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Title: Quéda que as Mulheres Têm para os Tolos
Author: Hénaux, Victor
Language: Portuguese
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*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "Quéda que as Mulheres Têm para os Tolos" ***

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D'Hooghe at Free Literature (Images generously made
available by Biblioteca Brasiliana.)



QUÉDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS

TRADUCÇÃO DO SNR

MACHADO DE ASSIS

RIO DE JANEIRO

TYPOGRAPHIA DE F. DE PAULA BRITO

64--Praça da Constituição--64

1861



ADVERTENCIA



Este livro é curto, e talvez devera sel-o mais.

Desejo que elle agrade, como me sahe das mãos; mas é com pezar
que me vanglorio por esta obra.

Fallar do amor das mulheres pelos tolos, não é arriscar ter por
inimigas a maioria de um e outro sexo?

Diz-se que a materia é rica e fecunda; eu accrescento que ella tem
sido tratada por muitos. Se tenho, pois, a pretensão de ser breve,
não tenho a de ser original.

Contento-me em repetir o que se disse antes de mim: minhas paginas
conscienciosas são um resumo de muitos e valiosos escriptos.
Propriamente fallando, é uma comparação scientifica, e eu obteria a
mais doce recompensa de meus esforços, como dizem os eruditos, se
inspirasse aos leitores a idéa do aprofundar um tão importante exemplo.

Quanto á imparcialidade que presidio a redacção deste trabalho, creio
que ninguem a porá em duvida.

Exalto os tolos sem rancor, e se critico os homens de espirito, é com
um desinteresse, cuja extenção facilmente se comprehenderá.



QUÉDA QUE AS MULHERES TÊM PARA OS TOLOS



CAPITULO I



_Il est des nœuds secrets, il est des sympathies._


Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em materia de
fazendas, perolas e rendas, e que, desde que adoptam uma fita, deve-se
crer que a essa escolha presidiram motivos plausiveis.

Partindo deste principio, entraram os philosophos a indagar se ellas
mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.

Muitos duvidaram.

Alguns emittiram como axioma, que o que determinava as mulheres, neste
ponto, não era, nem a razão, nem o amor, nem mesmo o capricho; que se
um homem lhes agradava, era por se ter apresentado primeiro que os
outros, e que sendo este substituido por outro, não tinha esse outro
senão o merito de ter chegado antes do terceiro.

Permaneceo por muito tempo este systema irreverente.

Hoje, graças a Deus, a verdade se descobrio: veio a saber-se que as
mulheres escolhem com pleno conhecimento do que fazem. Comparam,
examinam, pesam, e só se decidem por um, depois de verificar nelle
a preciosa qualidade que procuram.

Essa qualidade é... a toleima!



CAPITULO II


Desde a mais remota antiguidade, sempre as mulheres tiveram a sua
_queda para os tolos._

Alcibiades, Socrates e Platão foram sacrificados por ellas aos
presumidos do tempo. Turenne, la Rochefoucauld, Racine e Molière,
foram trahidos por suas amantes, que se entregaram a basbaques
notorios. No seculo passado todas as boas fortunas foram reservadas
aos pequenos abbades. Estribados nesses illustres exemplos, as nossas
contemporaneas continuam a idolatrar os decendentes dos idolos das
suas avós.

Não é nosso fim censurar uma tendencia, que parece invencivel; o que
queremos é motival-a.

Por menos observador e menos experiente que seja, qualquer pessoa
reconhece que a toleima é quasi sempre um penhor de triumpho.
Desgraçadamente ninguem póde por sua propria vontade gozar das
vantagens da toleima. A toleima é mais do que uma superioridade
ordinaria: é um dom, é uma graça, é um sello divino.

«O tolo não se faz, nasce feito.»

Todavia, como o espirito e como o genio, a toleima natural fortifica-se
e estende-se pelo uso que se faz della. É estaccionaria no pobre diabo
que raramente póde applical-a; mas toma proporções desmarcadas
nos homens a quem a fortuna, ou a posição social cedo leva á pratica
do mundo. Este concurso da toleima _innacta_ e da toleima _adquirida_
é que produz a mais temivel especie de tolos, os tolos que o academico
Trublet chamou «tolos completos, tolos integraes, tolos no apogêo da
toleima.»

O tolo é abençoado do céo pelo facto de ser tolo, e é pelo facto de
ser tolo, que lhe vem a certeza de que qualquer carreira que tome,
hade chegar felizmente ao termo. Nunca solicita empregos, aceita-os
em virtude do direito que lhe é proprio: _Nominor leo._ Ignora o que
é ser corrido ou desdenhado; onde quer que chegue, é festejado como
um cónviva que se espera.

O que oppor-lhe como obstaculo? É tão energico no choque, tão igual
nos esforços e tão seguro no resultado! É a rocha despegada, que rola,
corre, salta e avança caminho por si, precipitada pela sua propria
massa.

Sorri-lhe a fortuna particularmente ao pé das mulheres. Mulher
alguma resistio nunca a um tolo. Nenhum homem de espirito teve ainda
impunemente um parvo como rival. Porque?... Ha necessidade de
perguntar porque? Em questão de amor, o parallelo a estabelecer
entre o tolo e o homem de siso, não é para confusão do ultimo?



CAPITULO III


Em materia de amor, deixa-se o homem de espirito embalar por extranhas
illusões. As mulheres são para elle entes de mais elevada natureza que
a sua, ou pelo menos elle empresta-lhes as proprias idéas, suppõe-lhes
um coração como o seu, imagina-as capazes, como elle, de generosidade,
nobreza e grandeza. Imagina que para agradar-lhes é preciso ter
qualidades ácima do vulgar. Naturalmente tímido, exaggera mais ao pé
dellas a sua insufficiencia; o sentimento de que lhe falta muito, o
torna desconfiado, indeciso, atormentado. Respeitoso até a timidez,
não ousa exprimir o seu amor em palavras; exhala-o por meio de uma
não interrompida serie de meigos cuidados, ternos respeitos e attenções
delicadas. Como nada quer á custa de uma indignidade, não se conserva
continuamente ao pé d’aquella que ama, não a persegue, não a fatiga
com a sua presença. Para interessal-a em suas magoas, não toma ares
sombrios e tristes; pelo contrario, esforça-se por ser sempre bom,
affectuoso e alegre junto della. Quando se retira da sua presença,
é que mostra o que soffre, e derrama as suas lagrimas em segredo.

O tolo, porém, não tem desses escrupulos. A intrepida opinião que
elle tem de si proprio, o reveste de sangue frio e segurança.

Satisfeito de si, nada lhe paralysa a audacia. Mostra a todos que
ama, e solicita com instancia provas de amor. Para fazer-se notar
d'aquella que ama, importuna-a, acompanha-a nas ruas, vigia-a
nas igrejas e espia-a nos espectaculos. Arma-lhe laços grosseiros.
Á mesa, offerece-lhe uma fructa para comerem ambos, ou passa-lhe
mysteriosamente com muito geito um bilhete de amores. Aperta-lhe
a mão a dançar e saca-lhe o ramalhete de flôres no fim do baile.
N’uma noite de partida, diz-lhe dez vezes ao ouvido: «Como é bella»!
porquanto revela-lhe o instincto, que pela adulação é que se
alcançam as mulheres, bem como se as perde, tal qual como acontece
com os reis. De resto, como nos tolos tudo é superficial e exterior,
não é o amor um acontecimento que lhes mude a vida: continúa
como antes a dissipal-a nos jogos, nos salões e nos passeios.



CAPITULO IV


O amor, disse alguem, é uma jornada, cujo ponto de partida é o
sentimento, e cujo termo inevitavel a sensação. Se é isto verdade,
o que ha a fazer, é embelecer a estrada e chegar o mais tarde possivel
ao fim. Ora, quem melhor que o homem de espirito sabe parolar á
beira do caminho, parar e colher flôres, sentar-se ás sombras frescas,
recitar aventuras e procurar desvios e delongas? Um caracol de
cabellos mal arranjado, um comprimento menos apressado que de
costume, um som de voz discordante, uma palavra mal escolhida,
tudo lhe é pretexto para demorar os passos e prolongar os prazeres da
viagem. Mas quantas mulheres apreciam esses castos manejos, e
comprehendem o encanto dessas paradas á borda de uma veia limpida
que reflecte o céo? Ellas querem amor, qualquer que seja a sua
natureza, e o que o tolo lhes offerece é lhes bastante, por mais
insipido que seja.



CAPITULO V


O homem de espirito quando, chega a fazer-se amar, não goza de uma
felicidade completa. Atemorisado com a sua ventura, trata antes de
saber porque é feliz. Pergunta porque e como é amado; se, para uma
amante, é elle uma necessidade, ou um passatempo; se ella cedeu a um
amor invencivel; emfim, se é elle amado por si mesmo. Crêa elle proprio
e com engenho as suas magoas e cuidados; é como o Sibarita que,
deitado em um leito de flôres, sentia-se incommodado pela dobra
de uma folha de rosa. N'um olhar, n’uma palavra, n’um gesto, acha
elle mil nuanças imperceptiveis, desde que se trata de interpretal-as
contra si. Esquece os encomios que levemente o tocam, para lembrar-se
sómente de uma observação feita ao menor dos seus defeitos e que
bastante o tortura. Mas, em compensação desses tormentos, ha no seu
amor tanto encanto e delicias! Como estuda, como extrahe, como
saborêa as volupias mais fugitivas ate a ultima essencia! Como a sua
sensibilidade especial sabe descobrir o encanto das criancices
frivolas, dos invisiveis attractivos, dos _nadas_ adoraveis!

O tolo é um amante sempre contente e tranquillo. Tem tão robusta
confiança nos seus predicados, que antes de ter provas, já mostra
a certeza de ser amado. É assim deve ser. Em sua opinião faz uma
grande honra á mulher a quem dedica os seus effluvios. Não lhe
deve felicidade; elle é que lh'a dá e como tudo o leva á exaggerar
o beneficio, não lhe vem á idéa que se possa ter para com elle
ingratidões. Assim, no meio das alegrias do amor, saborea ainda
a embriaguez da fatuidade. Mas como, em definitivo, é elle proprio
o objecto de seu culto, depressa o tolo se aborrece, e como o amor
para elle não é mais que um entretenimento que passa, os ultimos
favores, longe de o engrandecerem mais, desligam-n'o pela saciedade.



CAPITULO VI


O homem de espirito vê no amor um grande e serio negocio, occupa-se
delle como do mais grave interesse de sua vida, sem distracção, nem
reserva. Póde perder nelle algumas das suas qualidades viris, mas é
para crescer em abnegação, em dedicação, em bondade. Supporta tudo
d'aquella que ama sem nada exigir della. Quando ella attende a alguns
dos seus votos, quando previne alguns dos seus desejos, longe de
ensoberbecer-se, agradece com uma effusão mesclada de sorpreza.
Perdoa-lhe generosamente todos os males que lhe causa, porque,
muito orgulhoso para enraivecer-se ou lastimar-se, não sabe provocar,
nem a piedade que enternece, nem o medo que faz calar. Oh! que
inferno, se a má ventura lhe depara uma mulher bella e má, uma
namoradeira fria de sentidos, ou uma moça de rabugice precóce!

Soffre então vivamente com a perfidia da mulher amada, mas desculpa-a
pela fragilidade do sexo. A sua indulgencia póde então conduzil-o á
degradação. Elle segue a olhos fechados o declive que o arrasta ao
abismo, sem que a queixa, a ambição, a fortuna possam retel-o.

O nescio escapa a estes perigos. Como não é elle quem ama, é elle quem
domina. Para vencer uma mulher finge, por alguns momentos o excesso
de desespero e da paixão; mas isso não passa de um meio de guerra,
tatica de cerco para enganar e seduzir o inimigo. Logo depois recobra
elle a tyrannia e não a abdica mais. Para entreter-se nisso, tem o
tolo o seu methodo, as suas regras, a sua linha de conducta. É
indiscreto por principio, porquanto divulgando os favores que recebe,
compromette a que lhe concede e ao mesmo tempo afasta as rivalidades
nascentes. É susceptivel pela razão, cioso por calculo, afim de promover
esses proveitosos amúos, que lhe servem, a seu grado, para conduzir a
uma ruptura definitiva, ou para exigir um novo sacrificio. Mostra uma
cruel indifferença, indicando pouca confiança nas provas de sympatia
que lhe dão. N'um baile, prohibindo á sua amante de dançar, não faz
caso della de proposito. Afflige-a com apparencias de infidelidade,
falta á hora marcada para se encontrarem, ou depois de se ter feito
esperar, vem, dando desculpas equivocas de sua demora. Habil em
semear a inquietação e o susto, faz-se obedecer á força de ser, e
acaba por inspirar uma affeição sincera á força de promovel-a.



CAPITULO VII


O homem de espirito, assustado com o vacuo immenso, que deixa no
coração uma affeição que se perde, só rompe o laço que o prende á
causa de dilacerações interiores.

Como bem se disse, sendo preciso um dia para conseguir, é preciso
mil para se reconquistar.

Mesmo no momento em que volta a ser livre: quantas vezes um sorriso,
um meneio de cabeça, uma maneira de puxar o vestido, ou de inclinar o
chapellinho de sol, não o faz recahir no seu antigo captiveiro!

De resto, a mulher, a quem elle tiver revelado o segredo do seu
coração, ficará sempre para elle como sêr aparte. Não a esquece nunca.

Morta, ou separado, nutre por aquella que a perdeu longas saudades.
Perseguido pela lembrança que della conserva, descobre muitas vezes
que as outras mulheres por quem se apaixona só têem o merito de se
parecerem com ella. Dá-se elle então a comparações que o desvairam,
que o irritam, que o põem fóra de si, exigindo no seu trajar, no seu
andar e até no seu fallar, alguma cousa que lhe recorde o seu
implacavel ideal.

E se é elle o abandonado, que de torturas que soffre!

Viver sem ser amado parece-lhe intoleravel. Nada póde consolal-o ou
distrahil-o.

No caso de tornar a ver os sitios que foram testemunhas da sua
felicidade, evoca á sua memoria mil circumstancias perseverantes e
crueis. Alli está a cerca cheirosa, cujos espinhos rasgaram o véo da
infiel; aqui, o rio que a medrosa só ousava atravessar amparada pela
sua mão; além está a alameda, cuja arêa fina parece ter ainda o molde
de seus ligeiros passos. Contempla na janella as longas e alvas
cortinas, no peitoril os arbustos em flôr, na relva a mesa, o banco,
as cadeiras em que outr’ora se sentaram.

É possivel que ella tenha mudado tão de repente? Pois não foi ainda
hontem que de volta de um passeio ao bosque, lhe enxugou o suor da
testa, e que se lhe prendia em doce e extranho amplexo?... Hoje, nem
mais doçuras, nem mais apertos de mão, nem mais dessas horas ebrias
em que todo o passado ficava esquecido! Elle está só, entregue a si
mesmo, sem força, sem alvo: é o delyrio do desespero.

O tolo está ácima dessas miserias. Não o assusta um futuro prenhe de
qualquer inquietação afflictiva. Sempre acobertado pela bandeira de
inconstancia, desfaz-se de uma amante sem luta, nem remorso; utilisa
uma traição para voar a novas aventuras. Para elle nada ha de terrivel
em uma separação, porque nunca suppõe que se possa collocar a vida
n'uma vida alheia, e que fazendo-se um habito dessa communidade
de existencia, faz-se pouco novamente soffrer, quando ella tiver de
quebrar-se.

Da mulher, que deixa de amar, elle só conserva o nome, como o veterano
conserva o nome de uma batalha para glorificar-se, ajuntando-o ao
numero das suas campanhas.



CAPITULO VIII


Ha uma época em que custa-se muito a amar. Tendo visto e estudado um
pouco a mulher, adquire-se uma certa dureza que permitte approximar-se
sem perigo das mais bellas e seductoras. Confessa-se sem rebuço a
admiração que ellas inspiram, mas é uma admiração de artista, um
enthusiasmo sem ternura. Além disso ganha-se uma penetração cruel para
ver, atravez de todos os artificios de casquilha, o que vale a submissão
que ellas ostentam, a doçura que affectam, a ignorancia que fingem. E
prenda-se um homem nessas condições!

De ordinario é entre trinta a trinta e cinco annos, que o coração do
homem de espirito fecha-se assim á sympatia e começa a petrificar-se.
É entretanto possivel que nelle tornem a apparecer os fogos da
mocidade, e que elle venha a sentir um amor tão puro, tão fervente,
tão ingenuo, como nos frescos annos da adolescencia; longe de ter
perdido as perturbações, as aprehensões, os transportes da alma
amorosa, sente-os elle de novo com emoção mais profunda e dá-lhes
um preço tanto mais elevado, quanto elle está certo de não os ver
renascer.

Oh! então lastima-se o pobre insensato! Eil-o obrigado a ajoelhar-se
aos pés de uma mulher para quem é nada o merito de caminhar pouco
a pouco atraz de sua sombra, de fazer exercicio em torno aos seus
vestidos, de se extasiar diante de seus bordados, de lisonjear os
seus enfeites. Ai, triste! esses longos supplicios o revoltam, e,
Pygmalião desesperado, afasta-se de Galatéa, cujo amor se não
póde reanimar.

Esses symptomas de idade são desconhecidos ao tolo, porquanto cada dia
que passa não lhe faz achar no amor um bem mais caro, ou mais difficil
a conquistar. Não tendo sido, nem melhorado, nem endurecido pelos
revezes da vida, continuando a ver as mulheres com o mesmo olhar,
exprime-lhes os seus amores com as mesmas lagrimas e os mesmos
suspiros que lhes reserva para pintar os antigos tormentos. E como
elle só exigio sempre dellas apparencias de paixão, vem facilmente a
persuadir-se que é amado. Longe de fugir, persevera e--triumpha.



CAPITULO IX


O homem de espirito é o menos habil para escrever a uma mulher.

Quando se arrisca a escrever uma carta, sente difficuldades incriveis.
Desprezando o vasconço da galanteria, não sabe como se hade faze
entender. Quer ser reservado e parece frio; quer dizer o que espera e
indica receio; confessa que nada tem para agradar, e é apanhado pela
palavra. Commette o crime de não ser commum ou vulgar. As suas cartas
sahem do coração e não da cabeça; têem o estylo simples, claro e
limpido, contendo apenas alguns detalhes tocantes. Mas é exactamente
o que faz com que ellas não sejam lidas, nem comprehendidas. São
cartas decentes, quando as pedem estupidas.

O tolo é fortissimo em correspondencia amorosa e tem consciencia
disso. Longe de recuar diante da remessa de uma carta, é muitas vezes
por ahi que elle começa. Tem uma collecção de cartas promptas para
todos os grãos de paixão. Allega nellas em linguagem brusca _o ardor
de sua chamma_; a cada palavra repete: _meu anjo, eu vos adoro._
As suas formulas são emphaticas e chatas; nada que indique uma
personalidade. Não faz suspeitar excentricidade ou poesia; é quanto
basta; é mediocre e ridiculo, tanto melhor. Effectivamente o extranho
que ler as suas missivas, nada tem a dizer; na mocidade o pai da
menina escrevia assim; a propria menina não esperava outra cousa.
Todos estão satisfeitos, até os amigos. Que querem mais?



CAPITULO X


Emfim, o homem de espirito, em vista do que é, inspira ás mulheres uma
secreta repulsa. Ellas se admiram com o ver timido, acanham-se com o
ver delicado, humilham-se com vel-o distincto.

Por muito que elle faça para descer até ellas, nunca consegue fazel-as
perder o acanhamento; choca-as, incommoda-as, e esse acanhamento,
de que elle é causa, torna frias as conversações mais indifferentes,
afasta a familiaridade e assusta a inclinação prestes a nascer.

Mas o tolo não atrapalha, nem offusca as mulheres. Desde a primeira
entrevista, elle as anima e fraternisa-se com ellas. Eleva-se sem
acanhamento nas conversas mais insulsas, paira e requebra-se como
ellas. Comprehende-as e ellas o comprehendem. Longe de se sentirem
deslocadas na sua companhia, ellas a procuram, porque brilham nella.
Podem diante delle absorver todos os assumptos e conversar sobre
tudo, innocentemente, sem consequencia. Na persuasão de que elle
não pensa melhor, nem contrario a ellas, auxiliam o triste, quando a
idéa lhe falta, suprem-lhe a indigencia. Como se fazem valer por elle,
é justo que lhes paguem, e por isso consentem em ouvil-o em tudo.
Entregam-lhe assim os seus ouvidos, que é o caminho do seu coração,
e um bello dia admiram-se de ter encontrado no amigo complacente
um senhor imperioso!



CAPITULO XI


Comprehende-se, por este curto esboço, como e quanto differem os
tolos e os homens de espirito nos seus meios de seducção. A conclusão
final é, que os tolos triumpham, e os homens de espirito falham,
resultado importante e deploravel, nesta materia sobre tudo.



CAPITULO XII


Depois de ter indagado as causas da felicidade dos tolos, e da
desgraça dos homens de espirito: perderemos tempo precioso em
accusar as mulheres? Não hesitamos em deitar as culpas sobre os
homens de espirito, como fez o profundo Champcenets.

Porque não estudam os tolos, diz-lhes este autor, para conseguir
imital-os? Hade custar-vos muito fazer um tal papel: mas ha proveito
sem dezar? E depois, quando assim sois a isso obrigado, visto como
não vos dão outro meio de solução, querer subtrahir o bello sexo ao
imperio dos tolos, descortinando-lhe a perversidade do seu gosto, é
cousa em que ninguem deve pensar, é uma loucura; fôra o mesmo
que querer mudar a natureza, ou contrariar a fatalidade.

Por quanto, ficai sabendo, continúa Campcenets, que as mulheres
não são senhoras de si proprias; que nellas tudo é instincto ou
temperamento, e que portanto ellas não podem ser culpadas de
suas preferencias. Só respondemos pelo que praticamos com intenção e
discernimento. Ora, qual dellas póde dizer que predilecção a impelle,
que paixão a obriga, que sentimento a faz ingrata, ou que vingança
lhe dicta as malignidades? Debalde procurareis nellas tão cruel
prodigio; nenhuma é cumplice do mal que cansa; a este respeito, o
seu estouvamento attesta-lhes a candura.

Porque vos obstinaes em pedir-lhes o que a Providencia não lhes deu?
Ellas se apresentam bellas, appetitosas e cégas: não vos basta isto?
Querel-as com juizo, penetrantes e sensiveis, é não conhecel-as.

Procurai as mulheres nas mulheres, admirai-lhes a figura elegante e
flexivel, affagai-lhes os cabellos, beijai-lhes as mãos mimosas; mas
tomai como um brinquedo o seu desdem, aceitai os seus ultrages sem
azedume, e ás suas coleras mostrai indifferença. Para conquistar esses
entes frageis e ligeiros, é preciso atordoal-os pelo rumor dos vossos
louvores, pelo fasto do vosso vestuario, pela publicidade das vossas
homenagens.



CAPITULO XIII


Sim, sim, é de mister ousar tudo para com as mulheres.



FIM





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