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Title: Memorias de José Garibaldi, volume II - Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas
Author: Garibaldi, Giuseppe
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Memorias de José Garibaldi, volume II - Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas" ***

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                         MEMORIAS DE GARIBALDI

                  TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL

                                  POR

                            ALEXANDRE DUMAS



   TYPOGRAPHIA DE JOAQUIM GERMANO DE SOUSA NEVES—Rua do Caldeira, 17



                         [Ilustração: CAVOUR]



                               MEMORIAS

                                  DE

                            JOSÉ GARIBALDI


                  TRADUZIDAS DO MANUSCRIPTO ORIGINAL

                                  POR

                            ALEXANDRE DUMAS

                       VOLUME II.—SEGUNDA EDIÇÃO

                              LISBOA—1860

                           EDICTOR A. P. C.

                             CHIADO, 83-85



                                   I

                      TUDO PERDIDO, SALVO A HONRA


O verdadeiro motivo da expedição não era levar soccorros aos habitantes
de Corrientes e rehabilital-os, mas sim de se desembaraçarem de mim.

Como é que sendo tão insignificante tinha tantos inimigos? Eis um
segredo que nunca pude profundar.

Quando entrei o rio, o exercito oriental achava-se em S. José de Uruguay
e o d'Oribe em Boyada, capital da provincia d'Entre-rios. Ambos se
preparavam para a luta e o exercito de Corrientes pela sua parte
dispunha-se a unir-se ao exercito oriental.

Tinha a meu cuidado vigiar desde o Parana até Corrientes, isto é, uma
distancia de seiscentas milhas entre as duas margens inimigas, e ainda
mais, perseguido por uma esquadra, quatro vezes superior á minha.

Durante esta passagem não podia causar medo senão ás ilhas ou costas
desertas.

Quando deixei Montevideo havia cem a apostar contra um que nunca mais lá
voltaria.

Logo á sahida de Montevideo sustentei um primeiro combate, contra a
bateria de Martinho Garcia, ilha situada ao pé da confluencia dos dous
grandes rios, Uruguay e Paraná, perto da qual é absolutamente necessario
passar, visto que um só canal existe a alcance de tiro, para os navios
de uma certa tonelagem.

Tive alguns mortos e entre elles Pacarobba, valente official italiano;
levou-lhe a cabeça uma balla de artilheria, e além disso tive oito ou
dez feridos.

A tres milhas da ilha de Martinho Garcia a _Constituição_, deu n'um
baixo, e desgraçadamente isto aconteceu na baixa mar. Tivemos grande
trabalho para a pôr a nado, mas pela coragem dos nossos marinheiros a
pequena flotilha ainda se salvou n'esta occasião. Em quanto nos
occupavamos a transportar para a goletta todos os objectos pesados,
vimos que se aproximava de nós em bella ordem a esquadra inimiga.

Estava em má situação. Para alliviar a _Constituição_, tinha mandado
transportar toda a sua artilheria para a goletta _Procida_ aonde estava
amontoada e por consequencia inutilisada para nós. Restava-nos o
bergantim _Theresa_, de que o animoso commandante estava ao meu lado,
com a maior parte da guarnição, ajudando-nos a trabalhar.

No emtanto o inimigo crescia sobre nós, vistoso entre as acclamações da
tropa da ilha, seguro da victoria e com sete navios de guerra. Apesar do
eminente perigo que me ameaçava não desesperei. Não, pois Deus faz-me o
favor de me conservar sempre grande sangue frio nas occasiões supremas;
deixo pensar aos outros, sobretudo aos maritimos, qual seria a minha
situação. Não se tratava só da vida, que eu renunciaria n'um tal
momento, porém da honra. Quanto mais os homens que me tinham levado ali,
pensavam que eu perderia a minha reputação, mais eu estava decidido a
livral-a d'este perigo, ensanguentada, mas pura.

Não se podia evitar o combate, porém era necessario recebel-o na melhor
situação, por consequencia como os meus navios eram mais pequenos que os
do inimigo, e por isso nadavam em menos agua, aproximei-os quanto pude
da costa, que em perda total no rio me offerecia tambem um meio de
salvação, desembarcando. Desembaracei o mais possivel o convez da
goletta afim que algumas peças podessem servir, e dispostas as cousas
d'esta maneira, esperei.

A esquadra que me ia atacar, era commandada pelo almirante Brown. Sabia
pois que tinha a tractar com um dos mais habeis marinheiros do mundo.

O combate durou tres dias, sem que o inimigo se atrevesse a vir á
abordagem. Na manhã do terceiro dia tinha ainda polvora, mas faltavam-me
projectis. Mandei partir as correntes dos navios, reuni os pregos, os
martellos e tudo quanto de cobre ou ferro podesse substituir as ballas e
a metralha, e lancei-os ao inimigo, ajudando-nos isto a passar o dia.

No fim do terceiro dia não possuindo um unico projectil, e tendo já
perdido metade dos meus homens, lancei fogo aos tres navios em quanto
que, debaixo do fogo inimigo, ganhavamos a terra, levando as nossas
espingardas e alguma polvora.

Os feridos que ainda davam alguma esperança foram tambem transportados.
Em quanto aos outros já disse o que se fazia em eguaes circumstancias.

Estavamos pois a cento e cincoenta ou duzentas milhas de Montevideo, e
em terreno inimigo. A guarnição da ilha de Martim Garcia foi a primeira
que nos tentou fazer mal, mas cheios de orgulho pelo nosso combate com o
almirante Brown, foram recebidos de tal maneira que não nos tornaram a
apparecer.

Pozemo-nos a caminho atravez o deserto, vivendo de algumas provisões que
tinhamos levado, e do que podiamos alcançar pelo caminho.

Os orientaes acabavam de perder a batalha de Arroyo Grande. Reunimo-nos
aos fugitivos, e depois de cinco ou seis dias de luctas, combates, e
privações de que ninguem póde formar idéa, entrámos em Montevideo,
levando intactos o que eu tinha julgado perderiamos.

A honra!!

Este combate e muitos outros que sustentei contra elle, deixaram de mim
uma boa lembrança ao almirante Brown, que tendo abandonado o serviço de
Rosas antes da guerra concluir, veiu a Montevideo e antes de procurar os
seus parentes quiz abraçar-me primeiro. Correu á minha casa da Portona,
e abraçou-me muitas vezes com tal extremo que parecia meu pae.

Depois voltou-se para Annita e disse-lhe:

—Senhora, combati muito tempo contra seu marido, sem obter victoria
alguma. O meu maior prazer era derrotal-o e fazel-o meu prisioneiro, mas
Garibaldi sempre conseguiu escapar-se. Se eu tivesse a felicidade de o
aprisionar, ficaria conhecendo o apreço em que o tenho.

Conto esta anedocta, porque faz mais honra ao almirante Brown do que a
mim mesmo.



                                  II

                           FORMAM-SE LEGIÕES


Depois da victoria de Arroyo Grande, Oribe marchou sobre Montevideo,
declarando que não fazia graça a pessoa alguma, nem mesmo aos
estrangeiros. E para ir dando cumprimento á sua palavra tudo o que
encontrava no caminho era fuzilado.

Então como em Montevideo havia um grande numero de italianos, que ahi
tinham vindo, uns por negocios e outros porque estavam proscriptos, fiz
uma proclamação aos meus compatriotas convidando-os a tomar as armas,
formando uma legião, para combatermos até á morte por aquelles que nos
haviam dado a hospitalidade.

Rivera durante este tempo reunia os restos do seu exercito.

Do seu lado os francezes e hespanhoes formaram tambem duas legiões.
Quatro mezes depois da sua formação a legião hespanhola composta na sua
maioria de carlistas, passou-se para o inimigo, tornando-se o alvo dos
nossos ataques.

A legião italiana não recebia paga, tendo unicamente ração de pão,
vinho, sal, azeite, etc., etc., devendo receber comtudo, finda a guerra,
terrenos e bois os que escapassem e as viuvas e filhas dos fallecidos.

A legião compunha-se primeiramente de quatrocentos a quinhentos homens
elevando-se depois a oitocentos, por causa de muitos proscriptos que
todos os navios conduziam.

A legião foi primeiramente dividida em tres batalhões, um commandado por
Danuzio, outro por Ramella, e o terceiro por Mancini.

Oribe não ignorava todos estes preparativos de defeza, mas ligava-lhe
pouca importancia. Marchou, como já disse sobre Montevideo, e acampou no
Cerrito. Póde ser que no estado de desordem em que se achava a cidade,
elle ahi podesse ter entrado immediatamente, mas julgando ter ali
bastantes partidarios esperava uma demonstração da sua parte; mas esta
demonstração nunca appareceu e Oribe deu tempo a que em Montevideo se
organisasse a defeza.

Ficou pois a uma hora de marcha de Montevideo com doze a quatorze mil
homens.

Montevideo podia apresentar nove mil homens, de que cinco mil eram
negros, aos quaes se havia dado a liberdade, tornando-se excellentes
soldados.

Quando Oribe perdeu a esperança de entrar amigavelmente em Montevideo,
fortificou-se no Cerrito e desde logo começaram as escaramuças.

Do seu lado Montevideo fortificava-se o melhor que podia, sendo o nosso
engenheiro o coronel Echevarrio.

A organisação geral das tropas pertencia ao general Paz.

Joaquim Soares era presidente, Pacheco y Obes ministro da guerra.

Paz partiu de Montevideo para Corrientes e Entre-Rios a fim de
revolucionar estas provincias.

A primeira vez que sahiu das linhas, não sei se foi dos soldados ou dos
officiaes, a legião italiana tomou tal medo que entrou para as
fortificações sem haver disparado um tiro.

Obriguei um dos tres commandantes a pedir a sua demissão, dirigi uma
proclamação aos italianos, escrevendo pela segunda vez a Anzani, que
estava no Uruguay, empregado n'uma casa de commercio, convidando-o a vir
para a minha companhia.

Este excellente amigo chegou no mez de julho.

Com elle tudo ganhou força e vida. A legião que se achava horrivelmente
administrada mereceu todos os seus cuidados.

Durante este tempo tinha-se organisado, sabe Deus como, uma pequena
flotilha, de que me confiaram o commando.

Mancini tomou o meu logar na legião.

A flotilha communicava pelo rio com o Cerro, fortaleza que tinha ficado
em nosso poder, ainda que estivesse a tres ou quatro leguas, na margem
do Prata, mais distante que o Cerrito que tinha cahido no poder de
Oribe.

O Cerro era-nos mui necessario porque nos servia de ponto de apoio, para
mandar gente para as planicies e receber os fugitivos.

Antes de organisar a defeza, a esquadra do almirante Brown tinha feito
uma tentativa sobre o Cerro e sobre a ilha dos Ratos. Durante tres dias
defendi a ilha e a fortaleza. Na ilha havia peças de 18 e de 36,
obrigando o almirante a retirar-se com grandes perdas.

Já disse que á entrada de Anzani as concussões tinham acabado; porque
este honrado homem em tudo tinha cuidado, e por isso se formou uma
conspiração que tinha por fim assassinal-o e a mim, entregando a legião
italiana ao inimigo.

Anzani foi prevenido.

Os conspiradores viram que não tinham nada a fazer por este lado, e uma
manhã vinte officiaes e cincoenta soldados passaram para o inimigo.

Os soldados, é necessario fazer-lhe esta justiça, voltaram a pouco e
pouco.

A legião livre dos traidores, ficou composta de homens valentes e
honradissimos. Anzani reuniu-a e disse-lhe:

—Se eu tivesse que fazer uma escolha entre os bons e os maus, não teria
escolhido melhor, como o acaso vem de fazer.

O general Pacheco e eu tambem fizemos os nossos discursos á tropa.

Alguns dias depois do primeiro combate onde a legião italiana tinha dado
de si tão má idéa, propoz uma expedição, com o fim de a rehabilitar, que
foi acceita. Tratava-se de atacar as tropas de Oribe que estavam diante
do Cerro. Embarquei a legião italiana na nossa pequena esquadra e
desembarcámos no Cerro, e tomando com Pacheco o commando da legião
atacámos o inimigo ás duas horas da tarde, tendo-o posto na mais
completa derrota ás cinco.

A legião composta de quatrocentos homens atacou um batalhão de
seiscentos. Pacheco combatia a cavallo, e eu ora a pé, ora a cavallo,
conforme era necessario. O inimigo teve cento e cincoenta mortos e
duzentos prisioneiros, e nós apenas cinco ou seis mortos, e doze
feridos, entre os quaes figurou um official chamado Ferrucci ao qual foi
necessario cortar uma perna.

No dia seguinte voltamos em triumpho a Montevideo. Pacheco mandou reunir
a legião, elogiou-a muito, e deu uma espingarda de honra ao sargento
Loreto.

O combate tinha tido logar no dia 28 de março de 1843.

Já me achava tranquillo, os meus soldados haviam recebido o baptismo do
fogo.

No mez de maio teve logar a benção da bandeira.

Era de seda preta com o Vesuvio pintado. Era o emblema da Italia, e das
revoluções que em si encerrava. Foi confiada a Sacchi mancebo de vinte
annos que se tinha conduzido admiravelmente no combate do Cerro.

É o mesmo que combateu mais tarde comigo em Roma, e que hoje é coronel.



                                  III

                            O CORONEL NEGRA


A 17 de novembro do mesmo anno, a legião italiana achava-se de serviço
nas linhas e eu tambem ahi estava.

Depois do almoço o coronel Negra, natural de Montevideo, montou a
cavallo e percorreu a linha acompanhado por alguns homens.

O inimigo dirigiu-lhe alguns tiros, e com tanta felicidade que o feriram
mortalmente.

Vendo-o cahir, o inimigo avançou e apoderou-se do corpo.

Apenas soube este acontecimento e não querendo deixar o corpo de um tão
bravo official exposto aos insultos do inimigo, reuni uns cem homens e
ataquei com elles.

Momentos depois o corpo do coronel estava em meu poder.

Então os soldados de Oribe encheram-se de furor, e tendo recebido
consideraveis reforços achei-me cercado por todos os lados. Os nossos
soldados vendo isto voaram em meu soccorro, tomando parte no combate
toda a legião.

Exaltados pela minha voz, avançaram contra o inimigo e com tanta
felicidade que n'um momento estava na mais completa derrota, tendo-lhe
tomado uma bateria e occupado as suas posições.

Mas bem depressa voltando em massa nos atacaram.

Todas as forças da guarnição sahiram, e o combate tornou-se geral,
durando oito horas.

Fomos obrigados a abandonar as posições que haviamos tomado, mas Oribe
suffreu grandes perdas, e entramos em Montevideo vencedores na realidade
e convencidos da nossa superioridade sobre o inimigo.

Tivemos sessenta homens feridos ou mortos.

Tinha tomado parte no combate como um simples soldado, por isso não
tinha observado o que se passou em volta de mim. Entretanto no meio da
confusão havia visto Anzani combatendo com o seu socego habitual, e
sabia que dominando a lucta nenhum detalhe lhe havia escapado.

N'essa mesma tarde pedi-lhe uma nota de todos os que se haviam
distinguido.

No dia seguinte reuni a legião, louvando-a e agradecendo-lhe em nome da
Italia, e promovi alguns d'estes bravos a officiaes e a sargentos.

Depois d'estes dois combates a legião italiana tinha tomado tal
influencia sobre o inimigo que quando elle a via marchar de bayoneta
callada fugia, ou se acceitava o combate era sempre derrotado.

Durante estes acontecimentos Rivera tinha conseguido reunir um pequeno
exercito composto de cinco ou seis mil homens, com o qual fazia frente a
Urquiza, hoje presidente da republica argentina. De tempos a tempos
Rivera enviava pelo Cerro mantimentos a Montevideo.

Oribe mandou uma parte do seu exercito a Urquiza, ordenando-lhe que
tratasse de destruir Rivera.



                                   IV

                           PASSAGEM DA BOYADA


Soubemos em Montevideo da partida dos soldados de Oribe, resolvendo
então o general Paz a aproveitar-se do enfraquecimento do exercito
inimigo.

Além do Cerrito, estavam quasi mil e oitocentos homens observando o
Cerro.

Partimos a 23 de abril de 1844 ás 10 horas da noite.

Eis qual era o nosso plano:

Atacar o corpo de observação do Cerro, porque sabendo d'este ataque,
Oribe devia enviar-lhe soccorros enfraquecendo-se ainda mais, e então
sahiria toda a nossa gente a atacal-o.

Seguimos as margens do mar, passando o Arroyo Secco, que apesar do seu
nome nos obrigou a encher d'agua até ao pescoço.

Tendo passado o rio, dirigimo-nos pela planicie rodeando o acampamento.

Marchavamos com taes precauções que chegamos á vista do corpo
d'observação sem ter causado a mais pequena suspeita.

A guarnição do Cerro devia sahir coadjuvando o nosso movimento. Uma
discussão se elevou entre os dous officiaes que a commandavam porque
ambos queriam tomar o commando. Estando em fuga os mil e outocentos
homens deviamos voltar sobre Oribe, collocando-o entre o fogo da nossa
gente e o da cidade. A discussão entre os dous officiaes fez falhar o
nosso plano, porque a guarnição sahiu, mas senhor de todas as forças
Oribe repelliu-a, e foi elle que por sua vez marchou sobre nós,
executando o plano de batalha que haviamos formado contra elle.

Fomos pois attacados ao mesmo tempo pelo exercito de Oribe e pelo corpo
de observação, sendo obrigados a retirar-mo-nos para o Cerro,
causando-lhe n'essa retirada os maiores prejuisos que podemos.

Tomei o commando da tropa que hia na rectaguarda afim de sustentar esta
retirada o mais vigorosamente que fosse possivel.

Havia entre nós e o Cerro uma especie de riacho que se chamava a Boyada.
Era necessario atravessal-o com lama até ao ventre.

Afim de estabelecer desordem na passagem o inimigo havia estabelecido
n'um monticulo uma bateria de quatro peças que abriram o fogo quando
começamos a passagem. Mas a legião italiana cada vez mais aguerrida
despresou essa chuva de metralha como se fosse chuva ordinaria.

Foi então que tive occasião de observar que os nossos negros eram tambem
valentes soldados. Faziam-se matar, esperando o inimigo com um joelho em
terra. Estava no meio d'elles por isso podia ver como elles se
conduziam. O combate durou seis horas.

Ao serviço de Montevideo estava um inglez, que tinha carta branca de
Pacheco para fazer tudo quanto julgasse util a favor da nossa causa.
Havia reunido quarenta ou cincoenta homens. Chamavam-lhe Samuel; não sei
se tinha outro nome.

Nunca conheci homem tão bravo como elle.

Depois da passagem da Boyada vi-o chegar só com a sua ordenança.

—Samuel, lhe disse eu, onde está a teu regimento?

—Regimento, gritou elle, sentido!

Ninguem appareceu, ninguem respondeu. Todos haviam perecido no combate
Em uma ordem do dia do general Paz, fizeram-se grandes elogios á legião
italiana, setenta homens haviam ficado fóra do combate.

Entramos em Montevideo pelo Cerro.

Samuel commeçou immediatamente a reformar o seu regimento.



                                   V

                   A LEGIÃO ITALIANA RECUSA AS TERRAS
                        QUE LHE SÃO OFFERECIDAS


A 30 de janeiro de 1845, o general Rivera maravilhado pela conducta da
legião italiana no combate de Cerro e na passagem da Boyada escreveu-me
a seguinte carta:

    «Senhor:

    «Quando, no anno passado, dei á legião franceza uma certa
    quantidade de terras, esperava que o acaso conduzisse ao meu
    quartel general algum official da legião italiana, dando-me
    assim occasião de satisfazer um ardente desejo do meu coração,
    mostrando á legião italiana a estima que lhe consagro pelos
    importantes serviços prestados á republica na guerra que
    sustentamos contra o exercito invasor de Buenos Ayres.

    «Para não demorar por mais tempo o que considero como o
    comprimento de um dever sagrado, incluo n'esta, um acto de
    doação que faço á illustre e valorosa legião italiana, como uma
    prova sincera do meu reconhecimento pessoal pelos eminentes
    serviços prestados ao meu paiz.

    «A offerta não é egual aos serviços, nem aos meus desejos, e
    comtudo ouso esperar que não recusareis offerecel-a em meu nome
    aos vossos camaradas, informando-os da minha boa vontade e do
    meu reconhecimento.

    «Aproveito esta occasião, coronel, para vos assegurar a minha
    perfeita consideração e profunda estima.

                                                 «FRUCTUOSO RIVERA.»


O que ha de mais importante n'esta carta é que este excellente patriota
nos fazia este presente da sua propria fortuna, porque as terras que nos
offerecia eram do seu patrimonio.

A 23 de maio seguinte, epocha em que me foi entregue a sua carta,
dirigi-lhe a seguinte resposta:

    «Excellentissimo senhor:

    «O coronel Parrodi, me entregou deante de todos os officiaes da
    legião italiana, segundo o vosso desejo, a carta que tiveste a
    bondade de me escrever com data de 30 de janeiro, e juntamente
    com ella um acto pelo qual fazieis espontanea doação á legião
    italiana d'uma porção de terreno, das vossas propriedades,
    existentes entre o Arroyo das Avenas e o Arroyo Grande, ao norte
    do Rio Negro, e d'uma manada de bois, e de todas as fazendas
    alli existentes.

    «Dizeis na vossa carta que este presente nos é feito como
    remuneração dos nossos serviços á republica.

    «Os officiaes italianos depois de terem tomado conhecimento da
    vossa carta declararam unanimemente, em nome da legião italiana
    que elles offerecendo os seus serviços á republica não queriam
    receber senão a honra de partilhar os perigos que correm os
    naturaes do paiz que lhe deram hospitalidade. Obrando d'este
    modo obedecem á sua consciencia. Tendo satisfeito ao que elles
    olham como o simples comprimento d'um dever, continuarão, tanto
    quanto as necessidades do cerco o exigirem, a partilhar os
    perigos dos nobres Montevidianos, não acceitando outra
    recompensa do seu trabalho.

    «Tenho pois a honra de lhe communicar a resposta da legião, com
    a qual os meus principios e sentimentos concordam completamente.
    Por isso vos envio o original da doação.

                   «Deus vos dê muitos annos de vida.

                                               «GIUSEPPE GARIBALDI.»


Os italianos continuaram a servir sem retribuição alguma, e o meio que
tinham para alcançar algum dinheiro quando tinham necessidade de renovar
alguma parte do vestuario, era o de ir servir algum negociante francez,
que pagava aos substitutos quasi dous francos.

Sempre será bom dizer que, se entretanto havia algum combate o
substituto battia-se como um leão, fazendo-se muitas vezes matar pelo
proprietario do logar.



                                   VI

                            EXILIO DE RIVERA


Já disse qual era o plano do general Paz quando sahimos de noite de
Montevideo.

Este plano se vingasse mudava a face dos negocios e fazia segundo todas
as probabilidades levantar o cerco a Oribe, mas tendo falhado
completamente este plano, voltamos a occupar o nosso posto ordinario,
isto é aos postos avançados que de um e outro lado, se fortificavam cada
vez mais, até que nós tivessemos do nosso lado uma linha de bateria que
correspondesse ás baterias do inimigo.

Foi por esta occasião que o general Paz partiu, para dirigir a
insurreição da provincia de Corrientes, coadjuvando assim a causa
nacional, e dividindo as forças do general Urquiza que então fazia
frente ao general Rivera.

Infelizmente todos estes projectos não tiveram o exito que se esperava
por causa da impaciencia do general Rivera, que sem se importar com as
ordens do governo, que lhe prohibiam o acceitar uma batalha decisiva,
acceitou essa batalha, perdendo-a nos campos da India Morta.

O nosso exercito foi batido. Dois mil prisioneiros, e talvez mais, foram
estrangulados, contra todas as leis da humanidade e da guerra.

Muitos ficaram no campo da batalha, outros foram dispersos pelas
immensas planicies. O general Rivera com alguns dos seus alcançou a
fronteira do Brazil e foi como causa d'este immenso desastre exilado
pelo governo.

Perdida a batalha da India Morta, Montevideo ficou entregue aos seus
proprios recursos. O coronel Corrêa tomou o commando da guarnição.
Comtudo o cuidado particular da defeza ficou incumbido a Pacheco e a
mim. Alguns dos nossos chefes depois d'esta deploravel batalha
conseguiram reunir diversos destacamentos dos soldados dispersos e
fizeram com elles a guerra de guerrilhas onde o terreno a isso se
prestava.

O general Llanos reuniu duzentos homens e preferindo juntar-se aos
defensores de Montevideo, lançou-se sobre o inimigo que vigiava o Cerro
e abrindo caminho alcançou o forte.

Pacheco recebendo este pequeno reforço teve a idéa de dar um golpe de
mão.

A 27 de maio de 1845 embarcámos em Montevideo, durante a noite, a legião
italiana e algumas outras forças tiradas do Cerro, e com este pequeno
corpo fomo-nos embuscar n'um velho paiol que se achava abandonado.

Na manhã de 28 a cavallaria do general Llanos sahiu, protegida pela
infanteria, e attrahiu o inimigo do lado do paiol e quando elle se
achava a pequena distancia, os nossos soldados sahiram com a legião
italiana á frente e carregando á bayoneta cobriram o terreno de
cadaveres.

Então toda a divisão em observação no Cerro se apresentou no campo, e
travou-se um mortifero combate que se decidiu em nosso favor.

O inimigo foi posto em completa derrota e perseguido á bayoneta, sendo
necessario que viesse repentinamente uma horrivel tempestade para
finalisar esta carnificina.

As perdas do inimigo foram consideraveis.

Teve grande numero de feridos e mortos e entre os ultimos figura o
general Nunz, um dos melhores e mais bravos generaes inimigos, que foi
morto por uma bala dos nossos legionarios.

Tambem apanhámos grande numero de bois, de modo que entrámos em
Montevideo com a alegria e esperança no coração.

O feliz resultado d'esta tentativa fez com que propozesse outra ao
governo. Tratava-se de embarcar na flotilha a legião italiana, subir o
rio, occultando os meus homens o melhor possivel, até Buenos-Ayres, e
chegados ahi desembarcarmos de noite, dirigindo-nos á casa de Rosas e
fazendo-o prisioneiro, conduzil-o a Montevideo.

Tendo bom exito esta expedição terminava a guerra de um só golpe, mas o
governo recusou.

Nos intervalos de repouso concedidos ao nosso exercito, dirigia-me á
pequena flotilha e não obstante o bloqueio de que eu enganava a
vigilancia, tomava o largo e ia apanhar algum navio mercante, que
conduzia prisioneiro até ao porto com grande raiva do almirante Brown.

Outras vezes por manobras bem combinadas, attrahindo sobre mim todas as
forças do bloqueio franqueava o porto a navios mercantes que conduziam
provisões á cidade sitiada.

Muitas vezes tambem embarcava-me de noite com cem dos meus legionarios
os mais resolutos e tentava atacar os navios inimigos, que não podia
atacar de dia por causa da grossa artilheria, mas era sempre inutilmente
porque o inimigo desconfiando das minhas surprezas não ficava de noite
debaixo de ancora, transportando-se para algum sitio distante d'aquelle
onde eu o julgava.

Finalmente, um dia sahi com tres pequenos navios, os melhores da
esquadra, e resolvi ir atacar o inimigo na bahia de Montevideo.

A esquadra de Rosas compunha-se de tres navios: _O 25 de março_, _O
general Echague_, e _O Maypu_.

Estes tres navios tinham quarenta e quatro peças montadas.

Eu tinha unicamente oito peças de pequeno calibre, mas conhecia os meus
homens, e estava convencido de que se chegassemos á abordagem o inimigo
estava perdido.

Avancei para a esquadra em linha de batalha.

Estavamos quasi a tiro de peça, julgando já todos o combate inevitavel.
Os terraços de Montevideo estavam cheios de curiosos; os mastros dos
navios de todas as nações estacionados no porto estavam tambem cheios de
espectadores.

Todos esperavam com anciedade o resultado do combate que se julgava
inevitavel.

Mas o commandante da esquadra argentina não quiz correr o risco d'este
combate, e tomou o mar, entrando nós no porto no meio das acclamações
geraes.



                                  VII

                       INTERVENÇÃO ANGLO-FRANCEZA


Os negocios de Montevideo n'esta conjunctura iam o peior possivel,
quando a intervenção anglo-franceza veiu pôr um veto ao bloqueio; as
duas potencias alliadas apoderaram-se da frota inimiga e dividiram-na.

Resolveu-se então nova expedição sobre o Uruguay.

O fim d'esta expedição era de se apoderar da ilha de Martim-Garcia, da
cidade de Colonia e de alguns outros pontos, e principalmente do Salto,
pelo qual se poderiam abrir communicações com o Brazil, ao mesmo tempo
que se formaria um pé de exercito de terra destinado a substituir o que
fôra destruido.

Embarquei duzentos voluntarios na minha pequena frota, e dirigi-me sobre
o forte Martim-Garcia. Encontramo-lo abandonado pelo inimigo e
occupamo-lo.

A cidade de Colonia da mesma fórma estava abandonada, quando ante ella
se apresentaram a esquadra anglo-franceza, e a minha pequena frota.

A legião italiana desceu, combateu e repelliu o general Montero, que com
forças superiores se achava do outro lado da cidade.

Durante este tempo as esquadras, não sei dizer com que fim, abriram um
vivissimo fogo sobre a cidade abandonada; pozeram as tropas em terra, e
estas tropas formaram a nossa reserva contra o general Montero.

Pelas duas horas da tarde fizemos a nossa entrada na cidade.

A legião italiana foi aquartellada n'uma egreja; dei as mais severas
ordens para que se respeitassem as menores cousas pertencentes aos
habitantes forçados a abandonar suas casas.

Inutil é dizer que os legionarios obedeceram religiosamente ás minhas
ordens.

A cidade foi guardada e fortificada pelos nossos, que a guarneceram. As
frotas ingleza e franceza entraram no Parana e destruiram, n'um combate
que durou tres dias, as baterias que guardavam o curso do rio.

A resistencia do inimigo foi heroica.

Continuei então com a minha pequena frota, composta de um brigue, de uma
escuna e outros muitos pequenos vasos, a subir o rio.

Durante todo o tempo que haviamos marchado de conserva o almirante
francez e o commodoro inglez me tinham testemunhado a mais viva
sympathia, sympathia de que o almirante Lariné particularmente me
conservou provas.

Bastantes vezes um e outro vieram assentar-se em nosso _bivac_, provando
da carne que fazia o nosso unico sustento. Anzani, que nos acompanhava
em a nossa expedição, partilhou esta honrosa sympathia. Era um d'estes
que bastava vel-os para os amar e estimar. Em quanto que a nossa frota
subia o Uruguay, vimos reunir-se a nós alguns homens de cavallaria
commandados pelo capitão da Cruz, verdadeiro heroe, quero dizer, homem
do mais bello caracter e da maior coragem.

Estes poucos homens seguiram a frota costeando o Uruguay, e serviram-nos
de muito, a principio como exploradores, depois como fornecedores de
viveres.

Occuparam elles differentes paizes, as Vacas, Mercês, etc.

Por toda a parte onde se encontrava o inimigo era batido.

Paysanda, fortaleza da Praça do Uruguay, experimentou se nos esmagava
debaixo da sua artilheria; mas, todavia, não nos fez grande mal.

Acima de Paysanda, tomamos posição n'uma estancia chamada o Hervidero
onde estivemos muitos dias.

O general Lavalleja tentou sobre nós um ataque de noite com infanteria,
cavallaria e artilheria; mas foi repellido com consideraveis perdas
pelos nossos legionarios.

De Hervedero escrevi ao governador por intervenção do capitão Montaldi,
que voltava a Montevideo n'um navio mercante; mas o navio foi atacado ao
passar diante do Paysarda, rodeado pelas embarcações inimigas e tomado
depois de uma rigorosa resistencia do capitão Montaldi, que abandonado,
só, sobre a ponte foi aprisionado.

Uma multidão de barcos navegando com a bandeira inimiga cahia todos os
dias em nosso poder. Deixei á maior parte d'aquelles que os tripulavam a
liberdade de voltar para os seus.

Gualeguaychu, cidade situada na margem direita do Uruguay e sobre o
Gualeguay, no Entre-rios, cahiu por surpresa em nossas mãos.

Foi ali que eu aprisionei D. Leonardo Millão o mesmo que tendo-me
antigamente preso me tinha feito dar o supplicio das cordas.

Soltei-o, sem lhe fazer mal algum, e deixando-lhe como unica punição o
medo que havia tido ao reconhecer-me.

Gualeguaychu foi abandonada; não era posição sustentavel; mas pagou uma
boa contribuição em dinheiro, roupas e armas.

Emfim depois de uma multidão de combates e aventuras chegámos com a
esquadra ao logar chamado de Salto, porque o Uruguay fórma n'este logar
uma cataracta, e acima d'esta não é navegavel senão por pequenos barcos.

O general Lavalleja que occupava o paiz abandonou-o desde a nossa
chegada, forçando todos os habitantes a seguil-o.

De resto o paiz era perfeitamente apropriado á expedição, não se achando
longe da fronteira.

Resolvi que ahi nos estabelecessemos.

Por consequencia a minha primeira operação foi marchar contra Lavalleja
acampado sobre o Zapevi, affluente do Uruguay.

Durante a noite puz a caminho a nossa infanteria e alguns homens de
cavallaria commandados por de la Cruz.

Ao raiar d'alva estavamos perto do campo que achámos defendido de um
lado pelos carros, de outro pelo Uruguay, e voltado para o Zapevi.

Formei os meus homens em duas pequenas columnas e com a cavallaria ao
meu lado marchei ao encontro do inimigo.

Depois de um combate de alguns minutos, estavamos senhores do campo,
passando o inimigo o Zapevi na mais completa desordem.

O resultado d'esta operação foi logo o regresso ao Salto de todas as
familias que violentamente haviam sido arrancadas de suas casas.

Fizemos quasi cem prisioneiros ao inimigo, tomando-lhe muitos cavallos,
bois, munições, e uma peça de artilheria, a mesma que tinha attirado
sobre nós no ataque de Hervidero; era de fundição italiana e tinha no
bronze o nome do fundidor, Cosimo Cenni, anno de 1492.

Esta expedição fez a maior honra á legião e teve grandes consequencias.
Perto de tres mil habitantes reentraram em seus lares.

Dirigidos por Anzani, os meus legionarios se occuparam logo em elevar
uma bateria sobre a praça da cidade, posição que dominava os arredores.

Enviei correios ao Brasil, para me pôr em communicação com os
refugiados, e graças a elles, começou a reorganisação de um exercito de
campanha.

Em pouco tempo, a bateria foi construida e armada de dois canhões, tão
bem, que na noite de 5 de dezembro de 1845, ella se achou prompta para
responder aos ataques do general Urquiza, que se apresentou, na manhã de
6 com tres mil quinhentos homens de cavallaria, oitocentos de infanteria
e uma bateria de campanha.

As minhas disposições foram aquellas que se tomam quando se quer
centuplicar as forças materiaes pela influencia moral.

Ordenei á esquadra que se retirasse e não deixasse uma só barca ao nosso
alcance. Espalhei os meus homens pelas ruas, fazendo-lh'as embarricar, e
não deixando abertas senão as ruas principaes. Publiquei uma energica
ordem do dia, e esperei Urquiza, que confiando na sua força, tinha
declarado a seus soldados que os homens que estavam ante si tinham
_corações de gallinha_.

Pelas nove horas da manhã por todos os pontos nos atacou;
respondemos-lhe por fogo de atirador sahindo de todas as ruas e pelo
fogo das nossas duas pequenas peças.

Chegado o momento, e quando o vi admirado da nossa resistencia, fil-o
carregar por duas companhias de reserva, e retirou-se vergonhosamente
deixando bom numero de mortos e feridos nas casas de que elle tinha
começado a apoderar-se, não ganhando no seu ataque mais que levar-nos
algumas alimarias, e isto ainda por falta do piquete de uma embarcação
de guerra ingleza, que unida a um navio francez nos tinha seguido até ao
Salto.

Estas duas embarcações tinham-se offerecido para nos ajudar a defender o
paiz; o piquete inglez mudou em forte uma casa que defendia o curral,
onde estavam fechadas perto de seiscentas alimarias. O inimigo enviou um
destacamento da sua infanteria sobre este ponto; os soldados inglezes
foram tomados de um terror panico, de sorte que uns fugiram pelas
janellas, outros pelas portas, e deixaram toda a facilidade aos soldados
de Urquiza de levar os animaes.

Durante vinte tres dias o inimigo renovou os seus ataques sem obter
resultado algum. Vinda a noite, nós com elles; não lhe deixavamos um
momento de descanço. Faltou-nos carne, mas comemos os nossos cavallos.
Emfim convencido da inutilidade de seus esforços. Urquiza tomou o
partido de se retirar, confessando que tinha nos seus diversos ataques
contra nós, perdido mais gente que na batalha da India-Morta.

O inimigo retirando-se tentou apoderar-se das minhas embarcações para
passar ao Uruguay; mas graças á minha vigilancia o seu projecto foi
frustrado, e foi obrigado a atravessar o rio doze leguas acima; depois
do que voltou a acampar-se nos campos de Camardia em frente do Salto.

Em quanto que Urquiza sustentava este acampamento fiz em pleno dia,
passar o rio a alguns homens de cavallaria, protegidos pelas nossas
embarcações e infanteria.

Este pequeno troço atacou os homens que guardavam um immenso rebanho de
cavallos que pastavam nos pampanos, e, repellindo uma centena de
cavallos ante si para substítuir os que nós tinhamos comido, lhes fez
passar o rio e m'os conduziu antes que o inimigo désse pela surpreza e
tentasse impedil-a.



                                  VIII

                    SUCCESSO DO SALTO SANTO ANTONIO


Entretanto o coronel Baez, vindo do Brazil, tinha-se reunido a nós com
perto de duzentos homens de cavallaria.

O general Medina reunia as suas forças, e nós esperavamol-o de dia para
dia. Com effeito, a 7 de fevereiro de 1846, recebi uma mensagem d'elle
que, me avisava que no dia seguinte se acharia sobre as alturas de
Zapevi com quinhentos cavalleiros.

Pedia noticias do inimigo, e um soccorro em caso de ataque.

O seu mensageiro levou o aviso de que a 8 eu estaria com forças
suficientes, para proteger sua entrada no paiz, nas alturas do Zapevi.

Em virtude d'isto pelas nove horas parti com cento cincoenta homens da
legião e duzentos cavalleiros, costeando o Uruguay.

Dirigimo-nos ás Laperas, a tres leguas pouco mais ou menos do Salto,
flanqueados por quatrocentos inimigos pertencentes ao corpo do general
Servando Gomes, unicas forças, que n'aquelle momento se achavam em
observação no Salto.

A nossa infanteria tomou posição sob um _zapère_—um zapère é um tecto de
palha suspenso por quatro paus—o qual não nos offerecia outra vantagem
senão de nos livrar dos abrasadores raios do sol.

A cavallaria, commandada pelo coronel Baez e o major Carvalho,
estendia-se até ao Zapevi.

Anzani tinha ficado em defeza do Salto, doente de uma perna, e com elle
doentes tambem trinta ou quarenta soldados.

Alem d'isto uma duzia de homens estavam de guarda á bateria.

Eram perto das onze horas da manhã; vi avançar, das planicies do Zapevi
para as alturas onde eu me achava um consideravel numero de inimigos a
cavallo; quasi ao mesmo tempo apercebi-me de que cada cavalleiro trazia
um soldado de infanteria na garupa. E com effeito a pouca distancia das
alturas em que me achava, os cavalleiros se alargaram e pozeram em terra
seus companheiros os quaes logo se prepararam a marchar sobre nós.

A nossa cavallaria abriu fogo contra o inimigo; mas, como a sua
superioridade de numero era muita foi posta promptamente em fuga.

Fugindo a nossa cavallaria, se dirigiu para o _zapère_ ao qual já
chegavam as ballas inimigas.

Então, comprehendendo que a verdadeira resistencia era com os meus
bravos legionarios, e que onde elles estivessem estaria a victoria,
corri em sua direcção; mas, quando chegava ás primeiras fileiras no meio
do fogo inimigo, senti repentinamente que o meu cavallo me faltava
debaixo do corpo, e cahindo me arrastava comsigo.

Minha primeira idea foi que vendo-me cahir, a minha gente ia julgar-me
morto e que esta supposição poderia pôl-os em desordem. Quando cahi
tive, pois, a presença de espirito de tirar uma pistolla dos coldres, e
alevantando-me logo, desfechei-a para o ar, afim de que se visse que
estava são e salvo.

Defeito, haveria apenas tempo de me vêr em terra quando já estava
levantado e cercado dos meus.

Entretanto o inimigo avançava sempre, com mil e duzentos homens de
cavallaria e trezentos de infanteria.

Abandonados pela nossa cavallaria, tinhamos ficado ao todo cento e
oitenta e dois. Eu não tinha tempo de fazer um longo discurso; além de
que tambem não era esse o meu forte. Elevei a voz e não disse senão
estas palavras:

—Os inimigos são numerosos; nós somos poucos; tanto melhor! quanto menos
somos tanto mais glorioso será o combate. Socego e não façamos fogo
senão no fim e carreguemos á bayoneta.

Estas palavras eram ditas a homens sobre os quaes cada uma d'ellas fazia
o effeito de uma faisca electrica.

Além disso, qualquer outra determinação teria sido funesta. A perto de
uma milha sobre a direita tinhamos o Uruguay com alguns pequenos
bosques; mas uma retirada em tal crise, teria sido o signal da perda de
todos; tinha-o já comprehendido por isso não pensei em tal.

Chegada quasi a sessenta passos de nós a columna inimiga fez uma
descarga que nos causou grande damno; mas os nossos lhe responderam por
uma fuzilaria muito mais mortifera, tanto mais que as nossas espingardas
eram carregadas não só de ballas, mas ainda de outros projectis.

O commandante da infanteria cahiu mortalmente ferido; as filas
abriram-se, e, á frente dos meus bravos com uma espingarda na mão eu os
metti n'uma carga pronunciada.

Era tempo: a cavallaria estava já sobre os flancos, e na rectaguarda.

A refrega foi terrivel.

Alguns homens da infanteria inimiga deveram sua salvação a uma fuga
rapida. Isto deu-me tempo de fazer frente á cavallaria.

A nossa gente rodou como se cada um houvesse recebido ordem de executar
esta manobra.

Todos combateram, officiaes e soldados, como gigantes.

Uma vintena de cavalleiros então, conduzidos por um bravo official
chamado Vega, tendo vergonha da fuga de Baez e da sua gente, que nos
deixavam sós, voltaram a toda brida, estimando mais partilhar a nossa
sorte que continuar uma retirada vergonhosa.

Vimol-os repentinamente atravessar pelo meio do inimigo e collocar-se a
nosso lado.

Havia, eu vol-o affirmo coragem n'esta resolução.

Alem d'isto a carga que elles executaram juntando-se a nós, serviu-nos
muito n'este critico momento porque separou e fez cahir o inimigo do
qual uma parte se tinha posto em perseguição dos fugitivos.

Tambem na nossa segunda descarga a cavallaria vendo a sua infanteria
destruida e vinte cinco ou trinta homens dos seus cahir debaixo do nosso
fogo, fez um passo de retirada e poz em terra perto de seiscentos homens
que armando-se de caravinas nos rodearam de todos os lados.

Tinhamos ao redor de nós um espaço de terreno coberto de cadaveres de
cavallos e homens assim nossos como inimigos.

Poderia contar innumeraveis actos de bravura individual.

Todos combateram como os nossos antigos heroes do Tasso e de Ariosto;
muitos estavam cobertos de feridas de toda a sorte, ballas, golpes de
sabre, e pontadas de lança.

Um joven clarim de quinze annos que nós chamavamos o vermelho, e que nos
animava durante o combate com o seu clarim, foi ferido com uma lançada.
Largar o clarim, tomar o sabre e lançar-se sobre o cavalleiro que o
tinha ferido, foi obra de um instante.

Só depois de o ferir, é que expirou.

Depois do combate os dois cadaveres foram encontrados agarrados um ao
outro. O mancebo estava coberto de feridas; o cavalleiro tinha na coxa
da perna o signal de uma profunda mordedura que lhe havia dado o seu
inimigo.

Do lado dos nossos adversarios houve tambem actos de prodigiosa
temeridade. Um d'elles vendo que a especie de curro ao redor do qual
estavamos agrupados, se não era uma fortaleza contra as ballas, era pelo
menos um abrigo contra o sol, tomou um tissão inflammado, correu a
cavallo a toda a brida, e passando lançou como um relampago o tissão
sobre o tecto de palha.

O tissão cahiu por terra sem preencher o fim do cavalleiro; mas o que
tinha ali deitado tinha executado uma acção temeraria.

Os nossos iam atirar sobre elle; e eu impedi-os bradando:

—É preciso conservar os bravos; são da nossa raça.

Ninguem lhe fez fogo.

Era para ver-se como todos estes bravos me escutavam.

Uma palavra minha dava força aos feridos, coragem aos hesitantes, e
redobrava o ardor dos fortes.

Quando vi o inimigo dizimado pelo nosso fogo, cançado da nossa
resistencia, então sómente fallei de retirada, dizendo apenas:
_Retiremo-nos!_ mas:

—Retirando-nos não deixaremos um só ferido no campo de batalha.

—Não! não! gritaram todas as vozes.

Feridos eramos nós quasi todos.

Quando vi todos silenciosos e firmes, dei tranquillamente ordem de
retirar combatendo.

Por felicidade não tinha uma beliscadura, o que me permittia de estar em
toda a parte, e quando um inimigo se aproximava de nós temerariamente
fazia-o arrepender da sua temeridade.

Os poucos homens sãos que havia entre nós cantavam hymnos patrioticos
aos quaes os feridos respondiam em côro.

O inimigo nada d'isto comprehendia. O que nós mais soffriamos era falta
de agua.

Uns arrancavam raizes e mastigavam-n'as; outros sugavam nas ballas;
alguns beberam a propria ourina.

Emfim veiu a noite e com ella algum frescor.

Serrei os meus homens em columna, e colloquei os feridos no meio.

Sómente dois que era impossivel transportar deixei no campo de batalha.
Recommendei muito á minha gente de não se dispersar, e de retirar na
direcção de um pequeno bosque.

O inimigo tinha-se apoderado d'elle antes de nós, mas foi repellido
d'ahi vigorosamente.

Enviei então exploradores, que voltaram a dizer-me que o inimigo tinha
quasi toda a sua gente em terra, e os cavallos andavam pastando. Sem
duvida havia-se elle persuadido que a causa da nossa paragem era a fome
e falta de munições; mas fome não a sentiamos; quanto a munições,
tinhamos encontrado nos nossos adversarios mortos o que nos faltava.

Todavia o mais difficil ainda não estava feito.

O inimigo estava acampado entre nós e o Salto: depois de um descanço de
uma hora, que lhe fez julgar que ficariamos toda a noite onde estavamos,
ordenei á minha gente de se formar em columna, e a marche-marche
lançámo-n'os impetuosos sobre elles.

Os clarins inimigos soaram dando o signal de pôr a postos; mas antes que
cada homem se fixasse na sella e tomasse as rédeas, nós tinhamos já
passado.

Dirigimo-nos de novo para uma especie de bosque. Uma vez abrigado entre
as arvores dei ordem a todos os meus de se deitarem com o ventre para
terra. O inimigo dirigia-se para nós, sem nos ver, tocando á carga.

Deixei-o approximar a cincoenta passos do bosque e então sómente gritei
«Fogo» dando eu o exemplo.

Vinte e cinco ou trinta homens e outros tantos cavallos cairam; o
inimigo voltou á brida, e reentrou no seu acampamento. Então disse aos
meus:

—Vamos, meus filhos, julgo que chegou o momento de ir beber.

E costeando sempre o nosso pequeno bosque, levando nossos feridos, tendo
a distancia os nossos mais implacaveis inimigos, que não queriam
abandonar-nos, ganhamos a margem do rio. Á entrada da aldeia
esperava-nos uma grande emoção: Anzani estava ali chorando de alegria.

Abraçou-me primeiramente e quiz abraçar todos os outros depois de mim.

Anzani tambem tinha tido seu combate: tinha sido com alguns homens
atacado pelo inimigo, que antes do combate lhe tinha intimado de se
render, dizendo-lhe que eramos todos mortos ou prisioneiros.

Mas Anzani havia respondido:

—Os italianos não se rendem; descampae todos ou então esmago-vos com os
meus esquadrões. Em quanto eu tiver comigo um dos meus companheiros,
combateremos juntos, e quando estiver só, então porei fogo á polvora e
me farei saltar comvosco pelos ares.

O inimigo não quiz saber mais nada, e retirou-se. A minha gente que se
achava no Salto encontrando tudo em abundancia dizia dirigindo-se a mim:

—Tu nos salvaste a primeira vez; mas Anzani nos salvou segunda!

No seguinte dia escrevi esta carta á commissão da legião em Montevideo:

    «Irmãos.

    «Antes de hontem tivemos nos campos de Santo Antonio, a legua e
    meia da cidade, o mais terrivel e mais glorioso de nossos
    combates. As quatro companhias da nossa legião e vinte homens de
    cavallaria, refugiados sob a nossa protecção, não sómente se
    defenderam contra mil e duzentos homens de Servando Gomes, mas
    destruiram inteiramente a infanteria inimiga que os tinha
    assaltado no numero de trezentos homens. O fogo começou ao meio
    dia e acabou á meia noite.

    «Nem o numero dos inimigos, nem suas cargas repetidas, nem sua
    massa de cavallaria, nem os ataques de espingardeiros a pé,
    poderam nada contra nós; ainda e que não tivessemos outro abrigo
    mais que um curro arruinado sustido por quatro pilares, os
    legionarios repelliram constantemente os assaltos dos inimigos
    furiosos; todos os officiaes se transformaram em soldados n'este
    dia; Anzani que tinha ficado no Salto e ao qual o inimigo
    intimou ordem de se render, respondeu com o morrão na mão e o pé
    na bateria, ainda que o inimigo lhe havia assegurado que nós
    eramos todos mortos ou prisioneiros.

    «Tivemos trinta mortos e cincoenta feridos; todos os officiaes
    foram feridos levemente, excepto Scarone, Saccarello mais velho
    e Traversi.

    «Hoje não dou o meu nome de legionario italiano por um mundo de
    ouro.

    «Á meia noite pozemo-nos em retirada sobre o Salto; ficámos
    pouco mais de cem legionarios sãos e salvos. Os que só haviam
    sido levemente feridos marchavam á frente para cortar o inimigo
    quando elle se adiantasse muito.

    «Ah! é um combate o qual merece ser gravado em bronze!

             «Adeus! D'outra vez serei mais extenso. Vosso,

                                                   _José Garibaldi_.

    «P. S. Os officiaes feridos são Casana, Marochetti, Beruti,
    Remorini, Saccarello mais novo, Sacchi, Grafigna e Rodi.»


Foi esta a nossa ultima refrega importante em Montevideo.



                                   IX

                            ESCREVO AO PAPA


Foi por este tempo que soube em Montevideo a exaltação ao pontificado de
Pio IX.

Sabe-se quaes foram os principios d'este reinado.

Como muitos outros acreditei n'uma epocha de liberdade para a Italia.

Resolvi logo para ajudar o santo padre nas generosas resoluções de que
estava animado, de lhe offerecer o meu braço e os de meus companheiros
d'armas.

Aquelles que acreditavam n'uma opposição systematica da minha parte ao
papado, verão, pela carta que se segue que nada d'isso havia; a minha
dedicação era á causa da liberdade em geral, em qualquer ponto do globo
que ella brotasse.

Comprehender-se-ha entretanto que eu désse preferencia ao meu paiz, e
que estivesse prompto a servir sob a direcção d'aquelle que parecia
destinado a ser o Messias politico da Italia.

Julgamos Anzani e eu que este papel sublime era reservado a Pio IX, e
escrevemos ao nuncio do papa a carta seguinte, pedindo-lhe para
transmittir a sua santidade os nossos votos e os de nossos illustres
legionarios:

    «Muito illustre e respeitavel senhor.

    «Desde o momento em que nos chegaram as primeiras noticias da
    exaltação do soberano pontifice Pio IX e da amnistia que elle
    concedia aos pobres proscriptos, temos com uma attenção e
    interesse recrescentes contado os passos que o chefe supremo
    da egreja tem dado sobre a estrada da gloria e da liberdade.
    Os louvores, cujo echo nos chega aos ouvidos de além dos
    mares, o arruido com que a Italia acolhe a convocação dos
    deputados e a applaude, as sabias concessões feitas á
    imprensa, a instituição da guarda civica, o impulso dado á
    instrucção popular e á industria, sem contar tantos cuidados,
    todos dirigidos para o aperfeiçoamento e bem estar das classes
    pobres, e para a formação de uma administração nova, tudo,
    emfim, nos convenceu que acabava finalmente de sair do seio da
    nossa patria, o homem que comprehendendo as necessidades do
    seu seculo, tinha sabido, segundo os preceitos da nossa
    augusta religião, sempre novos, sempre immortaes, e sem
    derrogar sua auctoridade, cingir-se todavia ás exigencias dos
    tempos; e nós ainda que todos estes progressos não tivessem
    influencia sobre nós mesmos, temol-os entretanto seguido de
    largo, e acompanhado com nossos applausos e nossas vozes o
    concerto universal da Italia e de toda a christandade; mas
    quando ha alguns dias soubemos do attentado sacrilego, no meio
    do qual uma facção sustida pelo estrangeiro,—não estando ainda
    fatigada, depois de tão longo espaço de despedaçar a nossa
    pobre patria—se propunha a destruir a ordem das cousas
    existentes, pareceu-nos que a admiração e enthusiasmo pelo
    soberano pontifice era uma fraca cousa, e que nos estava
    imposto um grande dever.

    «Os que escrevemos, illustrissimo e respeitabilissimo senhor,
    somos os que, sempre animados d'este mesmo espirito que nos fez
    supportar o exilio, tomamos as armas em Montevideo por uma causa
    que nos parecia justa e que reunimos algumas centenas de homens
    nossos compatriotas que para aqui tinham vindo esperando
    encontrar dias menos tormentosos que os que soffriamos em a
    nossa patria.

    «Ora, ha cinco annos que durante o cerco que rodeava os muros
    d'esta cidade, cada um de nós se propõe a dar provas de
    resignação e de coragem; e graças á Providencia e a este antigo
    espirito que inflamma ainda nosso sangue italiano, a nossa
    legião teve occasião de se distinguir, e cada vez que esta
    occasião se ha apresentado ella não a tem deixado escapar; tão
    bem que—creio que é permittido dizel-o sem vaidade—ella tem no
    caminho da honra excedido todos os outros corpos que eram seus
    emulos.

    «Pois se hoje os braços que tem algum uso das armas, forem
    acceites por Sua Santidade, inutil é dizer que bem mais
    voluntariamente que nunca, nós os consagramos ao serviço
    d'aquelle que fez tanto pela patria e pela egreja.

    «Nós nos julgaremos pois felizes se podermos vir em ajuda da
    obra redemptora de Pio IX, nós e nossos companheiros em nome dos
    quaes fallamos, e não julgaremos pagal-a cara com todo o nosso
    sangue.

    «Se vossa illustre e respeitavel senhoria pensa que a nossa
    offerta possa ser agradavel ao soberano pontifice, deponha-a aos
    pés de seu throno.

    «Não é a pueril pretenção de que o nosso braço seja necessario
    que vol-o faz offerecer; sabemos muito bem que o throno do Santo
    Padre pousa sobre bases que nem podem abalal-as ou assegural-as
    soccorros humanos, e que além d'isso a nova ordem de cousas
    conta numerosos defensores que saberão vigorosamente repellir as
    injustas aggressões de seus inimigos; mas como a obra deve ser
    repartida entre os bons, e o duro trabalho dado aos fortes,
    fazer-nos a honra de nos contar entre esses.

    «Esperando, agradecemos á Providencia de ter preservado Sua
    Santidade das machinações _Dei tristi_, e fazemos ardentes votos
    para que ella lhe conceda numerosos annos para felicidade da
    christandade e da Italia.

    «Não nos resta agora senão pedir a vossa illustre e veneravel
    senhoria de nos perdoar o tempo que lhe roubamos e de acceitar
    os sentimentos da nossa perfeita estima e profundo respeito com
    o qual somos de sua illustre e respeitabilissima senhoria os
    mais dedicados servidores.

                                                     _J. Garibaldi._
                                                        _F. Anzani._

    «Montevideo, 12 de outubro de 1847.»


Esperámos em vão; não nos veiu nenhuma resposta do nuncio nem de Sua
Santidade. Foi então que tomámos a resolução de ir a Italia com uma
parte da nossa legião.

A nossa intenção era de ahi secundar a revolução onde ella já estava em
armas, e suscital-a onde ella ainda dormisse, nos Abruzos, por exemplo.

A unica difficuldade que se oppunha a isto era que nenhum de nós tinha
um só soldo para a viagem.



                                   X

                     VOLTO Á EUROPA—MORTE DE ANZANI


Recorri a um meio que colhe sempre com os corações generosos: abri uma
subscripção entre os meus compatriotas.

Começava esta a desenvolver-se, quando alguns espiritos iniquos
começaram a sublevar entre os meus legionarios um partido contra mim,
intimidando os que estavam dispostos a seguir-me. Insinuava-se a esta
pobre gente que eu os conduzia a um perigo certo, que a empresa que eu
sonhava era impossivel, e que uma sorte egual á dos irmãos Bandiera lhes
estava reservada. Resultou d'isto que os mais timidos se retiraram, e
que fiquei com oitenta e cinco, abandonando-me ainda d'estes vinte e
nove depois de embarcados.

Por felicidade os que ficaram comigo eram os mais valentes, que haviam
quasi todos sobrevivido ao ataque de Santo Antonio. Além d'isso eu tinha
alguns orientaes confiados na minha fortuna e entre elles o meu pobre
negro Aguyar que foi morto no cerco de Roma.

Disse que havia sollicitado entre os italianos uma subscripção para
ajudar a nossa partida. A maior parte d'esta subscripção fôra fornecida
por Etienne Antonini, genovez estabelecido em Montevideo.

O governo da sua parte offereceu de nos ajudar com todas as suas posses;
mas eu conhecia tanto o seu critico estado financeiro que não quiz
acceitar d'elle senão duas peças e oitocentas espingardas, que fiz
transportar em o nosso brigue.

No momento da partida aconteceu-nos com o commandante do
_Biponte-Gazolo_ de Nervi, a mesma cousa que aconteceu aos francezes,
quando foi a cruzada de Bandouin com os venezianos, que estes lhe tinham
promettido de os transportar á terra santa; a sua exigencia foi tamanha
que houvemos mister de vender tudo, até nossas camisas para a
satisfazer, de tal fórma que durante a travessia alguns ficaram deitados
por falta de fatos para se vestir.

Estavamos já a trezentas leguas da costa, pouco mais ou menos nas
alturas das bocas do Orenoque, e divertia-me com Orrigoni no gurupés a
pescar marzopas, quando de repente ouvi o grito de «Fogo, fogo!»

Saltar do gurupés á prôa, da prôa á ponte e deixar-me correr pelo bordo
foi obra de um segundo.

Fazendo a distribuição de viveres, o distribuidor tinha tido a
imprudencia de tirar a agua-ardente de um barril com uma luz na mão; a
agua-ardente havia-se incendiado, e o que a tirava atarantara-se, e em
vez de tornar a fechar o barril, tinha deixado correr a golphadas o
liquido; sendo o aposento dos viveres um lago de fogo scintillante.

Foi ali que vi quanto os homens mais bravos são accessiveis ao terror,
quando o perigo se lhes apresenta sob um aspecto differente d'aquelle a
que são habituados.

Todos estes homens que eram heroes no campo de batalha se compelliam,
corriam, perdiam a cabeça, tremulos e transidos como creanças.

No fim de dez minutos ajudado de Anzani, que havia deixado seu leito ao
primeiro grito de alarma, tinhamos extinguido o fogo.

O pobre Anzani, com effeito estava de cama, não por estar inteiramente
nú, mas porque se achava já violentamente tomado da doença de que devia
morrer chegando a Genova, quero dizer de uma phtisica pulmonar.

Este homem admiravel ao qual o seu mais mortal inimigo, se acaso podia
ter algum, não poderia achar um só defeito, depois de ter consagrado sua
vida á causa da liberdade, queria que seus ultimos momentos fossem ainda
uteis a seus companheiros de armas; todos os dias ajudavam-no a subir á
ponte; quando não poude mais subir, fez-se para ahi transportar, e
deitado sobre um colxão dava lições de estrategia aos legionarios,
reunidos em redor d'elle.

Era um verdadeiro diccionario de sciencias o pobre Anzani; ser-me-ia tão
difficil enumerar as cousas que elle sabia, como encontrar uma que não
soubesse.

Em Palo, quasi a cinco milhas de Alicante, saltámos em terra para
comprar uma cabra e laranjas para elle.

Foi lá que soubemos pelo vice-consul sardo parte dos successos que se
passavam na Italia.

Soubemos que a constituição piemonteza tinha sido proclamada e que os
cinco gloriosos de Milão se tinham passado, cousas que não podiamos
saber á nossa sahida de Montevideo, isto é a 27 de março de 1848.

Disse-nos o vice-consul que vira passar navios italianos com bandeira
tricolor. Não era preciso mas para me decidir a arvorar o estandarte da
independencia. Arriei o pavilhão de Montevideo sob o qual navegavamos,
icei immediatamente na verga do navio a bandeira sarda, improvisada com
metade de um lençol, um casaco vermelho e o resto dos ornatos verdes do
nosso uniforme de bordo.

Recordam-se que o nosso uniforme era a blouse vermelha adornada de verde
com debruns brancos.

A 24 de junho, dia de S. João, chegámos á vista de Nice. Muitos
entendiam que não deviamos desembarcar sem mais amplas informações.

Arriscava-me a muito, pois estava ainda condemnado á morte.

Todavia não hesitei, ou antes não teria hesitado, porque reconhecido
pelos tripulantes de um navio, o meu nome espalhar-se-hia bem depressa,
e apenas meu nome estivesse espalhado, Nice em peso correria para o
porto, e seria preciso no meio das acclamações, acceitar as festas que
nos eram offerecidas de todos os lados. Mal se soubesse que eu estava em
Nice, e que tinha atravessado o Occeano para vir em auxilio da liberdade
italiana, os voluntarios correriam de todos os lados. Mas n'esse momento
eu tinha melhores projectos.

Da mesma fórma que acreditara no papa Pio IX, cria no rei Carlos
Alberto; em vez de nos preoccupar de Medici que tinha expedido como
disse a Via Reggio para ahi organisar a insurreição, encontrando a
insurreição organisada e o rei do Piemonte á sua frente, julguei que o
que tinha de melhor a fazer era offerecer-lhe os meus serviços.

Disse adeus ao meu pobre Anzani, adeus tanto mais doloroso por ambos
sabermos que não nos tornariamos a ver, e embarquei para Genova, aonde
cheguei ao quartel general de Carlos Alberto.

O resultado da minha entrevista com elle, provou-me que me havia
enganado. Separamo-nos, pois, descontentes um com o outro, e volvi a
Turim onde soube da morte de Anzani.

Perdia metade do coração.

A Italia perdia um dos seus mais distinctos filhos.

Oh! Italia! Italia! mãe infortunada! que lucto para ti no dia em que
este bravo entre os bravos, este leal entre os leaes cerrou os olhos
para sempre á luz do teu bello sol!

A morte de um homem como Anzani, eu t'o digo, ó Italia! deve arrancar do
intimo seio da nação que lhe deu o nascimento um grito de dôr, e se ella
não chora, se não se lamenta como Rachel na Roma, esta nação não é digna
de sympathia ou piedade, porque não tem tido sympathia ou piedade pelos
seus mais generosos martyres.

Oh! martyr, cem vezes martyr foi o nosso charo Anzani, e a mais cruel
tortura soffrida por este valente foi de tocar a terra natal, pobre
moribundo, e não acabar como viveu combatendo por ella, por sua honra,
por sua regeneração.

Oh Anzani! se um genio egual ao teu tivesse presidido aos combates da
Lombardia, á batalha de Novara, ao cerco de Roma, o estrangeiro não
sulcaria a terra natal, e não pisaria os ossos de nossos avoengos!

A legião italiana, viram-no, tinha feito pouco, antes da chegada de
Anzani; vindo elle, sob seus auspicios, percorreu uma carreira de gloria
que tornára ciosas as nações mais engrandecidas.

Entre todos os militares, os soldados, os combatentes, entre todos os
homens que trazem espada ou espingarda emfim que tenho conhecido, não vi
um que podesse egualar Anzani nos dons naturaes, nas inspirações de
coragem, nas applicações scientificas. Tinha o valor ardente de Massena,
o sangue frio de Davesio, a severidade, bravura e temperamento de
Manara![1]

  [1] O leitor não conhece ainda estes tres outros martyres da
  liberdade italiana, mas bem depressa tomará conhecimento com
  elles. Garibaldi que não escrevia as suas memorias para serem
  impressas, falla d'alguma sorte mais comigo do que com os
  leitores.

                                                               A. D.

Os conhecimentos militares de Anzani, sua sciencia generica, ninguem os
igualava. Dotado de uma memoria rara, fallava com uma precisão admiravel
das cousas passadas, embora estas remontassem á antiguidade.

Nos ultimos annos da sua vida, o seu caracter estava sensivelmente
alterado; tinha-se tornado acre, irascivel, intolerante, e, pobre
Anzani, não era sem motivo esta mudança. Atormentado quasi
incessantemente por dôres resultadas de numerosas feridas e da vida
tempestuosa que tinha soffrido durante tantos annos, arrastava uma
intoleravel existencia, uma existencia de martyr.

Deixo a uma mão mais habil que a minha o cuidado de traçar a vida
militar de Anzani, digna de occupar as vigilias de um escriptor
eminente. Na Italia, Grecia, Portugal, Hespanha e America
encontrar-se-hão, seguindo-lhe a traça, documentos da vida do nosso
heroe.

O jornal da legião italiana de Montevideo sustentado por Anzani, não é
senão um episodio da sua vida. Elle foi a alma d'esta legião, dirigida,
conduzida, administrada por elle, e com a qual se havia identificado.

Oh! Italia! quando o Todo-Poderoso tiver marcado o termo a taes
desgraças, elle te dará Anzanis para guiar teus filhos ao exterminio
d'aquelles que te vilipendiaram e tyrannisaram!

                                                                 _G. G._



                                   XI

                            AINDA MONTEVIDEO


Antes de começar a narração da campanha da Lombardia executada por
Garibaldi em 1848, diremos a proposito de Montevideo, tudo o que elle na
sua modestia, não quiz dizer.

                                   ⁂

Devem lembrar-se do combate de 24 d'abril, da perigosa passagem da
Boyada, e da maneira porque ahi se conduziram os legionarios italianos.

O official que contava estes acontecimentos ao general Paz disse
unicamente referindo-se aos italianos:

—Bateram-se como tigres.

—Não admira, respondeu Paz, pois são commandados por um leão.

                                   ⁂

Depois da batalha de Santo Antonio, o almirante Lainé que então
commandava a estação da Plata, admirado d'esta façanha, escreveu a
Garibaldi a carta seguinte, cujo autografo existe em poder de G. B.
Cuneo, amigo de Garibaldi. O almirante Lainé apparelhava então a fragata
Africana.

    «Felicito-vos, meu caro general, por terdes tão poderosamente
    contribuido, pelo vosso intelligente e intrepido proceder, para
    o alcance de uma victoria de que se ufanariam os soldados do
    grande exercito, que por momentos dominou a Europa.

    «Felicito-vos egualmente pela simplicidade e modestia, que
    tornam mais preciosa a leitura, da relação dos numerosos
    detalhes que déstes, de uma victoria, de que sem receio, se vos
    póde attribuir toda a honra.

    «De resto, esta modestia, trouxe-vos as sympathias de pessoas
    aptas para apreciar convenientemente o que tendes feito e
    alcançado em seis mezes, pessoas entre as quaes devo enumerar em
    primeiro logar, o nosso ministro plenipotenciario, o honrado
    barão Deffaudis, que honra o vosso caracter e n'elle tendes um
    caloroso defensor, sobretudo, quando se trata de escrever para
    Paris, no intento de destruir impressões desfavoraveis que podem
    nascer de certos artigos dos jornaes, redigidos por homens pouco
    habituados a fallar verdade, mesmo quando contam factos
    acontecidos á propria vista.

            «Recebei pois o testemunho da minha estima etc.

                                                          «_Lainé._»


Não se contentou só o almirante Lainé com o escrever a Garibaldi,
quiz-lhe fazer os seus cumprimentos pessoalmente. Desembarcou em
Montevideo, dirigiu-se á rua _Portona_, onde morava Garibaldi. Esta
habitação, tão pobre como a do ultimo legionario, nunca se fechava, e
dia e noite estava aberta para todos, e _particularmente para o vento e
chuva_, como dizia Garibaldi, contando esta anedocta.

Era noite: o almirante Lainé empurrou a porta, e como a casa estivesse
ás escuras tropeçou n'uma cadeira.

—Eia, disse elle, é necessario quebrar a cabeça para vêr Garibaldi?

—Oh mulher, exclamou Garibaldi, não reconhecendo a voz do almirante, tu
não ouves, que vem ahi alguem? Allumia.

—Com que queres tu que eu allumie! respondeu Annita, não sabes que não
ha com que se compre uma vella?

—É verdade, respondeu philosophicamente Garibaldi.

E levantando-se, abrio a porta do quarto em que estava.

—Por aqui, por aqui, disse elle, para que a voz á falta da luz guiasse a
visita.

O almirante Lainé entrou, a escuridão era tal que viu-se obrigado a
dizer quem era, para que Garibaldi soubesse com quem tinha que tratar.

—Almirante, lhe disse elle, desculpae, porém quando fiz o meu tratado
com a republica de Montevideo, esqueceu-me entre as rações que me são
devidas, especificar uma de vellas, ora como vos disse Annita, não
possuindo o necessario para comprar uma vella, permanecemos na
obscuridade; por felicidade supponho que vindes aqui para conversar
comigo, e não para me verdes.

O almirante com effeito conversou com Garibaldi, porém não o viu.

Sahindo de casa d'elle, foi á do general Pacheco y Obes, ministro da
guerra, e contou-lhe o que lhe tinha acontecido.

O ministro da guerra que acabava de fazer o decreto que se vae lêr,
pegou em cem patacões e mandou-os a Garibaldi.

Garibaldi não quiz offender o seu amigo Pacheco, recusando-lhes, porém
no dia seguinte, de manhã, pegou nos cem patacões, e distribui-os pelas
viuvas e filhos dos soldados mortos no Salto de Santo Antonio, não
guardando para si, senão o que lhe bastou para comprar um arratel de
vellas, recommendando a sua mulher as poupasse, para servirem no caso do
almirante Lainé o ir visitar outra vez.

Eis o decreto que redigia Pacheco y Obes, quando o almirante Lainé lhe
foi fazer um appello á sua munificencia.


                              ORDEM GERAL

«Para dar aos nossos companheiros d'armas, que se immortalisaram nos
campos de Santo Antonio, uma alta prova da estima em que os tem o
exercito que illustraram neste memoravel combate:

    «O ministro da guerra ordena:

    «1.° No dia 15 do corrente, designado para a entrega á legião
    italiana de uma copia d'este decreto, formará em grande parada a
    guarnição, na rua do Mercado, até á praça do mesmo nome, na
    ordem que indicará o estado maior.

    «2.° A legião italiana, formará na Praça da Constituição, com
    a retaguarda para a Cathedral, e ahi receberá a sobredita copia,
    que lhe será entregue, por uma deputação presidida pelo coronel
    Francisco Tages, e composta d'um commandante, d'um official,
    d'um sargento e soldado de cada corpo.

    «3.° A deputação regressando aos seus respectivos corpos, se
    dirigirá com elles á praça indicada, e passando em continencia
    pela frente da legião italiana, os commandantes dos corpos,
    darão vivas—_á Patria, ao general Garibaldi e aos seus valentes
    companheiros!_

    «4.° Os regimentos deverão estar formados ás dez horas da
    manhã.

    «5.° Será dada copia authentica desta ordem do dia á legião
    italiana e ao general Garibaldi.

                                                     PACHECO Y OBES.

    O decreto ordenava:

    1.° Que as palavras seguintes seriam inscriptas em letras
    d'ouro na bandeira da legião italiana:

          _Acção de 8 de Fevereiro de 1846 da legião italiana
                       commandada por Garibaldi._

    2.° Que a legião italiana teria a vanguarda em todasas
    paradas.

    3.° Que os nomes dos mortos n'esta acção serão inscriptos em
    um quadro, collocado na sala do governo.

    4.° Que todos os legionarios trarão para signal distincto, no
    braço esquerdo um escudo sobre o qual uma corôa guarneceria a
    seguinte inscripção:

               _Invincibili combaterono, 8 febraio 1846._


Além d'isso Garibaldi querendo dar uma prova da sua sympathia e
reconhecimento aos legionarios que haviam perecido a seu lado no dia 8
de fevereiro, fez elevar no campo de batalha uma grande cruz que tinha
d'um lado:

          _Aos 36 Italianos mortos em 8 de Fevereiro de 1846._

E do outro lado:

               _154 Italianos no Campo de Santo Antonio._

                                  ⁂

Apesar da pobreza a que Garibaldi se achava reduzido, achou um dia um
legionario mais pobre do que elle. Este legionario não tinha camiza.

Garibaldi levou-o a um canto, tirou a sua camiza e deu-lh'a. Indo para
casa pediu outra a Annita, porém ella sacudindo a cabeça disse-lhe:

—Sabias muito bem que não tinhas senão uma, deste-a, agora peor para ti!

E foi Garibaldi que ficou sem camiza, até que Anzani lhe deu uma.

Porém Garibaldi era incorregivel, um dia tendo aprisionado um navio
inimigo, repartiu a preza com os companheiros, e tendo dividido os
quinhões, chamou os seus homens um a um, e interrogou-os sobre o estado
das suas familias, dando aos mais desgraçados, do seu proprio quinhão,
dizendo-lhe:

—Tomae isto para vossos filhos.

Havia além do mais uma quantia grande de dinheiro a bordo, que Garibaldi
mandou para o thesouro de Montevideo, não tirando um unico centimo.

Algum tempo depois d'esta preza, não tinha senão tres sous em caza, tal
tinha sido a repartição.

Isto deu motivo a uma anedocta que me contou o proprio Garibaldi.

Um dia, ouviu chorar a sua filha Therezita, adorava esta filha, e correu
a ver o que lhe tinha acontecido. A creança havia cahido pela escada, e
tinha a cara ensaguentada.

Garibaldi não sabendo como a havia de consolar, pegou nos tres sous que
era toda a sua fortuna, e que reservava para uma grande occasião, e
sahiu para ir comprar um brinquedo para consolar a creança.

Á sahida encontrou-se com um emissario do Presidente, Joaquim Soares,
que o procurava da parte do seu amo para uma communicação importante.

Garibaldi dirigiu-se immediatamente a casa do Presidente, esquecido já
do motivo que o tinha feito sahir, tendo machinalmente na mão o
dinheiro. A conferencia durou duas horas, tratava-se com effeito de
cousas importantes.

Garibaldi quando acabou a conferencia voltou para casa; a creança já
estava socegada, porém Annita estava muito inquieta.

—Roubaram-nos, lhe disse ella assim que o viu.

Garibaldi lembrou-se então do dinheiro que tinha ainda na mão.

Era elle o ladrão.



                                  XII

                         CAMPANHA DA LOMBARDIA


Agora vamos, com o auxilio de um amigo de Garibaldi, o valente coronel
Medici, ligar a nossa narração onde Garibaldi a interrompeu.

A sua partida para a Secilia forçar-nos-hia a finalisar aqui as suas
memorias, se Medici não se encarregasse de as continuar. E confessamos,
este modo de fallar de Garibaldi, agrada-me mais do que fazendo-o pelas
suas proprias palavras; porque com effeito quando Garibaldi conta,
esquece-se sempre da parte que tomou nas acções, para exaltar o que
fizeram os seus companheiros; ora como é especialmente d'elle que nos
queremos occupar, melhor é que seja collocado por outro no logar que
merece.

Vamos pois deixar contar ao coronel Medicis a campanha da Lombardia de
1848.

                                  ⁂

Parti de Londres para Montevideo no meado do anno de 1846.

Nenhum motivo politico nem commercial me chamava á America do Sul, ia
por motivo de saude.

Os medicos julgavam-me atacado de tysica pulmonar, as minhas opiniões
liberaes me tinham desterrado da Italia, decidi-me pois a atravessar o
Oceano.

Cheguei a Montevideo, sete ou oito mezes depois da acção do Salto de
Santo Antonio, a reputação da legião italiana, estava então no seu
apogeo. Garibaldi era o homem da epoca. Fiz conhecimento com elle,
pedi-lhe se me recebia na sua legião, e elle consentiu.

No dia seguinte, já tinha vestido a blouse encarnada com divisas verdes,
e dizia com orgulho:

—Sou soldado de Garibaldi!

Depressa tomei intimidade com elle, tomou-me affeição, depois confiança,
e quando tudo se determinou para a sua partida, um mez antes que elle
deixasse Montevideo, parti eu para o Havre em um paquete.

Tinha as suas instrucções claras e precisas, como todas as que dá
Garibaldi.

Estava encarregado de ir ao Piemonte e á Toscana e ver varios homens
eminentes, e alem d'outros Fanti, Guerazzi, e Beluomini filho do
general, tinha a morada de Guerazzi, escondido proximo a Pistoia.

Ajudado d'estes poderosos auxiliares, devia organisar a insurreição, de
modo que quando Garibaldi desembarcasse em Via Reggio, a achasse
prompta, e então apoderar-nos-ia-mos de Lucques, e marchariamos para
onde houvesse esperança.

Atravessei París, depois da revolta de 15 de Maio, passei á Italia, e ao
cabo de um mez, tinha 300 homens, promptos para marchar para onde
quizesse, até para o inferno se fôra necessario; foi então que sube que
Garibaldi tinha desembarcado em Nice.

A minha primeira impressão, foi o sentimento que elle se tivesse
esquecido do que entre nós tinhamos convencionado.

Logo depois sube que Garibaldi tinha sahido de Nice, e ahi tinha deixado
Anzani a morrer.

Gostava muito de Anzani, todos gostavam d'elle.

Corri a Nice, Anzani estava ainda vivo. Fil-o transportar para Genova,
onde recebeu hospitalidade no palacio do marquez Gavotto, no quarto que
occupava o pintor Gallino.

Estabeleci-me á sua cabeceira, e não o abandonei mais, estava affectado
mais do que merecia, com a minha preocupação contra Garibaldi, muitas
vezes me fallava d'elle, e um dia agarrando-me uma mão, e com um ar
prophetico, disse-me—Medici, não sejas severo com Garibaldi, é um homem
que recebeu do ceo tal felicidade, que faz bem de se seguir. O futuro da
Italia depende d'elle, é um predestinado; algumas vezes me zanguei com
elle, porém convencido da sua missão, sempre fui o primeiro a fazer as
pazes.

Estas palavras chocaram-me, como as ultimas de um moribundo, e muitas
vezes depois me tem vindo á memoria.

Anzani era philosopho, e praticava pouco os deveres materiaes da
religião; comtudo na hora da morte, perguntando-se-lhe se queria um
padre, disse que lhe levassem um, e como eu me admirasse d'este acto que
chamava fraqueza, disse-me:

—Meu amigo, a Italia espera muito n'este momento em dois homens, Pio IX
e Garibaldi; pois bem, é preciso que não sejam accusados os companheiros
de Garibaldi, de herejes. E dizendo isto sacramentou-se.

Nessa mesma noute, ás tres horas da madrugada, morreu nos meus braços,
sem perder um momento os sentidos, nem ter tido um momento de delirio.
As suas ultimas palavras foram:

—Não te esqueças da minha recommendação, a respeito do Garibaldi.

E deu o ultimo suspiro.

O corpo, e os papeis de Anzani foram entregues a seu irmão, homem
inteiramente dedicado ao partido austriaco.

O corpo foi levado para Alzate, patria de Anzani, e o cadaver do homem,
que seis mezes antes, não tinha achado em toda a Italia, uma pedra em
que descançasse a cabeça, teve uma marcha triumphal.

Quando se soube a sua morte em Montevideo, houve lucto geral na legião,
cantaram-lhe um requien, e o doutor Bartholomeu Udicine, medico e
cirurgião, recitou um discurso funebre.

Pelo que diz respeito a Garibaldi, fez quanto poude reviver a sua
lembrança, e quando organisou os batalhões lombardos, chamou ao
primeiro, batalhão de Anzani.

Depois da morte de Anzani parti para Turim.

Um dia passeando debaixo das arcadas, achei-me por acaso cara a cara com
Garibaldi; vendo-o, a recommendação de Anzani; veio-me á memoria, é
verdade que era secundada do profundo respeito e amisade que tinha a
Garibaldi.

Cahimos nos braços um do outro. Depois de nos termos ternamente
abraçado, a lembrança da patria, veiu-nos á memoria ao mesmo tempo.

—Que faremos, dissemos nós um ao outro.

—Então, perguntei-lhe, se não chegava de Robervella de offerecer a sua
espada a Carlos Alberto?

Sorriu desdenhosamente.

—Essa gente me disse elle, não é digna que corações como os nossos se
lhes submettam. Não tratemos de homens, caro Medici, só da patria, e
nada mais!

Como não parecia disposto, a contar-me a sua entrevista com Carlos
Alberto, cessei de interrogal-o.

Depois sube, que o rei Carlos Alberto, o tinha recebido friamente;
mandando-o para Turim, esperar as ordens do seu ministro da guerra, mr.
Ricci.

Mr. Ricci dignou-se lembrar que Garibaldi esperava ordens suas, mandou-o
chamar e disse-lhe:

—Aconselho-vos, que partaes para Veneza, e ahi tomando o commando de
alguns pequenos navios, podereis como corsario, ser muito util aos
venezianos, julgo que o vosso logar é ahi, e em mais parte alguma.

Garibaldi não respondeu a Mr. Ricci, só em logar de ir para Veneza ficou
em Turim.

Eis a razão porque o encontrei nas arcadas.

—Que faremos pois, dissemos nós em seguida.

Com os homens da tempera de Garibaldi as resoluções são repentinamente
tomadas.

Resolvemos ir para Milão, e partimos essa mesma noute.

A occasião era boa, acabava-se de receber a noticia dos primeiros
revezes, soffridos pelo exercito piemontez.

O governo provisorio deu a Garibaldi o titulo de general, e authorisou-o
para organisar batalhões de voluntarios lombardos.

Garibaldi e eu, debaixo das suas ordens, tratamos logo d'isso.

Principiamos por um batalhão de voluntarios de Vicencia, que nos chegou
organisado de Pavia.

Garibaldi creava o batalhão Anzani, que bem depressa completou.

Eu tinha a meu cargo disciplinar toda essa mocidade das barricadas, que
durante cinco dias, com 300 espingardas e 400 ou 500 homens, affastou de
Milão Radetzki e os seus vinte mil soldados.

Porem nós luctavamos com as mesmas dificuldades, com que Garibaldi
luctou em 1859.

Os corpos dos voluntarios, que representam o espirito da revolução
assustam sempre os governos, uma só palavra bastará para dar idéa dos
nossos.

Era Mazzini o porta-bandeira, e uma companhia denominava-se Medici.

Por esta razão, commeçaram a recusar-nos armas; e um homem d'oculos, que
occupava um logar importante no ministerio, dizia em voz alta que eram
armas perdidas, por que Garibaldi era um espadachim, e mais nada.

Nós diziamos, que nos forneceriamos d'armas, porém que ao menos nos
dessem uniformes, responderam-nos, que não havia uniformes, mas abriram
armazens onde existiam uniformes austriacos, hungaros e croatas.

Eram os proprios, para gente que pedia para morrer combatendo croatas,
hungaros e austriacos, e todos os nossos soldados, mancebos pertencentes
ás primeiras familias de Milão, de que algumas eram millionarias,
recusaram com indignação.

Mas como era necessario tomar uma resolução, porque não podiamos
combater uns de fraque outros de sobrecasaca, acceitamos os fatos dos
soldados chamados _ritters_, e fizemos delles uma especie de _bluses_.

Era irrisorio pois pareciamos um regimento de cosinheiros, e era preciso
ter boa vista para reconhecer debaixo d'aquelle panno grosseiro a flor
da mocidade milaneza.

Em quanto que se affeiçoavam os fatos á medida de cada um, procuravam-se
armas e munições por todos os meios possiveis, e emfim depois de armados
e vestidos, marchamos para Bergamo, cantando hymnos patrioticos.

Pelo que me diz respeito tinha debaixo das minhas ordens, cerca de 180
jovens, quasi todos, como disse, das primeiras familias de Milão.

Chegamos a Bergamo, e nos juntamos a Mazzini, que vinha tomar o seu
logar nas nossas filas, e foi recebido com acclamações.

Ahi um regimento de linha regular piemontez se nos juntou, trazendo
comsigo duas peças pertencentes á guarda nacional.

Apenas chegamos, recebemos uma ordem da «comité» de Milão, que se
compunha de Fanti, Maestri e Resteli, para voltarmos a marchas forçadas
para Milão; obedecemos e começamos a nossa contramarcha para Milão.

Porém chegando a Monza, soubemos que Milão tinha capitulado e que um
corpo de cavallaria austriaca tinha sido mandado em nossa perseguição.

Garibaldi ordenou então uma retirada sobre Como, a nossa estrategia era
approximar-nos quanto nos fosse possivel da fronteira suissa. Garibaldi
mandou-me para a retaguarda para sustentar a retirada.

Estavamos já muito cançados da marcha forçada que acabavamos de fazer,
não tinhamos tido tempo para comer em Monza, cahiamos de fome e
cançasso, e a nossa gente retirava-se em desordem e completamente
desmoralisada.

O resultado d'esta desmoralisação foi que quando chegamos a Como
começaram-nos a desertar soldados, de modo que sobre cinco mil homens
que tinha Garibaldi, quatro mil e duzentos passaram para a Suissa,
ficando apenas com oitocentos.

Garibaldi como se tivesse ainda os seus cinco mil homens, com o seu
sangue frio habitual, collocou-se em Camerlata, ponto de juncção de
diversas estradas, diante de Como. Ahi estabeleceu uma bateria com as
duas peças de artilheria, e expediu correios a Manara, Griffini, e a
Durando e Apice, e aos chefes dos corpos de voluntarios da alta
Lombardia, convidando-os a concordarem entre si, o tomarem posições
fortes, e sustentaveis até á ultima, apoiados na fronteira suissa.

O convite não teve resultado.

Então Garibaldi retirou de Camerlata para San Fermo, onde em 1859,
batemos completamente os austriacos. Porém antes de nos collocarmos na
Praça de São Fermo, reuniu-nos e fez-nos uma falla.—Os discursos de
Garibaldi, vivos e pittorescos, tem a verdadeira eloquencia do soldado.
Disse-nos que era preciso continuar a guerra em guerrilha, que esta
guerra era a mais segura e a menos perigosa, que bastava confiar no
chefe, e ajudarem-se os camaradas.

Apesar d'esta energica allocução houveram novas deserções durante a
noute, e de madrugada a nossa gente achava-se reduzida a quatrocentos ou
quinhentos homens.

Garibaldi, com grande desgosto, decidiu-se a entrar no Piemonte, porém
na occasião em que atravessava a fronteira, envergonhou-se de retirar
sem combate, demora-se em Castelletto sobre o Tecinio, ordena-me que
percorra os arredores e que lhe traga o maior numero de desertores
possivel. Fui até Lugano e trouxe trezentos homens, contamos-nos, eramos
setecentos e cincoenta. Garibaldi acha-se em força sufficiente para
marchar contra os austriacos.

No dia 12 d'agosto, fez a sua famosa proclamação, na qual declara que
Carlos Alberto é um traidor, que os italianos, nem se podem nem se devem
fiar n'elle, e que todo o patriota deve ter como um dever, o fazer a
guerra por sua conta.

Feita esta proclamação, no momento em que de todos os lados se tocava á
retirada, nós unicos marchavamos adiante, e Garibaldi com setecentos e
cincoenta homens, fez um movimento offensivo contra o exercito
austriaco.

Marchámos sobre Arona, apoderamos-nos de dois navios a vapôr, e de
outras pequenas embarcações. Começámos o embarque, que durou até á
noite, e no dia seguinte de madrugada chegámos a Luino.

Garibaldi estava doente, tinha uma febre intermitente contra os accessos
da qual tentava em vão luctar.

Com um d'estes accessos, entrou na estalagem da _Galinhola_, casa
isolada á entrada de Luino, e separada da vinha por um riacho, sobre o
qual está lançada uma ponte. Mandou-me chamar e disse-me:

—Medici, necessito por força de duas horas de descanço, toma o meu
logar, e vigia por nós.

A estalagem da _Galinhola_ era mal escolhida para quem queria socegar,
era a sentinella avançada de Luino, a primeira casa que devia ser
atacada pelo inimigo, suppondo-o nas circumvisinhanças.

Nada sabiamos dos movimentos dos austriacos, ignorando se estavamos a
dez legoas d'elles ou a um kilometro; comtudo disse a Garibaldi que
dormisse tranquilamente, asseverando-lhe que tomaria todas as precauções
para que o seu somno não soffresse interrupção. Feita esta promessa,
sahi; as armas estavam ensarilhadas do outro lado da ponte, e a gente
acampada entre ella e Luino.

Colloquei sentinellas á estalagem da _Galinhola_, e mandei uns lapões
explorar as proximidades.

Passada meia hora, os meus vigias voltaram todos assustados gritando:

—Os austriacos! Os austriacos!

Corri ao quarto de Garibaldi, dando o mesmo grito:

—Os austriacos!

Garibaldi estava na maior força da febre, saltou do leito, e
ordenando-me que mandasse tocar a reunir, da janella poz-se a descobrir
campo dizendo que não tardaria em nos alcançar.

Com effeito d'ahi a dez minutos estava no meio de nós.

Dividiu a nossa pouca gente em duas columnas; uma obstruindo o caminho,
foi destinada a fazer frente aos austriacos, a outra tomando uma posição
de flanco, impedia que nos voltassemos, e podia tambem atacar.

Os austriacos em breve appareceram na estrada, seriam mil e duzentos
homens, e apoderaram-se immediatamente da _Galinhola_.

Garibaldi deu ordem logo á columna que obstruia a estrada de atacar;
esta columna compunha-se de quatro centos homens, atacando resolutamente
mil e duzentos.

É o costume de Garibaldi, nunca conta os inimigos nem os seus, o inimigo
está na frente, logo deve ser atacado. É forçoso confessar que quasi
sempre esta tactica lhe deu bom resultado.

Comtudo os austriacos faziam resistencia, e por isso Garibaldi julgando
que seria necessario engajar todas as forças, chamou a columna do flanco
e renovou o ataque.

Tinha diante de mim um muro que escalei com a minha companhia,
achando-me n'um jardim. Os austriacos faziam fogo por todas as aberturas
do albergue.

Apesar d'isso lançámo-nos no meio das ballas, atacámos á bayoneta,
entrando por essas mesmas aberturas que um instante antes vomitavam
fogo.

Os austriacos retiraram-se em completa desordem.

Garibaldi havia dirigido o ataque a cavallo, no meio da ponte, sendo um
verdadeiro milagre que exposto ao fogo do inimigo não fosse ferido.

Quando viu fugir os austriacos disse-me que os seguisse com a minha
companhia.

A deserção havia-a reduzido a cem homens, e com elles persegui mil e
cem. Comtudo n'esta acção não houve grande merito, porque os austriacos
tomados por um verdadeiro panico, fugiam abandonando as espingardas e
patronas, não parando senão em Veneza.

Deixaram na _Galinhola_ uns cem mortos e feridos, e oitenta
prisioneiros.

Devo dizer que os austriacos tinham parado em Germiniada; voltei ahi,
mas já elles tinham partido. Segui então as suas pisadas, mas apesar de
correr bem, não os pude alcançar.

Durante a noite soubemos que uma força austriaca, mais consideravel que
a primeira, se dirigia para nós. Garibaldi ordenou-me que ficasse na
Germiniada, mandando eu logo fazer barricadas.

Tinhamos um tal habito d'estas fortificações que nos era só necessaria
uma hora para pôr a ultima em estado de sustentar um circo.

A noticia era falsa.

Garibaldi enviou duas ou tres companhias em differentes direcções, e
quando voltaram, mandou reunir todo o nosso exercito, dando-lhe ordem
para marchar sobre Guerla, e de lá para Varese, onde foi recebido em
triumpho.

Dirigiamo-nos directamente sobre Radetzki.

Em Varese occupámos Duimodi-Sopra, logar que domina Varese, e que nos
assegurava a retirada.

Ahi Garibaldi mandou fusillar um espião austriaco, que devia dar
esclarecimentos a tres columnas de austriacos que se dirigiam contra
nós.

Uma marchava sobre Como, outra sobre Varese, e a terceira separando-se
d'estas, dirigia-se sobre Luino.

Era evidente que o plano dos austriacos era de se collocarem entre
Garibaldi e Luzano, cortando-lhe a retirada fosse para o Piemonte ou
para a Suissa.

Partimos então de Buimo para Arcisate.

De Arcisate, Garibaldi mandou-me com a minha companhia que ia sempre de
vanguarda, para Viggia.

Chegando ahi com os meus cem homens, recebi ordem de me dirigir
immediatamente contra os austriacos.

A primeira divisão de que eu tive conhecimento foi a de Aspre, forte de
cinco mil homens.

Foi este mesmo general que ordenou depois os massacres de Livourne.

Em consequencia da ordem recebida, preparei-me para o combate, e para o
dar na melhor ordem possivel apoderei-me de tres pequenas villas que
formavam um triangulo—Catzone, Ligurno, e Rodero.

Estas tres villas guardavam todas as estradas que vinham de Como.

Por detraz d'estas villas achava-se uma forte posição, S. Maffeo,
rochedo inexpugnavel, e pelo qual não tinha senão deixar-me escorregar
para me achar na Suissa.

Havia dividido os meus cem homens em tres destacamentos, occupando cada
um d'elles uma villa.

Eu estava em Ligurno.

Tinha chegado durante a noite com os meus quarenta homens e havia-me
fortificado o melhor que tinha podido.

Ao romper do dia fui atacado pelos austriacos.

Tinham-se primeiramente apoderado de Rodero, que haviam encontrado
abandonado, porque durante a noite a guarnição havia-se retirado para a
Suissa. Fiquei com os meus sessenta e oito homens.

Chamei os trinta homens que estavam em Catzone e dirigi-me para S.
Maffeo aonde podia resistir.

Apenas ahi tinha chegado fui logo atacado. De Rodero os canhões
austriacos nos enviaram foguetes á congreve.

Lancei os olhos em roda de mim, a montanha estava rodeada de cavallaria,
mas apezar d'isso resolvi-me defender-nos em quanto podessemos.

Os austriacos começaram o assalto. Infelizmente cada um de nós só tinha
vinte cartuxos, e as nossas espingardas não eram das melhores.

Ao estrondo da fuzillaria as montanhas da Suissa, visinhas de S. Maffeo,
cobriram-se de curiosos, e cinco ou seis d'estes não se podendo conter
vieram unir-se comnosco tomando parte no combate.

Sustentei o combate até que os meus homens tivessem queimado os ultimos
cartuxos.

Esperei sempre que Garibaldi ouvindo o estrondo do combate viria
coadjuvar-me, mas Garibaldi tinha mais que fazer, porque tendo os
austriacos marchado sobre Luino, Garibaldi ia-lhe ao encontro.

Tendo queimado até ao meu ultimo cartuxo, pensei que era tempo de cuidar
na retirada. Guiados pelos nossos suissos tomámos atravez os rochedos um
caminho sómente conhecido dos habitantes do paiz.

Uma hora depois estavamos na Suissa.

Retirei-me com os meus homens para um pequeno bosque, emprestando-nos os
habitantes caixas para esconder-mos as espingardas, afim de as
encontrarmos quando nos fosse necessarias.

Durante mais de quatro horas, sessenta e oito homens tinham feito frente
a cinco mil.

O general d'Aspre mandou annunciar em todos os jornaes que tinha
sustentado um combate encarniçado contra o exercito de Garibaldi
havendo-o posto em completa derrota. Só os austriacos são capazes de
dizer d'estas petas.



                                  XIII

                  CONTINUAÇÃO DA CAMPANHA DA LOMBARDIA


Garibaldi marchava como já disse sobre Luino; mas antes d'ahi chegar,
recebera noticia de que Luino estava já occupado pelos austriacos, ao
mesmo tempo que a columna d'Aspres, depois da sua grande victoria sobre
nós se apoderava d'Arcisate.

A retirada de Garibaldi sobre a Suissa tornava-se desde então
difficultosa. Decidiu-se pois a marchar direito a Morazzone, posição
muito forte e por consequencia muito vantajosa.

Além d'isso, o ruido do canhão que tinha ouvido lhe tinha feito crescer
agua na bocca.

Apenas tinha acampado viu-se completamente rodeado por cinco mil
austriacos.

Comsigo tinha quinhentos homens.

Durante um dia com seus quinhentos homens sustentou o ataque dos cinco
mil austriacos. Vindo a noite, formou os seus em columna cerrada, e
lançou-se sobre o inimigo á bayoneta.

Favorecido pela obscuridade fez uma sanguinolenta passagem, e achou-se
em campo raso.

A uma legua de Morazzone licenciou seus voluntarios, dando-lhes ponto de
reunião em Lugano, e a pé com um guia, desfarçado em paisano seguiu para
a Suissa.

Uma manhã soube em Lugano que Garibaldi, que todos criam morto, ou pelo
menos prisioneiro em Morazzone, tinha chegado a uma aldêa visinha.

Então vieram-me á memoria as palavras propheticas de Anzani.

Corri a Garibaldi, achei-o na cama, quebrado, moido, e apenas podendo
fallar. Acabava de fazer uma marcha de seis horas, e só por milagre
havia escapado aos austriacos.

A sua primeira pergunta ao ver-me foi:

—Tens a tua companhia prompta?

—Tenho, lhe respondi.

—Pois bem, deixa-me dormir esta noite, e ámanhã prepararemos a nossa
gente e recomeçaremos.

Não pude deixar de me rir: era evidente que no dia seguinte estaria
tolhido a ponto de não poder mover uma perna.

No dia immediato, com grande admiração minha, Garibaldi estava a pé; a
alma e o corpo n'este homem são eguaes, ambos de bronze.

Mas nada havia a fazer; a campanha de Garibaldi na Lombardia estava
finda.

Garibaldi então entrou no Piemonte e volveu a Genova.

Ali recebeu propostas que lhe trazia uma deputação siciliana.

Estas propostas eram de embarcar para a Sicilia, afim d'ahi sustentar a
causa da revolução.

Acceitou-as e partiu com trezentos homens para Livourne; mas ahi sabendo
o que se passava em Roma, abandonou a idéa da sua expedição á Sicilia e
partiu para Roma.

É ali que prestes o encontraremos.

Quanto a mim fiquei em Lugano com a minha companhia, a que tendo reunido
alguns desertores se achava com o numero de oitenta homens, e foi-me
permittido conservar-me com elles n'um deposito.

As nossas armas estavam sempre occultas, mas debaixo de mão.

Durante este momento de repouso organisámos, para não perder tempo, uma
insurreição na Lombardia.

O governo da Suissa foi prevenido d'isto, e fez occupar o cantão de
Tessino pelos contingentes federaes.

Resolveu-se então de me internar.

Fui com duzentos homens, a maior parte dos quaes haviam servido com
Garibaldi, e outros comigo, enviado para Bellinzona, onde nos guardaram
n'um quartel, como perigosos e capazes de violar a fronteira.

O projecto não deixou de marchar.

Os generaes Ascioni e d'Aspice deviam partir de Lugano e dirigir-se
sobre Como pelo valle de Intelvi.

Quanto a mim devia partir de Bellinzona, atravessar a passagem do Jorio,
uma das mais elevadas e difficeis da fronteira, descer sobre o lago de
Como, e chamar os habitantes ás armas. Depois do que, com a minha gente,
iria reunir-me aos dois generaes.

Como eramos guardados á vista, a cousa era difficil de executar.

Sobre uma altura que dominava Bellinzona estão as ruinas de um velho
castello que out'rora pertenceu aos Visconti.

É ali que tinha feito guardar as nossas armas e as munições que depois
podera obter.

Ao todo tinha duzentos e cincoenta homens. Dividi-os em oito ou dez
bandos, que deviam por muitas estradas, evitando a vigilancia das
tropas, reunir-se no castello.

Contra toda a esperança o projecto realisou-se completamente.

Cada um se encontrou no ponto de reunião sem encontrar impedimento;
armei todos e estava prompto para partir para a montanha, quero dizer
atravessar a fronteira.

Repentinamente ouvi tocar a rebate; as tropas dispunham-se a marchar em
minha perseguição.

Mas os habitantes que me tinham votado amisade decidida, sublevaram-se
em meu favor, e ameaçaram se se não calasse o tambor, de se armarem e
fazer barricadas.

Livre d'este cuidado dei á minha gente ordem de se pôr em marcha;
estavamos no fim de outubro, o norte soprava e promettia-nos nova noite
de tempestade.

Marchámos toda a noite contra o vento, com o rosto açoutado pela neve.
Vindo o dia, marchámos sem parar durante o seu curso; era preciso
atravessar o cimo cuberto de neve do Jorio; o inverno tinha tornado
impraticaveis as passagens; entretanto atravessamol-o com neve quasi
sempre até ao joelho, muitas vezes até aos sovacos dos braços.

Depois de trabalhos infinitos, chegámos, emfim, ao cume; mas ali um
inimigo mais terrivel do que todos os que tinhamos vencido até então nos
esperava: a tormenta.

N'um instante ficámos completamente cegos, e não distinguiamos nada a
dez passos de distancia.

Disse então aos meus bravos de se apertarem uns contra os outros,
marchar n'uma só fila e seguir-me avançando com a maior rapidez. Tres
ficaram para traz, cahindo para não mais se levantarem, escondidos em a
neve, dormindo ou velando talvez no cume do Jorio.

Marchei primeiro, sem seguir nenhuma estrada real, sem saber onde ia,
fiando em a nossa boa fortuna, quando repentinamente parei; o rochedo me
faltava debaixo dos pés; um passo mais e cabia no precipicio!

Fiz alto, ordenando que cada um ficasse no logar em que estava até
nascer o dia.

Então só com um guia procurei um caminho toda a noite; a cada instante a
terra, ou antes a neve faltava debaixo de nós, ou os pés nos
escorregavam. Era por milagre que um de nós não ficava escondido, ou
morto na queda.

Emfim ao raiar do dia, chegámos perto de algumas cabanas abandonadas.
Entretanto como offereciam um abrigo, quiz voltar para os meus homens.

Mas então as forças abandonaram-me, e cahi quebrado de fadiga e transido
de frio.

O meu guia levou-me para uma das cabanas, e conseguiu accender fogo e
fez-me tornar a mim.

Durante este tempo a felicidade quiz que os meus soldados seguissem o
mesmo caminho que eu tinha seguido, de sorte que duas horas depois
tinham-me encontrado.

Tornámos de novo a pôr-nos a caminho, e descemos a Gravedona, sobre o
lago de Como.

Chegado ali, depois de uma paragem de meio dia, puz-me em marcha para
reunir-me aos dois generaes com quem devia encontrar-me, e que durante a
minha passagem deviam haver feito o levantamento.

Mas elles em vez de bater os austriacos haviam sido batidos, e eu ia dar
de face com a divisão Wohlgemmuth que occupava já o valle de Intelvi, e
com alguns barcos a vapor cheios de austriacos.

Tomei então por um atalho, e entrei no valle Menaggio, e occupei na sua
extremidade Porteyzo, sobre o lago de Lugano, reservando-me para a
retirada o valle Cavarnia, que tocava na fronteira suissa.

A posição era magnifica; estava em communicação com Lugano, d'onde podia
receber gente e munições: mas ninguem veiu juntar-se-me, e fiquei ahi
oito dias inutilmente.

No fim d'este tempo, os austriacos concentraram suas forças e marcharam
sobre Portecco. Retirei-me ao valle de Cavarnia, que separa a Lombardia
da Suissa. Contava, se me atacassem fazer tanto como em São-Maffeo.

Mas houve apenas alguns tiros de espingarda.

Dois dos meus homens morreram de suas feridas.

Nada havia a fazer; todas as passagens eram cobertas de neve; o inverno
tornava-se cada vez mais rigoroso; entrei na Suissa; escondi as
espingardas e em seguida eu mesmo me escondi.

Por desgraça, eu era mais difficil de esconder que uma espingarda; e
como estava tão compromettido, tratava-se em relação a mim, não de um
simples internamento, mas da prisão; muito feliz seria, se agarrado
pelas authoridades suissas não me entregassem aos austriacos.

Resolvi pois fazer todo o possivel para reentrar no Piemonte.

Prestaram-me uma carruagem para sahir do Lugano. Sahindo, iria a
Magadino; de Magadino a Genova, e de Genova Deus sabe aonde.

Atravessava pois Lugano de carruagem, quando um carro carregado de
madeira, que obstruia o caminho me fez parar. Era mister esperar que o
descarregassem. Estava esperando, quando o commandante do batalhão
federal me reconheceu, chamou gente e fez-me prender.

Conduziram-me prisioneiro; era o menos que tinha a esperar.

Entretanto aconteceu-me cousa melhor ainda. Como os principaes
habitantes de Lugano eram todos meus amigos, obtiveram que em vez de
ficar prisioneiro seria levado ás fronteiras sardas.

Não fiz mais que atravessar o Piemonte. A Toscana estava governada por
republica; embarquei em Genova, e parti para Florença. Em Liorne um
despacho telegraphico nos noticiou que o grão-duque illudindo Montanelli
por uma doença, acabava de fugir de Liorne e se tinha refugiado em
Porto-Ferrajo.

Immediatamente Guerazzi ordenou á guarda nacional de Liorne de embarcar,
perseguir o duque e prendêl-o.

Quando assignava esta ordem disseram-lhe que eu tinha chegado a Liorne.

—Offerecei-lhe o commando da expedição, disse Guerazzi, e instae para
que acceite.

Como se comprehende bem não foi preciso pedir-me muito; submetti-me
immediatamente ás ordens do governo provisorio.

Embarcamos a bordo do _Giglio_ e fizemo-nos de vela para a ilha d'Elba.

Apenas estavamos no mar deram-nos signal de que se avistava uma fragata
a vapor. Era franceza, ingleza, austriaca? Não sabiamos; mas a prudencia
ordenava que não nos aproximassemos.

Fiz pois que o _Giglio_ se voltasse, e em vez de abordar directamente em
Liorne, abordei em Golfo-di-Campo; atravessei a ilha n'um apice, e
cheguei a Porto-Ferrajo.

Não se havia ahi visto o grão-duque.

A expedição estava terminada.

Então volvi a Florença, e ahi organisei livremente os despojos da minha
columna, que reforcei com novos voluntarios; porque tudo o que era
refugiado em Florença quiz acompanhar-me.

Durante a minha estada ali, foram tentados dois ensaios de reacção, e
comprimi-os.

Uma manhã espalhou-se o boato de que os austriacos entravam pela
fronteira de Modena; corri ahi com a minha gente.

Nada havia.

Uma terceira tentativa de reacção vingou; o governo do grão-duque foi
restabelecido, e eu que tinha sido encarregado de o prender, fui
naturalmente obrigado a partir.

Além da minha legião havia em Florença uma legião polonesa perfeitamente
organisada; chamei-a e seguiu-me.

Atravessei os Apeninos e desci a Bolonha.

Ahi fui muito mal recebido pelo governo republicano, que me tratou como
desertor.

O general Mezzacapo formava em Bolonha uma divisão destinada a marchar
em soccorro de Roma. Passou-nos em revista, reconheceu que não eramos
desertores, e fez de nós sua vanguarda.

Seguimos a estrada de Foligno, de Nami e de Civita-Castelhana. Chegados
lá, apoiamos sobre a Sabina para evitar os francezes.

Entramos em Roma pela porta San-Giovanni.

Digamos onde era Roma.



                                  XIV

                                  ROMA


No dia 24 de abril de manhã, a vanguarda da divisão franceza chegou
diante do porto de Civita-Vecchia, e um ajudante de campo do general
Oudinot desembarcou para fallar na qualidade de parlamentario com o
perfeito da republica romana, Manucci. Disse-lhe que o fim da
intervenção franceza era garantir os interesses materiaes e moraes do
povo romano; que a França queria, inimiga como era do despotismo e da
anarchia, assegurar á Italia uma util liberdade; que esperava encontrar
no povo romano a antiga sympathia que o tinha unido ao povo francez, mas
que entretanto, como a armada corria perigo em se conservar a bordo,
necessitava uma prompta licença de desembarque; se esta licença fosse
negada, o general francez, com grande sentimento, vêr-se-ia obrigado a
empregar a força.

Além d'isto, devia prevenir a cidade de Civita-Vecchia de que lhe
lançariam o tributo de um milhão, no caso de se disparar sequer um tiro.

E, dito isto, sem esperar a resposta do governador de Roma, a quem
Manucci queria contar o occorrido, o general Oudinot desarmava o
batalhão Métara, occupava o forte, fechava a imprensa da cidade,
collocava uma sentinella á porta, e oppunha-se ao desembarque de um
corpo de quinhentos lombardos.

Estes quinhentos lombardos eram o batalhão de _bersaglieri_ commandado
por Manara, que, expulso da sua patria, e repellido pelo Piemonte, vinha
pedir um tumulo a Roma.

Este batalhão compunha-se da aristocracia lombarda, e vinha juntar-se
aos defensores da republica.

O mesmo Dandolo confessa no livro intitulado _Voluntarios e Bersaglieri_
que não era por sympathia pela causa dos romanos, mas porque não sabia
onde pedir um asylo.

Os _bersaglieri_ tinham chegado dois dias depois do general Oudinot; era
então o general quem dava as licenças de desembarque de que elle por
assim dizer, não tinha feito caso.

Henrique Dandolo, descendente do doge do mesmo nome, usando como o
historiador, filho do celebre vencedor de Constantinopla, do sobrenome
de Henrique, veiu duas vezes a terra para pedir ao general a licença;
não sómente lhe foi recusada, como teve ordem positiva de voltar para
bordo.

Levou esta resposta a Manara, que tambem veiu a terra para vêr se era
mais feliz do que elle.

A Manara porém foi-lhe negada, como o tinha sido a Henrique Dandolo.

—Sois lombardo? perguntou-lhe o general.

—Sem duvida, respondeu Manara.

—Pois bem, retorquiu Oudinot, se sois lombardo, por que vos intrometteis
nos negocios de Roma?

—Tambem vós, que sois francez, vos intrometteis n'elles, e muito,
respondeu Manara.

E virando as costas ao general, voltou para bordo.

Mas, quando se soube a bordo que o general francez se oppunha ao
desembarque, a exasperação chegou ao seu auge.

Depois da partida de Genova tinham soffrido o mar com todos os seus
rigores e muitas privações; _bersaglieri_ e voluntarios queriam
deitar-se ao mar e ganhar a costa a nado, arriscando-se ao que podesse
acontecer.

Quando Manara viu que a sua gente estava decidida a recorrer a este
extremo, voltou segunda vez a fallar com o general Oudinot, e obteve,
depois de uma longa resistencia, que o seu batalhão desembarcasse em
Porto de Anzio.

O general francez exigiu logo que Manara se conservasse longe de Roma, e
totalmente neutral até ao dia 4 de maio, em que, dizia elle, tudo
estaria acabado.

Manara porém recusou.

—General, lhe disse elle, não sou mais que um major ao serviço da
republica romana, subordinado por tanto ao ministro e ao meu general.
Como dependo d'elles, não posso fazer uma tal promessa.

Foi então que M. Manucci, julgou que devia, em nome do ministro da
guerra, acceitar as condições impostas pelo general Oudinot, e foi
mediante esta promessa que os voluntarios e _bersaglieri_ lombardos
poderam desembarcar, em Porto de Anzio, no dia seguinte, de manhã, 27 de
abril; partindo no dia 28 para Albano, e pernoitando nas campinas de
Roma.

Durante a noite, chegou uma ordem do general José Avezzana, ministro da
guerra, que, ou ignorava a promessa feita por M. Manucci em nome de
Manara, ou não lhe dava importancia: essa ordem dizia que marchassem
para Roma immediatamente.

Entraram em Roma no dia 29 pela manhã, no meio do enthusiasmo de uma
innumeravel multidão de povo.

Á noticia da chegada dos francezes a Civita-Vecchia, a assembléa romana
declarou-se permanente.

Ventilou-se então esta grave questão: Abrir-se-hão as portas aos
francezes, ou resistir-se-lhe-ha?

O triumviro Armellini e muitos outros eram de parecer que os francezes
fossem recebidos amigavelmente.

Mazzini, Cernuschi, Sterbini e a maioria queriam que se defendessem com
energia até á ultima.

Era necessario, antes de tudo, salvar a honra, diziam elles.

A assembléa não hesitou: no dia 26 de abril, ás duas horas da tarde, foi
votado o seguinte decreto com os applausos de toda a Roma.

    «Em nome de Deus e do povo,

    «A assembléa, segundo a communicação recebida pelo triumvirato,
    entrega-lhe a honra da republica e encarrega-o de repellir a
    força com a força.»


Decretada a resistencia, Cernuschi, que tinha feito as barricadas de
Milão, foi nomeado inspector das barricadas de Roma: os pontos elevados
foram guarnecidos de boccas de fogo, e o povo agitou-se, arquejando, á
espera de algum acontecimento importante.

Foi então que appareceu o homem providencial.

De repente um grito unanime se ouviu nas ruas de Roma:

—Garibaldi! Garibaldi!

Depois uma immensa multidão que o precedia, atirava com os chapeus ao
ar, e agitava os lenços, gritando:

—Eil-o! eil-o!

Seria impossivel descrever o enthusiasmo que se apoderou da população
logo que o viu; dir-se-ia que era o deus salvador da republica que
corria a defender Roma; a coragem do povo cresceu então pela confiança
que n'elle tinha, e pareceu que a assembléa não só tinha decretado a
defeza mas até a victoria.

Algumas linhas da _Historia da revolução romana_, por Biagio Miraglia
darão uma idéa d'este enthusiasmo:

«Este vencedor mysterioso, circundado de uma aureola de gloria tão
brilhante, que, estranho ás discussões da assembléa, e ignorando-as,
entrava em Roma na vespera mesmo do dia em que a republica ia ser
atacada, era, no espirito do povo romano, o unico homem capaz de
sustentar o decreto de resistencia.

«Por isso, immediatamente se reuniram ao homem que personificava as
necessidades instantaneas e que era a esperança de todos.»

D'esta fórma a necessidade publica dava a Garibaldi o seu posto de
general, contestado na ultima guerra por aquelles mesmos por quem elle
combatia.

                                  ⁂

Garibaldi não poude dar-nos os detalhes que se seguem, pela necessidade
que tinha de partir immediatamente para a Sicilia; foram-nos porém
fornecidos pelo seu amigo, M. Vecchi, o historiador da guerra de 1848, o
membro da assembléa romana, o soldado do dia 30 de abril, 3 e 30 de
junho; finalmente, o homem em cuja casa Garibaldi passou o ultimo mez da
sua estada em Genova, e que d'ali sahiu para embarcar.

Deixamos fallar M. Vecchi, ou antes damos as suas notas originaes.

M. Vecchi falla o francez tão bem como o italiano.

                                  ⁂

Garibaldi estava em Ravenne, alistando uma forte legião de voluntarios,
quando soube da morte de Rossi e da fuga do papa.

Determinou ir elle só a Roma para se entender com o governo provisorio,
cujo factotum era Sterbini; mas fizeram-lhe comprehender que a sua
presença em Roma era tão perigosa como os aquartelamentos dos seus
legionarios nas legações; e recebeu ordem de se aquartelar em Macerata,
cidade socegada, onde o fizeram preceder pela reputação de salteador.

Tendo chegado ali, recebeu ordem de passar com a legião para Rieti. A
tropa encaminhou-se por Tolentin, Foligno e Spoléte.

Garibaldi veiu a Ascoli porque soube que a policia bourboneza e papista
começava a sublevar a povoação dos Apenninos contra o governo de Roma
empregando para isso o dinheiro, o temor e o anathema.

N'esse tempo era eu capitão do 23.° de linha no exercito piemontez e
estava em Ascoli gosando dois mezes de licença quando os meus
compatriotas me elegeram deputado na constituinte romana.

Garibaldi visitou-me no dia 20 de janeiro, no dia seguinte quiz partir
para Rieti atravessando a montanha que estava coberta de neve e onde
havia um grande numero de salteadores; os conselhos prudentes que lhe
deram, a opposição dos patriotas não fizeram mais que reascitar o seu
desejo de intrepido militar; por espaço de uma legua fomos acompanhados
pela multidão que se lamentava e chorava: muitos me abraçaram pensando
que não tornariam a vêr-me.

Seguiam o general, Nino Bixio seu oficial de ordenança, o capitão Sacchi
seu companheiro de armas no novo mundo, e de Aguyar seu negro.

O resto da comitiva compunha-se de mim e de um cãosinho que ferido n'um
pé no dia do combate de Santo Antonio tinha desertado da bandeira de
Buenos-Ayres com a qual tinha andado até ali para se alistar na bandeira
de Garibaldi.

Chamava-se Guerillo.

O intelligente animal caminhava coxeando sempre entre as quatro pernas
do cavallo de Garibaldi.

Na primeira noite alojamo-nos em casa do governador de Arguata, Caetano
Rinaldi, chefe da reacção clerical que surgia atraz de nós a pouco e
pouco e á medida que avançavamos.

Ficámos n'uma sala ao _rez-de-chaussée_ ás escuras até ás dez horas da
noite com pessoas que entravam, sahiam e fallavam em segredo. Notei isto
ao general que me respondeu com o seu habitual socego.

—Estão detalhando o jantar.

Nada podia dizer mais verdadeiro, levantamo-nos da mesa á meia noite
tendo sido tratados como se fossemos cardeaes. Quando partimos o
governador deu-nos quatro arrateis de batatas para a viagem. Ás quatro
horas da manhã montámos a cavallo e fomos acompanhados até ao cume da
montanha pelo filho de M. Rinaldi que trazia uma bandeira tricolor de
seda. Ao meio dia devorámos um cordeiro que o general mandou assar por
partes n'uma fogueira de lenha, e á noite alojamo-nos n'uma estalagem
isolada cheia de camponezes armados. Talvez tivessem recebido a palavra
de ordem de Arguata, as physionomias eram sinistras, convidamol-os todos
para beber e recusaram.

Fomos deitar-nos e dormimos com o sabre ao lado e a mão sobre o gatilho
da pistola.

Garibaldi levantou-se, tinha o cotovelo esquerdo dorido e o joelho
direito inchado pelo rheumatismo apanhado na America, não poude calçar a
bota e foi de braço ao peito.

Depois de meia hora de marcha os cavallos não poderam continuar. Com
effeito trepavamos uma montanha escarpada que o gelo da noite tornara
escorregadia como um espelho.

Pelo espaço de uma legua os cavallos caminharam sobre os nossos capotes
que estendiamos diante d'elles, atravessamos em seguida uma planicie
coberta de neve onde os cavallos se enterravam até aos peitos; para me
aquecer apeei-me e fui saber da saude do general que cavalgava na minha
frente só com uma bota calçada e no outro pé uma meia de algodão.

—Então, perguntei-lhe eu, como vae, general?

Cumprimentou-me com o sorriso affavel que é habitual á sua natureza
forte e serena, e disse-me:

—Perfeitamente, obrigado.

Como eu ia ao lado d'elle, sem duvida para se distrahir das dôres
pungentes que lhe torturavam a carne, mostrou-me com a mão o aspecto
grandioso d'esta natureza selvagem. Effectivamente achavamo-nos no meio
de elevadas montanhas cujos cumes cheios de rochas se assimilhavam aos
fortes castellos edificados pelos Titans.

Por toda a parte rochedos escarpados, minados pelos seculos,
desprendendo-se das cumiadas tinham rolado para os valles estreitos e
escarpados e jaziam no leito de uma torrente espumosa, terrivel,
murmurante e limosa; a espaço viam-se algumas casas escondidas na
espessura de choupos, faias, castanheiros e outras arvores,
distinguindo-se pelas alvas nuvens de fumo que sahiam das chaminés.

Esta paysagem á Salvador Rosa assombreada pela tormenta e tornada mais
ameaçadora pelo sopro do vento, exaltou a alma de Garibaldi.

—É aqui, disse elle, que eu queria encontrar todo o exercito de
Radetzki: os nossos bravos legionarios não deixariam regressar a Vienna
um dos seus soldados; aqui vingariamos Varus e nossos irmãos mortos na
floresta de Teutberg.

Pelas cinco horas estavamos perto de Cascia, pequena reunião de casas
agrupadas no cume de uma collina verdejante; o vento tinha dispersado as
nuvens, o sol brilhava sobre as nevosas cumiadas, formando montanhas de
prata que se destacavam sobre um fundo azul que se tornava côr de rosa
para o lado do poente.

Descançavamos junto a um montão de palha, quando quatro mancebos vieram
perguntar-nos quem eramos, ao nome de Garibaldi partiram correndo e
passado um quarto de hora o porta-bandeira, as notabilidades, a guarda
nacional, e a multidão com musica na frente vieram receber-nos, e
convidar o general a ir á villa.

Armou-se, como por encanto, um arco triumphal de folhagem; o theatro
illuminou-se; houve jantar e baile em casa do governador, que, não
obstante, era um altivo clerical.

Lembro-me de terem apresentado a Garibaldi um camponez que, sem saber
lêr nem escrever, tinha dictado um poema completo sobre a vida pastoril.

Perto das nove horas, um visinho me disse em segredo que um rapaz de
quinze annos gemia na prisão embrutecido pelas pancadas e maus tratos do
pae, que, casando segunda vez, aos sessenta annos, com uma camponeza
muito nova, tinha, por conselho d'ella, accusado o filho de lhe ter
faltado ao respeito.

O governador recebeu vinte escudos e o rapaz foi lançado na prisão.

Fiz constar o facto e fallei d'elle ao general.

O pae foi chamado, e tambem o desgraçado rapaz. Houve então uma scena ao
mesmo tempo comica e horrenda. O pae queria, é verdade, que soltassem o
filho; mas reclamava com toda a sinceridade o dinheiro que tinha dado
para o prenderem. O rapaz chorava amargamente e abraçava Garibaldi; em
quanto ao governador, não sabia que postura havia de tomar. Por fim, fez
um discurso ao povo da janella, e o rapaz foi levado em triumpho por
todos os galopins da villa.

No dia seguinte, as cinco horas da manhã, um destacamento da guarda
nacional partiu comnosco por baixo de uma chuva miuda mas penetrante.

Acompanhou-nos até Rieti e escoltou um empregado das finanças que tinham
prendido no sitio onde almoçamos, porque era um espião pago pelo general
bourbonez Landi, commandante da columna movel na fronteira dos estados
romanos.

A legião italiana aquartelada em Rieti compunha-se de tres batalhões
(quinhentos homens) aos quaes se tinham juntado noventa lanceiros
equipados e montados á custa do seu commandante, o conde Angelo Masina
de Bolonha.

Foi com elles que o conde marchou a soccorrer Roma.

Quando os francezes desembarcaram em Civita-Vecchia, a legião achava-se
em Anagni, berço e tumulo de Bonifacio VIII.

                                                         _Aug. Vecchi._

                                   ⁂

Mas a este general que tinha todo o povo a seguil-o faltava-lhe
soldados.

Improvisaram-lhe uma brigada de elementos estranhos uns aos outros de
homens que não se conheciam, e que deviam reunir-se, fundir-se n'um só,
misturar-se por effeito do enthusiasmo que elle inspirava.

Esta brigada formou-se de dois batalhões da sua propria legião, entre os
quaes havia uns quarenta vindos com elle de Montevideo, trajando
_blouse_ vermelha com canhões verdes, de trezentos homens de volta de
Veneza, de quatrocentos mancebos da universidade, de trezentos officiaes
da alfandega, mobilisados finalmente de trezentos emigrados, ao todo
dois mil e quinhentos homens que foram encarregados de defender os muros
desde a porta Portese até ás portas San-Pancracio e Cavallegieri, e
occupando todos os pontos elevados por fóra das muralhas da villa
Corsini, conhecidos sob o nome dos _Quatro-Ventos_ até á villa Pamphili.

Segundo toda a probabilidade era sobre este ponto que empregariam mais
força os francezes que queriam conservar Civita-Vecchia para base das
suas operações.

No dia 28 de abril a vanguarda franceza estava em Palo, onde tinha
chegado na vespera um batalhão de caçadores para explorar o caminho.

No dia 29 estava em Castel-di-Guido, isto é a cinco leguas de Roma.

Então o general em chefe mandou em reconhecimento seu irmão, o capitão
Oudinot, e um official de ordenança com quinze soldados de cavallaria
ligeira.

Este reconhecimento avançou para o sitio onde se dividiam as duas
estradas Aurelianas, antiga e moderna, e a uma legua de Roma encontrou
os postos avançados dos romanos.

O official que commandava os postos avançados dirigiu-se então aos
francezes e perguntou-lhes:

—Que quereis?

—Ir a Roma, responderam os francezes.

—Não é possivel, disse o official italiano.

—Nós fallamos em nome da republica franceza.

—E nós em nome da republica romana, por tanto para traz senhores!

—E se nós não quizermos voltar para traz?

—Trataremos de os obrigar a isso.

—Por que meio?

—Pela força.

—N'esse caso disse o official francez voltando-se para os seus, se assim
é, fazei fogo.

E ao mesmo tempo disparava uma pistola que tirara dos coldres.

—Fogo! respondeu o official italiano.

O reconhecimento muito fraco para resistir, retirou-se a galope deixando
em nosso poder um caçador francez debaixo do cavallo que estava morto.

Foi preso e enviado a Roma.

O boletim francez diz que fomos nós que fugimos e fomos perseguidos, mas
se assim fosse como era possivel termos enviado a Roma um prisioneiro
feito por nós que estavamos a pé, em quanto que os francezes estavam a
cavallo?

No seguimento teremos de relevar mais de um engano d'este genero.

O reconhecimento foi pois levar ao general a noticia de que Roma estava
prompta a defender-se, e que deviam perder a esperança de entrar ahi sem
queimar uma escorva, e no meio das acclamações do povo como esperavam.

O general em chefe nem por isso afrouxou a marcha.

No dia seguinte, 30 de abril, avançou a passo dobrado, deixando em
Maglianilla as bagagens dos seus soldados.

Relevemos um novo engano relativo ao dia 30 de abril como relevamos o de
29.

Certos escriptores disseram que victimas de uma vil intriga, os soldados
tinham sido attrahidos para a cidade em perseguição de um simples
reconhecimento e tinham cahido n'uma cilada.

O negocio do dia 30 não foi um reconhecimento aos francezes, não se lhe
armou cilada alguma.

O successo do dia 30 foi um combate em que muito esperava o general
francez, e a prova é o plano de batalha que se segue achado a um
official francez morto, e transmittido pelo coronel Masi ao general
ministro da guerra.[2]

  [2] Não estou escrevendo um romance, estou publicando _Memorias_.
  Vejo-me pois forçado a traduzir textualmente. Não nego nem
  affirmo, instruo um processo diante d'esse grande e ultimo juizo
  que se chama a Verdade.

    «Dever-se-ha dirigir um duplo ataque pelas portas Angelica e
    Cavallegieri, com o fim de dividir a attenção do inimigo.

    «Pela primeira forçar-se-hão as tropas inimigas que acampam em
    Monte-Mario, e em seguida poder-se-ha occupar a porta Angelica.

    «Quando os nossos tiverem occupado estes dois pontos
    apertaremos o inimigo com toda a força possivel em todos os
    sentidos e o ponto geral de reunião será na Praça de S. Pedro.

    «Recommenda-se sobre tudo poupar o sangue francez.»

A idéa do general francez não só era má, mas foi mal executada; vamos
tentar proval-o.

A estrada que conduz de Civita-Vecchia a Roma separa-se em duas a
quinhentos metros pouco mais ou menos das muralhas, conduzindo pela
direita á porta San-Pancracio, e pela esquerda á porta Cavallegieri
visinha do angulo saliente do Vaticano.

Ahi foi o grande erro que os francezes commetteram. Lançaram na direita
os caçadores a pé do 20.° de linha que acharam um caminho aspero e
cortado de bosques e de um difficil accesso e nas alturas da esquerda os
caçadores de Vincennes; cerca de cento e cincoenta metros dos muros
estes bravos rapazes perdidos do exercito inimigo foram fulminados com o
chuveiro de metralha que vomitava a bateria do bastião San-Mario.

Comtudo o mal não foi para elles tão grande como podia ser, por causa da
habilidade adquirida na guerra contra os arabes, de fazerem muralhas de
todos os accidentes do terreno.

O seu fogo admiravelmente dirigido causava-nos grandes perdas. Foi ali
que morreram, o tenente Marducci mancebo que dava as maiores esperanças,
cuja mãe depois da entrada do Papa Pio IX foi condemnada a oito dias de
prisão por ter ido depôr flôres sobre o tumulo de seu filho; o major
ajudante Enrico Pallini, o brigadeiro della Ridova, o capitão Pifferi, o
tenente Belli, e outros mais desconhecidos ao mundo, mas charos para
nós; taes como de Stephanis, Ludovico e o capitão Leduc, bravo belga que
combatêra por nós na guerra da independencia.

Não faltavam porém vivos para substituir os mortos.

Desde manhã o rufar dos tambores annunciou aos romanos que os francezes
estavam já á vista e n'um momento os muros e os bastiões cobriram-se de
homens.

Em quanto o fogo dos caçadores do 20.° de linha e o dos caçadores de
Vincennes respondiam ao nosso, o grosso da columna franceza avançava
sempre.

No momento della apparecer uma bateria de quatro peças collocadas n'um
bastião, começou a metralhal-a.

O general francez estabeleceu logo uma bateria sobre os aqueductos,
encarregada de responder ao nosso fogo, e fez montar sobre uma collina
duas outras peças que fizeram face aos jardins do Vaticano, onde estavam
poucos soldados, mas uma grande quantidade de povo armado.

O general francez vendo que o nosso fogo tinha afrouxado, por causa da
certeza do tiro dos caçadores de Vincennes, mandou a brigada Moliére que
avançou com bravura até ao pé das muralhas; mas como já disse os mortos
tinham sido substituidos com ligeireza, e o fogo animou-se mais ardente
ainda, destruindo a frente das columnas Marulaz e Bouat, forçoso lhe foi
pois retirarem-se e procurarem um abrigo nas curvas que o terreno fazia.

Garibaldi seguia todos estes movimentos dos jardins da villa Pamphili.
Entendeu que tinha chegado a sua vez e mandou varios destacamentos
através as vinhas, esta manobra porém foi descoberta, e do 20.° de
linha mandaram um reforço para impedir que os caçadores de Vincennes
fossem surprehendidos e para protegêl-os.

Garibaldi então mandou dizer que se lhe enviassem um reforço de mil
homens responsabilisava-se pelo exito d'aquelle combate.

Enviou-se-lhe logo o batalhão do coronel Galleti e o primeiro batalhão
da legião romana commandado pelo coronel Morelli. Dispoz varias
companhias para defenderem as passagens ameaçadas, outras foram
encarregadas de proteger os flancos e a retaguarda da sahida, e á frente
dos homens que lhe restavam Garibaldi lançou-se sobre os francezes.

Por fatalidade os nossos tomaram os homens de Garibaldi por francezes e
do alto das muralhas fizeram fogo sobre elles. Garibaldi parou até que
se conhecesse o engano, e então á bayoneta lançou-se a descoberto sobre
o centro do exercito francez.

Empenhou-se então um combate terrivel, entre os tigres de Montevideo
como lhes chamavam e os leões de Africa. Francezes e romanos luctavam
corpo a corpo, matavam-se á bayoneta, cahiam, mas tornavam a levantar-se
para começar de novo.

Garibaldi achava emfim inimigos dignos d'elle.

Ali morreram dos nossos o capitão Montaldi, os tenentes Rigli e Zamboni,
foram feridos o major Marochetti, o cirurgião Schienda, o official
Gliglioni, o capellão Ugo Bassi que desarmado affrontava os ferimentos e
a morte, para soccorrer os feridos e consolar os moribundos; coração
piedoso, alma misericordiosa, de que os sacerdotes fizeram um martyr;
finalmente os tenentes d'All'Oro, Tressoldi, Rolla, e o joven Stadella,
filho do general napolitano.

Depois de uma hora de lucta os francezes foram obrigados a ceder: uma
parte debandou pelo campo e outra refugiou-se no corpo principal.

Ficaram prisioneiros duzentos e sessenta francezes.

Foi então que o capitão de artilheria Faby, official de ordenança do
general em chefe, vendo o mau exito do ataque tão mal combinado pelo
general, julgou remedial-o propondo ao seu chefe guiar um novo ataque
por um caminho seu conhecido, dizia elle, e que o conduziria
desapercebido até debaixo dos muros de Roma, diante do jardim do
Vaticano.

Este caminho era flanqueado por quatro ou cinco casas onde se poderiam
deixar destacamentos, e que estavam occultas pelas vinhas.

O general em chefe acceitou, deu-lhe uma brigada do corpo Levaillant, e
o capitão Faby partiu.

A empreza foi facil a principio, e a marcha da columna ficou
effectivamente desapercebida dos defensores de Roma até á estrada
consular da porta Angelica; ali porém ao primeiro brilho das armas
francezas um fogo terrivel lançado de todo o circuito dos jardins
pontificaes recebeu a columna, e uma das primeiras balas matou o capitão
Faby que a conduzia.

Apezar de privada do seu guia a columna defendeu-se valerosamente por
algum tempo, respondendo ao fogo das muralhas, mas dizimados e
destruidos tendo na retaguarda as nossas tropas de Monte-Mario, na
frente o fogo do castello Saint-Ange que lhes tomava o caminho da porta
Angelica, expostos a descoberto ao chuveiro de balas e metralha que
sahia dos jardins do Vaticano, e que lhes não permittia readquirir as
suas antigas posições; os francezes foram obrigados a refugiar-se nas
casas dispersas nas vinhas e espalharem-se pelo comprimento da estrada
onde a nossa artilheria continuou a fulminal-os.

Assim pois uma brigada completa que formava o flanco esquerdo do corpo
do exercito francez achou-se separada do seu centro, e correndo perigo
de ser toda prisioneira.

Por felicidade para o general Levaillant as nossas tropas de Monte-Mario
não desceram, e dois mil homens agglomerados atraz da porta Angelica não
se moveram.

O general em chefe não era mais feliz á direita, quero dizer, no ponto
em que havia combatido Garibaldi; um instante o fogo e a lucta haviam
cessado pela retirada dos francezes; mas sendo sua gente repellida, o
general Oudinot receiava vêr cortadas as suas communicações com
Civita-Vecchia, e tinha compellido para a frente os restos da brigada
Moliére, e o combate resfriado um instante, retomara novo ardor. Mas a
sciencia da guerra, a disciplina, a coragem, o ataque impetuoso tudo
cahiu ante os nossos soldados, apezar de sua juventude e inexperiencia.

É que Garibaldi estava ahi, erguido a cavallo, com os cabellos soltos ao
vento, como a estatua de bronze do deus dos combates.

Á vista do invulneravel, cada um se recordou das façanhas dos immortaes
antepassados e d'esses conquistadores do mundo de que elles pisavam as
sepulturas; ter-se-hia dito que todos sabiam que a sombra dos Camillos,
dos Cincinnatos e dos Cesares os olhavam do alto do Capitolio. Á
violencia, á furia franceza, oppunham o socego romano, a vontade suprema
da desesperação.

No fim de quatro horas de um combate obstinado, o chefe de um batalhão
do 20.° de linha, hoje general Picard, graças a prodigiosos esforços,
a uma coragem desmedida, apoderou-se com trezentos homens de uma posição
bella, forçando os jovens universitarios a abandonal-a; mas quasi
immediatamente, Garibaldi tendo recebido um batalhão de exilados
commandado por Arcioni, um destacamento da legião romana, com duas
companhias da mesma legião, poz-se-lhe á frente, e de cabeça baixa,
bayoneta cruzada, retomou a seu turno a offensiva, e com um fogo
irresistivel, destruindo todos os obstaculos, envolveu na casa de que
elle havia feito uma fortaleza, o chefe do batalhão, Picard, que atacado
de todos os lados pelos nossos, e de face por Nino Bixio, que luctou
corpo a corpo com elle, foi forçado a render-se com os seus trezentos
homens.

Esta lucta agigantada decidiu a refrega, e mudou completamente a face ás
cousas. Já não era questão saber se Oudinot entraria em Roma, mas sim se
poderia volver para Civita-Vecchia.

Garibaldi, com effeito, senhor da villa Pamphili e da posição dos
aqueductos, dominava a via Aureliana, e por um movimento rapido podia
preceder os francezes em Castel-di-Guido e fechar-lhes a estrada.

O resultado d'este movimento era certo; a ala esquerda dos francezes,
esmagada nos jardins do Vaticano e abrigada, como o dissemos, nas
casinhas dispersas, não podia bater em retirada sem se expôr ao fogo
exterminador da artilheria e da fusilaria dos muros.

A ala direita, batida e dispersada por Garibaldi, achava-se n'esse
momento de desanimação fatal que se segue a uma derrota inesperada, e
podia apenas oppôr uma fraca resistencia. Alem d'isto, os francezes
estavam extenuados por um combate de dez horas, e sem cavallaria alguma
que protegesse a sua retirada.

Nós tinhamos dois regimentos de linha em reserva, dois regimentos de
dragões a cavallo, dois esquadrões de carabineiros, o batalhão dos
lombardos, commandado por Manara, preso, é verdade pela palavra de
Manucci, e por detraz d'elles um povo inteiro.

Garibaldi tinha previsto a situação porque do campo de batalha, escrevia
ao ministro da guerra Avezzana:

    «Enviae-me tropas frescas, e da mesma fórma que eu vos havia
    promettido de bater os francezes, palavra que sustentei, eu vos
    prometto de impedir que um só regresse aos seus navios.»

Mas então, diz-se, o triumviro Mazzini oppoz sua palavra potente a este
projecto.

—Não façamos, disse elle, da França um inimigo mortal, por uma derrota
completa, e não exponhamos nossos jovens soldados de reserva em campo
raso, contra um inimigo batido, mas valoroso.

Este grave erro de Mazzini roubou a Garibaldi a gloria de um dia á
Napoleão, e tornou infructuosa a victoria de 30; erro fatal e entretanto
desculpavel para um homem que tinha firmado todas as esperanças no
partido democratico francez de que Ledru-Rollin era chefe, erro que teve
para a Italia incalculaveis consequencias.

O plano de Garibaldi, se se houvesse adoptado, podia mudar os destinos
da Italia.

De feito a posição era das mais simples, e eu o recordo, hoje que os
odios politicos estão extinctos, e que um novo dia brilha para a Italia
á lealdade dos nossos proprios adversarios.

Oudinot tinha atacado Roma com duas brigadas, uma sob as ordens do
general Lavaillant, outra sob as do general Manara: um batalhão de
caçadores a pé, doze peças de campanha e cincoenta cavallos, completavam
a divisão; vimos a que penoso estado ficara reduzido na noite de 30 de
abril este corpo de exercito, cuja ala esquerda tinha sido
inconvenientemente alongada e a ala direita reunida sobre seu centro por
Garibaldi, senhor da villa Pamphili, dos aqueductos e da antiga via
Aurelianna; era preciso sem perder um instante e com todas as tropas
disponiveis, marchar para a frente, forçar os francezes ou a uma fuga
rapida, necessaria se quizessem ganhar Civita-Vecchia, ou a um novo
combate, que terminasse por sua completa destruição na desfavoravel
situação em que se achavam.

Ou o exercito francez teria sido destroçado ou forçado a depôr as armas.

O que ha n'isto de curioso é que durante toda esta marcha, as musicas
militares romanas tocaram a _Marselhesa_ combatendo aquelles que
animados por este canto tinham vencido a Europa.

É verdade que elles já não cantavam.

Além dos mortos e feridos que nos fizeram, as balas, e projectis
causaram n'estes recontros grandes damnos aos nossos monumentos, e não
podemos deixar de nos rirmos tristemente quando lemos nos jornaes
francezes que o cerco cresceria provavelmente em extensão pelo cuidado
que tinham os engenheiros de não offender os monumentos artisticos.

As ballas, e os tiros de canhão batiam, com effeito, e se espalhavam
como chuva sobre a cupola de São Pedro e sobre o Vaticano.

Na capella Paulina, enriquecida com pinturas de Miguel Angelo, de
Zuccari e de Lourenço Sabati, uma das pinturas foi diagonalmente ferida
por um projectil.

Na Sixtina um outro damnificou um caixão pintado por Buonaroti.

Emfim, os francezes perderam n'estes combates, feridos e prisioneiros,
trezentos homens. Pela nossa parte tivemos uma centena de homens mortos
ou fóra do combate e um prisioneiro.

Este prisioneiro era o nosso capellão Ugo Bassi que n'um dos nossos
movimentos de reanimar, tendo encostado aos joelhos a fronte de um
moribundo junto ao qual se havia sentado para o consolar, não quiz
abandonal-o senão quando elle exhalou o derradeiro suspiro.

Advinha-se facilmente a alegria que se apoderou de Roma em a tarde e
noite que se seguia a este primeiro combate. Fosse qual fosse o aspecto
que d'ali em diante tomassem as coisas, a historia, pelo menos assim se
julgava, não negaria que não só nós tinhamos feito frente um dia inteiro
aos primeiros soldados do mundo, mas ainda os haviamos forçado a
retirar.

A cidade foi toda illuminada, tomando o aspecto de uma festa nacional;
de todos os lados ouviam-se cantos e musicas. Sahindo do quartel general
estes cantos e estas musicas atormentavam os corações dos soldados
prisioneiros.

O capitão Faby voltando-se para um official romano, era o historiador
Vecchi, perguntou-lhe:

—Esta alegria e estes cantos são para nos insultar?

—Não, lhe respondeu Vecchi, não supponhaes tal; o nosso povo é generoso
e não insulta a desgraça; mas festeja o seu baptismo de sangue e de
fogo. Vencemos hoje os primeiros soldados do mundo; quererieis impedil-o
de applaudir a memoria dos mortos e a resurreição da nossa velha Roma?

Então o capitão Faby mostrou-se vivamente tocado por esta resposta, que
era feita em excellente francez, e tão tocado que com as lagrimas nos
olhos gritou:

—Pois bem, debaixo d'esse principio, viva Roma e viva a Italia!

Nenhum soldado prisioneiro foi enviado ao quartel que lhe havia sido
destinado sem que recebesse viveres e que fosse provido de tudo que
necessitava.

Quanto aos officiaes que tinham perdido a espada, foi-lhes no mesmo
instante entregue uma outra.

No seguinte dia, 1.° de maio, ao raiar d'alva, o infatigavel
Garibaldi, havendo recebido do ministro da guerra authorisação para
attacar os francezes com a sua legião, quero dizer, com mil e duzentos
homens, dividiu-a em duas columnas de que uma parte sahiu pela porta
Cavallegieri com Masina, e a outra sob suas ordens, pela porta
São-Pancracio. A pouca cavallaria que tinha foi augmentada com um
esquadrão de dragões.

O fim de Garibaldi era surprehender os francezes no seu acampamento e
dar-lhes batalha, ainda que as suas forças fossem seis vezes menores que
as d'elles; além d'isso esperava que ao ruido da fuzilaria e da
artilharia, o povo todo correria em seu soccorro.

Mas chegado ao campo soube que os francezes tinham partido durante a
noute retirando-se para Castel-di-Guido, e que Masina que tinha seguido
caminho mais curto se havia encontrado com a sua rectaguarda e batalhava
com ella.

Garibaldi então dobrou a marcha, e alcançou Masina perto da hospedaria
de Mallagrota, onde os francezes se reuniam e pareciam apprestar-se para
o combate. Tomou logo o flanco do exercito francez, sobre uma elevação,
posição vantajosissima; mas no momento em que os nossos hiam carregar,
um official destacando-se do exercito pediu para fallar a Garibaldi.

Garibaldi ordenou que lh'o conduzissem.

O parlamentado disse que era enviado pelo general em chefe do exercito
francez para tratar dum armisticio e assegurar-se se realmente o povo
romano acceitava o governo republicano e queria defender seus direitos.

Como prova das leaes intenções do general, aquelle propunha de nos
entregar o padre Ugo Bassi, feito prisioneiro na vespera como já
dissemos.


            [Ilustração: _Lith. de Castro, Poço Novo No 33_
                            VICTOR MANOEL]


Durante isto chegava-nos a ordem do ministro pedindo a Garibaldi de
volver a Roma.

A legião ahi entrou pelas quatro horas da tarde levando comsigo o
parlamentario.

O armisticio pedido pelo general Oudinot foi-lhe concedido.



                                   XV

                 EXPEDIÇÃO CONTRA O EXERCITO NAPOLITANO


Em quanto que se consumavam os successos que acabamos de referir, o
exercito napolitano, forte com quasi vinte mil homens, com o rei á sua
frente, arrastando atraz de si trinta e seis bocas de fogo, flanqueado
por uma cavallaria magnifica, orgulhosa de seus recentes triumphos na
Calabria e na Sicilia, avançava para investir a cidade pela margem
esquerda do Tibre. Tendo occupado militarmente Velletri, depois Albano e
Frascati, protegido á direita pelos Appeninos e á esquerda pelo mar,
alongava seus postos avançados a algumas leguas de nossos muros.

Vendo isto, Garibaldi, que o armisticio deixava desoccupado, buscou
empregar seus ocios fazendo guerra ao rei de Napoles.

Foi-lhe concedida a permissão.

Na noite de 4 de maio, Garibaldi sahiu com a sua legião, fortalecida com
dois mil e quinhentos homens.

Entre estes dois mil e quinhentos homens achavam-se o batalhão de
_bersaglieri_ de Manara, restabelecido no pleno dominio de seus direitos
(que, todavia, não tinham sido alienados a respeito do rei de Napoles),
os _douaniers_, a legião universitaria, duas companhias da guarda
nacional movel e alguns outros corpos de voluntarios.

A reunião tinha sido dada para a praça do Povo. Ás seis horas Garibaldi
havia chegado.

Um joven suisso, da Suissa Alemã, que escreveu uma historia do cerco de
Roma, Gustavo de Hoffstetter, exprime assim o effeito que lhe produziu a
vista de Garibaldi.

«No momento em que soavam seis horas, o general appareceu com seu
estado-maior e foi recebido por um trovão de vivas; via-o pela vez
primeira; é um homem de mediana estatura, rosto crestado pelo sol, mas
com linhas de uma pureza extranha; estava sentado sobre o cavallo, tão
tranquillo e firme como se ahi houvera nascido; debaixo do seu chapeu de
largas abas, e copa estreita, ornada de uma pluma de avestruz, se
espalha uma floresta de cabellos; uma barba ruiva lhe cobre a parte
inferior do rosto; sobre sua camisa vermelha traz um _puncho_ americano
branco debruado de vermelho como a camisa. Seu estado-maior trazia a
blouse vermelha, e mais tarde toda a legião italiana adoptou esta côr.

«Atraz d'elle cavalgava o seu palafreneiro, negro vigoroso que o tinha
seguido da America; vinha vestido com um manto preto, e armado de uma
lança de lamina vermelha.

«Todos os que tinham vindo com elle da America traziam á cintura
pistolas e punhaes de uma bella execução; cada um tinha na mão um
chicote de pelle de bufalo.»

Continuemos a descripção: agora é Emilio Dandolo que falla; o pobre
mancebo, ferido no cerco de Roma onde foi morto seu irmão, falleceu
depois em Milão, com doença de peito, e tambem nos lega uma narração dos
acontecimentos em que tomou parte.

«Seguidos de suas ordenanças todos os officiaes vindos da America,
debandam, reunem-se, correm em desordem, vão aqui e acolá, activos,
vigilantes, infatigaveis; quando a comitiva pára para acampar e
descançar, em quanto que os soldados ensarilham armas, é um curioso
espectaculo vêl-os saltar abaixo de seus cavallos, e prover cada um de
per si, incluindo o general, ás necessidades de seus pobres animaes.

«Acabada a operação, os cavalleiros pensam em si, e se das localidades
visinhas não podem obter viveres, tres ou quatro coroneis ou majores
montam novamente, e armados de laços, aventuram-se pelos campos sobre a
traça dos carneiros e dos bois. Quando teem reunido o que querem, volvem
trazendo adiante de si o rebanho; distribuem-no em partes eguaes pelas
companhias, e todos, sem distincção, soldados e officiaes, se poem a
degolar, esquartejar, e fazer assar, ante enormes fogueiras enormes
peças de carneiro, boi ou porco, sem contar as alimarias miudas como
galinhas, pombos, patos, etc.

«Durante este tempo, se o perigo vae longe, Garibaldi fica deitado na
sua tenda; se ao contrario o inimigo se avisinha, não desce do cavallo,
dá as suas ordens e visita os postos avançados; muitas vezes, despe o
singular uniforme, veste-se de paisano, e entrega-se ás mais perigosas
explorações; a maior parte do tempo, sentado sobre algum elevado cume
que domina as immediações, passa horas a sondar o horisonte com seu
oculo; quando a trombeta do general dá o signal da partida, os mesmos
laços servem para prender os cavallos dispersos na campina; a ordem de
marcha é tomada como na vespera e ninguem sabe ou se inquieta sobre para
onde se vae.

«A legião pessoal de Garibaldi, é pouco mais ou menos de mil homens;
compõe-se do mais desordenado sortimento de homens que se póde imaginar,
gente de todas as classes, e edades, rapazes de doze a quatorze annos
attrahidos a esta vida de independencia, seja pelo enthusiasmo, seja por
uma natural desenvoltura, velhos soldados reunidos pelo nome e pela fama
do illustre heroe do novo mundo, e no meio de tudo isto, muitos que não
podem lisongear-se de ter senão a metade da divisa de Bayard, sem medo,
e que procuram na confusão da guerra o roubo e a impunidade.

«Os officiaes são escolhidos entre os mais corajosos, e elevados aos
graus superiores, sem que se lhes leve em conta a antiguidade, nem
nenhuma das regras ordinarias para os elevar. Hoje vê-se um de sabre ao
lado, é capitão; ámanhã, por variedade, tomará um mosquete, e irá
collocado nas fileiras tornar-se soldado. A paga não falta: é fornecida
por meio do papel dos triumviros, que não custa senão o trabalho de o
fazer imprimir: proporcionalmente o numero dos officiaes é maior que o
dos soldados.

«O commissario geral, quero dizer, o homem encarregado das bagagens, era
capitão; o cosinheiro do general, era tenente; a ordenança tinha o mesmo
grau; o estado maior é composto de majores e coroneis.

«De uma simplicidade patriarchal, que é tamanha que se dissera fingida,
Garibaldi assemelha-se antes ao chefe de uma tribu indiana que a um
general; mas quando o perigo se aproxima ou declara, então é
verdadeiramente admiravel de coragem, e de golpe de vista; e o que lhe
poderia faltar de sciencia estrategica para ser um general segundo as
regras militares, é substituido n'elle por uma actividade inimitavel.»

Bem o vêdes, sobre todos os espiritos; sobre todos os temperamentos,
este homem extraordinario faz uma impressão egual.

Voltemos á expedição contra os napolitanos.

A tropa poz-se em marcha ao cahir do dia, pelas oito horas da tarde.
Onde se ia? Ninguem o sabia. Apoiou-se sobre a direita até que depois de
ter descripto um immenso circulo, encontraram-se na estrada de
Palestrina.

A noite era limpida e fresca; marchava-se em silencio, e a passo
dobrado. O proprio estado maior provia ao serviço de segurança. Os
officiaes acompanhados de alguns homens a cavallo, faziam grandes
volteios no terreno; quando o solo estava muito accidentado, a columna
parava, e os ajudantes sondando o terreno que se estendia ante elles,
volviam a dar novas que faziam retomar a marcha á expedição.

Estas paragens tinham, além da vantagem da segurança, a de fazer
descançar as tropas, cuja marcha continuou assim sem muita fadiga até ás
oito horas da manhã. A uma legua de Tivoli, parou-se; depois de algum
tempo tinha-se deixado o caminho de Prenesta que conduzia ao de
Palestrina, e tinha-se dirigido a marcha para Tivoli seguindo uma velha
estrada romana.

Por esta marcha nocturna feita com rapidez o general tinha ganho uma
triplice vantagem:

1.° Tinha illudido os espiões, que vendo-o sahir da porta do Povo,
deveriam julgar que a expedição era dirigida contra os francezes, os
quaes, parados em Palo, tinham entabolado uma especie de congresso com o
triumvirato.

2.° Garibaldi achava-se, em Tivoli, sobre o flanco direito da linha de
operações dos napolitanos que acampavam em Velletri, e que enviavam os
seus observadores na direcção de Roma até ás alturas de Tivoli.

3.° A marcha nocturna por um paramo deserto, privado de sombra e de
agua, era, graças á fresquidão da noite, um verdadeiro beneficio para as
tropas.

Ás cinco horas da tarde, os homens retomaram suas fileiras, e marchou-se
para as ruinas da villa Adriana, distante uma legua pouco mais ou menos,
do logar onde se tinha feito alto, e que jaz ao pé da montanha em que se
eleva o Tivoli.

O general teve logo tenção de ahi acampar, mas mudou de resolução e fez
proceder a uma completa exploração dos logares. Não poz tropas em
Tivoli, porque só no ultimo caso é que elle queria entrar nas cidades.

No meio das ruinas da villa Adriana, que formam uma fortaleza, a brigada
inteira plantou seu campo, homens e cavallos, porque as camaras
subterraneas d'este edificio estavam muito bem conservadas para ali se
poderem alojar.

Esta cidade foi elevada pelo proprio Adriano; tem duas milhas de
extensão, e uma de largura. Uma pequena floresta de larangeiras e
figueiras brotam sobre a base do antigo palacio.

A 6 de maio partiu-se ás oito horas da manhã, com os _bersaglieri_ á
frente; e para alcançar a grande estrada de Palestrina foi mister passar
pela garganta de São-Veterino. Levou-se uma hora a passar este
desfiladeiro; ao meio dia acampou-se n'um outro valle onde se encontrou
agua fresca e sombra. Não se via uma casa, mas nadava-se em verdura.

Ás cinco horas e meia, retomou-se a marcha e subiu-se a montanha. Os
soldados tinham ante si os animaes de carga que levavam as munições de
guerra.

Quanto aos soldados, todos levavam seu pão; a falta de carne não os
inquietava, encontravam-na em todas as paragens; só os bersaglieri
tinham marmitas.

Chegada ao cume da montanha a expedição encontrou uma antiga estrada
romana perfeitamente conservada que conduzia á Palestrina, onde chegou á
uma hora da manhã.

Foi uma fortuna encontrar esta estrada romana, tão bem conservada, que
nem só um dos animaes de conducção deu um passo em falso, nem o vento
levantou um só grão de poeira.

Entretanto fizeram-se frequentes altas para dar repouso aos soldados.
Tinha-se necessidade, visto a lide que se lhes reservava, de que não
chegassem fatigados.

O general enviou patrulhas para todos os lados.

Uma d'estas patrulhas formada por sessenta homens e commandada pelo
tenente coronel Bronzelli, o mesmo que dez annos depois foi mortalmente
ferido no campo de batalha de Treponti, obteve felizes resultados;
atacou uma villa occupada por napolitanos, pôl-os em fuga e fez-lhes
alguns prisioneiros.

Dois dos nossos que não quizeram render-se foram mortos e feitos em
pedaços.

A 9 teve-se aviso de que um corpo consideravel de napolitanos avançava
para Palestrina; e com effeito pelas duas horas da tarde, do alto da
montanha de S. Pedro que domina a cidade e que era occupado pela nossa
segunda companhia, viu-se avançar em boa ordem, pelas duas estradas que
se reunem á porta del Sole, a columna inimiga. Eram dois regimentos de
infanteria da guarda real, e um de cavallaria.

Garibaldi enviou diante d'elles em atiradores, duas companhias da sua
legião, uma da guarda nacional movel, e a quarta companhia bersaglieri.

Aquella occupava a ala esquerda da longa cadeia de montanhas que vem
expirar no valle.

Manara, da plataforma da porta, dominava a cavallo esta scena magnifica,
e por intervenção de uma trombeta indicava os movimentos que era mister
obrar.

Ter-se-hia julgado isto uma revista, pela tranquillidade com que estas
cousas se passavam, e pela maneira com que os movimentos respondiam aos
sons da trombeta.

Quando chegámos perto dos napolitanos, um vivo fogo começou, e os outros
corpos da expedição, formados em columna, se apresentaram fóra da porta.

O chefe inimigo quiz então estender em atiradores seus primeiros
pletões; mas viam-se os soldados horrorisados recusarem affastar-se uns
dos outros. Quanto a nós, avançámos sempre proseguindo o fogo. Então a
nossa extrema direita, commandada pelo capitão Rozat, torneou um muro
que a impedia de avançar e foi correr vivamente a estender-se sobre os
flancos do inimigo.

Os napolitanos oscillaram um instante; depois, rompendo suas fileiras
repentinamente, tomaram a fuga sem quasi descarregar as espingardas.
Então alguns homens do batalhão de Manara penetraram até ao meio de suas
fileiras, e sahiram d'ahi conduzindo cinco ou seis prisioneiros.

Da direita, ainda que marchando mais lentamente, as cousas procederam da
mesma fórma; a primeira companhia de _bersaglieri_ deixou aproximar os
napolitanos a um tiro de pistolla, e com uma carga viva e inesperada, e
um choque vigoroso á bayoneta, facilmente os poz em fuga, repellindo-os
successivamente de tres casas que occupavam, e sustentando com a maior
ordem uma carga de cavallaria que custou a vida a bom numero de
cavalleiros napolitanos.

Garibaldi esperava este momento: enviou de reforço um batalhão a Manara,
ordenando-lhe que carregasse sobre toda a linha á bayoneta.

Fulminados sobre o flanco pelos lombardos, repellidos em frente pelas
legiões e pelos exilados, os reaes tomaram a fuga rapida e completamente
deixando no campo tres canhões.

O combate durou tres horas, e foi conduzido a bom fim sem grande perda.
Os inimigos oppozeram tão fraca resistencia que nos maravilharam.

Se houvessemos tido cavallaria para a lançar em perseguição dos fugidos,
a sua perda teria sido consideravel.

Mas quando Garibaldi viu o inimigo retirar-se precipitadamente e os
nossos perseguil-os em desordem, temeu uma emboscada, e fez tocar a
retirada.

Tivemos doze mortos e vinte feridos, entre elles o bravo capitão
Ferrari, que recebeu uma bayonetada no pé.

A perda dos napolitanos foi de cem homens.

O resultado material, como se vê, era pouca cousa, mas o effeito moral
era grande.

Dois mil soldados de Garibaldi tinham posto em completa derrota seis mil
napolitanos.

Perto de vinte e quatro pobres diabos prisioneiros, quasi todos da
reserva, e por consequencia arrancados a suas familias e obrigados a
combater por uma causa que não era a sua, foram trazidos á presença de
Garibaldi. Trementes e de mãos juntas pediram-lhe a vida. Eram bellos
homens, bem vestidos, mas detestavelmente armados de espingardas de
pederneira, com sacos cheios de imagens de santos e santas, de reliquias
e de remedios.

Tinham-nas ao pescoço, nas algibeiras, por toda a parte. Disseram que o
rei estava em Albano com dois regimentos suissos, tres de cavallaria e
quatro baterias; esperavam-se outros reforços de Napoles.

Sob as ordens do general Zuechi tinham elles sido enviados para tomar
Palestrina e apoderar-se de Garibaldi, que lhes inspirava um terror que
ninguem podia imaginar.

Á noite acampamos fóra de Palestrina.

No dia seguinte avançámos para occupar os postos avançados, duas milhas
mais longe; as nossas patrulhas aventuraram-se até ás linhas inimigas,
que tinham os piquetes a quatro milhas de distancia.

Para não ficarmos ociosos faziamos manobrar os nossos soldados que desde
Solaro não tinham feito exercicio uma só vez. Era um bello e animador
espectaculo para a nossa causa republicana, vêr estes homens que a um
quarto de legua do inimigo, aprendiam o manejo das armas de que iam
servir-se contra elle, e que ao som da trombeta estudavam a escóla de
plutão e o fogo de atiradores.

Á tarde voltámos á cidade, mas foi para dar um novo assalto.

A 7 de maio, tinhamos chegado á meia noite debaixo de torrentes de
chuva. O batalhão Manara tinha recebido para alojamento um convento de
agostinhos; mas os monges não tinham querido abrir; e, fatigados e
molhadissimos os republicanos bateram debalde á porta durante uma hora e
soffrendo um vento glacial. Enfim, por muito grande que fosse a
paciencia dos _bersaglieri_ esgotou-se; fizeram vir os sapadores, e a
porta do convento foi arrombada.

Ainda que esta noite os soldados horrivelmente cançados, ficassem
furiosos por similhante acolhimento, ainda que o general dissesse
claramente, e não deixasse ignorar á sua gente, que fazia tanto a guerra
aos monges hostis á republica, como aos napolitanos, as exhortações de
Manara e de seus officiaes chegaram a acalmar os soldados e a impedir as
desordens que se podiam esperar em tal occasião. Deitamo-nos
tranquillamente sobre o chão dos corredores, e procuramos n'um curto
repouso força para supportar novas fadigas.

Por felicidade a fadiga que nos deram os napolitanos não foi grande.

Na noite da batalha os bersaglieri reganharam o seu convento, e de novo
o encontraram fechado. Foi preciso recorrer novamente aos sapadores para
arrombar as portas a golpes de machado.

Os irmãos d'esta vez haviam fugido. Não tinham podido crer que os
republicanos fossem tão pouco rancorosos, e temeram que a doçura que
tinhamos mostrado não fosse um laço que occultasse alguma sinistra
volta.

Tambem, fugindo os irmãos haviam levado comsigo as chaves das cellas.
Para obter roupas e objectos necessarios a um acampamento, por muito
modesto que elle fosse, foi mister forçar algumas portas. Por felicidade
os sapadores não estavam longe. Estas portas arrombadas, foi contagioso
o exemplo; em vez de se contentarem, como da primeira vez com o chão dos
corredores, os soldados quizeram ter, uns colxões, outros enxergões; os
chefes, cançados de moralisar, seguiram o mau exemplo e apoderaram-se
das cellas. Em menos de meia hora, foi cheio de alto a baixo; apenas
houve tempo de collocar sentinellas á egreja; aos carneiros e á
bibliotheca.

De resto, nada havia a tomar; os irmãos não tinham deixado senão grandes
moveis, dos quaes nenhum cabia n'um saco; mas bom numero de paisanos que
haviam excitado os nossos soldados a esta desordem, aproveitavam a
confusão, e, como formigas, se juntavam aos tres e aos quatro afim de
levarem os bocados com que um só não podia.

Muitos dos nossos, pouco religiosos, corriam por todo o convento felizes
por uma vez se poderem assimilhar-se aos monges. Um sahia de uma cella
com um largo chapeu dominicano na cabeça, outro passeava gravemente nos
corredores com um grande habito branco sobre o uniforme. Todos
appareceram á chamada com uma enorme tocha na mão, e durante a noite de
9 a 10, em honra da nossa victoria sobre os napolitanos, o convento foi
explendidamente illuminado.

A correspondencia dos pobres irmãos não foi mais respeitada que o resto,
e mais de uma carta que se abriu e leu em triumpho teria feito córar até
ás orelhas os castos fundadores da ordem.

A 10, parámos em Palestrina e acampamo-nos nos prados. Os napolitanos
pareciam ter perdido o gosto de nos atacar, e coroavam as collinas de
Albano e de Frascati aproximando-se pouco a pouco de Roma.

Garibaldi, que temia um assalto combinado dos napolitanos e francezes
poz-se a mesma tarde em marcha, para voltar sobre Roma; passámos em
silencio, e n'uma perfeita ordem, a duas milhas do campo inimigo, por
sendas quasi impraticaveis, sem que nenhum accidente perturbasse a
tranquillidade de uma marcha magnifica.

Emfim na alvorada de 12 chegámos a Roma tendo feito durante a noite
vinte e oito milhas sem pararmos um instante; tinhamos a maior
necessidade de repouso; muitos de entre nós julgando partir para uma
campanha de algumas horas sómente, não tinham trazido para maior
ligeireza, nem marmita, nem saco, nem utensilio algum.

Mas vindo a noite, em logar de descançarmos, fomos obrigados a retomar
as nossas espingardas; foi dado alarme na cidade, correndo o ruido de
que os francezes atacavam o Monte-Mario; sahimos precipitadamente pela
porta Angelica, trocámos alguns tiros com os francezes, e dormimos á
borda de um fosso com a mão sobre as armas.

                                                            _G. Medici._



                                  XVI

                          COMBATE DE VELLETRI


A partir d'este momento as notas deixadas por Garibaldi na occasião de
partir para a Sicilia, facilita-nos o podêl-o agora deixar relatar as
suas aventuras.

                                  ⁂

A 12 de maio a assembléa constituinte romana, á noticia da heroica
defeza de Bolonha, proclamou este decreto.

                                         Roma, 12 de maio de 1849.

             «A assembléa constituinte em nome de Deus e do
             povo.

             «Decreta:

                           ARTIGO UNICO

    «O heroico povo de Bolonha, bem mereceu da patria, e da
    republica, sendo o digno emulo de seu irmão o povo romano.»

No dia em que Bolonha cahia, o embaixador extraordinario da republica
franceza, Fernando de Lesseps entrava em Roma com Miguel Accursi,
enviado da republica romana em Paris.

O armisticio de que se tratava havia quinze dias, e contra o qual eu me
tinha pronunciado no dia 1 de maio, estava concluido.

O governo romano resolveu aproveitar-se d'estas treguas para se
desembaraçar do exercito napolitano; porque ainda que elle não fosse
para temer, é sempre mau ter sobre os hombros vinte mil homens e trinta
e seis bocas de fogo.

Engano-me, eram só trinta e tres porque tres tinhamos nós trazido da
Palestrina.

O governo julgou esta occasião favoravel para crear dois generaes de
divisão, um, de um coronel, e o outro, de um general de brigada; o
primeiro foi Roselli, eu o segundo.

Roselli foi nomeado general de expedição. Alguns amigos me aconselhavam
a não acceitar esta posição secundaria, para obedecer a um homem que,
ainda na vespera, era meu inferior.

Confesso porém que sempre me tem sido indifferentes estas questões de
amor proprio, se me tivessem dado, ainda mesmo como simples soldado, a
occasião de desembainhar a espada contra o inimigo do meu paiz, teria
servido como _bersaglieri_. Acceitei pois, com reconhecimento, o posto
de general de divisão.

No dia 16 de maio, á noite, todo o exercito da republica, isto é dez mil
homens e doze bocas de fogo sahiu dos muros de Roma, pela porta
San-Giovanni.

Entre estes dez mil homens haviam mil de cavallaria.

No caminho deu-se pela falta do corpo Manara designado tambem para fazer
parte da expedição.

Enviou-se um official do estado maior para saber a razão porque Manara,
que era sempre o primeiro a marchar contra o inimigo não apparecia.

Não tinha sido prevenido. Estava furioso, julgava que só elle tinha sido
desviado da expedição.

Passámos o Teverone pela estrada de Tivoli, ali costeamos á direita e
chegamos a Zagarola ás onze horas da manhã, depois de uma das marchas
mais custosas para a nossa gente. Apezar de não termos avançado muito,
tinhamos andado dezeseis horas. Isto provinha do grande numero de gente.
Havia uma poeira insupportavel. Além d'isto a estrada era tão estreita
em certas partes que tivemos de passar a um e um.

Quando chegamos a Zagarola não havia pão nem carne, a divisão napolitana
tinha comido tudo, e vinho pouco deixou.

O estado maior tinha-se esquecido de prever o caso.

Felizmente tinha levado comigo alguns bois, e a minha gente agarrou
outros ao laço; mataram-se, esquartejaram-se, assaram-se e comeram-se.

É verdade que quando me queixei d'esta falta de cuidado que esteve a
ponto de matar á fome a expedição, respondeu-se-me que temeram reunindo
viveres despertar o inimigo.

Perfeitamente!

Estivemos trinta horas pouco mais ou menos n'esta pequena villa, d'onde
sahimos sem pão como tinhamos entrado.

A ordem de marcha deu-se no dia 18 á uma hora da tarde, não partimos
porém senão ás seis horas. Estas paragens fatigam mais que marchas
forçadas.

Finalmente, ás seis horas puz-me á frente da brigada da vanguarda e
parti para Valmontone. Seguiam-me as outras brigadas. Tinha mandado
observar o maior silencio nas fileiras e grande vigilancia na frente e
nos flancos. Recebi aviso de que o exercito napolitano estava acampado
em Velletri com desenove a vinte mil homens entre os quaes haviam dois
regimentos de suissos e trinta bocas de fogo.

Dizia-se que o proprio rei de Napoles estava na cidade.

Effectivamente os realistas occupavam Velletri, Albano e Frascati, as
vanguardas estendiam-se até Fratocchi. Tinham o flanco esquerdo
protegido pelo mar e o direito apoiado pelos Apeninos e haviam occupado
Palestrina depois que eu a abandonei e dominavam d'este modo o valle
onde havia o unico caminho praticavel a um exercito que viesse atacal-os
de Roma.

Podiam pois oppor-nos uma séria resistencia e além d'isto levavam-nos
vantagem em posição, numero, bocas de fogo e cavallaria.

O feliz resultado porém da primeira empreza era uma promessa de sorte
para a segunda. Por outro lado as tropas do rei de Napoles estavam
completamente desmoralisadas e como se sabe, na guerra a força moral é
tudo.

Para obrigar o inimigo a fugir ou a combater, julgou-se que era
necessario apoderarmo-nos de repente do valle, occupar uma posição de
lado que ameaçasse as communicações do exercito napolitano com Napoles.
Monte-Fortino tinha sido escolhido para formar este ponto estrategico.
Com effeito, senhores d'este ponto, podiamos lançar-nos sobre Citerna e
fechar aos realistas o caminho da fronteira, apoderarmo-nos de Velletri,
se por acaso a abandonassem para nos fazer frente, ou finalmente
lançarmo-nos com toda a nossa força sobre o corpo mais fraco do inimigo,
se elle commettesse o erro de se dividir.

Ao anoitecer descobrimos um caminho muito estreito que conduz perto de
Valmontone; gastamos duas horas a percorrel-o. O batalhão Manara ajudado
d'um esquadrão de dragões e duas bocas de fogo foi encarregado de
proteger a vanguarda.

Chegamos ás dez horas, as trevas eram espessas e o sitio do acampamento
pessimo; fomos obrigados a ir buscar agua a uma milha de distancia.

No dia 18, continuamos a marcha com a mesma ligeireza; assim como na
vespera tinhamos encontrado Palestrina e Valmontone evacuadas pelo
inimigo achamos tambem Monte-Fortino livre, tão livre que era facil
disputar-nos.

Todo o exercito bourbonez retirava para Velletri.

No dia 19 de manhã deixei a posição de Monte-Fortino para marchar sobre
Velletri com a legião italiana, o terceiro batalhão do terceiro
regimento de infanteria romana e alguma cavallaria commandada pelo bravo
Marina, seriam ao todo quinhentos homens.

Tinha a meu lado Ugo Bassi, que sempre desarmado mas excellente
cavalleiro, servindo-me de ajudante d'ordens, me dizia sem cessar no
meio do fogo:

—General! por favor, mandai-me onde houver maior perigo, em logar de
enviar para ahi alguem de mais utilidade.

Chegado á vista de Velletri, enviei um destacamento com ordem de avançar
até aos muros da cidade, para que reconhecesse os logares, e, chamando o
inimigo, o obrigasse, se fosse possivel, a tomar a offensiva.

Eu não esperava, é verdade, com os meus quinhentos homens, bater os
vinte mil do rei de Napoles; mas tencionava, empenhado o combate,
attrahil-os a mim, e, em quanto os entretinha, dar tempo ao grosso do
nosso exercito para chegar e tomar parte no combate.

Nas alturas que flanqueam a estrada que conduz a Velletri, colloquei
metade da minha legião, duzentos ou trezentos homens no centro, a metade
do batalhão á direita, e os poucos soldados de cavallaria, commandados
por Marina, na estrada mesmo.

Guardei o resto da minha gente em segunda linha como reserva.

O inimigo, vendo o nosso pequeno numero não tardou a atacar-nos;
primeiro, um regimento de caçadores a pé sahiu dos muros, e,
espalhando-se, começou um fogo de atiradores sobre os nossos postos
avançados.

Segundo a ordem que tinham recebido os postos avançados pozeram-se em
fuga.

Os caçadores napolitanos foram então seguidos de alguns batalhões de
linha e d'um numeroso corpo de cavallaria.

O choque foi violento, ao principio. Chegados que foram a distancia de
meio tiro de espingarda da nossa gente, um fogo perfeitamente socegado e
bem dirigido os fez parar.

Havia meia hora que o fogo estava travado.

N'este momento, o inimigo lançou sobre a estrada dois esquadrões de
caçadores a cavallo; uma carga desesperada d'elles devia decidir a
victoria.

Puz-me então á frente dos meus cincoenta ou sessenta cavalleiros e
carregamos quinhentos homens.

Os napolitanos trazidos pelo impulso passaram-nos por cima. Eu fui
derrubado, e lançado a dez passos do meu cavallo; levantei-me e fiquei
no meio do combate, dando quanto podia ser para que me não dessem.

O meu cavallo seguira-me o exemplo: tinha-se levantado. Lancei-me sobre
elle, e fiz-me reconhecer dos nossos homens, que podiam julgar-me morto,
pondo o meu chapeu e agitando-o na ponta da minha espada. Eu era bem
reconhecido por ser o unico que trazia um ponche branco debroado de
vermelho.

Grandes gritos accolheram a minha resurreição.

No seu ardor, a cavallaria napolitana penetrou até á nossa reserva, em
quanto os batalhões de linha, a seguiam em columna cerrada. Perdeu-os o
seu ardor; pois tendo os flancos protegidos pelo regimento de caçadores
a pé, achando os nossos embuscados em todas as collinas da direita e da
esquerda, com a nossa reserva na frente, apresentaram-se como um alvo
aos tiros dos nossos soldados.

N'esta occasião mandei pedir reforço ao general em chefe
participando-lhe que a batalha estava, a meu ver, de boa face.

Responderam-me que não m'o podiam enviar, antes dos soldados terem
tomado a refeição.

Resolvi então fazer o que podesse com minhas proprias forças, por
desgraça sempre insufficientes nas circumstancias decisivas.

Fiz tocar a carregar sobre toda a linha; eramos mil e quinhentos contra
cinco mil.

No mesmo instante as nossas duas peças foram postas em bateria e
descarregaram; o fogo de atiradores redobrou, e meus quarenta ou
cincoenta lanceiros conduzidos por Marina, lançaram-se sobre tres ou
quatro mil homens de infanteria.

Entretanto Manara que estava a duas milhas de nós pouco mais ou menos,
ouvia nosso fogo e pedia ao general em chefe permissão de marchar
debaixo do fogo da artilheria.

Ao fim de uma hora foi lhe concedida.

Estes bravos mancebos chegaram a marche-marche pela grande estrada
debaixo do fogo inimigo. Quando attingiram a nossa retaguarda, esta
abriu-se para os deixar passar. Desfilaram ao som das cornetas e no meio
de um admiravel enthusiasmo. Á vista d'estes jovens, pequenos,
trigueiros e vigorosos; á vista de seus negros penachos fluctuantes, o
grito de _vivam os bersaglieri!_ sahiu de todas as bocas. Elles
responderam pelo grito de _viva Garibaldi!_ e entraram em linha.

N'este momento era repellido de posição em posição, e retirava-me
protegido pelos canhões da praça, de que a maior parte collocados á
direita da porta estavam apoiados no convento; duas das peças faziam
frente á embocadura da grande estrada, os outros atiravam para o flanco
esquerdo da nossa columna, onde os atiradores estavam espalhados; mas
visto a natureza do terreno, que offerecia á minha gente numerosos
abrigos de terra atraz dos quaes elles podiam esconder-se, ellas não lhe
fizeram grande damno.

Chegado apenas sobre o campo de batalha, Manara procurou-me com os
olhos. Bem depressa me reconheceu pelo meu ponche branco; metteu o
cavallo a galope para me alcançar; mas no meio do caminho foi suspenso
por um incidente que refiro aqui, porque pinta admiravelmente o espirito
dos nossos.

Passando diante da musica que tocava uma aria alegre, uma vintena dos
seus soldados não poderam resistir á influencia d'esta aria, e debaixo
da metralha e fusilaria dos napolitanos tinha-se posto a dançar, como se
estivessem n'um explendido baile.

No momento em que Manara, debaixo de uma saraivada de ballas, os olhava
rindo, uma balla de artilheria levou dois dos dançantes.

A este accidente fez-se uma breve pausa.

Mas Manara perguntou:

—Então, a musica?

A musica de novo tocou, e a dança recomeçou com mais ardor que até ali.

Por mim vendo chegar os bersaglieri tinha enviado Ugo Bassi para dizer a
Manara que viesse fallar-me.

A sua primeira palavra foi a perguntar se eu não estava ferido.

—Julgo, respondeu Ugo Bassi, que o general recebeu duas ballas, uma na
mão, outra no pé, mas como se não queixa, provavelmente as feridas não
são perigosas.

De feito, eu tinha recebido duas arranhaduras, de que só á noite tratei
quando não tinha outra cousa a fazer.

Manara contou-me a scena a que acabava de assistir.

—Por ventura com homens d'estes, me perguntou elle, não poderiamos
tentar levar Velletri de assalto?

Puz-me a rir. Conquistar com dois mil homens e duas peças, uma cidade
collocada como um ninho de ave no cimo de uma montanha elevada e
defendida por vinte mil homens e trinta peças de artilheria!

Mas era tal o espirito d'esta brava mocidade que nada via de impossivel.

Enviei novos mensageiros ao quartel general. Se tivesse ao menos cinco
mil homens teria tentado o assalto tal era o enthusiasmo dos meus e o
desanimo dos napolitanos.

Á direita da porta via-se uma especie de brecha na muralha; esta brecha
era tapada por ramagens e troncos, mas algumas ballas de artilheria a
teriam tornado praticavel; columnas de ataque sob a protecção de arvores
numerosas, semeadas nos flancos da colina; os sapadores de todos os
corpos destruindo os obstaculos teriam feito o resto.

Dois ataques simulados teriam protegido o ataque geral.

Em vez d'isto era mister contentarmo-nos em deixar os nossos
_bersaglieri_ divertirem-se a espingardear as sentinellas das fortalezas
em quanto que do convento dos capuchinhos dois regimentos de suissos
faziam sobre elles um fogo de artilheria horrivel.

Emfim o general em chefe decidiu-se a vir em meu auxilio com o exercito;
mas quando chegou tinha passado o momento favoravel. Como eu não
duvidava que o inimigo evacuasse a cidade durante a noite, tendo tido a
noticia de que o rei tinha já partido com seis mil homens, propuz enviar
um forte destacamento pelo lado da porta de Napoles e de passar sobre o
flanco inimigo no momento em que elle se retirasse em desordem; mas o
terror de nos enfraquecer impediu que fosse executado este plano.

Pela meia noite querendo saber onde devia conservar-me, ordenei a Manara
de enviar um official com quarenta homens de que elle confiasse, até ás
muralhas de Velletri, ou mesmo até Velletri sendo possivel.

Manara transmittiu a minha ordem ao tenente Emilio Dandolo, que com
quarenta homens avançou através da escuridão para o lado da cidade.

Dois paisanos que encontrou lhe asseguraram que a cidade estava
abandonada.

Dandolo e os seus avançaram então até á porta; nenhuma sentinella a
guardava.

Destruida pelo fogo dos nossos canhões, havia sido enbarricada. Os
bersaglieri escalaram a barricada, e entraram na cidade.

Estava completamente deserta. Dandolo fez alguns prisioneiros que se
haviam demorado, e por elles e pelos habitantes da cidade que elle
despertava, soube tudo que precisava, quero dizer, que apenas vinda a
noite os napolitanos tinham começado a retirar, mas com tal precipitação
e desordem que haviam deixado a maior parte de seus feridos.

Ao raiar do dia, caminhei em sua perseguição; mas foi-me impossivel
alcançal-os. Além d'isso quando me achava na grande estrada de Terracina
recebi ordem de me reunir á columna cuja metade voltava a Roma, em
quanto a outra era destinada a livrar Frosinone dos voluntarios de
Zucchi que a infestavam.

D'esta sorte o inimigo escapou-nos, e d'um combate que podia ser
decisivo resultou só uma simples vantagem.

Houve n'este dia quatro grandes faltas:

Não me enviar reforços quando os pedi.

Não se saber dar o assalto quando se me haviam reunido.

Não se saber impedir a retirada aos napolitanos.

Não se saber inquietar os fugitivos.



                                  XVII

                               3 DE JUNHO


Reentrei em Roma a 24 de maio no meio duma numerosa multidão que me
saudava com gritos de alegria.

Durante este tempo os austriacos ameaçavam Ancona; de Roma já havia
partido o primeiro corpo de quatro mil homens para ir em defeza das
legações.

Tratava-se de enviarmos segundo, mas antes de lhe fazer abandonar Roma,
o general Roselli julgou do seu dever, e para segurança de Roma,
escrever ao duque de Reggio a seguinte carta.

    «Cidadão general

    «A minha intima convicção é que o exercito da republica romana
    combaterá um dia ao lado da republica franceza para sustentar os
    mais sagrados direitos dos povos. Esta convicção me leva a
    fazer-vos propostas que espero acceiteis. Está assignado um
    tratado entre o governo e o ministro plenipotenciario de França,
    tratado que não recebeu a vossa approvação.

    «Não entro nos mysterios da politica, mas dirijo-me a vós na
    qualidade de general em chefe do exercito romano. Os austriacos
    estão em marcha; tentam concentrar suas forças em Foligno; d'ali
    apoiando a sua ala direita no territorio toscano, tem o designio
    de avançar pelo valle do Tibre e de operar pelos Abbruzos, a sua
    juncção com os napolitanos. Não creio que possaes ver com
    indifferença realisar-se tal plano.

    «Julgo dever communicar-vos as minhas supposições ácerca dos
    movimentos austriacos, sobre tudo no momento em que a vossa
    indecisa attitude favorecia nossas forças e póde dar um successo
    ao inimigo. Estas razões parecem-me poderosissimas para que vos
    peça um illimitado armisticio e a notificação das hostilidades
    quinze dias antes de as recomeçar.

    «General, julgo este armisticio necessario para salvar a minha
    patria, e peço-o em nome da honra do exercito e da republica
    franceza.

    «No caso em que os austriacos apresentassem as suas cabeças de
    columna em Civita-Vecchia, é sobre o exercito francez que,
    perante a historia, recahiria esta responsabilidade de nos ter
    forçado a dividir as nossas forças n'um momento em que ellas nos
    são tão preciosas, e de ter, obrando assim, assegurado o
    progresso aos inimigos da França.

    «Tenho a honra de vos pedir, general, uma prompta resposta,
    rogando-vos de receber a saudação fraternal.

                                                        «_Roselli._»

O general francez respondeu:

    «General,

    «As ordens do meu governo são positivas; prescrevem-me de entrar
    em Roma o mais breve possivel. Participei á authoridade romana o
    armisticio verbal que, sob instancias de Mr. de Lesseps, quiz
    conceder momentaneamente. Fiz prevenir por escripto os nossos
    postos avançados de que os dois exercitos estavam no direito de
    recomeçar as hostilidades.

    «Unicamente para dar aos vossos compatriotas, que pretenderem
    deixar Roma, e a pedido do chanceller da embaixada de França, a
    possibilidade de o fazer facilmente, transfiro o ataque da praça
    até segunda feira de manhã.

    «Recebei general os protestos da minha alta consideração.

    «O general em chefe do corpo de exercito do Mediterraneo.

                                       «_Oudinot, duque de Reggio._»

Segundo esta affirmativa, o ataque devia começar apenas a 4 de junho.

É verdade que um author francez, Folard, disse nos seus commentarios
sobre Polybo:

«Um general que adormece sobre a fé de um tratado acorda trahido.»

A 3 de junho pelas tres horas acordei ao troar do canhão.

Estava aquartelado em via Carroze n° 59, com dois amigos; Orrigoni, de
que já disse alguma cousa, e Daverio, de que tambem tive occasião de
fallar, o mesmo que em Velletri, commandava a companhia das creanças.

Ambos a este ruido inesperado, saltaram de seus leitos ao mesmo tempo
que eu.

Daverio estava muito doente por isso lhe ordenei que ficasse em casa.

Quanto a Orrigoni não tinha razão alguma de o impedir de vir comigo.

Montei a cavallo, deixando-lhe a liberdade de me ir encontrar onde e
quando quizesse, e corri a galope para a porta de São-Pancracio.

Achei tudo em fogo. Eis o que tinha acontecido:

Os nossos postos avançados da villa Pamphili consistiam em duas
companhias de bersaglieri boloneses e duzentos homens do 6.°
regimento.

No momento em que soava meia noite e em que por conseguinte, se entrava
no dia 3 de junho, uma columna franceza se deslisou no meio da
obscuridade, para a villa Pamphili.

—Quem vive? gritou a sentinella, advertida pelo ruido dos passos.

—Viva a Italia, respondeu uma voz.

A sentinella julgou estar com compatriotas, deixou-os aproximar e foi
desarmada.

A columna lançou-se na villa Pamphili.

Tudo quanto encontrou foi ferido, morto ou aprisionado.

Alguns homens saltaram pelas janellas para o jardim, e do jardim
precipitaram-se dos muros abaixo.

Os mais apressados retiraram-se atraz do convento São Pancracio,
gritando: «Ás armas!»

Os outros correram na direcção das villas Valentini e Corsini.

Como a villa Pamphili, foram surprehendidas, e cederam, não sem haver
resistido.

Os gritos dos que se haviam refugiado atraz de São-Pancracio, os tiros
atirados pelos defensores da villa Corsini e da villa Valentini haviam
despertado os artilheiros.

No momento em que viram a villa Corsini e Valentini occupadas pelos
francezes, dirigiram seu fogo para estas duas casas de campo.

O troar do canhão acordou o tambor e os sinos.

Demos uma idéa do campo de batalha onde se vae jogar o destino d'este
terrivel combate.

Da porta de São-Pancracio parte uma estrada que conduz directamente ao
Vascello; esta estrada tem proximamente duzentos e cincoenta passos de
extensão.

Depois divide-se o caminho.

A principal ramificação desce á direita, alongando os jardins da villa
Corsini, rodeados de muros, e vae juntar-se á grande estrada de
Civita-Vecchia.

O ramo secundario, deixa de ser um caminho publico para se tornar uma
rua de jardim, que conduz directamente á villa Corsini, a distancia de
trezentos metros. Esta rua é flanqueada de cada lado por altos e
espessos muros de myrtos.

Um terceiro ramal volve á esquerda, e costeia do lado opposto a alta
muralha do jardim Corsini.

A villa Vascello é uma grande e macissa fabrica de tres andares, rodeada
de muros e jardins. A cincoenta passos d'ella encontra-se uma pequena
casa da qual se pode fazer fogo contra as janellas da villa Corsini.

Sobre o caminho á esquerda a cem passos do logar onde se separa da
estrada ha duas casinhas, uma atraz do proprio jardim da villa Corsini,
outra vinte passos antes.

A villa Corsini collocada sobre uma eminencia, domina todos os
arredores; a posição ahi é fortissima, attendendo a que se se ataca
simplesmente e sem fazer preparativos, é-se forçado a passar pela
gradaria que está na extremidade do jardim, e a soffrer antes de chegar
á villa, o fogo concentrado do inimigo, abrigado pelos silvados, vasos,
parapeitos, estatuas e pela propria casa, feita no ponto em que os muros
do jardim veem juntar-se no angulo agudo, não deixando entre elles outra
abertura mais que a da porta.

Este terreno é por toda a parte muito accidentado e além da villa
Corsini, apresenta muitos pontos favoraveis ao inimigo, que, deitado nas
suas rugas ou abrigado pela ramagem póde collocar reservas ao abrigo do
fogo dos assaltantes, supposto que é forçado a deixar a casa.

Quando cheguei á porta de São-Pancracio, a villa Pamphili, a villa
Corsini, e a villa Valentini estavam tomadas.

O Vascello apenas estava em nosso poder.

Ora a villa Corsini tomada, era para nós uma enorme perda; porque
estando nós senhores d'ella os francezes não podiam descobrir seus
parallelos.

Era mister retomal-a a todo o custo; era para Roma uma questão de vida
ou de morte.

Os fogos armaram-se entre os artilheiros das fortalezas, os homens do
Vascello e os francezes das villas Corsini e Valentini.

Mas não era fogo de fuzilaria ou artilheria do que haviamos mister, era
necessario um assalto, assalto terrivel mas victorioso, que nos
entregasse a villa Corsini.

Lancei-me no meio da estrada, inquietando-me pouco se o meu ponche
branco e meu chapeu de plumas iam servir de alvo aos atiradores
francezes, e pela voz e gesto chamei todos os que estavam dispostos a
seguir-me.

Officiaes e soldados pareciam sahir debaixo da terra.

N'um instante tinha junto a mim Nino Bixio, meu official de ordenança;
Daverio que eu julgava, segundo a minha ordem, em via Carroze; Marina
commandante ordinario dos meus lanceiros; emfim Sacchi e Marocchetti,
meus antigos companheiros de guerra de Montevideo. Reuniram os despojos
dos _bersaglieri_ boloneses, pozeram-se á frente da legião italiana, e
foram os primeiros a avançar levando apoz si os mais.

Nada poude suster a sua furia: a villa Corsini foi retomada; mas antes
d'ahi chegar, ficaram tantos homens na estrada que foi preciso
atravessar, que os que n'ella penetraram não poderam resistir ás
numerosas columnas que vieram assaltal-os.

Foram obrigados a recuar.

Mas durante esta carga outros haviam chegado e a elles se juntaram; os
chefes furiosos da sua derrota pediam para marchar de novo. Marina que
tinha recebido uma bala no braço, levava-o ensanguentado gritando:
«Ávante!» Para secundar estes valentes soldados entreguei a Vascello os
homens que poude; tocou de novo a carga e a villa foi retomada.

Um quarto de hora depois foi reperdida, custando-nos um sangue precioso.

Marina, como disse, estava ferido no braço; Nino Bixio recebêra uma bala
na ilharga; Daverio fôra morto.

No momento em que exigi de Marina que fosse vedar o sangue, aonde eu
faria conduzir Bixio; Manara que tinha corrido do campo Vaccino, apesar
das ordens contradictorias, que tinha recebido, estava ao pé de mim.

—Faz sahir a tua gente, lhe disse eu; bem vês que é preciso retomar esta
casita.

A sua primeira companhia, commandada pelo capitão Ferrari, antigo
ajudante de campo do general Durando, era já posta em atiradores fora da
porta de São-Pancracio. Ferrari era um bravo que tinha feito comnosco a
dupla campanha de Palestrina e de Velletri; em Palestrina tinha sido
ferido de uma bayonetada na perna, mas estava curado.

Manara fez tocar á chamada; Ferrari arranjou a sua gente e veiu receber
as ordens do coronel.

Fez armar bayonetas, tocar á carga e avançou.

No momento em que chegou á grade, quero dizer a tresentos metros do
«cosino» uma saraivada de balas começou a chover sobre elle e os seus.

Não deixou todavia de avançar sobre a villa, que lançava chammas como um
vulcão, quando o seu tenente Mangiagalli puchando pela manga da tunica
lhe disse:

—Capitão, não vêdes que somos apenas dois?

Ferrari pela vez primeira olhou para traz; vinte oito dos seus homens
entre oitenta estavam deitados junto a si mortos ou feridos.

Os outros batiam em retirada.

Mangiagalli e elle fizeram o mesmo.

Manara ficou furioso ao vêr que á sua vista o resto da sua companhia
tivesse abandonado seus dois officiaes.

Chamou a segunda companhia commandada por Henrique Dandolo, nobre e rico
milanez de raça veneziana como o indica seu nome ducal. Reuniu-lhe os
despojos da primeira e gritou:—Ávante! lombardos! Trata-se de morrer ou
tomar a villa. Pensae que Garibaldi vos contempla.

Ferrari fez signal que tinha uma cousa a dizer.

—Falla, disse Manara.

—General, me disse Ferrari, o que vou dizer-vos não é na esperança de
diminuir o perigo, mas na de aproveitar. Conheço as localidades, saio
d'ellas, e vêdes que hesitei mais em sahir que em entrar.

Fiz-lhe com a fronte um signal de assentimento.

—Pois bem: eis o que proponho: em vez de seguir a rua e atacar de
frente, nós nos esconderemos, a companhia de Dandolo á esquerda e a
minha á direita, atraz dos silvados de myrtos. Uma pedra lançada por mim
á companhia de Dandolo lhe significará que a minha gente está prompta;
uma outra lançada de seu lado, será sua resposta; então as nossas oito
trombetas tocarão a um tempo e lançar-nos-hemos ao assalto do pé do
terrasso.

—Fazei o que quizerdes, respondi eu, mas retomae a casa.

Ferrari partiu á frente da sua companhia, e Dandolo á frente da sua.

Fil-os seguir pelo capitão Hoffstetter e por cincoenta estudantes,
encarregados de occupar a casa da esquerda da que já fallei, e que foi
mais tarde conhecida pelo nome de _casa queimada_.

Ao fim de dez minutos ouvi as trombetas e quasi immediatamente a
fuzilaria.

Eis o que se passava:

As duas companhias, protegidas pelos silvados e pelas vinhas,
effectivamente tinham penetrado, como Ferrari o esperava, cerca de
quarenta passos no terraço, sem serem vistas nem presentidas.

Chegadas ahi, deram-se os signaes, as cornetas resoaram, e os meus
bravos _bersaglieri_ arremeçaram-se ao assalto.

Porém, do terraço, da sala do primeiro andar, da escada circular que a
elle conduzia, finalmente de todas as janellas sahia um fogo espantoso.

Dandolo cahira, porque uma bala lhe atravessara o corpo; o tenente Sylva
estava ferido ao pé do capitão Ferrari; o alferes Mancini tinha
recebido, quasi ao mesmo tempo, duas balas, uma na perna, outra no
braço.

E apezar d'isto, os _bersaglieri_ commandados pelo capitão Ferrari, pois
que Dandolo estava morto, tinham continuado, por um supremo esforço, a
caminhar para a frente; tinham escalado o terraço e repellido os
francezes até á escada circular da villa.

Ahi porém todos os seus esforços foram infructiferos; tinham os
francezes na frente e nos flancos; disparavam sobre elles quasi á queima
roupa, e cada bala derribava um homem.

Via-os levantarem-se e tornar a cahir; comprehendi que morreriam até ao
ultimo sem resultado algum.

Mandei tocar a retirar.

Tinha dois mil homens, os francezes tinham vinte mil, eu tomava o
quartel Corsini com uma companhia, elles retomavam-no com um regimento.

É porque, bem como eu, os francezes comprehendiam perfeitamente a
importancia da posição.

Os meus _bersaglieri_ voltaram, tinham deixado quarenta mortos no jardim
da villa; quasi todos estavam feridos.

Era preciso esperar novas forças.

Mandei Orrigoni e Ugo Bassi percorrer a cidade, com ordem de me trazerem
tudo que encontrassem; queria, para descargo de consciencia, tentar um
ultimo, mas supremo esforço.

Abriguei os meus homens por detraz do Vascello.

Uma hora depois, pouco mais ou menos, chegaram-me, misturadamente,
companhias de linha, estudantes, _douaniers_, o resto dos _bersaglieri_
lombardos, e fragmentos de diversos corpos.

No meio d'elles vinha Marina a cavallo, que me trazia uns vinte
lanceiros.

Tinha ido curar-se e voltava a tomar parte na acção.

Sahi então do Vascello com um pequeno grupo de dragões; immediatamente
começaram os gritos de «Viva a Italia! Viva a republica romana!» o
canhão troou, e as balas, passando por cima de nossas cabeças,
annunciaram aos francezes um novo attaque; e, a um tempo, sem ordem,
misturados todos, Marina á frente dos seus lanceiros _bersaglieri_, eu á
frente de todos, lançamo-nos sobre a inexpugnavel villa.

Chegados á porta não poderam todos entrar; os que ficavam de fóra
espalharam-se em atiradores nos dois flancos do quartel; outros
escalaram os muros e entraram nos jardins da villa; outros finalmente,
adeantaram-se até á villa Valentini, tomaram-na e fizeram alguns
prisioneiros.

Vi então passar-se ahi uma scena incrivel: Marina, seguido dos seus
lanceiros, compunha a frente da columna. O intrepido cavalleiro galgou o
terraço e, chegado que foi á escada, cravou as esporas na barriga do
cavallo, fez-lhe saltar os degraus a galope, tão bem que por um momento
appareceu, no patamar que conduzia ao salão, similhante a uma estatua
equestre.

Esta apotheose não durou mais que um minuto; uma descarga á queima roupa
deitou por terra o cavalleiro; o cavallo cahio sobre elle ferido por
nove ballas.

Manara vinha na rectaguarda, á frente d'uma carga de baioneta, a que
nada resistio; um momento, foi nossa a Villa-Corsini.

O momento foi pequeno, mas sublime. Os francezes, reunindo todas as
reservas, attacaram todos a um tempo; antes mesmo de eu poder reparar a
desordem inseparavel da victoria, o combate começou então mais
encarniçado, mais sanguinolento, mais mortal: vi tornar a passar junto
de mim, impellido por esses dois irresistiveis poderes da guerra, o
ferro e o fogo, os mesmos que tinha visto passar um momento antes.
Levavam os feridos, entre elles o bravo capitão Rozat.

—Tenho a minha conta, me disse elle, quando passou por diante de mim.

Mostrou-me o peito ensanguentado.

Tenho visto bastantes combates terriveis, vi os do Rio Grande, da
Boyada, do Salto Santo-Antonio, nada porém vi egual á matança da villa
Corsini.

Fui o ultimo a sahir, com o ponche crivado de balas, mas sem uma unica
ferida.

Dez minutos depois, entravamos no Vascello, na linha de casas que nos
pertenciam, e o fogo recomeçava de todas as janellas sobre a villa
Corsini.

Nada mais havia a fazer.

Comtudo, á noite, uns cem homens commandados por Emilio Dandolo, irmão
do que tinha morrido, e por Goffredo Mameli, poeta genovez de grande
esperança, vieram pedir-me para fazer um ultimo esforço.

—Tentae, lhes disse eu, pobres rapazes; é talvez Deus que vos inspira.

Partiram e voltaram, depois de terem perdido metade dos seus.

Emilio Dandolo tinha a coxa atravessada; Mameli estava ferido n'uma
perna.

Tinhamos soffrido perdas consideraveis. A legião italiana, entre mortos
e feridos, tinha quinhentos homens fóra de combate.

Os _bersaglieri_, que eram seiscentos tiveram cento e cincoenta mortos.

Todas as demais perdas foram na mesma proporção. Perdi mil homens,
d'entre quatro mil que formavam a minha divisão, entre os quaes houveram
cem officiaes mortos.

Á noite, Bertani, no seu relatorio, contou-me cento e oitenta officiaes
feridos, tanto na Villa Corsini como na porta do Povo; só _os
bersaglieri_ tiveram dois officiaes mortos e onze feridos.

Os officiaes mortos foram: o coronel Daverio, o coronel Masina, o
coronel Pollini, o major Ramorino, o ajudante Peralta, o tenente Bonnet,
o tenente Cavalleri, Emmanuel, o alferes Grani, o capitão Searini, o
capitão Davio, o alferes Sarete, e o tenente Cazzaniga.

Houveram, n'este dia, rasgos admiraveis de coragem e dedicação.

Na ultima carga, Ferrari e Mangiagalli, que não poderam entrar comnosco,
lançaram-se seguidos de alguns homens sobre a villa Valentini.

Ahi, oppoz-se-lhes uma encarniçada resistencia; combateram de degrau em
degrau, de quarto em quarto, não com as espingardas—tinham-se tornado
inuteis,—mas com o sabre. O de Mangiagalli quebrou-se ao meio; mas
continuava a brandir o pedaço que lhe restava com tanto encarniçamento,
elle de um lado e Ferrari do outro, que se apoderaram da villa
Valentini.

O furriel Monfrini, de dezoito annos de edade, tivera a mão furada por
uma bayoneta; foi curar-se, e momentos depois, voltou a tomar o seu
logar.

—Que vens tu aqui fazer? gritou-lhe Manara. Ferido d'essa maneira, não
serves para nada.

—Perdão, meu coronel, respondeu Monfrini, _faço numero_.

Este bravo rapaz foi morto.

O tenente Bronzelli, sabendo que a sua ordenança, a quem era muito
affeiçoado, tinha sido morta na villa Corsini, tomou quatro homens
resolutos, entrou de noite na villa e trouxe o cadaver do seu amigo, que
religiosamente enterrou.

Um soldado milanez, de Alla Songa, viu cahir o cabo Fiorani, mortalmente
ferido; no momento em que eramos repellidos. Não queria deixar o seu
corpo em poder dos francezes. No fim de vinte passos uma bala deu-lhe em
cheio, e cahiu morto ao pé do moribundo.

O ferimento de Emilio Dandolo entristeceu todo o exercito. Disse que
tinha vindo com Mameli pedir-me para dar uma ultima carga, e que eu lhes
tinha concedido a licença.

Dandolo entrou na villa Corsini mas só tratou de seu irmão; julgava-o
sómente ferido ou prisioneiro. No meio do fogo, gritou aos seus
companheiros: «Veem meu irmão?» e, não se lembrando de si, aproximou-se
dos feridos e mortos, interrogando uns, e examinando os outros.

A este tempo, recebeu uma bala na coxa e cahiu.

Os seus companheiros levaram-no. Conduzido á ambulancia, ahi foi curado;
pediu immediatamente um pau para se suster e, coxeando, foi á procura do
irmão. Entrou na casa onde estava Ferrari; ahi tambem estava o cadaver
de Henrique Dandolo. Ferrari sentindo-se demasiadamente fraco para
assistir ao espectaculo que se ia preparar, cobriu o morto com um panno.

Emilio entrou, interrogou, insistiu; todos responderam que Henrique
Dandolo tinha sido ferido; que, provavelmente, estava prisioneiro;
nenhum porém lhe quiz dizer que estava morto.

Finalmente, como era preciso que, cedo ou tarde, Emilio Dandolo soubesse
a fatal nova, Manara, á força de pedidos, decidiu-se a dizer-lh'a. No
momento em que o joven tenente passava por diante de uma das casinhas
tomadas pelos francezes, Manara fez-lhe signal para entrar.

Todos que na camara estavam se retiraram.

—Não procures teu irmão por mais tempo, meu pobre amigo, lhe disse
Manara tomando-lhe a mão; de hoje em diante serei eu teu irmão.

Emilio cahiu immediatamente no chão, fulminado mais ainda pela terrivel
noticia que enfraquecido pela perda de sangue e pela dôr da ferida.

Duas jovens encontraram-se de repente com o pae, que conduziam morto;
uma d'ellas cahiu desmaiada sobre o cadaver e levantou-se completamente
doida.

Uma mãe, vendo morrer seu filho, não pôde derramar uma unica lagrima;
sómente, tres dias depois, estava morta.

Pelo contrario, um pae cujo nome occultarei para o não denunciar á ira
dos padres, tendo o filho mais velho a morrer, mandou-me o segundo, de
edade de treze annos, dizendo:

—Ensinae-lhe a vingar seu irmão.

O velho Horacio, seu avô, não o teria feito melhor.



                                 XVIII

                                O CERCO


Temendo no dia seguinte um assalto encarreguei Giacomo Medici da defensa
de toda a nossa linha avançada, que se compunha do Vascello e de tres ou
quatro barracas retomadas por nós aos francezes.

Depois passei a noite a organisar os nossos meios de defeza.

Não se tratava já de salvar Roma. Desde o ensejo em que um exercito de
quarenta mil homens, fazendo rodar trinta e seis bocas de fogo de sitio,
consegue fazer os seus preparativos de ataque, a tomada de uma cidade é
mera questão de tempo.

N'um ou outro dia ella cahirá; a esperança unica que lhe resta é de
cahir gloriosamente.

Estabeleci na mesma noite o meu quartel general no casino Savorelli, que
elevando-se acima das fortalezas, domina a porta de São-Pancracio e
deixa vêr tudo o que se passa no Vascello, na villa Corsini, e na villa
Valentini.

É verdade que eu estava a meio tiro de espingarda dos atiradores
francezes. Mas quem se não aventurou nem perdeu nem ganhou.

Encarreguei um bravo carreteiro de me procurar trabalhadores e de se
occupar de todas as pequenas doçuras de que os meus podiam ter
necessidade durante a fadiga, copos de vinho e gotas de aguardente, etc.
Era um bravo patriota que mais tarde pagou caro o seu patriotismo;
Ciceravacchio era o seu sobrenome, seu nome, Angelo Brunetto.

Nunca quiz receber um soldo sequer por seus trabalhos e fornecimentos.

Ha homens n'este mundo em cujas almas Deus põe dobrada porção de
perfectibilidade. Em dias tranquillos trabalham para o allivio e
instrucção da humanidade, e esforçam-se a facilitar a marcha do
progresso; então chamam-se Gutemberg, Vicente de Paula, Galileo, Vico,
Rousseau, Volta, Filangieri, e Francklin. Em tempos de calamidade,
veem-nos repentinamente surgir, guiar as massas e expôr-se com firmeza
ao choque das desfortunas. Então o reconhecimento do mundo os designa
sob os nomes de Arnoldo de Mescia, de Savonarole, de Cola di Riezzo, de
Masaniello, de José de Lesi, e de Ciceravecchio.

Estes homens nascem sempre pobres na classe popular, n'esta classe que
nas épocas desastrosas é sempre a privilegiada no soffrimento; mas, que
gemendo, medita; sonhando, espera; soffrendo, trabalha.

Angelo Brunetto, como disse, era um d'estes entes; nada lhe faltou para
a consagração da missão recebida pelo martyrio.

Durante todo o cerco de Roma foi a bandeira viva do povo. Applaudido,
procurado, acolhido por seus companheiros como uma authoridade, era elle
o verdadeiro _primus inter pares_; mas apezar de seus triumphos, não
ficou menos modesto, vivendo como sempre vivêra; franco, leal, honrado,
devia sua importancia ao trabalho, a affeição de seus concidadãos á sua
affavel probidade, e a estima do proprio Papa, ao qual prestou grandes
serviços no dia das desordens, á sua caridade pelos poderosos, uma das
mais raras virtudes dos fracos quando são chamados a occupar o lugar dos
fortes.

Tinha nascido em Roma em 1802 no bairro de Rijutta. Como era forte,
gordo e rubicundo na infancia, sua mãe lhe poz o cognome de
_Ciceravecchio_, o que no calão do povo romano quer dizer florescente,
cheio de saude.

Crescendo, este vigor promettido pela creança desenvolveu-se no homem.

Era o titulo que Brunetto reproduzia mais frequentemente. Tinha de
quando o conheci em 1849, uma barba loura que começava a embraquecer,
cabellos compridos e amellados, pescoço curto e cheio, peito largo,
estatura alta, porte firme. Nunca o desgraçado que entrou em sua casa
com a mão supplicante sahiu com ella vasia; mas tambem, nunca se viu seu
nome inscripto n'essas listas de subscripção destinadas mais a
glorificar os subscriptores que a alliviar os desgraçados.

Nas innundações do Tibre, tão frequentes em Roma, era sempre elle o
primeiro a fazer-se barqueiro para levar viveres e palavras de
consolação a seus compatriotas cercados pelas ondas. Este bravo
adorava-me. Quando tinha precisão de trabalhadores para os engenheiros,
bastava só que eu lhe fizesse um signal: corria logo com duzentos,
trezentos, quatrocentos homens; dei-lhe, sobre o ministerio, bonds, dos
quaes não utilisou um só. Á minha saida de Roma, seguiu-me com seus dois
filhos, tomou com Ugo Bassi, terra em Nessola, depois encaminhou-se com
elles n'uma direcção opposta á minha.

Em occasião opportuna contarei o seu duplo martyrio como pae e como
cidadão.

Tenho algumas vezes fallado no capellão Ugo Bassi. Consagremos-lhe
tambem algumas paginas. E vão ellas a proposito na tarde e noite de uma
batalha que devia tão rude emprego á sua doce piedade.

Para os nossos feridos Ugo Bassi, joven, bello, eloquente, era
verdadeiramente o anjo da morte.

Tinha ao mesmo tempo a alegria de uma creança, a fé d'um martyr, a
sciencia de um sabio, a coragem de um heroe.

Nascera em Cento, de pae Bolonez, mas como André Clenier, de uma mãe
grega. Seu nome era José, mas fazendo-se barnabita, tinha escolhido o de
Ugo, sem duvida em lembrança do nosso poeta patriota Ugo Foscolo.

Era pois de raça latina e hellenica ao mesmo tempo, as duas raças mais
bellas e intelligentes do mundo. Tinha os cabellos castanhos, e
naturalmente amellados, olhos brilhantes como o sol, ora serenos, ora
fulgurantes, boca risonha, pescoço alvo e longo, membros ageis e
robustos, coração de fogo para a gloria e para o perigo, instinctos bons
e honrosos, espirito elevado, cálido, rapido, feito ao mesmo tempo para
as piedosas contemplações do anachoreta e para os irresistiveis ardores
do apostolado.

Seus estudos foram, não apenas um labor, mas uma conquista. Apoderou-se
rapidamente da litteratura, da sciencia das artes, e como espelho de
toda a sciencia, sabia de cór o poema inteiro de Dante. Seis mezes lhe
foram sufficientes para aprender grego; quanto ao latim, fallava-o como
a sua lingua materna, e fazia versos no genero dos de Horacio; escrevia
correctamente com a penna o inglez e o francez, e quando os
acontecimentos o levaram ao meio dos combates, trazia comsigo Byron e
Shakspeare. O tragico inglez e o poeta que morreu em Missolonghi
escutavam as patrioticas pulsações do seu coração.

Além d'isto era pintor e musico. Da mesma sorte que eu havia acreditado
em Pio IX, Ugo n'elle crêra.

Pio IX succedia a Gregorio XVI, Pio IX dava a amnistia, Pio IX promettia
reformas, era adorado por todos os italianos, admirado pelos
estrangeiros, e imitado pelos demais principes da Italia.

A 25 de março de 1848, a cruzada partiu de Roma; os auguros pareciam
annunciar toda a unidade da Italia.

A sua carreira foi um triumpho perpetuo. Dos campos mais longiquos da
Italia accorria a dura raça latina a averiguar e levar a feliz nova da
resurreição da Italia, e de que o seu povo com a fronte molhada de suor
e de sangue ia emfim ser livre.

Ugo Bassi estava em Ancona, onde prégava a quaresma. A primeira legião
de voluntarios chegava ahi; Ugo arengou sobre a praça, e tomando
argumento do desgraçado estado em que via suas armas e seus trajes,
idealisou com a sua eloquente palavra a sua miseria, de que os nossos
inimigos faziam escarneo.

Dois dias depois juntava-se á cruzada e partia com ella como segundo
capellão dos voluntarios romanos.

Bassi como Gavazzi, seu amigo, era a providencia do exercito. Não só a
sua eloquencia impellia os italianos ao amor da Italia e á dedicação por
ella, mas ainda tirava dos mais rebeldes cofres numerosas e ricas
offerendas. Em Bolonha fez milagres; os ricos davam dinheiro aos
punhados, as mulheres suas joias, seus brincos e anneis.

Uma joven não tendo nada a dar cortou a sua linda trança e l'ha
offereceu.

Elle havia assistido a todos os nossos combates e dedicações em Cornuda,
Treviso e Veneza.

Irmã de caridade, apostolo, soldado intrepido, foi sobretudo no combate
de Treviso, onde morreu o seu amigo e compatriota, o general Guidotti,
que mostrou todas as virtudes de seu coração. Uma balla lhe mutilou a
mão, o braço esquerdo, e lhe abriu uma longa ferida no peito. Ainda
pallido e soffrente d'este cruel ferimento, viram-o no combate de
Mestre, com um estandarte na mão, ser o primeiro a subir e sem armas, ao
assalto do palacio Bianchini.

Bassi acompanhou a legião italiana em todas as peregrinações. A sua
palavra potente fascinava as massas, e se Deus tivesse marcado um termo
ás desgraças da Italia, a voz de Bassi como a de S. Bernardo, teria
arrastrado as povoações aos campos de batalha. Se a Italia um dia se
unificar, que Deus lhe dê a palavra de um Ugo Bassi! Quando Roma cahiu,
quando me não ficou senão o exilio, a fome e a miseria, Ugo Bassi, não
hesitou um instante em acompanhar-me. Recebi-o na minha barca em
Cesenatia, e partilhou comigo o ultimo sorriso de despedida!

N'esta barca, que eu proprio guiei, estavam Anita, Ugo Bassi,
Ciceravecchio, e seus dois filhos. Todos morreram, e de que maneira! Oh!
sagrados mortos, eu referirei o vosso martyrio!

O nome de Ugo Bassi será a palavra de ordem dos italianos no dia do seu
libertamento.

Mas deixei-me levar muito longe do meu fim.

Voltemos ao cerco de Roma.

Na noite de 4 de junho, em quanto que nossos adversarios disfarçavam um
attaque na porta de São-Pancracio, foi aberto um fosso a tresentos
metros da praça, e foram elevadas duas batterias de arco, uma cem metros
atraz do parallelo para fazer face á bateria romana de Vestaccio de
Santo-Aleixo. O parallelo apoiava-se á direita em alturas inatacaveis, á
esquerda na villa Pamphili.

Desde a alvorada, havia feito chamar Manara, pedindo-lhe de resignar o
seu titulo de coronel dos bersaglieri para acceitar o grau de chefe do
meu estado maior. Era pedir-lhe um grande sacrificio, eu bem o sabia;
mas Manara era mais habil que qualquer outro para estas funcções. Era de
um valor exemplar, d'uma rara tranquilidade de espirito no meio do
perigo, d'um golpe de vista seguro no combate; tinha feito dos seus
bersaglieri a tropa mais bem disciplinada do exercito. Fallava quatro
linguas; emfim o seu aspecto tinha esta dignidade que convem aos graus
elevados. Acceitou.

O resto do meu estado maior compunha-se dos majores Cenni, e Bueno, dos
capitães Caroni, e Davio, de dois francezes, excellentes officiaes,
chamados Pilhes e Laviron; do capitão Ceccadi, que durante seus serviços
em Hespanha e Africa tinha merecido a cruz de Hespanha, e a da Legião de
honra; de Silco e de Stagnetti, que na Palestrina, conduzia emigrados;
do tenente de cavallaria Gili, do correio Giannuzzi, e finalmente d'um
membro da assembléa, o capitão Cessi.

Manara organisou logo o estado maior no interior; todos queriam ficar
comigo na villa Savorelli; porque avistavamos o campo, e nada ahi se
passava que não vissemos.

É verdade que a distração não era um perigo. Como se sabia que a villa
Savorelli era o meu quartel general, ballas de artilharia, de fuzilaria
e de obuz, tudo me offertava o inimigo. Era sobretudo quando subia para
melhor observar ao pequeno mirante que dominava a casa, que a coisa se
tornava curiosa.

Era uma verdadeira saraivada de ballas, e nunca vi tempestade com eguaes
silvos. A casa sacudida pelas balas, tremia como n'um terremoto. Muitas
vezes para dar trabalho aos artilheiros, e aos atiradores francezes,
fazia com que me servissem o almoço no mirante, que não tinha outra
salvaguarda mais que um pequeno parapeito de madeira. Então tinha uma
musica que me dispensava de mandar tocar a do regimento.

Isto foi ainda tanto peior quando não sei que má galanteria do estado
maior o levou a arvorar no pára raios que sobresahia ao pequeno terrasso
uma bandeira onde estavam escriptas em grandes lettras estas palavras:

«Bom dia, Cardeal Oudinot!»

No quarto ou quinto dia em que eu dava esta distracção aos artilheiros e
atiradores francezes, o general Avezzana veiu ver-me, e não achando as
janellas do salão a uma altura sufficiente, perguntou-me se não tinha um
logar mais elevado de onde podesse contemplar a planicie.

Conduzi-o ao meu mirante.

Sem duvida os francezes quizeram honral-o; porque apenas ahi chegamos
começou a muzica a tocar.

O general olhou tranquilamente para as guardas avançadas, depois desceu
sem dizer nada.

No dia seguinte encontrei o meu mirante intrincheirado com saccos cheios
de terra. Perguntei quem havia dado a ordem.

—O ministro da guerra, me responderam.

Não havia meio de reagir contra uma ordem do ministro da guerra.

Esta raiva dos atiradores francezes de crivar o meu pobre quartel
general de metralha de toda a sorte, offerecia por vezes scenas
divertidas.

Um dia, era a 6 ou 7 de julho, o meu amigo Vecchi que era ao mesmo tempo
actor e historiador do drama que representavamos, veiu ver-me á hora do
almoço; e como eu tinha convidados havia feito trazer de Roma um jantar
completo n'uma caixa de folha de ferro. Vi que o aspecto dos nossos
petiscos tentava Vecchi. Offereci-lhe por consequencia para partilhar
comnosco da refeição. O general Avezzana e Constantino Rita estavam
comnosco. Assentamo-nos no chão do jardim. As ballas sacudiam a casa de
maneira que, para jantar sobre uma meza seria mister para a segurar um
d'estes apparelhos que em similhante caso se usão nos navios em dia de
temporal. Mesmo quando o jantar hia em meio, cahiu uma bomba a um metro
de nós. Tudo desaccampou; Vecchi ia fazer como os mais, mas eu retive-o
pelo pulso—era membro da Assembléa.

—Padre conscripto, lhe disse rindo, fica na tua cerulea cadeira!

A bomba estalou como, eu acreditava, do lado opposto áquelle em que nós
estavamos; fômos porém recompensados, porque ficamos cobertos de poeira;
nós e o jantar.

Vecchi tinha feito bem em approveitar o nosso banquete, porque nem
sempre tinhamos que jantar. Algumas vezes os moços do _restaurant_
espantados pelo ruido dos morteiros francezes, pela fusilaria dos
caçadores de Vincennes, e sobretudo pelos cadaveres que encontravam no
caminho, paravam não ousando ir mais além; então o primeiro que
apparecia apoderava-se do nosso festim e tragava-o. Um dia um dos meus
soldados chamado Casanova, fez-me ás tres horas da manhã um _macaroni_.
Havia quarenta e oito horas que eu era sustentado por uma chavena de
caffé com leite e duas ou tres botijas de cerveja.

Além d'isto, era quasi sempre a Vecchi que aconteciam aventuras no
genero da que acabo de referir. Um outro dia, como elle tinha sua
narração a fazer-me, porque havia dois dias que estava de guarda
avançada na vinha Costabili, chamavam assim uma das barracas que
tinhamos nas proximidades da villa Corsini, encontrou-me jantando, á
mesa. D'esta vez os senhores atiradores tinham tido a bondade de me
deixar algum tempo socegado. Ante mim estava um manjar dos mais
appetitosos. Dei logar a Vecchi a meu lado e convidei-o a partilhar do
jantar.

Mas, quando ia assentar-se, Manara o suspendeu.

—Não façaes tal, Vecchi, lhe disse elle. Ha tres dias consecutivos que
os officiaes convidados pelo general são mortos sem ter tempo de fazer a
digestão.

E com effeito, Davio, Rozat e Panizzi, acabavam de morrer nas
circumstancias assignaladas por Manara. Mas o fumo do manjar foi mais
poderoso que o aviso de Manara.

—Bem, disse Vecchi, isso quadra perfeitamente com uma predicção que me
fizeram.

—Qual, perguntou Manara.

—Na minha infancia uma bohemia tirou-me o horoscopo. Predisse-me que eu
morreria em Roma na edade de trinta e seis annos muito rico. Em 1838
n'uma viagem que fiz a pé de Napoles a Salerno, persegui n'um campo de
algodão uma cigana de dezoito annos cujos olhos eu queria absolutamente
beijar. Ella defendeu-se com a sua faca; oppuz á arma offensiva uma
defensiva; era um bello escudo (moeda) novo. Recebendo o escudo
predisse-me, examinando-me a mão, que eu morreria em Roma, na edade de
trinta e seis annos muito rico. Estou no trigesimo setimo anno; e sem
ser muito rico, sou-o sufficientemente para um homem que vae morrer. Mas
sou fatalista como um mahometano. O que está escripto está escripto.
Dê-me o manjar, general.

Rimos da historia de Vecchi, mas Manara guardava o seu serio dizendo:

—É o mesmo, Vecchi, eu só me tranquillisarei depois de findo o dia.

Depois, virando-se para mim:

—Por Deus general, não o mandeis hoje a parte alguma.

Isto effectuou-se assim; Vecchi estava horrivelmente fatigado por ter
velado as duas precedentes noites, e depois do jantar, pediu-me para se
retirar e ir repousar um pouco.

—Deita-te no meu leito, se queres, disse Manara, embora elle fallasse
serio ou proseguisse a galanteria. Em nome de Deus, não quero que saias!

Vecchi deitou-se no leito de Manara.

Uma hora depois vi que os officiaes francezes collocavam saccos cheios
de terra no fosso aberto em frente do nosso bastião. Procurei ao redor
de mim um official para dirigir contra elles o fogo de uma duzia de
atiradores.

Não sei onde tinha enviado todos, que me achava só.

Pensei no pobre Vecchi, que dormia com os punhos cerrados. Tinha dó de o
despertar, mas as balas faziam uma ceifa horrivel. Puchei-o pela perna.
Abriu os olhos.

—Vamos, lhe disse eu, ha vinte e quatro horas que dormes, a predicção de
Manara não se deve temer. Toma uma duzia dos melhores atiradores, e
acaricia-me as costas d'esses gentis-homens.

Vecchi que é muito bravo, não esperou que lhe gritassem aos ouvidos.
Tomou doze bersaglieri amadores, e foi embuscar-se com elles atraz de
uma barricada cheia de saccos de terra que um tenente da ordenança
chamado Pozzio elevava com a ajuda dos sapadores. D'ali começou sobre os
francezes um fogo tão mortifero, que elles responderam por balas de
artilheria, ás dos bersaglieri.

Meia hora depois vieram dizer-me:

—Sabei, general, que mataram o pobre Vecchi.

Soffri uma grande dôr. Eu era causa da sua morte, e reprehendi-me de o
haver feito. Mas ao fim de uma hora, com grande alegria minha vi-o
voltar.

—Ah! parabens, lhe disse eu, deixa-me abraçar-te, julgava-te morto.

—Estava só enterrado, me respondeu elle.

—Como?

Então contou-me que uma bala havia partido um dos saccos de terra, que
se havia espalhado sobre elle, que no mesmo momento este sacco
despejando-se tinha feito perder o equilibrio aos outros, os quaes
haviam cahido em numero de dez ou doze sobre elle e o haviam
litteralmente escondido.

Mas tinha succedido uma cousa mais pittoresca que a morte de Vecchi. A
mesma bala que o havia enterrado batêra contra a muralha, e indo de
recochete tinha despedaçado pelos rins um joven soldado. O pobre soldado
collocado sobre uma paviola tinha cruzado as mãos sobre o peito, elevado
os olhos ao ceu e exalado o ultimo suspiro.

Iam leval-o para a ambulancia, quando um official se precipitara sobre o
cadaver cobrindo-o de beijos.

Este official era Pozzio. O joven soldado era Colomba Antonielli, sua
mulher que o tinha seguido a Velletri e tinha combatido a seu lado a 3
de junho.

Isto recordou-me a minha pobre Annita que tambem estava tão tranquilla
no meio do fogo, e que a bem ou a mal eu havia deixado em Rieti.

Estava gravida e em nome do filho que trazia, havia-a decidido a
separar-se de mim.

A 7 houve treguas dos dois lados; era o dia corpo de Deus.

A 9 commandei uma grande sortida para interromper os trabalhos avançados
dos francezes, que se prolongavam até ao segundo bastião da esquerda.

Para esta funcção foram chamados os _douaniers_ e um batalhão do 5.°
regimento.

Os bersaglieri n'este momento faziam o serviço das barracas, á esquerda
do Visellia, e guardavam os bastiões.

O capitão Rozat, o mesmo que eu tinha visto levar da villa Corsini e que
ao passar me dissera: «General, já tenho a minha conta!» o capitão
Rozat, digo, apenas havia recebido uma bala morta, que lhe parara n'uma
costella. Ainda que em consciencia a contusão fosse rude bastante e o
obrigasse a ficar de cama, havia-se levantado de madrugada, e n'este dia
quiz absolutamente tomar o commando da quarta companhia destinada ao
segundo bastião.

Vendo que a guarda do fosso maltratava os assaltantes, Rozat tomou uma
carabina, e como era excellente atirador, despediu quinze tiros a metade
dos quaes aproveitaram.

Os seus soldados carregavam, elle atirava.

A sua certeza de pontaria despertou a rivalidade dos caçadores de Africa
que começaram, trocar-lhe tiro por tiro.

Uma primeira bala lhe arrebatou o chapeu; mas elle tomando-o de novo o
atirou ao ar gritando:

—Viva a Italia!

N'este momento, porém, uma bala lhe entrou pela boca e sahiu pela nuca,
abafando-lhe o grito.

No fim de duas horas de agonia expirou.

No dia 10 de junho, recebi aviso do general Roselli de que eu devia
tomar o commando de uma grande sortida, que se devia compôr de metade do
exercito romano.

Devia operar-se pela porta Cavallegieri, e tinha por fim retomar ou a
villa Pamphili ou a villa Valentini.

Em virtude d'isto, o ministro da guerra, Avezzana, tirou-me o commando
da linha São-Pancracio, e com a legião italiana e o regimento de
bersaglieri, marchei para a praça do Vaticano, onde devia completar-se
pelos regimentos Pasi e Mari e a legião polonesa o corpo destinado a
esta operação.

Passei a cavallo á frente de cada corpo, chamei os commandantes a
conferencia, e communiquei-lhes o fim da tentativa e a maneira pela qual
eu comprehendia o ataque.

Fiz em seguida passar a palavra de ordem, distribuir munições,
preparando tudo para a hora designada, em quanto que os soldados com os
olhos fixos sobre a lua, a apopavam pela lentidão com que fazia o seu
giro.

Para evitar um d'estes erros nocturnos tão communs n'estas sortes de
expedição, onde, confundindo os amigos com os inimigos, se ferem uns aos
outros, ordenei aos meus soldados de vestir suas camisas sobre o
uniforme. Foi uma manobra que excitou muito a alegria dos soldados, por
causa do estado em que alguns tinham o vestuario interno de que eu fazia
o externo.

Ás dez horas da noite, abriu-se a porta e a legião polonesa, commandada
por Hoffstetter que deixou um excellente jornal do cerco de Roma, sahiu
constituindo a guarda avançada; vinha em seguida a legião italiana, á
frente da qual ia o coronel Manara. Esta era seguida dos regimentos de
bersaglieri, Passi e Masi.

Masi commandava a retaguarda.

Apenas cheguei ao campo reconheci ter feito uma grande asneira mandando
vestir a camisa sobre os uniformes. Os nossos homens eram visiveis como
em pleno dia; bastaria elles andarem cem passos para os francezes
julgarem ser atacados por um exercito de phantasmas.

Mandei tirar as camisas. É desnecessario dizer que nenhum soldado se deu
ao trabalho de as tornar a pôr no logar de onde as havia tirado.

Cavalgava sobre o flanco da legião italiana, quando alguns soldados que
levavam uma escada, passando por uma villa quizeram assegurar-se se ella
effectivamente estava abandonada como parecia. Alçaram a escada contra
uma das janellas do primeiro andar. O regimento parou para vêr o
resultado da inquerição, deixando a vanguarda proseguir o caminho.

Cinco ou seis homens subiram a escada.

Repentinamente, um degrau se quebra sob os pés do que estava mais em
cima, este cahe sobre o segundo, o segundo sobre o terceiro, e todos com
um motim admiravel cahem em terra.

Na queda dispararam-se duas espingardas.

A vanguarda commandada por Hoffstetter e por Sacchi, dois dos meus mais
bravos officiaes, julga-se surprehendida pelos francezes que iam
surprehender; e enchendo-se de um terror panico, rompe por traz de
Hoffstetter e Sacchi que ficam isolados com uma vintena de homens, e vem
sobre nós a correr desesperadamente, destruindo com o choque tudo o que
encontra ante si. Manara tenta suspendêl-os, mas inutilmente. Eu corro
ao meio d'elles, e firo á direita e á esquerda com o meu chicote de
gaucho. Nada os detem, e julgo que no mesmo passo os meus heroes teriam
entrado em Roma, se os bersaglieri á frente dos quaes estavam dois
chefes de batalhão e o capitão Ferrari, não tivessem cruzado bayonetas
aos fugitivos.

Depois de todo este barulho, não se podia suppôr que os francezes não
estivessem a postos, e era mister renunciar á empreza.

Quanto a mim estava cançado de bater n'esta canalha, e volvi dizendo a
Manara:

—Caro amigo errámos em não pôr os bravos bersaglieri na vanguarda.

Com effeito, eram homens maravilhosos os bersaglieris, do que Manara
devia com justiça ter orgulho. Quando lhe pedia um destacamento de seus
soldados, costumava dizer:

—Vamos, quarenta homens de boa vontade para uma expedição em que um
quarto morrerá e o outro ficará ferido.

E apesar do programma todo o regimento se apresentava, de fórma tal, que
para não excitar ciumes era mister tiral-os á sorte.

A 12, ao meio dia, um batalhão do regimento da União trabalhava em
executar uma aproximação á esquerda da via Vitellia, quando os francezes
tentaram perturbar-lhe o trabalho. Immediatamente os majores Lanzi e
Panizi fizeram tomar armas aos trabalhadores, ao corpo da guarda, e com
uma incrivel temeridade lançavam-se sobre o parapeito da muralha
franceza. Foram acolhidos por um fogo terrivel. Pedro Lanzi poz-se á
frente de seus bolonezes; mas n'um instante teve a mesma sorte que o seu
companheiro, e cahiu ferido no braço e no peito. Entretanto os outros
conduzidos pelo official Meloni, conservavam ainda o terreno, impotentes
para proseguir o ataque, mas gritando com todas as suas forças: «Viva a
Italia!» e dando assim coragem a seus companheiros. O regimento da União
combateu n'este dia com um valor admiravel: para não perder tempo a
carregar, feriam ora com a bayoneta, ora com a coronha das espingardas.
Outros, como os Ajax e os Diomedes da _Iliada_, arrojavam pedras aos
seus adversarios.

A exasperação era tal que o capitão bolonez Vern, que tinha muitas
cruzes ao peito, e entre estas a da Legião de Honra ganha em Africa, em
pé sobre a barricada, batia com a palma da mão no peito e gritava:

—Aqui, aqui, atirae aqui sobre a cruz da Legião de Honra!

Uma balla o feriu na cabeça.

—Mais abaixo, gritava elle, mais abaixo, maldictos!

Segunda balla lhe acertou; levaram-n'o para fóra do combate. Volveu, e
depois foi morrer na Grecia.

Assisti do meu mirante a este combate. Ainda que pouco prodigo de
elogios—os que me conhecem me farão justiça—julguei dever fazer delle
uma descripção ao governo.

A 14 de maio, pela manhã, pelo menos assim o julgo,—escrevo sem
documentos á vista e posso enganar-me nas datas—almoçámos na villa
Spada, n'uma camara do terceiro andar, com Sacchi, Bueno e Corcelli;
estavamos todos em mangas de camisa; eu, um pouco taciturno, porque
acabava de condemnar á morte um dos nossos officiaes, um napolitano, que
tomado de terror na noite passada tinha abandonado o seu posto, quando
ouvimos passos apressados no corredor. Abriu-se a porta, e dou um grito:
era Annita que vinha juntar-se a mim, conduzida por Orrigoni.

Os meus companheiros reconhecendo minha mulher, vestiram os uniformes e
deixaram-nos.

—Sabeis em que ella se tem divertido vindo da via Corrici aqui, general?
perguntou-me Orrigoni.

—Não.

—A parar ao longo de S. Pedro in Montorio para ver a bateria franceza.
Olhae, vêde a poeira que nos cobre a ambos: é a que as ballas produziam
batendo sobre a muralha. E quando eu lhe dizia «Vinde, senhora, vinde! é
inutil fazermo-nos matar aqui!» respondia-me: «Como achaes, meu charo,
que os francezes arranjam as nossas egrejas?»

Chara Annita! apertei-a contra meu coração. Parecia-me que agora ia tudo
marchar á medida de meus desejos.

O meu bom anjo volvera a meu lado.

Tive pesar de não poder conceder a Annita o primeiro pedido que me fez,
e que era o perdão do official italiano; mas era preciso um exemplo. Não
podia recompensar Medici por sua admiravel conducta no Vascello, mas
devia dar punição ao fraco pela sua fraqueza. Foi fusilado.



                                  XIX

                               A SURPRESA


A 13 de junho os francezes tinham começado um bombardeamento terrivel.
Sete baterias vomitando incessantemente fogo, batiam em brecha a face
direita do terceiro bastião da esquerda, a cortina e a face esquerda do
segundo bastião. As outras occupavam-se particularmente da villa Spada e
da villa Savorelli, que ameaçava a cada instante cahir-nos em cima, de
sorte que com grande pesar meu, vi-me a 20 forçado a transportar o meu
quartel general para o palacio Corsini.

Era impossivel que eu ahi ficasse: estava muito affastado das muralhas.

É verdade que julgava poder estar tranquillo.

Atacado por todos os lados, todos os dias Medici, que nós chamavamos o
infatigavel, repellia os ataques e conservava o Vascello e as suas
barracas.

Eu não saberei dizer em seu elogio, senão que não sei como elle poude
tanto.

A 20 de junho havia tres brechas praticaveis, apezar de tudo o que
Manara e eu haviamos feito para nos oppôr aos effeitos dos projectis.

Afóra isto fazia do assalto um divertimento. Os adversarios que tinhamos
em frente eram dignos de nós. Já lhes haviamos mostrado que os italianos
sabiam bater-se. Esperava ainda mostrar-lhes o que era uma lucta á faca
e ao punhal.

Na noite de 21 o segundo batalhão da União estava de guarda ao bastião
da esquerda e á defensa da brecha, assim como duas companhias do 1.°
regimento, que deviam ser trocadas. Entretanto prolongaram o seu serviço
até ao amanhecer, para melhor defensa do terceiro bastião á esquerda.

A primeira e a quinta companhia dos bersaglieri estavam ao serviço no
Vascello; a sexta e a setima, de guarda aos approches da esquerda, fóra
da porta São-Pancracio, de onde se estendiam nossas sentinellas, sobre a
direita, até aos muros do casino e a poucos passos da parallela
franceza.

Este serviço era horrivelmente perigoso. Apenas se fazia de noite, e um
pouco antes de amanhecer, todos os postos eram retirados e a guarda de
noite reentrava nos muros.

O major Calvandro tinha a vigilancia exterior d'esta linha; o coronel
Rossi o serviço de ronda interior.

Depois de ter disposto todos os postos avançados, o major estava
occupado a dar suas instrucções aos capitães Stambio e Morandoli quando
pelas onze horas da noite, se ouviu para o lado dos bastiões n.{os} 2 e
3 um certo ruido egual ao de cousa que se quebra.

Alguns tiros seguiram este ruido, e tudo reentrou na noite e no
silencio.

Que acontecêra?

Que os francezes se haviam apresentado repentinamente ante a brecha, não
como um inimigo que sobe ao assalto, mas como soldados que despertam uma
sentinella.

De onde sahiram elles? por onde tinham vindo? que caminho haviam
seguido? Eis o que foi sempre impossivel saber-se.

Muitos suppozeram uma traição.

A sentinella interrogada respondeu que os francezes tinham sahido
debaixo da terra, e lhe tinham ordenado de fugir.

Na mesma noite, apezar de uma energica resistencia, o bastião n° 7 e a
cortina que o unia ao bastião n° 6 cahiu depois de um combate
sangrento, nas mãos dos francezes.

Era justamente no dia precedente que eu havia transportado o meu quartel
general da villa Savorelli ao palacio Corsini. Quasi immediatamente ao
successo fui d'elle prevenido pelo ajudante Delai, do regimento da
União.

Confesso que foi grande a minha surpreza, e que não fui dos ultimos a
attribuir o facto a uma traição.

Seguido de Manara e do capitão Hoffstetter, cheguei aos postos
justamente no momento em que os bersaglieri, sempre promptos e álerta,
estavam reunidos na rua que conduz a São-Pancracio.

A legião italiana, seguiu-me a marche-marche; e logo atraz vinham duas
cohortes do coronel Sacchi.

Este enviou logo uma companhia a reconhecer os logares; chegada ao
segundo bastião foi constrangida a retirar-se para a casa Gallicelli,
visto o numero excessivo dos francezes.

A terrivel nova já estava espalhada pela cidade; e o triumvirato
prevenido d'ella fez tocar a rebate. A este ruido cada casa pareceu
repellir seus habitantes; n'um instante encheram-se as ruas de gente.

O general em chefe Roselli, o ministro da guerra, todo o estado maior e
Marini correram ao Janiculo.

O povo em armas rodeiava-nos e pedia para repellir os francezes das
muralhas.

O general Roselli e o ministro da guerra eram d'este parecer; mas eu
declarei-me contra.

Temia a confusão que poria nas minhas linhas esta multidão, a
irregularidade dos movimentos, os panicos nocturnos tão naturaes em
gente não habituada ao fogo, e mesmo entre os já habituados, como vimos
na noite de 10.

Pedi pois positivamente que se esperasse a manhã.

De manhã vêr-se-hia a que inimigo era mister fazer face, fosse elle á
traição.

Vindo o dia, toda a minha divisão estava prompta, reforçada pelos
regimentos que o general Roselli poz á minha disposição.

A companhia dos estudantes lombardos que faziam parte da legião Medici
estava na vanguarda.

A propria legião Medici recebêra ordem de se juntar a nós.

Os canhões das nossas baterias voltados para os bastiões occupados,
ribombavam ao mesmo tempo de São Pedro in Montorio, do bastião n° 8 e
de Santo Aleixo.

Os estudantes lombardos marcharam na frente ao assalto. Ainda que
fulminados pelo fogo dos francezes, precipitaram-se á bayoneta sobre a
guarda principal e sobre os trabalhadores, que forçaram a concentrar-se
no casino Barberini.

Os bravos mancebos estavam já no terrapleno do casino; mas eu acabava de
saber com que forças tinhamos a combater. Vi que um segundo 3 de junho
ia roubar-me metade d'estes homens que eu amava como filhos. Não tinha
esperança alguma de affastar os francezes da sua posição; ia portanto
ordenar uma carnificina inutil.

Roma estava perdida, mas era perdida depois de uma defensa esplendida e
maravilhosa. A queda de Roma depois de um cerco tal era o triumpho da
democracia na Europa.

Depois restava-me a idéa de que eu conservava quatro ou cinco mil
defensores dedicados que me conheciam, que eu conhecia e que
corresponderiam á minha primeira chamada.[3]

  [3] A campanha de 1859 e a expedição da Sicilia provam que
  Garibaldi tinha razão.

Dei a ordem de retirada, promettendo para as cinco horas da tarde um
outro assalto, que não contava dar se não como o primeiro.

Os estudantes haviam sido admiraveis. Citarei apenas um exemplo.

Um pintor, o milanez Juduno, foi retirado da arena ferido por vinte e
sete bayonetadas.

Bertani salvou-o, e hoje gosa uma saude admiravel.

Para mim, pois, tudo estava perdido, pelo menos provisoriamente, não
desde o momento em que os francezes estavam senhores das nossas brechas,
mas desde o instante em que o partido que sustentava a republica romana
na constituinte franceza fôra vencido.

Suppondo que sacrificando um milhar de bravos, eu tinha repellido os
francezes das suas posições das villas Corsini e Valentina; como no 3 de
junho elles teriam retomado, á força de tropas frescas, todas as
posições d'onde eu os repellia.

E aqui não tinha eu as mesmas razões de me obstinar.

A villa Corsini em nosso poder impedia os trabalhos de approche.

Mas uma vez executados os trabalhos de approche, uma vez abertas as
brechas, quem podia impedir a tomada de Roma?

Ninguem.

Antes da noticia da fuga de Ledru-Rollin e de seus amigos para
Inglaterra, cada dia em que eu prolongava a existencia de Roma era um
dia de esperança.

Depois d'esta nova, a resistencia era uma desesperação inutil.

Ora, eu julguei que os romanos tinham feito muitos prodigios em face do
mundo para não ter necessidade de recorrer á desesperação.

Os poderes coalligados tinham encerrado a republica romana, isto é a
democracia da Peninsula nas velhas muralhas d'Aurelio.

Nada mais tinhamos a fazer do que romper o circulo e levar, como
Scipião, a guerra a Carthago.

A nossa Carthago era Napoles.

É ali que nos encontraremos um dia face a face, espero-o, o despotismo e
eu.

Deus approxime este dia.



                                   XX

                                  FIM


Estavamos, é verdade surprehendidos, mas não vencidos.

A duzentos passos atraz das muralhas eleva-se o antigo recinto do
Aurelio. Ordenei que o fortificassem o melhor possivel. Tinha posto de
parte a idéa de um assalto, mas queria defender o terreno passo a passo.

Uma bateria de sete peças foi collocada no bastião n° 5, e posta, por
nossos trabalhos, a cuberto do fogo dos francezes.

Começou a funccionar na manhã de 23, e secundada pela bateria de
Santo-Aleixo e a de São Pedro in Montorio, cruzou de tal fórma seus
fogos sobre a brecha que os francezes foram obrigados a abandonar os
seus trabalhos. O fim da engenharia franceza era estabelecer sobre a
cortina 6 e 7 uma bateria de canhões, apenas estivesse senhor da brecha.
O designio era impedir este estabelecimento.

Cobri os incriveis exforços dos francezes e a nossa opposição obstinada.
Na noite de 23 estabeleceram elles a sua bateria. Na manhã de 24
esmagados pela nossa artilharia foram obrigados a fechar as suas
setteiras. Pensaram então em elevar duas novas baterias sobre os
bastiões 6 e 7, d'onde podiam extinguir a bateria de S. Pedro in
Montorio defendida pela minha legião.

Esperando, o general Oudinot, para mostrar, como o havia dito em seus
boletins o culto que tributava á cidade, mormente desde 24, fazia lançar
bombas sobre todos os bairros. Era sobre tudo durante a noite que elle
empregava este meio de terror. Muitas cahiram no bairro Transteverino,
muitas no Capitolio, algumas sobre o Quirinal, sobre a praça de
Hespanha, e no Corso. Uma d'estas bombas cahiu sobre o templo que cobre
o Hercules de Canova; mas a cupola resistiu. Uma outra estalou no
palacio Spada, e damnificou a famosa pintura da _Aurora_ de Guido Reni.
Uma outra, mais impia ainda quebrou o capitel d'uma columna do
maravilhoso templosinho da fortuna viril, obra prima respeitada pelos
seculos.

O triumvirato offereceu ás familias populares, cujas casas se achavam
destruidas, um asylo no palacio Corsini.

O animo do povo romano n'estes dias de provação foi digno dos antigos
tempos. Em quanto que á noite perseguido pela saraiva dos projectís que
despedaçava os telhados de suas casas, as mães fugiam levando seus
filhos apertados contra o peito, em quanto que os ares atroavam de
gritos e lamentações, nem uma só voz fallava em se render.

No meio de todos estes alaridos um só grito mofador se elevava quando
alguma balla de artilharia ou algum obuz destruia uma parede de casa, e
era:

—Benção do Papa!

A certesa maravilhosa das nossas peças durante os dias 25, 26 e 27 de
junho, fez callar as baterias elevadas pelos francezes sobre a cortina e
os bastiões occupados. Mas duas baterias francezas, uma collocada no
bastião n° 6 e outra fóra dos muros, abriram o fogo contra as nossas
baterias de Santo Aleixo. Além d'isto duas outras baterias collocadas,
uma sobre a cortina, outra sobre o bastião n° 7, abriram tambem fogo
contra a nossa bateria de São Pedro in Montorio.

Uma quinta bateria de brecha, collocada ao pé do bastião n° 7, e por
consequencia a coberto do nosso fogo, descarregou sobre o flanco do
bastião n° 8. Uma sexta bateria posta entre a egreja de São-Pancracio,
batia o bastião n° 8, e o meu quartel general, na villa Savorelli. Uma
setima, emfim, ante a villa Corsini, ribombou ao mesmo tempo contra a
porta São-Pancracio, contra a villa Savorelli, e contra a muralha
Aureliana.

Nunca vi egual tempestade de fogo, egual chuva de metralha.

Os nossos pobres canhões estavam soffucados.

E todavia, digo apenas isto em elogio de Medici, o Vascello e as
barracas estavam ainda occupadas.

O cerco do Vascello só por si merecia uma historia.

Durante a tarde de 28, as baterias francezas pareceram descançar um
instante e retomar alento. Mas no dia 29 de novo começaram a atirar com
redobrada furia.

Roma estava cheia de feridos. O dia 27 de abril tinha sido terrivel, as
nossas perdas eram quasi eguaes ás de 3 de junho. As ruas estavam
juncadas de homens mutilados. Mal os trabalhadores tinham a pá ou a
enxada na mão, logo eram feitos pedaços ou mutilados pelas ballas.

Todos os nossos artilheiros, reparae bem, todos, haviam sido mortos
sobre seus canhões. O serviço da artilharia era feito pelos soldados de
linha.

Toda a guarda nacional estava em armas. Havia, cousa admiravel, uma
reserva composta de feridos, que todos ensanguentados faziam serviço. E
durante este tempo, notavel contraste, silenciosa e impassivel a
Assembléa, permanecia no Capitolio deliberando debaixo das ballas de
fuzilaria e artilharia.

Em quanto tivemos peças sobre seus eixos, respondemos ao inimigo.

Mas a 29 á noite foi desmontada a ultima.

Extinguiu-se o nosso fogo.

A brecha feita no bastião era praticavel.

O muro da porta São-Pancracio e o bastião n.° 9 desmoronavam-se.

A noite de 29 desceu egual a um lençol sobre Roma.

Para impedir a reparação das nossas brechas a artilharia franceza
ribombou de noute:

Foi uma noite horrivel. A tempestade do ceu misturava-se á da terra. O
trovão troava; o raio cruzava-se com as bombas, o raio cahia em tres ou
quatro partes como para sagrar a cidade.

Apesar da festa de São-Pedro, os dois exercitos haviam continuado o seu
duelo de morte.

Vindo a noite como se esperava um ataque nas trevas, toda a cidade
inclusivè a grande cupula do Vaticano, foi illuminada.

E demais a mais era de uso em Roma, fazel-o na noite de São Pedro.

Aquelle que durante esta noite houvesse fixado a vista sobre a cidade
eterna teria visto um d'estes espectaculos que o homem não contempla
senão uma vez no decurso dos seculos.

A seus pés teria visto estender-se um grande valle cheio de egrejas e
palacios, dividido em dois pelas aguas do Tibre, que parecia um
Phlégéton; á esquerda um monte, o Capitolio, sobre cuja torre fluctuava
ao vento a bandeira da republica; á direita o transumpto sombrio do
Monte Mario, onde fluctuavam ao contrario unidas as bandeiras dos
francezes e do papa, ao fundo a cupola de Miguel-Angelo, alevantando-se
no meio das nuvens toda coroada de luz; emfim, como painel ao quadro, o
Janiculo em toda a linha de São-Pancracio, tambem illuminada, mas pelo
fusilar dos canhões e dos mosquetes.

Depois ao lado d'isto alguma coisa mais que o choque da materia: a lucta
do bom e do mau principe, do Senhor e de Satanaz, d'Arimano e de
Oromaze; a lucta da soberania do povo contra o direito divino, da
liberdade contra o despotismo, da religião de Christo contra a religião
dos papas.

Á meia noute o ceu se aclarou, o trovão e os canhões se calaram, e o
silencio succedeu ao infernal mugido;—silencio durante o qual os
francezes se approximavam cada vez mais das muralhas, e se apoderavam da
ultima brecha feita no bastião n.° 8.

Ás duas horas da manhã, ouviram-se tres tiros de peça disparados a
distancia.

As sentinellas gritaram—alarma,—os clarins tangeram.

Os bersaglieri sempre promptos sempre infatigaveis, sahiram da villa
Spada e correram á porta São-Pancracio, deixando duas companhias de
reserva para guardar a villa. Embebiam-se até aos joelhos na terra
lodosa.

Puz-me á sua frente, com a espada desembainhada, cantando o hymno
popular da Italia.

N'este momento, confesso-o, completamente desesperado do futuro, não
tinha senão um desejo—o de me fazer matar.

Lancei-me sobre os francezes.

Que se passava então? Não o sei.[4] Durante duas horas feri, sem
descançar. Quando raiou o dia estava coberto de sangue. Não tinha uma só
ferida. Era um milagre.

  [4] Eis aqui como o historiador Vecchi, um dos mais corajosos
  defensores de Roma descreve este combate:

  «Nós estavamos cerrados na villa Spada, onde sustentavamos um
  horrivel fogo de mosquetes e carabinas: Começavam a faltar-nos
  as munições, quando o general Garibaldi appareceu com uma
  columna de legionarios e alguns soldados do 6.° regimento de
  linha, commandados por Pazi, decidido a dar um ultimo golpe,
  não para salvação, mas para honra de Roma. Reunidos aos nossos
  companheiros, lançamo-nos sobre a brecha, ferindo com lanças,
  espadas e bayonetas: a polvora e as ballas faltavam. Os francezes
  espantados d'este terrivel choque recuaram logo; mas outros
  vieram, ao mesmo tempo que a artilheria apontada sobre nós
  começava a levar-nos filas inteiras. O recinto Aureliano foi
  tomado e retomado; não havia ahi nem logar onde pousar o pé a não
  ser sobre algum morto ou ferido. Garibaldi, durante esta noite,
  foi maior do que eu nunca o vira, maior que nunca ninguem o vio.
  Sua espada era um raio; cada homem ferido era um morto. O sangue
  de um novo adversario lavava o sangue do que acava de cair.
  Tel-o-hiam chamado Leonidas nas Termophylas, Ferracio no castello
  da Gavissana. Eu tremia de o ver cair de um a outro instante; mas
  não; ficou de pé como o destino.»

É n'esta batalha, que o tenente Moronini, pobre moço que ainda não tinha
vinte annos e que se batteu como um heroe, foi morto recusando
render-se.

No meio da sanguinolenta confusão, chegou-me um mensageiro da Assembléa
convidando-me a voltar ao Capitolio.

Devo a vida a esta ordem. Havia de ter feito com que me matassem.

Descendo pela Longara com Vecchi, que era membro da Constituinte, soube
que o meu pobre negro Aguyar acabava de ser morto.

Tinha-me prompto um cavallo de retorno, e uma balla lhe atravessára a
cabeça. Soffri uma dor terrivel; perdia mais que um servidor, perdia um
amigo.

Mazzini tinha ja annunciado á Assembléa o ponto em que estavamos.

Havia só tres partidos a tomar, dissera elle:

Convencionar com os francezes;

Defender a cidade de barricada em barricada;

Ou sair da cidade, Assembléa, triumvirato e exercito, levando comsigo o
palladio da liberdade romana.

Quando appareci á porta da salla, todos os deputados se levantaram e
applaudiram.

Eu procurava ao redor de mim que coisa deveria despertar seu enthusiasmo
a este ponto.

Achava-me coberto de sangue, meus fatos crivados de ballas e
bayonetadas. O meu sabre, mocegado á força de golpes, não entrava senão
até ao meio na bainha.

Gritaram-me:

—Á tribuna! á tribuna!

Subi.

De todos os lados era interrogado.

—Toda a defensa é d'oravante impossivel, respondi, a menos que não
façamos de Roma uma segunda Saragoça. A 9 de fevereiro propuz uma
dictadura militar; só ella podia pôr sobre pé cem mil homens armados.
Então existiam os elementos vivazes: era mister procural-os, ter-se-hiam
encontrado n'um homem corajoso. N'esta épocha a audacia foi repellida,
os pequenos meios levaram-na.

Eu não podia avançar mais o argumento. Cedi. Retinha-me a modestia;
porque, sinto-o, eu teria sido esse homem. Curvei-me n'isto ao principio
sagrado que é o idolo do meu coração. Se me houvessem escutado, a aguia
romana teria de novo feito seu ninho sobre as torres do Capitolio, e com
os meus bravos, e os meus bravos sabem morrer, bem o teem visto, eu
teria mudado a face da Italia. Olhemos com a fronte erguida o incendio
que já não podemos dominar. Saiâmos de Roma com todos os voluntarios
armados que quizerem seguir-nos. Onde nós estivermos, estará Roma. Eu
não me comprometto a cousa alguma; mas o que um homem pode fazer,
fal-o-hei, e refugiada em nós a patria não morrerá.

Esta proposta, já feita por Mazzini foi regeitada.

Henrique Cernuschi, o bravo Cernuschi, um dos heroes dos cinco dias
milanezes, o presidente da commissão das barricadas romanas, regeitou-a.

Succedeu-me na tribuna e com as lagrimas nos olhos e a voz abafada.

—Sabeis todos, disse elle, se eu sou um ardente defensor da patria e do
povo; pois bem, sou eu que vol-o digo, não temos um só obstaculo a oppor
aos francezes, e Roma e o seu bom povo—as lagrimas o abafavam—devem
resignar-se á occupação.

Depois d'uma curta deliberação a Assembléa lavrou o decreto seguinte:

                                                  «Republica romana.

    Em nome de Deos e do povo.

    A Assembléa constituinte romana cessa uma defeza impossivel.
    Fica no seu posto.

    O triumvirato é encarregado da execução do presente decreto.»



                                  XXI

                          QUEM ME AMA SEGUE-ME


A 2 de julho reuni as tropas na praça do Vaticano, e caminhei ao centro
d'ellas. Annunciei-lhes que deixava Roma, para levar ás provincias a
revolta contra os austriacos, contra o rei de Napoles, e contra Pio IX.

E ajuntei:

—Quem quizer seguir-me, será recebido entre os meus; a esses não peço
senão um coração cheio de amor da patria. Não terão soldo nem repouso;
terão pão e agua quando o acaso lh'os der. Quem não está contente com
esta sorte fique. Uma vez abertas as portas de Roma, todo o passo dado á
retaguarda será um passo de morte.

Quatro mil infantes e quinhentos cavalleiros se juntaram ao redor de
mim; eram dois terços dos defensores que restavam a Roma.

Annita vestida de homem, Ciceravecchio que não queria ver a indignidade
do seu paiz, e Ugo Bassi, o santo que aspirava ao martyrio, foram dos
primeiros a acercar-se.

Pela noite sahimos de Roma, pelo caminho do Tivoli. O meu coração estava
triste como a morte.

A ultima noticia que havia recebido era a da morte de Manara...

                                                                   G. G.

                                  ⁂

Aqui interrompem-se as memorias de Garibaldi.

Um dia obterei d'elle a segunda parte da sua vida como obtive a
primeira. Aquella resumir-se-ha em duas palavras:

Exilio e triumphos.

                                                               A. DUMAS.


Seguem alguns pormenores ácerca dos mortos, que o doutor Bertoni se
dignou redigir para mim.



                                  XXII

                               OS MORTOS


                             LUCANO MANARA

A 30 de junho ás 2 horas da manhã começou como se viu nas memorias do
general, o ataque do recinto Aureliano, nossa segunda linha de defensa.

Manara pelas 3 horas da manhã reentrou na villa Spada; acabava de
collocar os seus atiradores.

Na vespera uma balla de peça depois de haver batido na muralha cahira
sobre seu leito.

Elle se tinha desviado para lhe dar logar, e rindo, dissera:

—Vereis que não terei a sorte de apanhar uma arranhadura.

Entrando achou Emilio Dandolo muito inquieto por causa de Morosini que
diziam prisioneiro.

Nem um nem outro sabiam noticia alguma a tal respeito.

N'este momento uma balla de recochete feriu Dandolo no braço.

—Por minha fé, meu pobre rapaz, parece que não ha d'isso senão para ti!

Depois desatando o cinturão e deixando a espada, tomou um oculo de
observação e veiu á janella para olhar os soldados francezes que
apontavam uma peça.

No mesmo instante, partiu um tiro de carabina; a bala passou entre dois
sacos de terra e feriu-o no ventre justamente no logar que o cinturão
teria protegido se elle o conservasse.

Dandolo viu-o tremer, e ferido como estava, aproximou-se para o suster:

—Estou morto, disse Manara, recommendo-te meus filhos.

Veiu um medico; mas vendo-o pallidecer o ferido comprehendeu que tudo
havia terminado.

Collocaram Manara n'uma paviola, e no meio do fogo os seus companheiros
o levaram a Santa Maria della Scala. Foram chamar-me á ambulancia dei
Pellegrini onde eu estava; corri. Era elle que tinha querido que o
levassem junto a mim. Ai de mim, estimavamo-nos ternamente!

A praça estava atulhada de projectis.

Uma joven que havia tido a imprudencia de chegar a uma janella, acabava
de ser ferida no peito e morta instantaneamente.

M. Varenna, official lombardo, ficou com a perna quebrada por um obuz,
quando ia a subir os degraus da egreja para se aproximar de mim.

Ia, como eu, vêr Manara.

Um medico tambem corria para a egreja. Uma granada o prostou do cavallo;
e um instante depois o cavallo ferido de egual golpe cahia sobre elle.

Eu chegava são e salvo; conduzia-me Deus!

Ao fundo da egreja, á direita, perto da balaustrada, estava um leito
rodeado pelos officiaes da legião Manara.

Logo que o ferido me viu estendeu a mão para mim, e com voz fraca
perguntou-me:

—É mortal?

A mocidade repellia apezar da evidencia a idéa da morte.

Vendo que eu lhe não respondia repetiu:

—Pergunto-te se a minha ferida é mortal; responde-me!

E sem esperar a resposta, prorompeu em palavras cheias de pesares e de
saudades.

Animei-o tanto quanto o póde fazer um homem a quem a coragem falta;
entretanto elle viu bem que eu não tinha esperança.

Muitos medicos se aproximaram d'elle, mas fazendo-lhe signal com a
cabeça para se affastarem:

—Deixae-me morrer tranquillo! lhes disse elle.

Seu pulso quasi se não sentia, as extremidades estavam frias, as feições
profundamente alteradas, e o sangue corria a golphadas da ferida....
soffria horrivelmente.

Seus companheiros perguntaram-me o que eu pensava do seu estado.

—Tem ainda pouco mais ou menos uma hora de vida, disse eu a Dandolo.

Então o mancebo inclinando-se ao ouvido do seu amigo:

—Pensa no Senhor! lhe disse elle.

—Oh! penso, e muito! respondeu Manara.

Depois accenou a um barbadinho para que viesse. O frade approximou-se do
leito, escutou a confissão do moribundo e deu-lhe a absolvição.

O nosso pobre amigo então pediu o Viatico.

Dandolo exforçava-se em consolal-o o melhor que podia, fallando-lhe em
Deus.

Elle o interrompeu para lhe fallar de seus filhos.

—Educa-os, lhe disse elle, no amor de Deos e da patria.

Depois accrescentou:

—Conduz a Milão o meu corpo com o de teu irmão. Causa-te pena que eu
morra, meu charo amigo, disse elle; ai de mim! tambem eu choro a vida!

Chamou então para seu lado um soldado que era sua ordenança, e que
bastantes vezes tinha feito enraivecer.

—Tu perdoas-me não é assim? lhe disse elle sorrindo.

Depois perguntou a Dandolo se tinha havido noticias de Morosini.

Dizia-se vagamente que elle estava prisioneiro.

Um pouco antes de morrer, Manara tirou um annel do dedo, metteu-o no de
Dandolo, e disse:

—Saudarei teu irmão por ti:

E virando-se para mim:

—Ó Bertani! faz-me morrer depressa, disse elle; soffro muito!

Foi a ultima queixa que sahiu de sua boca.

Entrou em agonia, agarrou-se convulsivamente aos que o cercavam, depois
recahiu no leito, com um suspiro, immovel e frio.

Puz-lhe a mão sobre o coração; battia ainda, mas lentamente: pouco a
pouco as pulsações cessaram.

Sua alma está já no Ceu.

Eu disse então aos monges que nos rodeavam de me prepararem uma solução
arsenical para injectar o cadaver, mas não havia arsenico. Contentei-me
de fazer a injecção com sublimado corrosivo. O cadaver foi transportado
para uma camara, á direita do altar mór, perto da sachristia, e ali
deposto levemente, vestido do seu uniforme, e com a cabeça apoiada n'uma
almofada.

Seu joven amigo Eleuterio Pagliano que durante todo o cerco tinha
valentemente combatido, e que é hoje um dos mais distinctos pintores
lombardos, fez o seu retrato.

Perto d'elle, deitado sobre uma prancha estava Aguyar, o negro de
Garibaldi: Mirava eu estes dois cadaveres tão bellos, e de tão
differente bellesa, quando ouvi soluçar atraz de mim.

Era Ugo Bassi que chorava.

Todo o tempo que estivemos n'esta camara, parecia ella ser o alvo dos
projectis francezes.

No seguinte dia foi o cadaver transportado a uma casa e d'alli á egreja
de S. Lourenço. Depois do que foi deposto na egreja dos Cem Padres, onde
o esperava o corpo de Henrique Dandolo e onde devia juntar-se o de
Morosini.

No proprio dia da morte de Manara chegava uma carta de sua esposa
contendo estas sós palavras:

«Não penses em mim nem em teus filhos, pensa só na patria.»

Pobre mulher! a morte estava encarregada de lhe levar a resposta.


                            EMILIO MOROSINI

Estavamos em redor do leito de Manara, perguntando o destino dos nossos
mais charos amigos, e entre outros d'Emilio Morosini.

Mas n'este dia foi impossivel saber nada de positivo a seu respeito.

Na manhã do 1.° de julho Dandolo soube de um soldado que se havia
achado na brecha ao mesmo tempo que Morosini, que elle havia cahido
gravemente ferido nas mãos dos francezes.

Apesar de soffrer muito da sua ferida, Dandolo correu ao triumvirato,
depois ao ministerio para obter permissão de sahir. Depois de tres horas
de instancia, obteve-a e correu ao campo dos francezes sem
salvo-conducto de qualidade alguma.

Sustido nos postos avançados, disse o fim a que ia. Um official teve
piedade de sua angustia e lhe permittiu de penetrar no campo, onde o
conduziram á ambulancia. Soube que Morosini havia morrido.

Pediu que lhe entregasse o cadaver para o entregar á sua familia; mas um
medico respondeu que havia duas horas que o haviam levado para um
cemiterio muito affastado. Dandolo sollicitou uma ordem de exhumação.

Em quanto esperava a resposta ao seu pedido, entrou um capitão ajudante
do estado-maior, que ficou muito admirado de ver no campo francez um
official italiano sem salvo-conducto. Condemnou a prisão o official que
o deixára passar, e mandou-o para a linha dos postos avançados sem nada
querer ouvir.

Dandolo volveu a trazer a triste noticia aos seus amigos, e escreveu ao
chefe do estado maior francez para pedir a permissão da exhumação.

Obteve-a na manhã de 2.

A triste ceremonia do transporte de Manara estava acabada quando Dandolo
se aproximou de mim dizendo:

—Bertani, d'aqui a algumas horas o cadaver de Morosini estará na egreja
dos Cem Padres, em Santa Vieto, onde poderás vêl-o.

Fui á egreja um pouco antes da noite. A casa ou antes o convento que
confinava com a egreja, estava occupada pelos francezes, de sorte que a
egreja estava fechada.

Pedi permissão de entrar a um capitão, que vendo a profunda tristesa
espalhada em meu rosto, me perguntou affectuosamente se eu era soldado,
qual a minha patria, e se havia perdido algum parente ou amigo.

Respondi-lhe que havia perdido muitos amigos, e entre outros Manara.
Conhecia-o de nome, e pediu-me pormenores sobre sua morte, e tambem me
deu alguns.

Um caçador de Vincennes, que estava perto d'elle no ataque de Spada, e
que elle me mostrou no meio de um grupo de soldados ao pé da porta onde
estavamos, lhe dissera no momento em que Manara se approximara da
janella com o seu oculo:

—Olhae bem este official, está morto.

Ao mesmo tempo o soldado havia atirado: a balla chegara ao seu destino;
e elle havia visto cair Manara.

O capitão continuava a fallar; eu estava tão triste que não lhe pude
responder senão pedindo-lhe que me deixasse entrar na egreja.

—Que ides ahi fazer? me perguntou elle.

—Vou procurar o cadaver de outro amigo, desenterrado hoje mesmo e
entregue pelos vossos á dôr de sua mãe.

Mandou pedir permissão ao coronel, obteve-a, e confiou-me ao guardião da
egreja para que me deixasse entrar.

A egreja estava escura; o guardião abriu uma pequena porta que conduzia
do convento ao côro da egreja, deu-me uma lampada e apontando-me um
canto sombrio disse-me:

—Procurae ahi.

Mas elle não quiz seguir-me mais ávante.

Approximei-me triste e piedosamente, com um tremor em todas as veias.

Este silencio, estas trevas, o duvidoso clarear da lampada, o precioso
objecto de minhas investigações, a angustia de encontrar assim o
encantador mancebo que eu conhecera vivo, tudo isto me fazia pulsar
fortemente o coração.

Caminhava lentamente, não conhecia aquelles lugares, sem saber onde
estava collocado o corpo, levantando a lampada e tremendo de o tocar com
o pé.

Emfim perto dos degraus descobri uma fórma negra e longa.

Reconheci um corpo humano.

Quasi louco de dôr, e de um horror que eu não dominava, inclinei-me
sobre elle.

Oh! triste! triste! triste!

Com a mão que me ficava livre, desatei a corda que ligava o lençol ao
pescoço, ao ventre e aos pés. Levantei a cabeça. Ainda que já
desfigurado, reconheci que era o pobre moço que eu procurava.

Larguei-lhe a cabeça.

Ella cahiu sobre a lagea imprimindo-lhe um som que eu nunca esquecerei.

Não havia em mim um cabello que não tivesse a sua gota de suor.

Parei tremendo.

Meu Deos, como vós sois grande, e como a morte é horrivel!

Fiz um exforço sobre mim. Medico habituado á morte, não queria ser por
ella vencido.

Pousei a lampada sobre um dos degraus do altar, volvendo os olhos para o
rosto do morto, olhando-o tristemente: estava mais pallido que o panno
que o cobria.

Procurei e toquei suas feridas. Teria querido guardar as ultimas gotas
de sangue de seu coração para as levar a sua mãe, e para fazer com este
sangue uma cruz sobre o rosto de todos os jovens italianos, que um dia
devem levantar-se para o libertamento da sua patria.

Cortei uma madeixa de seus cabellos. Talvez elle tivesse um amigo: com
certesa tinha uma mãe.

Emfim apertei-lhe a mão; descobri uma derradeira vez a minha cabeça ante
elle e murmurei:

—Até á vista!

Sahi transido da egreja, levando este espectaculo de morte exactamente
copiado em mim, que hoje, onze annos depois escrevendo estas linhas,
vejo ainda o cadaver, a figura pallida, no seu lençol todo cheio de
terra e sangue.

Sahindo encontrei o guarda, depois o official, ao qual apertei a mão sem
poder pronunciar uma palavra.

No dia seguinte o cadaver de Morosini foi deposto n'um caixão de chumbo,
esperando o momento da partida para o solo natal com os cadaveres dos
seus inimigos.

Todos nós desejavamos com egual ardor ter pormenores sobre a morte de
Morosini; mas os mais eram obrigados a partir. Ficavam só os mortos, e
os que ajudavam os feridos a morrer.

Eu era dos ultimos.

Eis aqui, pois o que soube sobre a morte de Morosini. Colhi estes
pormenores que vou dar de mr. de Santi, corso empregado no serviço
sanitario dos francezes, e que na noite de 29 a 30 de junho era
cirurgião na ambulancia do fosso.

Este honrado e bom confrade, ao qual sou devedor de alguns serviços, me
contou que a 30 de junho ao raiar d'alva trouxeram a ambulancia um dos
nossos officiaes, tão joven e tão bello que elle o tomou por uma mulher.

Estava levemente ferido na testa, na mão esquerda e no peito, mas
mortalmente no ventre.

De Santi o havia tratado com affeição.

Morosini que ainda fallava, perguntou-lhe:

—Que pensaes das minhas feridas?

De Santi respondeu:

—Tende confiança em Deus e na vossa mocidade.

—Está bom, disse Morosini; comprehendo, estou perdido!

Depois ajuntou com um suspiro:

—Pobre mãe!

Entregou uma carteira ao douctor, volveu a cabeça, e recusou desde então
pronunciar mais uma só palavra.

Poucos minutos depois de Morosini ter sido curado, um velho sargento do
32.° entrou na ambulancia, e depois de ter anciosamente procurado o
leito do joven official, disse ao medico.

—É elle!

—Que quereis dizer? lhe perguntou de Santi.

—Que a lodo o custo queria salvar este pobre moço; tenho feito tudo o
possivel. Mas não, isto foi mal para elle.

Então elle contou que Morosini, acompanhado sómente de quatro homens
tinha sido cercado; tinham-lhe intimado que se rendesse, ao que elle
respondêra:

—Nunca!

E continuou a ferir com sua espada gritando aos seus:

—Em nome da Italia prohibo-vos de vos renderdes!

O velho sargento então lhe havia apontado a bayoneta ao peito para o
intimidar; mas Morosini segurou-a com a mão esquerda, e descarregou um
golpe sobre a cabeça do sargento.

Este entretanto prohibia aos soldados de fazerem fogo, esperando
aprisionar vivo o mancebo e portanto salval-o. Mas então um soldado que
se achava atraz d'elle vendo que Morosini continuava a defender-se
atirou-lhe um tiro.

A bala atravessou-lhe as entranhas; era a ferida mortal. Morosini cahiu,
mas sobre um joelho e a mão esquerdo. N'esta posição ainda tentou ferir
seus adversarios gritando sempre a seus companheiros:

—Fazei-vos matar, mas não vos rendaes!

O sargento furioso voltou-se para o soldado dizendo:

—Desgraçado! que fizeste? Não vês que era uma creança?

Morosini morreu algumas horas depois de ter sido levado á ambulancia, e
foi envolvido no lençol em que eu o achára na egreja dos Cem Padres.

Morosini tinha á cintura duas pistollas, na coronha das quaes estava
gravado o nome de Koscinsko, amigo de sua familia, e que d'ellas fizera
presente a seu avô.

Fiz todas as diligencias possiveis para encontrar essas pistollas e a
espada, mas inutilmente. Parece que o velho sargento as possuia, mas
declarou não as dar por preço algum.

A 4 de setembro de 1849 os tres feretros que encerravam os cadaveres de
Henrique Dandolo, de Lucianno Manara e de Emilio Morosini desembarcaram
no Molo-Novo de Genova.


                            GODOFREDO MAMELI

Garibaldi conta nas suas Memorias e na curta biographia que fez de
Mameli que o joven poeta na noite de 3 de junho veiu pedir-lhe de tentar
um novo esforço sobre o casino Corsini e que elle lhe concedeu o pedido.

Mameli foi ferido na perna esquerda.

A ferida por si não era nada, mas por uma má disposição do sangue,
gangrenou em 18 de junho, e tornou-se indispensavel a amputação.

A janella da camara de Mameli na ambulancia da _Trinitá dei Pellegrini_,
dava sem cessar passagem a toda a especie de projectis; mas Mameli
mostrou-se sempre indifferente a este perigo posthumo e póde-se assim
chamar. Só no momento em que estava mais enfraquecido pela suppuração
elle se tornou um ou dois dias impaciente pelas balas como uma creança
pelas moscas.

—Ser morto em pleno ar combatendo, embora; mas morto no meu leito como
um paralytico, não!

No dia 8 de junho delirou, delirio encantador durante o qual elle
cantava em voz baixa, e se recordava quasi dia por dia da sua vida
intellectual—pobre moço!—tão bella e tão curta.

Nos intervallos destes cantos prophetisava ou fazia votos pela sua
patria.

Tinha vinte e um annos quando morreu.

Injectei o seu cadaver, que foi enterrado em Roma.

Tinha composto um canto de guerra, que Garibaldi cantava muitas vezes e
entoava sem cessar; _Fratelli de Italia_.

Este canto é popular na Italia.

                                                                 BERTANI


                    FIM DO 2.° E ULTIMO VOLUME


                        ------------------


                       Nota do Transcritor


Pontuação e hifenização foram normalizados.

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1860.
A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns erros óbvios.

Palavras em itálico e frases são apresentados por em torno do texto com
sublinhados (_itálico_). A fonte Versaletes na versão do texto foi
alterado para todos os tampões.

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*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Memorias de José Garibaldi, volume II - Traduzidas do manuscripto original por Alexandre Dumas" ***

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