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Title: A Pata da Gazella: romance brasileiro.
Author: Alencar, José Martiniano de
Language: Portuguese
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Copyright Status: Not copyrighted in the United States. If you live elsewhere check the laws of your country before downloading this ebook. See comments about copyright issues at end of book.

*** Start of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Pata da Gazella: romance brasileiro." ***


SENIO



A PATA DA GAZELLA



ROMANCE BRASILEIRO



RIO DE JANEIRO

EDITOR PROPRIETARIO

B. L. Garnier.--Rua do Ouvidor n. 6

1870



INDICE
CAPITULO I
CAPITULO II
CAPITULO III
CAPITULO IV
CAPITULO V
CAPITULO VI
CAPITULO VII
CAPITULO VIII
CAPITULO IX
CAPITULO X
CAPITULO XI
CAPITULO XII
CAPITULO XIII
CAPITULO XIV
CAPITULO XV
CAPITULO XVI
CAPITULO XVII
CAPITULO XVIII
CAPITULO XIX



I


Estava parada na rua da Quitanda, proximo a da Assembléa, uma linda
victoria, puxada por soberbos cavallos do cabo.

Dentro do carro havia duas moças; uma dellas, alta e esbelta, tinha uma
presença encantadora; a outra, de pequena estatura, muito delicada de
talhe, era talvez mais linda que sua companheira.

Estavam ambas elegantemente vestidas, e conversavam a respeito das
compras que já tinham realizado ou das que ainda pretendiam fazer.

--Daqui aonde vamos? perguntou a mais baixa, vestida de roixo claro.

--Ao escriptorio de papai: talvez elle queira vir comnosco. Na volta
passaremos pela rua do Ouvidor: respondeu a mais esbelta, cujo talhe era
desenhado por um roupão cinzento.

O vestido roixo debruçou-se de modo a olhar para fóra, no sentido
contrario aquelle em que seguia o carro, emquanto o roupão,
recostando-se nas almofadas, consultava uma carteirinha de lembranças,
onde naturalmente escrevêra a nota de suas encommendas.

--O lacaio ficou-se de uma vez! disse o vestido roixo com um movimento
de impaciencia.

--É verdade! respondeu distrahidamente a companheira.

Estas palavras confirmavam o que aliás indicava o simples aspecto da
carruagem: as senhoras estavam á espera do lacaio, mandado a algum
ponto proximo. A impaciencia da moça de vestido roixo era partilhada
pelos fogosos cavallos, que difficilmente conseguia soffrear um cocheiro
agalloado.

Depois de alguns momentos de espera, sobresaltou-se o roupão cinzento,
e conchegando-se mais ás almofadas, como para occultar-se no fundo da
carruagem, murmurou:

--Laura!... Laura!...

E como sua amiga não a ouvisse, puxou-lhe pela manga.

--O que é, Amelia?

--Não vês? Aquelle moço que está ali defronte nos olhando.

--Que tem isto? disse Laura sorrindo.

--Não gósto! replicou Amelia com um movimento de contrariedade. A
quanto tempo está ali e sem tirar os olhos de mim?

--Volta-lhe as costas!

--Vamos para diante.

--Como quizeres.

Avisado o cocheiro, avançou alguns passos, de modo á tirar ao curioso
a vista do interior do carro; mas o mancebo não desanimou por isso, e
passando de uma a outra porta, tomou posição conveniente para
contemplar a moça com uma admiração franca e apaixonada.

Simples no trajo, e pouco favorecido a respeito de belleza; os dotes
naturaes que excitavam nesse moço alguma attenção eram uma vasta
fronte meditativa, e os grandes olhos, pardos, cheios do brilho profundo
e phosphorescente que naquelle momento derramavam pelo semblante de
Amelia.

Havia minutos que percorrendo a rua da Quitanda em sentido opposto á
direcção do carro, avistára a moça recostada nas almofadas, e
sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento,
recostando-se a ombreira de uma porta de escriptorio, esqueceu-se
naquella ardente contemplação.

O coração é um solo. Valle onde brotam as paixões, como os outros
valles da natureza inanimada, elle tem suas estações, suas quadras de
aridez ou de seiva, de estirilidade ou de abundancia.

Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores do sol, produzem na
terra uma fermentação, que fórma o humus; a semente, cahindo ahi,
brota com rapidez. Depois das grandes dôres e das lagrimas torrenciaes,
fórma-se tambem no coração do homem um humus poderoso, uma
exhuberancia de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar,
um sorriso, que ahi penetre, é semente de paixão, e pulula com vigôr
extremo.

O moço parecia estar nessas condições: elle trajava lucto pesado,
não sómente nas roupas negras, como na côr macilenta das faces nuas,
e na magoa que lhe escurecia a fronte.

Notando Amelia a insistencia do mancebo, ficou vivamente contrariada.
Aquelle olhar profundo, que parecia despedir os fogos surdos de uma
labareda occulta, incutia nella um desassocego intimo. Agitava-se
impaciente, como uma creatura no meio de um somno inquieto ou mesmo de
um ligeiro pesadello.

Até que abriu o chapeosinho de sol, para interceptar a contemplação
apaixonada de que era objecto. Nesta occasião, Laura, que
frequentemente se debruçava para vêr quando vinha o lacaio, retrahiu o
corpo com vivacidade:

--Emfim; ahi vem!

--Felizmente! disse Amelia.

O lacaio aproximava-se á passos medidos; trazia na mão um embrulho de
papel azul, que o atrito dos dedos e a oscillação dos objectos
envoltos desfizera, obrigando o portador a apertal-o de vez em quando.

Julgando ao cabo de alguns instantes que o lacaio já tocava o estribo
da carruagem, Amelia, tomando um tom imperativo, disse para o cocheiro:

--Vamos! vamos!

Ao aceno que lhe fez o cocheiro, o lacaio correu, chegando a tempo de
apanhar o carro, que partia ao trote largo da fogosa parelha. Deitar o
embrulho na caixa da victoria, rodear em dois saltos e galgar o estribo
da almofada, foi para o creado, habituado a essa manobra, negocio de um
instante. Não percebera elle, porém, que abrindo-se o papel com a
corrida, um dos objectos nelle contidos escorregára e justamente na
occasião de deitar o embrulho na caixa do carro, cahira na calçada.

Laura, que se inclinara com vivo interesse para tomar o embrulho das
mãos do lacaio, tivera um presentimento do accidente, ao ver o papel
desenrolado. Fechando-o rapidamente e escondendo por baixo do assento da
victoria, ella debruçou-se ainda uma vez para verificar si com effeito
alguma cousa havia cahido. Ao mesmo tempo acompanhava o movimento com
estas palavras de contrariedade:

--Como elle manda isto? Por mais que se lhe recommende!

Laura nada viu, porque já a victoria rodava ligeiramente sobre os
parallelepipedos.

Nesse momento, porém, dobrando a rua da Assembléa, se aproximára um
moço elegante não só no trajo do melhor gosto, como na graça de sua
pessoa: era sem duvida um dos principes da moda, um dos leões da rua do
Ouvidor; mas desse podemos assegurar pelo seu parecer distincto, que
não tinha usurpado o titulo.

O mancebo viu casualmente o lacaio quando passára por elle correndo, e
percebeu que um objecto cahira do embrulho. Naturalmente não se
dignaria abaixar para apanhal-o, nem mesmo deitar-lhe um olhar; si não
visse apparecer ao lado da victoria o rosto de uma senhora, que o
aspecto da carruagem indicava pertencer á melhor sociedade.

Então, apressou-se, para ter occasião de fazer uma fineza, e pretexto
de conhecer a senhora, que lhe parecêra bonita. Os leões são
apaixonadissimos de taes encontros; acham-lhes um sainete que destroe a
monotonia das relações habituaes.

Quando o moço ergueu-se com o objecto na mão, já o carro dobrava a
rua Sete de Setembro. Ficou elle um momento indeciso, olhando em tôrno,
como si esperasse alguma informação á respeito da pessoa á quem
pertencia o carro. Sem duvida a senhora era conhecida em alguma loja de
fazendas; talvez tivesse ahi feito compras.

Não obtendo, porém, informações, nem colhendo resultado da pergunta
que fizera a um caixeiro proximo, resolveu-se á metter o objecto no
bolso e seguir seu caminho.



II


Horacio de Almeida, o nosso leão, voltou á casa á hora do costume,
quatro da tarde.

Os successivos encontros da rua do Ouvidor; a conversa no Bernardo; a
visita indispensavel ao alfaiate; as anecdotas do Alcasar na noite
antecedente; a chronica anacreontica do Rio de Janeiro, chistosamente
commentada; algumas rajadas de maledicencia, que é a pimenta social;
todas essas occupações importantes, que absorvem a vida do leão,
distrahiram Horacio, a ponto de se esquecer elle do objecto guardado no
bolso do paletot.

Como admittir que um principe da moda não aproveitasse a aventura do
carro, para sobre ella bordar um romance de rua, com que excitasse a
curiosidade dos amigos? Realmente é admiravel; e seria incomprehensivel
si não fosse a circumstancia de ter poucos passos adiante encontrado
uma das mais ricas herdeiras do Brasil, a quem o nosso leão
arrastava.... Ia dizer a _aza_, mas isso seria anachronismo; dizia-se no
tempo em que os leões se chamavam gallos: hoje deve dizer-se _arrastar
a juba_; é mais bonito e indica mais submissão. Arrastar a aza é
enfunar-se; arrastar a juba é prostrar-se.

Foi só quando recostado em sua ottomana, descansava para o jantar, que
Horacio, procurando a carteira de charutos no bolso do fraque,
lembrou-se do objecto. Teve então curiosidade de examinal-o; sabia o
que era; na occasião de apanhal-o reconhecêra o pé de uma botina de
senhora; mas não fizera grande reparo.

Agora, porém, que de novo o tinha diante dos olhos, á sós em seu
aposento, e despreoccupado da idéa de o restituir, Horacio achou o
objecto digno de séria attenção; e aproximando-se da janella começou
um exame consciencioso.

Era uma botina, já o sabemos; mas que botina! Um primor de pellica e
sêda, a concha mimosa de uma perola, a faceira irmã do lindo chapim de
ouro da borralheira; em uma palavra a botina desabrochada em flôr, sob
a inspiração de algum artista ignoto, de algum poeta de ceiró e
torquez.

Não era, porém, a perfeição da obra, nem mesmo a excessiva
delicadeza da fôrma, o que seduzia o nosso leão; eram sobretudo os
debuxos suaves, as ondulações voluptuosas que tinham deixado na
pellica os contornos do pesinho desconhecido. A botina fora servida, e
muitas vezes; embora estivesse ainda bem conservada, o desmaio de sua
primitiva côr bronzeada e o esfrolamento da sola indicavam bastante
uso.

Si fosse um calçado em folha, sahido da loja, não teria grande valor
aos olhos do nosso leão, habituado não só a vêr, como a calçar, as
obras primas de Milliès e Campàs. Talvez reparando muito naquella
peça que tinha nas mãos, notasse maior elegancia no córte, e um apuro
escrupuloso na execução; porém mais natural seria escapar-lhe essa
minima circumstancia.

Mas a botina achada já não era um artigo de loja, e sim o traste
mimoso de alguma belleza; o gentil companheiro de uma moça formosa, de
quem ainda guardava a impressão e o perfume. O rosto estufava mostrando
o firme relevo do pesinho arqueado. Na solla se desenhava a curva
graciosa da planta subtil, que só nas extremidades beijava o chão,
como o silpho que frisa a superficie do lago com a ponta das azas.

Ha um aroma, que só tem uma flôr na terra, o aroma da mulher bonita;
fragancia voluptuosa que se exhala ao mesmo tempo do corpo e da alma;
perfume inebriante que penetra no coração como o amor valatilisado. A
botina estava impregnada desse aroma delicioso; o delicado tubo de seda,
que se elevava como a corolla de um lirio, derramava, como a flôr,
ondas suaves.

O mancebo collocára longe de si o charuto para não desvanecer com o
fumo os bafejos daquelle odôr suave. Não havia ahi o menor laivo de
essencia artificial preparada pela arte do perfumista; era a pura
exhalação de uma cutis assetinada, esse halito de saude que perspira
através da fina e macia tez, como através das petalas de uma rosa.

De repente uma idéa perpassou no espirito do moço, que o fez
estremecer. Essa botina gracil, em que mal caberia sua mão
aristocratica, essa botina mais mimosa do que sua luva de pellica, não
podia ter um numero maior do que o de seus annos, _vinte nove_!

--Será de uma menina! murmurou elle um tanto desconsolado.

Examinou novamente a obra prima, voltou-a de todos os lados, apalpou
docemente o salto e o bico, dobrou a orla da haste, sondou o interior da
concha, que servira de regaço ao feiticeiro pesinho. Depois de alguns
instantes deste exame profundo e minucioso, um sorriso expandiu o
semblante de Horacio.

--É de moça, é de mulher! murmurou elle. Aqui estão os signaes
evidentes; não podem falhar. A fabula de Edipo é uma verdade eterna:
no enigma da esphinge está realmente o mytho da vida. O homem é o
animal que de manhã anda sobre quatro pés; ao meio dia sobre dois; a
tarde sobre tres. Na infancia, a creatura, como a planta, conserva-se
rasteira, brota, pulula, mas conchega-se mais ao solo de que recebe toda
nutricção; as mãos servem-lhe de pés. Depois da juventude, na época
da expansão, a creatura se lança para o espaço, exalta-se; é a
arvore que hastea e procura as nuvens; a planta pede ao céo os orvalhos
e a luz do sol; a alma pede a crença, a fé, a esperança, de que se
geram as flôres, que nós chamamos paixões. Na velhice, o homem se
inclina de novo para a terra, como o tronco carcomido; é o pó, que,
depois de revoar no espaço, deposita-se outra vez no chão. Então o
velho precisa do bordão; uma das mãos torna-se pé, e calça esse
cothurno da mais triste das tragedias humanas, a decrepitude.

Horacio observou de novo attentamente o objecto que tinha entre as
mãos.

--A menina de quinze annos já não é a corsa de quatro patas; não
está mais na alvorada da vida, na puericia; tambem ainda não chegou ao
meio dia do qual aproxima-se. Comtudo, seu andar conserva ainda aquella
attracção para a terra; é pesado; calca o chão com força; tem o
quer que seja de sacudido, que revella os impulsos da alma para
desprender-se do pó e elevar-se; assemelha a singradura do batel, que
ora se levanta, ora submerge-se. Si esta botina fosse de uma menina,
aqui estariam impressos esses caracteres de sua idade. A sola, em vez de
levemente triturada nas extremidades, estaria estragada; o salto
cambado. É uma observação que todo o sapateiro confirmaria; o menino
gasta o calçado pela sola, o homem pelo couro; a razão, o sapateiro a
ignora, mas o philosopho a conhece: o menino é o insecto que rasteja, a
larva; o homem é o insecto que vôa, o besouro; aquelle anda com o
ventre, este com a aza.

Horacio sorriu.

--Esta botina é de moça, e moça em todo o viço da juventude: a sola
apenas rosçada junto á ponta, o salto quasi intacto, não estão
descrevendo com a maior eloquencia a subtileza do passo ligeiro? Eu
sinto, posso dizer eu vejo, esse andar gentil, que manifesta a deusa,
como disse o poeta; a deusa, a Venus deste olympo em que vivemos, a
mulher. Só quando toda a seiva se precipita para o coração, quando
germinam os botões que mais tarde abrirão em flôr, só nesse momento
de assumpção é que a mulher tem este andar sublime e augusto. É o
andar do passarinho, que, rosçando a relva, sente o impulso das asas; é
o andar do astro nascente, caminhando para a ascensão; é o andar do
anjo, que, mesmo tocando a terra, parece prestes a fugir ao céo; é,
finalmente, a elação d'alma que aspira de Deus os effluvios do amor,
do amor unico ambiente do coração!

Nisto o moço descobriu na fivella do laço da botina alguma cousa que
lhe excitou vivo reparo; chegando-se á luz, viu as voltas de um fio,
que prendeu entre as brancas unhas afiladas, verdadeiras garras de
leão da moda. Com alguma paciencia retirou um longo cabello castanho, e
muito crespo.

--Outra prova de que aliás não carecia! Este cabello é de mulher;
não ha menina que o possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu
naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um
arbusto! Tem o cabello castanho e crespo, duas cousas lindas sem duvida,
embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de
côrvo. Esse negrume dá á mulher, o quer que seja de satanico; lembra
que ella tambem gerou-se da terra; não é anjo sómente; não é
sómente filha do céo. Eu não posso supportar a mulher-seraphim, que
parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.

Horacio voltou a botina.

--Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma côr insipida de
cabello! Que me importa isto? Tenho alguma cousa com seu cabello? O que
amo nella é o pé; este pé sylpho, este pé anjo, que me fascina, que
me arrebata, que me enlouquece?...

Horacio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina,
inclinou-se e beijou-a no rosto; mas timida e respeitosamente. Não era
essa a imagem do pé seductor, que elle adorava como um idolo?

--Mas onde encontral-o? como reconhecêl-o? exclamou dolorosamente
Horacio, sentindo a realidade da situação.

Nenhum indicio que lhe revellasse o nome da mulher a quem pertencia essa
gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem. A
lembrança vaga da libré de um lacaio era o unico vestigio que restava;
mas com este dificilmente poderia descobrir o objecto de sua adoração.
Ha tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem!
Talvez nunca mais encontrasse aquelle que procurava; e encontrando, nem
o reconhecesse.

--Desgraçado! dizia o leão. Quasi nem o olhaste; mas, podias tu
adivinhar, Horacio, que thesouro deixára cahir aquelle bruto?

O mancebo inclinára ao peito a bella cabeça esmorecida; a ventura lhe
tinha sorrido de longe, para escarnecer delle, o leão mais querido das
bellezas fluminenses, o Atyla do Cassino, o Genserico da rua do Ouvidor.

De repente ergueu-se d'um impeto:

--Heide possuil-o!... exclamou elle com o tom com que Alexandre se
prometteu o imperio da Asia.



III


Ninguem imagina que bellos talentos sorve essa voragem do mundo, que
chamam a vida elegante.

São como as arvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e
consomem toda a seiva nessa gala esteril e ephemera. Nunca ellas dão
fructo, nem siquer flôr.

Horacio de Almeida era uma de tantas intelligencias, desperdiçadas no
incessante bulicio da moda.

Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro, não
empregaram na fabrica de seus versos o atticismo, a inspiração e a
graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava
um epigramma.

Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados,
e do supremo gôsto, que Horacio imprimia no laço de sua gravata, em
suas maneiras distinctas, nos minimos accidentes de seu trajo apurado.

E a phisiologia?

Poucos homens conheciam como Horacio o coração da mulher; porque bem
raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais sabio professor
ficaria estupefacto da lucidez admiravel, com que o leão costumava lêr
nesse cahos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher.

A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras
dos mestres, colligiu observações alheias, e arranjou um systhema
sobre o que não soffre regras; sobre a paixão cuja essencia é o
imprevisto, o anomalo, o indefinivel.

Ao contrario, Horacio tinha estudado na realidade da vida; devassára os
refolhos do polypo; lhe sentira as pulsações; e fizera experiencias
_in anima vilis_. Não fatigou sua memoria com a inutil bagagem dos
termos technicos e das noções scientificas: lia os hierogliphos do
amor com a linguagem garrida do homem a moda.

A perspicacia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de
observação, com que o nosso leão sondava o abysmo do coração, e
rastreava no semblante da mulher os vagos symptomas de uma inclinação
nascente, ou de uma affeição expirante; só os grandes medicos possuem
tão altos dotes.

Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu bello talento pelas
sallas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada intelligencia, as
ia elle esparzindo nas elegantes futilidades de um ocio tão laborioso,
como é o _far niente_ de um leão.

Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo
pesado das horas sem occupação; ha nada mais difficil para o homem que
ignora o trabalho?

Si o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no
dia para dedical-os a um fim sério e util, á sciencia, á litteratura,
á arte, que bellos triumphos não obteria sua rica imaginação servida
por um espirito scintillante?

Mas o nosso leão tinha á este respeito idéas excentricas.

--A politica, dizia elle, quando não dá em especulação, passa a
mistificação. A sciencia, si escapa de mania, torna-se uma gleba em
que o sabio trabalha para o nescio. Litteratura e arte são plagios;
quem póde fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao trabalho de
reproduzil-os; nem contempla estatuas, quem lhes admira os modelos
animados e palpitantes.

Com taes paradoxos, Horacio não achava emprego mais digno para a
intelligencia, do que a difficil sciencia de consumir gradualmente a
vida, e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este valle de
lagrimas, em que todos peregrinamos.

A mulher era para elle a obra suprema, o verbo da creação. Toda
religião, como toda felicidade; toda sciencia, como toda poesia, Deus
a tinha encarnado nesse mixto incomprehensivel do sublime e do torpe, do
celeste e do satanico; amalgama de luz e cinzas; de lodo e nectar.

--Amar, é adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é
estudar a lei da creação em seu mais profundo mysterio, a mulher. Amar
é admirar o bello em sua mais esplendida revelação; é fazer poemas e
estatuas como nunca as realisou o genio humano.

Mas o que sentia Horacio era apenas o culto da fórma, o fanatismo do
prazer. O amor, o verdadeiro amor consiste na possessão mutua de duas
almas; e essa, póde o homem illudir-se alguma vez, mas quando se
realisa é indissoluvel.

Nada separa duas almas gemeas que prende o vinculo de sua origem divina.

O mancebo admirava na mulher a formosura unicamente: apenas artista,
elle procurava um typo. Durante dez annos atravessára os sallões, como
uma galeria de estatuas animadas e vivos paineis, parando um instante em
face dessas obras primas da natureza.

Vieram uns após outros todos os typos; a belleza ardente das regiões
tepidas, ou suave gentileza da rosa dos Alpes: o moreno voluptuoso ou a
alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso e meigo;
o talhe opulento e garboso ou as fórmas esbeltas e flexiveis.

Seu gôsto foi-se apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difficil.
A belleza commum já não o satisfazia; era preciso a obra prima para
excitar-lhe a attenção e commovel-o.

Mas os sentidos se gastam; os mesmos primores da formosura cahiram na
monotonia. Já o leão não sentia pela mais bella mulher aquelles
enthusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era frio e severo
como o de um critico.

Então, começou o moço a amar, ou antes a admirar a mulher em detalhe.
Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a principio uma boca
bonita, cofre de perolas, de sorrisos, de beijos e harmonias. Veiu
depois uma trança densa e negra, como a asa da procella que se
inflamma. Uma cintura de sylphide, um collo de cisne, um requebro
seductor, um signal da face, uma graça especial, um _não sei que_;
tudo recebeu culto do nosso leão.

Como um conviva, a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua
alma babujava na salla essas golosinas. Mas afinal embotou-se; e o
prazer não foi para ella mais do que a vulgar satisfação de um
habito.

O moço cortejava as senhoras como uma occupação indispensavel á sua
vida, como o desempenho da tarefa diaria; mas sem a menor commoção.

Amar era um entretenimento do espirito, como passeiar á cavallo,
frequentar o theatro, jogar uma partida de bilhar.

O amor já não tinha novidades nem segredos para elle, que o gozára em
todas as fórmas; na comedia e no drama; no idilio e na ode. Como
Richelieu, diziam até que elle já o havia calcado com o tacão da
bota.

Nestas circumstancias bem se comprehende a impressão profunda que nelle
produzia a mimosa botina, achada naquella manhã.

Almeida tinha admirado a mulher em todos os typos e em todos os seus
encantos; mas nunca a tinha amado sob a fórma seductora de um pésinho
faceiro. Era realmente para sorprender. Como lhe passára desapercebido
esse condão magico da mulher, á elle que julgava ter esgotado todas as
emoções do amor?

Succedeu, como era natural, que uma vez percutidas as energias dessa
alma ennervada por longa apathia, a reacção foi violenta. Inflammou-se
a imaginação e especialmente com o toque do mysterio que trazia a
aventura. Si o dono da botina, o sonhado pésinho, se mostrasse desde
logo, não produziria o mesmo effeito; não teria o sabor do
_desconhecido_, que é irmão do prohibido.

Imagine, quem conhecer o coração humano, a vehemencia dessa paixão,
excitada pelo tédio do passado, e alimentada por uma imaginação
ociosa. De que loucuras não é capaz o homem que se torna ludibrio de
sua fantazia?

As extravagancias de Horacio, contemplando a botina, verdadeiras
infantilidades de homem feito, bem revelavam a agitação dessa
existencia, embotada para o verdadeiro amor, e gasta pelo prazer.

Não se riam, homens serios e graves, não zombem de semelhantes
extravagancias; são ellas o delirio da febre do materialismo que ataca
o seculo.

Essa paixão de Horacio, o que é sinão uma aberração da alma,
consagrada ao culto da materia? A voracidade insaciavel do desejo vai
criando dessas monstruosidades incomprehensiveis.

Succede á esta embriaguez do amor o mesmo que á embriaguez do alcool.
A principio basta-lhe o vinho fino e aristocratico; depois carece da
aguardente; e por fim já não a satisfaz a infusão de gengibre em
rhum; isto é, a lava de um volcão preparada á guisa de grogue.



IV


Ao mesmo tempo que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta
habitação que então occupava na Gloria.

Quando lhe fugira a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e
com os olhos o carro que levava sua alma presa áquelle rosto
encantador. O passo era rapido e o olhar ardente; um anciava por chegar;
o outro quizera attrahir pela força da paixão, pelo iman das centelhas
magneticas, que desferia a alma.

Fosse illusão dos sentidos perturbados pela commoção interior, ou
breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço vêr, no
momento de dobrar o carro pela rua Sete de Setembro, um talhe esbelto
inclinar-se para a frente, e apparecer de relance um rosto alvo, donde
escapou-se vivo e rapido olhar.

Leopoldo não tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro
que fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um
obstaculo qualquer, impedindo por instantes o livre transito, lhe
permittisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém, isso não
succedesse, consolava-o a idéa de conhecer a direcção que tomaria a
linda victoria:

--Si eu soubesse ao menos para que lado mora ella!... Esse ponto seria
o meu horizonte, o meu céo. Me voltaria para ali quando adorasse á
Deus, e quando conversasse com ella. Amaria as estrellas, as nuvens e
até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria as ruas, as
calçadas e até a poeira desse arrabalde da cidade.

O mancebo vagou assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem
destino. Não era tanto a esperança de vêr a moça ou sómente o
carro, como a necessidade de occupar seu espirito, o que o impellia
nessa perseguição de uma sombra.

--Eu tornarei a vel-a, pensava elle comsigo; e ella me ha de amar, tenho
convicção. O amor é um magnetismo; eu acredito que o magnetismo se
resume nelle; que a lei da attracção não é sinão a lei da
sympathia; os polos são a cabeça e o coração, na terra, como no
homem. Si ella fôr a mesma que eu vi com os olhos de minha alma, a
mesma que se revellou á minha paixão, aquella a que devo unir-me
eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei para ella,
como ella para mim, impellidos por uma força mysteriosa, por mutua
aspiração.

Com o animo repousado por essa convicção que nelle se derramára,
entrou Leopoldo em casa. Ahi o esperava o isolamento em que se ia
escôando sua vida, depois da perda de uma irmã á quem adorava.

Nessa irmã tinha elle resumido todas as affeições da familia,
prematuramente arrebatadas á sua ternura; o amor filial, que não
tivera tempo de expandir-se, a amisade de um irmão, seu companheiro de
infancia, todos esses sentimentos cortados em flôr, elle os
transportára para aquelle ente querido, que era a imagem de sua mãi.

Essa perda deixára um vacuo immenso no coração de Leopoldo; a
principio enchera-o a dôr; depois a saudade; agora essa mesma terna
saudade sentia-se desamparada na profunda solidão daquelle coração
ermo. O mancebo carecia de uma affeição para povoar esse deserto de
sua alma; de uma voz que repercutisse nesse lugubre silencio. É tão
doce partilhar sua melancholia, ou seu prazer, com um outro eu, com um
amigo ou uma esposa. São dous hombros para a cruz, e dous peitos para a
alegria; alliviar-se o peso, mas duplica-se o gozo.

Ao cahir da tarde, quando o crepusculo já desdobrava sobre a cidade o
véo de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado á janella de peitoril de sua
casa, fumava um charuto, com os olhos engolphados no azul diaphano do
céo, onde scintillava a primeira estrella. A seus pés desdobrava-se a
bahia placida e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de
montanhas, caprichosamente recortadas.

O espirito do moço não se embebia de certo na perspectiva dessa
encantadora natureza, sempre admirada, e sempre nova. Ao contrario
abandonava-se todo ás recordações de seu encontro pela manhã e aos
enlevos que lhe deixara a contemplação da linda moça. Passava e
repassava em sua memoria como em um cadinho, todas as circumstancias
minimas deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que
assomou a visão até que desappareceu por ultimo ao dobrar o canto da
rua.

Achava nisso o mesmo praser que um menino guloso experimenta em chupar
novamente os favos já saboreados; lá ficou um raio de mel, que o labio
avido colhe. Para Leopoldo esses raios de mel eram os olhares, os
movimentos, os sorrisos da moça, avivados pela maior contensão do
espirito.

Houve uma occasião em que o mancebo quiz representar em sua lembrança
a imagem da moça: naturalmente começou interrogando sua memoria á
respeito dos traços principaes. Como era ella? Alta ou baixa, torneada
ou esbelta, loura ou morena? Que côr tinhão seus olhos?

A nenhuma dessas interrogações satisfez a memoria; porque não
recebêra a impressão particular de cada um dos traços da moça. Não
obstante, a apparição encantadora resurgia dentro de sua alma; elle a
revia tal como se desenhára a seus olhos algumas horas antes. Era a
imagem diaphana de um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.

--Não me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!... murmurava no
intimo. Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: ve-se a
chamma, o esplendor; e nem se repara no espectro que a flamma envolve
como uma roupagem. Ella é minha luz; não sei a côr e a fórma que
tem, mas sei que scintilla, que me deslumbra; que innunda meu ser de uma
aurora celeste. Não poderia descreve-la, como um poeta... Mas que
importa? Pois que eu a sinto em mim; pois que eu a possuo em meu
coração?

As palpebras do mancebo cerrarão-se coando apenas uma restea de olhar,
que se embebia nas alvas espiras da fumaça do charuto. Percebia-se que
naquella nevoa se debuxava á sua imaginação a seductora imagem,
deante da qual elle cahia em extases de uma doçura ineffavel.

--Quem sabe? Talvez não seja ella o que nos bailes se chama uma moça
bonita; talvez não tenha as feições lindas e o talhe elegante. Mas eu
a amo!... O amor é sol do coração; imprime-lhe o brilho e o matiz!
Venus, a deosa da formosura, surgindo da espuma das ondas, não é outra
cousa senão o mytho da mulher amada, surgindo d'entre as puras
illusões do coração! O que eu admiro nella, o que me enleva, é sua
belleza celeste; é o anjo que transparece atravez do envolucro
terrestre; é a alma pura e immaculada que se derrama de seus labios em
sorrisos, e a envolve como a scintillação de uma estrella.

Leopoldo já não estava só na existencia; tinha para acompanha-lo na
esperança essa doce apparição; como para partilhar a saudade tinha a
memoria querida de sua irmã. O coração aproximou as duas imagens;
ligou-as por algum vinculo misterioso; e creou assim uma familia ideal,
em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.

Nas horas do trabalho, o moço absorvia-se completamente nas
occupações habituaes e cerrava sua alma para não deixar que as
miserias do mundo ahi penetrando profanassem o templo de sua adoração;
o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas,
encerrava-se naquelle asylo e ahi vivia.

Alguns dias depois do encontro da rua da Quitanda, o Castro percorrendo
distrahidamente os jornaes da manhã, deu com os olhos sobre os
annuncios de espectaculo, cousa que desde muito tempo não existia para
elle. Representava-se no theatro lyrico a _Lucia de Lamermoor_, o mais
sublime poema de melancolia, que já se escreveu na lingua dos anjos.

O mancebo teve um desejo irresistivel de ir aquella noite ao
espectaculo, apezar de conservar ainda o luto pesado. Não comprehendia
esse capricho de seu coração; attribuiu ao encanto das reminiscencias
daquella musica tão triste, e tambem daquelle amor tão estremecido,
que os homens quizeram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no
tumulo. Elle ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto,
profanação de uma dôr santa.

Eram perto de dez horas: cantava-se o final do segundo acto da opera, e
Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente
absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirate. Um momento, porém,
ergueu os olhos, e volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote da
segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se escapava de sua
pupilla illuminou-se de fogos sombrios e ardentes.

Vira a mulher amada.

Amelia estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração; a mulher
bella tem, como o homem de intelligencia, em certos momentos,
influições energicas de poesia; nessas occasiões ambos irradiam; a
mulher fica esplendida, o homem sublime.

O talhe esbelto da moça desenhava-se através da nivea transparencia de
um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe a
fronte o diadema de suas bellas tranças, donde resvalavam dois cachos
soberbos, que brincavam sobre o collo. Os cabelleireiros chamam esses
cachos de arrependimentos, _repentirs_. Por que motivo? A alma que se
arrepende convolve-se daquella fórma; o pezar a confrange. Já se vê
que os cabelleireiros tambem são poetas.

Não foi, porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios de
suas fórmas gentis, o que arrebatou o espirito do mancebo. Elle só viu
a luz, o brilho d'alma, rarejando do sorriso. Contemplava a rosa,
embebia-se nella, sem contar-lhe as petalas.

Amelia, que apoiava o lindo braço sobre a almofada de velludo da
ballaustrada, prestava attenção á scena, recolhendo ás vezes a vista
para discorrel-a vagamente pelos camarotes fronteiros. Depois que o
panno cahiu, conservou-se na mesma posição, conversando com sua mãi
e Laura que ali estava de visita. Então voltou rapidamente o rosto, e
deixou cahir sobre a platéa um olhar subito e vivo. Foi uma centelha
electrica, listrando no espaço, para logo apagar-se.

Revelou-se no semblante da moça alguma inquietação e visivel
incommodo. Quiz disfarçar, mas afinal ergueu-se, para occultar-se no
interior do camarote, por detrás de Laura, a qual occupava o outro
logar da frente.

O olhar que deitára á platéa encontrou o olhar profundo e ardente de
Leopoldo; e batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu como
estylete para feril-a no coração.

Leopoldo notou vagamente esse movimento; mas como entre a columna e o
busto de Laura elle via a sombra da mulher a quem amava, não se
interrompeu seu enlevo. De vez emquando passava-lhe pelo rosto um
lampejo subtil, no qual presentia o olhar furtivo da moça.



V


Estava a subir o panno.

Amelia resolvêra ficar onde estava, e não tomar o logar da frente,
apezar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa resolução, tão
solidamente calcada em seu coração, cahiu de repente: bastou um olhar.
Vira na platéa, encostado á balaustrada da orchestra, um elegante
cavalheiro.

Era Horacio.

O sorriso brando que manava dos labios da moça, como a onda pura e
christalina de um ribeiro, desappareceu então sob outro sorriso mais
brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso da
vaidade, como o outro era da innocencia.

A moça collocou-se na frente, fazendo realçar com a graça de seus
movimentos a suprema elegancia do talhe. Demorou-se mais do que era
preciso nesse acto; e sentando-se, houve em seu corpo um impulso quasi
imperceptivel de mysteriosa expansão. Dir-se-hia que ella se queria
debuxar no quadro illuminado do camarote.

A causa desse elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu
binoculo de marfim; e a moça com um irresistivel assomo de faceirice
abandonava-se ao olhar do mancebo.

Durante o acto, Amelia distrahiu mais a attenção do semblante pallido
de Leopoldo. Enleiava os olhos na figura elegante de Horacio; prendia-se
ao fino buço negro que sombreava o labio desdenhoso do leão;
embebia-se toda na graça de sua attitude: tentando assim resistir a
curiosidade incommoda que attrahia sua attenção para o importuno
desconhecido.

Não sei porque, Leopoldo, cuja adoração era infatigavel como a
emanação de uma chamma perenne, sentia naquella occasião a
necessidade de dar um repouso a sua contemplação. Então como si a luz
que o deslumbrava se fosse tornando mais doce, elle pôde vêr
destacar-se o perfil gracioso da moça.

--Tem o cabello castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem amasse
algum dia, havia de ser loura. É a côr do reflexo da luz, deve ser a
côr desse véo casto que Deus fez para o pudôr. A madeixa foi dada á
mulher para recatar a face que enrubece e o seio que palpita; essa gaza
preciosa deve ser de ouro, ou antes de graça e esplendor.

O moço já não olhava para Amelia; com as palpebras cerradas estava
agora vendo-a na penumbra d'alma.

--Mas para mim é indifferente que tenha o cabello castanho; podia
têl-o negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essencia pura e
immaculada! Si Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha
afflicção; para amparar-me em meu isolamento; para encher de
ineffaveis jubilos meu ser saturado de amarguras; posso eu queixar-me
porque o Senhor o vestiu de uma simples tunica de lã, e não de um
sumptuoso manto de ouro? Eu gostava dos cabellos louros: pois agora só
gosto, só quero, só vejo uns cabellos castanhos, porque pertencem a
ella, s'impregnam de seu perfume, e respiram seu halito!

Terminára o acto. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez
lembrou-se de saber quem era, na sociedade, aquella mulher que lhe
pertencia pelo pensamento. Tinha-se habituado a consideral-a como uma
cousa sua; parecia-lhe que ninguem mais existia sinão elles dois.

Volveu os olhos em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a
pergunta. Não encontrou: mas ao cabo de alguns instantes descobriu o
leão em seu posto.

--Ah! lá está Horacio, que póde me informar. Elle conhece todo o
mundo! Justamente agora pôz o binoculo para o camarote.

Como desejava sahir, dirigiu-se para aquelle lado; mas o leão, inquieto
e preoccupado, sahira açodadamente, e subia de um pulo as escadas que
o separavam da segunda ordem.

--Aquella mão é irmã do meu adorado pesinho! Não tem a graça delle,
sem duvida, nem se compara com aquelle mimo de amor; mas ha um certo ar
de familia, um quer que seja!...

Assim cogitando, Horacio chegára á porta de um camarote, e pela fresta
fitára com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente
pequena, e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar o
binoculo de madreperola.

O moço, apenas reconheceu o vestido de seda violeta, e a mãosinha que
lhe servira de phanal, abaixou o olhar para a fimbria do vestido a vêr
si descobria alguma cousa, o peito, a ponta, a sombra, ao menos, do
pesinho mimoso, do idolo de sua alma. Mas não foi possivel: o vestido
arrastava no chão; nenhum movimento fazia ondular a seda; e comtudo o
mancebo ali ficou immovel, palpitante de emoção, como si esperasse dos
labios da mulher amada o monosyllabo que devia dicidir de seu destino.

A paixão que o mancebo concebêra pela dona incognita da botina achada,
longe de se desvanecer, adquirira uma vehemencia extrema. Horacio, o
feliz conquistador, o coração fogoso e inflammavel, nunca ardêra por
mulher alguma, como agora ardia por aquelle pesinho idolatrado. Era um
verdadeiro amor de leão, terrivel e indomito; era um delirio; uma
raiva.

Seus amigos já não o reconheciam; elle apparecia nos bailes, nos
theatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro, seguindo
após uma idéa fixa, ou uma sombra que fugia diante de seus passos.
Conversou-se muito na rua do Ouvidor á este respeito. Uns attribuiam o
facto inaudito á primeira derrota.

--Horacio, dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser
derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!

--Que pensa então?

--Que o pobre rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa
ahi com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.

Outros lembravam-se de algum desarranjo de fortuna, ou de alguma
velleidade politica, para explicar o mysterio. Mas sabia-se que o moço
tinha bom e seguro rendimento; e quanto á politica, elle a comparava a
uma embriaguez causada pela mais ordinaria zurrapa de taberna.

Muitas vezes disse, gracejando, a seus amigos:

--Quando me quizer embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É
mais fino, e tambem mais barato, porque não deixa uma irritação de
estomago, cujo preço é muito superior ao de uma caixa de melhor
_cliquot_.

A causa real da mudança do leão ninguem, pois, a sabia, nem a
suspeitava.

Depois da achada da botina, sua vida tomara um aspecto muito differente.
Naquella mesma tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo,
terminado o jantar, mandou apromptar o tilbure e voltou á cidade. Seu
apparecimento áquella hora na rua do Ouvidor causou extranheza; um
leão de raça, como elle, não passeia ao escurecer, sobretudo no
centro do commercio, onde só ficam os que trabalham. Seria misturar-se
com os leopardos que aproveitam a ausencia dos reis da moda, para
restolhar alguma caça retardada.

Correu Horacio todas as lojas de calçado á procura de informações.
Para disfarçar sua paixão, inventou uma aposta, como pretexto á sua
curiosidade. A um freguez como elle não se recusava tão pequeno favor,
sobretudo quando levava o sainete de uma anecdota de bom tom. A todos
elles o leão se dirigia mais ou menos nestes termos:

--Fiz uma aposta com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se
encontram tres moças de 18 annos que calcem n. 29. Tenho todo o empenho
em ganhar a aposta, não tanto pelos botões de punho, como porque, si
ella perder, ha de ser obrigada a mostrar-me seu pé, para eu verificar
si é realmente desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das
freguezas a quem costuma vender calçado deste numero.

Nesta pesquiza gastou Horacio muitos dias, sem colher o menor resultado.
Os poucos pares de calçado n. 29, vendidos pelas differentes lojas,
eram destinados á meninas de doze annos ou a pessoas desconhecidas,
cuja idade se ignorava. Apezar de tudo o leão não desanimava; todas as
manhãs, ao acordar, levantava um plano de campanha, que punha em
pratica durante o dia.

Horacio sentira-se de repente tomado de indefinivel ternura por uma
classe; de que antes só lembrava-se para amaldiçoal-a: a classe dos
sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro e sovella, o leão
sentia-se attrahido para aquelle individuo, que talvez encerrasse o
segredo de sua felicidade, seu futuro, sua existencia. Outras vezes,
porém, tinha de repente uns accessos de ciume selvagem. Lembrando-se
que esse operario talvez já houvesse tomado medida ao adorado pésinho;
que essas mãos calosas teriam tocado a cutis assetinada do anjo de seus
pensamentos; o mancebo sentia em si o furor de Othello e procurava um
punhal no seio; felizmente só achava a carteira, a adaga de ouro com
que neste seculo se assassina mais cruelmente.

Depois de consumir as horas em suas indagações, ia contemplar a
botina, prenda querida de seu amor e proseguia á noite sua porfia
incansavel. Corria os espectaculos e bailes, com o olhar rastejando para
descobrir por baixo da orla do vestido, o ignoto deus de suas
adorações. Não dansava para observar melhor o arregaçado dos
vestidos; de ordinario andava pelas escadas e portas, afim de aproveitar
o ensejo da subida e descida; muitas vezes ia fumar junto ao logar onde
se collocavam os lacaios, na esperança de conhecer o portador da
botina.

Quando as rainhas da moda, as deusas do salão, sorprezas e attonitas o
viam passar sem distinguil-as com uma palavra ou uma fineza, elle,
atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia comsigo:

--Coitadas! não sabem que o leão viu a pata da gazella e fareja-lhe o
rastro. Que lhe importam as garras da panthera?...

Recolhendo, Horacio accendia duas velas transparentes e collocava-as a
um e outro lado da almofada de velludo escarlate, sobre uma mesinha de
charão, embutido de madreperolas. Tirava de um elegante cofre de
platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a
almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa fórma do pé
que habitara aquelle ninho de amor.

Então accendia o charuto, sentava-se n'uma cadeira de espreguiçar,
defronte, porém, distante, para que o fumo não se empregnasse na
botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.

Sobre aquella botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de
estatua, mas vago, indistincto; e comtudo esse esboço sem fórmas
seductoras, aquella sombra sem alma e sem calôr lhe parecia de uma
belleza deslumbrante. Não era ella a mulher a que pertencia o mais
formoso pé do mundo, o mimo, a obra prima da natureza?

Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas
senhoras a quem amára com paixão, e sua memoria as trazia todas, uma
após outra, para as collocar ao lado daquella figura vaga e
desvanecida, que plainava sobre a almofada, como sobre uma nuvem de
ouro. Como ellas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso
desdêm!

--Não são dignas, murmurava elle, nem de beijarem o chão pisado pela
fada desta botina!

Eis qual tinha sido a vida de Horacio até o momento em que o vamos
encontrar no mesmo logar defronte da porta entreaberta do camarote.
Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A attenção do rei
da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.

Fitando com mais força o olhar na pupilla da moça como para travar-lhe
da vontade, Horacio abaixou lentamente esse olhar até a fimbria do
vestido de chamalote com uma insistencia significativa. Laura fez-se
escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtrahiu ás
vistas ardentes do leão.

--É ella! exclamou o coração do mancebo afogado em jubilo. Não ha
duvida. Para sentir esse pudor exagerado e incomprehensivel é preciso
ter ali occulto um pé como aquelle que eu sonhei. Um pé?... Não; um
mimo, uma maravilha, um thesouro, um céo!... É o pudor da violeta, que
se esconde na sombra; é o pudor da perola, occulta na concha; é o
pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrella,
immergindo-se no azul.

O leão desceu as escadas murmurando:

--Vêl-o e morrer.

Pouco depois terminou o espectaculo. Amelia com um resaibo de
melancholia na fronte, embuçou-se na pellissa e desceu. Ella perdêra
de vista Horacio, e só o tornára a vêr parado em frente á porta do
camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, soffrêra
todo o resto do espectaculo o desassocêgo que lhe incutia o olhar de
Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto sentia a phosphorecencia
estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, máo grado
seu.

Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando
avistou a seu lado Horacio. O leão soffrego e impaciente, volvia o
olhar em varias direcções; naturalmente procurava alguem, e receiava
que lhe escapasse.

--Adeus, Horacio.

--Boa noite, Leopoldo.

Amelia appareceu nesse momento.

--Conheces aquella moça, Horacio?

--Qual?... Espera!

Horacio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada opposta, e
corrêra pressuroso, com os olhos fitos na fimbria de sêda. Seu olhar
tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido.
Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estôfo arrastava pesadamente
pelo chão.

Chegou a moça á porta, onde o carro a esperava. Horacio teve um
vislumbre de esperança; porém nova decepção o esperava. Não viu
mais do que uma nuvem de sêdas ondular e sumir-se.

O leão fez um movimento de desespero.

--Senhor! porque em vez de homem, não me fizeste estribo de um carro!
Teria a felicidade de ser pisado por aquelle pesinho.



VI


Seriam duas horas da tarde.

Durante a manhã tinha cahido sobre a cidade uma forte neblina, que
molhára as calçadas.

Leopoldo dirigia-se á casa, pela rua dos Ourives. Naturalmente vinha
pensando na desconhecida, que não vira desde a noite do theatro. Sua
paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da
propria seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor.

Á pequena distancia do canto da rua do Ouvidor, viu elle de repente a
moça que passava na companhia de outras pessoas. Amelia voltára o
rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela
estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo.

Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo tambem se apressou
para acompanhal-a; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em
sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante victoria que
já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de
subir, levantára demais a saia.

Sem consciencia do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro.
O lacaio que a fechava nesse momento, embargou-lhe o passo. Quando o
carro partiu na direção de São Francisco de Paula, Amelia inclinou-se
e lançou de esguelha um olhar vivo para a esquina.

Leopoldo ficára na calçada immovel e extatico de sorpreza.

O pé que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um
aleijão. Ao tamanho descommunal para uma senhora, juntava a
disformidade. Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais uma
base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo o pé de
uma moça.

Os traços especiaes da beleza de Amelia não tinham deixado na memoria
de Leopoldo a minima impressão, da primeira vez que a vira, apesar de
contemplal-a demoradamente. Entretanto o defeito não lhe escapou,
embora passasse de relance diante de seus olhos.

Parece uma singularidade; mas não é. Ninguem conta as petalas da flôr
que admira; ninguem repara na fórma especial de cada uma das partes de
que se compõe um todo gracioso; porém a menor mácula se destaca
immediatamente.

É por isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a gente
sisuda e honesta, fazem-se nodoas da sociedade; tornam-se vicios e
torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não obteriam com sua
virtude ambigua e seu mesquinho talento.

O Castro, que não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e
desgostou-se della. Elle sentia-se com forças para amar o feio e o
desgracioso, mas não o disforme, o horrivel. Essa aberração da figura
humana, embora em um ponto só, lhe parecia o symptoma, senão o
effeito, de uma monstruosidade moral.

Triste, acabrunhado por pensamentos acerbos, o moço continuou seu
caminho pela rua dos Ourives em direcção á casa. Mal havia andado
alguns passos, arrependeu-se; não queria levar á sua habitação esse
primeiro transbordamento de um dissabor tão profundo; era melhor
deixal-o escoar-se, antes de recolher á solidão habitual. Si tivesse
alguma cousa a fazer! Qualquer occupação bem aborrecida e massante,
que lhe servisse de antidoto ao desgosto intimo!

Excogitou. Havia ali perto, na rua Sete de Setembro, uma pequena loja de
sapateiro, ou antes uma tenda; porque além do balcão via-se apenas uma
tosca vidraça, contendo a obra de tres officiaes que ahi trabalhavam.

A loja pertencia a um mestre fluminense, que trabalhára por algum tempo
na casa do Guilherme e do Campàs, e se iniciára portanto em todos os
segredos da arte. Ninguem a exercia com mais habilidade, esmero e
enthusiasmo do que elle; sua obra, quando queria, não tinha que invejar
ao producto das melhores fabricas de Pariz, si não o excedia na
elegancia e delicadeza.

A razão cardeal de toda a superioridade humana é sem duvida a vontade.
O poder nasce do querer. Sempre que o homem applique a vehemencia e
perseverante energia de sua alma á um fim, elle vencerá os obstaculos,
e si não attingir o alvo, fará pelo menos cousas admiraveis. Mas para
que o homem se entregue assim á uma idéa e se captive á um
pensamento, é necessario ser attrahido irresistivelmente, ser impellido
pelo enthusiasmo.

É o enthusiasmo que faz o poeta e o artista, o sabio e o guerreiro; é
o enthusiasmo que faz o homem-idéa differente do homem-machina. A
fabula de Prometheo não exprime sinão a allegoria desse fogo celeste
d'alma, que anima as estatuas de Galathea, embora depois dilacere o
coração como a aguia do rochedo. Uma faisca dessa electricidade moral,
opera maravilhas iguaes á centelha do raio. O que é o telegrapho a par
com a eloquencia?

O Mattos tinha o enthusiasmo de sua arte; descobrira nella segredos e
encantos desconhecidos aos mercenarios. Para elle o calçado era uma
esculptura; copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso
e marmore. Os outros artistas da fórma reproduzem todo o vulto humano
ou pelo menos o busto; elle só tinha um assumpto, o pé. Mas que
importancia não tomava á seus olhos esta parte do corpo! Era preciso
ouvil-o, em algum momento de arroubo, para fazer idéa de sua
admiração por esse membro nobre da creatura racional.

Depois de trabalhar muitos annos em casas francezas, o mestre fluminense
resolveu estabelecer-se por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas
portas, onde trabalhava com dois officiaes. A necessidade de ganhar o
pão o obrigava á tornar-se mercenario, fazendo obra de carregação
para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha elle suas
delicias de artista. Meia duzia de freguezes, conhecedores da habilidade
do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor de Pariz, e o pagavam
generosamente. Essas raras encommendas, o Mattos as executava com
enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.

Leopoldo não era um freguez da ultima classe; elle não conhecia a
voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato; seu pé
não era um _enfant gaté_, um benjamim acostumado á essas delicias;
desde a infancia o habituára á uma vida rude e austera entre a sola
rija e o bezerro. Além de que seus haveres não chegavam para taes
prodigalidades.

O moço pertencia á classe dos freguezes da obra de carregação, e
preferia a loja do Mattos, pela modicidade do preço, e boa qualidade do
cabedal, como do trabalho.

Que mysteriosa associação de idéas trouxera á lembrança de Leopoldo
naquelle momento a tenda do sapateiro; e por que motivo se dirigiu elle
para ali onde estivera na vespera, e não para qualquer outro logar, em
que poderia melhor espancar seu dissabor?

O motivo nem elle mesmo o sabia naquelle instante.

--Bom dia! As botinas estão promptas? disse entrando.

O Mattos, que attendia á alguns freguezes perto da vidraça, olhou-o
sorpreso:

--Não disse hontem a V. S. que só para o fim da semana?

--É verdade!

--Tinha entre mãos esta encommenda. Mas já acabei; agora posso ajudar
os companheiros.

O Mattos indicára alguns pares de calçado que estavam no mostrador
sobre folhas de papel, e promptos a serem embrulhados.

Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra
acabada, com a distrahida curiosidade de quem deseja esperdiçar alguns
momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer.
Era trabalho fino do mestre, e comtudo não excitaria grande attenção
da parte do moço, si não fosse um par de botinas de senhora já usadas
e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no
comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe
reparo.

Na vespera quando viera á loja, casualmente observára a obra que o
Mattos estava acabando. Vendo ha pouco na rua do Ouvidor o pé
monstruoso da moça, tivera uma confusa e tenue reminiscencia das
botinas da loja. Fora esse o fio mysterioso que o conduzira
insensivelmente áquella casa. Agora comprehendia a encadeação: a
botina monstro pertencia sem duvida ao pé aleijão.

Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça,
ainda alimentava uma duvida, que pretendia cevar com todas as subtilezas
e argucias de seu espirito. Talvez elle visse mal; talvez a sombra, o
estribo do carro, qualquer outro objecto o tivesse illudido. O aleijão
só existia em sua imaginação; fôra um desvario dos sentidos. Com
effeito, como suppôr que uma senhora podesse andar graciosamente com
semelhante pata de elephante?

Mas as botinas ahi estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor
duvida. O pé disforme existia; era aquelle o seu molde, o seu corpo de
delicto, e por elle se podia vêr quanto devia ser horrivel a realidade.
Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciaes que lhe tinham
escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tuberculo;
não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era
uma posta de carne, um cepo!

Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva,
havia outra obra que chamára a attenção do mancebo por sua
singularidade. Á primeira vista, era um volume semelhante ao das
botinas monstruosas, embora de linhas regulares: parecia uma ligeira
almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito
elegante apezar de comprida. O tubo cinzento ficava occulto sob frocos
de setim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas
hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé
até o calcanhar.

Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; emquanto a outra já estava
sem ella. Naturalmente o Mattos procedia áquella operação quando foi
distrahido pelos freguezes e compradores: deixára-a pois em meio,
deitando em cima da obra, para encobril-a, uma folha de papel.

A fôrma não podia passar desappercebida ao observador. Vendo pouco
antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exacto do
pé monstruoso, que elle avistára. Enganara-se; a botina era já o
disfarce, a mascara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrivel
nudez, no grosseiro tôco de páo, cheio de buracos e protuberancias.

Mas si essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou
insensivelmente seu espirito á apreciar pela primeira vez a
superioridade do Mattos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, e
o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a
monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto o mestre fluminense
conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a
apparencia de uma botina elegante.

A almofada sobre que parecia descansar a botina era um solado alto,
porém occo, onde as carnes molles do pé monstruoso, comprimidas pela
botina superior, podiam abrigar-se.

Os frocos de setim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e
desvaneciam as protuberancias osseas, com muita delicadeza, sem avolumar
o tamanho do cothurno. Na sola negra se debuchava, em proporção á
botina superior, a alva palmilha, com seus contornos harmoniosos; de
modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o
tamanho do calçado.

Acabára o Mattos de aviar os freguezes, e chegando-se para o balcão,
incommodou-se com vêr o moço a observar a obra; ia talvez
interrompel-o rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão
viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado com esse elogio
tão eloquente em sua mudez; e á contrariedade succedeu a satisfação
do amor proprio.

Foi Leopoldo, que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se
do balcão, receiando ter sido indiscreto. Ia sahir, quando entrou na
loja um lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo
o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira de chegar á
portinhola do carro, na rua do Ouvidor.

--Ah! exclamou o Mattos, avistando o criado. Está quasi prompto.

--Não posso esperar! replicou o lacaio com a insolencia do rafeiro de
casa rica.

--É só embrulhar.

Leopoldo disfarçava; fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu
de esguelha o sapateiro tirar a fôrma da outra botina, bater o ponto e
dar o ultimo polimento á sua obra; feito o que arranjou o embrulho.

--Está bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já se
perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa.

--Não tenha susto; desta vez está bem seguro; respondeu o Mattos.

Foi-se o lacaio; e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza,
despediu-se, arrependido de ter ido á loja. Que saudades tinha da sua
duvida!

--A duvida, pensava elle, é ainda um raio de esperança!



VII


A esse tempo Horacio, sentado em uma poltrona na casa do Bernardo,
fumava o seu _conchita_, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho
fronteiro, á espreita do menor vulto de mulher.

O leão pensava:

--Choveu; as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que tendo um
pé mimoso e uma perna bonita não aproveita um destes dias para
atravessar a rua do Ouvidor? Si deixarem escapar estes pretextos de
mostrar semelhantes maravilhas, morrerão ellas desconhecidas, apenas
vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas, porque a admiração é
sentimento que precisa da luz plena, da grande expansão. Si a Venus de
Praxisteles existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua
belleza não excitaria em minha alma o menor enthusiasmo.

Nessa occasião Amelia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a
cortezia do leão, a quem respondeu com um sorriso amavel. Parando na
vidraça, achou ella pretexto para entrar; e comprou uma galanteria.
Durante esse tempo Horacio recebeu por diversas vezes o olhar e o
sorriso da moça.

Acompanhando com a vista o passo airoso e subtil de Amelia, Horacio
exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:

--Que passo gracioso! É o andar da garça!

Estas palavras foram ditas em voz bastante alta, para que a moça
ouvisse; um ligeiro estrecimento que se notou na suave ondulação do
talhe revelou que o leão lográra seu desejo. A moça ouvira com
effeito a fineza.

Recostado de novo na poltrona o leão continou a pensar:

--Realmente, que elegancia no andar! Eu seria capaz de apostar que esse
andar era do pésinho, do meu adorado pésinho, si já não tivesse
descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!... O criado me disse
que ao meio-dia, e é quasi uma hora! Terá mudado de resolução?...
Não duvido; com aquelle zêlo feroz que tem por sua joia, talvez não
quizesse vir para não ser obrigada a mostral-o. Um avaro não fecha com
mais cuidado a burra, do que ella esconde seu thesouro. Que peccado!
Subtrahir ao mundo essa maravilha que Deus fez para ser admirada! Ah! eu
desejava ser uma nação; assim como ha demonios-legiões, por que não
podem haver homens-povos? Si o fosse, daria um throno á essa mulher,
sómente para que ella instituisse o _beija-pé_. Como eu seria
cortezão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas de subdito!

O mancebo sobresaltou-se; vira uma sombra que assomava no espelho
fronteiro. Era Laura.

Que devia fazer? Correr á porta para ser visto pela moça ou deixar-se
ficar na poltrona para melhor descobrir o pé adorado?

A attitude do leão revelava a hesitação de seu espirito; com o corpo
lançado á frente parecia fazer um esforço para se conservar sentado.
Laura, que de seu lado já o tinha avistado no espelho, ficára em um
estado de perturbação indizivel.

--Que tem prima? perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.

--Nada! balbuciou a moça.

A principio Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se
avançou com affouteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem
volver um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na
poltrona, não logrou vêr cousa alguma; a senhora arrastava a fimbria
do vestido pela calçada coberta de lama, com o mesmo descuido que teria
si caminhasse sobre rico tapete.

--Está zangada commigo; está furiosa! Desde a noite do theatro que
não me póde vêr; e parece que preparou-se para o assalto, porque
achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente defendidas. A
mucama é uma Gorgona, o porteiro um Cerbero; apenas consegui abrandar o
moleque, porque é um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio
que a leôa da floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual á
desta leôa de sala. Parece incrivel; mas eu conheço de quanto é capaz
a vaidade da mulher. Todo este furor não é mais do que um assomo de
faceirice; percebeu que estou apaixonado pelo pésinho mimoso, e quer-me
trazer atado como um captivo á seu carro de triumpho. Realmente uma
moça bonita não póde ter maior satisfação; vêr-me a mim, Horacio
de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se
humilde, não á seu olhar, á seu sorriso, á belleza de seu rosto, ou
á graça de seu talhe, mas á planta de seus pés divinos! Fazer-me
tapete de seus passos!... Que póde mais desejar a rainha dos salões
fluminenses?

O moço mordeu a ponta do bigode negro, e ficou alguns instantes muito
pensativo.

--É preciso mudar o plano de ataque! Comecei á maneira do Cesar,
atacando com impetuosidade. Vou contemporisar conforme a escola de
Fabio; simúlo uma retirada; o inimigo avança, eu o envolvo; corto-lhe
a retirada, e elle rende-se. Arraso o Humaitá daquelle vestido que
defende o meu pésinho adorado como uma casamata. A indifferença é a
serpente tentadora da mulher.

Em consequencia destas reflexões, Horacio deixou-se ficar onde estava,
e não seguiu a moça. Quando suppôz que ella já ia distante, foi
procurar algures, em um bilhar o preservativo contra a tentação de
cortejal-a, ou antes a seu pésinho.

--Ella hade reparar no meu eclipse! murmurou com certa confiança.

Entretanto, Laura, descendo a rua do Ouvidor, encontrára pouco adiante,
na casa do Masset, Amelia em companhia da mãi. As duas amigas não
podendo vir juntas tinham ajustado seu encontro para aquelle ponto. O
primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu itinerario pelas
differentes lojas e casas de modas.

Ao cabo de duas ou tres horas, tomaram o carro que estava parado proximo
á rua dos Ourives e partiram na direcção do Cattete. A poucos passos
d'ali, Amelia perguntou ao lacaio sentado na almofada:

--Trouxe?

--Sim, senhora; está ahi dentro.

--Bem!

O carro aproximava-se do largo da Lapa, quando Amelia disse:

--Podiamos ir agora ao _Passeio Publico_?

--Tão tarde! replicou Laura.

--Deixa-te disso! observou a mãi da moça.

--Porque, mamãi? Ha tanto tempo que lá não vamos.

--Não ha nada de novo.

--Ora eu queria vêr a garça. Ainda não a vi.

--Viste sim!

--Mas não reparei n'uma cousa!...

--Em que!

--Uma cousa. Depois direi.

Tanto insistiu que a mãi cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro
que chegasse até o portão do _Passeio Publico_. As senhoras
desappareceram na curva de uma das alamedas do parque, em direcção ao
lago. Amelia queria vêr o andar da garça, que Horacio tinha comparado
ao seu.

Nessa occasião passava o tilbure do nosso leão, que vinha do lado da
Ajuda. Um atropêllo, produzido por uma gondola mal conduzida, ia
atirando o tilbure sobre o carro parado no portão do _Passeio Publico_.
Este incidente chamou a attenção do moço para o cocheiro, que
derreado sobre a almofada não se movêra.

A memoria apresenta ás vezes um phenomeno curioso; conserva por muito
tempo occulta e sopitada uma impressão de que não temos a menor
consciencia. De repente, porém, uma circumstancia qualquer evoca essa
reminiscencia apagada; e ella resurge com vigor e fidelidade.

Foi o que succedeu a Horacio. Minutos antes por maiores esforços que
fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da botina
perdida, não o conseguiria de certo. Entretanto bastou-lhe vêr a roupa
do cocheiro, para acodir-lhe immediatamente ao espirito a imagem
desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes na rua da
Quitanda; não havia duvida.

O leão mandou parar o tilbure e entrou no Passeio Publico; depois de
percorrer inutilmente varias alamedas, afinal descobriu entre as
arvores, alem do lago, as ondulações dos vestidos de algumas senhoras
acompanhadas por um lacaio, e tomou apressadamente aquella direcção.

O terreno estava humido da chuva da manhã; e por isso o pé dos
passeiadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das
alamedas. Notando esta circumstancia, Horacio procurou o vestigio de
alguma botina irmã da que achara, e guardava como uma reliquia; ficou
ebrio de contentamento reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo
que deixara no chão o mimoso pésinho.

Si não fosse o anhelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona
incognita do thesouro, Horacio se houvera ajoelhado e beijára o rasto
da fada de seus amores. Mas as senhoras caminhavam rapidamente para o
portão.

Por mais que se apressasse o leão, chegando á sahida, apenas viu o
carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer Amelia, que
lhe sorriu e inclinou-se para acompanhal-o com os olhos.

--É ella! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. A pouco, vendo-a
passar pela rua do Ouvidor, tive um presentimento! Aquelle andar cheio
de graça não podia enganar.

No dia seguinte o leão fez-se apresentar ao pai de Amelia, abastado
consignatario de café, estabelecido á rua Direita. O encontro deu-se
na praça do commercio. Horacio ahi foi á pretexto de comprar apolices;
e um amigo, corretor de fundos, prestou-lhe aquelle serviço. O
negociante offereceu a casa ao moço que acceitou a fineza com effusão
de contentamento.

O Sr. Salles Pereira habitava nas Larangeiras uma bella chacara. Amelia
era filha unica, e seu dote, convertido em cem apolices, só esperava o
noivo. Quanto á mulher, tinha uma boa pensão instituida no montepio
geral. Seguro assim o futuro, vivia o negociante com certa largueza,
economisando pouco ou nada de seus lucros annuaes.

Quando Horacio teve conhecimento destas particularidades domesticas,
sorriu.

--Bem! O meu pésinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com
luxo!

A primeira vez que Horacio visitou a familia de Pereira Salles,
encontrou Laura na sala; a moça fôra passar a noite com a amiga, e
conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e instantes
depois, inventou um pretexto para retirar-se, apezar das instancias de
Amelia.

Horacio pouca ou nenhuma attenção deu á mudança que se tinha operado
em Laura, e sua retirada repentina. Desde que a moça não era a dona
feliz do mais lindo pé do mundo, tornava-se para elle uma creatura
indifferente; tanto mais quanto sua alma estava ali de rojo beijando a
fimbria de seda, que lhe occultava o tão anciado thesouro.

Em Amelia, varias impressões produziu a apresentação do moço. No
primeiro momento acreditou que o leão viera attrahido por ella; mais
tarde, lembrando-se do theatro, suspeitou que fosse apenas um meio de
aproximar-se de Laura; finalmente occorreu-lhe que podia não passar de
um encontro casual de seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horacio.

Suas duvidas porém se dissiparam poucos dias depois.

Uma noite a moça, impellida por um movimento de faceirice, soltou estas
palavras, no meio de uma conversa com o leão.

--Laura está uma ingrata! Ha tanto tempo que não vem passar uma noite
commigo.

Ao mesmo tempo fitava os olhos no moço, para vêr a expressão de sua
physionomia.

--É uma fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração, respondeu
Horacio.

--Uma fineza?... perguntou Amelia presentindo laivos de ironia.

--Quando sua amiga está aqui, a senhora sem duvida não a deixa?

--É muito natural.

--Já vê pois que eu tenho razão. Si ella viesse...

--Diga.

--Eu teria ciumes, D. Amelia.

A moça corou.

--Pois amanhã Laura ha de passar a noite commigo.

Estas palavras foram ditas com o estouvamento da menina, que procura
disfarçar um prazer, sob a mascara da contrariedade. Mas a mascara é
tão risonha, que não illude.

--Quer-me tanto mal assim? perguntou Horacio. Não admira; uma paixão
ardente e impetuosa como eu sinto pela senhora, não devia ter outra
sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz; não ha mulher que
o comprehenda.

Amelia com as faces á arder não sabia que fizesse; sua mão tremula
brincava com as flôres de um vaso, que vacillou sobre o consolo e cahiu
no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se, chamou a attenção
das pessoas que estavam na salla; assim rompeu-se o enleio de Amelia.

A moça retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois
entrou de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuráram
Horacio, para offerecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos labios.

Esse sorriso dizia em sua eloquencia muda o seguinte:

--Si nunca a mulher soube comprehender o verdadeira paixão, serei eu a
primeira.

Foi esta pelo menos a traducção de Horacio, perfeito philologo do
amor, e habituado a decifrar esses hyeroglyphos dos labios da mulher.



VIII


Não abandonemos o pobre Leopoldo á sua amarga decepção.

O moço chegára á casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre elle
derramaram os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amelia não
lhe causasse tamanho pezar, como o daquella cruel decepção que estava
presentemente curtindo.

O aleijão excita geralmente uma invencivel repugnancia, repassada de
terror. A aberração da fórma humana abate o orgulho do bipede
implume, fazendo-o descer á baixo do ourangotango. Ao mesmo tempo, é
ameaça viva á uma das mais caras aspirações do homem; a esperança
de renascer em outra creatura, gerada de seu ser. Si a fatalidade pezar
sobre a prole querida?

Imagine-se que dôr era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de
repente para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada, da
virgem de seus castos sonhos?

O contraste sobretudo era terrivel. Si Amelia fosse feia, o senão do
pé não passára de um defeito; não quebraria a harmonia do todo. Mas
Amelia era linda, e não sómente linda; tinha a belleza regular, suave
e pura que se póde chamar a melodia da fórma. A desproporção
grosseira de um membro tornava-se, pois, nessa estatua perfeita, uma
verdadeira monstruosidade. Era um bérro no meio de uma symphonia; era
um disparate da natureza; uma superfetação do horrivel no bello. Fazia
lembrar os idolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação doentia do
povo reune em uma só imagem o symbolo dos maiores contrastres.

Nessa angustia passou Leopoldo o resto daquelle dia e os que se lhe
seguiram.

--Não amo a sua belleza material, oh, não! pensava o mancebo. O que eu
adoro nella é a belleza moral, a alma nobre e pura, a creatura celeste,
a luz, o anjo. Qualquer que fosse o envolucro de seu espirito
immaculado, creio que havia de adora-la tanto, como a adorei desde o
momento em que primeiro a vi.

«Fosse ella feia para os outros, que chamam formosura o que lhes
encanta os sentidos; para mim seria sempre bella, porque meus olhos
haviam de vê-la através de seu esplendido sorriso. O que é o corpo
humano no fim de contas? O que é o contorno suave de um talhe elegante,
e a cutis assetinada de um rosto ou de um collo mimoso? Um pouco de
materia á que a luz transmitte a côr, o espirito, e a vida. Tirem-lhe
esses dois alentos; e verão que lôdo impuro e nauseante ficam sendo
aquellas fórmas seductoras.

«Pois luz e espirito não eram a essencia da alma de Amelia? Quando
essa alma a vestia com uma tunica resplandecente, que mulher se lhe
podia comparar em lindeza? Então não era sómente formosa, fluctuava
em um ether de belleza deslumbrante.

«Mas ella não é feia, é aleijada!...»

Um soluço afogou as tristes locubrações do mancebo. Elle repassou
outra vez na mente as circumstancias de sua triste descoberta; quiz
duvidar, combateu pertinazmente sua propria razão que lhe apresentava a
realidade, e afinal succumbiu, curvando-se á implacavel certeza. Tinha
visto uma vez, e como essa não bastasse, o acaso lhe offerecera
occasião de apalpar a verdade, e saciar-se della.

--Não se admira a Venus de Milo, uma estatua mutilada? dizia o mancebo
reluctando contra sua viva repugnancia. Não se admira o primor da arte
grega, apezar de não restar della mais do que uma cabeça e um torso de
mulher? Essa bellesa truncada não vale a belleza aleijada? A
mutilação não repugna tanto ou mais do que a deformidade?

A razão de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse
pensamento consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as
argucias do coração:

--A estatua mutilada, que excita a admiração do mundo, não é a copia
integral da belleza que lhe servia de typo; mas um fragmento apenas
dessa copia. A alma, que se extasia na contemplação desse fragmento,
recompõe o ideal do artista. Admira-se a Venus de Milo, como se admira
um esboço não acabado de Raphael; como se admira a petala de uma rosa,
arrancada da corolla. Mas, fosse embora aquelle primor da estatuaria a
reproducção exacta de uma mulher. A mutilação respeita a bellesa; o
aleijão a deturpa. Si a mulher que se ama perdesse um pé seria
desgraçada; com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada, é
repulsiva.

Leopoldo deixava-se convencer por estas sugestões:

--Infelizmente assim é. Mas por que ha de ser assim? A mutilação é
um facto humano; o aleijão é um facto natural. Essa aberração do
principio creador, esse desvio da fórma primitiva, indicam sem duvida
um vicio na essencia do organismo. Não se tem verificado que nos corpos
mal conformados de nascença habita sempre uma alma enferma? Nos
corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é o tronco da
intelligencia. A deformidade de um membro, de um ramo apenas, não
denota eiva tão profunda do espirito, é certo, mas revela que a alma
não é nobre e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão.

O resultado destas cogitações era a gotta de fel esprimido, que ia
filtrando á pouco e pouco no coração e acabaria por saturar todas as
doces reminiscências dos ultimos dias. Leopoldo convenceu-se que não
devia amar a desconhecida; mas, ao contrario, arrancar de sua alma os
germens da paixão nascente.

Tomando esta resolução, o moço, que vivia muito retirado depois de
suas desgraças de familia, esteve a lembrar-se de algumas antigas
relações. Veio-lhe o desejo de cultival-as de novo. Um instincto lhe
dizia que para gastar as primicias de um coração virgem, não ha como
o attrito do mundo.

Entre as casas que outr'ora frequentava escolheu para a primeira noite a
de D. Clementina, amiga intima de sua irmã. Era uma senhora já no
declinio da idade e da formosura; gostava muito de dansar, e por isso
reunia constantemente em sua sala as moças de sua amizade. Logo que se
achavam presentes quatro pares, a dona da casa dava o signal, o marido
arredava a mesa do centro, o filho, menino de quinze annos, sentava-se
ao piano; e...

--_Chassé-croisé_! gritava D. Clementina.

Nesta casa Leopoldo tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de
encontrar bastante arruido para aturdir-se, e abafar uns gemidos que
sentia ás vezes repercutirem no coração. Tinham decorrido cinco dias
depois da decepção: ás oito horas da noite entrou o moço na sala de
D. Clementina, que o recebeu com sorpreza cheia de amabilidades.

Além de estimado, acontecia que elle era justamente o quarto par.
Tirado o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e tres velhas,
invalidas da dansa, havia na sala cinco senhoras para dois cavalheiros:
servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava metade de um par.

Quando a campainha annunciou mais uma visita, D. Clementina de olhos
fitos na porta da sala, dispoz-se a receber o recem-chegado com o seu
mais affavel sorriso. Vendo Leopoldo, correu a elle, e desfolhando-lhe
um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe o braço; antes que o moço
tomasse pé na sala, era arrebatado pela quadrilha, a compasso de
galope.

Realmente elle não podia escolher melhor. A agitação daquella dansa
rapida, sem pausa; a confusão que os pares creavam de proposito para
augmentar a animação; os risos e gracejos que provocavam os menores
incidentes da quadrilha; todo esse rumor e atropello tinham por tal
fórma sacudido o espirito de Leopoldo, que as idéas e recordações
tristes lhe cahiram, como as folhas seccas de uma arvore, abalada pelo
vento rijo do outono.

Sentiu o coração vazio, porém tranquillo; o prazer vivo e
scintillante daquella reunião, apenas roçava-lhe pela superficie; não
penetrava, mas tambem ja não transudavam-lhe do intimo as amarguras de
que nos ultimos dias se tinha saturado.

De repente operou-se na perspectiva da sala, uma transformação
inesperada. Amelia entrára; e sua graça diffundiu-se como um influxo
celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz, na
irradiação de seus olhares.

Leopoldo embebeu-se naquella suave apparição, como da primeira vez que
a vira; mas para percorrer em um apice, as phases de seu amor, e cahir
de novo na esmagadora decepção.

De repente aquella estatua luminosa escureceu á seus olhos deixando
apenas um residuo negro; esqueleto calcinado que arrastava uma
deformidade. Debalde Amelia se ostentava no fulgor de sua belleza,
toucada pelos primeiros arrebóes do amor; debalde as ondulações de
seu corpo debuxavam fórmas encantadoras, e o sorriso de seus labios
destillava uma fragancia mystica de beijos puros; os olhos de Leopoldo
não viam nenhum desses encantos. Através dos folhos do vestido
roçagante, sua vista fitava-se implacavel no pé monstruoso que lhe
esmagava o coração como a pata grosseira de um animal.

Todos os encantos dessa creatura, elle os despia de seu manto seductor,
e dissecava-os com fria rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha
da resistencia que oppunha ao andar o enorme pé; o passo ligeiro era um
esforço supremo para disfarçar o aleijão; o sorriso gracioso um
enleio para prender os olhos estranhos, não permittindo que elles se
abaixassem até á fimbria do vestido.

E por isso mesmo o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se
tinha cravado na orla da saia elegante, d'onde não havia forças para
arrancal-o.

Amelia sentiu esse olhar cruciante, e estremeceu, tomada de um vago
terror. Immediatamente sentou-se, e arranjando as dobras do vestido,
procurou disfarçar. Mas em vão; o olhar do moço continuava fito no
mesmo ponto, e produzia nella uma sensação incommoda.

--É D. Amelia, filha de um negociante chamado Salles. Não conhece?

Estas palavras foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que
sentando-se a seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.

--Não, minha senhora.

--Então vou apresental-o.

--Obrigado, D. Clementina; depois.

--Não acha muito galante?

Leopoldo hesitou:

--Oh! muito!...

Viera-lhe nessa occasião o mesmo impeto que sentem de ordinario os
amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer nas prendas da
mulher que os faz soffrer. É uma reacção natural do coração.
Leopoldo, porém, julgou indigno de si tal procedimento; tinha o direito
de afastar-se, de fugir com horror dessa mulher, mas não o de
offendel-a. A culpa de amal-a era sua; e não della.

Aproveitou um momento de distracção da dona da casa, para tomar o
chapéo, e esquivar-se, sem que o percebessem.

Amelia, porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na
porta por onde acabava o moço de sahir. Quando, passado um instante,
cahiu em si, ficou sorprendida. Que tinha ella com aquelle desconhecido?

Ao chegar, vendo o rosto pallido e os olhos profundos, que tão
desagradavel impressão haviam deixado em seu espirito, a moça havia
sentido um máo estar intimo. Vinha com a alma cheia das primeiras
delicias de um amor nascente; com as doces emoções da declaração de
Horacio. A presença de Leopoldo foi um travo.

Mas tambem para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando
Horacio?

Vão lá sondar o coração feminino. Agora que sabia-se amada, a moça
queria gozar de seu triumpho, e vêr humilde e abatido a seus pés o rei
da moda, o soberbo leão. O meio era fazer-se ardentemente desejada,
tornar-se difficil e esquiva, embora lhe custasse o sacrificio dos
momentos agradaveis que podia passar junto de Horacio.

A presença de Leopoldo em casa de D. Clementina a incommodára, e
entretanto seu olhar parecia agora sentir a ausencia do mancebo.

A principio havia ali uma pessoa de mais; agora faltava alguma cousa. Si
não era um homem; era uma curiosidade, uma emoção.

--Amelia!

A moça voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.

--Quero apresentar-lhe um moço, que a acha muito bonita.

Dizendo estas palavras, a dona da casa corria os olhos pela salla á
busca de alguem.

--Não o vejo agora.

--Quem é?

--O Castro... Conhece?...

--Não, senhora.

--Querem vêr que já se retirou.

Amelia pôde reter o monosyllabo que ia cahir-lhe do labio, confirmando
a supposição da dona da casa. Tinha adivinhado que se tratava do seu
desconhecido.

--Então elle me acha bonita?

--O Castro?... Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que
lhe deitava quando a senhora chegou!

--Então foi de paixão que elle fugiu?

--Quem sabe? A paixão é como o vinho que em uns dá para rir, e em
outros para chorar. Ha namorados que perseguem, e outros que fogem!

Amelia julgou prudente desviar a conversa daquelle assumpto escabroso,
no qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade
já desvanecida.



IX


Depois d'aquella noite Leopoldo viu Amelia duas ou tres vezes: e de
todas sentiu a mesma impressão que lhe causara a presença da moça em
casa de D. Clementina.

Era o mesmo desencanto; a mesma insistencia de seu espirito para
enxergar a formosura da donzella através de um prisma deforme e
caricato. N'essas occasiões elle soffria diante da moça a fascinação
do horrivel, como o poeta soffre muitas vezes a fascinação do bello em
face de um objecto desgracioso. Era então um poeta pelo avesso; um vate
do monstruoso. Tinha na imaginação um gnomo de Victor Hugo: creava
Quasimodos e Gwynplaines do sexo feminino com uma fecundidade espantosa.

Quando porém a moça desapparecia de seus olhos, operava-se em seu
espirito completa mutação. Esquecia completamente o aleijão, para só
lembrar a linda e graciosa figura, que poucos momentos antes sua vista
repellia. Amelia ausente vingava Amelia presente. O coração do mancebo
detestava tanto esta, quanto adorava ainda a outra.

--Este amor é um inferno; pensava elle; tem um vicio organico. Ha de
viver de dôres e lagrimas; ha de alimentar-se de minhas tristezas. E
assim irá definhando até morrer de consumpção, depois que me tiver
devorado todo o coração. Que importa? Servirei de pasto á este
abutre. O que somos nós afinal de contas? Uma presa; emquanto vivos, a
presa das molestias e das paixões proprias ou alheias; depois de
mortos, a presa dos vermes ou das chammas.

Com tal disposição de espirito voltou elle dias depois á casa de D.
Clementina. Nesta noite havia uma pequena partida; Leopoldo contava,
pois, encontrar Amelia.

Ali estava com effeito, vestida de escarlate e branco; e adornada com a
sua graça arrebatadora. Quando o moço entrou, ella dansava com as
costas voltadas para a porta e não o viu; porém, momentos depois virou
o rosto como si obedecesse a um impulso extranho, e encontrou o olhar
ardente de Leopoldo.

A moça fez insensivelmente um movimento para afastar-se, que entretanto
a aproximou da porta. Aquelle olhar que a attrahia ao mesmo tempo que a
repellia, causou-lhe um desvanecimento misturado de terror. Felizmente
a terceira figura da marca da contradansa começava, e a distrahiu de
sua emoção.

Estava ella outra vez parada conversando com o par, quando sentiu um
calafrio; sem vêr, conheceu que o mancebo se aproximava, que seus
labios se abriam para dirigir-lhe a palavra:

--Minha senhora, terei a honra de dansar com V. Ex. a seguinte
quadrilha...

Continham uma pergunta ou uma asseveração estas palavras? Fôra
impossivel dizel-o. O tom parecia mais affirmativo do que interrogativo,
porem o olhar do mancebo esperava, sinão exigia resposta.

A confusão da dansa permittiu á Amelia esquivar-se, sem responder.
Quando, terminada a quadrilha, voltou a seu logar, ficou perplexa. Tinha
ella se compromettido ou não a dansar a seguinte quadrilha com
Leopoldo? Não respondera, é certo; mas recordava-se vagamente de ter
feito uma leve inclinação com a cabeça. Sem duvida o moço vira esse
movimento e o tomára por um signal de assentimento.

Quando um de seus innumeros admiradores vinha pedir-lhe a proxima
quadrilha, ella respondia hesitando que já tinha par; apenas o
cavalheiro se afastava arrependia-se de não o ter acceitado, rompendo
assim o compromisso tacito; e ficava anciosa por outro convite.
Entretanto novo par se apresentava, que recebia a mesma recusa.

N'esse jôgo, muitas vezes repetido, passou o intervallo. O piano deu o
signal da quadrilha; Leopoldo aproximou-se de Amelia, e se inclinando
sentiu no seu estremecer o braço tepido de Amelia. A moça não teve
consciencia do que se passou até o momento em que o moço a conduziu a
seu logar. Recordava-se apenas de que seu par lhe fallara por muito
tempo, com a voz baixa, porem palpitante de emoção.

Assim fôra. Passada a primeira confusão da quadrilha, Leopoldo,
fitando o olhar no semblante da moça, deu expansão aos sentimentos que
lhe tumultuavam dentro d'alma. Com a fronte baixa e as faces cheias de
rubôres, Amelia parecia absorvida e reconcentrada emquanto o moço
fallava. Dir-se-hia que ella não o ouvia.

--A senhora acredita, D. Amelia, na attracção irresistivel, que
impelle duas almas entre si, e as chama fatalmente á se unirem e
absorverem uma na outra?... Eu acreditava nessa força mysteriosa, mas
ainda não tinha chegado o momento de experimental-a em mim; de sentir
em meu ser este elo divino que prende as almas, através do tempo e da
materia. Senti-o ha vinte dias, quando a vi pela primeira vez, quando a
senhora se revelou ao meu coração.

Leopoldo referiu as emoções que sentira, na occasião de seu primeiro
encontro com Amelia; a impressão que ella deixára em seu espirito; e
os sonhos em que se embalára sua imaginação nos dias seguintes.

--Tive então, continuou o mancebo com accento profundo e commovido,
tive então, e depois, a prova de que esse enlevo de meu ser, essa
abstracção de minha existencia para absorver-se n'outra, era a
attracção moral e nada mais. Via, admirava, adorava na senhora uma
cousa sómente; sua alma. Não sabia, ainda hoje não sei, si a mulher
que eu amo é bonita para os outros; sei que para mim é de uma belleza
divina. Perdesse ella a graça e a formosura que aos outros seduz; para
mim seria a mesma; eu havia de adoral-a com o mesmo ardor. Sua alma é
filha de Deus, e como elle de uma magnificencia immortal. É uma
estrella que não tem eclipse.

Leopoldo inclinou a fronte para fallar quasi ao ouvido da moça:

--Outr'ora julgava impossivel que se amasse o horrivel. Agora reconheço
que tudo é possivel ao amor verdadeiro, ao amor puro e immaterial. Não
só reconheço, mas sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões
martyres! Oh! sinto-me capaz de amar o anjo ainda mesmo encarnado em um
aleijão!...

Leopoldo fallou ainda por muito tempo de seu amor a Amelia, sem que ella
se animasse a interrompel-o. Aquella palavra ardente, impetuosa, embora
vendada por certo pudor d'alma, a subjugava: ella não tinha coragem,
nem mesmo vontade de subtrahir-se á sua influencia.

Quando Amelia, conduzida por Leopoldo, se dirigia á uma cadeira, D.
Clementina aproximou-se:

--Ah! Eu queria apresental-o, disse a Leopoldo; mas não teve paciencia
para esperar.

Depois reclinando ao ouvido de Amelia, perguntou-lhe:

--Então? Não lhe disse que a achava muito bonita?

--Ao contrario, D. Clementina; deu-me a entender que me acha horrivel.

--Ande lá.

--Deveras!

--É impossivel.

Amelia, sentando-se, evocou a lembrança de Horacio, para fazer no seu
espirito o parallelo entre o elegante leão e o estranho mancebo com
quem acabava de dansar. Um tinha todas as prendas que seduzem a
imaginação; era formoso, trajava com esmero, conversava com muita
graça. O outro não possuia nenhum desses attractivos; seu exterior
alheiava as sympathias; quando fallava diffundia a tristesa no espirito
dos que o escutavam.

A moça não concebia que se preferisse Leopoldo á Horacio; e comtudo
não podia esquivar-se completamente á influencia daquella imagem
pallida, que lhe apparecia no meio dos sonhos mais brilhantes.

Muitas vezes, depois de algumas horas agradaveis passadas junto do
leão, quando a moça, recolhida á sua alcova, repassava na memoria os
doces protestos de amor que ainda lhe resoavam ao ouvido, de repente
surgia a lembrança de Leopoldo. Parecia-lhe então que da fronte do
mancebo se desprendia uma sombra para annuviar seus pensamentos
risonhos.

Horacio, sabendo onde Amelia passava as noites em que elle não a via,
mostrara desejos de frequentar a casa de D. Clementina; a moça porém
oppôz-se. Duas razões actuaram era seu espirito.

Aquella casa servia-lhe de abrigo contra a seducção que exercia em seu
espirito a elegancia de Horacio. Quando sentia-se vencida, fugia para
ali, onde recobrava forças para resistir, e domar completamente o
leão, soberbo de suas conquistas passadas.

Era essa uma das razões; a outra era o receio de achar-se em face dos
dois moços, repartida entre a seducção de um e a fascinação do
outro. Presentia que desse conflicto, resultaria alguma cousa, que ella
não podia definir, mas que a enchia de sustos e inquietações.

Por isso exigiu de Horacio que não fosse á casa de D. Clementina:

--Costumam lá ir algumas dessas pessoas que se occupam em inventar
novidades. Sua apresentação, Sr. Horacio, daria pretexto á algum
romance.

--Mas, por que ainda frequenta semelhante casa?

--Pedidos... bem sabe; nem sempre uma pessoa se póde recusar. Mas si o
senhor apparecer lá, eu deixarei de ir.

--Esteja tranquilla.

Amelia continuou a passar de vez em quando uma noite em casa de D.
Clementina. A principio não tinha dia certo, e succedeu por isso que
Leopoldo desencontrou-se della duas vezes. Uma noite porém o moço
perguntou-lhe:

--Vem sabbado?

--Talvez.

Desde então o dia escolhido era o sabbado, a menos que não precedesse
aviso especial da dona da casa, para alguma partida. Nunca mais houve
desencontro; Amelia achava sempre o mancebo no seu posto, defronte da
porta para vêl-a entrar.

Em uma dessas noites deu-se um incidente, que é preciso referir.

Fallava-se á respeito de uma senhora casada, a quem o marido causava
serios desgostos. Pessoa que sabia das particularidades dessa familia,
explicava o facto á sua maneira.

--Ella era muito linda, o marido a adorava; casou-se por paixão. Poucos
dias depois de casada, teve ella uma grave molestia que a reduziu
aquelle estado. Não ha paixão que resista.

--Com effeito sabe ser feia!

--Ninguem acreditará que foi bonita.

--Pois foi uma belleza.

Leopoldo, que ouvia calado, interveio:

--O marido nunca a amou!

--Asseguro-lhe que teve uma paixão louca.

--E eu affirmo-lhe que não; que elle nunca teve paixão pela mulher. O
que elle adorava era unicamente a sua belleza, a fórma; isto é, um
accidente. O homem que ama a mulher destinada a ser a companheira de sua
existencia, o complemento de seu ser imperfeito, não despreza essa
mulher, porque a desgraça a feriu no envolucro material de sua alma.
Elle póde soffrer com aquella desgraça; mas deve redobrar de amor e
adoração, para que nem seus olhos vejam o defeito, nem ella, a mulher
amada, se lembre nunca de que o tem para elle, embora o tenha bem claro
para os indifferentes.

--É bonito de dizer! acodiu um apreciador das mulheres formosas.

--Todos dizem o mesmo, mas fogem das feias, observou uma senhora idosa,
talvez por experiencia propria.

--O que eu digo, minha senhora, já o experimentei em mim mesmo;
replicou Leopoldo.

--Ah!

O mancebo cravou em Amelia um olhar eloquente, e disse com a palavra
lenta e calma:

--É verdade; já o experimentei em mim. Por que hei de occultal-o?
Minha alma já passou por esta dura prova, e sahiu triumphante. Hoje sei
que tenho forças para amar até os defeitos da mulher que Deus me
destinou.

Amelia perturbou-se com aquellas palavras, e o olhar ardente que parecia
graval-as em sua alma. Nessa noite retirou-se pensativa; e por muito
tempo a figura pallida de Leopoldo, esvoaçou na penumbra de seu leito
de virgem.



X


Pela manhã se dissiparam essas nevoas que no espirito de Amelia deixara
a noite antecedente.

Era domingo. A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabellos
soltos pelas espaduas, encostou o rosto á vidraça da janella.
Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente a rua,
sem que de fóra vissem o seu gracioso desalinho.

Não tardou que se ouvisse um tropel de cavallo. Era o leão que ia dar
seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina, e desenhar-se no vidro
a ponta de uns dedos côr de rosa, Horacio cortejou, enviando um sorriso
á janella.

Á noite o moço dirigiu-se á casa do Salles. Amelia o esperava. A sala
estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horacio encontrou um olhar
terno que o saudava de longe.

Mas o sorriso se desfez com a perturbação que de repente sentiu a
moça. A vista do leão tinha descido até o tapete, e se fixara com uma
insistencia visivel na fimbria do vestido, ligeiramente arregaçada.
Horacio julgou que pudesse lobrigar a ponta do pesinho que idolatrava.

A moça concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar
curioso; e disfarçou conversando com uma amiga.

Desde principio notara Amelia aquelle sestro de Horacio. Quando ella o
suppunha mais embebido em seus encantos, mais rendido á sua belleza,
sorprendia o olhar do moço a rastejar pelo chão, procurando
insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.

Muitas vezes ella perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço,
em vez de procurar lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se,
a catar sobre o tapete alguma idéa que não se animava a revelar. Já
tinha succedido, durante que ella tocava, distrahir-se o leão, e com a
attenção presa no pedal, nem ouvir a peça de musica.

Horacio a amava sem duvida; já lhe tinha dado provas de que sentia por
ella uma paixão vehemente. Elle, o rei da moda, o festejado
conquistador, para quem todas as portas e todos os corações abriam-se
como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra; elle ali estava
captivo da vontade della, e atado a seu carro triumphal. Que prova mais
eloquente de profundo amor, do que essa submissão espontanea do altivo
leão?

A força nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com
que se domina. Hercules, fiando aos pés de Omphale, é o ultimo canto,
o epilogo sublime da epopéa da força humana. Exterminando a féra, a
natureza e até os deuses, Hercules foi grande; abatendo a si mesmo, foi
maior, porque venceu o vencedor.

Amelia comprehendia que homenagem eloquente á sua belleza havia
naquella adoração do elegante cavalheiro; sentia-se orgulhosa com esse
amor, que tantas mulheres lhe invejavam; considerava-se rainha, desde
que via a seus pés subjugado e humilde o rei da moda.

Mas lá no intimo alguma cousa lhe remordia, quando notava a pertinacia
com que o olhar de Horacio, procurava a fimbria de seu vestido. Nesses
momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava a suspeitar que Horacio
não lhe tinha amor, e estava escarnecendo della com uma paixão
fingida.

A verdade, porém, é a que sabemos. Horacio tinha paixão louca pelo
pésinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo a côrte a
Amelia, elle prestava culto ao deus ignoto, que adorava sob aquella
fórma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça em não desconcertar
os babados de seu vestido comprido de mais, conheceu elle o zelo com que
a dona recatava o thesouro. Comtudo não desesperou; o cuidado da moça
havia de adormecer um momento; podia mesmo sobrevir um accidente
inesperado que realizasse a sua mais cara esperança.

Até aquella noite todos os esforços se tinham frustrado: á sua
insistencia a moça tinha opposto a pertinacia do capricho feminino.
Quanto mais attento elle estava para aproveitar qualquer descuido, mais
alerta ella ficava para não commetter a minima falta.

Horacio porem resolveu dar o golpe; e com essa intenção, fora á casa
de Salles, no domingo em que estamos.

Quando se offereceu occasião, travou com Amelia, recostada á janella,
o seguinte dialogo:

--Como é bonita! disse elle contemplando a moça com enlevo.

--Ainda não tinha percebido? perguntou ella com ironica faceirice.

--Não, D. Amelia, não; porque de cada vez a acho mais bonita: todos os
dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais linda, mais
formosa, do que era aquella que eu conhecia anteriormente. Como hoje,
acredite, nunca a vi.

--Que tenho eu de mais?

--Não sei; tem uma aureola da belleza! Seus olhos desferem raios de luz
tão pura; sua boca sorri como a flôr em botão, que abriu com a
frescura da noite. Os anneis de seus cabellos castanhos parecem
impregnados de um fluido mysterioso, que se derrama em torno. Mas, de
toda a sua formosura ha uma cousa sobretudo que eu admiro, que eu adoro.
Não é, nem seus olhos brilhantes, nem seus labios mimosos, nem seu
talhe elegante, nem suas tranças tão opulentas; não é nada disto!

--O que é então?

--Para que dizel-o? Para que revelar a minha paixão, a quem della
escarnece? Si eu o confessasse, cessariam o supplicio que tenho
soffrido, as ancias que estou curtindo? Não; haviam de augmentar si
isso fosse possivel. A senhora teria prazer em torturar-me ainda mais.

--Explique-se: confesso que não o entendo. Que supplicio tem o senhor
soffrido?

--A mulher é caprichosa, muitas vezes faz padecer aquelle que a ama
sinceramente, e só por espirito de contradicção. Uma cousa innocente,
um favor pequenino... permitte aos estranhos e indifferentes, e
entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ella. Não é uma
crueldade? A senhora pergunta, D. Amelia, que supplicio tenho eu
soffrido. Este, de ser consumido á fogo lento por um desejo, que um
gesto seu podia tornar em gozo infinito!

A moça com as faces incendidas em rubôr, luctava no alvoroço e
confusão, que iam-se apoderando de toda sua pessoa.

--Entende agora, D. Amelia?

--Não! murmurou tremula.

--Pois não percebeu ainda, que ha uma cousa que eu sobretudo amo na
senhora? Tanto percebeu, que fez o proposito de escondel-a a meus olhos,
cançados de a procurarem a cada instante. Não está contente ainda de
vêr-me arrastando assim a alma pelo pó, no vão intento de entrevêr
de longe o objecto de minhas adorações?

O leão fitou um olhar fascinador no semblante da moça.

--Para que negar, D. Amelia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais
torturar-me.

--Eu não!

--A senhora sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida
sem hesitar. Si não soubesse, já eu teria visto e admirado esse
pésinho mimoso, que me mata com seu rigor.

Uma visita que entrava na sala, deu a Amelia um pretesto para fugir,
disfarçando seu rubôr e perturbação, no afan da recepção das
senhoras que chegavam.

Ao retirar-se, Horacio achou ensejo de trocar uma palavra coma moça,
emquanto lhe apertava a mão.

--Não seja cruel!

--Oh, cruel não sou eu; replicou a moça com expressão de
ressentimento.

Mais tarde em sua alcova, emquanto desfazia o penteado, soltando os
lindos anneis do cabello castanho, Amelia recordou-se das palavras
apaixonadas que ouvira de Leopoldo na vespera, e comparou-as com as
queixas de Horacio. A linguagem do primeiro tinha a eloquencia da
paixão; parecia vir do intimo, do mais profundo do coração. A
linguagem do segundo, tinha a graça da seducção; era a vibração
passageira das cordas d'alma.

Mas a palavra do leão, vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado
por um bigode fino e elegante!

Durante uma semana, Amelia não viu Horacio; por uma razão muito
simples. O moço de arrufado, não appareceu durante dois dias; quando
se resolveu a apparecer, a moça despeitada inventou um incommodo, e
não desceu á sala de visita, pelo dobro do tempo. Si Horacio
sustentasse a lucta, podia haver serio rompimento.

O leão, porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto dia
foi humildemente render preito e homenagem á suzerana de seu coração.
Amelia o recebeu, como rainha magnanima; e tratou-o nesse dia com
amabilidade extrema. Pela primeira vez, Horacio pôde beijar-lhe a ponta
dos dedos.

Animado com esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande
questão. Fitando o olhar no rosto da moça, e abaixando-o á orla do
vestido, disse em tom supplicante:

--Me deixa vêr?

--Não; respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se.

--Quando cessará este capricho?

--Nunca.

Horacio teve um assomo de impaciencia.

--Bem. Não me quer mostrar a mim, Horacio de Almeida, pois ha de
mostral-o a uma pessoa.

--A quem? perguntou a moça irritada.

--A seu marido.

Amelia tornou-se pallida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem;
mas recobrou-se logo á idéa, de que as palavras de Horacio não
passavam de um galanteio.

--Si algum dia me casar, replicou ella sorrindo, ha de ser com a
condição de não mostrar.

--Havemos de discutir essa condição.

--Vamos mudar de conversa?

--Como quizer; temos muito tempo para continual-a.

Emquanto Amelia o olhava sorpresa, Horacio voltando-se para o grupo das
senhoras, tomou parte na conversação geral.

--Já sabem a novidade, minhas senhoras?

--Qual dellas? Ha tantas.

--A novidade nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em
primeira mão, de caminho para aqui.

--Algum casamento, aposto.

--E eu sei de quem.

--Não adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento;
quem sabe? respondeu Horacio, relanceando um olhar para Amelia. Mas a
novidade de hoje, é apenas um baile, um baile de estrondo.

--Aonde?

--No Cassino?

--No Club?

--Em casa do Azevedo.

--É verdade! Eu já tinha ouvido dizer!

--Quer a senhora fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que
o Azevedo tinha tenção de dar um baile, mas disso á realisação vai
uma grande distancia. Eu desejo muita cousa que não alcanço, e nem ao
menos posso vêr. Foi hoje e ao jantar que resolveu-se a grande
questão, por occasião de uma saude. Um amigo que vinha de lá,
encontrando-me a dois passos daqui, me deu a noticia do grande
acontecimento. Portanto, minhas senhoras, preparem-se!

--Quando é o dia?

--No primeiro do mez proximo. Ponham desde já em contribuição as
lojas e modistas; eu o que posso é offerecer-me com muito gosto para
admiral-as a todas, e achar a cada uma de per si, mais elegante do que
as outras juntas. Si Páris me tivesse ouvido, não haveria guerra de
Troia.

--Nem Homero por conseguinte: replicou um litterato.

--Homeros sempre os ha. Quando não encontram os heroes já feitos,
inventam-n'os, e com tal habilidade, que esses grandes homens postiços,
parecem verdadeiros, como os dentes de osana, e os coques das moças. O
mesmo succede com os Anacreontes, cuja raça é muito maior; quando não
acham nymphas para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de
cabide para pendurarem a lyra.

Amelia ficara triste e preocupada; escutava a palavra voluvel do moço,
com um sentimento indefinivel de angustia; parecia-lhe que era seu amor
por ella, que Horacio rasgava aos pedacinhos, como uma pagina querida,
abandonando-os ao sopro do vento, ao capricho daquella conversa.

Uma amiga reparando na tristeza da filha de Salles, e no olhar que em
certa occasião lhe deitara Horacio; disse ao ouvido da moça sentada á
seu lado:

--Amelia ficou lograda!

--Como?

--Creio que Horacio está justo com outra.

--Quem lhe disse?

--A tristeza de Amelia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando
fallava de um casamento que se ha de saber-amanhã.

--É verdade. Com quem será?

--Naturalmente com alguma fazendeira de mil contos. Depois que sahirem
da igreja, o marido leva-a para o collegio do Hitchings; e deixa-a lá
como pensionista, emquanto elle vai a Pariz aperfeiçoar-se na _escola
dos maridos_.

Esta senhora é uma satira viva; sua conversa parece um fogo de
artificio; dir-se-hia que o seu gracioso trajo é todo composto de
alfinetes, que ella vai deixando em sua passagem envoltos em sorrisos
assucarados, como confeitos do carnaval.

Occulto seu nome porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de
Janeiro, e não quero compromettel-a com os noivos presentes e futuros
das fazendeiras ricas.

Depois de ter durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com
sua palavra elegante e chistosa, Horacio tomou o chapéo e retirou-se.
Não eram nove horas; esta circumstancia mais entristeceu Amelia, e mais
excitou a attenção da moça maliciosa.

Á porta da casa de Salles, encontrou Horacio seu tilbure. Mandou o
cocheiro esperal-o no largo do Machado, e elle, tendo acendido o charuto
e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.

Horacio pertencia á escola daquelles que entendem, que nunca é tarde
para arrepender-se o homem de um compromisso. Elle comprehendia o _jacta
est alea_ por esta fórma prudente e rasoavel. Cezar, tendo lançado a
ponte sobre a Rubicon, via de longe em Roma a dictadura, e mais tarde a
purpura imperial; portanto fez elle muito bem em passar, sobretudo desde
que o rio já não oppunha obstaculo. Mas se em vez do poder, Cesar
encontrasse no caminho a derrota; a ponte lançada lhe serviria para
voltar ás Gallias, e elle teria o cuidado de queimal-a depois que
tornasse a passar.

Como Cesar, elle tinha lançado a ponte com aquella palavra dita a
Amelia, em um momento de despeito. Devia porém passar o Rubicon do
casamento?

Era sobre tão importante questão que o leão queria reflectir, fazendo
a pé o trajecto entre Larangeiras e largo do Machado.

--O casamento é o supplicio de Prometheu, pensava elle; um homem atado
ao rochedo da familia, com o coração devorado pelo tedio; uma creatura
dividida em duas metades, que se contrariam á cada instante, porque
estão ligadas. Em vez do romance, do idilio, do drama, a prosa monotona
de uma historia que se lê todos os dias. Esse prazer incomparavel de
sentir-se todo dentro de si, de resumir-se no seu unico eu, de dispôr
livremente de sua pessoa e vida, não o tem o marido a menos que seja um
biltre. O casamento dilata a superficie da alma; em vez de soffrer-se no
seu coração apenas, soffre-se na mulher, no filho, e em cada um dos
fios dessa grande teia humana que se chama familia.

Horacio recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou
nessas reminiscencias a prova de sua opinião.

--O casamento é tudo isso, mas que importa, desde que não ha outro
meio de realisar o meu desejo e satisfazer esta paixão ardente e
impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar pela felicidade que eu
sonho. Pois si eu a daria de uma vez, por que não a emprestarei sob
hypotheca?

Tendo chegado ao largo do Machado, o moço, entrou no tilbure, que o
conduziu á casa.

Ahi, contemplando a mimosa botina, guardada como uma reliquia, encheu-se
cada vez mais da resolução que havia tomado.



XI


Eram onze horas da manhã.

Amelia estudava ao piano os exercicios de Hertz. As janellas cerradas
deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente das
cortinas.

Nesse crepusculo artificial, a belleza da moça tomava uns tons suaves e
meigos, que mais seduziam.

Os lindos cabellos ainda humidos do banho, cobriam-lhe as espaduas de
uma tunica de veludo castanho. O bajó de cassa que trazia no seu
desalinho matutino, conchegado á cutis, coloria-se com os reflexos
rosados do collo mimoso.

Tanta graça e formosura, realçadas pela singelleza do trajo e pela
naturalidade da posição, ficavam ali occultas na doce penumbra da
sala, recatadas á admiração. As duas horas Amelia costumava subir á
sua alcova para se pentear; e o gracioso desalinho despparecia,
substituido por um trajo mais apurado e elegante. Era a flôr singella
que o vento desfolha na mata, e passa ephemera e desconhecida.

Tantas moças despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e
gestos, e põem em contribuição a sêda, a renda e a moda para
realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto, que nunca são ellas
tão bonitas e feiticeiras como em certo momento de seductora
negligencia, quando parece que a belleza desabrocha de seu gracioso
botão.

A porta da sala abriu-se, e deu entrada ao Sr. Salles Pereira.

O aspecto do negociante era grave; mas da gravidade serena que annuncia
uma preocupação agradavel. Trazia na mão uma carta aberta.

Amelia assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ella suppunha na
cidade. Como todos os negociantes, o Sr. Salles Pereira passava a manhã
em seu escriptorio; partia logo depois do almoço e só voltava á hora
do jantar. A sorpreza da moça era pois natural.

--Ah! papai! exclamara ella, voltando-se ao rumor da porta. Já veiu do
escriptorio?

--Ainda não fui; respondeu Salles Pereira sorrindo. Recebi uma carta,
que me obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãi e...
comtigo, a quem o objecto mais interessa.

--A mim? O que será, papai? Algum convite de baile?

--Lê; disse o negociante apresentando-lhe a carta.

Amelia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos
rubôres. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuchava no
linho o contorno dos lindos seios.

A carta era de Horacio, que pedia ao negociante a mão da filha.

Acabando de a lêr, a moça de olhos baixos e corpo tremulo, parecia
vendar-se com sua innocencia para subtrahir-se ao olhar terno e curioso
de seu pai. Nesse momento ella desejava, si possivel fosse, esconder-se
dentro de si mesma.

--Que devo eu responder, Amelia? perguntou o negociante.

--O que papai quizer! balbuciou a menina.

--Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Si eu não acceitar a
honra que nos quer fazer o Sr. Horacio de Almeida?

As palpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos limpidos.

--Papai não acha bom?

--Si elle te for indifferente, eu por mim não tenho grande empenho. É
um excellente moço; tem alguma cousa de seu; mas anda em certa roda que
não me agrada.

--Que roda papai?

--De moços da moda.

--Porque é solteiro.

--Então o que decides?

--Desde que papai e mamãi desejam, eu....

--Nós não desejamos cousa alguma; queremos saber tua vontade.

Amelia emmudeceu.

--Bem, já vejo que não é de teu gôsto. Vou responder ao homem com um
_não_.

Salles Pereira encaminhou-se para a porta:

--Mas, papai!.... murmurou a moça.

--Que temos?... Falla, que já me demorei muito. Quasi meio dia!

--Vai responder já?

--Já.

--Deixe para amanhã.

--Nada; são cousas que se decidem logo.

--O que vai responder então?

--Que não.

--Mas eu não disse isto!

--Tu nada disseste.

--Pois si eu não gostasse diria logo.

--Ah! neste caso gostou?

Amelia sorrindo acenou com a cabeça.

--Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas á Horacio?

A moça fez um supremo esforço:

--Amo! disse ella escondendo o rosto no seio do pai.

O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho.

--Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste
coraçãozinho! E eu que pensava que elle só queria bem a mim?

--Oh! papai!

--Bem, bem, não tenho ciumes! Vai consolar tua mãi, que eu vou
responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.

O negociante voltou ao gabinete; e Amelia dirigiu-se ao interior. Sua
mãi estava no quarto, com os olhos ainda humidos de lagrimas. Quem não
conhece essas lagrimas abençoadas, que a mãi derrama pelos filhos; e
que são balsamos para as afflicções, e orvalhos para as flôres da
ventura?

D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receiosa de que lh'a
arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade
proxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação.

De repente Amelia sobresaltou-se com uma idéa que lhe acudiu; e
deixando a mãi, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado á
escrevaninha, passando por cima da carta que terminara um rolete de
mata-borrão.

O pai sorriu vendo entrar a filha.

--Curiosa!

--Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza á poltrona.

--Vê si está de teu gosto; disse o Salles cingindo-lhe a cintura com o
braço.

Amelia leu a carta rapidamente; ella já sabia de antemão que faltava
alguma cousa.

--Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.

--Está muito boa papai. Só acho uma cousa?

--O que?

O negociante soffreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra prima
com aquella carta, escripta em seu mais bello estylo commercial, mas
recheada de alguns rasgos sentimentaes.

--Não acha, papai, que elle ficará todo cheio de si, obtendo logo,
assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje; responder
no mesmo dia.... mostra muita vontade de mais.

--Que mal ha nisso? Para que deixal-o na duvida, quando pódes tornal-o
feliz desde já.

--Papai pensa que elle duvida?

--Ah! Já sabe então! Muito bem!

--Eu não lhe disse nada, papai.

--Então como sabe elle? Adivinhou?

--Não adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da moda;
cuidam que todas as moças andam morrendo por elles, e que a dificuldade
está sómente em escolher. Como eu não quero que o Sr. Horacio me
julgue uma de suas conquistas, estou resolvida, papai, á pensar bem
durante quinze dias, antes de dar a resposta.

--Portanto esta carta não serve; disse o Salles com um suspiro.

--Ha de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer
unicamente, que, tendo me consultado, eu pedi algum tempo para dar a
resposta.

O negociante escreveu, e Amelia esperou até que partiu a carta,
confiada a um creado.

Momentos depois, Salles sahia para a cidade; e Amelia entrava em sua
alcova, descantando trechos de arias e romances. Não se podia dizer que
estivesse alegre, apezar do tom garrido com que modulava, e do fresco
riso que trinava em seus labios.

O que ella sentia era um alvoroço intimo, uma soffrega agitação,
estado indefinivel d'alma prurida por mil desejos, e contida por mil
receios.

Vejamos si é possivel descobrir o que passava ali, dentro daquelle seio
mimoso.

Desvanecida a primeira commoção, produzida pela carta de Horacio,
Amelia recordara-se do que tinha occorrido na vespera, e sobretudo das
palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade revoltou-se como era
natural.

--Hei de mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e que
não basta ser meu marido para vêr...

Foi então que se dirigiu ao gabinete do pai, e adiou a resposta
definitiva. Voltando, sentiu lá n'um cantinho do coração uns receios
que estavam nascendo. Não fosse Horacio zangar-se com a demora, e
retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem de mais.

Eis qual era o estado do animo de Amelia. Orgulho de vêr subjugado á
seus pés o rei da moda; prazer de o ter captivo de uma palavra sua
durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do que podia
acontecer; goso da ventura que sorria; taes foram os sentimentos
desencontrados que vibraram na alma da moça.

Nessa tarde Amelia preparou-se com maior esmero do que si fosse a um
baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azues,
tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compôr um trajo sumptuoso.

Ella esperava Horacio.

Toda a noite passou indo do sofá á janella, e da janella ao consólo,
onde estava a pendula de alabastro.

As horas se escoaram, sem que o tilbure do moço parasse á porta do
negociante.

No dia seguinte, Amelia perguntou ao criado, si a carta fôra entregue a
Horacio:

--Entreguei em mão, quando entrava no tilbure.

--E que disse elle?

--Nada; leu e riu-se.

--Ah! elle riu-se; murmurou Amelia comsigo. Pois eu lhe mostrarei.

Desde então, empenhada sua vaidade, os sustos se desvanecêram. Estava
decidida a não ceder. Horacio depois de vencido tentava ainda
resistir-lhe? Pois havia de subjugal-o completamente.

Á noite foi á casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do
costume. Leopoldo ali se achava tambem, e comprimentou-a com um modo
triste e resignado.

Deve existir uma corrente magnetica entre os homens, um fluido que serve
de vehiculo ao pensamento recondito e ainda não divulgado. Não se
explicam de outro modo certas revelações de um facto sómente
conhecido de poucas pessoas e por estas recatado. A emoção, que
desperta esse facto n'alma de alguns, repercute n'alma de outros, e
produz uma especie de intuição.

Na casa de D. Clementina, sabia-se já que Amelia fôra pedida em
casamento; embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não
ser conhecido das pessoas presentes. Salles Pereira, a mulher e a filha
não tinham dito a menor palavra sobre o objecto da carta de Horacio;
mas a impressão produzida por essa carta, a precocupação que deixára
nas pessoas da familia, as conversas intimas e recatadas, não
escapáram aos escravos.

D'ahi gerou-se o boato, que já tinha passado á casa de D. Clementina.

--Ah! chegou a Amelia Salles. Sabia que vai casar-se? Já foi pedida;
disse uma senhora a Leopoldo.

--Não, senhora, não sabia; respondeu o moço com magoa, mas sem
perturbar-se.

--Com quem? perguntou outra moça.

--Com um moço bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me
lembro.

Nisso Amelia entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e
conhecidas.

As allusões e gracejos a respeito do segredo incommodaram a moça,
embora por outro lado lhe causassem certo desvanecimento.

Pelo meio da noite, Leopoldo aproximou-se de Amelia para lhe pedir uma
contradança. Tinham dansado a primeira marca sem trocar palavra: afinal
o mancebo rompeu o silencio:

--É verdade que foi pedida em casamento?

Amelia empallideceu; quiz disfarçar illudindo a pergunta, mas encontrou
o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não se animou a
enganal-o.

--É verdade; murmurou em voz quasi imperceptivel. Mas ainda não
respondi.

--Estimo que seja muito feliz.

--Obrigada.

Amelia ficou sorpresa; ella suppunha que Leopoldo tinha-lhe ardente
paixão; e que portanto sentiria profundo pezar, sinão desespero, com a
noticia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava uma
resignação serena.

--Quando comecei a amal-a, D. Amelia, disse Leopoldo depois de alguns
instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançal-a neste mundo.
Minha alma pressentiu a aproximação da irmã que Deus lhe destinara, e
cuidou attrahil-a e embebel-a em seu seio. Mas essa illusão se
desvaneceu logo. Soube qual era sua posição, e comprehendi que a
senhora não me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente
sua alma; essa ninguem me póde roubar, nem mesmo a senhora, porque Deus
a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a noticia de seu
casamento; ella não me sorprendeu, embora me entristecesse. Até agora
adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem no templo; de agora em
diante terei de adorar essa alma querida, como se adora uma santa no
sepulchro.

Leopoldo fallou por algum tempo ainda, e a moça, que a principio se
acanhara com a expansão viva desse amor tão puro, bebia as palavras
ardentes do mancebo, como fluido que derramava em sua alma suave calor.

Nessa noite, ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:

--Por que julgou elle impossivel que eu o amasse? sem duvida não o amo;
mas talvez... Si eu não conhecesse Horacio... Quem sabe?

Nisto lembrou-se que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e
portanto faltavam treze para a decisão.

--Si elle não vier antes disso?... Si não vier... respondo que não.
Está decidido.



XII


Corrêram os dias sem que Horacio apparecesse em casa do Salles Pereira.
Amelia, apezar de seu esforço, não podia conter a impaciencia. Ella
adivinhava que o leão estava despeitado com a resposta, e queria
obriga-la á conceder-lhe immediatamente o que pedira; a sua mão, e com
a mão o pesinho que elle adorava.

Por vezes a moça foi até á porta do gabinete do pai, na intenção de
diser-lhe que escrevesse á Horacio enviando-lhe o consentimento. Mas
voltava envergonhada de sua fraqueza: enxugava algumas lagrimas que lhe
saltavam dos olhos; e fazia novos protestos de não ceder.

Nestas occaziões ella contemplava a imagem de Horacio com alguma
severidade. Lembrava-se da volubilidade com que elle fallava-lhe de seu
amor; do sorriso sempre faceiro que tinha nos labios e servia para
vestir a palavra alegre ou triste, zombeteira ou commovida; e finalmente
da insistencia que mostrava em vêr-lhe o pé.

Então acodia a Amelia uma circumstancia que á principio lhe escapára;
fôra sua recusa á impertinencia do leão, que o obrigára á pedi-la
em casamento no dia seguinte.

--Será apenas um capricho? Não me terá elle verdadeiro amor?... Si
não me engano, o que elle ama em mim, não sou eu, mas uma mulher que
imaginou; sirvo-lhe apenas de pretexto, como tantas outras antes de mim.

O resultado destas observações era protestar a moça que daria um não
ao pedido de Horacio. Mas quando seu pai lhe perguntava sorrindo:

--Ainda não?

Ella corava, abanava a cabeça, e fugia, disendo comsigo que ainda
faltavam alguns dias para o prazo marcado.

Para occupar as noites e distrahir o espirito dessa constante
preoccupação amiudou as visitas á casa de D. Clementina. Ali com a
influição do olhar profundo e da palavra eloquente de Leopoldo,
esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas
dôces reminiscencias, e sobretudo um certo arroubo do coração, que
durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preoccupações.

Ja haviam passado doze dias depois da carta, e Amelia estava mais que
nunca resolvida á romper com Horacio, quando se deu entre ambos um
encontro.

Foi no theatro.

Amelia que á principio evitou as occasiões de encontrar-se com
Horacio, lembrou-se que sua presença podia provocal-o; e obteve do pai
que a levasse ao espectaculo. Subindo a escada do Theatro Lyrico,
avistou Horacio que vinha do lado opposto.

Apezar de estar prevenida a moça teve um sobresalto; mas pôde
recobrar-se antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com
fria altivez e indifferença que ella correspondeu ao comprimento de
Horacio, sem demorar o passo em quanto elle trocava um aperto de mão
com o Salles Pereira.

Esta indifferença porém, e sobre tudo o gesto que Amelia fez para
arregaçar o vestido, quando subia o segundo lanço de escadas, ataram
de novo o leão ao jugo.

--Desta vez, pensou elle, si eu estivesse adiante via ao menos a ponta
do meu pésinho!

Teria Amelia simulado aquelle gesto de proposito? É natural; ella
queria subjugar outra vez o captivo que lhe escapara; usava de todos os
seus recursos.

Vencido, o moço acompanhou a familia até á porta do camarote, e
demorou-se ahi á conversar com o negociante. Entretanto Amelia, sem
dar-lhe a minima attenção, percorria com o binoculo os camarotes
trocando com a mãi observações a respeito das moças e seus lindos
adereços.

Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada
indifferença, á ponto de irritar o mancebo. Apezar de se ter rendido,
sentiu elle um impeto de revolta, e deixou sua cadeira junto á
orchestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Salles
Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento; uma das
estrellas de sua coroa de rei da moda.

Sentar-se-hia junto della, e estabeleceria um dialogo entretecido de
sorrisos, de olhares e meias confidencias como por ahi se dão tantos
nos bailes e espectaculos: verdadeira scena mimica de amor representada
perante o publico. Com esse entretenimento, Horacio comprometteria
seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-hia de Amelia,
excitando-lhe ciumes.

Chegava já o leão á porta do camarote quando occorreu-lhe este
pensamento.

Faltava apenas um acto para terminar o espectaculo; si elle mostrasse
afastamento, Amelia irritada persistiria em seu desdem durante o resto
da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influencia desse
despeito?

Horacio teve medo e recuou. Já se tinha submettido no começo da noite,
o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amelia, no fim do
espectaculo, abrandaria o seu rigor.

Começára o acto. Horacio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao
camarote de Amelia. A moça que já tinha reparado na ausencia do leão,
cuja cadeira estava desoccupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo
abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas
reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binoculo para o fundo da
sala.

Apegar do imperio que tinha sobre si, Amelia estava ao cabo das forças.
Si naquelle momento Horacio fingisse uma retirada, ella não resistiria.
Felizmente o leão não se lembrava disso; tinha resolvido esperar a
sahida para trocar algumas palavras com a moça.

Terminou o espectaculo afinal. Horacio offereceu o braço a Amelia:

--Muito lhe offendi com meu pedido, D. Amelia?

A moça calou-se.

--Não lhe mereço nem uma palavra!

--Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.

--Que injustiça!

--Quem passou tantos dias sem ella, póde bem esperar ainda os dous que
faltam.

--Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condemnou a ella?

--E o senhor nem ao menos procurou abrevial-a: achou mais commodo
esperar tranquillamente? Pois continue á esperar.

--Mas, D. Amelia! Depois da resposta de seu pai, si eu me apresentasse
em sua casa, tornar-me-hia importuno. Cuida que não soffri, passando
tantos dias sem vêl-a? Ingrata! Quantas vezes não podendo resistir fui
até á porta de sua casa, e passei, impellido pelo receio de indispol-a
contra mim? Si ella me amasse, pensava eu, teria acceitado logo: não o
fez; quer refflectir; devo deixal-a tranquilla, e respeitar a sua
resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigal-a á me aborrecer.

Horacio mentia; elle se ausentara da casa do Salles Pereira, sómente
para vencer a resistencia da moça por uma simulada indifferença.

O carro do negociante aproximou-se:

--Vai sem me deixar uma esperança?

--Não é aqui o logar de pedil-a.

--Então amanhã?

--Si quizer!

No dia seguinte á noite o leão estava em casa do negociante. Amelia o
recebera com um resto de resentimento, que se desfez com os primeiros
galanteios. Succedeu o que era natural; depois de uma abstinencia de
tantos dias, esses corações tinham sede de ternura, e beberam um no
outro á largos sorvos.

Quando o leão se retirou, elle sabia que dois dias depois receberia
officialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquella
noite entre um sorriso e um rubor.

Quanto á Amelia, depois que a auzencia do moço rompeu o encanto, e
deixou-lhe unicamente a consciencia do compromisso tomado, lembrou-se
involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pallida e triste, desenhou-se
em sua imaginação.

--Elle ha de soffrer muito! pensou a moça suspirando.

No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amelia
recordou-se disso, e fez tenção de ir. Naquelle momento julgou-se
obrigada á communicar sua ultima resolução á Leopoldo. Pareceu-lhe
que seria uma deslealdade deixal-o na ignorancia de seu casamento, até
que viesse á sabel-o por algum estranho.

Mais tarde surgiram os escrupulos. Tendo acceitado a mão de Horacio,
não era bonito animar uma affeição, que deixava de ser innocente.
Embora nunca retribuisse a paixão de Leopoldo, podiam suppôr que não
a repellia. Demais sendo natural que Horacio fosse passar a noite em sua
casa, ella procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um
rival.

Emquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razões disputavam
no espirito da moça a decisão que ella devia tomar. Afinal interveiu o
coração!

--Tenho pena delle!

E ás oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça,
cujo espirito jovial sympathisava com as côres frescas e risonhas,
escolheu um vestuario sombrio. Era uma faceirice melancolica. Aquella
menina de 18 annos, que na vespera, muito espontaneamente se promettera
á um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma
victimado dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contrahido.

Essa convicção dominava Amelia ao entrar na sala, e ressumbrava não
só nas fitas pretas de seu trajo, como na languida flexão da fronte,
e no olhar cheio de magoas. Ella se julgava sinceramente coagida por uma
força irresistivel, que a arrancava á um amor profundo e santo, como a
flôr que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.

Leopoldo comprehendeu a melancolia de Amelia, e adivinhou que essa
mulher estava perdida para elle no mundo; mas que sua essencia divina
lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a magoa da saudade, que
precede a longa ausencia. Quando se tornariam a encontrar as duas
metades dessa alma, separadas por uma contingencia da materia?

Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amelia, porem só lhe fallou
de cousas indifferentes, ao contrario do que ella esperava. Si o moço a
interrogasse á respeito do casamento, aproveitaria o momento para
confessar-lhe; mas elle nem de leve tocou nesse ponto.

Na occasião de se despedirem a moça fez um esforço.

--Já sabe? perguntou com voz tremula e quasi imperceptivel.

--Adivinhei! disse o mancebo fitando nella os olhos tristes.

Amelia ficou um instante indecisa, em face delle, como si esperasse mais
alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquelle olhar, em que diffundira
sua alma.

--Adeus! murmurou a moça afinal.



XIII


A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da côrte
concorrêra ao sumptuoso baile.

Toda aristocracia, a belleza, o talento, a riqueza, a posição e até a
decrepita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas
salas, adereçadas com luxo e elegancia; duas cousas que nem sempre se
encontram reunidas.

Eram nove horas. Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião a
gravidade solemne, o grande ar de ceremonia, que serve de prologo ás
festas esplendidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas,
observando o iris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das
senhoras; mas admirando especialmente as estrellas que brilhavam nessa
via lactea.

Amelia acabava de sentar-se.

Horacio foi logo saudal-a, e comprimentou-a pelo bom gôsto e delicadeza
de seu trajo.

Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era
de escomilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljofares de
crystal: nos cabellos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões
de rosa, borrifados de gôttas de orvalho.

Um poeta diria que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da
manhã; ou que a aurora vestindo as nevoas rosadas, descera do céo para
disputar as admirações da noite.

--Dançaremos a primeira: disse Horacio.

A moça corou.

--Sim.

Laura passava. Amelia chamou-a, mostrando-lhe um logar á seu lado.
Horacio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas
principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença.
Desde a noite do theatro o leão comprehendêra que a moça lhe votava
antipathia.

Conversando com a amiga, Amelia descobriu defronte, no vão de uma
janella, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplal-a, com um olhar
profundo e intenso, que servia de valvula ás exbuberancias de sua alma.
Sentindo-se sob a influencia desse olhar, a moça inclinou a fronte,
como um signal de submissão, e abandonou-se á contemplação do
mancebo.

De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo, as
impressões de seu espirito, os movimentos de sua alma. Presentiu que o
moço desejava aproximar-se della para lhe fallar, mas não se animava;
a solemnidade da festa, a grande concurrencia, a proximidade de Laura,
tolhiam o mancebo, cujo caracter fóra da intimidade se confrangia, por
uma especie de pudor, proprio das almas virgens.

Amelia sentiu um desvanecimento, descobrindo aquella fraqueza no homem
cujo olhar a dominava, e lembrando-se que ella podia nesse instante
protegel-o. Não ha para a fragilidade da mulher maior orgulho e prazer,
do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se da tyrannia do sexo
forte.

--Vamos sentar-nos do outro lado, Laura?

--Para que? Estamos tão bem aqui.

--D'ali vê-se melhor a sala; e deve estar mais fresco.

--Como quizeres.

As duas moças atravessaram a sala, e foram tomar logar justamente no
vão da janella onde Leopoldo se achava. Amelia conservou-se algum tempo
de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para dar occasião á
Leopoldo de fallar-lhe. O mancebo adiantou-se com effeito e
comprimentou.

Amelia estendeu-lhe a mão com interesse, para animal-o.

--Terei a felicidade de dansar uma quadrilha....

--Qual?

--A ultima!

--A ultima? repetiu Amelia rindo-se.

--Sim; depois que tiver dansado com todos; replicou o moço completando
seu pensamento com o olhar.

--Então a sexta.

A orchestra abriu o baile com uma brilhante symphonia, depois da qual
deram o signal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a symetria, e
formou-se o turbilhão.

Durante a contradansa, Horacio não se esqueceu do pésinho adorado; e
procurou todos os meios de o descobrir n'algum momento de confusão ou
descuido. Chegou até á fingir estouvamento em algumas das marcas com o
fim de embaraçar o vestido da moça.

--Eu me sento! disse-lhe Amelia irritada.

--_Barbara, non hai cor_! replicou-lhe Horacio com as palavras do
romance.

--O seu coração está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito.

--O meu a senhora bem o sabe, já não me pertence, pois lh'o dei a
muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio que o deixou
esmagado um tyranno que eu adoro e me repelle. Mas conto com a senhora
para movel-o em meu favor. Sim?

--Não: respondeu a moça agastada.

--Realmente eu não comprehendo. Será possivel que a senhora tenha
ciumes delle? perguntou Horacio gracejando.

A moça olhou-o com expressão.

--Tenho sim, tenho ciumes!

Terminada a quadrilha, Horacio, depois de algumas voltas de passeio pela
sala, deixou a moca no seu logar, e desceu a escada de marmore que
levava ao jardim, illuminado com lampeões de diversas côres. Havia ao
lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de ferro para tomar
sorvetes e refrescos. Horacio, dirigindo-se para esse logar, avistou
Leopoldo sentado á uma das mesas.

--Oh! por cá tambem, Leopoldo?

--É verdade; contra meus habitos.

--Está esplendido! Não achas?

--Sem duvida. Mas parece que não tem grande interesse para ti.

--Porque pensas assim?

--Vens te esconder aqui, quando se dansa. Devias deixar isso para mim,
que sou uma especie de misantropo, uma alma errante neste mundo das
fadas.

--Para ser franco, devo-te confessar, que neste baile, onde se acham
reunidas as mais bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada do que
póde tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a
concurrencia, nem as notabilidades de toda a especie, neste baile só ha
uma cousa que me interessa; uma cousa bem pequenina, e por isso mesmo de
um encanto inexprimivel.

--Que condão será esse tão poderoso?

--Disseste a palavra. É um condão, um verdadeiro condão de fada, que
me transformou de repente, e fez do senhor um escravo humilde e
submisso.

--Mas no fim de contas o que é?

--Um pésinho!

Tendo proferido esta palavra, Horacio julgou ter dito tudo quanto era
possivel exprimir na linguagem humana. _Um pésinho_, era aquelle ente
adorado que elle entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação; era o
primor, que deixara impressa a sua fórma delicada na mimosa botina. O
moço desenhava na fantasia aquelle idolo de suas adorações; e
acreditava que Leopoldo devia, como elle, extasiar-se ante a maravilha
da natureza.

Longe disso, Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que elle estava
sob a influencia de uma paixão materialista; que elle amava a fórma, e
levava sua idolatria á ponto de adorar não a fórma completa, a imagem
viva e palpitante da mulher; mas um fragmento, um trecho apenas dessa
fórma.

--Pois para mim tambem, disse Leopoldo, só ha neste baile como neste
mundo uma cousa que me illumina a existencia.

--A gloria?... aposto.

--Um sorriso, apenas.

Horacio não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era para elle
uma das cousas mais triviaes: tinha-os colhido tantas vezes, e em labios
tão puros e mimosos, que já não lhe excitavam a attenção. Eram como
as flôres de um vaso que todos os dias se substituem.

--Vais dansar? perguntou o leão.

--Agora não.

--Pois façamos uma cousa. Conta-me a historia de teu sorriso, que eu te
contarei a historia de meu pésinho.

--Começa então. Cabe-te a preferencia; disse Leopoldo.

--Eu a acceito; porque o objecto de meu culto não tem igual no mundo.

Horacio accendeu o charuto. Elle não tinha o menor interesse em saber a
historia de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para fallar do
objecto de sua adoração, e vasar o que tinha n'alma.

--Ha cerca de dous mezes, passando pela rua da Quitanda, achei por acaso
sobre a calçada um objecto que tinha cahido de um carro. Era uma
botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma cousa divina!

«Não pódes fazer idéa, não, Leopoldo. Sabes si tenho amado mulheres
lindas de todos os typos, alvas ou morenas; formozuras de todas as
raças, desde a loura escosseza até a brazileira de tranças negras;
adorei-as, umas depois de outras, e ás vezes ao mesmo tempo, essas
differentes irradiações da belleza. Pois confesso-te que nunca o
sorriso ou o beijo da mais seductora d'entre ellas me fez palpitar o
coração, como aquella botina.

«Pensem os phisiologistas como quizerem, o pé é a parte mais
distincta do corpo humano; sem elle a estatura não teria a nobreza, que
Deus só concedeu á creatura racional.

«O pé revela o caracter, a raça e a educação. Cada uma das
feições e dos gestos desse orgão de nossa vontade tem uma expressão
eloquente. Ha quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de
fina tempera? Ao contrario um pé chato e pesado é a prova infallivel
de um genio tardo e paxorrento.

«Virgilio, o poeta mais elegante que tem existido, comprehendeu que
Venus occultasse aos olhos do filho, na selva lybica, a belleza immortal
de seus olhos, de seu sorriso, de suas fórmas seductoras; mas não
aquillo que era sua essencia divina, sua graça olympica. Foi pelo andar
que ella revelou-se deusa; _et vera incessu patuit dea_.

«Nunca sentiste o doce contacto do pé da mulher amada? É uma
sensação deliciosa que penetra nos seios d'alma. Podes apertar-lhe a
mão, cingil-a ao seio, beijal-a. Nada vale aquelle toque subtil que
abala até a ultima fibra.

«Faze pois idéa do que eu sentia. E a botina não era senão a estatua
ou a effigie do pé encantador que a havia calçado. Ali estavam
impressos seus graciosos contornos, sua fórma suave.

«Apaixonei-me por esse pésinho, que eu nunca vira, que não conhecia.
Sagrei-lhe minha alma como ao _ignoto deo_ de minhas adorações.»

Horacio exagerou então os esforços por elle empregados para descobrir
o mysterioso idolo de suas adorações, e referiu os factos que já
conhecemos. Teve porém a discrição, rara em um leão, de não revelar
os nomes; receiava ainda que lhe arrebatassem a conquista.

--Finalmente, concluiu elle, o acaso me fez descobrir a dona do pésinho
que em vão buscava. Has de crer, Leopoldo? Conhecia essa moça, que é
realmente encantadora; diversas vezes achei-me com ella em sociedade, e
nunca sentira á sua vista a menor commoção. Mas quando soube que á
ella pertencia o thesouro, adorei-a. Para vêr o pésinho que sonhei,
estou disposto a fazer a maior das loucuras, casar-me!...

--É esta a tua historia?

--Dize antes meu poema. Sinto não ser poeta para escrevel-o.

--Pois si me permittes franqueza, dir-te-hei que realmente o desenlace
que lhe pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não une
duas almas irmãs creadas uma para a outra, é uma especie de grilheta
que prende dois galés; o supplicio de duas existencias condemnadas a se
arrastarem mutuamente. Tu não amas essa moça, Horacio...

--Não a amo?

--Não!

--Quando lhe vou fazer o sacrificio que nenhuma outra mulher obteve de
mim?

--Não passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé e nada mais.

--A mulher que amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. As
vezes são os cabellos; outras os olhos; tu amas o sorriso; eu o pé.

Leopoldo levantou os hombros.

--Sem duvida. A alma da mulher, como a do homem, se revella em cada
pessoa por uma feição mais distincta por uma expresão mais eloquente.
Mas não é isto o que succede comtigo. Tu sentes a idolatria da
belleza material; procuraste sempre na mulher a fórma, o amor plastico;
á força de admirar os mais lindos rostos e os talhes mais seductores,
ficaste com o sentido embotado; precisavas de algum sainete que
estimulasse teu gosto. Viste ou imaginaste um pésinho mimoso e gentil:
tornou-se logo para ti o typo, o ideal da belleza material, que te
habituaste á adorar.

Horacio soltou uma risada:

--Olha, Leopoldo, cá para mim o platonismo em amor, seria um absurdo
incomprehensivel, si não fosse uma refinada hypocrisia. Esses mesmos
que adoram a mulher como um anjo, de que se nutrem sinão da
contemplação da belleza material que tratas com tamanho desprezo? É
possivel que uma mulher feia seja amada por aberração do gôsto; mas
fazer disso uma regra geral!...

--Ninguem pretende semelhante cousa. A belleza é um encanto, uma
graça, um envolucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente a
mulher, como a petala é a flôr, e a scentelha é a luz.

--Sophisma! Tira a belleza á mulher amada e verás o que fica; o mesmo
que fica da flôr que murcha e da chamma que se apaga; pó ou cinza.

--Queres que te prove o contrario? Ouve a minha historia.

--Ah! é verdade. A historia de teu sorriso?

--Sim.



XIV


O Almeida accendeu outro charuto:

--«Meu romance, disse Castro, começou como o teu na rua da Quitanda.
Passando ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda
impressão. Parei para contemplal-a; mas o que eu admirava nella, não
era seu talhe elegante e seu rosto gracioso; era unicamente a emanação
de sua alma pura, o seu casto e ingenuo sorriso.

«Quando o carro partiu, arrebatando-a á meus olhos, conservei sua
imagem gravada em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua
figura, os seus traços. Não; era uma fórma immaterial, uma visão
vaga e indistincta. Não me lembrava como eram suas feições; qual era
a côr de seus olhos ou de seus cabellos; mas parecia-me que eu via sua
alma reflectida na minha.

«Senti que amava essa moça, e affaguei este sentimento, que enchia meu
ser de alegrias ineffaveis. Bastava-me vêr de tempos á tempos a minha
desconhecida, e trocar com ella um olhar ou beber-lhe de longe nos
labios o sorriso, que era emanação de seu ser.

«Estava-me reservada uma dura provança. Um dia vendo a minha
desconhecida entrar no carro, descobri que ella tinha um defeito... um
aleijão, é preciso dizer a palavra. A fimbria do vestido roçagando
mostrou-me um pé deforme.

--Ah! exclamou Horacio, não podendo reprimir um sorriso.

--O acaso tornou-se nesse dia de uma previdencia cruel. O que eu tinha
visto de relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela
imaginação. Podia acariciar essa illusão, e desvanecer a impressão
desagradavel que soffrêra. Mas o desengano não se demorou. Passando
nessa mesma hora pela loja onde compro calçado, vi sobre o mostrador
uma botina, verdadeiro contraste da que tu achaste, Horacio!

--É curioso!

--Não havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava de
vêr, mas o molde fiel!... Todos os traços phisionomicos do aleijão
ali estavam bem debuxados, sobretudo na fôrma que servira para o
calçado, e que ali se achava ao lado delle. Poupa-me a descripção do
que vi. Era repulsivo; isto basta.

«Imagina o que devia soffrer! Não era o feio, não; era o horrivel, o
estupendo, que de repente cahira como um peso enorme sobre meu
coração, para espremer delle, com o ultimo sôro, um amor profundo e
vehemente.

«A luta foi terrivel, mas breve. O amor triumphou, porque era o affecto
d'alma, e não o culto plastico da belleza. Hoje si alguma vez me lembro
do que vi, entristeço-me pelo desgôsto que ella ha de ter de sua
deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo, e a devo amar ainda
mais.

«Compara agora o teu com o meu amor, e dize em consciencia si tenho ou
não razão. Para anniquilar o teu, não era preciso um aleijão;
bastava substituir por uma fôrma commum esse primor que tu sonhaste,
esse pésinho de silpho ou de deosa, que talvez não passe de uma
illusão.»

--Illusão!... Si eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por
finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver
lembranças que te pezam. Desculpa-me ter fallado nisto. Como podia eu
imaginar uma tal coincidencia!

--É verdade!

Os dois amigos deram algumas voltas no jardim, fallando de cousas
indifferentes, e entrando nas salas, separaram-se.

Horacio procurou Amelia, durante algum tempo; afinal, passando pela
porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria a cortina de
velludo verde.

--Está triste; disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.

--Estou fatigada; respondeu a moça com frio desdem.

Horacio conhecia profundamente a physiologia da mulher que ama: tantas
vezes tinha lido e relido o livro mysterioso do coração feminino, que
não podia escapar-lhe a menor alteração do texto. O tom de Amelia o
sorprendeu; alguma cousa havia. O que era? O que podia ser?

Poucos momentos antes elle a deixára amavel e terna; uma hora depois
vinha encontral-a desdenhosa e fria.

--Ciumes, naturalmente! pensou o leão com certo desvanecimento.
Contaram-lhe alguma ou ella imaginou!

O moço resolveu sondar o coração da noiva:

--A senhora tem mais alguma cousa além da fadiga, confesse.

--Illude-se!

--Talvez! Concordo, para não contrarial-a ainda mais.

Deram alguns passos silenciosos:

--Vá amanhã jantar comnosco, sim? disse Amelia voltando-se para o
cavalheiro com um sorriso ineffavel.

A transicção não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite,
tal era aquelle sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.

Outro, que não fosse Horacio, teria respondido sem a menor hesitação
o _sim_, que supplicavam labios tão mimosos. Mas esse astuto Cesar dos
salões, perito na tactica da guerra á mulher, não era homem que
perdesse tão bom ensejo de alcançar o triumpho completo. O adversario
lhe dera a vantagem da posição, cumpria aproveital-a.

--Amanhã?...

A moça fez com a cabeça um gentil aceno.

--Não irei.

--Obrigada.

--Não devo ir.

--Porque?

--Si eu fosse, pediria ainda uma vez aquillo que lhe tenho pedido
tantas, e que a senhora me tem recusado tão cruelmente.

--Ah!

--Bem vê!... Iria contrarial-a, aborrecel-a...

--Cuida?...

Esta palavra tinha uma reticencia, e essa reticencia era um sorriso que
entreabria o céo de uma alma candida.

--Então amanhã?... disse Horacio.

--Vai?

--E si eu pedir?

--Experimente!

Amelia sentou-se, e Horacio, ebrio de ventura, desceu outra vez ao
jardim para desafogar as exhuberancias de sua alma. Nunca a primeira
entrevista da mulher que mais amára produzira nelle tão profunda
emoção.

Para achar alguma cousa comparavel com o que então sentia fôra
necessario remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras
pulsações de um coração virgem.

Sua paixão por Amelia tinha realmente uma virgindade. O conquistador
havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então
havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações
inebriantes de um primeiro amor.

Na sala dansava-se a sexta quadrilha.

--Acho-a pensativa, disse Leopoldo reparando que o lindo rosto de seu
par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora
amortecido pela reflexão.

Amelia fitou nelle seus grandes olhos ingenuos.

--E não tenho razão?...

Leopoldo calou-se. Tinha comprehendido o pensamento de Amelia. Na
vespera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existencia,
a mulher deve ter desses instantes de recolhimento intimo. A duvida
agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no amago da esperança
mais risonha. As flôres do coração, como as da natureza, têm um
verme, que as babuja.

Que podia Leopoldo dizer á essa alma perplexa? Augmentar-lhe a duvida,
dar força ás vacillações, não seria digno; parecia-lhe uma
seducção. Confortal-a em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe
para um futuro cheio de venturas, fôra nobre e generoso; mas
faltava-lhe abnegação para tanto.

Terminada a contradansa, Amelia pelo braço do par deu uma volta pela
sala. A um aceno de seu leque, Horacio, que estava conversando em um
grupo, chegou-se.

--Chame, papai. São horas!

Emquanto o leão procurava o Salles para prevenil-o do desejo de sua
filha, Amelia dirigiu-se ao toucador.

Leopoldo ficara sorprezo de vêr a moça fallar á Horacio, e com um tom
bem expressivo de intimidade.

--Não pensava que se conhecessem... tanto? disse elle com a voz
commovida.

--Pois é com elle...

O rubor que tingiu as faces da donzella rematou a phrase com a sublime
eloquencia do pudor.

--Não sabia? perguntou a moça para disfarçar.

--Não!

--Como o Sr. diz este _não_!

Com effeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando
pronunciára aquelle simples monosyllabo.

--Desejava que não fosse elle? perguntou a moça com certa ansiedade.

--Porque?

Aproximava-se Horacio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo
negociante. Amelia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina
de velludo do toucador, voltou-se:

--Ha de me dizer! insistiu.

--É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto
da moça á fimbria do vestido.

Amelia empallideceu; a cortina, escapando de sua mão tremula,
occultou-a.

--Conhecias, Amelia? perguntou Horacio, em quanto esperava que as
senhoras sahissem do toucador.

--Estás admirado, sem duvida! retorquiu Leopoldo seccamente.

O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas occorreu-lhe de
repente uma idéa, que lhe trouxe aos labios um sorriso de ironia.
Lembrara-se do aleijão.

A mulher amada por Leopoldo, não podia ser Amelia. Mas quem sabe si o
idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espirito severo que
desdenhava a belleza material, não soffria a seducção irresistivel do
mimoso pésinho?

--Admirado de que? De te vêr convertido á idolatria da belleza
material?...

Amelia que sahia do toucador, embuçada em sua capa de cachemira
escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.

Quando partia o carro do Salles, Leopoldo que tambem se
retirava, encontrou Horacio na porta.

--A illusão é a unica realidade desta vida! disse elle sorrindo.

--O que?

--Adeus!



XV


Seriam quatro horas da tarde.

Amelia já vestida para o jantar, esperava o noivo, trabalhando em um
bordado de tapessaria. A seu lado em uma linda banca de costura forrada
de páo setim, havia, além dos utensilios necessarios, uma profusão de
seda frouxa de varias côres.

No setim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o
risco de um par de sandalias, que pareciam destinadas á alguma fada,
tão pequena, mimosa e delicada era a fórma do pé.

Um dos esboços estava ainda intacto; no outro porém via-se já um
florão de rosas bordadas á seda frouxa, e no centro a lettra L., feita
com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja
tenção a moça trabalhava.

Amelia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação
mais seductora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de
melancolia, embotava a flôr de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz
dos labios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo
branco ainda mais ameigava a sua phisionomia.

Não ha para arrebatar os sentidos, como essa languidez da mulher amada.
Parece que ella verga com a exhuberancia do amor, como a planta muito
viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flôr. O homem
querido se regosija, pensando que suas palavras e suas caricias pódem,
como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher
amada.

Talvez em Amelia não fosse esse desmaio senão o effeito da fadiga do
baile, e das scismas da noite mal dormida.

Emquanto bordava, o ouvido da moça attento esperava algum rumor que lhe
annunciasse a chegada do noivo. Um carro parou á porta; e momentos
depois soaram na sala de visitas os passos de alguem.

Era Horacio.

Vendo a moça na saleta proxima, o leão dirigiu-se a ella, com a
familiaridade á que lhe dava direito seu titulo de noivo. Trocados os
comprimentos usuaes, sentou-se junto ao bastidor.

--O que está bordando?

Amelia fez um gesto para cobrir o bordado:

--Deixe vêr! insistiu o moço.

--Não vale a pena!

--Ah!

Esta exclamação desfez-se nos labios do mancebo em um sorriso de
jubilo.

--É um presente de annos para uma amiga! disse Amelia.

--Não são para a senhora?

--Não; respondeu a moça admirada.

--Está zombando commigo!

--Veja!

A unha de nacar da moça, mostrou o L. bordado a ouro.

--Pois ha quem tenha este pésinho mimoso, a não ser minha noiva? disse
Horacio rindo-se.

--Eu? exclamou Amelia enrubecendo. Pobre de mim!

--Lembra-se do que me prometteu hontem á noite?

Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte
pendida e os olhos baixos, parecia contrahida por uma dôr intima.

--Amelia!

--Hontem... não tive animo de contrarial-o. Fiz mal; desculpe-me.

--Então sua promessa? disse o moço com ironia.

Amelia voltou o rosto como para esconder uma lagrima.

--Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para
fazer. Si o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu
lhe supplico, não fallemos disso agora; depois eu lhe direi.
Prometto-lhe!

--Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim.

Horacio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela
sala. Amelia continuou a bordar, talvez para disfarçar o seu vexame.

Decorridos alguns instantes, Horacio, lançando um olhar para a moça,
occupada com seu bordado, viu alguma cousa que o sobresaltou. A fimbria
do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da
moça para quem estivesse sentado á sua esquerda.

O leão aproximou-se na esperança de sorprender o avaro thesouro que se
roubava á seus olhos.

--Não sabia que bordava tão bem!

--Ora! Não tenho paciencia para estes trabalhos. Si não fosse uma
divida...

--Como? Não é mais presente de annos?

--Uma e outra cousa.

--Ou talvez nem uma nem outra; disse Horacio adoçando o tom de ironia.

--Que necessidade tinha eu de enganal-o? disse Amelia com um doce
resentimento. Uma amiga minha...

--Cujo nome não consta.

--É segredo! atalhou a moça com faceirice.

--Ah! É segredo?

--Inviolavel. Ella não quer por cousa alguma que saibam nem mesmo
suspeitem....

--Que é sua amiga?

--Ora!... Que tem um pé deste tamanho: disse a moça mostrando o
bordado.

--Devéras? acodio Horacio.

--Ella pensa que é um aleijão e sente uma tristesa...

--Na verdade, possuir um thesouro, um primôr! Admira como sua amiga já
não morreu de desgôsto.

--Mas fallando sério; não é natural que uma moça tenha o pé de uma
menina de sete annos.

--Não sei si é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Ha certas
graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as
deusas, são assim.

--Com effeito! Si eu fosse ciumenta!

--De sua amiga?... De uma amiga tão intima?... Era quasi ter ciumes de
si mesma! disse Horacio gracejando.

--O que o senhor quer sei eu. É vêr se adivinha.

Horacio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo; menos
pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fimbra do vestido.
A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da
moça reclinada sobre o bastidor, promettia brevemente descobrir o
thesouro, tão estremecido pelo mancebo.

Amelia, occupada com seu trabalho, e distrahida com a conversa, se
esquecêra daquelle constante cuidado que ella tinha em compôr a orla
do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do
bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.

--Mas então essa amiga mysteriosa.... A senhora ia contar uma historia,
si não me engano.

--Historia, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o
pagamento de uma divida.

--Justamente.

--Pois essa minha amiga, incommodava-se muito quando tinha de comprar
botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito
grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro,
que trabalha tão bem como os melhores de Pariz.

--É exacto.

--Como exacto? O senhor sabe?

--A senhora não falla do Campas? disse Horacio um tanto perturbado.

--Não, senhor.

--Pensei.

--Haverá dois mezes; indo eu a cidade, minha amiga, que tinha feito uma
encommenda de botinas, pediu-me para vêr si estava prompta. Quando o
criado a trouxe para o carro onde o esperava, cahiu um pé de botina já
usado, que fôra para modelo. Minha amiga ficou muito afflicta; e eu fiz
tenção de dar-lhe no dia de seus annos umas chinellas bordadas por
mim. Bem vê que não o enganei.

Proferindo as ultimas palavras, Amelia sempre occupada com seu bordado,
debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de
sêda frouxa. Este movimento produziu o que Horacio esperava. A saia,
retrahida pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da
moça.

O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado.

O que vira era uma cousa indefinivel, estupenda. Era o aleijão, a
monstruosidade de que lhe fallára Leopoldo. Aquella massa informe;
aquella enormidade cheia de cavernas e protuberancias, elle a tinha ali
em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses
caturras hediondos das lendas da idade media.

--Diga-me uma cousa: hontem depois que sahimos o senhor conversou com
aquelle moço que dansou commigo? O Leopoldo, não é?

Não recebendo resposta, Amelia ergueu a cabeça para interrogar o noivo
com o olhar. O aspecto demudado de Horacio, o sorriso pungente que
amarrotava seu bigode artistico, a vista anciada que elle tinha fixa no
monstro, lhe reveláram subitamente o que succedêra.

Um grito de afflicção escapou-se do peito da moça, que afastou
violentamente de si o bastidor, causa do accidente, e colheu os largos
volantes da saia, occultando o que ella por tanto tempo defendêra
contra a curiosidade soffrega do moço. Por alguns instantes os noivos
permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repellidos um pelo outro, e
comtudo não ousando affastar-se. É um supplicio cruel esse que
inflinge a presença de um ente que faz corar de vergonha.

Afinal Horacio levantou-se e deu alguns passos á esmo. Amelia
aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão
dardejou para o interior um olhar terrivel; e tomando o chapéo, desceu
rapidamente as escadas.

Agora elle comprehendia tudo: e as palavras que Leopoldo lhe dissera na
vespera, ao sahir do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma
gargalhada satanica:--«A illusão é a unica realidade deste mundo.»

--Como pude eu tanto tempo illudir-me com o excessivo recato de Amelia?
Como não desconfiei do pudor selvagem que vellava semelhante á um
dragão sobre o terrivel segredo?

«Não ha moça, seja ella o anjo da pudicicia, que não mostre ao menos
a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso,
mas estava cégo. Todos cochilamos, sem ser Homeros: eu que me prezo de
conhecer a mulher, portei-me como um calouro.

«Consumir dois mezes á correr após uma sombra, e quando esperava que
a sombra tomasse corpo, ella se desvanece... Qual! Antes se
desvanecesse; mas ao contrario toma um vulto medonho, enorme,
esqualido. Faz-me quasi lembrar o verso de Camões.»

Horacio soltou uma gargalhada:

--Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Si ella de
mostrar a toeza; si eu de a vêr.

«Sonhar uma perola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma
brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma tubara!

«Si os rapazes souberem disto, estou deshonrado. Como posso eu mais
apresentar-me na rua do Ouvidor, quando a cousa divulgar-se? Todo o asno
terá direito de atirar-me o couce, como ao leão moribundo da fabula.»

Horacio começou á reflectir, si fizera bem sahindo tão
precipitadamente da casa de Salles. Moderou o passo, e olhou o relogio.
Eram perto de cinco horas. Si voltasse, chegaria tarde; demais, como
explicar a retirada e a volta?

--Em todo o caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo.
Assim como a illusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas
semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado
aquelle mourão, aquelle poste! Ser condemnado a arrastar uma trave por
toda a vida? Que supplicio!

«Si eu podesse imaginar que o Omnipotente, creador de tantas
maravilhas, se occupa com a minha ridicula individualidade, e se
interessa pelos pecados que eu tenho commettido, me ajoelhava aqui mesmo
na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.»

«Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão
grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquelle pé, seria
predestinar-se para o homicidio.»

Passava um carro, que parou de repente.

--Ainda por aqui, Almeida? disse o Salles deitando a cabeça fóra do
carro.

--É verdade... sahi, mas....

--Entre, que hão de estar á nossa espera; São cinco horas, demorei-me
hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos
arranjos.

Horacio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um callo.
Elle, o leão, sempre elegante, correcto e irreprehensivel no trajo,
como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espirito.

As senhoras estavam reunidas na saleta. Amelia ficou sorprendida, vendo
Horacio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas
este durou pouco. Ella conheceu logo que o leão obedecêra mais ás
conveniencias, do que ao affecto que lhe tinha.

Comtudo essa volta significava alguma cousa. Ella, Amelia, não causava
horror á seu noivo.

O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horacio, que
havia recuperado seu sangue frio. Uma circumstancia porém não escapou
a Amelia, que passou desapercebida ás outras pessoas; o leão, apezar
de sentado á sua esquerda, não achou um momento para trocar com ella
uma palavra. Ao contrario, manteve sempre a conversação geral, para
impedir o dialogo intimo, que elle receiava.

Terminado o jantar, Horacio achou um pretexto para retirar-se logo.

--O que se passou D. Amelia, é mais do que um segredo para mim; eu nada
sei, esqueci; disse elle despedindo-se.

Tocando apenas na mão que a moça lhe estendêra, sahiu.

Amelia deu um passo para chamal-o, mas apoiando-se ao recosto do sofá,
permaneceu immovel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao
longe.



XVI


Fazia uma semana que Horacio não apparecia em casa de Salles.

Amelia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira
contentou-se com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.

O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou
um defluxo para justificar sua ausencia; e prometteu apparecer no dia
seguinte.

Horacio comprehendia a necessidade de sahir da posição difficil em que
se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu
que o melhor era confiar-se á inspiração do momento.

No dia seguinte á noite, dirigiu-se á casa do negociante.

As duas senhoras estavam sentadas junto a mesa; a mãi lia, a filha
pensava. Amelia estava triste, sua mãi suppunha que eram saudades.

Quando Horacio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer.
Amelia sentiu um vislumbre de esperança, que illuminou o sorriso de
seus labios.

--Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros!

A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo.

--Não tem sahido? perguntou Horacio depois de uma pausa.

--Não; Amelia não tem querido.

--Por que? perguntou o moço voltando-se para a noiva.

--Então não sabe? acodiu D. Leonor.

--Porque não se offereceu occasião; disse Amelia.

--Mas tem recebido visitas?

--Algumas.

--O Leopoldo não appareceu!

--Não frequenta nossa casa; respondeu a moça.

--Ah! cuidei?

--Si elle nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes.

--Podiamos nos desencontrar, disse Horacio com um sorriso motejador.

Amelia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para
despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida estava
alheia a conversação.

--Foi em casa do Azevedo que o apresentaram á senhora.

--Não; conheço-o de muito tempo; ha perto de dois mezes.

--De onde, si não é segredo?

--Segredo por que? Elle frequenta a casa de D. Clementina que recebe ás
quintas-feiras. Constantemente nos encontramos ahi. É uma reunião
muito agradavel, estamos quasi em familia, sem a menor ceremonia.

--Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em
acompanhal-a, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui.

--O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de
aborrecer-se.

--Mas a senhora não se aborrecia; ao contrario divertia-se bastante.

--Alguma cousa.

--E Leopoldo era seu par?

--Era.

--Par constante?

--Não sei si era constante ou não; quasi sempre elle dansava commigo,
porque lá não ha muito onde escolher; os pares são poucos.

--Optimo systema! Assim não se repara?

--Em que?

--Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo
arranjado, ha gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque
emfim o outro póde não querer acceitar a responsabilidade de tudo! É
uma impertinencia, concordo, mos o mundo tem destes caprichos.

--Isso se entende naturalmente com as moças que têm _noivo arranjado_,
retorquiu Amelia frisando a palavra, e não com aquellas, cuja mão se
pediu talvez para satisfazer uma simples fantazia.

A moça levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso, e
foi sentar-se ao piano. Emquanto ella tocava uma variação de Thalberg,
Horacio para fazer alguma cousa, se entreteve em arranjar as figuras
chinezas de um jogo de paciencia. Nunca elle precisára tanto de
provêr-se dessa virtude evangelica.

Decorridos alguns instantes o leão ergueu-se da meza; deu algumas
voltas pela salla, e aproximou-se do piano, como para vêr a elegancia
com que a moça dedilhava.

--A senhora acha muito natural, D. Amelia, que uma noiva frequente
assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem vai
casar-se; acha natural que essa moça tenha em taes reuniões um par
effectivo, que provavelmente cultiva uma dessas amisades candidas dos
romances de Balsac, verdadeiros _lirios do valle_, que vivem de orvalhos
e de sombras. Eu, porém, sou um espirito prosaico e material: tenho a
infelicidade de não acreditar na attracção mysteriosa dos espiritos,
no consorcio ideal das almas irmãs, nos sonhos ethereos, nos effluvios
celestes, em toda essa giria sentimental. Para mim, intelligencia
grosseira, tudo isso não passa de uma hypocrisia do primeiro tartufo
deste mundo, o amor. É um tyrannete que toma todas as figuras e
posições; faz-se menino ou velho, anjo ou demonio, poeta ou
banqueiro... Estou incommodando-a talvez?

--Não; acabe.

A moça fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do
leão; mas á ultima phrase, ella retirou as mãos do teclado. Foi esse
o motivo da pergunta de Horacio.

--A senhora deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem
privados de uma distracção que tanto lhes agrada!

--Comprehendo, replicou Amelia. O Sr. me prohibe que eu vá á casa de
D. Clementina?

--Que idéa! Não tenho direito de prohibir; ainda não sou seu marido;
a senhora é completamente livre de suas acções, póde ir á casa de
D. Clementina, ou onde lhe approuver; assim como eu posso, querendo,
passar as noites no Club ou no Alcazar.

Amelia soltou uma risada.

--Pensava, que os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciume.

--Perdão; não se trata de ciume, nem sei o que isso é. A questão
reduz-se á uma antipathia de caracteres, á uma contradicção de
genios, que deve ter para o futuro graves consequencias. A senhora é
idealista, eu sou materialista. Um quizera viver no mundo dos sonhos,
outro neste valle das lagrimas e das realidades. A senhora procurando-me
no céo entre as estrellas e os anjos, e não me achando ahi, soffreria
uma cruel decepção; entretanto que eu na terra, ficarei reduzido á
sombra da mulher que amei.

--Não é tão pouco, para quem se contentava com um pé de criança;
disse Amelia com ironia.

--Mas esse pé era a realidade, a expressão a mais sublime della!

--Custa-lhe pouco á possuir essa realidade Mande fabrical-a em cêra:
sahirá ainda mais perfeita.

--Ainda não perdi a esperança de encontral-a.

O chá interrompeu o dialogo. Os dous noivos aproximaram-se da meza
oval, onde o criado acabava de collocar a bandeja.

A phisionomia de Amelia perdêra a expressão de tristeza e desanimo que
tinha a principio; a conversa lhe deixara no semblante alguns tons
vivos.

Occupada em dispôr as chicaras para enchel-as; os gestos sempre macios
da moça revellavam certa crispação nervosa.

Horacio ficára contrariado, porque não tivera tempo de precipitar o
_casus belli_. Receiava que se demorasse ainda o rompimento que elle
tanto desejava.

--Mamãi, disse Amelia com intenção, amanhã é quinta-feira. Vamos
passar a noite em casa de D. Clementina?

--Si quizeres.

--Não devemos faltar; deixámos de ir a semana passada.

--Foi logo depois do baile do Azevedo.

--Não o convido, disse Amelia voltando-se para Horacio, porque o senhor
não frequenta essas reuniões de gente pobre.

--Sem duvida; tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros;
respondeu Horacio, cruzando com a moça um olhar de desafio.

Elle sentiu que Amelia o provocava, e exultou. A moça estava disposta a
resistir; o rompimento era infallivel e prompto.

--Eu gosto bem dessas partidas; a noite passa tão agradavel.

Aproveitando-se de um momento em que D. Leonor se afastou, Horacio
atirou á moça rapidamente estas palavras:

--Pois si a senhora voltar á casa de D. Clementina, eu não voltarei
mais aqui.

Amelia estremeceu.

Um quarto de hora depois, Horacio retirou-se. Quando se despedia das
senhoras, disse o leão á moça apertando-lhe a mão:

--Desejo que se divirta muito amanhã.

--Aonde? perguntou D. Leonor.

--Em casa de D. Clementina. Não vai, D. Amelia?

A moça hesitou um instante. O offêgo de seu collo trahiu uma luta
violenta, mas rapida.

Sua resolução, antes que ella a exprimisse, manifestou-se na altivez
do porte, que uma vibração intima erigira.

--Vou sem falta!

Horacio, soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos do
vestido, cortejou profundamente.

--Seja muito feliz.

Apenas o leão desappareceu na porta, Amelia abraçando e beijando a
mãi, subiu precipitadamente á sua alcova; atirou-se á uma
conversadeira, e desafogou em pranto e soluços a dôr que tinha
recalcado desde muitos dias.

A maior parte da noite foi para ella de vigilia. Viu correrem as horas;
cada momento que se escoava era uma esperança, uma illusão que se
desfolhava da flôr viçosa de sua alma.

Aquelles que se separam das pessoas ou dos sitios queridos, conhecem bem
esse travo do coração que chamamos _saudade_ e sabem quanto é cruel o
momento de separação.

Mas não ha despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que nutrio
durante muito tempo. Ha ahi mais do que uma separação; é quasi a
mutilação moral.

Amelia comprehendêra que tudo acabara entre Horacio e ella. Desde o dia
do jantar receiara esse resultado; mas ainda alimentava uma esperança.
Naquella noite a esperança murchara, si não foi ella propria Amelia,
quem a desfolhara.

Agora na calada da noite, era sua alcova que lhe parecia um ermo, ella
tinha medo do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma
sentia-se como que asphixiada pelo silencio e pela treva que a
submergiam.



XVII


Como dissera á Amelia, na sua ultima visita, Horacio não tinha perdido
a esperança de encontrar o que elle chamava a realidade de seu amor; o
pésinho gentil e mimoso do qual elle possuia a botina.

Illudira-se nas suas investigações; era preciso recomeçar.

Tal era o pensamento que preoccupava o leão, recostado naquella mesma
poltrona, onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da
fumaça do puro havana, rastreava nas espiraes diaphanas a imagem
confusa de seus pensamentos.

Tinham decorrido tres dias depois do seu rompimento com Amelia. Logo na
seguinte manhã, o leão para não dar tempo ao arrependimento da moça,
escreveu uma carta ao Salles, manifestando seu receio de que a
antipathia de genios tornasse infeliz uma união que todos ardentemente
desejavam.

O negociante mostrou a carta á filha, que lhe disse com um sorriso
forçado:

--Elle tem razão!

A carta de Horacio teve resposta no mesmo dia. O Salles encontrando-o na
rua do Ouvidor recusou-lhe o comprimento.

O leão satisfeito com esse prompto desenlace que evitava longas
explicações, achou-se á poucos passos de distancia em frente de
Leopoldo.

--Oh! Tu me trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão.
Sempre que nos encontramos ou está para acontecer ou já tem acontecido
alguma cousa de bom para mim.

--Não sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma especie de astro
propicio, sob cuja influencia nasceste.

--Queres vêr? Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos
no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.

--Ah! e sob o meu influxo benefico?

--Está visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os
sacrificios até o do casamento para possuir aquelle pézinho!...

--Lembro-me.

--O unico obstaculo era uma especie de promessa ou arranjo de familia.
Felizmente a menina, a tal Amelia comprehendeu que perdia seu tempo, e
arrufou-se na noite do baile por uma ninharia. Eu aproveitei o pretexto;
escrevi ao pai retirando minha palavra, e agora mesmo elle me acaba de
responder. Estou livre como o ar, e contente como um rapaz que sahe do
collegio.

--Neste caso dou-te meus parabéns.

--E tu como vais com o _sorriso_?

--Sem novidade.

--Diz-me uma cousa, no dia em que a viste pela primeira vez, ella estava
só ou com outra moça. Faço te esta pergunta porque foi na rua da
Quitanda e quasi pelo mesmo tempo que eu achei a botina.

--Eram duas; respondeu Leopoldo sorrindo.

--Em uma victoria?

--Sim.

--A outra era mais baixa?

--Não affirmo.

--Adeus.

O leão separou-se do amigo, e repassando as particularidades de sua
conversa com Amelia perto do bastedor e no dia do jantar, começou a
combinal-as com as informações de Leopoldo, e com as circumstancias do
encontro no _Passeio Publico_, onde vira o signal impresso na arêa pelo
mimoso pézinho.

Agora, fumando seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as
suas reflexões, e chegava á este resultado.

--Decididamente o pézinho é de uma moça que ia com Amelia, no dia em
que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe no _Passeio
Publico_. Essa moça, cuja inicial é um L, não é outra senão Laura.
Aquelle pudor feroz era um indicio infallivel. Amelia procurava imital-o
por motivo bem diverso; mas não o conseguiu.

O moço chegou-se a banquinha onde estava o cofre de pau rosa e
contemplou a botina.

A noite o leão foi a uma partida. Sua estrella o favorecia. Laura lá
estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que ella a principio
recebeu com manifesta esquivança, mas depois com timidez.

Horacio comprehendia a razão do procedimento da moça. Para
tranquillisal-a, teve o cuidado de nunca abaixar a vista á fimbria do
vestido, e mostrar-se enlevado pelo collo gracioso da gentil senhora. A
lição que recebêra anteriormente, o tornou de uma prudencia
consummada.

No fim da noite o leão conseguira restabellecer a confiança no
espirito de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela scena do
theatro. Era o essencial; com os meios de seducção de que dispunha, e
a inclinação que a moça revelava por elle, contava certa a conquista.
A questão era de tempo.

Antes de quinze dias frequentava a casa da moça, e estava na intimidade
da familia.

Laura perdêra o marido aos 17 annos, pouco tempo depois de casada. Era
rica; não lhe faltavam pretendentes atrahidos pelo dote e pela belleza;
mas ella não parecia disposta a tentar segunda vez a felicidade
conjugal, embora não tivesse passado da lua de mel. É natural que o
desejo lhe chegasse com o primeiro fio de neve; quando fossem rareando
os apaixonados que a cercavam.

Uma manhã, Horacio passando á pé, como costumava, pela casa da moça,
viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e occupada em fazer um
ramo de flôres. Entrou e foi ter com ella, á sombra de uma latada de
madre-silvas.

Laura deu-lhe logar perto de si; e começaram a conversar sobre flores,
modas, e mil futilidades.

Eram dez horas do dia. O sol brilhava em céo limpido; uma aragem fresca
sussurrava entre as folhas; os colleiros trinavam nas ramas das
larangeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava o coração
á abrir-se e cantar o seu hymno de amor.

Laura reclinou a fronte e emmudeceu, com os olhos embebidos no seio de
uma rosa, que tinha no regaço. Horacio tomou-lhe a mão, que ella cedeu
com tenue resistencia.

--Sabe desde quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela
primeira vez passar em um carro. Foi si não me engano na rua da
Quitanda; ia com a filha do Salles. Lembra-se?

A moça fez um gesto afirmativo.

--Depois encontrei-a no theatro. A principio seus olhos me deixaram
conceber alguma esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como
soffri! Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar ás
ingenuidades dos 18 annos. Um dia ainda me lembro, vi-a de longe entrar
no Passeio Publico; apressei-me para ter o prazer de cortejal-a e
receber um olhar. Debalde corri todas as ruas; quando voltei á porta
fiquei desesperado. A senhora tinha sahido, sempre com a filha do
Salles. Recorda-se?

--Recordo-me; respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?

--Duvida, Laura?

--Nega que esteve apaixonado por Amelia Até diziam que já a tinha
pedido.

--Que ingratidão! Não sabe então porque me fiz apresentar em casa do
Salles? Para vel-a, era preciso procurar um meio; a senhora já não se
lembra da dureza com que me tratava.

--E por isso consolava-se com Amelia?

--Si amasse, Laura, havia de saber o que é o ciume, e as loucuras que
elle nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!

--Quem lhe disse!

--Essa frieza.

--E o que eu soffri?... balbuciou a moça pondo os olhos languidos no
semblante do mancebo.

--Perdão, Laura; exclamou Horacio ajoelhando. Eu era um louco, indigno
de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me implorar o
meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...

--Ah!...

Horacio proferiu aquellas palavras apaixonadas, de joelhos diante da
moça que sorria inclinada para elle; de repente abaixou-se para
beijar-lhe os pés, esse objecto de sua adoração. Foi então que ella
soltando um grito de espanto, o repelliu para longe de si com horror.

Comtudo, o moço, que preparara toda aquella scena para chegar a
realisação do desejo por tanto tempo afagado, conseguira vêr... Mas
não o que esperava; um pésinho mimoso e gentil; e sim dois pés
inglezes de soffrivel tamanho, que lhe pareciam descansar sobre uma
almofada preta.

O semblante de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas
faces entumecidas respirava uma expressão feroz de odio e vingança.

Horacio comprehendeu que naquelle momento qualquer explicação era
impossivel. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se. No fim de
contas esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas as dificuldades
da retirada.

Cortejou e sahiu.

A alguns passos da casa, o leão não poude conter uma gargalhada, que
lhe estava a soffocar, e desabafou-a. Realmente havia de que rir; duas
vezes mistificado em sua paixão, elle o rei da moda, o conquistador
sempre feliz.

Insensivelmente começou á reflectir sobre o occorrido. Por mais que se
désse tratos, a imaginação não podia decifrar o enigma. A botina que
achara fôra perdida por uma das duas moças; mas não pertencia á
nenhuma. Seria encommenda de outra amiga, e talvez para alguma menina de
dez annos?

De repente surgiu no espirito de Horacio uma idéa tão original, como a
situação em que se achava.

--Eu vi os dois pés de Laura; mas de Amelia, só vi um; é verdade que
esse valia por tres. Mas... Não resta duvida. A naturesa tem destes
caprichos. A maravilha a par do monstro, o mimo em face da deformidade!
É o principio do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o
aleijão. O esquerdo ficou occulto, como a perola e o diamante.

Compenetrado dessa idéa, de que o pésinho adorado pertencia a Amelia,
a quem a naturesa em compensação aleijara o outro; Horacio admittiu a
possibilidade de que sua paixão pela moça revivesse, embora menos
ardente, ou mais positiva.

Ter aquelle pésinho em suas mãos, sentil-o estremecer e palpitar de
emoção, cobril-o de beijos, acariciar a rosea cutis diaphana, tecida
de veias azues; brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas de
nacar; cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de amor e volupia!...

Não podia haver para o leão maior delicia neste mundo. Elle daria por
ella todo o quinhão de prazer que por ventura lhe estava reservado para
o resto da existencia.

Foi engolphado nestes devaneios que Horacio apeou-se á rua Direita de
um tilbure, que tomara no largo do Machado.

Seguindo para a rua do Ouvidor, á passo lento e descuidado, o leão
aspirava o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que ha de
consumir o dia, e fareja uma aventura qualquer.

De repente avistou cousa que o pôz alerta. Um carro que subia a rua do
Ouvidor passou por elle; era o _coupé_ do Salles. O rosto encantador de
Amelia appareceu-lhe á principio de relance na penumbra que azulava o
acolxoado de damasco, depois em plena luz moldurado pelo quadro do
postigo.

Acompanhando com o olhar a carruagem, Horacio a viu rodar por algum
tempo vagarosamente por causa de embaraço no transito e parar proximo
á esquina da rua dos Ourives. O lacaio, com a mão na aldraba, esperava
naturalmente ordem para abrir.

Horacio apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amelia
coroada com um chapeosinho de palha de Italia, assomando no postigo,
afim de percorrer a rua com o olhar. A idéa de que a moça lhe desejava
fallar passou pela mente do leão, que a repelliu, sem comtudo
consideral-a impossivel.

Em todo o caso elle acreditou que mais ou menos tinha parte naquella
parada do carro, e não se enganava.

--Para que mandaste parar? perguntou D. Leonor.

--Quero comprar luvas no Masset; respondeu a filha.

--Ficou atraz.

--Podemos ir a pé.

Quando o leão chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se e
Amelia, em companhia de sua mãi, saltou na calçada. A moça tinha um
roupão côr de café, de extrema simplicidade, porém muito elegante;
as luvas eram da mesma côr de cinza das fitas do chapéo de palha.

As duas senhoras dirigiram-se para a casa do Masset. Horacio procurou
cortejal-as na passagem, mas ellas não lhe deram occasião. Comtudo o
leão reparou que a moça desfarçadamente voltou o rosto para olhal-o.

Emquanto as senhoras compravam luvas, Horacio as esperava em frente da
casa do Valais, á alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amelia vinha
só na frente. Felizmente o transito pela calçada diminuiu naquelle
instante, de modo que o conquistador poude vêr a gôsto a moça
aproximar-se delle. Levados por um impulso irresistivel os olhares do
mancebo abaixavam-se para os volantes do vestido, e rastejaram no chão
que a moça pisava.

Amelia percebeu a insistencia do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe
dos labios. Imaginando que na calçada havia lama, colheu com ambas as
mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento que descobriu os pés
até o colo da perna.

Horacio ficou fulminado.

Vira pousados na calçada dois pésinhos mimosos que palpitavam dentro
de botinas de merinó côr de cinza. Pareciam um par de rolinhas,
arrulhando na praia, e beijando-se com o biquinho rosado. Durante o
rapido instante, que seus olhos poderam admirar esses primores de graça
e gentileza, não escaparam a Horacio as ondulações voluptuosas e os
contornos suaves dos dois silphos. Nunca elle observara no talhe
elegante da mais formosa mulher, requebros tão avelludados como tinha
aquelle dorso arqueado, e aquella palmilha subtil.

Tamanho foi o pasmo de Horacio, que só deu por si quando a moça,
passando por elle, entrou na carruagem. Voltou-se então
precipitadamente, sem consciencia do que ia fazer; mas a parelha já
tinha partido a trote largo.

Momentos depois o leão descia a rua do Ouvidor completamente absorto.
Seu labio distrahido ia debulhando, sem o sentir, alguns trechos dos
lindos versos do conselheiro José Bonifácio:

«Padres, não me negueis, se estáes em calma, Um coração no pé, na
perna um'alma!»



XVIII


Laura e Amelia eram primas e amigas de infancia; havia entre ellas
apenas a differença de dezoito mezes.

Desde a idade de tres ou quatro annos, isto é, desde que deixou as
faxas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo a
todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam
extravagante e ridiculo o capricho e censuravam a mãi.

Esta ouvia as censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos,
e calava-se; mas não alterava o vestuario da menina. A ternura e
piedade materna lhe davam a paciencia necessaria para arrostar com as
zombarias do mundo.

Laura tinha um aleijão; nascêra com os pés disformes. Para mais
aggravar o desgôsto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada á uma
belleza angelica. A senhora avaliou do infortunio de sua filha; e
preparou-se para todos os sacrificios. Consultas foram dirigidas aos
melhores medicos da Europa; chegou a emprehender uma viagem para tentar
os recursos da sciencia; foram todos ineficazes.

Desenganada afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, afim
de que ella não fosse obrigada á envergonhar-se na sociedade. Durante
muito tempo Laura não teve outra criada, alem de sua mãi. A custa de
esforços constantes, de uma vigilancia incessante de cada dia e cada
hora, conseguiu a senhora manter esse segredo de familia, do qual
dependia a felicidade da filha.

Attingindo a idade de oito annos, a menina com o instincto da mulher,
comprehendêra seu infortunio; e desde então descansou a mãi daquelle
cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu marido que a amava
extremecidamente, morreu ignorando o segredo.

Com bastante magoa sua, Amelia sorprendeu o segredo da prima e amiga.

A filha de Salles tinha dois pésinhos de fada, breves, arqueados, com
uns dedos que pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso
causava á moça, ninguem o imagina. Ella suppunha-se aleijada; apezar
de seus 18 annos, seus pés eram de menina.

Assim o mesmo cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha
ella em occultar essa graça e prenda da natureza. Naquelle tempo não
se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrario
o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fimbria do
vestido.

Um dia que Laura passou em sua casa, Amelia teve curiosidade de comparar
seu pésinho com o da prima, para saber si a differença era excessiva.
Em quanto a outra endireitava o penteado no toucador, realisou ella seu
intento.

Avalie-se da vergonha e afflição de Laura; o desespero de Amelia foi
maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão grande pezar á
prima, á quem ella queria muito bem. Para mitigar essa dôr profunda,
Laura esqueceu a sua.

Desde então as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o
pésinho de Amelia; esta, ou sinceramente, ou para attenuar a magoa da
prima, chegava a invejar o seu infortunio.

Aborrecida de não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse, Amelia
tinha descoberto por acaso o sapateiro da rua Sete de Setembro.
Conhecendo a habilidade do Mattos, pensou que elle podesse disfarçar o
defeito da prima. Não se enganou; o artista realisara a obra-prima de
paciencia, que Leopoldo tivera occasião de apreciar por um acaso.

Amelia fez á Laura o sacrificio de expôr-se para não comprometter o
segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha visto,
recebia as encommendas por intermedio de um criado que pagava á vista.
Facil foi portanto illudil-o.

Na occasião em que as duas primas esperavam de carro na rua da
Quitanda, o lacaio vinha da casa do sapateiro, o qual vexado com a
pressa, esquecêra as recommendações de fechar bem o embrulho.

As pretenções de Horacio vieram pouco depois arrefecer a amizade das
duas primas; já não se viam tão a miude; mas não obstante Amelia
continuou a prestar a Laura o mesmo serviço, e essa, coagida pela
necessidade, foi obrigada a acceital-o.

Iam as cousas por esse theor, quando teve logar o baile do Azevedo.

Depois da primeira quadrilha, Amelia foi ao toucador. Era este em uma
sala que dava para o jardim. Aproximando-se de uma janella entreaberta,
obscurecida pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos
no momento em que elles vieram sentar-se no banco, justamente collocado
por baixo da janella.

A casa era abarracada. Amelia encostada no portal da janella, descobria
os dois cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distinctamente suas
palavras.

Ahi, immovel, mas agitada por commoções diversas, escutou ella a
historia do pé, e a historia do sorriso. Já os dois amigos se tinham
afastado, e a moça permanecia no mesmo logar, como extatica.

A narração de Horacio, e as observações que fizera Leopoldo a esse
respeito, revelaram á moça uma cousa que já anteriormente se havia
apresentado, embora indistincta, vaga e confusa á seu espirito.

O que Horacio amava nella, não era mais do que uma fórma, um capricho,
um sonho de sua imaginação enferma. Ella comprehendeu essa aberração
dos sentidos em um homem gasto para o amor e saciado de prazeres. A
mulher era para o leão uma cousa commum e vulgar, incapaz de
produzir-lhe emoções fortes. Tinha-as admirado, de todos os typos e de
todos os caracteres. Seu coração exhausto precisava de alguma cousa
nova, original e extravagante.

Amelia comprehendeu isto, não por uma analyse, que seu espirito casto
não poderia fazer; mas por uma intuição d'alma.

Quando de novo encontrou Horacio no baile, suas maneiras não podiam que
se não resentissem do estado de seu coração. Tratou o leão
seccamente; mas logo tornou-se amavel; occorreu-lhe uma idéa; quiz pôr
á prova o amor do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.

Foi na sua alcova, durante a insomnia, que ella recordou-se da historia
de Leopoldo, e comparou seu amor ao de Horacio. Repassando na mente as
palavras commovidas do primeiro, pensando naquelle affecto tão
desprendido das miserias humanas, tão d'alma, Amelia sentia-se como
purificada dos desejos do seductor.

Esse amor puro e immaterial era um baptismo para seu coração virgem.

A moça conheceu que o engano de Leopoldo, provinha de uma illusão da
vista, no momento de entrar no carro com Laura; illusão confirmada pela
presença do lacaio na loja do sapateiro. Chegou á estimar esse
incidente que pôz em relevo a alma nobre e generosa do mancebo.

Acodiu-lhe á lembrança, sua primeira conversa em casa de D.
Clementina. As palavras que então lhe pareceram inintelligiveis, tinham
agora um sentido. Comprehendia toda a sublimidade do coração que dizia
com uma profunda convicção:--«Sinto-me capaz de amar o horrivel,
sinto-me capaz de nutrir uma dessas paixões martyres, de amar o anjo
ainda mesmo encarnado no aleijão.»

--Esse me ama realmente, a mim, e não a sua fantazia! murmurou a moça
com tristeza.

No dia seguinte, depois de uma noite de insomnia, preparou-se para
receber Horacio, e submettel-o á prova. O Mattos conservava um par das
antigas botinas de Laura, o qual lhe fôra para modelo. Mandou Amelia
buscal-o; e encheu-o de algodão para acommodar nessa enormidade o seu
mimoso pésinho.

O bordado do bastidor, foi expressamente inventado. Procurando uma
lettra para indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente,
insensivelmente traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira a
mente, ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava ainda na
imaginação? Foi uma e outra cousa. Serviu-se do pretexto da amiga,
para evocar o nome do homem, que tão profundamente a amava.

Depois da scena que teve logar na tarde do jantar, Amelia arrependeu-se.
Receiava ter-se excedido; bastava-lhe matar a illusão do mancebo, não
devia ter excitado o horror. Mas o affecto de Leopoldo a tornara
exigente, ella queria ser amada por Horacio da mesma fórma, com aquella
sublime abnegação.

Durante alguns dias, alimentou a esperança de conservar a affeição do
noivo, e regosijava-se com a idéa da sorpresa que lhe guardava.

A ausencia do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então
uma luta em seu espirito. Devia esquecer o homem que não amava nella
sinão uma fantazia?

O tom de Horacio na ultima noite a irritou. Seu amor proprio indignou-se
com o menoscabo do moço e subita revelação de sua alma lhe advertiu,
que esse casamento causaria sua desgraça.

No dia seguinte ao do rompimento, Amelia foi como havia dito na vespera
á casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a vêr Leopoldo
depois do baile.

Estiveram juntos alguns momentos. Como de costume Leopoldo fallou, e a
moça embebeu-se daquellas palavras apaixonadas como de um effluvio
suave.

Em um momento de pausa, disse Amelia.

--O senhor, passou por nossa casa na terça-feira?

--É verdade. Porque pergunta?

--Eu estava no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.

--Não me animava.

--Porque?... Mamãi já lhe offereceu nossa casa.

--Tenho receio de ser importuno.

--Pouco sahimos agora; á excepção das noites que passamos aqui,
estamos sempre sós; mamãi lendo, e eu tocando ou fazendo algum
trabalho de lã.

--E ninguem mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar
interrogador.

--Ninguem! respondeu Amelia em tom grave.

Leopoldo ficou suspenso, buscando comprehender o pensamento da moça.
Era magoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim lhe
annuviara a phisionomia?

Mas o sorriso prasenteiro illuminou o semblante da moça:

--Sabe? Naquella noite do baile, me contaram uma historia muito
interessante? disse ella.

--Não se póde saber?

--O senhor, póde. Foi a _historia de um sorriso_, disse Amelia
sublinhando a palavra com um gesto faceiro.

--Quem lhe contou? Foi elle...

--Foi o senhor.

--Eu?

--O senhor mesmo. Já não se lembra?

--Quer gracejar?

--O senhor estava no jardim conversando com seu amigo, e eu na janella
do toucador.

Leopoldo adivinhou.

--Então ouviu tudo?

--Tudo!...

--E... perdoou-me?

--Não; não tinha de que, mas...

E seus bellos olhos limpidos repousaram no semblante do moço.

--Mas comprehendi!

Nesse momento D. Leonor chamou Amelia.



XIX


Quando recobrou-se da sorpreza era que tinha ficado, Horacio não achou
em si mais do que o desejo vehemente e irresistivel de possuir o idolo
por tanto tempo sonhado.

--Serão meus! murmurou comsigo. Serão meus á todo preço. Si fôr
necessario um escandalo, não hesitarei. Mas Amelia não deve ter-se
esquecido de mim já tão depressa; ella me tinha affeição. Vou
pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-hei á todas as
condições. Que sacrificios são bastantes para pagar a felicidade de
beijar aquelles dous mimos da natureza!

Instinctivamente Horacio seguiu na direcção da casa do Salles, com
intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia elle
de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do
momento.

Já não estava o negociante no escriptorio, nesse dia se retirára mais
cedo.

Mallograda sua esperança, o leão foi caminhando pela rua Direita sem
direcção, como quem não sabe o que fazer. O instincto que no deserto
guia o rei dos animaes á cebe odorifera onde retoução as gazellas, o
conduzia naturalmente para a rua do Ouvidor.

Tinha chegado á esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu
pela calçada Carceller. Horacio acompanhou-o com a vista, querendo
nelle reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mez não vira.

Si com effeito o moço era Leopoldo, tinha elle soffrido grande
transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas
maneiras, sempre de cabellos arripiados e barba revolta; apparecia um
cavalheiro de bôa presença, com a sobria elegancia que tão bem
assenta nos homens sisudos. Essa especie de elegancia é apenas um
ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços á
moda.

Com seu fino tacto e longa experiencia, Horacio, reconhecendo o amigo,
adivinhou o segredo daquella subita methamorphose. Elle sabia que só ha
um condão capaz de produzir taes encantos; é o olhar da mulher amada e
amante.

Ame alguém e não saiba si é retribuido. Toda sua existencia se
projecta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser, e ancêa
por nelle infundir-se. Vive-se fóra de si mesmo, alheio á seu proprio
eu; como o peregrino perdido longe da patria, o homem exilado de sua
pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo.

Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de
espandir-se recolhe e concentra para saturar-se de felicidade. Já não
se alheia e esquece de si; ao contrario sente-se elevado acima do que
era; respeita em sua pessoa o homem amado.

Nessa occasião é natural á cada um observar-se constantemente, e
julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações extranhas; o
fraco lembra-se de ser um heróe; o philosopho inveja a belleza do
casquilho; o espirito positivo habituado a voar terra a terra bate o
coto das azas para remontar-se ao ideal da poesia.

Não é só no homem que se opera essa methamorphose: mas em toda a
natureza. Quando se arreiam os passaros de sua mais bella plumagem,
quando gorgeiam as melodias mais brilhantes, si não é na quadra dos
amores?

Vendo Leopoldo parado na calçada Carceller, Horacio dirigiu-se com
disfarce para aquella parte, com intenção de travar conversa e
esclarecer de todo em todo o mysterio. Foi trabalho perdido; o moço
acabava de saltar em um tilbure, que rodava já pela praça de Pedro II.

Desapontado, voltou Horacio sobre os passos.

--Amelia o ama!... Ou pelo menos elle o acredita!...

Sorriu-se o leão.

--Que phenomeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança
da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o
amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repellido por
corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ella cuida sentir por
esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o impeto de
seu despeito. Seria capaz de conceder á esse comparsa, o que recusaria
á affeição mais terna e extremosa. O assomo do ciume, suppõe ella
ser vehemencia da affeicção; e confunde com os extremos de amor o
delirio da vingança. Amelia está passando por esta crise naturalmente.
Leopoldo foi o plastão; ella o ama com todo o furor do odio que me tem.

Outro sorriso frisou o labio do leão.

--Ella me odeia! Ora!... O odio o que é senão a effervescencia do
amor? O affecto suave e terno é como o muscatel de Setubal ou o vinho
de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e
espuma.

Chegando a casa, Horacio escreveu a Amelia uma carta, que apenas
continha estas palavras:

«Deve estar satisfeita, pois me tem de novo á seus pés, e desta vez
humilde e supplicante. A melhor corôa do triumpho é o perdão.»

Sahindo o leão á espairecer, dirigiu os passos para a casa do Salles;
esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta.
Quem sabe? Talvez nessa mesma occasião se decidisse de sua sorte. A
moça lhe permittiria fallar-lhe.

Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, annunciava proxima
borrasca. A frente da casa do negociante estava ás escuras; comtudo
quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos intersticios das
janellas um tenue reflexo de luz interior. No portão da chacara á meio
cerrado, ninguem apparecia.

O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou á porta da
casa: tres pessoas sahiram delle. Em um Horacio viu estremecendo roupas
de sacerdote. Só então reflectiu o moço no aspecto soturno do
edificio. Inquieto, sobresaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança
de encontrar pessoa a quem interrogasse.

As janellas lateraes estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no
quadro illuminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma
agitação.

Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passára, e antes de
qualquer explicação não era rasoavel.

A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham
fabricado uma especie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto, uma
escadinha de caracol cingindo o tronco da arvore.

Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar achou-se
justamente fronteiro ás janellas illuminadas. Em principio a claridade
subita offuscou-lhe a vista, e não pôde elle distinguir o que passava
no interior.

Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.

Elle via, e duvidava.

Um altar erguido, cirios acesos, o sacerdote officiando, Amelia e
Leopoldo de joelhos, ao lado Salles, D. Leonor, e dois amigos que
serviam de testemunhas: eis o quadro que se offereceu aos olhos de
Horacio. Tinha visto na comedia da vida muitos lances dramaticos, mas
nenhum tão imprevisto e curioso.

A sorpresa do leão provinha de um engano seu. Elle acreditava que
Amelia o tinha amado, quando a moça não sentira por elle mais do que
o desvanecimento de vêr captivo de seus encantos o rei da moda, o feliz
conquistador dos salões.

Quem Amelia amou desde o principio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio
que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e
rendiam ao capricho de Horacio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia
a attracção irresistivel que a impellia para o seu pólo.

Disso que durante dois mezes passava na vida intima da moça, ella
propria não se apercebia; foi depois da scena do baile, que ella entrou
em si, e comprehendeu as sublevações reconditas de sua alma, e o drama
que ahi se agitava desde muito.

Leopoldo começara a frequentar a casa de Salles, poucos dias depois da
partida de D. Clementina. As duas almas por tanto tempo separadas, só
esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na
outra. As tardes, no jardim, entre cortinas de flôres, ellas celebravam
esse mystico hymeneu do amor, unico eterno e indissoluvel, porque se faz
no seio do Creador.

Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos
exigiram se fizesse inteiramente á capucha, e sem prévia
participação. A razão desse empenho, só Amelia a sabia e nunca a
disse. Era um escrupulo de seu pudor: depois de que tinha acontecido,
não queria que lhe dessem outra vez o titulo de noiva.

Terminada a ceremonia, e feitas as felicitações do costume, correram
os minutos em agradavel conversação.

Eram 11 horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o
esperava. Sentado em uma conversadeira, Amelia sorriu para seu marido;
porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o
tremor involuntario que agitava seu lindo talhe.

--É meu presente! disse ella com timidez.

E apresentou ao noivo um objecto envolto em papel de seda, atado com
fita azul.

Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de setim branco, os mesmos
que Amelia começara a bordar no dia seguinte ao baile.

O moço enleiado, não comprehendia. Insensivelmente seu olhar desceu á
fimbria do roupão. Sobre a almofada de velludo e entre os folhos da
cambraia, appareciam as unhas rosadas de dois pésinhos divinos.

Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos labios
balbuciaram uma palavra.

--Calce!

Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva.

O temporal, desabando nesse momento, bateu com violencia nos vidros da
janella, que fechou-se.

Horacio desceu do seu observatorio, e escalando a grade de ferro do
jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Emquanto
philosophicamente esperava que seu criado lhe preparasse uma chicara de
café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine.

Leu ao acaso; era a fabula do _leão amoroso_.

--É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou
que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazella.



FIM.


N. B.--Escrevo _tilbure_, _champanhe_, etc., porque
entendo que devemos imprimir certo cunho
portuguez nas palavras estrangeiras adoptadas
pelo uso. Assim fizeram nossos antepassados, escrevendo
_trumo_, _trenó_, _bufete_ e tantas outras palavras de origem franceza.



*** End of this Doctrine Publishing Corporation Digital Book "A Pata da Gazella: romance brasileiro." ***

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