dos traidores
tiverem sido arrastadas para longe da Hespanha e depois que nos harems
do oriente houverem sido polluidas pela sensualidade brutal dos
conquistadores. Eu, ao menos, não verei esta ultima offensa á crença
sacrosancta de nossos paes...»

«Ide:--proseguiu a abbadessa, que parecia não o haver escutado,
embebida em meditação profunda:--Quando os infiéis se approximarem,
enviae-lhes mensageiros de paz. Que vos deixem acolher ás montanhas com
essa multidão d'infelizes que vieram buscar o abrigo destes muros. Não
cureis das monjas da Virgem Dolorosa, nem receieis por ellas. Achei um
meio para as salvar da sorte medonha que as ameaça. Desamparae-nos;
porque o archanjo do esforço é o nosso defensor. O meu arbitrio será
acceito pelas escolhidas do Christo; sê-lo-ha, porque o Senhor m'o
inspirou. Nada mais é preciso dizer-vos.»

E, de feito, o seu olhar e gesto eram de uma inspirada: mas nesse olhar
e gesto havia o que quer que era de severa aspereza misturado com
alegria suave, como em céu que varre o noroeste as nuvens tenebrosas
remendam o azul purissimo do firmamento, d'onde, através dellas, jorram
torrentes de luz.

«Mas o juramento?--tornou tristemente o quingentario.--Devo respeitar o
vosso segredo; todavia parece-me licito duvidar da efficacia dos meios
que imaginaes para vos salvardes das mãos dos mosselemanos.»

«O vosso juramento é inutil--acudiu Chrimhilde--e eu vos escuso delle.
A resistencia só servirá para arrastardes comvosco á morte os velhos
inermes e as criancinhas innocentes. Ide e abri pacificamente as portas
aos pagãos. Se tanto é preciso, eu vo-lo ordeno. Atanagildo, um dia nos
veremos no céu.»

Dictas estas palavras com toda a firmeza de uma resolução inabalavel,
a abbadessa affastou-se da reixa e encaminhou-se para o meio das
freiras, que, entretanto, haviam estado immoveis com os olhos cravados
no pavimento. O quingentario ficou por alguns momentos pensativo:
depois, agitado pela lucta cruel dos affectos e pensamentos oppostos
que tumultuavam no seu coração, atravessou vagarosamente o templo e
desappareceu.

A um signal de Chrimhilde as monjas saíram do coro; a donzella vestida
de branco, ao lado da veneravel abbadessa, apertava-lhe a mão entre as
suas; mas os seus meneios eram firmes como os della e mais do que os
della altivos. Desde que a ultima freira passou, as préces misturadas
de soluços que sussurravam na egreja converteram-se n'um som unico de
chôro perdido, como se a ultima esperança houvera desapparecido com
ellas.

A campa do mosteiro bateu tres pancadas com largos intervallos: é o
signal que convoca as monjas a capitulo. Para lá se encaminham. A
donzella que nessa noite chegara acompanha-as, tambem, ahi. Entraram.
As pesadas portas da casa capitular rangem nos gonzos cerrando-se,
e o correr dos ferrolhos interiores reboa ao longe pelos corredores
monasticos. Ao mesmo tempo a ponte levadiça cai sobre o fosso que
rodeia as muralhas do vasto edificio; um cavalleiro se arroja sózinho
ao meio dos esquadrões do Islam, que já subiram a encosta, e pede para
falar com o conde de Septum em nome de Atanagildo. Dentro de poucos
instantes ei-lo que volta, e os mosselemanos param a curta distancia.
Então um grande numero de crianças, de velhos e de mulheres, saíndo,
como torrente comprimida, do portal profundo do mosteiro, atravessam
por meio de duas fileiras de soldados de Juliano e de guerreiros arabes
que vieram collocar-se aos lados da ponte. Esta multidão desordenada
ondeia, separa-se, apinha-se de novo, para tornar a espalhar-se, até
que desapparece ao longe, caminho das montanhas. Após ella, cubertos
dos seus saios de malha, mas sem armas, os soldados de Atanagildo
seguem com rosto melancholico as mesmas trilhas por onde se vai
escoando a turba, até que, tambem como esta, se derramam pelas selvas
densas dos montes e pelos barrancos escarpados que, retalhando os
Nervasios, dão passagem através delles para as regiões septemtrionaes
da Hespanha.

Apenas o quingentario, que fora o derradeiro a atravessar a ponte
levadiça, volvendo ainda os olhos arrasados de lagrymas para aquella
sancta morada, desceu a encosta, as duas fileiras de soldados
arremessaram-se ao fundo portal, cujas abobadas pela primeira vez
reboaram com os gritos discordes de homens desenfreiados, e o edificio
solitario respondeu-lhes com um silencio lugubre. Diante delles estavam
patentes as vastas arcarias e escadas, os longos corredores, os pateos
espaçosos. Lá, no centro, o templo solitario, com as portas abertas de
par em par, amostra-lhes aos olhos ávidos as suas riquezas, ao passo
que parece querer vedar ao sol, com as cores sombrias das vidraças
das janellas, o espectaculo das profanações de que na sua existencia
secular vai ser theatro e testemunha pela primeira vez.

Como o tufão, rugindo, se abysma nas galerias tortuosas de mina
extensa, assim os godos renegados e os mosselemanos, que os seguem de
perto, se precipitam dentro do mosteiro. Pelas arcadas e corredores,
pelas salas e aposentos ouve-se o rir e falar desentoado, o ruído de
passadas rapidas, o tinir das armas, o estourar das portas. Arabes,
mouros, soldados godos da Tingitania misturam-se, disputam, ameaçam-se,
dividindo o sacco. Os cheiks e os capitães do conde de Septum
vedam-lhes unicamente a entrada das habitações interiores, onde a
riqueza do templo lhes promette á cobiça mais avultada presa. Elles sós
se encaminham para essa parte e desapparecem nos claustros monasticos,
onde não se ouve outro signal de vivos, senão o som de seus pés e, a
espaços, o tinir das proprias armaduras, que roçam pelos pilares de
marmore.

Suintila, o deshonrado irmão do virtuoso Atanagildo, era do numero dos
capitães que haviam primeiramente penetrado no claustro solitario.
Tinha-se adiantado mais e descia por uma escadaria lobrega que
terminava, segundo parecia, n'uma quadra allumiada por muitas tochas.
Esta circumstancia, que lhe excitava viva curiosidade, o obrigou
a apertar o passo. A meia descida parou. Crera ouvir um cantico
entoado por muitas vozes accordes, que a espaços era interrompido por
gemidos dolorosos. Escutou: não se enganava! Então o terror começou
a apossar-se delle, e, porventura, teria retrocedido, se não sentira
que alguem mais o seguia. Eram dous cheiks arabes e um centenario do
conde de Septum que o acaso guiara para aquella parte. Interposto
entre o clarão avermelhado que saía do subterraneo e os tres que se
approximavam, Suintila fez-lhes signal de silencio e continuou a
descer mansamente, até chegar á porta que dava da escadaria para o
aposento illuminado. Então conheceu onde estava. Era um desses logares
mysteriosos e sanctos que a primitiva architectura religiosa construía
debaixo dos templos--templos tambem, mas da morte; porque ahi, sobre
os altares, repousavam as cinzas dos martyres, e aos pés delles os
fiéis que obtinham para ultima jazida uma pouca de terra onde ainda
fossem affagar-lhes as cinzas o sussurro longinquo das préces e o
perfume dos sacrificios.--Suintila achava-se na crypta do mosteiro da
Virgem Dolorosa. O clarão que vira era o de muitos lumes, accesos em
lampadarios gigantes, e reverberando nas stalactites penduradas das
juncturas do marmore: era o reflexo das tochas que ardiam diante dos
crucifixos, unicas imagens que se viam sobre as aras núas. Em cada um
dos tumulos das monjas antigas, enfileirados ao comprido dos muros,
negrejavam apenas uma data e um nome. Era o que restava para memoria
de muitas virtudes naquelles annaes do mosteiro, naquella chronologia
de pedra. O sepulchro da viuva d'Hermeneghild, o desgraçado irmão de
Rekkáred, elevado mais que os outros á entrada do templo subterraneo,
semelhava um throno de rainha em palacio de sombras, porque o ambiente
grosso e frio e o halito das sepulturas revelavam que ahi era o imperio
da morte.

As torrentes de luz que inundavam esta morada de terror não permittiram
a Suintila enxergar no primeiro volver de olhos os objectos que estavam
ante elle. Espantado, tentava descobrir no meio daquella resplandecente
solidão algum vulto humano, quando os cantos e gemidos, suspensos
momentaneamente, romperam de novo: primeiro as vozes harmoniosas;
depois o gemido íntimo, doloroso, affogado; logo outra vez o silencio.

Os dous cheiks e o centenario tinham chegado ao pé de Suintila.
Animados uns pela presença dos outros, encaminham-se para o grande
tumulo e d'alli olham para o logar d'onde haviam soado os canticos. Eis
o temeroso espectaculo que têem diante de si:

Grossos e altos cancellos de roble separam do resto do templo um
extenso recincto sem sepulchros, immediato ao altar principal: uma cruz
agigantada se ergue no topo: por um e outro lado daquelle espaço além
das grades negrejam duas fileiras de monjas: muitas estão de joelhos
e debruçadas sobre o primeiro degrau do altar: em pé, entre as duas
fileiras, uma dellas, cujos olhos desvairados reluzem á claridade das
tochas e cujo aspecto severo infunde uma especie de terror, tem na mão
um punhal, cujo ferro sem brilho parece tincto em sangue. Juncto da
monja um vulto de mulher vestida de branco sobresáe no meio das virgens
cubertas de lucto: unido ás grades que defendem a entrada daquelle
recincto, um velho, cujas melenas e longa barba lhe alvejam sobre os
hombros e peito, está de joelhos com os braços estendidos através da
balaustrada: agita-o uma convulsão horrivel de pavor, que lh'embarga
na garganta os sons articulados e só lhe consente murmurar um ruído
confuso, semelhante ao respiro ancioso de agonisante. Um dos dous
córos de freiras começa a entoar de novo os psalmos: a monja do punhal
estende a mão, ordenando silencio. Vai falar. Suintila, a ponto de
arremessar-se para aquelle lado, pára e escuta as suas palavras. São
lentas e lugubres, como as de um espectro, que se alevantasse d'alguma
das campas derramadas ao longo da crypta. Dirige-as ao vulto branco que
está a seu lado:

«Ainda uma vez, nobre dama, attendei ás supplicas do velho buccellario
que tenta salvar-vos. Para vós ha esperança na terra: a nossa mora
no céu. Quando os infiéis souberem que ainda existe na Hespanha quem
possa quebrar com ouro o vosso captiveiro ou vingar com ferro a vossa
affronta, respeitarão a pureza de nobre virgem. A nós, que não temos
ninguem no mundo, restava-nos unicamente o tremendo arbitrio que o
Senhor nos inspirou. O martyrio não tardará a cingir-nos a fronte d'uma
aureola de gloria: os anjos de Deus nos esperam.»

«A minha ultima resolução, veneravel Chrimhilde, é acabar juncto de
vós e de nossas irmans. O meu animo saírá, como o dellas, illeso da
ultima prova que o Christo nos pede na vida. Como ellas, darei sem
hesitar testemunho da cruz. O velho buccellario de meu pae mente á
propria consciencia quando affirma que os infiéis respeitarão a pureza
de uma donzella goda: a infamia tem sido escripta por elles na fronte
das familias mais illustres da Hespanha: o cutello ou a prostituição é
o que os arabes offerecem á innocencia. Eu escolho o cutello: a morte
val mais que a deshonra. Porventura, para a evitar me guiou o Senhor ao
mosteiro da Virgem Dolorosa.»

Seja feita a vontade do Altissimo:--respondeu a abbadessa alevantando
ao céu as mãos, entre as quaes apertava o punhal.

Depois de um momento de silencio, Chrimhilde disse, voltando-se para o
lado esquerdo: «Hermentruda, approximae-vos!»

Uma das monjas saiu d'entre as outras e veio ajoelhar aos pés da
abbadessa; as suas companheiras ajoelharam tambem voltadas para o
altar; e o hymno que Suintila ouvira ao descer para a crypta murmurou
de novo naquellas curvas abobadas.

Como lá no horisonte o sol tremulo e sereno se reclina ao fim da tarde
no seio tenebroso dos mares, assim o canto melancholico e melodioso
das virgens foi pouco a pouco enfraquecendo até expirar no cicío de
orações submissas. Apenas cessou de todo, um gemido de agonia agudo e
rapido soou juncto da abbadessa. Aos olhos de Suintila figurou-se que
o punhal de Chrimhilde descera duas vezes sobre a monja que estava a
seus pés. Um brado de colera e horror, saíndo involuntariamente da
bocca do godo, restrugiu pelo templo. Crera o renegado que Hermentruda
havia sido assassinada. Pareceu-lhe então claro o sentido das palavras
mysteriosas que ouvira. As monjas fugiam ao captiveiro do harem pelo
ádito do sepulchro. Elle assistia a uma scena horrenda de suicidio, e o
braço mais robusto de Chrimhilde apenas era o instrumento cego movido
por todas essas vontades, conformes para morrer.

«Mulher ou demonio, detem-te!--bradou Suintila, correndo com os cheiks
e o centenario para o recincto fechado e procurando abrir os fortes
cancellos que lh'embargavam os passos.

Embebidas no seu drama cruel, nem as monjas, nem Chrimhilde volvem
sequer os olhos para os quatro guerreiros, cujas armas reluzem ao
fulgor das tochas. Hermentruda não está morta. Ergueu-se. Tem a cabeça
descuberta, os louros cabellos esparzidos, o collo nú. Bem como o
aspecto do formoso archanjo de luz no dia em que, rebelde, a espada
de fogo lhe estampou na fronte a condemnação eterna, o seio e o rosto
da monja, suavemente pallidos, estão sulcados por betas escuras, que
serpeiam por aquelle gesto, como as viboras estiradas ao sol sobre um
busto grego tombado entre as ruinas de antigo templo pagão. É que,
semelhantes ao nordeste frio e agudo, que, passando pela bonina viçosa,
lhe desbarata os encantos, os fios do punhal de Chrimhilde correram
por lá violentos e rapidos, e n'um momento anniquilaram a formosura da
virgem.

As grades, fechadas interiormente, balouçam aos empuxões de Suintila;
mas não cedem. «Okba, diz o godo a um dos cheiks, correi! Chamae os
mais robustos zenetas e os negros de Takrur armados dessas achas a
cujo primeiro golpe nunca resistiu elmo de bronze. Prestes! chamae-os
aqui. Abdulaziz deve ter chegado. Que venha! Mulher infernal lhe vai
destruindo peça a peça os despojos mais ricos, os que elle destinava
para si e para o khalifa. Que venha salvá-los! Que venha! Prestes,
cheik de Hoara!»

E, emquanto o cheik galga a extensa escadaria os tres tentam muitas
vezes fazer estourar os grossos ferrolhos, que resistem ás suas
diligencias. Arquejando, Suintila abandona a tentativa inutil. Ameaça
Chrimhilde: as injurias acompanham as ameaças: seguem-nas as supplicas,
as promessas e logo, de novo, as pragas e as affrontas. Baldado é tudo.
Chrimhilde lançou ao renegado um olhar de compaixão e conservou-se em
silencio.

Mas os canticos cessaram de todo: as monjas saem successivamente de
ambos os lados e vem ajoelhar aos pés da abbadessa: vem despir as
galas da formosura e comprar á custa dellas a pureza da virgindade e
a palma do martyrio. Cada vez mais rapido range o punhal nos collos
purissimos das virgens do mosteiro. O gemido que expira, comprimido
pela constancia, já se prende com o que a dor e a fraqueza mulheril
arrancam do seio das victimas ao descer do primeiro golpe, e a fileira
das que se vão debruçar sobre os degráus do altar cresce d'instante a
instante, ao passo que rareiam as outras duas.

A terrivel sacerdotisa parou. Está o seu braço cansado de tão largo
sacrificio? Não! Braço e animo são robustos, porque os fortalece o
espirito do Senhor. É que o momento supremo da morte se approxima. A
mourisma jorra subitamente pelo portal estreito, como o rio caudal na
caverna que se lhe estendia debaixo do leito e cuja abobada fendeu
tremor de terra. Os guerreiros negros das tribus de Takrur, á voz de
Abdulaziz que os precede, precipitam-se contra os solidos cancellos do
logar vedado: vinte machados ferem a um tempo nas grades, que gemem
sob a furia dos golpes e mal resistem ás pancadas violentas dos negros
possantes, aos quaes redobra os brios a presença do amir, cuja colera
resfólega em maldicções e blasphemias.

Entre as monjas e os arabes bem curta distancia medeia: e todavia,
lá no mais pequeno recincto, onde soam os gemidos de dores atrozes,
onde só ri uma esperança, a da morte, ha paz íntima, ha o céu: aqui,
na vasta crypta, onde a ebriedade de facil triumpho, a riqueza dos
despojos, o futuro de uma larga existencia de gloria e deleites
sorriem na mente dos infiéis, está o furor insensato, está o inferno.
O evangelho e o koran estão frente a frente no resultado das suas
doutrinas. É sublime a victoria do livro do Nazareno!

Os golpes de machado redobram: os troncos affeiçoados do roble começam
a estourar nas suas juncturas. A ultima freira fora já curvar-se juncto
aos degráus do altar: a donzella vestida de branco vai ajoelhar aos pés
de Chrimhilde, exclamando:

«Para mim tambem o martyrio! Salvae-me do opprobrio!»

«A tua constancia, filha, na dura prova de agonia por que tens passado
te purificou. Sê uma das monjas da Virgem Dolorosa e vai com tuas
irmans receber a coroa de martyr.»

O ferro, porém, que descia sobre o collo da donzella foi cair com a mão
de Chrimhilde aos pés da cruz gigante do altar. Um revés do alfange de
Abdulaziz lh'a cerceiara: as solidas grades estavam despedaçadas.

A abbadessa vacillou e, ao cair, só pôde murmurar:--Jesus, recebe a
minha alma!

Foram as suas palavras extremas: um segundo golpe lhe atalhou na
garganta o derradeiro suspiro.

As freiras ergueram-se e encaminharam-se para o logar em que jazia o
cadaver destroncado da abbadessa. Ajoelharam juncto della, com a face
voltada para a turba dos infiéis. Os seus rostos, inchados e manando
sangue, eram disformes e horriveis.

«Ao menos, tu serás minha!--exclamou o amir, lançando a mão ao braço
da donzella vestida de branco, a quem o terror desta scena rapidissima
tornara immovel, como uma dessas estatuas que parecem orar sobre os
sepulchros nas cathedraes da idade-média.--Filhos valentes do Sudan,
conduzí-a á minha tenda. As outras, que as azas do anjo Azrael se
estendam sobre os seus cadaveres.»

D'ahi a poucas horas a crypta estava em silencio. As monjas da Virgem
Dolorosa jaziam degoladas em volta da veneravel Chrimhilde, e as suas
almas puras abrigavam-se no seio immenso de Deus.



XIII

COVADONGA


     Ao sopé daquelle monte um penhasco defendido pela natureza e não
     por arte, dilatando-se vasto, resguarda uma caverna inteiramente
     inexpugnavel para qualquer ardil d'inimigos.

                                   Monge de Silos: _Chronicon c._ 3.^o


A victoria do Chryssus assegurara aos arabes a conquista da Hespanha
inteira, porque o desalento entrara em todos os corações, e o terror
quebrara todos os brios. O duque de Cantabria, Pelagio, fora o unico em
cuja alma não morrera inteiramente a esperança. Errante pelos cerros
quasi inaccessiveis que se elevam no extremo oriental da Gallecia e
que, passando ao norte da Carthaginense, vão entroncar-se no vulto
gigante dos Pyrenéus, o mancebo não dobrara a cerviz ao fado cruel que
pesava sobre seus irmãos. Poucos o haviam seguido naquella vida quasi
selvagem; mas esses poucos eram homens a quem a aura da liberdade
parecia a unica atmosphera em que seus pulmões robustos poderiam
resfolegar; homens a cujos olhos as affrontas da cruz derribada do
cimo das cathedraes sería espectaculo incrivel e insupportavel. Uma
caverna servia de paço ao joven rei das montanhas e de templo ao
Crucificado. Os dominios de Pelagio eram as serranias e os valles
profundos onde, porventura, até então nunca soara a voz humana. O urso
ferocissimo, o javalí indomavel, a leve corça abasteciam a grosseira
mesa desses godos, a quem a desgraça e a vida dura das solidões fizera
mais féros, mais indomaveis e mais ligeiros do que elles. Ás vezes,
Pelagio e os seus soldados desciam das montanhas para largas correrias,
semelhantes á tempestade nocturna, e, como a tempestade, passavam pelas
tendas dos arabes ou pelas aldeias, despovoadas de christãos, onde os
infiéis começavam a fazer assento. Alta noite ouvia-se ahi um gemer de
moribundos, via-se o brilhar do incendio. Era o bulcão do deserto que
rugia por lá. Ao amanhecer tudo estava tranquillo; porque, bem como a
procella, Pelagio era repentino e destruidor e só escrevia na terra com
os caractéres sanguinolentos de ruinas e mortes a noticia da sua quasi
invisivel passagem.

Não assim Theodemiro. Depois da batalha, os restos das tiuphadias
desbaratadas haviam-no proclamado successor de Ruderico. Era de ferro
e espinhos a coroa que se lhe offerecia sobre a campa do imperio godo.
Acceitou-a; porque em acceitá-la havia mais abnegação que orgulho.
Emquanto Tarik, rendida Toletum, subjugava uma parte da Carthaginense,
Musa, o amir d'Africa, desembarcando nas costas da Hespanha com um
novo exercito, rendia Hispalis e, atravessando o Ana, submettia ao
jugo do khalifa todo o occidente da peninsula iberica. As reliquias
do exercito godo, que não haviam podido resistir a Tarik, muito menos
poderiam impedir a passagem do amir. Assim, Theodemiro, ajunctando
esses soldados dispersos, acolhera-se ás serranias d'Ilipula, na
extremidade oriental da Betica. Musa, porém, enviara contra elle seu
filho Abdulaziz, um dos mais famosos guerreiros do Islam. Apesar
da superioridade do exercito arabe, a lucta fora longa e terrivel.
Theodemiro succumbira por fim; mas, posto que vencido, o seu valor
obrigara os mosselemanos a concederem-lhe vantajosas condições de
paz. Os vastos dominios que ainda possuia foram-lhe conservados,
reconhecendo elle a supremacia do amir, e os godos poderam, ao menos
nesse canto da Betica, achar uma parte da segurança e repouso que
faltava no resto da Hespanha, onde o alfange da conquista assignalava
todas as frontes com o ferrete da servidão e reduzia a montões de
ruinas as cidades, nas quaes o espirito do christianismo e da liberdade
ousava reluctar contra o dominio do khalifa e contra a religião do
koran.

Theodemiro reinou largo tempo nos districtos orientaes da Betica,
mas abandonado pelos mais nobres guerreiros, para quem a paz com
os infiéis seria incomportavel deshonra. As montanhas das Asturias
eram o verdadeiro e unico refugio da independencia goda. Em volta
de Pelagio ajunctavam-se todos os homens esforçados que não tinham
ainda desesperado da providencia e da propria espada. Muitos delles
adormeceram para sempre nas solidões daquelles agrestes escondrijos,
sem que vissem verificar-se as suas esperanças; outros, porém, saudaram
ainda a aurora do dia da vingança e poderam dizer, morrendo:--a
Hespanha será salva!

Era passado um anno depois da batalha do Chryssus. O numero dos
companheiros de Pelagio augmentava diariamente com os homens generosos
que, depois da paz de Theodemiro com os arabes, o deixavam, para
salvarem a sua independencia nos fraguedos das Asturias e da Cantabria.
Estes soccorros continuos fortaleciam a constancia do moço guerreiro,
que via crescer e sussurrar a torrente dos invasores em volta das suas
montanhas. Abdulaziz, o valente filho de Musa, subjugara a Lusitania
e a Carthaginense e, saqueando as cidades opulentas do norte que lhe
abriam as portas, mettia a ferro e fogo as que tentavam resistir-lhe.
Os rolos de fumo que se alevantavam das povoações incendiadas mostravam
aos cavalleiros de Pelagio que já pelos campos gothicos fluctuava
triumphante o estandarte de Mohammed. Rugindo de colera ao contemplarem
este espectaculo, apertavam contra o peito a cruz das espadas.
Então, sentiam escorregarem-lhes as lagrymas pelas faces tostadas, e
descer-lhes com ellas aos seios d'alma a resignação e a esperança na
piedade de Deus.

Debaixo d'um semblante severo, mas sereno, Pelagio sabía esconder
a amargura que lhe trasbordava do coração. No viço da juventude, o
espirito lhe encanecera em meio dos dolorosos successos da sua ainda
tão curta vida. A todas as maguas communs se lhe accrescentavam outras
particulares, porventura mais pungentes. A maior parte dos seus
companheiros haviam trazido para as Asturias os paes decrepitos, os
filhos e as esposas, todos aquelles por quem repartiam os affectos
do seu coração. Elle, porém, não pudera salvar uma irman que adorava
e que Favila, expirando, entregara em seus braços, para que fosse
o defensor e o abrigo da que ficava orphan no mundo. Ao sair de
Tárraco, para se ir ajunctar á hoste de Ruderico, o mancebo deixara
Hermengarda nos paços paternos, encommendada á guarda de alguns velhos
buccellarios de seu pae. Quando, depois da batalha juncto do Chryssus,
se acolhera ás montanhas, onde só podia conservar a liberdade, Pelagio
avisara sua irman do logar em que existia e lhe communicara todos os
meios de penetrar n'aquella quasi inaccessivel guarida. A resposta
d'Hermengarda foi digna de uma neta dos godos: dizia-lhe que brevemente
sería com elle; porque preferia um covil de feras habitado por Pelagio
ás delicias de Tárraco, sobre a qual não tardaria, talvez, a pesar o
ferreo jugo dos mosselemanos. Com os buccellarios que lhe deixara, ella
ía atravessar a Hespanha, encaminhando-se a Legio, onde devia chegar
dentro de poucos dias.

Esta carta d'Hermengarda produzira crueis receios no animo do mancebo.
Sabía que os arabes, derramados já pela Gallecia, não tardariam a
envolver na torrente das suas assolações a antiga cidade romana:
elle, que experimentara qual era a furia dos guerreiros do oriente,
compadecia-se das vans esperanças de resistencia que os habitantes
de Legio alimentavam ainda. De feito, um dia, em que enviara alguns
cavalleiros pelos diversos caminhos que Hermengarda poderia seguir na
sua arriscada e longa peregrinação, estes voltaram sobre a tarde com
uma bem triste nova. Os arabes, capitaneiados por Abdulaziz, haviam
chegado juncto aos muros daquella forte povoação, e poucas horas
lhes tinham bastado para hasteiarem nas suas torres o estandarte
de Mohammed e para passarem á espada os seus defensores. Deixando
ahi uma das tribus bereberes, o exercito dos conquistadores guiara
rapidamente para a Tarraconense, e os esculcas godos haviam escapado
a custo aos almogaures arabes, desapparecendo entre os desvios das
serras e espreitando das apertadas portellas o caminho que seguia a
multidão dos infiéis, os quaes lhes pareceu dirigirem-se para o lado do
celebre mosteiro da Virgem Dolorosa. Quanto á irman de Pelagio, nenhuns
vestigios haviam encontrado da sua passagem, nenhuma esperança traziam.

Taes foram as novas que os cavalleiros enviados aos valles além de
Legio deram ao moço guerreiro, que já os esperava impaciente em uma das
gargantas do Vinnio. Cheio de tristeza, Pelagio voltou então para a sua
morada selvatica, para o escondrijo pelo qual havia tanto tempo trocara
os paços paternos da esplendida Tárraco. Durante muitas horas, no meio
do denso nevoeiro acamado sobre as encostas, pelas sendas tortuosas
das montanhas, os cavalleiros que seguiam o duque de Cantabria não
ousaram quebrar-lhe o doloroso silencio. Apenas, pela calada da noite
negra e fria, soava lá ao longe o ruido do Sallia, de cujas margens
por vezes se approximavam. O sussurrar, porém, da corrente, amortecido
de quando em quando pela distancia, confundia-se com o ramalhar nas
sarças do lobo que fugia e com o brando rugir dos pinhaes, balouçados
pela bafagem do vento. Estes sons vagos e confusos respondiam ao
tropeiar dos ginetes, galgando as serras ou descendo lentamente e
enfileirados á borda dos precipicios. O nevoeiro, mergulhando-se
nestes, branqueiava-lhes os seios e revelava a sua existencia, deixando
entre uns e outros como uma fita tortuosa e escura, que ía morrer mui
perto no breve horisonte, encurtado pela cerração e pelas trevas.

Tarde, já bem tarde, uma luz baça e duvidosa bruxuleiou sem brilho
adiante dos cavalleiros, que haviam rodeiado as montanhas, fazendo um
largo semicirculo. Naquelle momento elles transpunham uma garganta
medonha. Pelo contrario de outros logares que tinham atravessado, aqui
as serras erguiam-se quasi a prumo de uma e d'outra parte da estreita
passagem. Por meio della sentia-se o ruido de torrente caudal, que
parecia vir da banda da luz que se via em distancia, e o nevoeiro,
cada vez mais cerrado, pendurava-se em orvalho na barba espessa dos
guerreiros e nos cabellos que lhes ondeiavam pelos hombros, saindo de
sob os elmos.

Seguindo o curso do ribeiro, a cavalgada chegou, por fim, a um valle
mais amplo, mas tambem rodeiado de serras, cuja sombra gigante sería
facil perceber, apesar da cerração, a quem olhasse attentamente em
roda. A luz que parecia guiar os cavalleiros, a principio duvidosa,
tenue, sumindo-se a espaços, crescia rapidamente e era já um grande
clarão, que reflectia pelos penhascos, visiveis para um e outro lado,
e scintillava no dorso da corrente. Um grito de esculca veio quebrar o
silencio dos caminhantes, que durante tantas horas não tinham proferido
uma unica syllaba.

As palavras--Covadonga e Pelagio!--repetidas pelos cavalleiros da
frente responderam á voz do esculca, que, em pé e quedo sobre um
outeirinho, os deixou passar ávante. Em breve chegaram ao termo da
sua viagem. O valle findava em extensa penedia cortada a pique. Á
direita uma subida ingreme, talhada na pedra viva, conduzia a um arco
irregular aberto na penedia. Era a claridade do fogo acceso debaixo
delle a que se derramava no valle e que ainda ía allumiar frouxamente
o passo estreito que os cavalleiros haviam atravessado. Encostados
aos rochedos, dispersos juncto á raiz daquella muralha altissima,
estavam derramadas muitas choupanas, grosseiramente construidas de mal
acepilhados troncos e cubertas de ramos e colmo. Em frente de varias
dellas ainda fumegava o brazido das fogueiras nocturnas daquella
especie de arraial, onde ciciava o respirar compassado dos que dormiam.
Ao pé da primeira e mais extensa choupana, Pelagio descavalgou; os mais
seguiram o seu exemplo.

«Gutislo!--bradou um dos cavalleiros, cujo elmo se distinguia dos
demais, porque era o unico em cuja superficie negra e baça se não
reverberava o clarão avermelhado dos carvões accesos que ainda restavam
de uma grande fogueira, juncto da subida ingreme que guiava á caverna.

Um homem agigantado e de fera catadura saíu da choupana murmurando sons
mal articulados e que pareciam de agastamento. Dos recem-vindos os
principaes começaram a subir vagarosamente a senda fragosa que tinham
ante si emquanto Gutislo recolhia os ginetes, que mal se podiam meneiar
de cansados, e os simples buccellarios se derramavam pelas tendas
erguidas juncto dos penhascos.

Os cavalleiros chegaram ao topo da subida. A caverna de Covadonga, o
palacio do duque de Cantabria, estava patente. Da esquerda, em vasta
lareira, ardia um grosso cepo de sobreiro, que conservava tepida e
enxuta a atmosphera, naturalmente fria e humida: da direita, pelas
quebras angulosas das rochas, viam-se deitados capacetes, saios de
malha e muitas armas offensivas. Escabellos grosseiros, mesas de
carvalho e alguns leitos de pelles d'animaes silvestres, amontoadas
sobre a cortiça que servia de pavimento, completavam o adereço daquelle
rude aposento. Todavia, as armas pulidas, ordenadas em feixes, e as
stalactites seculares, penduradas do tecto, reverberando o clarão da
fogueira, davam ao topo da lapa um aspecto esplendido, que de algum
modo assemelhava esta habitação de feras a uma sala d'armas de paços
afortalezados.

É alta noite: os cavalleiros que haviam acompanhado Pelagio dormem
profundamente, estirados nos pobres leitos da gruta. Quem ouvisse
os nomes desses rudes soldados saberia quaes eram os restos da mais
illustre nobreza goda: eram muitos daquelles que, havia poucos meses,
nos paços magnificos de Toletum passavam as noites em festas, os
dias em banquetes e que, depois de existencia deleitosa, esperavam
ir dormir, sob as arcarias das cryptas das cathedraes, nos tumulos
soberbos de seus avós. E todavia, a conquista reduziu-os á vida
de barbaros e fê-los retroceder aos costumes duros e ferozes dos
companheiros de Theoderik e de Ataulph; aos habitos de rudeza dos
primitivos wisigodos.

O moço duque de Cantabria véla, porém. Assentado em um escabello juncto
do lar acceso, com a face encostada ao punho, deixa balouçar a sua alma
em tempestade de dolorosos pensamentos, lembrando-se de Hermengarda.
Por mais de uma hora, Pelagio se conservara nesta situação, quando, ao
voltar a cabeça, viu que mais alguem velava, como elle. O cavalleiro
que ao chegarem chamara por Gutislo, em pé por detrás do escabello,
com os braços cruzados e os olhos fitos na chamma, parecia meditar
profundamente. No seu aspecto havia o que quer que fosse tenebroso e
sinistro.

«Como assim!--exclamou o mancebo--ainda não buscastes o repouso? Depois
de tão larga correria, não imaginava achar-vos ao pé de mim, que vélo,
porque a amargura não consente que o somno me cerre as palpebras.
Tendes, acaso, uma irman querida, uma esposa que muito ameis, por quem
devais tremer, e que, talvez, neste momento seja victima das paixões
desenfreiadas dos infiéis?»

«Não tenho ninguem no mundo:--respondeu o cavalleiro, cujo aspecto se
carregou ainda mais ao ouvir estas ultimas palavras:--mas não póde
aquelle cujo coração é ermo desses affectos ser tambem infeliz?»

«Infelizes são todos os moradores de Covadonga--acudiu Pelagio:--mas
o que á desventura commum ajuncta receios bem fundados pela honra
ou, ao menos, pela vida daquelles que muito amou é mil vezes mais
desventurado.»

«Duque de Cantabria, quando tiverdes medida por onde afferir ao certo o
meu e o vosso coração podereis falar assim.»

«Te-la-hia, talvez, se conhecesse a historia da vossa vida: mas vós a
cubrís de impenetravel mysterio.»

«Porque é o segredo mais sancto da minha alma--interrompeu com
vehemencia o cavalleiro;--segredo que esta boca nunca revelará na
terra.»

«Nem eu o exijo: longe de mim tal intento. A carta que me trouxestes de
Theodemiro me assegura que sois um nobre gardingo: tanto bastou para
que vos recebesse entre aquelles com quem reparto a minha caverna de
foragido. Nunca vos perguntei, sequer, porque abandonastes um homem que
de suas palavras vejo vos amava como irmão.»

«Oh, quanto a isso, dir-vo-lo-hei--atalhou de novo o guerreiro, pondo a
mão sobre o punho da espada.--Foi porque eu o cria um anjo de virtude
e esforço, e elle era apenas um homem! Foi porque a paz que pactuou
com os mosselemanos, honrosa aos olhos do vulgo, era, a meus olhos,
infamia. Paz com o infiel? Ao christão só cabe fazê-la quando dormir ao
lado delle somno perpetuo no campo de batalha; quando, ao lado um do
outro, esperarem ambos que as aves do céu venham banqueteiar-se em seus
cadaveres. Antes disso, não a comprehendo. Disse-lh'o, sem colera, sem
injurias, ao abandoná-lo para sempre. Nesse momento algumas lagrymas
correram destes olhos; porque a alma de Theodemiro era a ultima em que
morava um affecto que respondesse aos meus; era o ultimo templo em que
me sorria a esperança!»

E as lagrymas que elle dizia haver derramado nessa triste separação
corriam, de novo, quatro a quatro pelas faces do guerreiro.

Apenas o gardingo proferira estas derradeiras palavras, o clarão
avermelhado da lareira bateu subitamente no vulto agigantado de
Gutislo, que surgira á boca da gruta e parecia hesitar se devia ou não
interromper o dialogo dos dous guerreiros.

«Velho lobo do Herminio, approxima-te--disse Pelagio em tom de
gracejo, como que tentando affastar as tristes idéas que lhe opprimiam
o espirito.--Que buscas a taes deshoras? Tiveste, acaso, em sonhos
saudades das barrocas das tuas serras nevadas e creste que Covadonga
era o antro de teu irmão, o javali?»

«O caçador das montanhas--replicou o lusitano, na sua linguagem
pinturesca de barbaro--não estaria aqui, se a saudade dos logares em
que nasceu lhe morasse no coração. Os homens d'além do mar lhe mataram
ou captivaram mulher e filhos quando estes, por seu mal, n'um dia em
que elle perseguia nos cimos da serra os lobos cervaes, ousaram descer
com o rebanho aos valles do Munda. Por isso te seguí eu, oh godo: tu
derramas o sangue dos homens d'além do mar, e eu quero derrama-lo
tambem.»

«A que vens, pois, aqui?--replicou Pelagio, a quem as palavras do celta
traziam de novo ao espirito a lembrança de que tambem elle era, talvez,
orpham de irman querida.

«A dizer-te que um desconhecido chegou ao valle. Fala não sei de que
nome godo, como o teu; d'Hermengarda, me parece. Pede para te falar.»

«Onde está elle?--exclamou Pelagio, em cujos olhos brilhara a esperança
misturada de temor.--Que venha! oh que venha breve!»

E, alevantando-se, encaminhou-se ligeiro para a entrada da gruta,
d'onde Gutislo outra vez desapparecera. Antes, porém, que ahi chegasse,
um velho, cujos trajos desordenados, rotos e cubertos de lodo davam
indicios de ter atravessado largo espaço das serranias, entrou na
caverna e, arrojando-se aos pés do duque de Cantabria, rompeu em
soluços, sem poder proferir palavra.

N'um relance Pelagio o conhecera.

«Aldephonso! onde está Hermengarda? Buccellario! onde está a filha do
teu patrono?»

O velho tentou responder; porém não pôde, e continuou a soluçar.

«Entendo-te: é morta! Nunca mais te verei, minha pobre irman!--murmurou
o mancebo, escondendo o rosto entre as mãos.

Ao gardingo, que durante esta scena se conservara immovel, fugiu
um gemido abafado. Depois, levou o punho cerrado á fronte, como se
quizesse conter ahi uma idéa dolorosa que tentava resfolegar.

Houve um largo espaço de temeroso silencio. O velho o quebrou por fim:

«Não; não é morta! Mas, porventura, ainda o seu fado é mais horrivel.
Jaz captiva em poder dos infiéis. Não me foi dado salvá-la, e não quiz
morrer sem vos dar esta nova cruel. Agora...»

Um brado de Pelagio atalhou as palavras do buccellario suffocadas pelo
choro.

«As minhas armas e o meu cavallo! Que me deem o meu frankisk! Velho
vilissimo, já que não soubeste deixar-te despedaçar juncto della, dize,
ao menos, onde poderei encontrar os pagãos que captivaram Hermengarda.»

Lavado em lagrymas, o ancião narrou-lhe em breves palavras os successos
que se haviam passado no mosteiro da Virgem Dolorosa. Elle tinha feito
tudo para a resolver a tentar a fuga. «Ainda na crypta fatal--concluia
Aldephonso--através das grades que me embargavam os passos, por
vós, pelas cinzas de vosso pae, lhe suppliquei de joelhos que me
acompanhasse. Os velhos buccellarios de Favila, no meio do tumulto, a
teriam, talvez, posto em salvo! Sorriu, porém, das minhas esperanças e
conservou-se firme no seu proposito. Mas Deus tinha ordenado que, em
vez de obter o martyrio, cahisse nas mãos dos agarenos. De todos os que
vinhamos em sua guarda, só eu, acaso, pude escapar, misturado com os
soldados de Transfretana. Assim, segui por algum tempo os arabes, que
se encaminham para o lado do Segisamon. Ao anoitecer, embrenhei-me nas
montanhas. Um pastor que encontrei me serviu de guia, até que cheguei
aos pés de meu senhor para lhe pedir a morte e para lhe jurar que estou
innocente.»

«De pé, cavalleiros! Aos infiéis, em nome de Christo!--gritou o duque
de Cantabria, com uma voz que retumbou nas profundezas da caverna.

Habituados ás subitas arrancadas nocturnas contra os arabes, quando
vagueiavam em correrias longinquas, os companheiros de Pelagio
ergueram-se de salto, ainda mal despertos, e por uma especie
d'instincto lançaram mão das armas penduradas por cima de suas
cabeças. Era solemne e tremendo o espectaculo que apresentava a gruta
naquelle alçar repentino de tantos homens, no brilho das armas que
relampagueiavam á luz da fogueira e tiniam umas nas outras. Entretanto
Pelagio ordenava a Gutislo que despertasse os homens d'armas espalhados
pelas choupanas do valle e fizesse dar o signal d'encavalgar. Era
necessario partir.

No meio, porém, da revolta, havia alguem que se conservava quedo e que
parecia tranquillo. Era o gardingo desconhecido. Encostado á parede
anfractuosa da gruta e demudado o gesto, contemplava aquella scena
com o vago olhar de quem alongara o pensamento para mui longe d'alli.
Emquanto todos os demais cavalleiros rodeiavam Pelagio, indagando
inquietos a causa daquelle subito apellidar para uma correria nocturna,
elle só ficara immovel e como indifferente ao tumulto que as vozes do
duque de Cantabria tinham excitado entre os seus guerreiros.

«Qual de vós outros cavalleiros--dizia Pelagio aos que o
rodeiavam--duvidará um momento de que, se um mensageiro chegasse e
lhe dissesse: «vossa esposa, vossa filha, vossa irman cahiu em poder
d'infiéis» eu hesitasse em ir ajudá-lo a arrancar essa victima querida
á bruteza cruel dos pagãos? Nenhum; porque mais d'uma vez tenho
arriscado a vida para curar saudades e amarguras dos desterrados como
eu. Deu-me o céu uma irman; deu-me o ultimo suspiro de meu pae uma
filha; deu-me a ternura por essa virgem, cuja imagem vive eterna neste
coração virgem como ella, uma esposa. Quando a triste innocente vinha
abrigar-se á sombra do escudo de seu irmão, os infiéis roubaram-ma.
Viuvo e orpham, appello para os ultimos corações generosos da Hespanha.
Por Deus, que me ajudeis a salvar a minha pobre Hermengarda. Como tua
filha Brunehilde, ella é formosa, Gudesteu! Como tua esposa Elvira,
ella é boa e carinhosa, Algimiro! Como tua irman, Munio, ella é
innocente e pura. Godos, por tudo quanto amaes, salvae-a, salvae a
mesquinha!»

O nobre esforço do mancebo desapparecera ante a idéa dolorosa da sorte
que a providencia reservara á desventurada filha de Favila. Elle
estendia as mãos unidas para os cavalleiros, como uma creança timida
que implora compaixão.

«Partamos!--exclamaram ao mesmo tempo os nobres foragidos.--Tua irman
será salva ou nenhum de nós voltará mais á gruta de Covadonga!»

Uma voz trémula, mas retumbante, trovejou por detrás delles:

«Não partireis d'aqui!»

Voltaram-se. Era o gardingo.

«Quem o ordena?--bradou Pelagio, com toda a energia que esta inesperada
resistencia despertara subitamente nelle.

«Um homem--replicou o desconhecido, atravessando o circulo dos
guerreiros que rodeiavam o duque de Cantabria e lançando em volta
olhos altivos;--um homem cujo coração é ha longo tempo morto, porque
as paixões o queimaram; mas cuja intelligencia por isso mesmo é mais
fria. Quantos sois vós? Quantos buccellarios dormem pelas tendas desse
valle? Apenas alguns centenares de lanças poderiam, ao todo, transpôr
comvosco os passos das serras. Os infiéis e os renegados que os servem
quantos são? Se podeis contar as estrellas que ora recamam o céu,
podereis dizer-me o numero delles. Tu, Pelagio, braço de ferro, coração
de bronze, quem és tu? O guardador das ultimas esperanças da cruz e da
patria. Quem te deu, pois, o direito de correres a morte certa? Quem te
deu o direito de apagar no sangue dos ultimos godos o unico facho que
alumia as trevas do futuro da escravisada Hespanha?»

«E a ti--interrompeu furioso e arrancando meia espada o violento
Sancion--quem te incumbiu de nos dizeres: «não saireis d'aqui? Quem és
tu, que, vindo não sei d'onde, pretendes dominar como senhor aquelles
que só obedecem a Deus?»

O desconhecido olhou para o movimento ameaçador de Sancion, e pelo
rosto passou-lhe um sorriso desdenhoso. Cruzou os braços e respondeu
com voz lenta e solemne:

«Por minha boca falaram milhares de godos que gemem no captiveiro e que
voltam de continuo os olhos para os cerros das Asturias, onde apenas
fulgura tenue o sancto fogo da liberdade: falaram por minha boca as
aras do Senhor calcadas pelos pés dos pagãos, as imagens do Christo
derribadas no lodo, os muros ennegrecidos das cidades incendiadas.
É isto tudo que vos diz:--não saireis d'aqui!--Perguntas quem sou?
Dir-t'o-hei. O ultimo homem que, juncto do Chryssus, viu, combatendo,
a face dos arabes vencedores, emquanto os valentes fugiam; o homem
que tentou morrer com a patria, e que a mão de Deus salvou para neste
momento vos dizer: «não saireis d'aqui! Queres saber quem eu sou? Lê,
Pelagio, o que escreveu ahi Theodemiro. Dize-lhe depois qual é o meu
nome!»

E, tirando da escarcella uma tira de pergaminho dobrada, abriu-a e
entregou-a a Pelagio.

O duque de Cantabria correu-a pelos olhos e, deixando-a cahir em terra,
murmurou:--«Meu Deus, o cavalleiro negro!»

Os godos apinhados em roda recuaram alguns passos, e houve um momento
de ancioso silencio.

«Anjo ou demonio, que nos explicas um mysterio por outro
mysterio--exclamou, emfim, Pelagio visivelmente perturbado:--christãos
e arabes lembram-se ainda das tuas incriveis façanhas nas margens do
Chryssus. Mil vezes eu proprio tenho dicto: dez como elle haveriam
salvado o imperio de Theoderik! Devemos obedecer-te, se és um homem,
como dizes, porque vales mais que nós. Se és o anjo que preside ao fado
da Hespanha, mais submisso ainda será o nosso obedecer. Mas que mal te
fez minha desgraçada irman?...»

«Que mal me fez tua irman?--atalhou com vehemencia o
gardingo.--Nenhum!... E quem te disse que não quero, que não posso
salva-la, eu que não sou anjo, que sou, como tu, um homem? Quaes
d'entre vós--proseguiu, voltando-se para os cavalleiros que o
rodeiavam--sois n'este mundo sós e não tendes quem na morte regue
com lagrymas a terra que vos cobrir? Quaes de vós sois, como eu,
desterrados no meio do genero-humano? Que os orphams de coração ergam
a dextra para o céu, onde só ha um seio que lhes receba os gemidos de
amargura, o seio immenso de Deus!»

Doze guerreiros, e entre elles o fero Sancion, alevantaram a dextra
para o ar á voz imperiosa do gardingo.

«A cavallo!--gritou este, apertando o largo cincto da espada e enfiando
no braço a ferrea cadeia do frankisk.--Pelagio! se dentro de oito dias
não houvermos voltado, ora ao Christo por nós, que teremos dormido o
nosso ultimo somno, e chora por tua irmã, cujo captiveiro já ninguem,
provavelmente, quebrará, senão o anjo da morte. Partamos!»

Proferindo estas palavras, o gardingo atravessou rapidamente a caverna
e desappareceu nas trevas exteriores: os doze guerreiros escolhidos
seguiram-no machinalmente, porque os seus meneios e gesto os tinham
fascinado, ao lembrarem-se de que este homem era o cavalleiro negro. O
duque de Cantabria, subjugado tambem pela especie de mysterio solemne
que cercava todas as acções d'este ente extraordinario, nem ousou
perguntar-lhe por que meio intentava salvar Hermengarda. Todavia, uma
voz intima e irresistivel lhe dizia: «resigna-te e confia». Confiado e
resignado esperou, portanto, o cumprimento das promessas do incognito
gardingo.



XIV

A NOITE DO AMIR


     Arrebatada no pallor das trevas.

                            _Breviario Gothico--Hymno de S. Geroncio._


Era ao cahir do dia. O nordeste secco e regelado corria as campinas
do espaço, onde, através da atmosphera purissima, scintillavam as
estrellas. O clarão de Segisamon incendiada reflectia de longe nas
brancas tendas dos arabes, acampados a bastante distancia dos muros da
povoação destruida. Em volta do arraial, pelas coroas dos outeiros,
accendiam-se as almenaras, a cuja luz tenue, comparada com a do
incendio de Segisamon, se viam passar os atalaias nocturnos. Abdulaziz,
semelhante a cometa caudato, seguia a sua orbita d'exterminio,
deixando após si vestigios de fogo. O exercito devia ao romper da alva
internar-se nos valles da Tarraconense.

Segisamon tinha na vespera offerecido um espectaculo semelhante ao de
muitas outras cidades da Hespanha levadas á escala pelos mosselemanos.
Não só a cubiça e o desenfreiamento da soldadesca multiplicavam ahi
as scenas de rapina, de violencia e de sangue, mas tambem a politica
dos capitães arabes procurava augmentar a terribilidade desses dramas
repetidos para quebrar os animos dos godos e persuadi-los á submissão.
O dia precedente a esta noite que começava tinha sido consagrado
pelos vencedores ao repouso, depois de um duro lavor de morte e
ruinas. Os jogos, os banquetes, as dissoluções de todo o genero haviam
recompensado brutalmente o esforço brutal dos destruidores de Segisamon.

Ás cohortes do renegado Juliano tocava nesta noite a vigia do arraial:
eram godos os que guardavam o campo, onde as virgens da Hespanha tinham
sido violadas; onde a cruz captiva fora mais uma vez ludibriada; onde
os velhos sacerdotes haviam soffrido contentes o martyrio no meio
das affrontas. Aquelles homens perdidos, rodeiando esse montão de
abominações, ainda não fartos dos deleites infernaes em que tinham tido
parte com os infiéis, embriagavam-se, bebendo pelos vasos sagrados, e
escarneciam blasphemos a crença da sua infancia no meio de hedionda
ebriedade.

O murmurio immenso do arraial foi amortecendo gradualmente com o
fechar da noite. Em breve, não se ouviu nas tendas do Islam mais que o
respirar lento de tantos milhares d'homens adormecidos nos braços do
goso. Juncto, porém, das almenaras as risadas dos soldados do conde
de Septum, os cantos obscenos inspirados pela embriaguez, as disputas
ardentes do jogo, em que o ouro corria de mão em mão, soavam ainda
em volta do silencio do campo. Pouco e pouco, este mesmo ruído foi
affrouxando, ao passo que os fachos accesos nas chapadas dos outeiros
esmoreciam. A escuridão e o silencio reinaram, emfim, até nas atalaias.
Os soldados godos, cansados de dissoluções, haviam tambem repousado.
E para que prestaria velar? O terror que inspiravam os arabes era o
melhor guardador do arraial. Como ousariam os christãos, medrosos atrás
dos muros dos seus castellos, salteiar o campo de Abdulaziz? As vigias
e almenaras eram apenas uma velha formula militar, cuja significação
a serie não interrompida dos triumphos até então alcançados tornara
inintelligivel.

Pela calada, porém, da alta noite e no meio das trevas que cobrem, como
amplo manto, aquelle turbilhão d'homens de guerra, descansando então
para ao romper do sol rugir de novo impetuoso, vê-se ainda, através
das telas mal unidas de uma tenda mais vasta, reverberar vivo clarão,
e ouve-se o rir alegre, o altercar, o tinir argentino das taças; todos
os indicios, emfim, de que a orgia se prolongou ahi até mais tarde.
Ao redor da tenda jazem por terra, com os alfanges nús junctos a si,
alguns soldados da guarda de Abdulaziz, composta dos guerreiros mais
temidos do exercito, os negros do remoto paiz de Al-Sudan. Nos ouvidos
delles restruge debalde o alto ruído que soa do interior do pavilhão.
Dormem, tambem, profundamente, e apenas á porta da tenda um delles vela
immovel encostado á acha d'armas.

A tenda era, de feito, a do esforçado filho de Musa. A mesa do banquete
ainda vergava com os restos das iguarias: os brandões já gastos e os
candieiros mortiços derramavam uma claridade suave pelo aposento.
Reclinado sobre um almatrah cuberto de preciosa alcatifa do oriente, o
amir escutava o mais moço dos cheiks que estavam juncto delle, o qual,
ora cantava os versos voluptuosos de Zohèir, que accendiam a imaginação
do joven guerreiro, ora lhe repetia os antigos poemas licenciosos e
satyricos de Ibn-Hagiar, que elle applaudia com estrondosas risadas.

O conde de Septum e os mais capitães godos alliados dos agarenos
conservavam-se ainda nos logares que haviam occupado durante o
banquete. Para aquella extremidade da vasta mesa viam-se algumas
amphoras tombadas e outras ainda cheias dos vinhos mais preciosos da
Hespanha: as taças que gyravam ao redor eram as que produziam o tinir
que soava fóra, no meio do ruído das falas, dos gritos, e dos cantos
monotonos do cheik Abdallah.

Um guerreiro, cuja barba crespa e cerrada lhe cahia como frócos de neve
sobre os anneis dourados do saio de malha, estava assentado á direita
de Juliano. A brancura dos seus cabellos era o unico signal que se lhe
enxergava de uma larga peregrinação na terra; porque o rosado da tez,
a viveza dos olhos azues, o garbo nos meneios e a robustez dos membros
agigantados mostravam n'elle mais que muito a compleição vigorosa de
homem de boa idade. Era Oppas, o bispo Oppas, que se esquecera do
sacerdocio, como se havia esquecido da patria, e que, habituado á vida
solta dos arraiaes, excedia já na violencia de paixões ignobeis os mais
desenfreiados e barbaros chefes das tribus semi-selvagens da Africa.
Muitos outros tiuphados e quingentarios, assentados ao longo da mesa,
davam mostras de infernal alegria, despejando as taças de prata, que os
libertos lhes enchiam de novo para de novo rapidamente se esgotarem.

«Vêde os nazarenos maldictos--dizia Abdulaziz em voz baixa ao cheik
Abdallah, olhando de través para os godos.--O amor da embriaguez nunca
os deixará ver a luz que mana das paginas do divino koran. Para elles
o fructo da vide será sempre a ponte estreita, da qual, ao passarem na
morte, se despenharão no inferno.»

«E que nos importam as suas almas tisnadas--replicou Abdallah--se elles
nos ajudam a sujeitar á lei do sancto propheta o imperio de Andalús?
Sem Deus e sem patria, deixae-lhes ao menos a sua bruteza.»

O bispo d'Hispalis percebeu que falavam delle e dos outros godos,
porque os cheiks haviam volvido para lá os olhos. Erguendo-se então com
a taça em punho, exclamou em arabico:

«Ao invencivel Abdulaziz; a um dos mais nobres vingadores de Witiza!»

«Alfaqui dos romanos--respondeu o amir--a lei do propheta não consente
que eu acceite a saudação que atravessou por labios tinctos no licor
amaldicçoado por elle.»

«E que montam as maldicções do teu propheta?--replicou Oppas em tom
de gracejo.--Devemos nós por isso deixar de saudar o illustre filho
de Musa com o abençoado e generoso vinho dos ferteis outeiros da
Hespanha?...»

«Infiel!...--interrompeu o amir, em cujos olhos scintillara o despeito.
Depois, reportando-se, proseguiu em tom brando, mas firme, como quem
queria ser promptamente obedecido:--Nobres cavalleiros do Gharb,
valentes cheiks do Negid, de Berryah, e d'Almoghreb, a noite vai alta,
e ao romper da manhan é necessario partir. Que o somno vos desça sobre
as palpebras nas vossas tendas de guerra!»

A estas palavras, godos e arabes, alevantando-se, foram sahindo da
tenda vagarosamente e em silencio. Só o bispo d'Hispalis, apertando a
mão de Juliano, murmurou:--«Oh, quanto fel se mistura com o prazer da
vingança! Mas cumpra-se o nosso fado.»

Ao atravessarem o arraial, os dous filhos renegados da Hespanha
notaram que nos cabeços das almenaras a escuridão era tão profunda
como no resto do campo. Tudo, porém, estava tranquillo. Apenas a pouca
distancia lhes pareceu verem passar como sombra um cavalleiro, que se
encaminhava para o lado do pavilhão de Abdulaziz. Era, provavelmente,
algum soldado d'Al-Sudan, que, transnoitado, se retrahia para o seu
alojamento juncto da tenda do amir.

Entretanto este, apenas só, começou a caminhar agitado e a passos
largos de uma até outra extremidade do aposento, que ricos pannos da
Syria dividiam dos que occupavam os servos. No seu gesto, turbado por
affectos encontrados, passavam successivamente os vestigios destes:
ora a indignação lhe pesava nos sobrolhos confrangidos; ora lhe
sorria nos olhos um pensamento voluptuoso; ora a compaixão parecia
suavisar-lhe esse feroz sorrir. Por fim, o moço Abdulaziz, como vencido
pela tempestade da sua alma, assentou-se no almatrah e cobriu o rosto
com ambas as mãos. Conservou-se assim por largo tempo, em silencio e
quedo, até que, a final, as suas paixões triumpharam e rebentaram com
violencia.

Batendo as palmas, o amir bradou:--«Al-Fehri!»

Um dos pannos que dividiam a tenda em varias quadras alevantou-se de
um lado, e um vulto negro e disforme, que parecia arrastar-se com
difficuldade, encaminhou-se para o amir. Era como um tronco de gigante
pelo espadaúdo do corpo, pela amplidão do ventre e pela desmesurada
grossura da cabeça, onde só lhe alvejavam os olhos embaciados. O
monstro, apenas deu alguns passos, parou, cruzando sobre o peito os
braços grossos e curtos, semelhantes a dous madeiros informes.

«Eunucho--disse Abdulaziz com voz agitada--conduze aqui a ultima das
minhas captivas que especialmente confiei de ti.»

O vulto recuou e, franzindo a especie de reposteiro que lhe dera
passagem, desappareceu. Passados alguns momentos, tornou. Uma figura
de mulher, cujas fórmas mal se podiam adivinhar através d'um raro
cendal que a cubria até os pés, acompanhava-o. Com passo firme, ella se
encaminhou para Abdulaziz, e o eunucho desappareceu de novo.

«Filha dos christãos--disse em lingua romana o amir--os dous dias
que me pediste para chorares o teu captiveiro passaram. Resolveste,
finalmente, ser a mais amada entre as mulheres de Abdulaziz; ser a
invejada das donzellas do oriente e quasi a rainha das provincias de
Andalús, porque acima de Abdulaziz só dous homens existem na terra, o
amir d'Almoghreb, aquelle que me gerou, e o descendente do propheta, o
que rege todo o imperio dos crentes?»

«A minha resolução é morrer, quando te approuver:--replicou a captiva
com serenidade;--porque essa resolução ha muito que eu a tomei.
Enganei-te, pagão, quando te pedi dous dias para chorar! Escarneci de
ti, porque te abomino. Esperava que um braço de guerreiro que vale
mais que o teu viesse arrancar-me do captiveiro. Ai de ti, se elle
soubesse qual tinha sido o meu fado! Folga, pagão, de que a sentença
fulminada por Deus contra os filhos da Hespanha me abrangesse tambem.
Nesta hora não fora eu; foras tu quem deveria perecer. Mas elle não
pôde salvar-me: só me resta dizer-te: infiel, tu és maldicto de Deus:
principe dos arabes, tu és servo dos demonios: homem que me pedes amor,
sabe que eu te detesto.»

«Dize tudo:--interrompeu o amir, apertando com força o braço da
captiva e fitando nella os olhos, onde luctavam amor profundo e colera
violenta:--exhala em injurias a tua dôr orgulhosa: sê, até, blasphema;
mas não digas que detestas Abdulaziz; não digas que amas um godo e que
elle fora capaz de te vir roubar da minha tenda. Desgraçado do nazareno
que se lembrasse de amar-te depois que Abdulaziz te chamou sua. Onde
se iria esconder esse malaventurado filho de uma raça vil e covarde,
que podesse escapar a este braço, o qual ao estender-se arranca pelos
fundamentos os vossos castellos e reduz a pó os templos do vosso Deus e
os muros das vossas cidades?»

«Aquelle que eu cria viesse em meu soccorro--tornou com voz firme
a captiva--não se esconderá de ti no dia em que estiverem em volta
delle todos os seus irmãos em esforço e amor da terra natal; porque
nesse dia das grandes vinganças vê-lo-has face a face. Muitas vezes os
teus guerreiros têem fugido diante delle; muitas vezes o incendio dos
arraiaes pagãos tem ajudado o incendio das nossas cidades a alumiar as
trevas da noite, e a sua mão foi a que lançou o facho sobre a tenda
do agareno. Esse, ao menos, se ainda se esconde, não é por temor de
ti, nem dos teus cavalleiros, que, tantos por tantos e ainda em dobro,
muitas vezes tem visto fugir.»

«Entendo-te, altiva filha dos godos:--replicou Abdulaziz.--Falas do
que vós outros chamaes Pelagio, e que só de noite ousa saír das suas
solidões das montanhas para acommetter as tribus d'Almoghreb que
fizeram assento no conquistado Gharb ou para assassinar os cavalleiros
do deserto transviados. Apenas Sarkosta e Tarkuna vissem fluctuar
sobre as suas muralhas os estandartes do Islam, eu iria arrancá-lo dos
seus escondrijos para o punir. Mas tu abbreviaste os dias do foragido
nazareno. Dentro de pouco o seu cadaver servirá de pasto ás aves do
céu, porque amou aquella que eu escolhi.»

«Deus defenderá meu irmão:--disse titubeiando a donzella, cuja firmeza
começava a abandona-la, receiando ver cumprida a ameaça do amir.

«Irman de Pelagio?! Oh, repete-o mil vezes! São as prisões do sangue
que te unem ao cruel inimigo dos crentes?»

«Porque finges ignora-lo? Os velhos cavalleiros que me acompanhavam
e que comigo foram captivos no mosteiro que profanaste já o terão
revelado.»

«Nem as promessas, nem os tormentos poderam tirar de suas bocas o teu
nome e a tua jerarchia. Mas jura-me que és a irman de Pelagio, e elle
poderá esquivar, se quizeres, o seu tremendo destino.»

«Fora inutil negar o que eu propria confessei. O meu nome é
Hermengarda: o duque de Cantabria, Favila, foi meu pae, e Pelagio é o
filho e successor de Favila.»

O amir ficou alguns momentos calado com o braço d'Hermengarda preso na
mão robusta, que ella sentia tremula com o tumultuar dos affectos que
agitavam o coração do arabe. Este, por fim, exclamou:

«Pelo precursor do sancto propheta; por Issa[1], Hermengarda, que, se
amas teu irmão, me digas:--eu serei tua. Estas palavras o farão senhor
da mais rica provincia do Andalús, daquella que elle escolher para
reinar como amir: os guerreiros que o seguem serão os walis das suas
cidades, os kaiyds dos seus castellos: dos meus thesouros metade será
delle. As escravas que muito hei amado não mais verão sorrir-lhes o
rosto de seu senhor. Tu serás rainha do meu coração; rainha sem rival;
senhora de tudo sobre quanto se estende o poder de Abdulaziz, do filho
querido do invencivel Musa. Profere só essas palavras, e a sorte de
Pelagio será invejada pelos nossos mais illustres guerreiros!...»

No gesto do agareno todos os vestigios da colera tinham desapparecido:
só nelle se lia a anciedade de um amor immenso, que precisa, mais que
do goso brutal, de um sentimento accorde com os proprios sentimentos.

Mas Hermengarda só vira affronta e opprobrio nas palavras do amir, e
o odio a este homem, cuja natural fereza e orgulho o amor convertera
em brandura e, talvez, em submissão, tornou-se ainda maior ao ouvi-lo.
Recobrando toda a energia da sua alma, que por um momento vacillara,
respondeu, olhando para Abdulaziz com ar de desprezo:

«Nem sempre os valentes conquistadores da Hespanha podem achar
traidores que vendam por ouro e honras infames os sepulchros de seus
paes e os altares do Senhor. Não! Pelagio não acceitará nunca um logar
entre os filhos de Witiza e o conde de Septum; porque Deus o guarda
para vingador de seus trahidos irmãos. Infiel, grande era o preço que
davas por uma filha da serva raça dos godos: guarda-o para o empregares
melhor; para comprares as nobres e livres donzellas do teu paiz. Tudo o
que me offereces é vil; porque vem de ti, maldicto. Só uma offerta te
acceito; ha muito que t'a pedi: a morte... a morte, e que seja breve.
Abomino-te, destruidor da Hespanha... Não! Enganei-me! Desprezo-te,
salteador do deserto.»

Com os labios brancos e o olhar desorientado, o amir ouvia as palavras
d'Hermengarda, e a sua fronte enrugava-se como a face do oceano ao
passar do furacão. Tremendo silencio reinou por alguns momentos na
tenda. Com um rir abafado e diabolico, o amir o rompeu por fim:

«A morte?--Não terás a morte: juro-t'o pelo sepulchro do propheta.
Porque a abelha zumbiu aos ouvidos do caçador faminto, arrojará elle
para longe o mel do seu favo e esmagará o insecto? Tu serás minha,
mulher orgulhosa; porque o meu amor é, como o meu odio, inexoravel
e fatal. Depois, quando o incendio que me devora estiver extincto;
quando o tedio morar para mim nos teus braços, irás cevar nas tendas
dos bereberes a sensualidade brutal dessa soldadesca selvagem. Póde ser
que teu nobre irmão venha entretanto salvar-te!... Guarda para então as
suberbas; que hoje, pobre escrava, só te resta obedecer á voz do teu
senhor.»

Ao dizer isto, Abdulaziz, segurando com a dextra o braço d'Hermengarda,
apertou-o com tanta violencia que a desgraçada deu um grito de agonia e
cahiu de joelhos aos pés do arabe. O amir ergueu-a e, impellindo-a com
força, ao mesmo tempo que despedaçava com a esquerda o raro cendal que
lhe velava o rosto, a fez cahir pallida e trémula sobre o almatrah. Os
labios da donzella quizeram ainda proferir algumas palavras--porventura
uma supplica; mas apenas murmurou sons inarticulados, que expiraram em
arquejar doloroso.

No seu furor, o filho de Musa não sentira um rugido de colera que
respondera ao grito d'Hermengarda, nem um ai passageiro e sumido,
que, segundo era intimo, parecia de homem a quem a ponta de um punhal
rasgara subitamente o coração. Nas telas, porém, que dividiam o
aposento do logar d'onde pouco antes saíra o eunucho e que ficavam
fronteiras á entrada principal da tenda uma figura humana se estampou
negra sobre o chão brilhante da tapeçaria. O amir, volvendo casualmente
os olhos, a viu. Crescia rapida. Escutou. Passos ligeiros soavam no
vasto aposento. Voltou-se. Mas apenas pôde erguer o braço: vira reluzir
no ar um ferro: vira um vulto cuberto d'armas semelhantes ás dos
cavalleiros d'Al-Sudan: sentiu um golpe que lhe partia o braço erguido
e, batendo-lhe ainda no craneo, lhe retumbava no cerebro. Deu um grito,
fechou os olhos e cahiu aos pés d'Hermengarda, manando-lhe o sangue da
fronte. O monstro humano que conduzira alli a irman de Pelagio, assomou
então no topo interior da tenda: o brado do amir o attrahira. Vendo
seu senhor derribado e juncto delle o que o feríra, o eunucho fez uma
horrivel visagem, como pretendendo falar; mas sómente soltou um rugido
acompanhado de um gesto d'ameaça. Segundo o atroz costume do oriente,
Al-Fehri, destinado desde a infancia ao serviço mysterioso do harem,
fora condemnado em tenros annos a nunca imitar a voz humana. Privado da
lingua, as suas expressões eram acenos ou afflictivos e inarticulados
rugidos.

O cavalleiro observava-o. Fê-lo sorrir o ademan feroz e ameaçador do
eunucho. Tinha previsto todas as difficuldades daquella arriscada
empreza e contava com o seu esforço e frieza d'animo para as vencer.
Ligeiro, travou de uma das tochas que ardiam juncto da mesa do
banquete e chegou-a ás ricas tapeçarias que forravam a tenda. A chamma
enredou-se na tela: um rolo de fumo espesso trepou em espiraes,
ennegrecendo-lhe os recamos e lavores brilhantes. Em breve, as
labaredas abraçadas com os feixes de lanças, com os pannos custosos,
que ondeiavam torcendo-se, treparam até o cimo e, curvando-se
espalmadas sob o tecto, romperam em linguas ardentes aprumadas para
o céu. O incendio, espalhando ao longe a sua sinistra claridade,
erguia-se como um tocheiro disforme acceso no meio do arraial e
despertava assim do somno profundo os soldados d'Al-Sudan lançados em
volta do pavilhão do amir.

Mas já a este tempo o cavalleiro se affastava do logar daquella scena
medonha. As palavras--«liberdade e Pelagio!» proferidas por elle,
tinham calado como um balsamo de vida no coração d'Hermengarda. O
desconhecido, tomando-a nos braços, atravessou ligeiro para o lado
do arraial onde estanceiavam os godos. Outro cavalleiro lhe tinha
de rédea dous ginetes. Hermengarda, a quem o perigo e a esperança
haviam restituido toda a natural energia, não hesitou em acompanhar
o seu audaz e mysterioso salvador. Seguindo os caminhos tortuosos e
incertos que as tendas do immenso arraial formavam e guiando-se pela
lua, que principiava a saír detrás dos outeiros, os tres fugitivos
encaminharam-se para o lado do campo além do qual as montanhas, lá ao
longe, reflectiam já o luar das cumiadas cubertas de neve.

Entretanto Al-Fehri correra a despertar os negros da guarda do amir, e
o cavalleiro ainda ouviu os gritos destes ao contemplarem o incendio,
mais prestes em acorda-los que o eunucho. Á entrada da tenda, o
vigia que devera despertá-los ao primeiro signal de Abdulaziz havia
adormecido de somno mais profundo que o delles. Um punhal enterrado na
garganta até o punho lhe sellara para sempre os labios. Os gestos de
desesperação d'Al-Fehri fizeram conhecer aos soldados o perigo do amir.
Por entre as chammas, ferido e semi-morto, a custo poderam salvá-lo.
Pouco a pouco, o tumulto se alongou pelo arraial: os cheiks arabes e os
capitães de Juliano corriam para o logar onde brilhava o incendio, e,
dentro em pouco, as vozes desentoadas, o tocar das trombetas, o rufar
dos tambores, o tropeiar dos cavallos naquella vasta planicie fariam
crer a quem olhasse para alli dos montes vizinhos que no arraial se
pelejava uma batalha nocturna.

No meio da confusão que produzíra por toda a parte este acontecimento
inesperado e cujo motivo e circumstancias inteiramente se ignoravam,
ninguem reparou nos dous cavalleiros e na donzella que, atravessando
rapidamente por entre as tendas dos arabes e dos godos, se dirigiam
para as atalaias do norte. Era, porém, aqui onde os maiores perigos
aguardavam os tres fugitivos.

A revolta do campo chegara aos ouvidos dos vigias. Sobresaltados pelo
clarão que refulgia do logar do incendio e pelo rumor que soava dessa
parte, o grito de alarma correra de boca em boca, de uns para os
outros outeiros, que successivamente se illuminavam. No largo gyro que
tal bradar fizera, aquella cadeia de sons uniformes fora subitamente
quebrada. Lá, na almenara do norte, nenhuma voz respondera ao vozeiar
dos esculcas; nenhuma luz de fogueira brilhara de novo. De cada um
dos postos vizinhos, uma decania de corredores transfretanos desceu,
então, aos valles e, subindo depois por uma e outra encosta, vieram
todas topar na coroa do outeiro. Á claridade da lua, cujos raios
inclinados roçavam já pela terra, viram reluzir no chão troços d'armas,
e, estirados ao pé dellas, estavam os corpos de seus donos involtos
nos saios de malha. Rapido e violento devia ter sido o commettimento,
numerosos os cavalleiros inimigos; porque nem um dos atalaias podera
escapar. Nem um: que todos ahi jaziam! Braço robusto tinham por certo
aquelles que assim ousavam penetrar no campo de Abdulaziz: as feridas
profundas assignadas nos cadaveres davam disso testemunho. Não havia
que duvidar: Pelagio salteiara o arraial. O incendio que reverberava
ao longe e o arruído como de um grande combate diziam que o facho da
vingança fora arrojado ao meio das tendas do Islam, e que o ferro dos
defensores da Hespanha viera, nas trevas da noite, lavar com sangue o
logar dos banquetes, tincto ainda de vinho e immundo de prostituição.

Este pensamento passou fugitivo e confuso pelo espirito dos guerreiros,
que olhavam como petrificados para a scena de morte que tinham ante
si a qual, de um lado, era alumiada pela luz debil da lua nascente,
e, do outro, pelo clarão avermelhado e ainda mais frouxo do incendio
ao longe. Um correr de cavallos que subiam ligeiro a encosta da banda
do arraial lhes divertiu a attenção. Volveram para lá os olhos. Tres
vultos a cavallo se dirigiam para alli. Dous, cubertos de armas
escuras, ladeiavam o terceiro, cujas roupas alvejavam ao luar. Os
corredores transfretanos adiantaram-se para elles. Ao aproximarem-se,
viram que o vulto branco era de mulher e que os outros trajavam saios e
elmos e traziam achas d'armas. Eram em tudo semelhantes aos guerreiros
d'Al-Sudan que compunham a guarda do amir.

Um dos dous cavalleiros affastou-se da donzella e, dirigindo-se aos
capitães das decanias, unidas no topo do outeiro, disse-lhes em romano,
com voz que simulava profunda colera:

«Os inimigos entraram no campo e accommetteram a propria tenda de
Abdulaziz. Os soldados do conde de Septum lhes deram passagem; porque a
elles estava confiada a guarda do campo. Em qual das atalaias estão os
traidores?»

«Os valentes da Transfretana nunca mereceram esse nome--replicou um
dos decanos ou capitães dos esculcas.--Foi aqui onde deram o passo
aos inimigos; mas o caminho destes foi por cima dos seus cadaveres.
Julgae-os.»

E as duas decanias affastaram-se para os lados. Vinte cadaveres estavam
lançados por terra.

«Sobre elles não cahiu o opprobrio na sua ultima hora:--disse
o guerreiro depois de contemplar um momento aquelle
espectaculo.--Abdulaziz ordena que se guardem estreitamente as saídas
do campo. Não tardam os cavalleiros zenetas que vem ajunctar-se nas
atalaias comvosco, a fim de que nenhum infiel possa escapar, emquanto
nós vamos conduzir para logar seguro, fóra do arraial revolto, a
escrava querida do amir. Vinde!--proseguiu elle, voltando-se para o
companheiro.

Atravessando por entre os soldados tingitanos, a donzella e os seus
libertadores começaram a descer apressadamente a encosta.

Já os tres fugitivos íam a alguma distancia, quando, como tomado de uma
idéa subita, um dos esculcas exclamou:

«Aquelle homem é godo!--Nenhum arabe fala assim a lingua romana: muito
menos os broncos guerreiros d'Al-Sudan. Por minha fé, que são inimigos!»

Os acontecimentos inesperados dessa noite, a incerteza em que se
achavam os esculcas sobre o que succedia no arraial, a rapidez com
que se passara esta scena e, sobretudo, a audacia e o tom imperativo
com que o desconhecido falara não haviam dado logar á reflexão e ás
suspeitas. Mas as palavras do soldado foram para todos um raio de luz:

«Tens razão, buccellario:--atalhou o capitão da decania.--Fazei-os
parar.»

Os tres, que já íam a meia encosta, ouviram muitas vozes
clamar:--esperae!

«Somos perseguidos!--disse em voz baixa aquelle que ficara juncto da
donzella emquanto o outro falava com os vigias.

«Está salva!--respondeu o companheiro, que parecia ter concentrado
todos os seus cuidados n'um pensamento unico, a fuga d'Hermengarda.

Duas frechas lhes sibillaram então por cima das cabeças.

«Covadonga e Pelagio!--gritou o que proferira as ultimas palavras.
Eram chegados á raiz do monte, juncto ao qual uma planicie inculta e
cuberta d'urzes se estendia até ir topar com os bosques que povoavam os
primeiros cabeços das serranias septemtrionaes.

A esta voz, lá na orla da floresta, ao cabo do sarçal, surgiram de
repente uns reflexos metalicos, que se agitavam trémulos, semelhantes
á phosphorencia de um marnel por noite sem lua. Depois, o grito
de--Covadonga e Pelagio--foi repetido daquelle lado da gandra, como
respondendo ao que soltara o cavalleiro.

«São os nossos valentes irmãos--disse ao companheiro o que falara com
os decanos das tiuphadias transfretanas.--São nossos irmãos, que nos
esperam. Tu, Sancion, guiarás ao meio delles a nobre irman do duque de
Cantabria. Entretanto eu reterei aqui os miseraveis renegados, que já
descem do outeiro a perseguir-nos; retê-los-hei emquanto alcançaes a
entrada do bosque e vos embrenhaes na serrania, seguindo ao norte. A
agrura das montanhas e a profundeza dos valles das Asturias demorarão
os inimigos, quando eu haja de perecer e não podér embargar-lhes os
passos. Ide-vos.»

«Não perecerás sem mim, cavalleiro negro:--replicou o fero
Sancion.--Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cegamente
emquanto não salvassemos a irman de Pelagio. Mas, apenas alcançar a
orla da floresta onde mandaste esperar os nossos dez companheiros,
voltarei com todos os que me quizerem seguir. Para guiar a filha de
Favila bastam dous guerreiros: o resto não bastará, talvez, a reter
durante o tempo necessario para a fuga a turba dos infiéis que se
approxima.»

E, sem esperar a resposta do cavalleiro negro, Sancion adiantou-se,
dizendo á donzella, que apenas podera perceber algumas palavras
truncadas da conversação dos dous:

«Partamos!»

E a galope, acompanhado d'Hermengarda, brevemente se alongou pela
vereda torcida, que se distinguia no meio das moutas, como beta
alvacenta estampada no tapete escuro das sarças.

A attenção do cavalleiro negro, que os seguira com os olhos, foi,
porém, distrahida para o outro lado pelo tropeiar, já pouco distante,
dos corredores transfretanos, que a toda a brida se acercavam delle.
Era chegada a occasião de mostrar o extremo do seu esforço.



XV

AO LUAR


     Das brenhas através affugentando-os,
     C'o a rapida carreira á ponte impelle-os.

                             _Officio Mosarabe--Hymno de S. Torquato._


Os soccorros dados immediatamente a Abdulaziz tinham-lhe restituido o
sentimento da vida. O clarão da sua tenda, que ainda ardia a poucos
passos do logar para onde o haviam transportado, foi a primeira cousa
que lhe feriu a vista ao descerrar os olhos do lethargo em que estivera
submerso. Esse facho desmesurado, cujo fóco vermelho lhe apparecia
cuberto de vasta cupula de fumo negro, o crepitar do incendio, o
rumor e alarido do arraial e a inquietação que se lia nos gestos dos
que o rodeiavam retraçaram-lhe subitamente no espirito a scena que
se passara, pouco antes, naquelle pavilhão incendiado. Era um quadro
complexo e terrivel; e o primeiro signal de vida que o amir deu foi um
grito d'horror e desesperação. Alçando violentamente o corpo, ficou
assentado sobre o almatrah em que estava deitado. Com o rosto livido e
tincto do sangue que lhe corria da fronte e o olhar espantado e feroz,
hesitar-se-hia ao vê-lo, se esse vulto era o de um homem vivo, se o
de um morto que, afastando o sudario, se fosse a erguer da tumba para
revelar algum dos temerosos mysterios que encerra a apparente quietação
do sepulchro. Parecia que o aspecto do amir convertera em estatuas
todos os circumstantes: a immobilidade era completa, e o silencio
profundo.

Mas uma e outra cousa duraram apenas rapido instante. Com a voz rouca e
affogada, o arabe rugia:

«Segui-o! segui o infiel!... As suas armas são negras e semelhantes
ás dos guerreiros d'Al-Sudan... A melhor cidade do Gharb e a mais
bella das minhas escravas a quem m'o trouxer vivo aqui. Todos!...
Ide, trazei-m'o vivo! Prestes, cheiks, walis, kaiyds, cavalleiros do
propheta! Prestes! correi após o meu assassino!»

As palavras de Abdulaziz revelavam o delirio da sua alma; cheiks,
walis, e kaiyds olharam tristemente uns para os outros e não fizeram um
unico movimento.

«Que! Não me obedeceis? Não obedeceis ao filho de Musa--exclamou o
amir--porque a sua voz não soa no meio das trombetas e tambores; porque
elle não cinge a espada, nem cavalga o seu corcel de batalha? Sem mim,
atterram-vos as solidões das montanhas? Cheiks do Sahará e de Barca,
walis d'Andalús, kaiyds e almocadens do exercito dos crentes... sois
covardes e desleaes. Quando corre este sangue, vós não sabeis vingá-lo!»

«Não somos desleaes nem covardes, Abdulaziz:--interrompeu o mancebo
Abdallah, o unico dos chefes arabes que ousava replicar ao amir nos
seus violentos accessos de furor.--Mas como queres que te obedeçamos,
se não sabemos de quem te havemos de vingar? De um individuo ou de
milhares delles; dos adoradores de Deus ou dos infiéis nazarenos; de
nossos irmãos ou de nossos inimigos, não nos importa! Terás a vingança
que pedes, inteira quanto mãos d'homens a podem dar. A torrente dos
teus cavalleiros espera, apenas, que profiras um nome e apontes um
logar, para correr destruidora e irresistivel. Não deves antes d'isso
condemnar-nos.»

«Quereis um nome e um logar?--interrompeu o amir.--Ainda, pois, não os
adivinhastes? Pelagio e as montanhas do norte. Lá, lá!... Era elle ou
um demonio o que me feriu... Porque?... Quando?... Oh, agora me lembra.
Ía possuí-la, e roubaram-m'a! Por alto preço pagarão os nazarenos
d'Al-Djuf tanta audacia. A cavallo os almogaures do deserto...
Persegui-o até o encontrardes. Mas vivo... quero-o vivo em minhas mãos!
Ai daquelle que o matar!»

Alguns dos cheiks íam já a saír da tenda para executar as ordens do
amir. Um brado subito deste os fez parar.

«Não!... Não partireis sem mim! Quero acompanhar-vos; hei-de
acompanhar-vos pelas brenhas e desvios; quero assistir á carnificina
desses malaventurados que ainda resistem aos decretos de Deus. É
preciso que em breve estejam nas minhas mãos Pelagio e sua irman.
Ambos!... Que me tragam ambos!»

D'ahi a pouco, umas andas forradas de telas preciosas recebiam
Abdulaziz, conduzido para alli sobre o mesmo almatrah ensanguentado
em que os medicos judeus lhe haviam ligado as feridas. Rodeiavam as
andas os cavalleiros negros de Al-Sudan. Duzentos bereberes, filhos
das serranias do Atlas, estavam, tambem, em volta dellas: estes deviam
transportá-las a gyros pelos alcantis das Asturias. As renques de
tendas alvejantes, ponteagudas, formando uma como vasta cidade, que, ao
subir da lua, davam ao arraial o aspecto de um cemiterio do oriente,
sem os cyprestes funebres e esguios; toda essa multidão de pavilhões
brancos, semelhantes a um mar de pyramides, havia desapparecido, e,
apenas, o luar, batendo nos ferros das lanças dos esquadrões cerrados
e na geada que cahia sobre os turbantes dos cavalleiros, refrangia
trémulo um clarão prateiado.

E o sussurro que se ouvia entre tantos milhares de homens era, apenas,
o murmurio das respirações oppressas pelo frio nocturno e o resfolegar
dos ginetes, aspirando o nevoeiro humido que se alevantava da terra.

Mas lá, na vanguarda, para o lado das atalaias do norte, d'onde se
descortinavam os topos recortados das montanhas sobre o chão claro
do céu, como fileira de gigantes petrificados durante uma dança de
embriaguez, tão phantasticos eram os seus contornos, ouvia-se o
ruído alto e indistincto do cruzar de muitas vozes, do tropeiar de
muitos cavallos: viam-se lampejar as armas nos visos dos dous ultimos
outeiros que por aquella parte rodeiavam o campo, e agitarem-se ondas
de vultos humanos e sumirem-se, onda após onda, como se os devorasse
voragem aberta de subito debaixo dos seus pés: eram os cavalleiros que
transpunham a eminencia. O exercito, detrás daquelles dous outeiros,
que formavam como um ponto unico, vinha successivamente engrossando até
o logar em que estava Abdulaziz. Parecia um desmesurado triangulo de
ferro, a ponto de ir bater na muralha da serrania, que, vestida com a
sua armadura de selvas, esperava o embate daquelle disforme vaivem, que
já começava a oscillar ante ella.

Uma scena horrenda se passava, entretanto, além das atalaias, no
extenso sarçal que se estendia até o sopé das primeiras montanhas. Os
soldados transfretanos tinham-se lançado pela encosta abaixo atrás dos
fugitivos. Ao chegarem á planicie, um dos tres desconhecidos estava
diante delles, esperando-os quedo no meio da estreita trilha aberta
por entre as urzes. A acha d'armas goda e a cadeia que lh'a prendia ao
braço reluziam unicamente naquelle vulto, cujo saio e cavallo negros e
cujo silencio profundo faziam lembrar um desses espectros errantes alta
noite pelos logares desertos.

Os outros dous vultos galopavam a alguma distancia, encaminhando-se
para a orla do bosque, onde continuavam a reverberar reflexos de armas
polidas.

«Quem és tu?--disse um dos capitães das decanias, dirigindo o cavallo
para o vulto negro.--Quem és tu, que ousaste enganar os atalaias do
campo d'Abdulaziz, os guerreiros do conde de Septum?»

«Sou um homem que aínda não renegou nem da cruz, nem da Hespanha; um
homem que não acceitou o ouro dos barbaros para ser o assassino covarde
de seus irmãos.»

«Miseravel, que ajunctas ao engano a insolencia!--rugiu o decano,
alçando a espada.--As derradeiras palavras de orgulho e rebeldia acabam
de sair-te dos labios.»

Ultímas palavras foram, porém, as do decano: a borda gyrou sibilando
no ar, e o guerreiro transfretano cahiu para o lado morto, como se o
fulminara o raio.

Com um grito de horror e de colera, os que o seguiam precipitaram-se
para o desconhecido.

Rodeiado de quasi vinte homens, o cavaleiro negro repetia apenas uma
parte das gentilezas que practicara na fatal jornada do Chryssus. A
cada golpe da borda respondia um gemido de moribundo; depois, uma
injuria ameaçadora dos que ficavam; depois, um rir de desprezo do
cavalleiro, e, d'ahi a pouco, um novo gemido d'alma que se despedia da
terra. O tropel dos pelejadores rareiava de instante a instante.

Mas os que expiraram não ficarão sem vingança. Os cabos das decanias,
antes de seguirem os fugitivos, tinham enviado um buccellario que
relatasse a Juliano o que succedera na atalaia e como elles íam no
alcance daquelles a quem irreflectidamente haviam dado passagem. O
buccellario fora encontrar o conde juncto de Abdulaziz. A sua narração
e o que se passara na tenda do amir eram dous factos que mutuamente
se explicavam. Os esquadrões mais bem encavalgados foram despedidos
logo em seguimento dos fugitivos. Na idéa de que só Pelagio podia ter
audacia bastante para vir accommetter o filho de Musa na sua propria
tenda, os capitães do exercito mosselemano não duvidaram um momento de
que fosse elle o desconhecido. Colhendo-o ás mãos antes de se unir aos
seus montanhezes, o exterminio destes sería facil empreza. Assim, os
melhores almogaures deviam perseguil-o sem descanço nem treguas até o
captivarem. Sendo assás numerosos para resistirem a qualquer recontro
inesperado dos godos das Asturias, bastaria que o grosso do exercito
os seguisse de perto para fazer que a victoria fosse indubitavel e
completa.

Uns após outros, os esquadrões dos almogaures desciam já dos outeiros:
o ruído do combate e o brilho das armas serviam-lhes de guia. Pareciam
rolar pela encosta e, cegos na carreira, atufavam-se no mato, que
estalava debaixo dos leves pés dos ginetes arabes. O cavalleiro viu-os
e pensou. Esperar a pé firme milhares d'homens não era esforço, era
loucura. Além disso, os seus companheiros deviam ter-se já embrenhado
nas selvas com a irman de Pelagio. Até ahi não fizera mais do que
defender-se dos soldados transfretanos que o cercavam; mudando,
porém, da defensão para o commettimento, arrojou-se contra os seus
adversarios, e em poucos instantes os que não cahiram ante a acha
d'armas foram constrangidos a fugir, buscando amparar-se no meio dos
esquadrões que se approximavam.

Então o cavalleiro deu volta. A senda alvacenta que se estirava por
entre o mato até a floresta começou a embeber-se-lhe debaixo dos pés
do ginete. Á vista, assemelhava-se a um rolo de fita, estendido e
retesado por momentos, que, solto, busca, volvendo-se de novo, a sua
curvatura anterior. A rapidez da corrida era quem o podia salvar: a
dianteira dos almogaures arabes hesitara vendo recuar tantos homens
diante de um homem só; porém, ao retroceder do cavalleiro, lançavam-se
despeiadamente após elle para o alcançarem antes que chegasse ao bosque.

Mas a distancia que os separava era grande, e os arabes, lançando-se
ás cégas por entre as sarças e enredando-se nellas, retardavam-se
a si proprios e augmentavam essa distancia. A sua alarida, que ía
retumbar ao longe nas anfractuosidades da serra, ajudava o esporeiar do
guerreiro com o espanto que produzia no agil e robusto ginete.

Já bem perto do extremo da selva, o cavalleiro pôde distinguir
uns vultos que pareciam espera-lo. Ao seu bradar--Covadonga e
Pelagio!--respondeu o mesmo brado, proferido por uma voz retumbante.
Conheceu-a: era a de Sancion. O fero gardingo cumprira a sua promessa.
A despedida dos christãos do campo de Abdulaziz devia ficar escripta
com letras de sangue na historia dos triumphos do Islam.

Chegando á orla do bosque, as primeiras palavras que o cavalleiro negro
soltou foram dirigidas a Sancion:

«Porque voltastes sem vo-lo eu ordenar, vós os que tinheis jurado
obedecer-me em tudo? Onde está a irman de Pelagio?»

«Segue os desvios da serra: respondeu Sancion. Astrimiro e Gudesteu
a acompanham: Hermengarda está salva. Só até este ponto nos ligava o
juramento que démos. Foste nosso capitão: agora cessaste de o ser.
Homens livres n'uma terra serva, queremos combater onde tu combates,
morrer se tu morreres. Ao menos--accrescentou em tom amargo--não
poderás dizer de novo que foste o ultimo no pelejar em quanto os
valentes fugiam.»

«Louco!--exclamou o cavalleiro negro.--Juncto do Chryssus a Hespanha
pedia aos seus filhos que morressem sem recuar: aqui é tambem a patria
que exige dos seus ultimos defensores que não se votem a morte inutil.
Fujamos! vos digo eu: porque a fuga não póde deshonrar aquelles que
mil vezes tem provado quanto desprezam a vida. Vede... Não são apenas
alguns corredores que nos perseguem: são esquadrões e esquadrões
d'agarenos que transpõem após nós a assomada.

Mas elles não o escutavam: Sancion, seguido dos seus nove companheiros,
investia com os arabes, que tinham entretanto chegado.

Semelhante á segure, entrando no amago do carvalho, sob os golpes
do robusto lenhador, aquelle punhado de homens, a cuja frente se
achava Sancion, penetrou no massiço da cavallaria arabe. O ferir das
espadas nos saios e elmos retiniu n'um som estridente, e a alarida dos
sarracenos foi cortada por momentaneo silencio: depois, ouviram-se
alguns gemidos abafados, a que succederam novos gritos de ameaça e
furor e o bater e o reluzir trémulo do ferro, cruzando-se com o ferro,
e o tropeiar confuso dos ginetes em recontro bem travado. Os arabes
haviam parado diante de tanta ousadia. Mas, logo que o primeiro espanto
passou, os dez guerreiros christãos, accommettidos por todos os lados,
começaram a recuar. O cavalleiro negro, que ficara quedo, disse-lhes
então:

«Quizestes tentar o Senhor com uma façanha inutil, e o Senhor vos
abandona. Salvae as vidas! Exige-o o desaggravo da cruz e a liberdade
da Hespanha!»

E pondo-se ao lado de Sancion fez gyrar a sua borda destruidora no
meio dos infiéis. Naquelle impeto os inimigos tambem recuaram, e o
cavalleiro, aproveitando este rapido instante, proseguiu:

«Aos que se envergonham de poupar a vida, para a perder com gloria
quando o dia do sacrificio chegar, darei eu o exemplo! Podeis dizer aos
nossos irmãos que o primeiro em fugir foi aquelle que nunca fugiu; foi
o cavalleiro negro!

E, voltando as costas aos agarenos, internou-se na espessura.

Habituados a considerar o desconhecido como um ente mysterioso e
extraordinario, os guerreiros de Sancion deram volta, e o orgulhoso
gardingo viu-se obrigado a imitá-los.

Ei-los vão! Endireitando a carreira para o lado do norte, dirigem-se
após Hermengarda, emquanto os almogaures arabes, guiados pelo ruído
dos ginetes, os cerram de perto. Os esquadrões, penetrando na selva,
assemelhavam-se a uma serpe disforme, que se desenrolava, colleiando
e estirando-se por entre o arvoredo, e que de momento a momento
ameaçava tragar os fugitivos, os quaes mal podiam conservar uma pequena
distancia entre si e os seus implacaveis perseguidores.

A lua passava então nas alturas do céu. O ar, postoque frio, estava
manso e diaphano. Era uma formosa noite de inverno; mais formosa que
as socegadas noites do estio. As arvores, na maior parte desfolhadas,
deixavam o luar, por entre os ramos despidos e tortuosos, desenhar no
chão figuras extranhas, que vacillavam indecisas: os robles nodosos
e calvos, misturados com os rochedos pyramidaes, que se alevantavam
irregulares e phantasticos nas arestas das encostas ingremes, nas
lombadas penhascosas das serras, pareciam fileiras de demonios,
caminhando de roldão a despenharem-se nos valles ou dançando nos visos
das alturas. Os cavalleiros, correndo á redea solta, sentiam coar-lhes
nas veias involuntario terror, augmentado pelo estrupído soturno da
cavallaria sarracena, que soava e ía morrer a grande distancia n'um
quasi imperceptivel sussurro.

A furia da carreira crescia ao passo que os fugitivos se embrenhavam na
maior espessura da floresta. Durante algum tempo, elles tinham podido
descortinar os pincaros das montanhas e, lá muito ao longe, os mais
altos cabeços do Vinnio, que reflectiam o luar no seu manto prateiado
de neve.

Mas a selva já começa a rareiar, e os ginetes a resfolegarem com mais
violencia: d'instante a instante os cavalleiros christãos, espreitando
as estrellas do horisonte, que lhes servem de guias, vêem fugir
aquella teia enredada, que as franças das arvores lhes affiguram como
lançada sobre o chão claro do firmamento. Menos frequentes, as bastas
e perennes folhagens dos medronheiros passam como globos negros, que,
elevando-se a pouca altura da terra, voam despedidos, por um e por
outro lado, para trás delles. É que os onze guerreiros principiam a
galgar as alturas que são como a base irregular das montanhas, como o
pedestal commum d'aquelles obeliscos da creação. O galope dos corceis
dá um som aspero de ferro batendo em pedra, e o alvejar desta revela
que as torrentes passaram por lá e arrastaram a relva e os musgos que a
humidade fizera nascer no outono sobre o pó, accumulado nos barrocaes
pelas ventanias do estio. Naquelle solo pedregoso e revolto torna-se
mais difficultosa a fuga, e o impeto da carreira affrouxa visivelmente.
Os arabes começam a saír d'entre os arvoredos e a approximar-se dos
christãos. Emquanto estes tenteiam a medo o chão malgradado, que lhes
rola debaixo dos pés dos cavallos, porque para elles o tropeçar, o
vacillar é a morte, os seus numerosos perseguidores, attentos só a
alcançá-los, galgam por cima do desgraçado almogaure que, derribado
pelos proprios companheiros, expira sem combate, sem gloria e sem
que a perseguição dos fugitivos deixe por isso de ser, como até ahi,
incessante, implacavel, vertiginosa.

Depois de subirem a encosta, o cavalleiro negro e os que o seguiam
viram alongar-se diante delles uma chapada plana, em cujo topo a
serra se alteiava de novo, com os seus mil accidentes de cordilheiras
cortadas, de algares profundos, de gargantas selvosas, ao lado das
quaes os picos agudos se atiravam para o ar ou pendiam sobre os
abysmos e torrentes. A natureza, mais rude naquellas paragens, tinha
um aspecto soturno, vista assim, ao perto e á luz da lua: era como um
oceano tempestuoso, onde todas as gradações da morte-cor se confundiam
e misturavam, desde a brancura desbotada e pallida do rochedo até a
pretidão fechada dos pinheiros retinctos nas sombras da noite.

E por aquella dilatada chan os onze esforçados largam redeas aos
ginetes e ensanguentam-lhes o ventre com o esporeiar incessante: o
ruído do proprio correr já não o sentem; confunde-se no estrépito do
esquadrão d'arabes que de mais perto os segue. A vingança vai-lhes no
alcance; e, se algum volve atrás os olhos, aquelle turbilhão ennovelado
que rola após elles, negro, rapido, tortuoso, composto de centenares
de vultos, cujos olhos affogueiados reluzem nas trevas, cujos dentes
alvejam como os do javali irritado, assemelha-se-lhes a uma legião de
demonios, e a um rir infernal o tinir das espadas, o resfolegar dos
cavallos, e o murmurar dos cavalleiros, que parece entoarem-lhes já o
hymno da morte.

Na extensa chapada, tanto a fuga como a perseguição eram um phrenesi,
um delirio. Christãos e mosselemanos desappareciam por entre as sarças
cubertas de orvalho, e o ar, dividido violentamente, zumbia-lhes em
roda, como um gemido contínuo. Christãos e mosselemanos punham o
extremo da diligencia nesta ultima tentativa. Além da planicie, os
alcantis e as selvas gigantes eram a esperança de uns, o desalento
d'outros. Alli, os precipicios cortavam subitamente os caminhos
abertos pelas feras nas balsas, e ao cabo de valle fundo os rochedos
fechavam imprevistamente a saída: aqui, a senda tortuosa ía morrer
na torrente; lá, a torrente em catadupa. Os godos, affeitos áquelles
desvios alpestres, sabiam-no; os arabes adivinhavam-no ao descortinarem
o espectaculo que tinham ante si, essa especie de cahos nascido das
grandes convulsões do globo na sua vida de muitos seculos, que a baça
claridade da noite tornava ainda mais phantastico.

Emfim, os christãos atravessam a campina e começam a embrenhar-se
nas solidões das mais agras montanhas. Os agarenos redobram então de
energia; mas debalde. Poucos passos medeiam entre uns e outros, e
os fugitivos sentem já o resfolegar dos cavallos e o respirar alto
dos inimigos; mas esse espaço não se encurta. Ahi, parece estar de
permeio o braço da providencia, que quer salvar os defensores da cruz.
Furiosos, esquecidos da vontade de Abdulaziz, que exige para pasto dos
tormentos aquellas poucas vidas, os guerreiros do amir despedem de
longe as lanças, que vão pela maior parte cravar-se nos troncos dos
robles. Duas, porém, silvam por entre os fugitivos; ao mesmo tempo dous
ginetes param, vacillam e cahem. São os de Viterico e Liuba, os mais
moços dos onze guerreiros. Sem transição, sem esperança, o espectro da
morte se lhes ergue diante dos olhos fatal, incontrastavel.--Oh minha
mãe, vem receber teu filho!--foram as unicas palavras que proferiu
Viterico. Era ás recordações maternas e á saudade que esse ultimo
grito de um moribundo cheio de vida se dirigia. Liuba tambem murmurou
um nome; mas só elle e Deus o ouviram. Era o da sua amante, violada
e morta na tomada d'Emerita. No transe final, aquella alma pura não
revelara aos homens o mysterio do amor, da desesperação e do sepulchro.
Orpham no mundo, separado daquella em quem empregara o affecto de um
coração virgem e que tão tristemente perdera, Liuba, solitario sobre
as ruinas da Hespanha e sobre as ruinas da propria existencia, era o
primeiro em se arrojar aos perigos; e nessa noite, emfim, chegava para
o desgraçado a hora appetecida do repousar eterno.

Debalde os almogaures dianteiros tentaram suster a corrida, para colher
ás mãos os dous godos derribados. Impellidos pelos que os seguiam e
arrastados pela propria furia, galgaram por cima delles; e quando, aos
gritos dos almocadens, ao soffreiar dos cavallos, ao baralharem-se os
esquadrões em mó apinhada e ao abrirem aos lados, poderam erguê-los
do chão onde jaziam, as suas almas tinham subido ao céu, e os seus
cadaveres, esmagados, sanguinolentos, desconjunctados, eram duas cousas
informes, em que apenas se divisavam vestigios de vultos humanos.

Logo que Viterico e Liuba cahiram, um movimento incerto de hesitação
affrouxara um pouco a fuga dos seus companheiros; mas a voz
de--ávante--proferida pelo cavalleiro negro, lhes troou nos ouvidos, e
essa voz foi seguida de algumas palavras travadas de lagrymas, de que
davam visivel signal o trémulo e cortado com que eram proferidas:

«As almas de dous martyres sobem neste momento ao céu: elles orarão
ao Senhor para que salve a liberdade e a vida de seus irmãos, que só
querem uma e outra para combaterem pelos altares do Christo.»

Dictas estas palavras, o cavalleiro negro cravou as esporas no ventre
do ginete e repetiu:--ávante!--

E os outros godos seguiram-no sem hesitar mais: a carreira tinha-se
convertido n'uma especie de furia louca e desesperada.

Os almogaures, desordenados já, retidos pelas diligencias que faziam
para alçar os dous cadaveres, e embaraçando-se uns aos outros, viram
desapparecer os godos n'uma garganta estreita, entre rochedos e balsas,
emquanto os almocadens lhes bradavam tambem--ávante!--

E os primeiros que poderam obedecer-lhes atiraram-se por aquella
especie de fojo cavado pelas torrentes de muitos seculos; mas as
sinuosidades da penedia encobriam-lhes os godos, e, obrigados a parar
frequentemente para conhecerem a que parte elles se encaminhavam, cada
vez sentiam mais remoto e tenue o tropel dos ginetes.

Dir-se-hia que as palavras do cavalleiro negro haviam sido propheticas:
o sangue dos dous martyres fora, talvez, o preço da redempção dos
fugitivos.



XVI

O CASTRO ROMANO


     A desconforme profundeza do alto precipicio ahi está patente: elle
     gera terror no homem que o contempla de cima.

                                    Valerio Bergidense--_Explanações_.


A hora de amanhecer approximava-se: o crepusculo matutino alumiava
frouxamente as margens de rio malassombrado, que corria turvo e
caudal com as correntes do inverno. Apertado entre ribas fragosas e
escarpadas, sentia-se mugir ao longe com incessante ruído. A espaços,
destorcendo-se em milhões de fios, despenhava-se das catadupas em
fundos pegos, onde refervia, escumava e, golfando em olheirões,
atirava-se, massiço e atropelando-se a si mesmo, pelo seu leito de
rochas, até de novo tombar e despedaçar-se no proximo despenhadeiro.
Era o Sallia, que, de quéda em quéda, rompia d'entre as montanhas e
se encaminhava para o mar cantabrico. Perto ainda das suas fontes, o
estio via-o passar pobre e limpido, murmurando á sombra dos choupos e
dos carvalhos, ora por meio das balsas de carrascos e silvados, que se
debruçavam, aqui e acolá, sobre a sua corrente, ora por entre penedias
calvas ou corregos estereis, onde em vão tentava, estrepitando,
recordar-se do seu bramido do inverno. Mas, quando as aguas do céu
começavam nos fins do outono a fustigar as faces pallidas dos cabeços,
a ossada núa das serras, e a unir-se em torrentes pelas gargantas e
valles, ou quando o sol vivo e o ar tepido d'um dia formoso derretiam
as orlas da neve que pousava eterna nos picos inaccessiveis das
montanhas mais elevadas, o Sallia precipitava-se como uma besta-fera
raivosa e, impaciente na sua soberba, arrancava os penedos, alluía
as raizes das arvores seculares, carreiava as terras e rebramia com
som medonho, até chegar ás planicies, onde o solo o não comprimia e
o deixava espraiar-se pelos paúes e juncaes, correndo ao mar, onde,
emfim, repousava, como um homem completamente ebrio que adormece,
depois do bracejar e lidar da embriaguez.

Na margem direita do rio, que então passava grosso de cabedaes por
um dos valles que retalham as montanhas das Asturias no seu pendor
occidental, viam-se ainda no principio do oitavo seculo as ruinas
de antigo castro ou arraial romano. Jaziam estas em uma especie de
promontorio de rochas pendurado sobre a veia d'agua e talhado quasi
a pique por todos os lados. Na borda de espaçoso lagedo, que formava
como uma eira irregular, avultavam fragmentos de grossos pannos de
vallos de pedra, e no alto de uma ladeira ingreme que conduzia á
entrada daquelle circuito achavam-se os vestigios de uma porta de
campo, provavelmente a pretoria: a decumana, fronteira a ella, fazia,
fóra do vallo, um limitado terreirinho, em cujo topo, e a bastante
profundidade passava o rio negro e veloz com mugido contínuo. Ainda na
borda do rochedo aprumado sobre a agua se enxergavam alguns orificios
profundos, que mostravam terem servido para embeber as traves de ponte
lançada para a outra margem, tambem elevada e penhascosa. A situação
daquellas ruinas, a fórma quasi circular dos vallos e a sua disposição
interior evidentemente indicavam um desses hibernáculos ou arraiaes do
inverno levantados pelas legiões de Roma nas suas tentativas repetidas
e quasi sempre inuteis para subjugar os celtiberos das cordilheiras da
Cantabria e das Asturias.

A ponte romana, porém, se outr'ora ahi existira, haviam-na consumido as
injurias das estações. Em logar della, os habitantes daquelles desvios
tinham tombado através do Sallia um roble gigante, um dos filhos
primogenitos da terra que nos seus dias seculares fora enredando as
raizes nos seios da pedra, até irem beber no leito do rio. A arvore
monstruosa, derribada por cima da corrente, caira sobre o alcantil
fronteiro e vivia de uma vegetação moribunda, que mal podia conservar
através do cepo, arrancado quasi inteiramente do sólo. Calva e musgosa,
apenas alguma vergontea, que lhe rompia da enrugada epiderme na
primavera para morrer no estio, dava signal de que o rei dos bosques
ainda não era inteiramente um cadaver. Mas essa pouca vida bastava para
que a obra rude dos barbaros montanheses durasse por mais annos que a
edificação regular e solida dos antigos metatores ou engenheiros das
legiões romanas. Para aquelles, todavia, que não estivessem affeitos a
perseguir a zebra pelas encostas escarpadas, a galgar os precipicios
após a cabra montez e a combater com os ursos e javalís nas bordas dos
fojos, sem se lhes turbar a vista; para esses taes a ponte vegetal dos
asturios sería um sitio arriscado. No meio do passo estreito, irregular
e cylindrico, sentindo e vendo mugir e desapparecer debaixo dos pés
a corrente inchada e turva, quasi impossivel lhes fora não vacillar:
mas ao vacillar seguir-se-hia o despenhar-se, e ao despenhar-se a
morte. Á altura da quéda e ao impeto das aguas ajunctava-se o agudo dos
rochedos, entre os quaes o rio, escumando, se estorcia e despedaçava.

Ao partir de Covadonga e ao dirigir-se para o campo de Abdulaziz,
os cavalleiros christãos tinham rodeiado o Vinnio, seguindo mais ao
oriente; mas, habituados nas suas contínuas correrias a discorrerem
pelos atalhos e carrís das montanhas, de antemão previam que, no
caso de levarem a cabo a temeraria empreza que commettiam, a agrura
da serra sería a sua melhor defesa contra a perseguição dos arabes.
Assim delinearam o caminho que deviam seguir na fuga, vindo atravessar
o Sallia, já perto do seu escondrijo, naquella especie de passo
fortificado, conhecido ainda entre os godos pelo nome de _Castrum
Paganorum_ ou arraial dos pagãos.

Foi justamente ao tingir-se o céu da faixa avermelhada que precede
o surgir do sol que dous cavalleiros galgaram ao galope a ladeira
que dava accesso para as ruinas do castro romano. No meio delles,
cavalgando tambem um alazão agil e ao mesmo tempo robusto, uma dama
vestida de branco parecia mal poder já manter-se na sella, segurando-se
umas vezes ao arção, outras ás crinas fluctuantes do valente animal.
Eram Hermengarda e os seus dous guardadores que chegavam, finalmente,
ás margens do Sallia. Pouco devia tardar o instante em que a formosa
irman de Pelagio achasse, depois de tantos perigos e terrores, abrigo e
paz nos rudes paços de seu esforçado irmão.

Mas a corrida violenta e incessante por sendas montuosas e asperas
tinha exhaurido as forças da filha de Favila, como os successos por
que passara desde que partíra de Tárraco lhe tinham quasi anniquilado
as do espirito. Ao chegar ao meio daquelles restos do acampamento
romano sentia-se desfallecer de cansaço, ao passo que a febre e a
sêde lhe devoravam as entranhas. Os dous cavalleiros, olhando para
ella, viram-lhe, com a luz da alvorada, as faces tinctas de pallidez
mortal. Ás vezes, durante o caminho e, sobretudo, nos sitios mais
altos, quando as lufadas do norte acalmavam momentaneamente, percebiam
ao longe um debil ruído, soturno e contínuo, que se assemelhava ao
tropeiar de cavallos; mas havia horas em que apenas sentiam o estrepito
do galopar dos proprios ginetes, bem que o vento houvesse cahido de
todo na antemanhan. Inquietos, tambem, pela sorte dos companheiros que
tinham deixado atraz de si, resolveram parar no meio daquellas ruinas.
Salteiados de improviso pelos arabes, facil lhes sería transpôr a ponte
natural que tinham diante, e as poucas raizes que prendiam o moribundo
carvalho á margem opposta cederiam bem depressa aos gumes afiados
dos seus frankisks. Então o tronco da velha arvore se despenharia no
abysmo, e o leito profundo e escarpado do Sallia ficaria como uma
barreira entre elles e os inimigos.

Descavalgando, os dous guerreiros tomaram nos braços a irman de
Pelagio e foram recliná-la sobre um monticulo cuberto de relva e
musgos, que, pela sua situação no logar onde, provavelmente, ficava a
divisão entre o pretorio e a parte inferior do campo, dava indicios
de ser o assento das aras dos deuses, que os romanos usavam collocar
no meio dos arraiaes. Regelada exteriormente ao passo que o ardor
febril lhe queimava o sangue, Hermengarda, apenas tocou em terra, só
pôde pronunciar a palavra «sêde», cahindo amortecida sobre a relva
orvalhada. O unico signal que nella revelava a vida era o tremor
convulso que violentamente a agitava.

Emquanto Astrimiro subia ao vallo, de cujo topo se descortinava melhor,
postoque a breve distancia, o caminho que haviam seguido, Gudesteu
trabalhava em ajunctar alguns troncos de arvores e as folhas seccas
amontoadas pelos ventos do estio que as chuvas outonaes ainda não
tinham arrastado. Brevemente, o ar tepido de uma fogueira fez volver a
si a donzella: o cavalleiro offereceu-lhe um pequeno frasco de sicera
que desprendera do arção e que lhe restituiu algum vigor aos membros
entorpecidos. Depois, Gudesteu chamou o seu companheiro e disse-lhe:

«Os ginetes não podem passar além. Ide e lançae-os para o lado oriental
da montanha: elles buscarão o trilho acima das fontes do Sallia e
descerão a Covadonga.»

E Astrimiro, guiando os tres ginetes pela ladeira abaixo, affagou-os
um a um e, segurando-lhe as rédeas á ephippia, deu um silvo com soído
particular. Os ginetes fitaram as orelhas, aspiraram ruidosamente o
ar e partiram ao galope, por meio da selva, para o lado que Gudesteu
indicara.

Este, apenas os viu desapparecer, dirigiu-se para Hermengarda.

«É necessario, senhora,--disse elle--uma derradeira prova d'esforço:
é necessario partir já. Os nossos ginetes, ensinados a voltarem sós
ao campo christão do deserto quando os ardís ou os perigos da guerra
nos obrigam a abandoná-los, não causariam nem extranheza nem receio
ao apparecerem ahi sem seus donos, se não fossem as circumstancias
extraordinarias da nossa correria. Mas, quem poderá dizer ao duque de
Cantabria qual sorte nos coube na temeraria empreza que commettemos?
Quem, senão vós mesma restituida aos seus braços, lhe dará a certeza de
que estaes salva das mãos dos infiéis? Para nós, habituados a descer
precipicios e a salvar torrentes, aquella ponte estreita e selvatica é
facil de transpôr, galgando-a rapidamente e sem volver os olhos para o
abysmo. Invocae toda a energia da vossa alma, todas as vossas forças,
para vencer este ultimo obstaculo, e, dentro de poucas horas, veremos
os cabeços que rodeiam a caverna de Covadonga. Em leito de ramos
tomar-vos-hemos sobre nossos hombros na margem fronteira: homens livres
e gardingos, faremos mister de servos; porque sois uma dama e porque
sois a irman do nobre e valente Pelagio... Astrimiro, mostrae que o
risco só existe quando existe o temor.»

Então Astrimiro, olhando fito ante si, atravessou com passos firmes e
ligeiros por cima do tronco arredondado e nodoso, e, n'um relanceiar
d'olhos, achou-se do outro lado.

Hermengarda comprehendera bem a necessidade de colligir toda a robustez
da sua alma naquelle momento; mas, ao erguer-se, conheceu que seus
membros doridos e exhaustos quasi recusavam obedecer-lhe. Firmando-se,
todavia, no braço de Gudesteu, encaminhou-se para o terreirinho
exterior que se abria além dos vallos sobre a torrente. Ahi, antes
de chegar ao temeroso transito, ajoelhou e, alevantando as mãos e os
olhos ao céu, nem sequer se lhe viam mover os labios, embebida em
oração fervorosa e íntima. Com os seus trajos brancos e em completa
immobilidade, dir-se-hia que era um destes anjos curvados sobre os
lodams de capitel gothico, que, no frontispicio de cathedral, parecem
ser o symbolo da morada das preces, se os primeiros raios do sol,
cujo orbe mal despontava detrás das collinas, não revelassem nella a
vida, scintillando-lhe nos cabellos dourados e no véu de duas lagrymas
que lhe offuscava os olhos e começava a deslisar-se-lhe em dous fios
brilhantes ao longo das faces, onde o rubor da febre rompia por entre a
pallidez, como as papoulas rompem no meio da seara madura.

Depois de alguns instantes, alevantou-se de novo e encaminhou-se para o
roble, cujo topo monstruoso se assemelhava á cabeça calva de um gigante
que, inteiriçado, fincasse os pés na outra riba. Gudesteu seguia-a de
perto, estendendo os braços involuntariamente, como querendo sustê-la,
emquanto Astrimiro, tambem por um movimento machinal, em pé sobre as
raizes torcidas da arvore e curvando-se para diante, lhe offerecia a
mão robusta, como se a distancia lhe permittisse alcançá-la.

No momento em que já punha o pé sobre o tronco, o reflexo alvacento da
escuma, que fervia lá embaixo no meio do crepusculo frouxo do corrego
profundo, e o estrepito da torrente, espadanando por entre os musgos
e limos estampados nos pannos irregulares do despenhadeiro, fizeram
abaixar os olhos a Hermengarda para o abysmo, como uma fascinação
irresistivel, como um conjuro diabolico. Cravados naquelle horrendo
espectaculo, fitos, espantados, ella não os podia despregar desse
cahos infernal das aguas, que, redemoinhando ou jorrando contra os
rochedos, ora negrejavam, precipitando-se compactas para diante, ora,
repellidas, despedaçadas em ondas d'escuma, repuxando cruzadas no ar
ou espalmando-se nas faces da penedia, misturavam no seu confuso soído
um murmurar e rugir como de dôr, de colera, de desesperação, d'agonia,
que vozes humanas não saberiam ajunctar e que só póde ser semelhante
ao concerto de blasphemias dos condemnados, entoando o hymno atroz das
eternas maldicções contra Deus.

E Hermengarda sentia uma ancia vertiginosa de se atirar áquella
voragem; uma como attracção magnetica, voluptuaria, indizivel, a favor
da qual luctava um sentimento mysterioso e vago, mas que nem por isso
era menos ardente, ao mesmo tempo que alma e corpo a repelliam pelo
instincto e pelo amor da vida. Com as mãos contrahidas, a fronte
pendida e o olhar incerto de um moribundo, a donzella parecia haver
sido petrificada no momento em que dera a primeira passada para
transpôr essa meta, além da qual, unicamente, existia a esperança.

Observando o gesto da irman de Pelagio, Gudesteu viu que um instante
bastaria para anniquilar o fructo dos perigos até ahi corridos. Mais
de uma vez, antes que se habituasse á sua vida de foragido, passando
pelas bordas dos fojos, pelas arestas dos precipicios, elle proprio
sentira essa fascinação do terror, esse magnetismo da morte que costuma
subjugar-nos e attrahir-nos quando pelas primeiras vezes nos achamos
sobranceiros a algum abysmo; sentimento de voluptuosidade dolorosa,
que, paralisando-nos os movimentos, porque dobra em nós o terror, nos
salva, talvez, do suicidio, ao mesmo tempo que para elle nos convida
com attractivo inexplicavel.

O cavalleiro, segurando violentamente o braço da donzella, desfez
aquella especie do encanto fatal, obrigando-a a recuar alguns passos.
Então Hermengarda, como se acordasse de um sonho, murmurou: «Não
posso!»--E soluçava, e as lagrimas rolavam-lhe abundantes pelas faces
macilentas. Em tremor convulso, os joelhos vergavam-lhe, e teria cahido
por terra, se Gudesteu não a houvera sustentado.

Astrimiro, que vira o movimento do seu companheiro, atravessou de
novo a arriscada passagem. Um pensamento horrivel passou a ambos pelo
espirito: era que os arabes podiam chegar! Encararam-se mutuamente,
e cada um delles notou que o outro tinha o gesto demudado. Gudesteu,
volvendo a cabeça, lançou os olhos para a selva de que haviam saído,
porque lhe parecera ouvir um rumor abafado. Astrimiro, que crera ouvir
o mesmo, correu de novo ao vallo.

E o ruído soava, de feito. Os dous cavalleiros nem respiravam. Era um
tropeiar de cavallos á rédea solta: não havia que duvidar. Para elles
em alguns instantes se resumiu, então, um seculo de trances mortaes.

São nove: nove os que sáem da espessura, correndo desordenados, e
que se precipitam para as ruinas. São godos! Os largos ferros dos
frankisks lá reluzem, batendo-lhes sobre as coxas no rapido galope:
o lodo dos brejos ennodoa-lhes as armas escuras e pulidas. Ondeiam
eriçadas as crinas dos corceis, cujos peitos mosqueia a escuma,
cujos freios tinge o sangue. O mysterioso cavalleiro negro vem á
frente delles.--«Ei-los!--brada Astrimiro, com uma especie de alegria
phrenetica.--Estão salvos!»

«Salvos?!--interrompeu tristemente Gudesteu e, sem se mover, olhou para
Astrimiro e, depois, para Hermengarda, que sustinha nos braços.

«Perdidos! perdidos comnosco e como nós!--replicou em tom lugubre
Astrimiro, para quem a interrupção e o olhar de Gudesteu tinham sido um
raio de luz medonha. O Sallia era a linha traçada pela feiticeira com
a verbena magica, além da qual não passará jámais aquelle ante cujos
pés ella a riscou. O juramento que tinham dado e, mais do que isso, a
lealdade de guerreiros godos não lhes consentiam abandonarem a irman do
seu capitão; não lh'o consentiria o fero cavalleiro negro, esse homem
ou esse phantasma, cuja vida era um segredo, cuja vontade era de ferro,
cuja voz era um terror para inimigos e, para os seus, um decreto de
cima.

E os nove n'um relance transpuseram o valle, galgaram a ladeira
e atiraram-se de tropel ao meio das ruinas do arraial romano.
O cavalleiro negro foi o primeiro em desmontar; os outros oito
imitaram-no.

«Rapido, rapido!--disse elle--Lançae os cavallos para as brenhas,
e atravessemos o Sallia! Não ha um momento que perder, se queremos
salvar-nos.»

E ouviu-se um silvo accorde, unico, estridente de todos os
recem-vindos. Os ginetes soltos desceram de novo a ladeira, respirando
com violencia e seguiram a pista dos tres que pouco antes, ao sibillar
d'Astrimiro, se haviam embrenhado na floresta, seguindo ao oriente as
margens do Sallia.

O cavalleiro negro, porém, ao volver-se, recuou com um grito d'espanto,
que não pôde conter: fora naquelle momento que vira Gudesteu e
Hermengarda quasi desfallecida, que este amparava.

«Vós aqui?! Ainda aqui?!--exclamou elle, com gesto d'espanto misturado
de afflicção e perdendo a compostura solemne e altiva que soubera
até então conservar nas mais arriscadas situações, nos trances mais
dolorosos.--Prestes passae o rio. Os infiéis seguem-nos de perto, e os
seus esquadrões não tardarão a transpôr aquellas collinas. O Sallia é a
unica barreira que póde tolher os passos a esses corredores africanos,
iguaes em robustez e ligeireza aos nossos corceis das montanhas. Irman
de Pelagio!--accrescentou, dirigindo-se á donzella, que parecia alheia
ao que passava juncto della, volvendo d'instante a instante para a
borda do despenhadeiro um olhar de terror.--Irman de Pelagio, por
Deus, que cobreis animo! Dous dos mais valentes guerreiros da cruz lá
os deixámos despedaçados sob os pés da cavallaria arabe: estes que
vedes breve acabarão nos gumes dos ferros inimigos, se não podérem
salvar-vos. Juraram-no: hão-de cumpri-lo. Não vo-lo imploro por mim:
não quero; não posso querer de vós piedade nem recompensa; mas os meus
rogos são pelos irmãos d'armas do duque de Cantabria, pelos que têem
misturado com as delle as lagrymas do desterro, com elle tragado o pão
negro do proscripto. Diante do Senhor não vos pediriam conta do seu
sangue; não valera a pena: mas, quem sabe se não vo-la pedirá o Christo
pela sua religião, a Hespanha pela sua liberdade?»

Hermengarda não tinha ouvido ainda ao cavalleiro negro senão os sons
quasi inarticulados do seu grito de guerra: agora, porém, estas
palavras, proferidas em tom energico, mas com voz tremula, troaram-lhe
nos ouvidos, semelhantes á voz de alguem que na vida conhecera e
que o sepulchro, provavelmente, tragara. O terror que lhe tolhia os
membros redobrou com esta voz: por um impeto convulso de desesperação
encaminhou-se, todavia, com passos incertos para a ponte fatal; mas, ao
chegar a ella, recuou: tinha abaixado de novo os olhos para a torrente,
e de novo a torrente, como um sortilegio diabolico, a havia fascinado.

«Por tudo quanto haveis amado, cavalleiros da cruz:--exclamou ella
desvairada:--em nome do céu, abandonae-me! O desalento e o susto me
abrigarão no seio da morte da violencia dos infiéis. Não posso!... Não
posso vencer esse terrivel abysmo, que ha-de tragar-me!»

Os guerreiros de Pelagio, escolhendo aquella senda para a fuga, não
haviam calculado com um coração feminino, mistura d'esforço e timidez,
d'energia e de fraqueza, que será sempre para a philosophia um mysterio.

«Os arabes!--Esta palavra, cem mil vezes repetida na Hespanha, como o
dobrar por finado em paiz assolado da peste, soou atrás dos cavalleiros
apinhados juncto aos vestigios da porta decumana. Saira da boca de
Astrimiro, que, sem deixar o vallo, tinha a vista cravada nos visos dos
montes fronteiros, até cujas gargantas se dilatava a selva.

Os guerreiros abriram subitamente aos lados, e olharam para as cumiadas
da cordilheira coroadas de mosselemanos: os ferros pulidos dos
frankisks, que tinham pendentes dos pulsos por uma cadeia de ferro,
scintillavam levemente trémulos.

Só Hermengarda abaixou os olhos, e ajoelhou com as mãos erguidas no
meio delles, murmurando:--Não posso! Abandonae-me!»

Então o cavalleiro negro, tomando-a pela mão, correu a vista pelas duas
alas: no seu gesto havia a mesma expressão imperiosa e sinistra de que
se revestira quando em Covadonga embargara a saída de Pelagio.

«Qual de vós ousa tomar nos braços a irman do duque de Cantabria e
conduzí-la por cima do abysmo para a outra margem? Qual de vós ousa
jurar sobre a cruz da sua espada que sem vacillar o fará?

Houve um momento de silencio: todos os rostos empallideceram; todos os
labios calaram.

Um alarido de muitas vozes o interrompeu: eram os infiéis, que a meia
encosta haviam enxergado os fugitivos e que se atiravam para o valle.

«Não ha entre vós um que o ouse?--reperguntou o mysterioso guerreiro,
fitando o olhar successivamente em todos.--Vai seguro o que o tentar.
A entrada deste recincto é estreita, e os pagãos antes de chegarem
ao Sallia passarão por cima do meu cadaver. Direis depois a Pelagio
que sómente o cavalleiro negro lhe pede, a elle e a sua irman,
algumas lagrymas em memoria de um tiuphado de Witiza, que deixou de
viver... Chamava-se Eurico... Elle nos tenros annos ainda o conheceu
em Tárraco... Fruela, Gudesteu, e tu Sancion, qual de vós será o
mensageiro? qual de vós será o salvador d'Hermengarda?»

Todos calaram de novo; mas aqui não houve silencio: ouvia-se já o ruído
dos corredores sarracenos, bem de perto, no fundo do valle.

E, ao proferir o cavalleiro negro o nome de Eurico, a irman de Pelagio
soltou um gemido e deu em terra como se fora morta.

«Nenhum!--rugiu o guerreiro quasi suffocado de furor e de angustia: e,
alongando a vista pelo portal do recincto, viu alvejar os turbantes, e,
depois, surgirem rostos tostados, e, depois, reluzirem armas. Os arabes
começavam a galgar a ladeira. Astrimiro descera de um pulo do vallo.

A contracção d'agonia que neste momento passou nas faces do cavalleiro
negro, estendendo para o céu os punhos cerrados, não haveria ahi
palavras humanas que a pintassem. Não disse mais nada. Tomou nos braços
aquelle corpo de mulher que lhe jazia aos pés e encaminhou-se para a
estreita ponte do Sallia. Era o seu andar hirto, vagaroso, solemne,
como o de um phantasma: parecia que as suas passadas não tinham som;
que lhe cessara o coração de bater, e os pulmões de respirar.

Viram-no atravessar, lento como sombra; como sombra, lento, hirto,
solemne, internar-se com Hermengarda na selva da outra margem.

Era um corpo ou um cadaver que conduzia? Estava morta ou estava salva?

Sancion e os demais godos tinham ficado immoveis d'espanto e de susto.
Aquelle homem, menos habituado a transitar por meio dos precipicios das
montanhas, commettera um feito, para o qual lhes fallecera o animo. Mal
sabiam elles quanto os alcantis do Calpe eram mais asperos, os seus
despenhadeiros mais frequentes, os seus corregos mais fundos e quantas
vezes esse homem os havia galgado na escuridão d'alta noite, por entre
o redemoinhar e bramir do vento e das tempestades.

Foi por um momento rapidissimo que durou a immobilidade dos godos,
porque tanto bastou ao cavalleiro negro para transpôr a breve
largura do Sallia e sumir-se na floresta que, descendo das montanhas
fronteiras, vinha quasi tocar na borda dos alcantis pendurados sobre as
aguas.

Os dez guerreiros, uns após outros, galgaram ligeiros por cima do roble
nodoso, sem abaixarem os olhos para a especie de sorvedouro negro,
revolto, ruidoso, que, mugindo lá embaixo, parecia, com seu estrepito
violento, tentar attrahí-los e devorá-los.

Sancion foi o derradeiro a passar: a meio rio sentiu após si o tumulto
dos arabes que se precipitavam dentro dos arruinados vallos romanos.
Não titubeiou e seguiu ávante. Chegando á margem opposta, volveu os
olhos e viu que alguns dos inimigos punham pé em terra e, cegos na sua
furia, se arrojavam para a ponte fatal.

«Godos, aqui!--gritou elle; e o primeiro golpe do frankisk deu um som
baço, entrando nas raizes ainda vivas da velha arvore.

E, manso e manso, os agarenos, lançando-se ao comprido sobre o cepo
que estremecera ao golpe de Sancion e segurando-se ás cavidades do
velho tronco e ás asperezas do seu grosseiro cortex, se approximavam,
semelhantes ao estellio que se arrasta, nas ruinas de Balbek, ao longo
de columna tombada.

Christãos e infiéis fizeram silencio: era uma destas situações em que a
voz expira na garganta; porque o viver parece quasi paralisar-se.

E os arabes avançavam sempre, e os golpes das pesadas secures godas
batiam roucos e cada vez mais violentos e repetidos nas raizes que
estalavam, lascando; e já os olhos esverdeados de colera, faiscantes,
desvairados dos infiéis, cujas barbas negras varriam o tronco, se
encontravam com o olhar torvo de Sancion, curvo, vibrando golpes sobre
golpes, e cercado de alguns companheiros que o imitavam,--aquelles
a quem o consentia a apertura do sitio, emquanto os outros, com os
frankisks nas mãos, se preparavam para repellir os inimigos, que só um
a um poderiam transpôr a estreita passagem.

Subitamente estouram as ultimas fibras do lenho: a arvore monstruosa
despenha-se da sua base de pedra, escapa da riba fronteira, tomba pelas
pontas dos rochedos limosos, fa-las voar em rachas e bate sobre o dorso
da torrente, cujo ruído não póde devorar inteiramente o alarido dos
infiéis precipitados, que deixam os fragmentos das armas, dos vestidos
e dos membros pendentes dos bicos das rochas. As aguas, espadanando,
trepam em lençoes d'escuma pelas paredes anfractuosas do precipicio e
lambem o sangue que por instantes as tingiu. Depois, o grosso madeiro
fluctua, deriva pela corrente e lá vai, d'envolta com ella, em demanda
das solidões do mar.

Os arabes que enchem o recincto das ruinas recuam diante de tão
horroroso espectaculo: os godos enviam-lhes uma risada feroz de insulto
e desapparecem na espessura das brenhas que se dilatam até as raizes da
montanha d'Auseba, onde deve ser o termo da sua viagem.



XVII

A AURORA DA REDEMPÇÃO


     Desprezamos essa multidão de pagãos, e nenhum temor ha em nós.

                                    Sebast. de Salamanca--_Chronicon_.


O espectaculo que offerecia a caverna de Covadonga na noite immediata
áquella que se terminou com os successos das margens do Sallia era
mui semelhante ao dess'outra noite em que Pelagio recebera a nova do
captiveiro d'Hermengarda;--espectaculo semelhante, mas personagens,
em parte, diversas. Na vasta lareira proxima da entrada da gruta
e a que servia de chaminé uma larga fenda dos rochedos superiores
ardiam alguns cepos de carvalho, que, repassados do fogo durante uma
longa noite de novembro e abrazados até a medúlla, davam apenas uma
chamma tenue e azulada, cujo fraco esplendor se perdia na claridade
brilhante de cinco ou seis fachos encostados pelas paredes irregulares
da caverna. Do numeroso tropel de guerreiros que naquella memoravel
noite se tinham erguido á voz do moço duque de Cantabria, travando das
armas, apenas se viam agora, estendidos nos grosseiros leitos formados
das pelles de animaes bravios, dez cavalleiros, que no seu profundo
somno, no transfigurado do gesto e no desalinho dos trajos faziam antes
lembrar o jazer de cadaveres, que o repousar de vivos. Perto do lar
acceso, assentado em escabello tosco e com a cabeça encostada ao braço
firmado n'uma anfractuosidade do rochedo, via-se, tambem adormecido,
um guerreiro em cujo rosto os sulcos das rugas e o cavado das faces
davam, porventura, mostra de mais dilatada vida do que, na realidade,
era a sua. O somno parecia nelle unicamente o entorpecimento das forças
physicas exhaustas e não o repouso do espirito; porque, de quando em
quando, os membros se lhe agitavam por estremeção violento, ou se lhe
descerravam os olhos, e moviam os labios, como se tentasse falar; mas
sussurrava apenas alguns sons inarticulados e cahia de novo em torpor,
que não tardava em ser outra vez interrompido. N'um recésso da gruta,
formado pelos resaltos das rochas e que servia como de camara ao joven
capitão dos foragidos, parecia tambem jazer um vulto sobre telas mais
delicadas que os despojos d'animaes silvestres, as quaes eram, talvez,
ainda restos do anterior luxo dos paços de Tárraco; talvez, vestigios
da passada grandeza dos duques de Cantabria e da antiga civilisação
gothica. Um panno de purpura franjado d'ouro pendia da abobada natural,
preso nas stalactites seculares que della desciam, semelhantes aos
penduróes do tecto de um templo normando-arabe. A luz dos fachos
mal alumiava aquelle recanto affastado; mas nessa meia-claridade
branquejavam roupas alvas de mulher, que tambem parecia agitada por
sonhos dolorosos, se é que o seu gemer de espaço a espaço, o soluçar
contínuo, o agitar-se d'instante a instante não eram antes indicios
dessa modorra febril, dessa hesitação entre o dormir e a vigilia,
semelhante ao arquejar do moribundo que já perdeu a consciencia da
vida que vai fugindo. No meio desta scena de duvidosa quietação uma
personagem velava. Era o moço Pelagio, que, atravessando a caverna
a passos lentos e cautelosos, de um para outro lado, ora applicava
o ouvido aos movimentos irrequietos e ao respirar agitado do vulto
branco, ora parava á entrada da gruta, fitando os olhos na escuridão
exterior e escutando com todos os signaes d'impaciencia de quem espera
alguem que tarda. Depois, dirigia-se para o lado do vermelho brasido e,
cruzando os braços, punha-se a contemplar o torvo aspecto do cavalleiro
do escabello, com um olhar de sympathia e compaixão, misturada do que
quer que era de admiração e de terror involuntario.

Estes movimentos successivos do mancebo repetiram-se umas poucas de
vezes; por fim, a figura membruda e selvatica do lusitano Gutislo
assomou no arco irregular que servia de portico áquella habitação
roubada pela desventura ás feras.

«Voltaram?--perguntou em voz baixa ao barbaro do Herminio o duque de
Cantabria.

«Desmontam agora:--respondeu Gutislo:--Vellido, o centenario, disse-me
viesse vêr se repousavas.»

«Repousar!--replicou Pelagio, sorrindo tristemente e olhando para o
sitio onde o panno de purpura occultava o vulto branco. «Que venha; que
venha já.»

Gutislo desappareceu. D'ahi a alguns momentos, o centenario entrava.

Era um guerreiro, cujos cabellos brancos, cujos meneios pausados e cujo
olhar penetrante davam testemunho de prudencia e discrição. Parecia
inquieto e assustado.

«Que novas nos trazes, Vellido? Qual caminho seguem os arabes?»

«O que prouvera a Deus elles nunca houvessem encontrado. Ao amanhecer
os cavallos africanos beberão as aguas do Deva; os sons das trombetas
agarenas ouvir-se-hão retumbar pelas encostas de Concana e ecchoarão
nos alcantís do Auseba. Vagueiámos dispersos a tarde inteira e a maior
parte da noite. Pelas alturas do sul e do oriente reluziam ao longe as
armas dos infiéis, e depois as suas almenaras. Os pastores asturios,
que já nos esperavam no valle d'Onis, onde todos os esculcas se
ajunctaram á hora de terça nocturna, nos relataram então o que, sumidos
por entre as brenhas, tinham podido observar de perto...»

«E quaes foram as novas dos pegureiros?--interrompeu vivamente
Pelagio.--São muitos ou poucos os inimigos? A que distancia se acham?»

«Pouco depois do amanhecer devem ter descido os ultimos outeiros do
Vinnio e quando o sol brilhar em todo o seu esplendor poderão pisar
o solo, até hoje livre, do valle de Covadonga. Os pastores viram os
nossos cavalleiros transpôrem o Sallia: viram despenhar-se o roble, e
os infiéis recuarem espantados. Mas, esquadrões após esquadrões desciam
das montanhas, e dentro em breve na margem do rio não se descortinavam
por grande espaço senão tropeis d'arabes. Ao pôr do sol ainda as
gargantas das serranias golfavam torrentes de infiéis, e as selvas
retumbavam com os golpes de machado. Antes de anoitecer, uma ponte
espaçosa estava lançada sobre o Sallia n'um sitio menos profundo, e
os inimigos começavam a atravessá-la. Entre os primeiros que passaram
áquem, asseguram os zagaes terem visto muitos cavalleiros que, pelos
elmos e couraças, pelas cateias e frankisks, eram, sem duvida, godos.»

«São as tiuphadias da Tingitania: são os soldados réprobos do conde de
Septum, que Deus conduz aos desertos das Asturias para que os abutres e
javalís tenham lauto banquete de cadaveres.»

Pelagio e o centenario voltaram-se: a voz que proferíra estas palavras
soára atrás delles. Era o cavalleiro do escabello, que despertara ás
primeiras palavras do capitão dos esculcas e que, firmados os cotovelos
sobre os joelhos e com a cabeça entre os punhos, escutara todo o
dialogo.

«Que?!--exclamou o mancebo--ainda ha pouco havieis cerrado as
palpebras, e já despertastes, Eurico?»

«Duque de Cantabria, desde muito que o somno é sempre breve para mim:
ha muito que nestas veias elle não derrama consolação nem frescor.
Adormecido ou desperto, o meu espirito vê sempre ante si immutavel a
realidade, e a realidade é medonha. Oxalá podesse esta alma dormir!»

«Bem o sei:--replicou o filho de Favila.--A imagem da patria, sancta e
melancholica, se misturava sanguinolenta nos vossos sonhos do dormitar.
Algumas palavras soltas que proferieis...»

«Ah!--interrompeu o cavalleiro, pondo-se em pé rapidamente, com um
gesto d'espanto.--Eu falava?! Eram tão extravagantes os meus sonhos!...
Que palavras me ouvistes? Delirios, loucuras!... Dizei; não é assim?»

E olhava inquieto para o mancebo, como se receiasse que um segredo
importante lhe houvesse fugido dos labios.

«As vossas palavras eram quasi inintelligiveis--respondeu
Pelagio.--Perdida para sempre; para sempre!--Eis o que repetieis
muitas vezes; e depois:--Não resta uma esperança!... Oh, tão formosa
e gentil!... Homem infame, que tinhas em mais o ouro que a virtude
e a gloria, maldicto sejas tu!--E então os dentes vos rangiam, e,
entreabrindo os olhos, o vosso aspecto era terrivel! Pensaveis, por
certo, na Hespanha, na formosa terra dos godos, e a indignação vos
arrancava maldicções contra Oppas, e contra os que venderam pelo
ouro dos arabes as aras de Christo e a liberdade de seus irmãos.
Enganaram-vos, porém, os sonhos, cavalleiro! A esperança resta ainda,
e a Hespanha não se perdeu para sempre! Vós mesmo agora o dissestes.
Abundante cevo de cadaveres humanos vão ter os abutres e os javalís das
montanhas.»

«Tendes razão!--replicou o guerreiro, deixando-se cahir de novo sobre
o escabello e voltando á postura anterior.--Os meus labios mentiram
ao coração, se disseram que para a Hespanha não havia esperança. Mas
a mentir não tornarão elles, porque estes olhos só hão-de cerrar-se,
já agora, em somno bem profundo, no qual não haja sonhar! Depois dos
combates é que se dorme bem placidamente! É então que eu dormirei.»

Era sinistro e lugubre e, todavia, tranquillo o modo com que elle o
dizia. Pelagio, preoccupado pelas novas que o centenario trouxera,
não reparou no sorriso doloroso que enrugava as faces de Eurico e,
voltando-se para Vellido, proseguiu:

«Oh! Abdulaziz busca a ultima guarida dos christãos, os ultimos
aripennes de terra livre da Hespanha: persegue-nos como a
besta-feras?... Pois bem! Vai, e dize aos nossos cavalleiros que antes
de romper a manhan estejam a cavallo com a lança em punho promptos a
marcharem para a entrada do valle. Os fundeiros e mais buccellarios de
pé que se preparem para subir aos pincaros sobranceiros por ambos os
lados do arraial. Dize-lhes, tambem, a uns e a outros, que sem demora
eu serei com elles.»

O centenario saiu.

Pelagio chegou-se então aos que dormiam e, despertando-os um a um,
fe-los approximar da boca da gruta:

«Vedes vós a estrella matutina que empallidece?--disse, apontando para
um breve espaço do firmamento, onde, atravez do portal irregular, se
via fulgir o planeta Venus.--Não tarda muito que ella desappareça
mergulhada na vermelhidão da aurora. Essa vermelhidão tingirá em breve
o céu, como o sangue ha-de hoje tingir a terra: mas confio em Deus
que, tambem, como após ella ha-de surgir o sol envolto no seu fulgor
glorioso, assim a cruz e o nome dos godos se alevantarão triumphantes,
após o sangue vertido por esses dous objectos sanctos e queridos, que
nos tem alimentado a energia da alma no meio dos trabalhos e perigos.
Guerreiros! os arabes seguiram as vossas pisadas. Abdulaziz e Juliano,
um insensato e um renegado, ousaram approximar-se ao antro dos leões
d'Hespanha, e os leões hão-de despedaçá-los. O céu condemnou-os: diz-me
íntima voz que elle os condemnou, inspirando-me um estratagema a que os
infiéis não poderão resistir.»

No gesto de Pelagio, ao proferir estas palavras, estava estampada
a expressão da confiança, do esforço e do enthusiasmo; daquelle
enthusiasmo que elle sabía communicar aos que o ouviam e que, na
situação quasi desesperada em que se achavam os foragidos das Asturias,
fizera com que lhe cedessem voluntariamente o mando supremo os mais
velhos e experimentados guerreiros.

Pelagio expôs em breves palavras os seus desenhos para obter dos
arabes um triumpho completo. O caminho que seguiam devia forçosamente
trazê-los ás gargantas das serras. Collocados na entrada do valle, uma
parte dos cavalleiros offerecer-lhes-hiam debil resistencia, cedendo
pouco a pouco e retirando-se para o topo daquella especie de caldeira
cortada nas montanhas: apenas ahi chegados, abandonando os ginetes,
precipitar-se-hiam para a caverna, aonde já se teriam acolhido as
mulheres, creanças e velhos dispersos pelas tendas do campo, e em cujo
estreito e escarpado portal poucos pelejadores bastavam para resistir
á multidão dos inimigos. Então o grosso dos cavalleiros, em cilada
nas selvas que se dilatavam para as alturas, á esquerda das gargantas
do valle, acommette-los-hiam pelas costas, emquanto os buccellarios,
sumidos pelas penedias, lá no alto dos barrocaes que formavam como
um muro de ambos os lados do arraial, fariam chover sobre os infiéis
as armas de arremesso, sem que a estes fosse possivel repelli-los,
ignorando os caminhos que conduziam áquelles logares, na apparencia só
accessiveis ás aguias e aos abutres, que alli tinham, de feito, a sua
guarida solitaria.

«Mas a vós, cavalleiros--concluia Pelagio--que provastes extremos de
esforço na correria a que devo a salvação de minha pobre irman, a
vós pertence o acabar a victoria que o Senhor nos vai dar. Ha mais
de um anno que as nossas mãos se tem callejado a alluir os penhascos
que coroam o tecto desta caverna; ha mais de um anno que raro dia se
passa sem que o suor das nossas frontes os humedeça, ao tombarmo-los
lentamente para a borda do despenhadeiro que se eleva a prumo sobre o
ádito deste recincto. Ahi, acompanhados dos meus robustos cantabros
e dos selvagens do Herminio, será o vosso pelejar: ahi, quando os
inimigos, apinhados ante aquelle portal, se arremessarem contra os
guerreiros que o hão-de defender; quando as trombetas dos que os
ferirem pelas costas soarem uma toada de morte, e os invisiveis
buccellarios fizerem chover sobre os infiéis os tiros de funda, as
settas e os dardos, cumpre que esses rochedos que, lá no cimo, parecem
embebidos na penedia, cáiam rapidamente e esmaguem os esquadrões
cerrados dos inimigos da Hespanha. Pelo caminho talhado na rocha
sobre as nascentes subterraneas do Deva, ireis assentar-vos no cume
do Auseba, e o anjo do exterminio pairará juncto de vós: sereis a
intelligencia que guie o duro braço dos cantabros e dos lusitanos para
lhes dirigir os golpes, para os reter quando, rareiados, confundidos,
esmagados os troços da serpente maldicta que ousa colleiar juncto de
Covadonga, nós podermos arremessar-nos ao meio delles e fazer cahir
sobre a cabeça dos pagãos os golpes dos nossos frankisks, não menos
destruidores que os rochedos despenhados.

«Como assim?!--replicou Sancion, que por vezes estivera a ponto
d'interromper o mancebo.--Nós, próceres e gardingos, nós que meneiamos
a facha e a espada; nós que trajamos o ferro, combateremos, como os
servos e vís, de longe e sem risco? Nós, que por tantas milhas através
das serras démos as costas aos infiéis, não poderemos, embebendo-lhes
as espadas no peito, dizer-lhes emfim:--Eis-nos aqui?...--Pelagio, isso
é impossivel!»

«Impossivel!--repetiram todos os outros cavalleiros apinhados ao redor
de Sancion.

«Impossivel é--interrompeu o duque de Cantabria com gesto severo--que
haja guerreiros christãos que recusem obedecer-me, no momento em que
se tracta, não de ambições de gloria, mas da redempção da Hespanha.
Cavalleiros, o esforço de vossos corações vos engana! Exhaustos pela
correria da proxima noite, os braços vos desmentiriam o animo, e eu
não consentirei jámais um sacrificio inutil, quando de outro modo
podeis contribuir para salvarmos as Asturias. Gutislo!--clamou elle
approximando-se da boca da caverna--dize aos teus irmãos do Herminio
que venham aqui e ao quingentario da minha tiuphadia que vos siga com
os soldados cantabros. Sancion, Gudesteu, Astrimiro, Énecon, vós todos
que me cercaes, eis alli o vosso caminho! Parti.»

E apontava para um lado da gruta, onde quem chegava ao perto via, lá
em cima, o céu estrellado, por uma especie de claraboia natural, e,
quasi debaixo dos pés, um como sorvedouro escuro, em cujas profundezas
se percebia o ruído das nascentes do Deva. Na circumferencia daquelle
abysmo, desde o chão da caverna, os foragidos, aproveitando as
escabrosidades das paredes circulares, tinham formado uma escada tosca,
ora cavada na pedra, ora firmada sobre troncos de arvores fixos nas
fendas e cavidades da rocha, e que, lançada em espiral, saía perto
do cimo calvo do Auseba. Assim, quando o valle fosse occupado dos
sarracenos, os christãos poderiam defender-se por largo tempo, obtendo
por esse caminho occulto os soccorros dos montanheses.

Entre os cavalleiros a quem Pelagio dirigíra aquellas palavras houve
alguns instantes de hesitação, e um murmurio de descontentamento; mas,
por fim, Sancion, pegando em um dos fachos, encaminhou-se para a escada
subterranea, e os outros seguiram-no. Os quasi selvagens filhos do
Munda, vestidos de pelles de alimarias, e os cantabros, cujas feições
e trajos tambem revelavam a sua origem celtica, não tardaram a entrar
na caverna. Pelagio então lhes ordenou obedecessem aos guerreiros que
os haviam precedido, e em breve o som das passadas daquelle tropel
desordenado, alongando-se pelo abysmo, morreu em silencio total.

Eurico parecia indifferente ao que se passava ao pé delle, assentado no
escabello e com os olhos cravados no cepo candente que se consumia no
afumado lar. Pelagio voltou-se para elle, e disse-lhe:

«Vós, Eurico, ficareis aqui: vós que salvastes minha irman, sereis o
seu guardador. Quem melhor vigiaria por Hermengarda do que esse homem
que nella tem um testemunho perenne do mais indizivel esforço, da
mais pura e generosa lealdade? Desejaria ver juncto de mim no combate
o melhor guerreiro da Hespanha: ter-vo-lo-hia, até, pedido quando o
mysterio em que vos involvieis nos fazia suspeitar a todos que vós, o
cavalleiro negro, ereis um ente privilegiado e não um mortal como nós.
Agora, porém, depois que no trance horroroso das margens do Sallia
nos revelastes quem sois, quando, resolvido a morrer, pedieis apenas
algumas lagrymas para a vossa memoria áquelles que vos sobreviviam,
pedir-vos-hei eu, tambem, que não queiraes encontrar o primeiro impeto
dos sarracenos. Se na defensão desta nossa triste morada, aonde cumpre
attrahi-los, for necessario o auxilio do vencedor dos vasconios, do
mais illustre dos tiuphados de Witiza, ou se a colera de Deus ainda
não está satisfeita, e devem hoje perecer os ultimos homens livres da
Hespanha, vireis vós morrer comnosco. Entretanto, continuae a ser o
anjo da guarda da pobre filha de Favila. Ella parece mais tranquilla,
e o monge Bacchiario, em cuja sciencia tem achado allivio tantos de
nossos irmãos, recommendou o repouso como o melhor remedio para a febre
que a devora. Retardarei quanto podér o instante de se acolherem aqui
as mulheres, as creanças e os velhos inuteis para o combate. Fazei,
entretanto, que nestes logares reine profundo silencio.»

Silencio guardava o cavalleiro: no seu olhar incerto e scintillante
descobria-se que lá, naquella alma, tumultuavam paixões violentas e
oppostas. Não respondeu; nem Pelagio lhe dera para isso tempo. Crendo
ler no seu gesto perturbado a mesma repugnancia que tinham mostrado os
outros guerreiros em não assistir ao primeiro recontro dos infiéis,
o duque de Cantabria atravessou apressado a boca da gruta e desceu a
senda tortuosa que conduzia ao fundo do valle. D'ahi a pouco, sentiu-se
o galopar de um cavallo á rédea solta, que se confundiu, por fim, no
sussurro longinquo do arraial que se agitava, preparando-se para o
temeroso dia que pouco tardaria a nascer.

Eurico estava, emfim, só.



XVIII

IMPOSSIVEL!


     Nada neste mundo me agita o seio, senão o teu amor.

                                     _Lenda de_ S. Pedro Confessor--9.


Apenas Pelagio transpôs o escuro portal da gruta, Eurico alevantou-se.
Aspirava com ancia, como se aquelle ambiente tepido não bastasse
a saciá-lo. O desgraçado resumia n'um pensamento devorador, n'uma
synthese atroz, o seu longo e doloroso passado e o seu torvo e
irremediavel futuro. Como voltara áquelle logar? Como, sem lhe vergarem
os joelhos, tinha elle descido das alturas do Vinnio com Hermengarda
nos braços? Que tempo durara essa carreira deliciosa e ao mesmo tempo
infernal? Não o sabía. Imagens confusas de tudo isso eram apenas o que
lhe restava,--do sol, que pouco a pouco lhe viera alumiar os passos,
dos ribeiros que vadeiara, das penedias agras, dos recostos dos montes,
das selvas que recuavam para trás delle, dos cabeços negros que, ás
vezes, lhe parecera debruçarem-se no cimo dos despenhadeiros, como para
o verem correr. No meio destas recordações incertas e materiaes outras
passavam íntimas, ardentes, voluptuosas, negras, desesperadas. Por
horas, que haviam sido para elle uma eternidade de ventura, o respirar
daquella que amava como insensato se misturara com o seu alento; por
horas sentira o ardor das faces della aquecer as suas, e o coração
bater-lhe contra o seu coração. Depois, avultavam-lhe no espirito a
imagem veneranda de Siseberto e o altar da sé d'Hispalis, juncto do
qual vestira a pura stringe de sacerdote, e Carteia e o presbyterio
e as noites de agonia volvidas nos ermos do Calpe. E tudo isto se
contradizia, se repellia, se condemnava, o amor pelo sacerdocio, o
sacerdocio pelo amor, o futuro pelo passado; e aquella alma, dilacerada
no combate destes pensamentos, quasi cedia ao peso de tanta amargura.

Eurico deu alguns passos e encostou-se á boca da gruta; porque os
membros exhaustos lhe fraqueiavam, apesar de que nem um momento o
abandonasse a força da sua alma energica. A brisa frigidissima da
madrugada consolava-o como ao febricitante a aragem de um sol-posto
do outono. A seus pés estavam as trevas do valle, sobre a sua cabeça
as solidões profundas e serenas do céu semeiado dos pontos rutilantes
das estrellas e mal desbotado ao occidente pela ultima claridade da
lua minguante que desapparecia. Era a imagem da sua vida. Serena e
esperançosa, como o crepusculo do luar fugitivo, lhe fora a juventude.
Desde que um amor desditoso o fizera alevantar uma barreira entre si e
o ruído do mundo; desde que se votara ás solemnes tristezas da soledade
e a derramar beneficios e consolações sobre a cabeça dos miseraveis e
humildes; pela alta noite do seu viver muitas vezes fulgurara uma luz
de alegria, como esses astros que brilham a espaços nos abysmos do
firmamento: lá, ao menos, havia instantes em que se esquecia do seu
destino. Mas, depois que o phrenesi das batalhas o arrastara; depois
que trocara as harmonias das tempestades do Calpe e o rugido das vagas
do Estreito pelo gemer de moribundos nos combates e pelo retinir dos
golpes, nunca mais descera um raio de cima a alumiar-lhe o espirito. O
seu presente e o seu porvir eram, como esse valle, um precipicio sem
fundo, indelineavel, tenebroso e maldicto.

E pelo céu tão placido e melancholico; pelo céu, que elle ás vezes se
punha a contemplar ás horas mortas no pobre presbyterio de Carteia ou
assentado em algum promontorio, a sua imaginação voou até os desvios do
sul, e as lagrymas de saudade começaram a rolar-lhe mansamente pelas
faces. O desventurado tinha saudades das tristezas do ermo, porque já
não podia ter desejos dos contentamentos humanos.

Engolfado naquellas cogitações dolorosas, o guerreiro conservou-se por
algum tempo immovel e com os olhos cravados nos astros scintillantes,
que pareciam sorrir-lhe e chamá-lo para o seio immenso do Senhor.
As lagrymas correram-lhe então mais abundantes, e o coração parecia
dilatar-se-lhe com o pensamento da morte. Insensivelmente ajoelhou
e estendeu as mãos para o firmamento: os seus labios murmuravam com
cicío quasi imperceptivel. Era a oração d'alma, férvida, procellosa,
que os agitava: era essa oração que todos nós sabemos no momento de
suprema agonia e que nenhumas palavras, nenhuma escriptura poderiam
representar; oração que é um mysterio entre Deus e o homem e que nem os
anjos comprehendem; gemido energico de todas as miserias terrenas, cuja
intensidade só a providencia, que as accumula ou dissipa, sabe pesar
nas balanças da justiça e da piedade divinas.

A morte; esta idéa, tremenda, indifferente ou formosa, segundo a
vida é risonha, pallida ou negra, veio suavisar o martyrio daquella
alma attribulada, como em estio ardente as grossas aguas da trovoada
refrigeram a terra, que estûa sob os raios aprumados do sol. Tinha-a
buscado; buscado com a placidez horrivel da desesperança; como um
remedio de cuja efficacia a consciencia da immortalidade o fazia
duvidar. Sería não mais do que ir deitar-se em leito de dores eternas?
Talvez: mas a mudança podia ser refrigerio: tanto bastava. A morte
parecia, comtudo, fugir delle para que nem este ultimo desejo se lhe
cumprisse. Houve um instante em que lhe occorreu o pensamento de subir
ao pinaculo escarpado do Auseba e despenhar-se no valle. Refugiu
d'esta idéa, porque era covarde. Eurico, o sacerdote soldado, não
devia fenecer impia e vilmente; devia depôr o peso intoleravel da vida
no campo das batalhas pelejadas em nome da cruz e da Hespanha. E no
recontro daquelle dia, uma voz íntima lhe murmurava que o havia de
obter.

Este anhelar pela morte era uma bem triste cubiça! E quando se lembrava
de que essa mulher que ahi jazia a poucos passos delle; essa mulher, em
cuja adoração concentrara todos os affectos dos mais formosos dias da
vida; cuja imagem sonhada nas solidões do Calpe, desenhada de contínuo
diante dos olhos da sua alma, gravada como um sello de saudade e de
amargura em todas as suas cogitações; essa mulher que, pouco havia,
por horas de delicioso delirio, apertara contra o peito, e o podera,
outr'ora, tornar o mais feliz dos homens; quando se lembrava de que
sobre isso tudo elle deixara cahir a campa de bronze do sacerdocio,
que ninguem podia erguer, o desgraçado sentia estalarem-lhe uma a uma
todas as fibras do coração, e fugir-lhe do seio um grito semelhante ao
que rebenta dos labios do condemnado ao supplicio do potro, no primeiro
movimento da mão pesada do algoz.

E, como se quizesse ainda mais saciar-se de dor, encaminhou-se para
o lado onde Hermengarda repousava. Ao clarão da tocha que espargia
uma luz mortiça, o guerreiro contemplou-a naquelle inquieto dormir.
Era bella; mais bella que nos tempos da primeira mocidade! O seu
gesto angelico, desbotado pela pallidez, emmagrecido pelos pesares e
terrores, ganhara em expressão, em reflexo dos íntimos pensamentos
o que perdera em viço e em toques d'innocencia. Bonina desabrochada
nos campos da vida, brilhara com todas as pompas do seu vecejar
á luz da manhan; o ardor intenso do meio-dia a fizera pender; a
viração da tarde lhe traria, talvez, ainda frescor e viveza; mas
a sua fragrancia perdia-se nas auras que passavam; nas suas côres
harmoniosas revia-se, apenas, o céu! Aquella alma fugia solitaria
pela terra n'um viver incompleto e volveria aos abysmos da creação
sem conhecer o mais profundo e energico dos affectos humanos, o amor,
que une dous espiritos como dous fragmentos de um todo, os quaes a
providencia separou ao lançá-los na terra, e que devem buscar-se,
unir-se, completar-se, até irem, depois da morte, formar, talvez, uma
só existencia de anjo no seio de Deus.

Mas quando Eurico se lembrou de que, porventura, isto era um sonho;
de que podia ser que essa alma não passasse na vida tão vazia e
solitaria como elle julgava, e que esse coração que poucas horas antes
pulsára tão perto do seu batia, acaso, por outrem, sentiu o suor frio
manar-lhe da fronte. A tocha baça e funebre que mal alumiava a irman
de Pelagio pareceu-lhe retincta em sangue; e, como o cedro arrancado
por tufão repentino, foi encostar-se á rocha lateral, cuja superficie
irregular lhe escondia Hermengarda. O vê-la despertara todo o delirio
do seu primeiro amor, e aquella idéa intoleravel, que tantas vezes o
atormentara nas solidões do Calpe, espremia-lhe agora o coração com
redobrado furor.

E assim ficou por alguns momentos mudo, anhelante, anniquilado.
Quem era, onde estava, porque viera alli, não o saberia dizer: os
pensamentos revolviam-se-lhe na mente, como as ondas n'um sorvedouro
maritimo, tempestuosos, rapidos e indistinctos.

De repente, um ai comprimido veio acordá-lo daquella especie de
torpor doloroso. Estremeceu. Era a voz de Hermengarda. Approximou-se
manso e manso, de modo que ella o não visse. Assentada sobre o leito,
demudado o gesto, e com o susto pintado no olhar, a irman de Pelagio
estendia os braços, voltando o rosto para o lado, como quem tentava
affastar visão medonha. Pelas suas palavras incoherentes e truncadas,
o guerreiro conheceu que um sonho máu a agitava, até que, inteiramente
desperta, essas palavras confusas se começaram a coordenar em periodos
intelligiveis. O pulsar do coração d'Eurico redobrava de violencia, ao
passo que o seu respirar se ia tornando cada vez mais imperceptivel.

«Sempre elle! sempre esta visão de remorso!--murmurou Hermengarda.--Meu
pae, meu pae! Perdoe-te o céu o orgulho com que repelliste o
gardingo... Perdoe-te o céu o haveres-me obrigado a sacrificar aos pés
desse orgulho o sentimento de amor que se alevantara neste coração.
Nós ambos assassinámos o desgraçado; mas a punição cahiu inteira sobre
mim! Embora. Eu não te amaldicçoarei, oh meu pae! A tua filha nunca te
accusará ante o supremo juiz.»

Depois, ficou por alguns instantes calada, com os olhos fitos no
rochedo fronteiro, em cuja face escabrosa as sombras pareciam dançar e
agitar-se á luz da tocha que ardia a curta distancia, e que a aragem
movia. Crera perceber perto de si um gemido abafado, cortando fugitivo
o grande silencio nocturno.

«Vai-te, vai-te!--proseguiu ella.--Que posso eu fazer-te, infeliz?...
Bem longo e atroz tem sido o meu martyrio, porque ainda não achei no
mundo alma com quem me fosse dado repartir o calis do infortunio; a
quem houvesse de contar os tormentos que ha tanto tempo me varreram dos
labios o sorrir. Se vivesses, sería tua; tua esposa, tua escrava!...
mas a benção nupcial não póde descer entre o tumulo e a vida.
Favila!... meu pae!... diante do throno do Senhor, onde são iguaes o
duque e o gardingo, jura-lhe que tua filha repelliu o seu amor por
obedecer-te: dize-lhe que o pranto correu destes olhos ao ouvir a nova
da sua morte. Oh, dize-lhe, dize-lhe que não fui eu que o assassinei!»

E aqui, deixando pender a cabeça sobre o peito, pareceu voltar ao
sentimento da realidade; mas aquella especie de terror febril que lhe
haviam gerado no espirito os trances, qual mais doloroso, por que
successivamente passara, se tornou a apossar della. Favoreciam-no o
logar, a hora, o silencio. Hermengarda alevantou de novo os olhos
desvairados e, firmando-se no rochedo, tentava erguer-se.

«Era Eurico!--murmurou ella.--Depois de dez annos, bem conheci a sua
voz! Mais triste, só: triste, como tantas vezes a tenho ouvido nos meus
sonhos de remorsos! Bem conheci o seu gesto! Mais pallido e carregado,
só: pallido e carregado, como tantas vezes tem surgido do sepulchro
para vir mudamente accusar-me, silencioso e quedo ante mim, por longas
e não dormidas noites. Era elle!... um espectro cujo coração eu sentia
bater, cujos braços me apertaram por cima do abysmo revolto, através da
floresta, pelos recostos das serranias. Dos seus olhos cahiu sobre o
meu seio uma lagryma! As lagrymas dos mortos queimam... devoram a vida;
porque bem sinto a morte chamar-me...»

Tinha-se posto de joelhos e, com as mãos estendidas, parecia implorar
piedade.

«Morrer! tão cedo! Quando apenas tórno a vêr meu irmão?!... Pelagio!
Pelagio! porque me deixaste? Vem despedir-te da tua pobre Hermengarda.
Eurico a espera para o noivado do sepulchro, e eu não posso tardar.»

E desvairada, poz-se em pé, chamando por Pelagio com voz suffocada.
Apenas, porém, dera os primeiros passos, soltou um gemido agudo e
ficou immovel. Diante della, realidade ou phantasma, estava a origem
dos seus terrores secretos. Era o gardingo que a amara, que ella cria
morto, e cuja imagem vingadora vinha mais uma vez atormentá-la. O vulto
cravara nella um olhar ardente, que a fascinava. Sorriso doloroso lhe
pousava nos labios. Estendeu o braço, segurando a mão de Hermengarda,
que pretendeu recuar e não pôde. Como petrificada, parecia que os pés
se lhe haviam enraizado no chão da caverna. Aquella mão, que segurava
a sua escaldando de febre, era gelada como a de um morto. A vida do
gardingo tinha-se concentrado toda no coração, que lhe despedaçavam
duas idéas, horriveis porque associadas: o amor correspondido e tornado
ao mesmo tempo maldicto, monstruoso, impossivel por uma palavra fatal,
que lá estava escripta em caracteres de fogo, e que elle via, escutava,
sentia--o sacerdocio!

«Oh, Deus t'o pague!--disse Eurico em voz baixa e lenta--que lançaste
na tão longa noite da minha alma um raio fugitivo de luz, luz sancta
e pura de contentamento e felicidade!... Ha dez annos que não me
alumia, e ella é tão bella, ainda quando passa como o relampago!»--E,
depois de estar calado alguns instantes, com um gesto de íntimo e
angustiado cogitar, proseguiu:--Não, Hermengarda, não! Os vermes ainda
não receberam a parte da sua herança que eu lhes retenho. Morri; porém
não para isso que, na linguagem mentirosa do mundo, se chama a vida.
Durante annos dei-a a devorar á desesperação, e a desesperação não
pôde consummi-la. Pendurei-a alta noite, pela espessura das trevas,
nas rochas escarpadas do mar do occidente, á beira dos precipicios,
e o mar e os precipicios não quizeram tragá-la. Atirei-a á torrente
impetuosa das batalhas, e o ferro embotou-se n'ella. O céu guardava-me
para te ouvir palavras de amor e arrependimento; essas palavras de
ineffavel doçura que nunca esperei escutar. É que na minha fronte
está gravada a maldicção de cima: é que ainda me faltava o derradeiro
martyrio... Ao menos posso acabar o teu: o pensá-lo é um refrigerio.
Hermengarda, eu vivo ainda! Vivi para te salvar da deshonra, e todo
o meu passado esqueci-o. Só uma cousa não, porque me subverteu para
sempre o futuro; porque, depois de passageira alegria, me recalcou mais
violentamente esperanças que ousaram um momento agitar-se no fundo
desta alma, tranquilla na desesperança. Agora, se ha repouso debaixo da
campa, posso ir buscar lá meu repouso. Mas dize-me; oh, dize-me, ainda
outra vez, que amas Eurico! Repete diante do que respira aquillo que
proferiste diante da sombra creada pelo teu terror. Essas palavras e o
morrer!... O teu amor e a morte; eis para mim a unica ventura possivel,
mas que não tem igual na terra.

E Hermengarda sentia ao contacto daquella mão fria e trémula apertando
a sua, no accento dessas phrases, tempestuosas como o oceano, tristes
como céu procelloso, que lá, no peito do vulto que tinha ante si,
havia um coração de homem vivo, onde chaga antiga e cancerosa vertia
ainda sangue. A especie de pesadelo em que se debatia desapparecera
com a realidade. O repentino impulso da sua alma foi lançar-se nos
braços de Eurico. Fora elle o objecto do seu quasi infantil e unico
amor, amor condemnado ao silencio antes do primeiro suspiro, antes do
primeiro volver d'olhos; era elle o cavalleiro negro, cujo nome se
tornara conhecido e glorioso por todos os angulos da Hespanha; era
elle, finalmente, o homem que duas vezes acabava de salva-la. Reteve-a,
todavia, o pudor e, talvez, aquella mysteriosa tristeza que escurecia
as idéas desordenadas vindas de tropel aos labios do guerreiro.
Procurando asserenar a violencia dos affectos que a agitavam,
Hermengarda respondeu com voz fraca e tremula:

«Bemdicta a mão do Senhor, que te salvou, Eurico, leal e nobre entre
os mais nobres e leaes filhos dos godos! Graças á piedade do céu, que
por meio de tantas desventuras e perigos nos uniu nos paços que restam
ao filho do duque de Cantabria! No devaneiar do terror revelei-te, sem
querer, o segredo do meu coração: a sua historia, ouviste-a. Perdoa á
memoria de meu pae, e, se de mim depende a tua felicidade, as palavras
que me saíram involuntariamente da boca te asseguram que serás feliz.
O orgulho que a ambos nos fez desgraçados não o herdou Pelagio. Que
o herdasse, mal caberia n'estas brenhas, na caverna dos fugitivos. E
depois, que nome ha hoje na Hespanha mais illustre que o do cavalleiro
negro, o nome de Eurico? Morreres?!... Oh, não? Salvaste Hermengarda do
opprobrio: se nunca te houvera amado, ella te diria como te diz hoje:
Sou tua, Eurico!»

A filha de Favila, cujo profundo e energico sentir mal poderia
comprehender quem só a houvera visto no momento em que timida recuava
diante do perigo mais apparente que real das margens do Sallia,
proferiu estas palavras com um tom de enthusiasmo, com uma expressão
affectuosa tão íntima, que o guerreiro cahiu a seus pés. A ventura
embargava-lhe a voz. O que lhe tumultuava no coração não tem nome
na linguagem dos homens: era mais que a loucura. Com um movimento
delirante, apertou contra os labios a mão da donzella. Queimavam!
Depois de largo silencio, elle murmurou emfim:

«Minha!... Quem ha na terra que possa roubar-m'a?... Annos de
tormentos, fostes como um dia de bonança e deleite! Imagem que
absorveste esta existencia inteira; anjo que me fazes surgir do meu
inferno para o teu céu, tu foste que me salvaste a mim! Oh, como é
bom ser feliz!... Tinha-me já esquecido!... Como o sol deve agora
ser bello, serena a aragem da tarde, meigo o murmurar do ribeiro,
viçosa a verdura do prado!... Tinha-me tambem esquecido! Tens razão,
Hermengarda. Quero viver: o viver é delicioso; delicioso, porque será
comtigo... ao pé de ti... a adorar-te sempre, sem me lembrar do que
existe, além de ti, no universo. Vem, minha amante, minha esposa! vem
jurar que me pertences, perante o altar e aos pés do sacerdote...»

A esta palavra fatal, um grito semelhante ao de homem ferido de morte,
rompeu agudo e rapido do seio do cavalleiro. A mão d'Eurico abandonou
a mão d'Hermengarda, e os seus olhos brilharam com fulgor infernal.
Recuou, affastando de si a irman de Pelagio, sobresaltada por aquelle
gesto subitamente demudado, por aquelle olhar ardente e vago. Ella
não podia comprehender a causa de semelhante mudança... Com o braço
esquerdo estendido, o guerreiro parecia querer arredá-la de si,
emquanto com a mão confrangida apertava a fronte, como se buscasse
esmagar um pensamento atroz que lhe surgia lá dentro.

«Affasta-te, mulher, que o teu amor me perdeu!--murmurou emfim.--Ha
entre nós um abysmo: tu o abriste; eu precipitei-me nelle. Um crime, só
um crime, póde unir-nos...» Fez uma pausa, e proseguiu:--E porque não
se commetterá elle? Talvez obtivessemos perdão!... Perdão? Oh meu Deus,
não o terias para o sacrilego... não!--Affasta-te, Hermengarda. Diante
de ti tens um desgraçado, um desgraçado que fizeste!»

A donzella uniu as mãos lavada em lagrymas, e exclamou:

«Eurico! Eurico! enlouqueceste?... Por piedade, explica-me este
horroroso mysterio! Porque me repelles? que te fiz eu... eu que te amo,
que sou tua, tua para sempre?!»

Mas os olhos scintillantes do cavalleiro tinham amortecido: derribado
na lucta que travara com o destino, o seu combater de tantos annos
terminava, finalmente. Um sorriso insensato substituiu-lhe no rosto as
contracções habituaes de melancholia. Affigurava-se-lhe que em roda
delle balouçava a caverna, e a luz fumosa da tocha que ardia segura no
braço de ferro cravado na pedra parecia-lhe faiscar em fitas cor de
sangue. Esvaído, vacillante, assentou-se n'um fragmento da rocha e,
estendendo a mão para Hermengarda, pegou de novo na della e, com um
sorriso indizivel, continuou em voz submissa:

«Dez annos!... Sabes tu, Hermengarda, o que é o passar dez annos
amarrado ao proprio cadaver? Sabes tu o que são mil e mil noites
consummidas a espreitar em horisonte illimitado a estrella polar da
esperança e, quando, no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar
na morte, ver essa estrella reluzir um instante e, depois, desfechar
do céu nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar sobre silvados
pelo caminho da vida e achar ao cabo, em vez do marco milliario onde
o peregrino dê treguas aos pés rasgados e sanguentos, a borda de um
despenhadeiro, no qual é força precipitar-se? Sabes o que isto é?
É a minha triste historia! Estrella momentanea que me illuminaste,
cahiste no abysmo! Arbusto que me retiveste um instante, a minha mão
desfalecida abandonou-te, e eu despenhei-me! Oh, quanto o meu fado foi
negro!»

Hermengarda contemplava-o com assombro e terror... Como o entenderia
ella? Eurico proseguiu:

«Olha tu! Ao pôr do sol, no estio, ía eu assentar-me sobre um cerro
maritimo, alongando a vista pelo oceano tranquillo, e parecia-me
divisar-te desenhada na atmosphera a sorrir-me. Então, as lagrymas de
felicidade começavam a brotar-me dos olhos: depois, lembrava-me de quem
eu era, e essas lagrymas condensavam-se a meio das faces e queimavam
como se fossem de metal candente. A horas mortas, correndo pelos
desvios, quando o vento açoutava os arbustos enfezados da montanha,
cada sombra que se meneiava ao luar, sobre o chão pardacento, era a
tua sombra que eu via. Outras noites, em que mais tranquillo podia, a
sós comigo, engolfar-me nos pensamentos de Deus, a tua imagem vinha
interpôr-se entre mim e a lampada mortiça que me alumiava, e o hymno
do Presbytero de Carteia, que devia, talvez, escrever-se nos hymnarios
das cathedraes da Hespanha, ficava incompleto ou terminava por uma
blasphemia; porque, tambem, te via sorrir, mas a outrem, mas a homem
feliz com o teu amor, e eu tinha então sede... sede de sangue... Era
uma lenta agonia! E sempre tu ante mim: nas solidões das brenhas,
na immensidade das aguas, no silencio do presbyterio, nos raios
esplendidos do sol, no reflexo pallido da lua e, até, na hostia do
sacrificio... sempre tu!... e sempre para mim impossivel!»

«Mas deliras!...--interrompeu Hermengarda.--Que tens tu com o
Presbytero de Carteia; com esse illustre sacerdote, cujos hymnos sacros
reboavam ainda ha pouco pelos templos da Hespanha, e a quem, de certo,
o ferro impio dos arabes não respeitou? A tua gloria é outra e mais
bella; a gloria de seres o vencedor dos vencedores da cruz. A sua era
sancta e pacifica. Deus chamou-o para si, e tu vives para ser meu.
Ninguem existe hoje no mundo que possa embaraçá-lo. Esquece o passado;
esquece-o por amor de mim!»

O cavalleiro sorriu de novo dolorosamente, e disse-lhe:

«Que tenho eu com o Presbytero de Carteia?!... Hermengarda, lembras-te
do seu nome?»

Os labios da donzella fizeram-se brancos ao ouvir esta pergunta: um
pensamento monstruoso e incrivel lhe passara pelo espirito. Com voz
affogada e quasi imperceptivel replicou:

«Era.... era o teu, Eurico!... Mas que póde haver commum entre o
guerreiro e o sacerdote? Que importa um nome... uma palavra?.... que...»

O cavalleiro pôs-se em pé e, deixando descahir os braços e pender o
rosto sobre o peito, murmurou:

«Ha commum, que o guerreiro e o presbytero são um desgraçado só!...
Importa, que esse desgraçado é neste momento um sacerdote sacrilego. O
pastor de Carteia...»

«Oh não acabes!--interrompeu Hermengarda, com indizivel afflicção.

«Era Eurico, o gardingo!»

Proferindo estas palavras, que explicavam o mysterio da sua existencia,
o cavalleiro negro viu cahir como fulminada a filha de Favila. E elle
não se moveu. A sua imaginação tresvariada affigurou-lhe perto de si o
vulto suave e triste do veneravel Siseberto, que estendia a mão mirrada
entre ambos, como para os dividir em nome da religião, que os devia
salvar, e do sepulchro, a quem pertenciam.

Neste momento uma grande multidão de creanças, de velhos, de mulheres
penetraram na caverna com gritos e chóros de terror. No coração das
Asturias, entre alcantis intractaveis, no fundo de um vasto deserto,
repetia-se o grito que mil vezes tinha soado na devastada Hespanha: «Os
arabes!»

Amanhecera.

Aquelle sobresalto, tão impensado, revocou o cavalleiro ao sentimento
da sua situação. Ajoelhou juncto de Hermengarda e, pegando-lhe na mão
já fria, beijou-lh'a. Nas raias da vida, aquelle beijo, primeiro e
ultimo, era purificado pelo halito da morte que se approximava: era
innocente e sancto, como o de dous cherubins ao dizer-lhes o Creador:
«existí!»

Depois ergueu-se, vestiu a sua negra armadura, cingiu a espada, lançou
mão do frankisk e, rompendo por entre o tropel, que fizera silencio ao
vê-lo, desappareceu através da porta da gruta, cujas rochas tingia cor
de sangue a dourada vermelhidão da aurora.



XIX

CONCLUSÃO


           Da morte ás trévas,
     Immortal, te diriges!

                                        Merobaude: _Poema de Christo_.


A ventura das armas mosselemanas tinha chegado ao apogeu, e a sua
declinação começava, finalmente. E na verdade, a ira celeste contra os
godos parecia dever estar satisfeita. O solo da Hespanha era como uma
ara immensa, onde as chammas das cidades incendiadas serviam de fogo
sagrado para consummir aos milhares as victimas humanas. O silencio do
desalento reinava por toda a parte, e os christãos viam com apparente
indifferença os seus vencedores polluirem as ultimas cousas que, até
sem esperança, ainda defende uma nação conquistada--as mulheres e os
templos. Theodemiro pagava bem caro o procedimento que o desejo de
salvar os seus subditos o movera a seguir. O pacto feito por elle
com os arabes não tardou a ser por mil modos violado, e o illustre
guerreiro teve de se arrepender, mas já debalde, por haver deposto
a espada aos pés dos infiéis, em vez de pelejar até a morte pela
liberdade. Fora isto o que Pelagio preferira, e a victoria coroou o seu
confiar no esforço dos verdadeiros godos e na piedade de Deus.

Os que tem lido a historia daquella epocha sabem que a batalha de
Cangas de Onis foi o primeiro élo dessa cadeia de combates que,
prolongando-se através de quasi oito seculos, fez recuar o koran para
as praias d'Africa e restituiu ao evangelho esta boa terra d'Hespanha,
terra, mais que nenhuma, de martyres. Na batalha de juncto do Auseba
foram vingados os valentes que pereceram nas margens do Chryssus;
porque mais de vinte mil sarracenos viram pela ultima vez a luz do
sol naquellas tristes solidões. Mas, nesse dia da punição, esta devia
abranger assim os infiéis, como os que lhes haviam vendido a patria e
que ainda vinham disputar a seus irmãos a dura liberdade de que gosavam
nas brenhas intractaveis das Asturias.

O ardil de Pelagio para resistir com vantagem aos mosselemanos, cem
vezes mais numerosos que os christãos, surtira o desejado effeito.
Ainda que muito a custo, os cavalleiros enviados em cilada para a
floresta á esquerda das gargantas de Covadonga poderam chegar ahi sem
serem sentidos dos arabes, que se haviam approximado mais cedo do que o
fizera crer a narração do velho Vellido. Os infiéis pararam nas bordas
do Deva, no sitio em que rompia do valle, e os seus almogaures tinham
ousado penetrar ávante. Os cavalleiros da cilada, que a pouca distancia
passavam manso e manso, ouviram distinctamente o tropeiar dos ginetes
inimigos.

Mas, quando, ao primeiro alvor da manhan, Pelagio se encaminhava com o
seu pequeno esquadrão para a garganta das serras, já os arabes rompiam
por ella e começavam a espraiar-se, como ribeira que, saindo de leito
apertado, se dilata pela campina. Os christãos recuaram, e os infiéis,
attribuindo ao temor esta fuga simulada, precipitaram-se após elles.
Pouco a pouco, o duque de Cantabria attrahiu-os para a entrada da
gruta de Covadonga. Chegado alli, pondo á boca a sua buzina, tirou um
som prolongado. Immediatamente os cimos dos rochedos, que pareciam
inaccessiveis, cubriram-se de fundibularios e frecheiros, e uma nuvem
de tiros choveu de toda a parte sobre os africanos e sobre os renegados
godos. Vacillaram; mas o desejo da vingança levou-os a apinharem-se,
esquadrões após esquadrões, á entrada da caverna, onde, finalmente,
encontravam desesperada resistencia. Então, como se despegassem do céu,
grandes rochedos começaram a rolar sobre elles dos cimos do precipicio
que lhes ficava sobranceiro. Mãos invisiveis os impelliam. Cada rocha
traçava no meio daquelle vulto informe que oscillava, naquella vasta
planicie de alvos turbantes e de capacetes reluzentes, uma escura
mancha, semelhante a chaga horrivel. Eram dez ou vinte guerreiros,
cujos membros esmagados, cujos ossos triturados, cujo sangue
confundido espirravam por cima das frontes dos seus companheiros. Era
medonho!--porque a esse espectaculo se ajunctava o grito de raiva
e desesperação dos pelejadores, grito feroz e agudo, só comparavel
ao bramido de cem leoas a quem os caçadores do Atlas houvessem, na
ausencia dellas, roubado os seus cachorrinhos.

Pela volta da tarde, apenas do numeroso e brilhante exercito dos arabes
alguns milhares de cavalleiros fugiam desalentados diante dos foragidos
das Asturias, que os perseguiam incansaveis além de Cangas de Onis.

Fora no momento em que Pelagio penetrava, na sua fingida fuga, sob o
vasto portal da gruta que o cavalleiro negro saía. O joven guerreiro
viu-o e estremeceu. Eurico tinha as faces encovadas, o rosto pallido e
transtornado, e havia em todo o seu gesto uma tão singular expressão
de tranquillidade que fazia terror. Emquanto os christãos defendiam
a entrada elle esteve quedo, como indifferente ao combate; mas, logo
que os arabes, acommettidos já pelas costas, principiaram a recuar, e
que Pelagio pôde combater na planicie, o cavalleiro, abrindo caminho
com o frankisk, desappareceu no meio dos inimigos. Desde esse momento,
debalde o duque de Cantabria o buscou: nem elle, nem ninguem mais o viu.

Era quasi ao pôr do sol. Seguindo a corrente do Deva, a pouco mais
de duas milhas das encostas do Auseba, dilatava-se nessa epocha
denso bosque de carvalhos, no meio do qual se abria vasta clareira,
onde sobre dous rochedos aprumados assentava um terceiro. Era,
provavelmente, uma ara celtica. Em frente de tosca ponte de pedras
brutas lançada sobre o rio, uma senda estreita e tortuosa atravessava
a selva e, passando pela clareira, continuava por meio dos outeiros
vizinhos, dirigindo-se, nas suas mil voltas, para as bandas da
Gallecia. Quatro cavalleiros, a pé e em fio, caminhavam por aquelle
apertado carreiro. Pelos trajos e armas, conhecia-se que eram tres
christãos e um sarraceno. Chegados á clareira, este parou de repente e,
voltando-se com aspecto carregado para um dos tres, disse-lhe:

«Nazareno, offereceste-nos a salvação, se te seguissemos: fiámo-nos
em ti, porque não precisavas de trahir-nos. Estavamos nas mãos dos
soldados de Pelagio, e foi a um aceno teu que elles cessaram de
perseguir-nos. Porém o silencio tenaz que tens guardado gera em mim
graves suspeitas. Quem és tu? Cumpre que sejas sincero, como nós. Sabe
que tens diante de ti Mugueiz, o amir da cavallaria arabe, Juliano, o
conde de Septum e Oppas, o bispo d'Hispalis.»

«Sabía-o:--respondeu o cavalleiro--por isso vos trouxe aqui. Queres
saber quem sou? Um soldado e um sacerdote do Christo!»

«Aqui!?... atalhou o amir, levando a mão ao punho da espada e lançando
os olhos em roda. Para que fim?»

«A ti, que não eras nosso irmão pelo berço; que tens combatido
lealmente comnosco, inimigos da tua fé; a ti que nos opprimes, porque
nos venceste com esforço e á luz do dia, foi para te ensinar um caminho
que te conduza em salvo ás tendas dos teus soldados. É por alli!... A
estes, que venderam a terra da patria, que cuspiram no altar do seu
Deus, sem ousarem francamente renegá-lo, que ganharam nas trevas a
victoria maldicta da sua perfidia, é para lhes ensinar o caminho do
inferno... Ide, miseraveis, segui-o!»

E quasi a um tempo dous pesados golpes de frankisk assignalaram
profundamente os elmos de Oppas e Juliano. No mesmo momento mais tres
ferros reluziram.

Um contra tres!--Era um combate calado e temeroso. O cavalleiro da cruz
parecia desprezar Mugueiz: os seus golpes retiniam só nas armaduras dos
dous godos. Primeiro o velho Oppas, depois Juliano cahiram.

Então, recuando, o guerreiro christão exclamou:

«Meu Deus! Meu Deus!--Possa o sangue do martyr remir o crime do
Presbytero!»

E, largando o frankisk, levou as mãos ao capacete de bronze e arrojou-o
para longe de si.

Mugueiz, cego de colera, vibrara a espada: o craneo do seu adversario
rangeu, e um jorro de sangue salpicou as faces do sarraceno.

Como tomba o abeto solitario da encosta ao passar do furacão, assim o
guerreiro mysterioso do Chryssus cahia para não mais se erguer!...

Nessa noite, quando Pelagio voltou á caverna, Hermengarda, deitada
sobre o seu leito, parecia dormir. Cansado do combate e vendo-a
tranquilla, o mancebo adormeceu, tambem, perto della, sobre o duro
pavimento da gruta. Ao romper da manhan, acordou ao som de cantico
suavissimo. Era sua irman que cantava um dos hymnos sagrados que muitas
vezes elle ouvira entoar na cathedral de Tárraco. Dizia-se que seu
auctor fora um Presbytero da diocese de Hispalis, chamado Eurico.

Quando Hermengarda acabou de cantar ficou um momento pensando.
Depois, repentinamente, soltou uma destas risadas que fazem erriçar
os cabellos, tão tristes, soturnas e dolorosas são ellas: tão
completamente exprimem irremediavel alienação d'espirito.

A desgraçada tinha, de feito, enlouquecido.



NOTAS


Pag. X


     «Chronica-poema, lenda, ou o que quer que seja.»


Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem isso me
afflige demasiado. Sem ambicionar para elle a qualificação de poema
em prosa--que não o é por certo--tambem vejo, como todos hão-de ver,
que não é um romance historico, ao menos conforme o creou o modelo e
a desesperação de todos os romancistas, o immortal Scott. Pretendendo
fixar a acção que imaginei n'uma epocha de transição--a da morte do
imperio gothico, e do nascimento das sociedades modernas da Peninsula,
tive de luctar com a difficuldade de descrever successos e de retratar
homens que, se, por um lado, pertenciam a eras que nas recordações da
Hespanha tenho por analogas aos tempos heroicos da Grecia, precediam
immediatamente, por outro, a epocha a que, em rigor, podemos chamar
historica, ao menos em relação ao romance. Desde a primeira até a
ultima pagina do meu pobre livro caminhei sempre por estrada duvidosa
traçada em terreno movediço; se o fiz com passos firmes ou vacillantes,
outros, que não eu, o dirão.

Conhecemos, talvez, a sociedade wisigothica melhor que a d'Oviedo e
Leão, que a do nosso Portugal no primeiro periodo da sua existencia
como individuo politico. Sabemos melhor quaes foram as instituições dos
godos, as suas leis, os seus usos, a sua civilisação intellectual e
material, do que sabemos o que era isso tudo em seculos mais proximos
de nós. O esplendor dos paços, as formulas dos tribunaes, os ritos dos
templos, a administração, a milicia, a propriedade, as relações civís
são menos nebulosas e incertas para nós nas eras gothicas que durante
o longo periodo da restauração christan. E, comtudo, o reproduzir a
vida dessa sociedade, que nos legou tantos monumentos, com as fórmas
do verdadeiro romance historico temo-lo por impossivel, ao passo que
o representar a existencia dos homens do undecimo ou dos seguintes
seculos será para o que os tiver estudado, não digo facil, mas, sem
duvida, possivel.

Qual é a causa d'isto?

É que nós conhecemos a vida publica dos wisigodos e não a sua vida
íntima, emquanto os seculos da Hespanha restaurada revelam-nos a
segunda com mais individuação e verdade que a primeira. Dos godos
restam-nos codigos, historia, litteratura, monumentos escriptos de
todo o genero, mas os codigos e a litteratura são reflexos, mais ou
menos pallidos, das leis e erudição do imperio romano, e a historia
desconhece o povo. O gothicismo hespanhol, ao primeiro aspecto, parece
mover-se. Palpamo-lo: é uma estatua de marmore, fria, immovel, hirta.
As portas das habitações dos cidadãos cerram-nas os sete sellos do
Apocalypse: são a campa da familia. A familia goda é para nós como se
nunca existira.

Não cabe n'uma nota o fazer sentir esse não sei quê de magestade
_esculptural_ que conserva sempre a raça wisigothica, por mais que
tentemos galvanisá-la, nem o contrapor-lhe as gerações nascidas durante
a reacção contra o islamismo, que surgem e agitam-se e vivem quando
lhes applicamos a corrente electrica e mysteriosa que, partindo da
imaginação, vai despertar os tempos que foram do seu calado sepulchro.

Desta differença, que é mais facil sentir que definir, nasce a
necessidade de estabelecer uma distincção nas fórmas litterarias
applicadas ás diversas epochas da antiga Hespanha, a romano-germanica,
e a moderna.

O periodo wisigothico deve ser para nós como os tempos homericos da
Peninsula. Nos cantos do Presbytero tentei achar o pensamento e a cor
que convem a semelhante assumpto, e em que cumpre predominem o estylo
e fórmas da Biblia e do Edda--as tradições christans, e as tradições
gothicas, que, partindo do oriente e do norte, vieram encontrar-se e
completar-se, em relação á poesia da vída humana, no extremo occidente
da Europa.

O romance historico, como o concebeu Walter Scott, só é possivel áquem
do oitavo--talvez só áquem do decimo seculo; porque só áquem dessa data
a vida da familia, o homem sinceramente homem, e não ensaiado e trajado
para apparecer na praça publica, se nos vai pouco a pouco revelando.
As fórmas e o estylo que convem aos tempos wisigothicos seriam, desde
então, absurdos e, parece-me, até, que ridiculos.

A Hespanha romano-germanica transformou-se na Hespanha rigorosamente
moderna no terrivel cadinho da conquista arabe. A obra litteraria
(novella ou poema--verso ou prosa--que importa?) relativa a essa
transição deve combinar as duas fórmulas--indicar as duas extremidades
a que se prende; fazer sentir que o descendente de Theoderik ou de
Leuwighild será o ascendente do Cid ou do lidador; que o heroe se vai
transformar em cavalleiro; que o servo, entidade duvidosa entre homem e
cousa, começa a converter-se em altivo e irrequieto burguez.

E a fórma e o estylo devem approximar-se mais ou menos d'um ou d'outro
extremo, conforme a epocha em que lançamos a nossa concepção está mais
vizinha ou mais remota da que vai deixando d'existir ou da que vem
surgindo. A difficultosa mistura dessas cores na palheta do artista
nenhuma doutrina, nenhum preceito lh'a diz: ensinar-lh'a-ha o instincto.

Tive eu esse instincto?--É mais provavel o não que o sim.--Se a arte
fora facil para todos os que tentam possuí-la, não nos faltariam
artistas!


Pag. 2.


     «Leuwighild expulsara da Hespanha os derradeiros soldados dos
     imperadores .......... e expirara em Toletum.»


Hesitei muito tempo sobre se conviria usar dos nomes proprios, quer de
pessoas quer de logares, como as successivas alterações da linguagem na
Hespanha os foram transformando, a ponto de muitos delles se acharem
hoje totalmente diversos do que eram na sua origem. Destas mudanças,
aquellas que apenas consistiam no augmento ou diminuição de uma letra,
ou na diversidade das desinencias, podiam, talvez, ser admittidas
sem darem um aspecto anachronico ao livro. Outros nomes, porém,
havia, sobretudo nas designações corographicas, tão completamente
alterados, que me repugnava o substituir o moderno ao antigo. Assim
Toletum, Emérita seriam sem difficuldade representados por Toledo e
Mérida; mas, como substituir, sem anachronismo na expressão, Sevilha a
Hispalis, Leão a Legio, Guadalete a Chryssus e, finalmente, Burgos a
Augustobriga, quando, como neste caso, até a situação da moderna cidade
não é exactamente a da antiga povoação? Preferi, portanto, conservar
os nomes primitivos, os quaes, não influindo de modo algum na ordem
e clareza da narrativa, podem facilmente encontrar-se em qualquer
diccionario ou tractado de geographia antiga.

Aos nomes individuaes dos primeiros wisigodos procurei conservar,
quando alludi a elles, os vestigios da origem gothica: aos dos
personagens do meu livro conservei as fórmas alatinadas que se
encontram nos monumentos contemporaneos, porque, segundo todas as
probabilidades, já nesta epocha o elemento romano de todo havia
triumphado na lingua.


Pag. 9.


     «Gardingo na corte de Witiza, tiuphado ou millenario do exercito
     wisigothico.»


Uma das cousas mais disputadas na historia das instituições gothicas
é a natureza dessa classe de individuos, que tantas vezes figuram nos
monumentos daquellas epochas, chamados gardingos (_gardigg_ em lingua
gothica). Masdeu e com elle Romey, que o traduz quasi sempre ácerca da
historia dos wisigodos, postoque não o cite senão neste logar, são de
parecer que o gardingato não era um titulo de nobreza, mas do cargo de
substituto do duque (governador de provincia) como o _vicarius_ o era
do conde (governador de cidade). Aschbach deriva a palavra de _Gards_,
que significa _solar com terras adjacentes_, e parece querer confirmar
assim a opinião de Vossio, que pretendia fossem os administradores
ou almoxarifes dos palacios reaes, opinião que sería mui difficil
de sustentar á vista de varios monumentos hispano-gothicos. Segui o
parecer de Grimm e Lembke, que suppõem formarem os _gardiggos_ uma
classe de _curiales_ (cortesãos) ou nobres. Neste caso não serviria a
etymologia _gards_ para indicar no gardingato uma nobreza estribada
sobre certa extensão e importancia de propriedade territorial,
formando a terceira classe de nobreza depois dos _duces_ e _comites_?
Rosseeuw-Saint-Hilaire pensa-o assim e faz o gardingo synonimo de
_Procer_. Procer, todavia, não indicava em especial o gardingo, mas era
denominação generica da nobreza.

Quanto ao cargo de tiuphado ou tiufado, deve saber-se que o exercito
godo se dividia em corpos de mil homens, e estes em companhias e
esquadras de cem e de dez. Abaixo do tiuphado (_thiud_ ou _theod_
povo e _fath_ conduzir, ou, segundo outra derivação, _taihunda_ mil
e _fath_) que, tambem, se chamava millenario (da etymologia latina
_mille_) estava o quingentario, segundo uns, capitão de quinhentos
homens, especie de major dos regimentos modernos, e, segundo outros,
substituto do tiuphado ou semelhante aos nossos tenentes-coroneis. A
companhia de cem homens (_centuria_) era regida por um _centenario_, e
a de dez (_decania_) por um _decano_.


Pag. 13.


     «Com a fluctuante stringe.»


O vestido civil dos wisigodos era uma especie de tunica chamada
_Stringe_ ou _Strigio_, já d'antes conhecida pelos romanos. O clero
usava deste trajo como os seculares, com a differença de ser branco
ou d'outra cor modesta, porque o havia, até, cor de purpura, o uso da
qual era severamente prohibido aos sacerdotes. Veja-se Masdeu, Hist.
Crit. d'Esp. T. 11, p. 63 e 197, e Ducange e Carpentier ás palavras
_Stringes_, _Strigio_.


Pag. 16.


     «O ostiario buscava.»


A igreja goda empregava oito ministros na celebração do culto: 1.^o
o Ostiario, que abria e fechava o templo, cuidava da conservação dos
objetos do culto e vigiava que não assistissem ao sacrificio herejes
ou excommungados: 2.^o o Acolito, que illuminava os altares e tinha
na mão um candelabro emquanto se lia o evangelho: 3.^o o Exorcista, a
quem incumbia o expulsar o demonio dos possessos: 4.^o o Psalmista,
que levantava no coro as antiphonas, psalmos e hymnos: 5.^o o Leitor,
que lia em alta voz as prophecias do Antigo Testamento e as Epistolas
e as explicava ao povo: 6.^o o Subdiacono, que recebia as oblações dos
fiéis e dispunha as vestiduras e vasos sagrados para a missa: 7.^o o
Diacono, que ajudava a esta e dava a communhão 8.^o o Presbytero, que
sacrificava, prégava e dava a benção ao povo.


Pag. 17.


     «De Draconcio, de Merobaude e de Orencio.»


Poetas celebres hispano-godos do seculo V.--De Draconcio resta-nos o
_Carmen de Deo_ e uma epistola dirigida a Gunth-rik rei dos vandalos.
De Merobaude subsiste um fragmento do _Poema de Christo_. D'Orencio,
tão elogiado pelo poeta Fortunato e por Sidonio Apollinario, apenas
resta uma pequena poesia na _Bibliotheca Veterum Patrum_.


Pag. 26.


     «Não eram assim os godos de oeste.»


A raça dos godos, asiatica na origem e germanica na lingua, que,
antes de occupar uma parte do territorio romano, habitava ao norte do
Ponto Euxino (Mar Negro), dividia-se em duas grandes familias, cujas
denominações provieram da sua situação relativa. Os que estanceiavam
ao oriente chamavam-se _ost-goths_ (godos de leste) e depois,
corruptamente, ostrogodos; os que demoravam ao occidente eram os
_west-goths_ (godos de oeste) ou wisigodos, que, depois de ora servirem
o imperio como alliados, ora assolarem-no como inimigos, vieram fazer
assento no sul das Gallias e na Peninsula, estabelecendo, a final, em
Toledo o centro do seu imperio.


Ibidem.


     «Combatia nos campos catalaunicos.»


A celebre batalha dada por Theoderik, rei dos wisigodos, e pelo general
romano Aecio, seu alliado, ao feroz Attila nos _campi catalaunici_
(planicies de Chalons-sur-Marne) é o mais celebre entre os terriveis
combates que custou á Europa no V seculo a dissolução do grande cadaver
romano. Podem-se ver em Jornandes e no Panegyrico de Avito por Sidonio
Apollinario as particularidades deste successo.


Pag. 42.


     «Rodeiaremos a Ilha Verde.»


Algeziras. Este nome foi posto pelos arabes ao logar onde Tarik veio
aportar, saindo de Ceuta para a conquista d'Hespanha. O ilheu, hoje
chamado _das Pombas_, fica a um tiro d'espingarda daquella povoação, á
qual passou o nome que os arabes tinham dado á ilhota, vendo-a verdejar
ao longe:--_Djezirat-al-Hadra_ (ilha-verde). Ignorando-lhe o nome
antigo, suppuz que essa denominação de origem arabica era anterior e
que já os godos lh'a attribuiam. O anachronismo é, a meu ver, assás
desculpavel.


Pag. 46.


     «O amiculo alvissimo.»


O _amiculo_, que entre os romanos era proprio das mulheres de baixa
esphera, tornou-se em Hespanha trajo commum das mais honestas e nobres:
era uma especie de manto, com que cubriam as vestiduras inferiores: Os
cabellos encerravam-nos n'uma como coifa, denominada _retíolo_. Veja-se
Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 6.


Pag. 55.


     «Para o lado dos campos gothicos.»


Os wisigodos tinham dado em especial o nome de _Campi gothici_ ás
planicies de Leão e da Extremadura Hespanhola. D'ahi, contrahida a
menor territorio, veio a denominação da terra de _Campos_.


Pag. 67.


     «Wali de Sebta.»


«_Wali_: Prefeito, caudilho principal, governador de provincia, general
d'exercito:» _Conde_, _Declar. de alg. nom. arabes_. Juliano era,
segundo parece, o governador da provincia gothica d'além do Estreito,
chamada _Transfretana_; cabia-lhe por isso entre os arabes o titulo de
Wali. Sebta é a corrupção arabica do nome de Septum, corrupção d'onde
os nossos antigos formaram _Cepta_ e, depois, _Ceuta_.


Pag. 70.


     «Os golpes do frankisk godo.»


O _frankisk_ ou _frankiska_ era uma especie de machadinha de dous
gumes, usada pelos frankos, de quem os godos a tomaram. Consulte-se
Masdeu, Hist. Crit. T. 11, p. 52--e Ducange, verb. _Francisca_. A
_Cateia_, de que adiante se ha-de falar, era uma lança curta ou dardo,
a origem, talvez, da _azcuma_ dos tempos posteriores.


Pag. 82.


     «A antiga Romula.»


Sevilha no tempo dos romanos tinha dous nomes--_Romula_ e _Hispalis_.
Este ultimo veio a prevalecer, emfim. Veja-se _Flores, Esp. Sagr_. T.
9, p. 87.


Pag. 85.


     «O Propheta de Yatrib.»


Mohammed era natural de Medina. Esta cidade chamava-se Yatrib. Foi elle
quem lhe poz o nome de Medina-al-Nabi--_Cidade do Propheta_.


Pag. 87.


     «Calpe, ou Geb-al-Tarik.»


Os arabes, tendo desembarcado nas costas d'Hespanha e vendo que a
montanha do Calpe era um logar grandemente defensavel, fortificaram-se
ahi, porventura emquanto esperavam o resto do exercito que passava
d'Africa. A montanha recebeu então o nome de _Geb-al-Tarik_ (monte de
Tarik) e, tambem, o de _Gel-al-Fetah_ (monte da Entrada). Da palavra
Geb-al-Tarik se formou depois a de Gibraltar.


Pag. 89.


     «Os crentes do Islam.»


_Islam_ em arabe, o islamismo ou religião do koran. Significa,
propriamente, esta palavra _resignação_; _resignação em Deus_.


Pag. 90.


     «Alguns esculcas.»


Esculcas eram, nos tempos barbaros, chamadas as rondas ou sentinellas
nocturnas dos arraiaes. Esta palavra encontra-se nos escriptores
do VI seculo e dos seguintes, como em S. Gregorio Magno; _sculcas
quos mittitis sollicitè requirant_: Epist. 12--23.--A fórma pura
do vocabulo, _Exculcatores_, apparece já em Vegecio: depois, por
abbreviatura, _Exculcae_ e _Sculcae_. _Sculcas_ são contrapostos aos
_atalaias_ nas leis das Partidas. P. 2. tit 26, onde estes significam
_guardas de dia_.


Ibidem.


     «Os romanos!--e a turba repetiu:--Os romanos!»


Os arabes designavam os christãos ou, antes, em geral, qualquer
europeu pelo nome de _al-rumi_, o romano, quer fosse grego, franko
ou hespanhol. Aquelles mesmos que abraçavam o islamismo conservavam
este appellido. Tal era o amir ou general da cavallaria, Mugueiz,
um dos mais famosos companheiros de Tarik. Quando, em especial, os
pretendiam designar, não pela differença de raça, mas pela de crença,
denominavam-nos _Nassrani_ (nazarenos).


Pag. 99.


     «O grito de _Allah-hu-Acbar_!»


_Deus só é grande!_ era para os arabes a voz de accommetter, como,
depois, foi para os christãos o grito de _Sanctiago_!


Pag. 109.


     «Ao longo da ephippia.»


A ephippia era uma especie de sella de lan que os godos haviam imitado
da cavallaria romana.


Pag. 117.


     «Debaixo das pancadas violentas dos mangoaes.»


«As armas delles (dos berebéres e arabes africanos) quasi se limitam a
páus compridos a que se prendem pequenos tóros atados pelo meio, que no
combate descarregam sobre os inimigos com ambas as mãos:» Alkhathib,
_Pleni-Lunii Splendor_, em Casiri, T. 2, p. 258.


Pag. 153.


     «Os cheiks.»


Como a palavra latina _senior_ (o mais velho) veio a significar no
latim barbaro e no romance ou linguas vulgares das nações modernas, o
_principal_, o _senhor_, assim a palavra arabe _Cheik, Chek, Xeque_,
isto é, o _ancião_, tomou entre os sarracenos a significação de senhor
ou chefe de uma tribu.


Pag. 157.


     «Ás supplicas do velho buccellario.»


No imperio godo os buccellarios vinham a ser o mesmo que os clientes
dos romanos, homens livres addictos ás familias poderosas, por quem
eram patrocinados e, talvez, sustentados, se, como pretende Masdeu e
o seu, nesta parte, quasi traductor Romey, o nome _buccellarius_ lhes
provinha de _buccella_ (migalha de pão). O Codigo Wisigothico (Liv.
5. tit. 3.^o) estabelece os deveres e relações destes homens com seus
amos e patronos. A obrigação mais importante do buccellario parece ter
consistido no serviço militar: _Si ei... arma dederit_. É por isso que
se me affigura mais provavel a etymologia que a semelhante denominação
attribue com preferencia o erudito Canciani (Barbar. Leg. Ant. Vol.
4, p. 117) derivando-a da palavra scandinava _buklar_ (o escudo),
transformada no idioma germanico em _buckel_ e nas linguas modernas em
_buckler, bouclier, broquel_. Neste caso o buccellario corresponderia
ao _armigero_ ou _escudeiro_ do seculo 12 e 13, que, significando na
sua origem o que trazia as armas ou o escudo do seu senhor ou amo, veio
a tomar-se por um homem d'armas de certa distincção, a quem, todavia,
faltava o grau de cavalleiro.


Pag. 164.


     «E as suas almas puras abrigavam-se no seio immenso de Deus.»


O facto narrado neste capitulo é historico. O logar da scena e a epocha
é que são inventados. Foram as monjas de Nossa Senhora do Valle, juncto
d'Écija, que, em tempos posteriores, practicaram este feito heroico,
para se esquivarem á sensualidade brutal dos arabes. Parece que o
procedimento das freiras d'Écija foi imitado em muitas outras partes.
Consulte-se _Berganza_, _Antiguedades de España_, T. 1, pag. 139; e
_Morales, Cron. Gener._ T. 3, pag. 105.


Pag. 197.


     «O imperio de Andalús.»


Segundo Lembke, cuja opinião assenta no testemunho de Ibn-Said e de
Ahmed-Al-makkari, os arabes conheciam a Hespanha, antes da conquista,
pelo nome de _Andalós_ ou _Andalús_, nome que, depois, applicaram em
especial ao territorio entre o Wadi-Al-Kebir e o Wadi-Ana (Guadalquivir
e Guadiana), isto é, á moderna Andalusia. O nome de Al-Gharb (o
occidente) que, igualmente, deram á Peninsula para a distinguir da
Mauritania (Al-Moghreb) veio, tambem, a contrahir-se á nossa provincia
do Algarve.


Pag. 197.


     «Alfaqui dos romanos.»


_Alfaquih._ É titulo que os africanos dão aos seus sacerdotes e sabios
da lei: Moura, Vestig. da Lingua Arab. p. 38.


Pag. 220.


     «Os nazarenos d'Al-Djuf.»


As grandes divisões da Hespanha, segundo a geographia arabe, eram
quatro:--_Al-Gharb_ o occidente; _Al-Sharhiah_ o oriente; _Al-Kiblah_
o meio-dia; _Al-Djuf_ o norte. Era esta, por isso, a designação dos
territorios christãos das Asturias e Cantabria.


Pag. 270.


     «Os ultimos aripennes de terra livre.»


O _aripennis_, _arapennis_, _agripennis_, ou _arpentum_, d'onde veio
a palavra franceza _arpent_, era uma medida d'extensão igual a metade
do _jugerum_, d'onde tomámos a palavra _geira_. O aripenne media-se em
quadro e tinha de cada lado 12 _pérticas_, medida que equivalia a dous
palmos. Masdeu affirma que o aripenne era medida especial da Betica, o
que é inexacto; porque ella se acha mencionada em muitos documentos,
não só de outras provincias d'Hespanha, mas tambem de diversos paizes,
como se póde ver em Ducange, á palavra _Arapennis_.


Pag. 308.


     «Primeiro o velho Oppas, depois Juliano cahiram.»


Nas mil tradições diversas, quer antigas, quer inventadas em tempos
mais modernos, sobre o modo como se constituiu a monarchia das Asturias
procurei cingir-me, ao menos no desenho geral, ao que passa por mais
rigorosamente historico. Todavia, cumpre advertir que Pelagio viveu,
segundo todas as probabilidades, em tempos um pouco posteriores á
conquista arabe e que a morte de Oppas e de Juliano na batalha de
Cangas de Onis, successo narrado por alguns escriptores, tem sobrados
caractéres de fabulosa. A minha intenção, porém, foi, como já notei,
pintar os homens da epocha de transição, digamos assim, dos tempos
heroicos da historia moderna para o periodo da cavallaria, brilhante
ainda, mas já de dimensões ordinarias. O meu heroe do Chryssus é como
o ultimo semideus que combate na terra; os foragidos de Covadonga são
como os primeiros cavalleiros da longa, patriotica e tenaz cruzada da
Peninsula contra os sarracenos. Deste modo, sendo hoje difficultoso
separar, em relação áquellas eras, o historico do fabuloso, aproveitei
d'um e d'outro o que me pareceu mais appropriado ao meu fim.



*Notas de Rodapé*:

[1] Jesus.



Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+------------------------+------------------------+
  |          |       Original         |        Correcção       |
  +----------+------------------------+------------------------+
  |#pág.  12 | poeta O templo         | poeta. O templo        |
  |#pág. 125 | Rudederico             | Ruderico               |
  |#pág. 138 | coração,»              | coração.»              |
  |#pág. 139 | Naquelle noite         | Naquella noite         |
  |#pág. 165 | nãa                    | não                    |
  |#pág. 175 | descalvagou            | descavalgou            |
  |#pág. 204 | do um amor             | de um amor             |
  |#pág. 298 | ferro impio das arabes | ferro impio dos arabes |
  |#pág. 318 | commumunhão            | communhão              |
  +----------+------------------------+------------------------+

As aspas foram mantidas tal como surgiam no original (mesmo que
pareçam em falta).





*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Eurico o presbytero" ***

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