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Title: Innocencia
Author: Alfredo d'Escragnolle Taunay, Visconde de Taunay
Language: Portuguese
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VISCONDE DE TAUNAY



INNOCENCIA



Decimo Primeiro Milheiro



1906

N. FALCONE & Cia.--editores

65--Rua de S. Bento--65

S. PAULO



INDICE

CAPITULO

I. O sertão e o sertanejo

II. O viajante

III. O doutor

IV. A casa do mineiro

V. Aviso previo

VI. Innocencia

VII. O naturalista

VIH. Os hospedes da meia-noite

IX. O medicamento

X. A carta de recommendação

XI. O almoço

XII. A apresentação

XIII. Desconfianças

XIV. Realidade

XV. Historias de Meyer

XVI. O empalamado

XVII. O morphetico

XVIII. Idyllio

XIX. Calculos e esperanças

XX. Novas historias de Meyer

XXI. Papilio Innocentia

XXII. Meyer parte

XXIII. A ultima entrevista

XXIV. A villa de Sant'Anna

XXV. A viagem

XXVI. Recepção cordial

XXVII. Scenas intimas

XXVIII. Em casa de Cesario

XXIX. Resistencia de corça

XXX. Desenlace

EPILOGO. Reapparece Meyer



A

José Antonio de Azevedo Castro

AMIGO DE INFANCIA



_Azevedo Castro_,

_Se nos antigos tempos da Grecia, me fora possivel erigir custoso
templo, dedicava-o á Amizade para no frontispicio gravar o teu querido
nome._

_Daquelle vivo sentimento permitte-me hoje, amigo, dentro do circulo de
fracos e limitados meios, qualquer demonstração._

_Não é em valioso monumento que vou inscrever a tua lembrança;
simplesmente na primeira pagina de uma narrativa campestre e
despretenciosa, de um livro singelo e sem futuro._

_Aceita-o como um dos mais espontaneos movimentos da minha alma, que
n'esta declaração sincera julga assentar direitos a completo indulto._


A. D'ESCRAGNOLLE--Taunay.

_Rio de Janeiro, 8 de Julho de 1872._



PREFACIO


Em pouco mais de dous annos esgotou-se a sexta edição de _Innocencia_
e a setima; os dous mil e quinhentos exemplares impressos em meiados de
1903 espalharam-se com relativa rapidez attendendo-se ao facto de que o
romance appareceu em 1873 e que a procura de livros no Brazil
infelizmente ainda não é das maiores.

Nos ultimos dous annos foi _Innocencia_ muitas vezes publicada em
folhetim por periodicos brazileiros e portuguezes; em volume porem só
temos conhecimento de duas edições novas; uma allemã, da traducção
de Karl Schuler, illustrada por Max Tilke e impressão da casa D. Dreyer
& Comp. de Berlim e outra da versão japoneza de Kawana Kwandzo pela
revista _Fastos Japonezes_.

Actualmente conta pois a formosa novella oito traducções enfeixadas em
volume das quaes, duas francezas, duas allemãs, uma ingleza, uma
hespanhola, uma italiana e uma japoneza; existindo alem dessas,
publicadas na imprensa uma em polaco e outra em dinamarquez.

É provavel que brevemente appareça mais uma edição ingleza de nova
versão dedicada ao Conselheiro José Antonio de Azevedo Castro,
padrinho do livro, a quem o Visconde de Taunay dedicava a mais extremada
amizade e affeição retribuida da mais forte maneira.

Soffreram os primeiros capitulos da presente edição ligeiros retoques,
á vista de originaes deixados pelo autor e que infelizmente não
estiveram ao alcance do revisor da sexta.

O nome dos acreditados livreiros editores Srs. N. Falcone & Comp. é um
cunho da elegancia da factura do livro.


S. Paulo, Dezembro de 1905.



    ... _Innocencia_. Este livro terá longa
    vida, do mesmo modo que se póde,
    ainda hoje, viajar a Escossia com as
    novellas de Walter Scott por guias.


    FRANCISCO OCTAVIANO.



INNOCENCIA



CAPITULO I

O SERTÃO E O SERTANEJO


    Todos vós bem sentis a acção secreta
    Da natureza em seu governo eterno;
    E de infimas camadas subterraneas
    Da vida o indicio á superficie emerge.

    GOETHE.--_Fausto_, 2.ª parte.


    Então com passo tranquillo mettia-me
    eu por algum recanto da floresta,
    algum lugar deserto, onde nada me indicasse
    a mão do homem, me denunciasse
    a servidão e o dominio; asylo em que
    pudesse crêr ter primeiro entrado, onde
    nenhum importuno viesse interpôr-se entre
    mim e a natureza.

    J. J. ROUSSEAU.--_O encanto da solidão._


Corta extensa e quasi despovoada zona da parte sul-oriental da
vastissima provincia de Matto-Grosso a estrada que da villa de Santa
Anna do Paranahyba vae ter ao sitio abandonado de Camapoan. Desde
aquella povoação, assente proximo ao vertice do angulo em que confinam
os territorios de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz e Matto-Grosso até ao
rio Sucuriú, affluente do magestoso Paraná, isto é, no
desenvolvimento de muitas dezenas de leguas, anda-se commodamente, de
habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas ás outras;
raream, porém, depois as casas, mais e mais, e caminha-se largas horas,
dias inteiros sem se ver morada nem gente até ao _retiro_[1] de João
Pereira, guarda avançada daquellas solidões, homem chão e
hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados
páramos, offerece-lhe momentaneo agazalho e o provê da matolotagem
precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiry, ou da Vaccaria e
Nioac, no Baixo Paraguay.

Alli começa o sertão chamado _bruto_[2].

Pousos succedem a pousos, e nenhum tecto habitado ou em ruinas, nenhuma
palhoça ou tapera dá abrigo ao caminhante contra a frialdade das
noites, contra o temporal que ameaça, ou a chuva que está cahindo. Por
toda a parte, a calma da campina não arroteada; por toda a parte, a
vegetação virgem, como quando ahi surgio pela vez primeira.

A estrada que atravessa essas regiões incultas desenrola-se á maneira
de alvejante faixa, aberta que é na areia, elemento dominante na
composição de todo aquelle solo, fertilisado aliás por um sem numero
de limpidos e borbulhantes regatos, ribeirões e rios, cujos
contingentes são outros tantos tributarios do claro e fundo Paraná ou,
na contravertente do correntoso Paraguay.

Essa areia solta e um tanto grossa tem côr uniforme que reverbera com
intensidade os raios do sol, quando nella batem de chapa. Em alguns
pontos é tão fofa e movediça que os animaes das _tropas_ viajeiras
arquejam de cansaço, ao vencerem aquelle terreno incerto, que lhes foge
de sob os cascos e onde se enterram até meia canella.

Frequentes são tambem os desvios, que da estrada partem de um e outro
lado e proporcionam, na matta adjacente, trilha mais firme, por ser
menos pisada.

Se parece sempre igual o aspecto do caminho, em compensação mui
variadas se mostram as paizagens em torno.

Ora é a perspectiva dos _cerrados_[3], não desses cerrados de arbustos
rachiticos, enfezados e retorcidos de S. Paulo e Minas-Geraes, mas de
garbosas e elevadas arvores que, se bem não tomem todas o corpo de que
são capazes á beira das aguas correntes ou regados pela lympha dos
corregos, comtudo ensombram com folhuda rama o terreno que lhes fica em
derredor e mostram na casca lisa a força da seiva que os alimenta; ora
são campos a perder de vista, cobertos de macega alta e alourada, ou de
viridente e mimosa gramma, toda salpicada de sylvestres flores; ora
successões de luxuriantes capões[4], tão regulares e symetricos em
sua disposição que surprehendem e embellezam os olhos; ora, emfim
charnecas meio apaúladas, meio seccas, onde nasce o altivo bority e o
gravatá entrança o seu tapume espinhoso.

Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e
resiccado pelo ardor do sol transforma-se em vicejante tapete de relva,
quando lavra o incendio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado,
atêa com uma faulha do seu isqueiro.

Minando á surda na touceira queda a vivida scentelha. Corra d'ahi a
instantes qualquer aragem, por debil que seja, e levanta-se a lingua de
fogo esguia e tremula, como que a contemplar medrosa e vacilante os
espaços immensos que se alongam diante della. Soprem então as auras
com mais força, e de mil pontos a um tempo rebentam sofregas labaredas
que se enroscam umas nas outras, de subito se dividem, deslisam, lambem
vastas superficies, despedem ao céu rolos de negrejante fumo e voam,
roncando pelos matagaes de tabocas e taquaras, até esbarrarem de
encontro a alguma margem de rio que não possam transpor, caso não as
tanja para além o vento, ajudando com valente folego a larga obra de
destruição.

Acalmado aquelle impeto por falta de alimento, fica tudo debaixo de
espessa camada de cinzas. O fogo, detido em pontos, aqui, alli, a
consumir com mais lentidão algum estorvo, vai aos poucos morrendo até
se extinguir de todo, deixando como signal da avassalladora passagem o
alvacento lençol, que lhe foi seguindo os velozes passos.

Atravez da atmosphera ennublada mal póde então coar a luz do sol. A
incineração é completa, o calor intenso, e nos ares revoltos volitam
palhinhas carboretadas, detritos, argueiros e granulos de carvão que
redemoinham, sobem, descem e se emmaranham nos sorvedouros e
adelgaçadas trombas, caprichosamente formadas pelas aragens, ao
embaterem umas de encontro ás outras.

Por toda a parte melancolia; de todos os lados tetricas perspectivas.

É cahir, porém, dahi a dias copiosa chuva, e parece que uma varinha de
fada andou por aquelles sombrios recantos a traçar ás pressas jardins
encantados e nunca vistos. Entra tudo n'um trabalho intimo de espantosa
actividade. Transborda a vida. Não há ponto em que não brote o capim,
em que não desabrochem rebentões com o olhar sofrego de quem espreita
azada occasião para buscar a liberdade, despedaçando as prisões de
penosa clausura.

Áquella instantanea resurreição nada, nada póde pôr peas.

Basta uma noite, para que formosa alfombra verde, verde-claro,
verde-gaio, assetinado, cubra todas as tristezas de há pouco.
Aprimoram-se depois os esforços; rompem as flores do campo que
desabotoam ás caricias, da brisa as delicadas corollas e lhe entregam
as primicias dos seus candidos perfumes.

Se falham essas chuvas vivificadoras, então por muitos e muitos mezes,
ahi ficam aquellas campinas, devastadas pelo fogo, lugubremente
illuminadas por avermelhados clarões sem uma sombra, um sorriso, uma
esperança de vida, com todas as suas opulencias e verdejantes pimpolhos
occultos, como que raladas de dor e mudo desespero por não poderem
ostentar as riquezas e galas encerradas no ubertoso seio.

Nessas afflictas paragens, não mais se ouve o piar da esquiva perdiz,
tão frequente antes do incendio. Só de vez em quando echoa o arrastado
guincho do algum gavião, que paira lá em cima ou bordeja ao chegar-se
á terra afim de agarrar um ou outro reptil chamuscado do fogo que
lavrou.

Rompe tambem o silencio o grasnido do caracará, que aos pulos procura
insectos e cobrinhas ou, junto ao solo, segue o vôo dos urubús, cujos
negrejantes bandos, guiados pelo fino olfacto, buscam a carniça
putrefacta.

É o caracará commensal do urubú. De parceria se atira, quando urgido
pela fome, á rez morta e, intromettido como é, a custo de alguma
bicada do pouco amavel conviva, belisca do seu lado no immundo repasto.

Se passa o caracará á vista do gavião, precipita-se este sobre elle
com vôo firme, dá-lhe com a ponta da aza, atordoa-o, atormenta-o só
pelo gosto de lhe mostrar a incontestada superioridade.

Nada, com effeito, o mette em brios.

Pelo contrario, mal levou dous ou tres encontrões do miúdo, mas audaz
adversario, baixa prudente á terra e põe-se ahi desageitadamente aos
saltos, apresentando o adunco bico ao antagonista, que com a extremidade
das azas levanta pó e cinza, tão de perto as arrasta ao chão.

Afinal, de cansado, deixa o gavião o folguedo, segurando de um bote a
serpesinha, que, em custoso rasto, procurava algum buraco onde fosse,
mais a salvo, pensar as fundas queimaduras.



II


Taes são os campos que as chuvas não vêm regar.

Com que gosto demanda então o sertanejo os capões que lá de bem longe
se avistam nas encostas das collinas e baixuras, ao redor de alguma
nascente orlada de pindahybas e boritys?!

Com que alegria não saúda os formosos coqueiraes, nuncios, da lympha
que lhe hade estancar a sede e banhar o afogueado rosto?!

Enfileiram-se ás vezes as palmeiras com singular regularidade na altura
e conformação; mas não raro amontoam-se em compactos massiços, dos
quaes se segregam algumas mais e mais, a acompanhar com as raizes
qualquer tenue fio d’agua, que collea falto de forças e quasi a
sumir-se na ávida areia.

Desde longe dão na vista esses capões.

É a principio um ponto negro, depois uma cupola de verdura, afinal,
mais de perto, uma ilha de luxuriante rama, oásis para os membros
lassos do viajante exhausto de fadiga, para os seus olhos encandeados e
sua garganta abrasada.

Então com sofreguidão natural acolhe-se elle ao sombreado retiro, onde
prestes desarreia a cavalgadura, á qual dá liberdade para ir pastar,
entregando-se sem demora ao somno reparador que lhe trará novo alento
para proseguir na cansativa jornada.

Ao homem do sertão afiguram-se taes momentos incomparaveis, acima de
tudo quanto possa idear a imaginação no mais vasto circulo de
ambições.

Satisfeita a sede que lhe seccara as fauces, e comidas umas colheres de
farinha de mandioca ou de milho, adoçada com rapadura, estira-se a fio
comprido sobre os arreios desdobrados e contempla descuidoso o
firmamento azul, as nuvens que se espacejam nos ares, a folhagem
lustrosa e os troncos brancos das pindahybas, a copa dos ipês e as
palmas dos boritys a ciciar a modo de harpas eólias, musicas sem conta
com o perpassar da brisa.

Como são bellas aquellas palmeiras!

O estipite liso, pardacento, sem manchas mais que pontuadas estrias,
sustenta denso feixe de peciolos longos e canulados, em que assentão
flabellas abertas como um leque, cujas pontas se acurvam flexiveis e
tremulantes.

Na base e em torno da coma, pendem, amparados por largas spathas, densos
cachos de cocos tão duros, que a casca luzidia revestida de escamas
rhomboidaes e de um amarello alaranjado desafia por algum tempo o ferreo
bico das araras.

Tambem com que vigor trabalham as barulhentas aves antes de conseguir a
appetecida e saborosa amendoa! Em grupos juntam-se ellas, umas vermelhas
como chispas soltas de intensa labareda, outras versicolores, outras
pelo contrario de todo azues, de maior viso e que, por parecerem negras
em distancia, tem o nome de _araraúnas_.[5] Alli ficam alcandoradas,
balouçando-se gravemente e atirando, de espaço a espaço, ás
immensidades das dilatadas campinas notas estridentes, quando não seja
um clamor sem fim, ao quererem muitas disputar o mesmo cacho. Quasi
sempre, porem estão a namorar-se aos pares, pousadas uma bem
encostadinha á outra.

Vê tudo aquillo o sertanejo com olhar carregado de somno. Cahem-lhe
pesadas as palpebras; bem se lembra de que por alli podem rastejar
venenosas alimarias, mas é fatalista; confia no destino e, sem mais
preoccupação, adormece com serenidade.

Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra, rijo
o vento. Não ciciam mais os boritys; gemem, e convulsamente agitam as
flabelladas palmas.

É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente
os braços; boceja; bebe uma pouca d'agua; fica uns instantes sentado, a
olhar de um lado para o outro e corre afinal a buscar o animal, que de
prompto ensilha e cavalga.

Uma vez montado, lá vai elle a passo ou a trote, bem disposto de corpo
e de espirito, por aquelles caminhos além, em demanda de qualquer pouso
onde pernoite.

Quanta melancolia baixa á terra com o cahir da tarde!

Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar
acabrunhadora. Ennegrece o solo; formam os matagaes sombrios massiços,
e ao longe se desdobra tenue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no
qual, como linhas a meio apagadas, resaltam os troncos de uma ou outra
palmeira mais alterosa.

É a hora, em que se aperta de inexplicavel receio o coração. Qualquer
ruido nos causa sobresalto; ora o grito afflicto da zabelê nas mattas,
ora as plangentes notas do bacuráu a cruzar os ares. Frequente é
tambem amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao
ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe
impossibilite a volta.

Quem viaja attento ás impressões intimas, estremece mau grado seu ao
ouvir n'esse momento de saudades o tanger de um sino muito, muito ao
longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossivel. São insectos
occultos na macega que trazem essa illusão, por tal modo viva e
perfeita que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo
e lá vai por estes mundos fóra a doudejar e a crear mil fantasias.



III


Espalham-se, por fim, as sombras da noite.

O sertanejo que de nada cuidou, que não ouviu as harmonias da tarde,
nem reparou nos esplendores do céu, que não viu a tristeza a pairar
sobre a terra, que de nada se arreceia, consubstanciado como está com a
solidão, pára, relanceia os olhos ao derredor de si e, se no lugar
presente alguma aguada, por má que seja, apeia-se, desensilha o cavallo
e, reunindo logo uns gravetos bem seccos, tira fogo do isqueiro, mais
por distracção do que por necessidade.

Sente-se deveras feliz. Nada lhe perturba a paz do espirito ou o
bem-estar do corpo. Nem sequer monologa, como qualquer homem acostumado
a conversar.

Raros são os seus pensamentos: ou rememora as leguas que andou, ou
computa as que tem que vencer para chegar ao termino da viagem.

No dia seguinte, quando aos clarões da aurora acorda toda aquella
esplendida natureza, recomeça elle a caminhar, como na vespera, como
sempre.

Nada lhe parece mudado no firmamento: as nuvens de si para si são as
mesmas. Dá-lhe o sol, quando muito, os pontos cardeaes, e a terra só
lhe prende a attenção, quando algum signal mais particular póde
servir-lhe de marco milliario na estrada que vai trilhando.

--Bom! exclama em voz alta e alegre ao avistar algum madeiro agigantado
ou uma disposição especial de terras, lá está a péuva grande...
Cheguei ao Barranco Alto. Até ao pouso de Jacaré ha quatro leguas bem
puxadas.

E, olhando para o sol, conclue:

--D'aqui a tres horas estou batendo fogo.

Occasiões ha em que o sertanejo dá para assoviar. Cantar, é raro;
ainda assim, á surdina; mais uma voz intima, um rumorejar comsigo, do
que notas sahidas do robusto peito. Responder ao pio das perdizes ou ao
chamado agoniado da esquiva jaó, é o seu divertimento em dias de bom
humor.

É-lhe indifferente o urro da onça. Só por demais repara nas muitas
pegadas, que em todos os sentidos ficam marcadas na arêa da estrada.

--Que bichão! murmura elle contemplando um rasto mais fortemente
impresso no solo; com um bom _onceiro_[6] não se me dava de acuar este
diabo e metter-lhe uma chumbada no focinho.

O legitimo sertanejo, explorador dos desertos, não tem, em geral,
familia. Em quanto moço, seu fim unico é devassar terras, pisar campos
onde ninguem antes puzera pé, vadear rios desconhecidos, despontar
cabeceiras[7] e furar mattas, que descobridor algum até então haja
varado.

Cresce-lhe o orgulho na razão da extensão e importancia das viagens
emprehendidas; e seu maior gosto cifra-se em enumerar as correntes
caudaes que transpoz, os ribeirões que baptisou, as serras que
trasmontou e os pantanaes que afoutamente cortou, quando não levou dias
e dias a rodeal-os com rara paciencia.

Cada anno que finda traz-lhe mais um valioso conhecimento e accrescenta
uma pedra ao monumento da sua innocente vaidade.

--Ninguem póde commigo, exclama elle emphaticamente. Nos campos da
Vaccaria, no sertão do Mimoso e nos _pantános_[8] do Pequiry, sou rei.

E esta presumpção de realeza infunde-lhe certo modo de falar e de
gesticular magestatico em sua singela manifestação.

A certeza que tem de que nunca poderá perder-se na vastidão, como que
o liberta da obsessão do desconhecido, o exalta e lhe dá foros de
infallibilidade.

Se estende o braço, aponta com segurança no espaço e declara
peremptoriamente:

--N'este rumo daqui a 20 leguas, fica o espigão mestre de uma serra
braba, depois um rio grosso; dalli a cinco leguas outro matto sujo que
vai findar n'um brejal. Se _vassuncê_ frechar direitinho assim umas
duas horas, topa com o pouso do Tatú, no caminho que vai a Cuyabá.

O que faz n'uma direcção, com a mesma, imperturbavel serenidade e
firmeza indica em qualquer outra.

A unica interrupção que aos outros consente, quando conta os innumeros
descobrimentos, é a da admiração. Á minima suspeita de duvida ou
pouco caso, incendem-se-lhe de colera as faces e no gesto denuncia
indignação.

--_Vassuncê_ não _credita_! protesta então com calor. Pois ensilhe o
seu bicho e caminhe como eu lhe disser. Mas _assumpte_[9] bem, que no
terceiro dia de viagem ficará decidido quem é _cavoqueiro_[10] e
_embromador_[11]. Uma cousa é _mapiar_[12] á toa, outra andar com
tento por estes mundos de Christo.

Quando o sertanejo vai ficando velho, quando sente os membros cansados e
entorpecidos, os olhos já ennevoados pela idade, os braços frouxos
para manejar a machadinha que lhe dá o substancial palmito ou o
saboroso mel de abelhas, procura então quem o queira para esposo,
alguma viúva ou parenta chegada, forma casa e escola, e prepara os
filhos e enteados para a vida aventureira e livre que tantos gozos lhe
dera outr'ora.

Esses discipulos, aguçada a curiosidade com as repetidas e animadas
descripções das grandes scenas da natureza, n'um bello dia desertam da
casa paterna, espalham-se por ahi além, e uns nos confins do Paraná,
outros nas brenhas de S. Paulo, nas planuras de Goyaz ou nas bocainas de
Matto-Grosso, por toda a parte emfim onde haja deserto vão pôr em
activa pratica tudo quanto souberam tão bem ouvir, relembrando as
façanhas do seu respeitado progenitor e mestre.


[Nota 1: Chama-se em Matto-Grosso _retiro_ o local em que os criadores
de gado reunem as rezes para as contar, marcar e dar-lhes sal.]

[Nota 2: Sem moradores.]

[Nota 3: Florestas de arbustos de 3 a 4 pés de altura mais ou menos,
mui chegados uns aos outros.]

[Nota 4: Excellente palavra brazileira derivada da lingua geral
_caá-púan_ (matto isolado).]

[Nota 5: Araras pretas.]

[Nota 6: Cão caçador de onças.]

[Nota 7: Despontar cabeceiras é rodear as nascentes do rios, procurando
sempre terreno enxuto.]

[Nota 8: No interior pronuncia-se a palavra grave e não esdruxula, mais
conforme assim com a etymologia.]

[Nota 9: Ver o assumpto, observar, attender.]

[Nota 10: Cavoqueiro é qualificativo empregado para exprimir qualquer
qualidade má.]

[Nota 11: Enganador.]

[Nota 12: Termo peculiar aos sertões de Matto-Grosso--quer dizer
parolar, tagarellar.]



CAPITULO II

O VIAJANTE


    Proprio de espirito sorumbatico, é
    andar sempre calado: tagarellar é o
    encanto e a alma da vida.

    LA CHAUSSÉE.

    Commigo, respondeu Sancho, meu
    primeiro movimento é logo tal comichão
    de fallar que não posso deixar de desembuxar
    o que me vem á bocca.

    CERVANTES.--_D. Quixote._


O dia 15 de Julho de 1860 era dia claro, sereno e fresco, como costumam
ser os chamados de inverno no interior do Brazil.

Ia o sol alto em seu percurso, illuminando com seus raios, não muito
ardentes para regiões intertropicaes, a estrada, cujo aspecto ha pouco
tentámos descrever e que da villa de Sant'Anna do Paranahyba vai ter
aos campos de Camapoan.

Á essa hora, um viajante, montado n'uma boa besta tordilho-queimada,
gorda e marchadeira seguia aquella estrada. A sua physionomia e maneiras
de trajar denunciavam de prompto que não era homem de lida fadigosa e
commum ou algum fazendeiro daquellas cercanias que voltasse para casa.
Trazia na cabeça um chapéu do Chile de abas amplas e cingido de larga
fita preta, sobre os hombros um ponche-pala de variegadas cores e
calçava botas de couro da Russia bem feitas e em bom estado de
conservação.

Tinha quando muito vinte e cinco annos, presença agradavel, olhos
negros e bem rasgados, barba e cabellos cortados quasi á escovinha e ar
tão intelligente quanto decidido.

Na mão empunhava uma comprida vara que havia pouco cortara, e com que
ia distrahidamente fustigando o ar ou batendo nos ramos de arvores que
se dobravam ao alcance do braço.

Vinha só e, no momento em que damos começo a esta singela historia,
achava-se no bonito trecho de caminho que medeia entre a casa de Albino
Lata e a do Leal, a sete boas leguas da sezonatica e decadente villa de
Sant'Anna do Paranahyba.

Nesta porção de estrada, ensombrada pelas arvores de vistoso cerrado,
o leito, ainda que já bastante arenoso, é firme e parece mais álea de
bem tratado jardim, do que caminho de tropas e carreadores.

Ainda augmenta os encantos daquelle lance a innumera quantidade de rolas
caboclas a brincar na areia e de pombas de cascavel, cujo bater de azas
produz um arruido tão caracteristico e singular.

O nosso viajante, se caminhava distrahido e meio pensativo, não
parecia, comtudo, de genio sombrio ou pouco divertido.

Muito ao contrario, sacudia ás vezes o torpôr em que vinha e entrava a
cantarolar, ou assoviar, esporeando a valente cavalgadura, que na marcha
que tomava ia abanando alternadamente as orelhas com o movimento
cadencial da cabeça.

N'uma dessas reacções contra alguma preoccupação, disse em voz alta,
puxando por um relogio de prata, seguro em corrente do mesmo metal:

--Ás duas horas pretendo sestear no paiol do Leal. Falta pouco para o
meio dia, e tenho tempo diante de mim a botar fóra...

Moderou, pois, a andadura que levava o animal e mais activamente
recomeçou a zurzir os galhos das arvores bocejando de tedio.

Tambem pouco tempo caminhou só, por isto que em breve ao seu lado
emparelhou outro viajante, escanchado n'um cavallinho feio e zambro, mas
muito forte, o qual, coberto como estava de suor, mostrava ter vindo
quasi a galope.

Homem já de alguma idade, o recem-chegado era gordo, de compleição
sanguinea, rosto expressivo e franco. Trajava á mineira e parecia como
realmente era, morador daquella localidade.


[Ilustração: Olá, patricio, exclamou conchegando a cavalgadura.]


--Olá, patricio, exclamou elle conchegando a cavalgadura á da pessoa a
quem interpellava, então se vai botando para Camapoan?

Olhou o nosso cavalleiro com desconfiança e sobranceria para quem o
interrogava tão sem ceremonia e meio-enviezado respondeu:

--Talvez sim ... talvez não ... Mas a que vem a pergunta?

--Ah! desculpe-me, replicou o outro rindo-se, nem siquer o saudei... Sou
mesmo um estabanado... Deus esteja comvosco. Isto sempre me acontece...
A minha lingua fica as vezes tão douda que se põe logo a bater-me nos
dentes ... que é um Deus nos acuda e ... não ha que avisar: agua vae!
Olhe, por vezes já me tem vindo damno, mas que quer? É sestro
antigo... Não que eu seja malcriado, Deus de tal me defenda,
_abrenuncio_; mas pega-me tal comichão de fallar que vou logo, sem tir-te,
nem guar-te, dando á taramela...

A volubilidade com que foram ditas estas palavras causou certo espanto
ao mancebo e o levou a novamente encarar o inopinado companheiro, desta
feita com mais demora e ar menos altivo.

Notou então a physionomia alegre e bonachã do tagarella e, com ar de
sympathia, correspondeu ao communicativo sorriso daquelle que, á
força, queria travar conversação.

--Pelo que vejo, disse elle, o Sr. gosta de prosear.

--Ora se! retrucou o mineiro. Nestes sertões só sinto a falta de uma
cousa: é de um christão com quem de vez em quando dê uns dedos de
_parola_. Isto sim, por aqui é _vasqueiro_. Tudo anda tão calado!...
uma verdadeira caipiragem!... Eu, não. Sou das Geraes[13] _geralista_
como por cá se diz; nasci no Parahybuna, conheci no meu tempo pessoas
de muita educação, gente mesma de _truz_ e fui criado na Matta do Rio
como homem e não como bicho do _monte_[14].

--Ah! o senhor é de Minas?

--Geraes, se me faz favor. Baptizei-me em Vassouras, mas sou mineiro da
gemma. Andei séca e méca antes de vir deitar poita neste _paiz_. Isto
já faz muito tempo, pois tambem vou ficando velho. Ha mais de quarenta
annos pelo menos que sahi da casa dos meus pais...

E interrompendo o que dizia, perguntou:

--O senhor também é de Minas?

--Nhor-não, respondeu o outro. Sou caipira de S. Paulo: nasci na villa
de Casa-Branca, mas fui criado em Ouro-Preto.

--Ah! na cidade Imperial[15]?...

--Lá mesmo.

--Então é quasi de casa, replicou o mineiro rindo-se ruidosamente.
Ora, quem diria! Por isto me batia a passarinha, quando vi o seu rasto
fresco na areia. Ahi vai, disse eu por vezes com os meus botões um
sujeitinho que não tem pressa de pousar. Tambem tocando o meu
_canivete_, tratei de agarral-o para não fazer a viagem a olhar para o
céu e a banzar. Acha que obrei mal?

--Não, senhor, protestou o moço com affabilidade. Muito lhe agradeço
a intenção. Assim alcançarei sem cansaço o Leal, onde pretendo dar
hoje com os ossos.

--Oh! exclamou o outro todo expansivo, a caminhada é a mesma. Pois, meu
rico senhor, eu moro a meia legua do Leal, torcendo á esquerda, e se
vosmecê não tem compromissos lá com o homem fár-me-ha muito favor
agasalhando-se em tecto de quem é pobre, mas amigo de servir. Minha
tapera[16] é pouco retirada do caminho, e quem vem montado como o
senhor, não tem que andar contando bocadinhos de leguas.

Convite tão espontaneo e amavel não podia deixar de ser bem aceito,
sobretudo naquellas alturas, e trouxe logo entre os dous caminhantes a
familiaridade que tão depressa se estabelece em viagem.

--Com toda a satisfacção irei parar em sua casa, retrucou o joven.
Nunca vi o Leal, pois agora é a primeira vez que cruzo este sertão, e
ando de pouso em pouso, pedindo um cantinho de paiol ou de rancho para
passar a noite com os meus camaradas.

--Traz então tropa?

--Tropa, não; apenas dous bagageiros que vem com as minhas cargas e uma
besta á _dextra_.

--Olá! o amigo viaja á fidalga, observou o mineiro com gesto
folgazão.

--Qual!... Bastantes privações tenho já cortido.

--De certo não as sentirá em nossa casa todo o tempo que lá quizer
ficar. Não encontrará _luxarias_[17] nem cousas da capital, unicamente
o que se póde ter nestes _mundos_[18]: quatro paredes de páo a pique
mal rebocadas, uma cama de vento, bom feijão a fartar, hervas á
mineira, arroz de papa, farinha de milho torradinha, café com rapadura
e talvez até um lombo fresco de porco.

--Olá! exclamou o moço rindo-se com expansão, vou passar vida de
capitão-mór. Não queria tanto, bastava-me...

--O que sobretudo desejo é que tenha commigo o coração na boca. Se
não gostar do passadio, vá logo _desembuxando_. Na minha rancharia
pousa pouca gente, porque fica para dentro da estrada ... assim, talvez
lhe falte alguma cousa; em todo o caso farei pelo melhor...

Depois de breve pausa, continuou:

--_Mas porem_ creio que já é occasião, agora que nos conhecemos como
dous amigos do tempo do Rojão, saber com quem lidamos. Eu, quanto a
mim, me chamo Martinho dos Santos Pereira e a minha historia conto-lh'a
em duas palhetadas... Sua graça, ainda que mal pergunte?

--Cyrino Ferreira de Campos, respondeu o outro viajante, um criado para
o servir.

--Obrigado, agradeceu Pereira inclinando-se cortezmente e levando a mão
ao chapéu. Como lhe disse ha pouco, minha historia é historia de entrar
por uma porta e sahir por outra. Minha gente não é de má raça, pelo
contrario; meu pai, que Deus lhe dê a gloria, possuia alguma cousa de
seu e deixou aos seus muitos filhos um nome limpo e respeitado. Cada
qual de nós--eramos sete--tomou o seu rumo. Quanto a mim, casei muito
mocinho e fui morar na Diamantina, onde abri casa de negocio. Depois de
alguns annos, uns bons, outros _caipóras_, morreu minha dona e
mudei-me, a principio, para Piumhy e mais tarde para Uberaba. A vida
começou a desandar-me de todo, e fiz logo este calculo: estar tão
longe, antes afundar-me no matto de uma boa feita. Vendi minha lojinha
de ferragens e internei-me até cá com tres escravos. Ha doze annos que
moro nestes _socavões_[19] e, palavra de honra, até ao presente não
me tenho arrependido. Na minha situação ha fartura, e louvado seja!
nunca passei necessidade... Não posso por isto queixar-me sem
ingratidão. Deus Nosso Senhor Jesus Christo tem olhado para mim, e me
julgo bem amparado, sobretudo quando me lembro do _despotismo_[20] de
miserias, que vai por estas terras fóra... Cruzes! nem falar n'isto é
bom... Diga-me porém uma cousa: vosmecê para onde se atira?

--Homem, Sr. Pereira, não tenho destino certo.

--Deveras? Então está caminhando á toa?

--Eu ponho-lhe já tudo em pratos limpos. Ando por estes _fundões_[21]
curando maleitas e feridas _brabas_.

--Ah! exclamou Pereira com manifesto contentamento, vosmecê é doutor,
não é? Physico, como chamavam os nossos do tempo de dantes.

--É facto, confirmou Cyrino com alguma satisfacção.

--Ora, pois, muito que bem, cahe-me a sopa no mel; sim, senhor, vem
mesmo ao pintar ... a talhe de fouce.

--Porque?

--Daqui a pouco saberá... Mas, diga-me ainda... Onde é que vosmecê
leu nos livros, aprendeu suas historias e bruxarias? Na côrte do
Imperio?

--Não, respondeu Cyrino, primeiro no collegio do Caraça; depois fui
para Ouro Preto, onde tirei carta de pharmacia.

E acrescentou com infatuação:

--Desde então tenho batido todo o poente de Minas e feito curas que é
um milagre.

--Ah! a sabença é cousa boa... Eu tambem tinha geito para saber mais
do que lêr e escrever, isto mesmo _malmente_; mas quem nasceu para
carreiro, vira, mexe, larga e pega, sempre acaba junto ao carro. Com o
que, entonces, vosmecê entende de curar?...

--Entendo, affirmou Cyrino sem o menor constrangimento.

--Pois cahiu-me muito ao geito na mão; sim, senhor. Estou com uma
menina doente de maleitas, minha filha, e por essa causa tinha ido a
Sant'Anna buscar quina do commercio; mas lá não havia da maldita e
voltava bem agoniado. Ora...

--Trago, interrompeu o outro, muito remedio nas minhas malas. Para
sezões, tenho uma composição infallivel...

--Já se sabe; entra composição de quina. Deveras é santa mézinha. A
pequena tomou a do campo; mas essa pouco _talento_[22] tem, de maneira
que a sezão não lhe deixou o corpo.

--Ha quantos dias appareceu o tremor de frio? perguntou o intitulado
doutor.

--Faz hoje, salvo engano, dez dias.

Até agora era uma rapariga _forçuda_, sadia e rosada como um jambo;
nem sei até como lhe entrou a maleita no corpo. Ninguem póde fiar-se
na tal villa de Sant'Anna; é uma peste de febres. Eu bem a não queria
levar até lá; mas ella pediu tanto que consenti! demais como era para
ver a madrinha, uma boa senhora, de muita _circumstancia_[23], a mulher
do major Mello Taques... Não conhece?

--Pois não.

--E dá-se com o major? perguntou Pereira para abrir novo campo á sua
garrulice.

--Quando pousei na villa, estive com elle.

--E não gostou? Aquillo sim é homem ás direitas. Tambem é páu para
toda a obra na Senhora Sant'Anna é o _tutú_[24] de lá. Em querendo
taramelar um pouco mais a meu gosto, busco o compadre. Isto arma logo
uma conversa que me dá um fartão... E depois pessoa de muitas
lettras... Escreve ao governo; é juiz de paz, major reformado, serve de
juiz municipal, já fez a campanha dos Farrapos lá no Rio Grande do Sul
para as bandas dos Castelhanos e merece muita estimação. Móra n'uma
casa de _andar_[25] e tem loja muito sortida, por signal que bem
baratinha para a distancia. E as historias que conta? É um nunca
acabar. O homem parece que sabe o Imperio de cór e salteado! Nem o
vigario! Olhe, Sr. Cyrino, vou dizer-lhe uma cousa, que talvez lhe
pareça embromação: ás vezes dou um pulo até á villa só para bater
lingua com o major, porque com esta gente daqui não se tira partido:
_escurraçada_ e arisca que é um Deus nos acuda! Então, como lhe ia
contando, galopeio até lá, e pego n'uma _mapiagem_[26] que me enche as
medidas. Não ha...

--Gabo-lhe a pachorra, atalhou Cyrino. Mas, diga-me, Sr. Pereira; farei
por aqui algum negocio?

--Homem, conforme. Gente doente é _matto_[27]: mas tambem _mofina_[28]
como ella só. Meio arredado da minha casa, fica o Coelho que está
morre não morre ha muitos annos, e é homem de boas patacas. Este, se
vosmecê o curar, talvez caia com os cobres. Tudo o mais é uma
_récula_ de gente _mais ou menos_.

--Vosmecê traz bastante quina do commercio? perguntou em seguida.

--Trago, respondeu Cyrino, mas é cara.

--Que é cara, bem sei. Pois é quanto basta, porque no fundo aqui tudo
são sezões.

Começou então o bom do Sr. Pereira a desenrolar as diversas molestias
que o haviam salteado no correr da vida, raras na verdade, mas todas
perigosas; e com esse thema ás ordens achou meios e modos de falar até
quasi perder o folego.

Recolheu-se o outro ao silencio e ouviu talvez preoccupado, ou em todo
caso, muito distrahidamente, o que lhe contava o seu novo amigo,
sahindo, de vez em quando, da apathica attenção para instigar com a
voz e o calcanhar a cavalgadura, quando esta parecia querer por si tomar
descanso ou buscava comer os rebentões mais appetitosos do capim a
grelar.

Afinal notou Pereira o tal ou qual abatimento do companheiro.

--Vosmecê a modo que está triste? disse elle. Deixou alguma cousa de
seu lá por traz?

--Homem, para ser franco, respondeu Cyrino dando um suspiro, deixei; e
essa cousa é uma divida ... divida de jogo.

--Isso é mau, retrucou o mineiro fechando um tanto a cara. Por causa
desse vicio e das mulheres, é que as cruzes nascem á beira das
estradas. Mas é _côco_[29] grosso?

--Trezentos mil réis.

--Já é _gimbo_[30] graúdo. E com quem jogou?

--Com o Totó Siqueira, de Sant'Anna. Por isto pretendeu atrazar-me a
viagem; mas prometti mandar-lhe tudo do Sucuriú por um camarada e
passei-lhe um papel. No que estou pensando, é se acharei até lá meios
de cumprir a palavra.

--Se lhe pagarem como devem, com certeza. Em todo o caso aperte um pouco
com os doentes.

--Não imagina, replicou Cyrino com verdadeiro sentimento, quanto me tem
amofinado essa maldita divida. Não pelo dinheiro, que delle faço pouco
caso; mas por ter pegado em cartas, cousa que nunca tinha feito na minha
vida; isto sim...

--Pois meu rico senhor, proseguiu Pereira, sirva-lhe esta de lição e
tome tento com a gente do sertão, não com esses que moram nas suas
casas, socegados e amigos de servir, mas com viajantes, homens de tropas
e carreiros. Isso sim, é uma sucia de jogadores que andam armados de
baralhos e visporas e, por dá cá aquella palha, empurram uma facada na
barriga de um christão ou descarregam uma garrucha na cabeça de um
companheiro, como se fosse em melancia podre. Depois, o demonio do jogo,
quando entra no corpo de um desgraçado, faz logo ninho e de lá pincha
fora a vergonha. Da má vida com raparigas airadas, fadistas e mulheres
á toa, ainda a gente endireita; mas com cartas e sortes, só na
caldeira de Pedro Botelho é que se cuida em mudar de rumo. Quem lhe
fala, teve um tio morador nas Traíras, para cá de Camapoan cinco
leguas, que trabalhava todo o anno na terra para vir jogar até perder o
ultimo _cobre_ nas rancharias do Sucuriú.

Pereira, de posse de tão largo assumpto, contou mil historias, umas
lugubres, outras jocosas, veridicas, inventadas na occasião ou
reproduzidas.

Haviam no entretanto os dous caminhado bastante. Inclinára-se no
horizonte o sol, e a briza da tarde já vinha soprando do lado do
poente, viva, perfumosa.

--Nós, observou o mineiro, com a nossa conversa deixámos os nossos
animaes vir cochilando. Também já está aqui a minha estradinha.
Metta-se nella, Sr. Cyrino; em frente ia parar no Leal: minha fazendola
começa neste ponto á beira do caminho e vai por ahi afóra até bem
longe, um mundo de alqueires de terra, que nem tem conta.

Ao dizer estas palavras, tomou elle a dianteira e dando a direita á
estrada geral, enveredou por uma aberta larga e muito sombreada que
levava com voltas e tortuosidades á margem rasa de copioso e limpido
ribeirão, de alveo areento, todo elle. Que sitio risonho, encantador,
esse, ensombrado por magestosa e elegante ingazeira, toda ponctuada das
mimosas e balsamicas floresinhas!

Os animaes, ao perceberem o bater da agua, apertaram o passo e, entrando
na fresca corrente quasi até aos peitos, estiraram o pescoço e
pozeram-se a beber ruidosamente, avançando aos poucos de encontro ao
fio caudal, para buscarem o que houvesse mais puro em lympha.

--Não deixe a sua besta se _empanzinar_ observou Pereira. Upa!
continuou elle puxando pela redea do cavallo e batendo-lhe amigavelmente
na pá do pescoço, upa, Canivete! Vamos matar a fome no milho!

Transposto o ribeirão, alargava-se a vereda e, depois de cortar copada
matta, abria-se n'uma verdadeira estrada, que os dous cavalleiros
tomaram a meio galope.

Trasmontava afinal o sol, quando, além de ralo mattagal, surgiu a ponta
de um mastro de S. João, que o mineiro saudou com mostras de grande
alegria, como signal percursor da querida vivenda.

Antes, porém, de n'ella penetrarmos, digamos quem era aquelle mancebo
que viajava ornado do pomposo titulo de doutor, e, o que mais é,
revestido de autoridade para ir, a seu talante, applicando remedios e
preconisando curas milagrosas.


[Nota 13: De Minas Geraes.]

[Nota 14: Matto.]

[Nota 15: É o titulo honorifico que tinha a capital de Minas-Geraes.]

[Nota 16: Casa velha e abandonada.]

[Nota 17: Superfluidades de luxo.]

[Nota 18: Lugares.]

[Nota 19: Buracos, lugares retirados.]

[Nota 20: Grande quantidade.]

[Nota 21: Sitios distantes, ermos.]

[Nota 22: Força, valentia. É quasi sempre tomado no sentido material.]

[Nota 23: Importancia.]

[Nota 24: _Tutú_, isto é, a pessoa de mais consideração e que tudo
póde. Pereira fala do major Martinho de Mello Taques, o qual morava com
effeito na villa de Sant'Anna do Paranahyba e gozava de merecida
influencia.]

[Nota 25: Sobrado.]

[Nota 26: Conversação.]

[Nota 27: Isto é: ha abundancia.]

[Nota 28: Pouco liberal.--Tambem quer dizer: ou doente ou covarde.]

[Nota 29: Dinheiro.]

[Nota 30: Quantia.]



CAPITULO III

O DOUTOR


    Semeai promessas: a ninguem causam
    desfalque, e o mundo é rico de palavras.

    A esperança quando outros n'ella
    creem faz ganhar muito tempo.

    OVIDIO.

    Ao morreres, dota a algum collegio
    ou o teu gato.

    POPE.

    Sganarello--De toda parte vem gente
    procurar-me, e se as cousas continuarem
    assim, sou de parecer que de
    uma vez devo dedicar-me á medicina.
    Acho que de todos os officios é este o
    preferivel por que, ou se faça bem ou
    mal, sempre no fim ha dinheiro.

    MOLIÈRE.--_O medico á força._


Nascera Cyrino de Campos, como dissera a Pereira, na provincia de S.
Paulo, na socegada e bonita villa de Casa-Branca, a qual demora umas 50
leguas do littoral. Filho de um vendedor de drogas, que se intitulava
boticario e a esse officio accumulava o importante cargo de
administrador do correio, crescera debaixo das vistas paternas até á
idade de doze annos, completos os quaes fôra enviado, em tempos de
festas e a titulos de recordação saudosa, a um velho tio e padrinho,
morador na cidade de Ouro-Preto, em Minas-Geraes.

Este parente, solteirão, de genio rabugento, misanthropo, e dado ás
praticas da mais extrema carolice, recebeu o pequeno com máu modo e
manifesto descontentamento, tanto mais quanto a presença de um estranho
vinha interromper os habitos de completa solidão a que se acostumara
desde longos annos.

Era homem que trajava ainda á moda antiga usando de sapatos de fivela,
calções de braguilha, e cabelleira empoada com o competente rabicho.

A sua reputação de pessoa abastada era, em toda a cidade de Ouro
Preto, tão bem firmada quanto a de refinado sovina, chegando a voz
publica a affirmar que o seu dinheiro, e não pouco, estava todo
enterrado em numerosos buracos no chão da alcova de dormir.

--Meu amigalhote, disse o tal padrinho a Cyrino, poucos dias depois da
chegada, fique sabendo que por qualquer cousinha lhe sacudo a poeira do
corpo. Dê-se por avisado e ande direitinho que nem um fuso.

O menino, transido de medo, passou a tarde a chorar n'um canto sombrio
da casa, onde relembrou, até lhe vir o somno, a alegre vida de
outr'ora, os folguedos que fazia com os camaradas na viçosa relva do
Cruzeiro á entrada da villa Casa-Branca e sobretudo os carinhos da
saudosa mamãe.

Em seguida áquella admoestação preventiva fôra o tio á casa de uns
padres que tinham influencia na direcção do Collegio do Caraça e com
elles arranjara a admissão do afilhado n'aquelle estabelecimento de
instrucção.

Como finorio que era, conseguiu este resultado sem muita difficuldade,
pagando-o, a juros compostos, com tentadoras promessas.

--Por ora, resmoneou elle, nada poderei fazer pela educação do rapaz;
mas ... emfim ... um dia ... estou já velho, e tratarei de mostrar que
não me esqueci dos bons padres que tanto me ajudam hoje.

Lançada, assim, a eventualidade de uma verba testamentaria, ficou
decidida a entrada de Cyrino na casa collegial.

O presentimento da falta de protecção natural torna as crianças
doceis e resignadas. Tambem não tugiu nem mugiu o caipirasinha ao
penetrar no internato em que devia passar tristonhamente os melhores
annos da sua adolescencia.

Optimo negocio fizera incontestavelmente o velho tio. Ia tão somente
desembolsando boas palavras e, por estar agarrado á vida, chegou até a
levar ao cemiterio dous dos padres que se haviam prendido ás
esperanças de valiosa recordação.

Afinal como tinha por seu turno que pagar o tributo universal, um bello
dia morreu quando menos se esperava, deixando muito recommendado um seu
testamento, que foi com effeito aberto com sofreguidão digna de melhor
exito.

Testamento havia, força é confessar; não já testamento, mas extenso
arrazoado todo da letra do velho; barras de ouro, porém, ou maços de
notas, nem sombra.

Esfuracou-se a casa de alto a baixo levantaram-se os soalhos;
escutaram-se todas as paredes; quebraram-se os moveis: nada appareceu,
nada denunciou esconderijo de riquezas, nem cousa que com isso se
avizinhasse.

Descobriu-se então que aquelle carola fôra um pensador desabusado,
antigo admirador de Xavier, o Tira-Dentes, que nunca tivera vintem e
vivera como philosopho, grazinando lá comsigo mesmo, de tudo e de
todos.

Era o seu testamento uma gargalhada meio de gosto, meio de ironia,
atirada de além tumulo e corroborada pelo legado sarcastico que em
pomposo codicillo, fazia aos padres do Caraça da sua bibliotheca
«afim, dizia elle, de ajudar a educação dos mancebos e auxiliar as
boas intenções dos seus honrados e virtuosos directores.»

Procuraram-se os taes livros, e topou-se com um bahú cheio de obras, em
parte devoradas pelo cupim, que foram, incontinenti, entregues ás
chammas de um grande auto de fé. Eram as Ruinas de Volney, o Homem da
Natureza, as poesias eroticas de Bocage, o Diccionario philosophico de
Voltaire, o Citador de Pigault-Lebrun, a Guerra dos Deuses de Parny, os
romances do Marquez de Sade e outras producções de igual alcance e
quilate, algumas até em francez, mas annotadas por leitor assiduo e
mais ou menos convencido.

A consequencia desse pesado gracejo posthumo, que destruia de raiz o
conceito de uma vida inteira, foi a immediata exclusão de Cyrino do
collegio do Caraça.

Tinha então dezoito annos e, como era vivo conseguiu, apezar da natural
pecha que lhe atirava o parentesco com o estrambotico e defunto
protector, ir servir de caixeiro n'uma botica velha e _manhosa_ onde
entre drogas e receituarios lhe foram voltando os habitos da casa
paterna.

Leve era o trabalho, e o aviamento de prescripções tão lento que os
ingredientes pharmaceuticos ficavam mezes inteiros nos embaçados e
esborcinados frascos á espera de que alguem se lembrasse de tiral-os
daquelle bolorento esquecimento.

Em localidade pequena, de simples boticario a medico não ha mais que um
passo. Cyrino, pois, foi aos poucos e com o tempo creando tal ou qual
pratica de receitar e, agarrando-se a um Chernoviz, já seboso de tanto
uso, entrou a percorrer, com alguns medicamentos no bolso e na mala da
garupa, as visinhanças da cidade á procura de quem se utilisasse dos
seus serviços.

Nessas curtas digressões principiou a receber o tratamento de doutor.
Então para melhor o firmar, depois de se ter despedido da botica em que
servia, matriculou-se na escola de pharmacia de Ouro-Preto com a
intenção de tirar a carta de boticario, que o presidente de Minas
Geraes tem o privilegio de conferir, dispensando documentos de qualquer
faculdade reconhecida.

Antes, porém, de conseguir a posse d'aquelle lisonjeiro documento,
fez-se Cyrino, n'um dia de capricho, de partida decidida e começou
então a viajar pelos sertões povoados a medicar, sangrar e retalhar,
unindo a alguns conhecimentos de valor positivo outros que a experiencia
lhe ia indicando ou que a voz do povo e a superstição lhe ministravam.

Toda a sua sciencia assentava alicerces no tal Chernoviz. Tambem era o
inesperavel _vade-mecum_; seu livro de ouro; Homero á cabeceira de
Alexandre. Noite e dia o manuseava; noite e dia o consultava á sombra
das arvores ou junto ao leito dos enfermos.

Contem Chernoviz, dizem os entendidos, muitos erros, muita lacuna, muita
cousa inutil e até disparatada; entretanto no interior do Brazil é
obra que incontestavelmente presta bons serviços, e cujas indicações
tem força de evangelho.

Conhecia Cyrino o seu exemplar de cór e salteado; abria-o com
segurança nos trechos que desejava consultar e graças a elle formara
um fundo de instrucção real e até certo ponto exacta, a que unira o
estudo natural das utilissimas e ainda pouco aproveitadas hervinhas do
campo.

Afim de augmentar os seus recursos em materia medica vegetal, foi a
pouco e pouco dilatando as excursões fóra das cidades, para as quaes
voltava, quando se via falto de medicamentos ou quando, digamol-o sem
rebuço, queria gastar nos prazeres e folias o dinheiro que ajuntara com
a clinica do sertão.

Afinal, afeito a habitos de completa liberdade, resolvera emprehender
viagem para Camapoan e sul de Matto-Grosso, não só com o intuito de
estender o raio das operações, como levado do desejo de ver terras
novas e longinquas.

Curandeiro, simples curandeiro, ia por toda a parte grangeando o
tratamento de doutor, que gradualmente lhe foi parecendo, a si proprio,
titulo inherente á sua pessoa e a que tinha incontestavel direito.

Bem formado era o coração daquelle moço, sua alma elevada e incapaz
de pensamentos menos dignos; entretanto no intimo do seu caracter se
haviam insensivelmente enraizado certos habitos de orgulho, repassado de
tal ou qual charlatanismo, oriundo não só da flagrante insufficiencia
scientifica, como da roda em que sempre vivera.

Afastava-se em todo caso, ainda assim com os seus defeitos, do commum
dos medicos ambulantes do sertão, typos que se encontram frequentemente
naquellas paragens, eivados de todos os attributos da mais crassa
ignorancia, mas rodeados de regalias completamente excepcionaes.

Por toda parte entra, com effeito, o doutor; penetra no interior das
familias, verdadeiros gyneceos; tem o melhor lugar á mesa dos hospedes,
a mais macia cama, é emfim, um personagem cahido do céu e junto ao
qual acodem logo, de muita leguas em torno, não já enfermos, mas
fanatisados crentes, que durante largos annos se haviam medicado ou por
conselhos de vizinhos ou por suas proprias inspirações e que na
chegada desse Messias depositam todas as ardentes esperanças do
almejado restabelecimento.



CAPITULO IV

A CASA DO MINEIRO


    Está a ceia na mesa. Torne o bom
    acolhimento desculpavel o mau passadio.

    WALTER SCOTT.--_Ivanhoe._


Quando assomaram os dous viajantes á entrada do terreiro que rodeava a
vivenda de Pereira, correram-lhes ao encontro quatro ou cinco cães
altos e magros, que aos pulos saudaram o dono da casa com uma cainçada
de alegria.

Puzeram-se algumas gallinhas a girar atarantadas, ao passo que varios
gallos, ja empoleirados na cumieira da morada, bradavam novidade e uns
porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam de entre palhas de milho e,
estremunhados, olhavam para os recem-chegados com olhos pequenos e
cheios do somno.

Do interior da habitação, não tardou a sahir uma preta idosa, mal
vestida, trazendo atado á cabeça um panno branco de algodão, cujas
pontas pendiam até ao meio das costas.

--Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que ha de novo por cá?

--A benção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma
lentidão.

--Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina?
_Nocencia_?

--Nhã está com _sezão_.

--Isto sei eu, rapariga de Christo; mas como passou ella de
trasanthontem para cá?

--Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.

--Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco,
veremos. E a _janta_?... Está prompta? Venho varado de fome. Que diz,
sr. Cyrino? indagou, voltando-se para o companheiro.

--Não se me dava tambem de comer alguma cousa. Temos razão para...

--Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte, que
o terreno é nosso. Minha casa, já lh'o disse, é pobre, mas bastante
farta e a ninguem fica fechada.

Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavallinho zambro, o qual foi por
si correndo em direcção a uma dependencia da casa com formas de tosca
estrebaria.

Apeou-se igualmente Cyrino, mas, ao penetrar n'uma especie de alpendre
de palha que ensombrava a frente toda, mostrou repentina e viva
contrariedade no gesto e na physionomia.

--Ora, Sr. Pereira, exclamou elle batendo com o tacão da bota n'um
sabugo de milho, só agora é que me lembro que as minhas cargas vão
todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem
medicamentos. Que massada! Deviamos ter esperado na boca da sua picada.

Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:

--Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que
lá não deixei aviso seguro á sua gente? Não se lembra de um ramo
verde que puz bem no meio da estrada real?

--É verdade, confirmou Cyrino.

--E então? D'aqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso
rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.

Consistia a morada de Pereira n'um casarão vasto e baixo, coberto de
sapé, com uma porta larga entre duas janellas muito estreitas e mal
abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava
sensivelmente fóra da vertical, grandes rachas longitudinaes mostravam
a urgencia de sérias reparações em toda aquella obra feita de terra
amassada e grandes páos a pique.

Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construido de
troncos de palmeiras, por entre os quaes iam rolando as espigas de
milho, com o continuo fossar dos porquinhos, que dalli não arredavam
pé.

Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de
bority, sustentado por grossas taquaras, ligeiro appendice acrescentado
por occasião de alguma passada festa, em que o numero de convidados
ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.

Internamente era ella dividida em dous lanços: um, todo fechado, com
excepção da porta por onde se entrava, e que constituia o commodo
destinado aos hospedes: outro, á rectaguarda, pertencia, á familia,
ficando portanto completamente vedado ás vistas dos estranhos e sem
communicação interna com o compartimento da frente.

Era de barro compacto e socado o chão desta sala, vendo-se n'elle
signaes de que ás vezes alli se acendia fogo: pelo que estavam o sapé
do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tenue camada, de picuman
que lhes dava brilho singular como se tudo fôra jacarandá envernizado.

--Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se n'uma
tripeça de páo, não é meu, é de quem me procura. Poucos vêm cá de
certo parar, mas emfim é sempre bom contar com elles... Minha gente
mora na dependencia dos fundos.

E apontou para a parede fronteira á porta de entrada, fazendo um gesto
para mostrar que a casa se estendia além.

--Sr. Pereira, disse Cyrino recostando-se a uma solida marqueza, não se
incommode commigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não ha
ninguem.

--Pois então, retorquio o mineiro, deite-se um pouco, emquanto vou lá
dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas
espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais commodo do que ficar
de pé ou sentado.

Não desprezou o hospede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e,
cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.

Quem se colloca em posição horizontal, depois de vencidas umas
estiradas leguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o somno
cerrar as palpebras do recem-chegado a entumecer-lhe o peito com
socegada respiração.

Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse
acordado pelo tropel de animaes que paravam, e por grita de gente a pôr
cargas em terra. Assomou Pereira á porta com ar jovial.

--Então que lhe disse eu?

--De facto; estou agora socegado.

--E o Sr. tomou uma boa _data_[31] de somno.

--_Quem sabe_[32] uma hora?

--Boa duvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de
_Nocencia_, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em
Ouro-Preto, quando cahe geada na rua.

--Então não vae melhor?

--Qual!... Depois que o Sr. tiver comido, ha-de ir vel-a. Está,
pobresinha, tão desfeita que parece doente de uns tres mezes atraz.

--Felizmente, observou Cyrino com alguma enfatuação, aqui estou eu
para pôl-a de pé em pouco tempo.

--Deus o ouça, disse Pereira com verdadeira uncção.

--Patricios! Ó gente! gritou elle em seguida para os dois camaradas
chegados de pouco, vão mecês sentar naquelle rancho, alli. Perto ha
boa agua, e lenha é o que não falta: basta estender o braço. Olhem
dêm ração de fartar aos animaes. Aproveitem o milho, emquanto ha: é
a _sustancia_ desses bichos. Aqui, vendo-o baratinho. Um _atilho_[33]
por um _cobre_[34] e não são espigas chochas, nem de grão
_soboró_[35]. Eh! lá! Maria Conga, vamos com isso!... _janta_ a
mesa!...

Foram o chamado e as indicações de Pereira cumpridas sem demora.

Appareceu a velha escrava, que estendeu em larga e mal aplainada mesa
uma toalha de algodão, grosseira mas muito alva, sobre a qual derramou
duas boas cuias de farinha de milho: depois, emborcou um prato fundo de
louça azul, e ao lado collocou uma colher e um garfo de metal.

--Sente-se, doutor, disse Pereira para Cyrino, agora não _manduco_ com
mecê, porque já petisquei lá dentro. Desculpe se não achar a comida
do seu agrado.

Vinha nesse momento entrando Maria Conga com dois pratos bem cheios e
fumegantes, um de feijão cavallo, outro de arroz.

--E as hervas? peguntou Pereira. Não ha?

--Nhôr-sim. Eu trago já, respondeu a preta que com effeito voltou
d'ahi a pouco.

Tornou o mineiro a desculpar-se da insufficiencia e mau preparo da
comida.

--Não lhe dou hoje lombo de porco; mas o promettido não cae em
esquecimento, isto lhe posso assegurar.

--Estou muito contente com o que ha, protestou com sinceridade Cyrino.

E, de facto, pelo modo porque começou a comer, repetindo animadas vezes
dos pratos, deu evidentes mostras de que falava inteira verdade.

--Maria, disse Pereira para a escrava que se fora collocar a alguma
distancia da mesa com os braços cruzados, traz agora _mel_[36] e café
com _doce_[37].

--Ah! exclamou Cyrino com patente satisfacção estirando os braços,
fiquei que nem um ovo. O feijão estava de patente. Louvado seja Nosso
Senhor Jesus Christo, que me deu este bom agasalho.

--Amen! respondeu Pereira.

--Agora, amigo meu, disse o moço depois de pequena pausa, estou ás
suas ordens; podemos ver a sua doentinha e aproveitar a parada da febre
_para mim_[38] atalhal-a de prompto. Em taes casos, não gosto de
adiamentos.

Cobriu-se o rosto do mineiro de ligeira sombra: franziram-se lhe os
sobrolhos, e vaga inquietação lhe pairou na fronte.

--Mais tarde, disse elle com precipitação.

--Nada, meu senhor, retrucou Cyrino, quanto mais cedo, melhor. É o que
lhe digo.

--Mas, que pressa tem mecê? perguntou Pereira com certa desconfiança.

--Eu? respondeu o outro sem perceber a intenção, nenhuma. É mesmo
para bem da moça.

Acenderam-se os olhos de Pereira de repentino brilho.

--E como sabe que minha filha é moça? exclamou com vivacidade.

--Pois não foi o senhor mesmo quem mo disse na _prosa_ do caminho?

--Ah! ... é verdade. Ella ainda não é moça... Quatorze, quinze
annos, quando muito... Quinze annos e meio... Uma creança,
coitadinha!...

--Emfim, replicou o outro, seja como fôr. Quando o Sr. quizer, venha
procurar-me. Emquanto espero, remexerei nas minhas malas e tirarei
alguns remedios para tel-os mais á mão.

--Muito que bem, aprovou Pereira, bote os seus _trens_[39] naquelle
canto e fique descansado: ninguem bulirá nelles... Quanto a minha
filha ... eu ja venho ... dou um pulo lá dentro, e ... depois
conversaremos.


[Nota 31: Quantidade, porção.]

[Nota 32: Talvez.]

[Nota 33: Um atilho compôe-se de 4 espigas amarradas.]

[Nota 34: Dois vintens.]

[Nota 35: Soboró é o grão falhado.]

[Nota 36: Melado.]

[Nota 37: Rapadura de assucar.]

[Nota 38: É este erro commum no interior de todo o Brazil e sobretudo
na provincia de S. Paulo, onde pessoas até illustradas nelle incorrem
com frequencia.]

[Nota 39: Trem na provincia de Matto-Grosso é uma das palavras mais
empregadas e com as mais singulares accepções. Neste caso significa
objectos, cargas etc.]



CAPITULO V

AVISO PREVIO


    Onde ha mulheres, ahi se congregam
    todos os males a um tempo.

    MENANDRO.

    Nunca é bom que um homem sensato
    eduque seus filhos de modo a desenvolver-lhes
    de mais o espirito.

    EURIPIDES.--_Medéa._

    Filhos, sois para os homens o encanto
    da alma.

    MENANDRO.


Estava Cyrino fazendo o inventario da sua roupa e já começava a
anoitecer, quando Pereira novamente a elle se chegou.

--Doutor, disse o mineiro, pode agora mecê entrar para ver a pequena.
Está com o pulso que nem um fio, mas não tem febre de qualidade
nenhuma.

--Assim é _bem melhor_[40], respondeu Cyrino.

E, arranjando precipitadamente o que havia tirado da canastra, fechou-a
e pôz-se de pé.

Antes de sahir da sala, deteve Pereira o hospede com ar de quem
precisava tocar em assumpto de gravidade e ao mesmo tempo de difficil
explicação.

Afinal começou meio hesitante:

--Sr. Cyrino, eu cá sou homem muito bom de genio, muito amigo de
todos, muito accommodado e que tenho o coração perto da boca, como
vosmecê deve ter visto.

--Por certo, concordou o outro.

--Pois bem, mas ... tenho um grande defeito; sou muito desconfiado. Vae
o doutor entrar no interior da minha casa e ... deve portar-se como...

--Oh, Sr. Pereira! atalhou Cyrino com animação, mas sem grande
estranheza, pois conhecia o zelo com que os homens do sertão guardam da
vista dos profanos os seus aposentos domesticos, posso gabar-me de ter
sido recebido no seio de muita familia honesta e sei proceder como devo.

Expandiu-se um tanto o rosto do mineiro.

--Vejo, disse elle com algum acanhamento, que o doutor não é nenhum
_pé rapado_, mas nunca é bom facilitar... E já que não ha outro
remedio, vou dizer-lhe todos os meus segredos... Não mettem vergonha a
ninguem, com o favor de Deus; mas em negocios da minha casa não gosto
de bater lingua... Minha filha _Nocencia_ fez 18 annos pelo Natal, e é
rapariga que pela feição parece moça de cidade, muito ariscasinha de
modos, mas bonita e boa deveras... Coitada, foi creada sem mãe, e aqui
nestes _fundões_[41]. Tenho outro filho, este, um latagão, barbado e
_grosso_[42] que está trabalhando agora em porcadas para as bandas do
Rio.

--Ora muito que bem, continuou Pereira caindo aos poucos na habitual
garrulice, quando vi a menina tomar corpo, tratei logo de casal-a.

--Ah! é casada! perguntou Cyrino.

--Isso é, é e não é. A coisa está apalavrada. Por aqui costuma
labutar no costeio do gado para S. Paulo um homem de mão cheia, que
talvez o Sr. conheça ... o Manecão Dóca...

--Não, respondeu Cyrino abanando a cabeça.

--Pois _isso_ é um homem ás direitas, desempenado e _trabucador_[43]
como elle só ... fura estes sertões todos e vem tangendo[44] pontas de
gado que mettem pasmo. Tambem dizem que tem _bichado_[45] muito e
ajuntado cobre grosso, o que é possivel, porque não é gastador nem dado
a mulheres. Uma feita que estava aqui de pousada ... olhe, mesmo neste
logar onde estava mecê inda _agorinha_, falei-lhe em casamento ... isto
é, dei-lhe uns toques ... porque os paes devem tomar isso a
si para bem de suas _familias_[46]; não acha?

--Boa duvida, approvou Cyrino, dou-lhe toda a razão; era do seu dever.

--Pois bem, o Manecão ficou _ansim_ meio em duvida; mas quando lhe
mostrei a pequena, foi outra cantiga... Ah! tambem é uma menina!...

E Pereira, esquecido das primeiras prevenções, deu um muchôcho
expressivo, apoiando a palma da mão aberta de encontro aos grossos
labios.

--Agora, está ella um tanto desfeita; mas, quando tem saúde é
coradinha que nem mangaba do arêal. Tem cabellos compridos e finos como
sêda de paina, um nariz mimoso e uns olhos matadores...

--Nem parece filha de quem é...

A gabos imprudentes era levado Pereira pelo amor paterno.

Foi o que repentinamente pensou lá comsigo, de modo que, reprimindo-se,
disse com hesitação manifesta:

--Esta obrigação de casar as mulheres é o diabo!... Se não tomam
estado, ficam _jururús_ e _fanadinhas_...; se casam podem cair nas
mãos de algum marido malvado... E depois, as historias!... Hi, meu
Deus, mulheres numa casa, é coisa de metter medo... São redomas de
vidro que tudo pode quebrar... Emfim, minha filha, emquanto solteira,
honrou o nome de meus paes... O Manecão que se aguente, quando a tiver
por sua... Com gente de sáia não ha que fiar... Cruz! botam familias
inteiras a perder, emquanto o demo esfrega um olho.

Esta opinião injuriosa sobre as mulheres é, em geral, corrente nos
nossos sertões e traz como consequencia immediata e pratica, além da
rigorosa clausura em que são mantidas, não só o casamento
convencionado entre parentes muito chegados para filhos de menor edade,
mas sobretudo os numerosos crimes commettidos, mal se suspeita
possibilidade de qualquer intriga, amorosa entre pessoa da familia e
algum estranho.

Desenvolveu Pereira todas aquellas idéas e applaudiu a prudencia de
tão preventivas medidas.

--Eu repito, disse elle com calor, isto de mulheres, não ha que fiar.
Bem faziam os nossos do tempo antigo. As raparigas andavam direitinhas
que nem um fuso... Uma piscadella de olho mais duvidosa, era logo
páu... Contaram-me que hoje lá nas cidades ... arrenego! ... não ha
menina, por pobresinha que seja, que não saiba ler livros de letra de
forma e garatujar no papel ... que deixe de ir a _fonçonatas_ com
vestidos abertos na frente como _raparigas fadistas_ e que saracoteiam
em dansas e falam alto e _mostram os dentes_ por dá cá aquella palha
com qualquer _tafulão_ malcreado ... pois pelintras e beldroegas não
faltam... Cruz!... Assim, tambem é demais; não acha? Cá no meu modo
de pensar, entendo que não se maltratem as coitadinhas, mas tambem é
preciso não dar azas ás formigas... Quando ellas ficam taludas,
atamanca-se uma festança para casal-as com um rapaz decente ou algum
primo, e acabou-se a historia...

--Depois, acrescentou elle abrindo expressivamente com o pollegar a
palpebra inferior dos olhos, cautela e faca afiada para algum meliante
que se faça de[47] tolo e venha engraçar-se fóra de villa e termo...
Minha filha...

Pereira mudou completamente de tom:

--Pobresinha... Por esta não ha-de vir o mal ao mundo ... é uma
pombinha do céu ... Tão boa, tão carinhosa!... E feiticeira!! Não
posso com ella ... só o pensar em que tenho de entregal-a nas mãos de
um homem, bole commigo todo... É preciso, porém. Ha annos ... devia
já ter cuidado nesse arranjo, mas ... não sei ... cada vez que pensava
nisso ... caia-me a alma aos pés ... Tambem é menina que não foi
creada como as mais... Ah! Sr. Cyrino, isto de filhos, são pedaços do
coração que a gente arranca do corpo e bota a andar por esse mundo de
Christo.

Humedeceram-se ligeiramente os cilios do bom pae.

--O meu mais velho para, Deus sabe onde.... Se eu morresse neste
instante, ficava a pequena ao desamparo... Tambem, era preciso acabar
com esta incerteza... Além disso, o Manecão prometteu-me deixal-a aqui
em casa, e deste modo fica tudo arranjado ... isto é remediado, filha
casada é traste que não pertence mais a pae.

Houve uns instantes de silencio.

--Agora, proseguiu Pereira com certo vexame, que eu tudo lhe disse,
peço-lhe uma coisa: veja só a doente e não olhe para _Nocencia_ ...
falei assim a mecê, porque era de minha obrigação... Homem nenhum,
sem ser muito chegado a este seu creado, pisou nunca no quarto de minha
filha... Eu lhe juro... Só em casos destes de extrema _percisão_...

--Sr. Pereira, replicou Cyrino com calma, já lhe disse e torno-lhe a
dizer que, como medico, estou ha muito tempo acostumado a lidar com
familias e a respeital-as. É este meu dever, e até hoje, graças a
Deus, a minha fama é boa... Quanto ás mulheres, não tenho as suas
opiniões, nem as acho razoaveis nem de justiça. Entretanto, é inutil
discutirmos, porque sei que isso são prevenções vindo de longe, e
quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita.... O Sr. falou-me com
toda a franqueza, e tambem com franqueza, lhe quero responder. No meu
parecer, as mulheres são tão boas como nós, senão melhores: não ha
pois motivo para tanto desconfiar dellas e ter os homens em tão boa
conta... Emfim, essas suas idéas podem quadrar-lhe á vontade, e é
costume meu antigo a ninguem contrariar, para viver bem com todos e
delles merecer o tratamento que julgo ter direito a receber. Cuide cada
qual de si, olhe Deus para todos nós, e ninguem queira arvorar-se em
palmatoria do mundo.

Tal profissão de fé, expedida em tom dogmatico e superior, pareceu
impressionar agradavelmente a Pereira, que fôra applaudindo com
expressivo movimento de cabeça a sensatez dos conceitos e a fluencia da
phrase.


[Nota 40: Locução muito usual no interior.]

[Nota 41: Sertões.]

[Nota 42: Gordo.]

[Nota 43: Trabalhador.]

[Nota 44: Este elegante verbo é muito usado no interior.]

[Nota 45: Feito bichas, ganho dinheiro.]

[Nota 46: Filhas.]

[Nota 47: _Fazer-se_ de brazileirismo corrente no interior do paiz.]



CAPITULO VI

INNOCENCIA


    Nesta donzella é que se acham juntas
    a minha vida e a minha morte.

    HENOCH.--_O livro da amizade._

    Jamais vira cousa tão perfeita como
    o seu rosto pallido, os seus olhos franjados
    de sedosos cilios muito espessos
    e o seu ar meigo e doentio.

    GEORGE SAND.--_Os mestres gaiteiros._

    Tudo, em Fenella, realçava a idéa
    de uma miniatura. Alem do mais, havia
    em sua physionomia e, sobretuto no
    olhar, extraordinaria promptidão, fogo
    e atilamento.

    WALTER SCOTT.--_Peveril do Pico._


Depois das explicações dadas ao seu hospede, sentiu-se o mineiro mais
despreoccupado.

--Então, disse elle, se quizer, vamos já ver a nossa doentinha.

--Com muito gosto, concordou Cyrino.

E, sahindo da sala, acompanhou Pereira, que o fez passar por duas
cêrcas e rodear a casa toda, antes de tomar a porta do fundo, fronteira
a um magnifico laranjal, naquella occasião todo pontuado das brancas e
olorosas flores.

--Neste lugar, disse o mineiro apontando para o pomar, todos os dias se
juntam tamanhos bandos de _graúnas_[48], que é um barulho dos meus
peccados. _Nocencia_ gosta muito disso e vem sempre coser debaixo do
arvoredo. É uma menina exquesita...

Parando no limiar da porta, continuou com expansão:

--Nem o senhor imagina ... ás vezes, aquella criança tem lembranças e
perguntas que me fazem _embatucar_ ... Aqui, havia um livro de horas da
minha defunta avó.

... Pois não é que um bello dia ella me pediu que lhe ensinasse a
ler?... Que idéa!

... Ainda ha pouco tempo me disse que quizera ter nascido princeza... Eu
lhe retruquei: E sabe você o que é ser princeza? Sei me _secundou_[49]
ella com toda a clareza, é uma moça muito boa, muito bonita, que tem
uma coroa de diamantes na cabeça, muitos _lavrados_[50] no pescoço e
que manda nos homens... Fiquei meio tonto. E se o senhor visse os modos
que tem com os bichinhos?!... Parece que está falando com elles e que
os entende... Uma _bicharia_[51], em chegando ao pé de _Nocencia_,
fica mansa que nem ovelhinha parida de fresco... Se fosse agora a
contar-lhe historias dessa rapariga, seria um não acabar nunca...
Entremos, que é melhor...

Quando Cyrino penetrou no quarto da filha do mineiro, era quasi noite,
de maneira que, no primeiro olhar que atirou ao redor de si, só pôde
lobrigar, alem de diversos trastes de formas antiquadas, uma dessas
camas, muito em uso no interior; altas e largas, feitas de tiras de
couro engradadas. Estava encostada a um canto, e nella havia uma pessoa
deitada.

Mandara Pereira accender uma vela de sebo. Vinda a luz, aproximaram-se
ambos do leito da enferma que, achegando ao corpo e puxando para debaixo
do queixo uma coberta de algodão de Minas, se encolheu toda, e se
voltou para os que entravam.


[Ilustração: Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira.]


--Está aqui o doutor, disse-lhe Pereira, que vem curar-te de vez.

--Boas noites, dona, saudou Cyrino.

Timida voz murmurou uma resposta, ao passo que o joven, no seu papel do
medico, se sentava n'um escabello junto á cama e tomava o pulso á
doente.

Caía então a luz de chapa sobre ella, illuminando-lhe o rosto, parte
do collo e da cabeça, coberta por um lenço vermelho atado por traz da
nuca.

Apezar de bastante descorada e um tanto magra, era Innocencia de belleza
deslumbrante.

Do seu rosto irradiava singela expressão de encantadora ingenuidade,
realçada pela meiguice do olhar sereno que a custo, parecia coar por
entre os cilios sedosos a franjar-lhe as palpebras, e compridos a ponto
de projectarem sombras nas mimosas faces.

Era o nariz fino, um bocadinho arqueado; a bocca pequena, e o queixo
admiravelmente torneado.

Ao erguer a cabeça para tirar o braço de sob o lençol, descera um
nada a camisinha de crivo que vestia, deixando nú um collo de
fascinadora alvura, em que resaltava um ou outro signal de nascença.

Razões de sobra tinha, pois o pretenso facultativo para sentir a mão
fria e um tanto incerta, e não poder atinar com o pulso de tão gentil
cliente.

--Então? perguntou o pae.

--Febre nenhuma, respondeu Cyrino, cujos olhos fitavam com mal
disfarçada surpresa as feições de Innocencia.

--E que temos que fazer?

--Dar-lhe hoje mesmo um suador de folhas de laranjeira da terra a ver se
transpira bastante e, quando for meia noite, acordar-me para vir
administrar uma boa dóse de sulfato.

Levantára a doente os olhos e os cravara em Cyrino, para seguir com
attenção as prescripções que lhe deviam restituir a saúde.

--Não tem fome nenhuma, observou o pae; ha quasi tres dias que só vive
de beberagens. É uma ardencia continua; isto até nem parecem maleitas.

--Tanto melhor, replicou o moço; amanhã verá que a febre lhe sáe do
corpo, e daqui a uma semana sua filha está de pé com certeza. Sou eu
que lh'o afianço.

--Fale o doutor pela boca de um anjo, disse Pereira com alegria.

--Hão-de as côres voltar logo, continuou Cyrino.

Ligeiramente enrubeceu Innocencia e descançou a cabeça no travesseiro.

--Porque amarrou esse lenço? perguntou em seguida o moço.

--Por nada, respondeu ella com acanhamento.

--Sente dor de cabeça?

--Nhôr-não.

--Tire-o pois: convém não chamar o sangue; solte, pelo contrario, os
cabellos.

Pereira obedeceu e descobriu uma espessa cabelleira, negra como o amago
da cabiúna e que em liberdade devia cair até abaixo da cintura. Estava
enrolado em bastas tranças, que davam duas voltas inteiras ao redor do
cocoruto.

--É preciso, continuou Cyrino, ter de dia o quarto arejado e pôr a
cama na linha do nascente ao poente.

--Amanhã de manhãsinha hei-de viral-a disse o mineiro.

--Bom, por hoje então, ou melhor, agora mesmo, o suador. Fechem tudo, e
que a dona sue bem. Á meia noite, mais ou menos, virei aqui dar-lhe a
mézinha. Socegue o seu espirito e reze duas Ave-Maria para que a quina
faça logo effeito.

--Nhôr-sim, balbuciou a enferma.

--Não lhe dóe a luz nos olhos? perguntou Cyrino, achegando-lhe um
momento a vela ao rosto.

--Pouco ... um nadinha.

--Isso é bom signal. Creio que não hade ser nada.

E levantando-se, despediu-se:

--Até logo, sinhá-moça.

Depois do que, convidou Pereira a sahir.

Este acenou para alguem que estava num canto do quarto e na sombra.

--Ó Tico, disse elle, venha cá...

Levantou-se, a este chamado, um anão muito entanguido, embora
perfeitamente proporcionado em todos os seus membros. Tinha o rosto
sulcado de rugas, como se já fôra entrado em annos; mas os olhinhos
vivos e a negrejante guedelha mostravam edade pouco adeantada. Suas
perninhas um tanto arqueadas terminavam em pés largos e chatos que, sem
grave desarranjo na conformação, poderiam pertencer a qualquer
palmipede.

Trajava comprida blusa parda sobre calças que, por haverem pertencido a
quem quer que fosse muito mais alto, formavam em baixo volumosa rodilha,
apezar de estarem dobradas. Á cabeça, trazia um chapéu de palha de
_carandá_[52] sem cópa, de maneira que a melena lhe apparecia toda
arrepiada e erguida em torcidas e emmaranhadas grenhas.

--Oh! exclamou Cyrino ao ver entrar no circulo de luz tão estranha
figura, isto devéras é um _tic_[53] de gente.

--Não _anarchise_[54] o meu Tonico, protestou sorrindo-se Pereira. Elle
é pequeno ... mas bom. Não é meu nanico?

O homunculo riu-se, ou melhor, fez uma careta mostrando dentinhos alvos
e agudos, ao passo que deitava para Cyrino olhar inquisidor e altivo.

--O Snr. vê, doutor, continuou Pereira esta creaturinha de Christo ouve
perfeitamente tudo quanto se lhe diz e logo comprehende. Não póde
falar ... isto é, sempre póde dizer uma palavra ou outra, mas muito a
custo e quasi a estourar de raiva e de canseira. Quando se mette a
querer explicar qualquer coisa, é um barulho dos seiscentos, uma
gritaria dos meus peccados, onde apparece uma voz aqui, outra acolá,
mais christãsinhas no meio da barafunda.

--É que não lhe cortaram a lingua, observou Cyrino.

--Não tinha nada que cortar, replicou Pereira. De nascença é o
defeito e não póde ser remediado. Mas isto é um diabrete, que cruza
este sertão de cabo a rabo, a todas horas do dia e da noite. Não é
verdade, Tico?

O anão abanou a cabeça, olhando com orgulho para Cyrino.

--Mas é filho aqui da casa? perguntou este.

--Nhôr-não; tem mãe à beira do rio Sucuriú daqui a 40 leguas, e
envereda de lá para cá n'um instante, vindo a pousar pelas casas que
todas o recebem com gosto, porque é bichinho que não faz mal a
ninguem. Aqui fica duas, tres e mais semanas e depois dispara como um
_matteiro_[55] para a casa da mãe. É uma especie de cachorro de
_Nocencia_. Não é, Tico?

Fez o mudo signal que sim e apontou com ar risonho para o lado da moça.

Pereira, depois de todas aquellas explicações que o anão parecia
ouvir com satisfacção, disse voltando-se para este, ou melhor
abaixando-se em cima da sua cabeça:

--Agora, meu filho, vae ao curral grande e apanha _para mim_[56] um
_mãosada_[57] de folhas de laranjeira da terra ... daquelle pé grande
que encosta na _tronqueira_.

Mostrou o homunculo com expressivo gesto que entendera e saiu correndo.

Ia Cyrino deixar o quarto, não sem ter olhado com demora para o lugar
onde estava deitada a enferma, quando Pereira o chamou:

--Ó doutor, _Nocencia_ quer beber uma pouca de agua... Fará mal?

--Aqui não ha limões doces? indagou o moço.

--É um nunca acabar ... e dos melhores.

--Pois, então, faça sua filha chupar uns gomos.

Pereira, depois de ter paternalmente arranjado e disposto os cobertores
ao redor do corpo da menina, acompanhou Cyrino que, parado á porta de
saida, estava mirando as primeiras estrellas da noite.

--Vosmecê achou, doutor, perguntou o mineiro com voz um tanto tremula,
algum perigo no que tem aquelle anjinho?

--Não, absolutamente não, respondeu Cyrino. Verá o senhor que, daqui
a tres dias, sua filha não tem mais nada.

--Malditas febres!... Quando não derrubam um christão, o amofinam
annos inteiros... Eu não quizera que minha filha ficasse
esbranquiçada, nem feia... As moças quando não são bonitas, é que
estão doentes... Ah! mas ia me esquecendo dos limões doces... Que
cabeça!...

Adeantou-se Pereira no terreiro e, pondo as mãos junto á bocca, chamou
com voz forte:

--Ó Tico!

Prolongado grito respondeu-lhe a certa distancia.

O mineiro pôz-se a assobiar com modulações á maneira dos indios.

Houve uns momentos de silencio; depois veiu correndo o anão e,
chegando-se para perto, mostrou por signaes que não ouvira bem o
recado.

--Uns limões doces, já!... _Nocencia_ está com sêde...

Disparou o pequeno como uma setta, sumindo-se logo na densa escuridão
que já se espessara entre as arvores do pomar.


[Nota 48: Passaro de plumagem negra como indica a denominação
indigena--guira una (passaro preto)--o seu canto é muito melodioso e os
seus habitos eminentemente sociaes.]

[Nota 49: Respondeu.]

[Nota 50: Chama-se _lavrados_ na provincia de Matto-Grosso collares de
contas de ouro e adornos de ouro e prata.]

[Nota 51: Animal.]

[Nota 52: Palmeira muito parecida com a carnaúba, si não for a mesma.]

[Nota 53: Pedaço.]

[Nota 54: Ridicularise.]

[Nota 55: Veado do matto.]

[Nota 56: Esse para mim é accrescimo obrigatorio em certas locuções
do sertão.]

[Nota 57: Mão grande, porção boa.]



CAPITULO VII

O NATURALISTA


    A minha philosophia toda resume-se
    em oppôr a paciencia ás mil e uma
    contrariedades de que a vida está inçada.

    HOFFMANN.--_O reflexo perdido._


Serena e quasi luminosa corria a noite. No puro campo do céu,
scintillava com iriante brilho um semnumero de estrellas, projectando na
larga fita da estrada do sertão, mysteriosa e dubia claridade.

Pelo caminhar dos astros havia de ser quasi meia noite; e entretanto a
essa hora morta, em que só vagueiam á busca de pasto os animaes
bravios do deserto, vinham a passo lento, pelo caminho real, dois
homens, um a pé, outro montado n'uma besta magra e já meio estafada.

Mostrava o pedestre ser, como de feito era, um simples camarada, e vinha
com grossa e comprida vara na mão tangendo deante de si lerdo e
orelhudo burro, sobre cujo lombo se erguia elevada carga de canastras e
malinhas, cobertas por um grande ligal.

Quem estava montado e cavalgava todo encurvado sobre o sellim com as
pernas muito estiradas e abertas, parecia entregue a profunda
cogitação. Devia ser homem bastante alto e esguio e, como o
observamos, apezar da hora adiantada da noite, com olhos de romancista,
diremos desde já que tinha rosto redondo, juvenil, olhos gazeos,
esbugalhados, nariz pequeno e arrebitado, barbas compridas, escorrido
bigode e cabellos muito louros. O seu trajo era o commum em viagem:
grandes botas, paletot de alpaca em extremo folgado, e chapéo do Chile
desabado. Trazia entretanto, a tiracollo umas quatro ou cinco caixinhas
de lunetas ou quaesquer outros instrumentos especiaes, e na mão
segurava um páu fino e roliço, preso a uma saccóla de fina gaze côr
de rosa.

Homem de meia edade, de physionomia vulgar e balorda era o camarada e,
pelos modos e impaciencia com que fustigava o animal de carga, indicava
não estar afeito ao genero de vida que exercia.

Em silencio e na ordem indicada, caminhava a tropinha: o burro carregado
na frente, logo atraz o inhabil recoveiro; em seguida fechando a marcha,
o viajante encarapitado na magra cavalgadura.

Houve momento em que, depois de algumas pauladas de incitamento, pareceu
querer o cargueiro protestar contra o tratamento que tão fóra de hora
recebia e, fincando os pés na areia, resolutamente parou.

Provocou a reluctancia, porém, uma chuva de verdadeiras cacetadas que
echoaram longe e se confundiam com os brados e pragas do camarada.

--Burro do diabo! berrava elle. Mil raios te partam, bicho damnado!
Arrebenta de uma vez!... _Vá_ para os infernos! Entrega a carcassa aos
urubús.

Durante uns bons minutos, o cavalleiro, que fizera parar o seu animal,
esperou pacientemente qualquer resultado: ou que a renitente azemola se
désse afinal por convencida e avançasse ou então estourasse.

--_Júque_, disse elle de repente com accento fortemente guttural e que
denunciava a origem teutonica, se porretada chove assim no seu lombo,
_vóce_ gosta?

O homem a quem haviam dado o nome de Juca, voltou-se com arrebatamento:

--Ora, _Mochú_, isto é um perverso sem vergonha, que deve morrer
debaixo do páu. Esta vida não me serve!...

--Mas, _Júque_, replicou o allemão com inalteravel calma, quem sabe se
a cangalha não está ferindo a pobre creatura?

--Qual! bradou o camarada, isto é manha só. Conheço este safado, este
infamo, este...

E, levantando o varapáu, descarregou tal paulada no trazeiro do animal
que lhe fez soltar surdo gemido de dor.

--_Júque_, observou o patrão em tom pausado, quem sabe se na frente ha
páu cahido ou pedra, que não deixa elle ir para deante?

--Pedra, _Mochú_, o páu na cabeça até rachal-a, é que precisa este
ladrão...

--Vê, _Júque_, insistiu o allemão.

--Ora, _Mochú_...

--Vê, sempre...

Saiu resmungando o camarada de detrás do burrego e deu a volta.

Na frente avistou logo o ramo quebrado que Pereira deixara cair no meio
da estrada para desviar os acompanhadores de Cyrino.

--Ué! Ué! exclamou com muita surpreza, aqui esteve alguem e pôz este
signal para que não se passasse...

--Eu não disse a _vóce_, replicou o cavalleiro com voz até certo
ponto triumphante. Asno tem razão: para deante ha alguma cousa.

--Mas na villa, contestou José, nos disseram que o caminho vae sempre
direitinho sem _atrapalhação_ nenhuma...

--Na villa disseram isso, confirmou o outro.

--E então?

--E então? repetiu o allemão.

Houve uns segundos de silencio.

Depois o cavalleiro accrescentou com a mesma imperturbavel serenidade, e
como que achando explicação muitissimo natural:

--Na villa muita gente não sabe caminho. É...

--Mil milhões de diabos, interrompeu o camarada todo frenetico, levem o
gosto de andar por esses mattos do inferno a horas tão perdidas! Eu bem
disse a _Mochú_, ninguem viaja assim. Isto é uma calamidade...

--_Júque_, atalhou por seu turno o patrão, o que é que adeanta estar
a berrar como um damnado?... Olhe, antes, se por ahi _vóce_ não vê
algum caminho do lado.

Obedeceu o outro e sem difficuldade achou a entrada da picada que levava
á morada de Pereira.

--Está aqui, _Mochú_, está aqui! annunciou elle com alegria. É um
trilho que corta a estrada e vae dar nalguma casa pertinho...

Mudando repentinamente de tom, observou com voz tristonha;

--Comtanto que até lá não haja alguma legua de beiço...

--Ah! eu não lhe disse, respondeu o allemão. Agora toque burro
devagarinho; elle anda que nem vento.

Pareceu o animal comprehender o alcance moral da victoria que acabara de
colher e prestes enveredou pela trilha com alento novo e até desusada
celeridade.

A razão é que tambem dahi a pouco sorvia elle, teimoso e marralheiro
bicho como soem ser os da sua especie, a bella agua do ribeirão, em que
se haviam refrescado as cavalgaduras de Cyrino e de Pereira.



CAPITULO VIII

OS HOSPEDES DA MEIA NOITE


    Sei, sim, sei que é noite!

    XAVIER DE MAISTRE.--_Viagem ao redor do meu quarto._


Não tardou muito que os dois nocturnos viajantes começassem a ouvir os
latidos furiosos dos cães que no terreiro de Pereira denunciavam
approximação de gente suspeita junto á casa entregue á sua vigilante
guarda.

--Por aqui perto fica algum rancho, _Mochú_, avisou o camarada; havemos
emfim de descansar hoje... Mas, que gritaria faz a cachorrada!... São
capazes de nos engulir antes que venha alguem saber se somos christãos
ou não... Safa! Que canzoada!... Ó _Mochú_, o Sr. deve ir na
frente ... rompendo a marcha...

--_Vóce_, respondeu o allemão, bate nelles com cacete...

--Nada, retrucou José com energia, isso não é do ajuste... Quem está
montado, caminhe adiante... Ainda por cima agora essa!

Depois de resmonear algum tempo, exclamou:

--Ah! espero já me lembrei do uma coisa... O filho do velho é
mitrado...

E, dizendo esta palavra, de um só pulo montou na anca do cargueiro,
que, ao sentir aquelle inesperado accrescimo de peso, parou por
instantes e com surdo ronco procurou lavrar um protesto.

--_Júque_, observou o allemão sem a menor alteração na voz, assim
burro quebra cadeira. Depois morre ... o _vóce_ tem de levar as cargas
delle ás costas...

Quiz o camarada encetar nova discussão, mas a a esse tempo chegavam ao
terreiro, onde o ataque furioso dos cães justificou a medida preventiva
de José, o qual entrou, todo encolhido atraz das cargas, a gritar como
um possesso:

--Ó de casa! Eh! lá, gentes! Ó amigos!

Augmentou a algazarra da cachorrada por tal modo, que os tropeiros de
Cyrino, pousados no rancho proximo, acordaram e bradaram juntos:

--Que diabo é isto? Temos matinada de lobishomens?

--Abriu-se nesse momento a porta da casa e appareceu Cyrino na frente do
Pereira, trazendo este uma vela que com a mão aberta amparava da briza
nocturna.

--Quem vem lá? clamaram os dois a um tempo.

--Camarada o viajante, respondeu com voz forte e sympathica o allemão,
achegando-se á luz e tratando de descer da cavalgadura. Quem é o dono
desta casa?

--Está aqui elle, respondeu Pereira levantando a vela acima da cabeça
para dar mais claridade em torno de si.

--Muito bem, replicou o recem-chegado. Desejo agasalho para mim e para o
meu creado e peço muitas desculpas por chegar tão tarde.

Aproximara-se tambem o José, cuidando logo, no meio de muchôchos e
pragas, de pôr em terra a carga do burrinho, o qual amarrara pelo
cabresto a uma vara fincada no chão.

--Mas, observou Cyrino, que faz o Sr. por estas horas mortas a
viajar?...

--Deixe o homem entrar, atalhou Pereira, e acommodar-se com o que
achar... Pois, meu senhor, _desapeie_. Bem vindo seja quem procura tecto
que é meu.

--Obrigado, obrigado, exclamou com effusão o estrangeiro.

E, apresentando a larga mão, apertou com tal força as de Cyrino e
Pereira que lhes fez estalar os dedos.

Em seguida, penetrou na sala e tratou logo de arranjar os objectos que
trazia a tiracollo, collocando-os cuidadosa e methodicamente em cima da
mesa, no meio dos olhares de espanto trocados por quantos o estavam
rodeando.

Na verdade, digna de reparo era aquella figura á luz da bruxoleante
vela de sebo; compridas pernas, corpo pequeno, braços muito longos e
cabellos quasi brancos, de tão louros que eram.

--Será algum bruxo? perguntou a meia voz Cyrino a Pereira.

--Qual! respondeu o mineiro com sinceridade, um homem tão bonito, tão
_bem limpo_[58]!

Entrára José com uma canastra ao hombro e, descarregando-a no canto
menos escuro do quarto, julgou dever, sem mais demora, declinar a
qualidade e importancia da pessoa que lhe servia de amo.

--O Sr. aqui é doutor, disse elle apontando para o allemão e
dirigindo-se para Cyrino...

--Doutor?! exclamou este com despeito.

--Sim, mas doutor que não cura doenças. É _allamão_, lá da
_estranja_, e vem desde a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
caçando _anicetos_ e picando barboletas...

--_Barboletas_? interrompeu com admiração Pereira.

--_Acui cui_![59] Por todo o caminho vem apanhando bichinhos. Olhem ...
aquelle sacco que elle traz...

--O meu camarada, avisou com toda a tranquillidade e pausa o
naturalista, é muito falador. Os senhores tenham paciencia... Ande,
_Júque_, deixe de tagarellar!...

--Não, protestou Pereira levado de curiosidade, é bom saber com quem
se lida... Então o Sr. vem matando _anicetos_? Mas para que, Virgem
Santissima!...

--Para que? retrucou o camarada descansando as mãos na cintura. O
patrão e eu já temos mandado mais de dez caixões todos cheinhos lá
para as terras delle...

--Depois o paiz fica sem borboletas, respondeu Cyrino num assomo de
despeitado patriotismo.

--Mas, como é que o Sr. se chama? perguntou Pereira, voltando-se para o
allemão que estava virado para a parede a contemplar um desses grandes
e sombrios lepidopteros, da especie dos esphinges.

--_Júque_, disse elle sem lhe importar a interpellação e acenando
para o camarada, depressa ... um alfinete, dos grandes ... dos
maiores...

--Temos historia, avisou José, fazendo expressivo signal a Cyrino, o
Sr. vae ver...

O naturalista, de posse de um comprido aculeo, fincou-o com segura e
adestrada mão bem no meio do insecto, o qual começou a bater
convulsamente as azas e girar em torno do centro a que estava preso.

--A pita! A pita! exclamou o patrão. Vamos, _Júque_.

--Satisfez José o pedido, depois de abrir uma malinha, onde já estavam
enfileirados e espetados vinte ou trinta bonitos bichinhos.

--É uma _saturnia_ ... e não commum, murmurou o allemão fisgando num
pedaço de pita o novo especimen, sobre o qual derramou algumas gottas de
chloroformio, de um vidrinho que sacou dum dos muitos bolsos da
sobrecasaca.

--O Sr. é viajante zoologista, não é? perguntou Cyrino, depois que viu
terminada a operação.

O interrogado levantou a cabeça com surpresa e respondeu todo risonho:

--Sim, senhor; sim, senhor! Como é que o Sr. o soube? Viajante
naturalista, sim, senhor! Eu vejo que o Sr. é muito instruido... Muito
bem, muito bem! Muita instrucção!

E, abrindo uma carteira de notas, escreveu logo umas linhas tortuosas.

--Ah! este tambem é doutor, disse Pereira com certo orgulho por
hospedar em sua casa sabichão de tal quilate.

--Oh! doutor? doutor!? Muito bem, muito bem. Doutor que _curra_?

--Sim, senhor, respondeu com gravidade o proprio Cyrino.

--Ah! ... ah! muito bem.

Pereira, porém voltara à carga.

--Mas, como é que o Sr. se chama?

--Meyer, respondeu o allemão, para o servir.

--Maia?[60] perguntou o mineiro.

--Não, senhor, Meyer; sou da Saxonia, da Allemanha.

--Isto deve ser o mesmo que Maia na terra delle, observou Pereira,
abaixando um pouco a voz.

O camarada José, no entretanto, trouxera para dentro todas as malas e
canastras e sem cerimonia alguma intrometteu-se na conversação.

--Este _Mochú_, disse, vem de muito longe só por causa destas
historias de _barboletas_, e com o negocio ganha _côco_ grosso...
Quanto a mim...

--_Júque_, atalhou Meyer com fleuma, vai bota os animaes no pasto.

--Não, disse Pereira, solte-os no terreiro até raiar o dia; roerão o
que acharem; ha por ahi muito resto de milho nos sabugos...

--Pois é o que fiz, declarou o camarada; mas como lhes dizia, sou
carioca do Rio de Janeiro, chamo-me José Pinho e venho de bem longe
acompanhando este _allamão_, que é um homem muito de bem.

--É verdade? indagou Pereira, olhando para Meyer.

Este esbugalhou mais os olhos e confirmou tudo com um sim guttural que
echoou em toda a sala.

--Elle o que tem, continuou José é que é muito teimoso. Eu lhe digo
sempre: _Mochú_, isto de viajar de noite é uma tolice e uma canseira
á tôa... Qual! pensa lá no seu bestunto que assim é melhor. Tambem
a gente anda por estas estradas fóra como se fosse alma do outro mundo
a penar ... algum currupira ... ou boitatá... Cruzes!

--Pois, Sr. _Maia_, disse Pereira, tome posse desta sala, e faça de
conta que é sua... Se quizer uma rede...

--Muito obrigado, muito obrigado! ... minha cama é canastra. Não se
incommode...

--Amanhã então conversaremos, concluiu Pereira esfregando as mãos de
contente.

Promettia-lhe na verdade a companhia boas occasiões de dar largas á
volubilidade, sobretudo com o tal José Pinho, filho da Côrte do Rio de
Janeiro e, pelo que parecia, tagarella de grande força.

--Assim, pois, disse Pereira, durmam bem o restante da noite.

E abriu a porta para se retirar.

--Ui! exclamou elle olhando para o céu. Doutor, já passa muito da meia
noite... Com a bréca, o Cruzeiro está virando de uma vez...

Cyrino, que tornara a deitar-se com presteza calçou as botas e tomou
uns papeisinhos que de antemão preparara e puzera a um canto da mesa.

--Não faz mal, disse, já estou com tudo prompto e em tempo havemos de
dar o remedio. Vá o Sr. deitar um pouco de café num pires e acorde
sua filha, caso esteja dormindo, como é muito natural depois do suador.

Saiu então Pereira, levando a vela e, acompanhado de Cyrino, deu volta
á casa para buscar a entrada dos aposentos interiores.

Ficaram pois o allemão e seu criado em completa escuridão; ambos,
porém, já estirados a fio comprido, um em cima das canastras, tendo
por travesseiro roliça maleta, outro sobre o ligal aberto e estendido
no meio do aposento.

--Ó _Mochú_, perguntou José, que mastigava qualquer coisa, está já
ferrado?

--Ferrado? replicou Meyer levantando a cabeça. Que é isto agora?

--Pergunto se já pegou no somno?

--Pois, _Júque_, se eu falo, como é que posso estar dormindo?

--Então não quer petiscar?

--Comer, não é?

--Está visto.

--Oh! se tivesse!... Pensava agora nisso...

--Pois eu estou _manducando_ ... Quer um bocadinho?

--Que é que _vóce_ me dá?

--Rapadura com farinha de milho...

Está deveras de patente!... Gostoso como tudo...

--Então, _Júque_, passe-me um pouco.

Levantou-se o offertante com toda a boa vontade e ás apalpadelas
começou a procurar a cama do patrão, o que só conseguiu depois de ter
esbarrado na mesa e numas cangalhas velhas atiradas a um canto da sala.

Afinal agarrou num dos pés do naturalista, a quem entregou uma nesga de
rapadura e uns restos de farinha embrulhados em papel, pitança, mais
que sóbria, que foi devorada com satisfacção pelo bom do Saxonio.


[Nota 58: Bem vestido.]

[Nota 59: Affirmação usada pelo povo, correspondente a sim.]

[Nota 60: O diphtongo ei, pronunciando-se em allemão ai, muito natural
é a pergunta de Pereira e as confusões que amiudadas vezes faz com
esse nome.]



CAPITULO IX

O MEDICAMENTO


    Não tendes que labutar com doente
    muito grave, e eis o serviço que de vós
    espero...

    HOFFMANN.--_A porta entaipada._

    Quem me poderá dizer porque me
    parece tão duro o leito?... Porque
    passei esta noite, que se me figurou tão
    longa, sem gozar um momento de socego?...
    Surge a verdade: em meu
    seio, penetraram as agudas settas do
    amor.

    OVIDIO.--_Elegia II._


Quando Cyrino entrou no quarto de Innocencia, já estava ella acordada.
Sentara-se o pae á cabeceira da cama, a cujos pés se acocorara Tico o
anão, sobre uma grande pelle de onça.

--Então, perguntou o medico tomando o pulso á mimosa doente, como se
sente?

--Melhor respondeu ella.

--Suou bastante?

--Ensopei tres camisas.

--Muito bem... Agora a senhora está com a pelle fresquinha que mette
gosto. Isto de sezões, não é nada, se a gente acode a tempo e o
sangue não tem maus humores. Mas quando tomam conta do corpo, nem o
demo com ellas pode. Que é do café? pediu elle em seguida a Pereira.

--Já vem já... Homem vou eu mesmo buscal-o, lá á cosinha. A Maria
Conga está ficando uma verdadeira lesma. Venha para aqui e espere-me um
_nadinha_.

Levantando-se então da cadeira, indicou-a a Cyrino, a quem fez sentar
antes de sahir.

Ficou este, pois, ao lado da menina e, como sobre o lindo rosto batesse
de chapa a luz collocada numa prateleira da parede, pôz-se a
contemplal-a com enleio e vagar, ao passo que da sua parte o anão lhe
deitava olhares inquietos e algo sombrios.

Pousara Innocencia a cabeça no travesseiro e, para occultar a
perturbação de se ver tão de perto observada, fingia dormir. Pelo
menos tinha as grandes palpebras cerradas e o rosto sereno; mas
arfava-lhe apressado o peito e, de vez em quando, fugaz rubor lhe tingia
as faces descoradas.

Pereira tardava; e Cyrino com os olhos fixos, a physionomia meditativa e
um pouco de pallidez, que denunciava a intima commoção, não se
fartava de admirar a belleza da gentil doente.

Uma vez, entreabriu os olhos e a medo atirou um olhar que se cruzou com
o do mancebo, olhar rapido, instantaneo, mas que lhe repercutiu direito
ao coração e lhe fez estremecer o corpo todo.

Sem saber porque, batia-lhe o queixo, e um arrepio de frio lhe circulava
nas veias.

--Sente mais febre? perguntou Cyrino muito baixinho.

--Não sei, foi a resposta, e resposta demorada.

--Deixe-me ver o seu pulso.

E tomando-lhe a mão, apertou-a com ardor entre as suas, retendo-a,
apezar dos ligeiros esforços que para a retrahir, empregou ella por
vezes.

Nisto, entrou Pereira. Innocencia fechou com presteza os olhos e Cyrino
voltou-se rapidamente, levando um dedo aos labios para recommendar
silencio.

--Está dormindo, avisou com voz sumida.

--Ora, disse Pereira no mesmo tom, a tal Maria Conga deixou entornar a
cafeteira, de _maneiras_ que precisei fazer outra porção. Demorei
muito?

--Não, respondeu Cyrino com toda a sinceridade.

--Mas agora, observou Pereira, é mister acordar a pequerrucha.

--Não ha outro remedio.

Chegou-se o pae á cama e, com todo o carinho, chamou: _Nocencia_!
_Nocencia_!

E como não a visse despertar logo, sacudio-a com brandura até que ella
abrisse uns olhos espantados.

--Apre! Que somno! disse o bondoso velho. Num instante que fui lá
dentro?!... Vamos, são horas de tomar a mézinha.

Deitara Cyrino sulfato de quinina no café e diluia-o vagarosamente.

--Olhe, dona, aconselhou elle, beba de um só trago e chupe, logo
depois, uns gomos de limão doce.

--Então é muito mau? choramigou a doente.

--É amargo; mas num gole mecê toma isto.

--Papae, recalcitrou a moça, não quero ... eu não quero.

--Ora, filhinha do meu coração, não se _canhe_[61]; é preciso...
Amanhã ha-de você sentir-se boa; não é doutor?

--Com certeza, se tomar esta poção, assegurou Cyrino.

--Depois, quando eu ir lá á villa, hei-de trazer para você uma cousa
bonita ... uns _lavrados_[62]. Ouviu?

--Nhôr-sim.

--Ande, Tico, accrescentou o mineiro voltando-se para o anão, vae
depressa buscar limão doce; na cosinha ha um meio _cascado_[63].

--Tome, dona, implorou por seu turno Cyrino, approximando o pires da
boca da formosa medicanda.

Levantou uns olhos supplices e, agarrando resolutamente o remedio,
bebeu-o todo de um jacto.

Depois deu um suspiro de enjôo e ficou com os labios entreabertos, á
espera que o adocicado sumo do limão lhe tirasse o amargor do
medicamento.

--Então, exclamou Pereira, era maior o medo que a cousa em si! Você
tome a dose numa _relancina_.

--Amanhã de manhã, ou melhor hoje de madrugada, temos que engolir
outra dose, declarou Cyrino. Depois, a dona, poderá levantar-se.

--Ainda outra? protestou Innocencia com gesto de amúo.

--Nhã, sim; é de toda a percisão, replicou o amoroso medico
modificando pela suavidade da voz a dureza das prescripções.

--De certo, corroborou tambem Pereira.

--Depois deve mecê deixar de comer carne fresca, hervas, ovos ou
farinha de milho por um mez inteiro, e de provar leite por muito tempo.
Hade sustentar-se só de carne de sol bem secca, com arroz quasi sem sal
e por cima tomará café com muito pouco _doce_[64].

--Fica ao meu cuidado, asseverou Pereira, olhar para o _rejume_[65].

--Agora, durma bem e não se assuste de lhe apparecer zoeira nos ouvidos
e até de se sentir mouca Isto é da mézinha; pelo contrario é muito
bom signal.

--Estes doutores sabem tudo, murmurou Pereira dando ligeiro estalo com a
lingua.

Não se descuidou Cyrino, antes de se retirar, de novamente tomar o
pulso e, á conta de procurar a arteria, assentou toda a mão no punho
da donzella, envolvendo-lhe o braço e apertando-o docemente.

Saiu-se mal de tudo isso: porque se tratava da cura de alguem, para si
arranjava enfermidade e bem grave.

Com effeito, de volta á sala dos hospedes, não poude mais conciliar o
somno e, sem que houvesse conseguido fruir um só momento de descanço,
viu raiar a aurora. Parecia-lhe que o peito ardia todo em chammas a
subirem-lhe ás faces, abrazando-lhe o pensamento.

Aquelle venusto rosto que contemplára a sós; aquelles formosos olhos,
cujo brilho a furto percebera, aquelle collo alabastrino que a medo se
descobrira, aquellas indecisas curvas de um corpo adoravel, todo aquelle
conjuncto harmonioso e encantador que vira á luz de frouxa vela,
fatalmente o lançavam nesse pelago semeado de tormentos que se chama
paixão!

Effeitos de tão temivel mal já ia o misero sentindo. Inquieto se
revolvia (facto virgem!) no duro leito, ao passo que a respiração
isochronica e ruidosa do companheiro de hospedagem, o allemão Meyer,
respondia ao sonoro resonar do garrulo José Pinho.


[Nota 61: Acanhar-se, amofinar-se.]

[Nota 62: Contas de ouro.]

[Nota 63: Em toda a provincia de Matto-Grosso e em geral no interior
diz-se cascar por descascar. Dizem até cascar um boi por esfolal-o,
tirar-lhe o couro.]

[Nota 64: Assucar.]

[Nota 65: Corruptela de regimen.]



CAPITULO X

A CARTA DE RECOMMENDAÇÃO


    Aquelle bom velho, cuja benevola
    hospitalidade não tinha limites, julgara
    do seu dever tratar do melhor modo
    possivel a Waverley, fosse elle o ultimo
    camponez saxonio... Mas o titulo de
    amigo de Fergus fel-o considerar como
    precioso deposito, merecedor de toda a
    sua solicitude e da mais attenta obsequiosidade.

    WALTER SCOTT.--_Waverley._


Quando Meyer abriu os olhos, já achou Cyrino de pé, arranjando uma
canastrinha.

--Oh! exclamou elle em tom de louvor, o Sr. madruga muito.

--É verdade, replicou o outro, um tanto melancolico.

--E _Júque_ ainda dorme!... Este _Júque_ parece mais um tatú do que um
homem... Todo o dia o estou acordando...

E juntando o feito ao dito, foi o pachorrento amo sacudir a criado.
Depois de se espreguiçar á vontade, sentou-se este no couro em que
dormira, e pôz-se a esfregar com todo o vagar os olhos papudos ainda
cheios de somno.

--Deus esteja com vossuncês, disse elle entre dois bocejos. Ora,
_Mochú_, o Sr. acordou-me no melhor do somno. Estava sonhando que
voltára para o Rio de Janeiro e ia acompanhando uma musica pelo largo
do Rocio a fóra. Conhece o largo do Rocio? perguntou a Cyrino.

--Não, respondeu-lhe este.

--Chi! Que largo! Hen, _Mochú_?

E novo bocejo cortou-lhe a descripção da louvada praça.

--_Júque_, exclamou Meyer coçando a barba com ar alegre, o dia hoje
está claro e bonito. Havemos de apanhar pelo menos umas doze borboletas
novas.

--E quanto me dá _Mochú_, se eu agarro vinte e cinco?

--Vinte e cinco? repetiu o allemão com alguma duvida.

--Sim, vinte e cinco ... e até mais, vinte e seis. Diga, quanto me dá?

--Oh! eu dou a _vóce_ dois mil réis.

--Está dito, fecho o negocio. Eu cá sou assim pão pão, queijo
queijo; tão certo como chamar-me José Pinho, seu criado, carioca de
nascimento e baptisado na freguezia da Lagoa, lá para as bandas do
_Brocó_, e...

--Agora, interrompeu Meyer; vá buscar agua para lavar a cara, e tire
sabão e pente na canastra.

--Olhe, Sr. doutor, continuou o camarada sentado sempre e voltando-se
para o lado de Cyrino, esta minha vida é levada de seiscentos mil
diabos. Nós saimos do Rio já ha mais de dois annos; não é, _Mochú_?

--Vinte e tres mezes, rectificou Meyer.

--Pois bem; desde esse tempo estamos a viajar como se fosse penitencia
de confissão. E não é só isso, não, senhor. Todos os dias ando pelo
menos nove leguas correndo aqui e acolá, dando voltas, caindo, atraz
dos bichos voadores...

--_Júque_! tentou atalhar Meyer, olhe...

--Pois é o que lhe digo, proseguiu José Pinho. Tenho hoje uma raiva
daquellas porcarias todas... Nem sei porque, Nosso Senhor Jesus Christo
foi crear esta sucia de creaturas sem prestimo... Emfim. Elle é quem
sabe... Quanto a mim, se pudesse, atacava fogo em todas as lagartas,
porque da lagarta é que nascem esses _anicetos_, que estão enchendo
mundos... Mas, veja, Sr. doutor, lá na terra deste homem,--(coitado, é
bem bomzinho e me estima muito!)--valem esses bichos mais do que ouro em
pó... Tambem, se o _Mochú_ não gostasse de mim, _havéra_ de ser
muito ingrato... Outro como eu, não encontra mais, não senhor... Tenha
a santa paciencia ... não, senhor, isto é o que lhe posso afiançar.

No meio desse fluxo de palavras, Meyer fora em pessoa procurar na
canastra o pente e o sabão.

Mostrando os objectos ao fallador, ordenou com energia:

--Cale a boca, _Júque_, cale a boca, tagarella! Vá buscar agua já;
senão ... não levo _vóce_ ao matto hoje.

Levantou-se de prompto José Pinho e meio a resmungar saiu, tomando uma
das canastras.

--Esse camarada, disse Meyer depois de algum silencio e para explicar o
seu procedimento, é uma pessoa muito boa ... fiel e intelligente.
Mas ... fala demais. É-me precioso, porque apanha borboletas com muito
talento e geito.

Entrando José Pinho e ouvindo o final do elogio, depoz com ar de grave
importancia a bacia no chão.

Deante della, e depois de tirar do nariz os oculos collocou-se logo
Meyer, ou antes acocorou-se e em relação ao tronco, tão compridas
eram as suas pernas que, inclinado por sobre a agua, lhe ficava a
cabeça a altura dos joelhos.

Levou a ablução uns largos minutos e foi com os cabellos grudados ao
casco e escorrendo agua que elle se levantou, justamente quando entrava
Pereira.

Nesse momento, assumira o typo daquelle homem proporções do mais
pasmoso grotesco; entretanto, tão vária é a apreciação de cada um,
tão caprichoso é o julgamento individual, que o mineiro, acercando-se
de Cyrino, disse baixinho:

--Vosmecê já reparou, amigo, como este _estranja_ é figura bonita?
_Tão arvo_! E que olhos que tem!... As mulheres hão-de perder a
cachola por causa deste bicharrão... Então, Sr. Maia, continuou
interpellando em voz alta o seu especimen de belleza masculina, que tal
passou aqui a noite?

--Oh! Sr. Pereira!... Desculpe, se o não vi... Estava sem oculos... Já
lhe respondo ... espere um bocadinho.

E ainda todo molhado, correu a tomar os oculos, que assentou em cima dos
salientes luzios.

--Agora, muito bem... Dormi, meu bom amigo, como quem não tem
peccados...

--Então, observou Cyrino, quasi mau grado seu, tenho-os eu; porque, da
meia noite para cá, não pude mais pregar olho...

--Isto é volta de algum namoro, replicou Pereira batendo-lhe com força
no hombro e rindo-se.

Cyrino descorou ligeiramente.

--Sim, vosmecê é moço ... deixou lá por Minas algum _rabicho_, e de
vez emquando o coração lhe comicha... Está na idade...

--Pode muito bem ser, apoiou Meyer com gravidade.

--Não é? insistiu Pereira, Ora, confesse ... não lhe fica mal... Isso
é volta de enguiço...

--Juro-lhes, balbuciou Cyrino.

--Oh! se é, confirmou José Pinho que julgou dever metter o bedelho na
conversa, eu no Rio de Janeiro... Negocio de saias, é de pôr um homem
tonto. Não lhes conto nada, mas uma vez...

Voltou-se o allemão para elle com calma, e, interrompendo-o:

--_Júque_, va ver onde estão burrinhos e não bote sua colher, quando
gente branca está falando com o seu patrão.

E, como o camarada quizesse retorquir:

--Ande, ande, verberou sempre sereno, discussão nunca serviu para nada.

Deu José meia duzia de muchochos abafados e foi embora, praguejando
entre dentes.

Novamente suppoz Meyer dever desculpal-o.

--Bom homem, disse, bom homem ... porem fala terrivelmente!

--Mas agora me conte, perguntou Pereira com ar de quem queria
certificar-se de cousa posta muito em duvida, deveras o senhor anda
_palmeando_ estes sertões para fisgar _anicetos_?

--Pois não, respondeu Meyer com algum enthusiasmo, na minha terra valem
muito dinheiro para estudos, musêos e collecções. Estou viajando por
conta de meu governo, e já mandei bastantes caixas todas cheias... É
muito precioso!

--Ora, vejam só, exclamou Pereira. Quem _havéra_ de dizer que até com
isso se póde _bichar_! Cruz! Um homem destes, um doutor, andar correndo
atraz de vagalumes e voadores do matto, como menino ás voltas com
cigarras! Muito se aprende neste mundo! E quer o senhor saber uma coisa?
Si eu não tivesse familia, era capaz de ir com vosmecê por esses
fundões _afóra_, por que sempre gostei de lidar com pessoas de
qualidade e instrucção... Eu sou assim... Quem me conhece, bem sabe...
Homem de repentes... Vem-me cá uma idéa muito estrambotica ás vezes,
mas embirro e acabou-se; porque, se ha alguem esturrado e teimoso, é
este seu criado... Quando empaco, empaco de uma boa vez... Fosse no
tempo de solteiro, e eu me botava com o senhor a catar toda essa
bicharada dos sertões. Era capaz de ir dar com os ossos lá na sua
terra... Não me olhe pasmado, não... Isso lá eu era... Nem que
tivesse de passar canseiras como ninguem... O caso era metter-se-me a
tenção nos cascos... Dito e feito; acabou-se... Fossem buscar o
remedio onde quizessem ... mas duvido que o achassem.

--Como vae a doente? perguntou distrahidamente Cyrino cortando aquella
catadupa de palavras.

--Ora estou muito contente. Já tomou nova dose, e parece quasi boa.
Está com outra feição. O senhor fez um milagre...

--Abaixo de Deus e da Virgem purissima, concordou Cyrino com toda a
modestia.

--O sr. não cura? perguntou Pereira a Meyer.

--_Nô_ senhor. Sou doutor em philosophia pela universidade de Iena,
onde...

--Isso é nome de bicho? atalhou o mineiro.

--_Nô_ senhor. É uma cidade.

--Ninguem diria... Pois, Snr. Maia, continuou Pereira apontando para
Cyrino, alli está um com quem molestias não brincam.

--Ah! rouquejou o allemão abrindo ainda mais os olhos. Estimo muito
conhecel-o como notabilidade... Nestes lugares aqui é muito raro...

--Se é! exclamou Pereira. Felizmente passou por cá nem de proposito,
para pôr de pé a menina ... uma filha minha... Cahiu-me a talho de
fouce e...

Não pôde Cyrino furtar-se a um movimento de vangloria. Com ar grave
interrompeu:

--Não falle nisso, Sr. Pereira; o caso era simples. Febre das
enchentes ... não vale quasi nada. Vi logo o que era de urgencia: um
simples suador, duas ou tres doses de sulfato de quinina ... e ficou tudo
sanado... É simplicissimo... O estomago não estava sujo ... não havia
necessidade de vomitorio...

Ouvira Meyer estas indicações therapeuticas com os olhos muito fitos
em quem as dava: depois, voltando-se para Pereira disse com um
approbatorio aceno de cabeça:

--_Pom_ medico! _pom_ medico!

Desse momento em deante, votou Cyrino ao allemão a mais decidida
symphatia; e Pereira, presenciando o congraçamento daquelles dois
homens, de si para si illustres e incontestaveis sabichões, sentiu-se
feliz por abrigal-os a um tempo em sua humilde vivenda.

--Então, disse o mineiro voltando á questão das borboletas, com o que
o seu governo paga-lhe bem, não Sr. _Maia_?

--Sufficientemente ... demais, todas as autoridades deste bello paiz
muito me ajudam. Tenho muitos officios ... cartas de recommendação...
Olhe, quer ver? _Juque_, _Juque_! chamou Meyer sem reparar que o criado
ha muito se fora do quarto, dê-me... É verdade, foi levar os burrinhos
á agua... Não faz mal... Mostro-lhe já tudo...

E, procurando entre as cargas uma malinha coberta de panno impermeavel,
abriu-a e tirou um masso de cartas cuidadosamente numeradas com fitas de
diversas côres.

--Isto é para Miranda, em Matto Grosso. Isto para Coxim, Cuyabá ...
para Poconé, Diamantino ... isto são cartas cujos donos não
encontrei, e que hão de voltar para as pessoas que as escreveram.

--E são muitas? perguntou Pereira.

--Tres ou quatro. Vejamos ... uma é para o Sr. João Manuel Quaresma,
no Pitanguy; esta, para o Sr. Martinho dos Santos _Perreira_, em
Piumhy...

--Que é? perguntou o mineiro levantando-se de um pulo e mostrando muita
admiração. Leia outra vez ... leia por favor...

Meyer obedeceu.

--Mas este nome é o meu! exclamou Pereira. Esta carta então é para
mim...

--Hu, hu! gaguejou o allemão boquiaberto. É muito _currioso_ isto!

--Sou eu, sou eu mesmo! continuou o mineiro abrindo os diques á
volubilidade. Está claro, clarissimo!... Quando me escreveram, pensavam
que eu ainda morava lá em Piumhy. Pois, se nunca contei a ninguem em
que _buraqueira_ me vim metter... Abra a carta sem susto... Oh! Senhora
Sant'Anna, que dia hoje! Quem diria? Uma carta! Uma carta nestas
alturas! Póde ler, Sr. _Maia_... Estou doido por saber quem se deu ao
trabalho de me escrever... Martinho dos Santos Pereira, de Piumhy ...
sou eu! Que duvida: não ha dois. Veja só o nome ... pelo amor de Deus,
o nome de quem me _direge_ a carta.

Rompeu o allemão com alguma duvida e escrupulo o selo; correndo com os
olhos a lauda escripta, procurou a assignatura e pausadamente leu
«Francisco dos Santos Pereira».

--Gentes! bradou o mineiro no auge da alegria, meu irmão ... o
Chiquinho!... E eu que o fazia morto e enterrado!... Nosso Senhor o
conserve por muitos annos!... O Chiquinho!... Já se viu coisa
_ansim_?... Como se anda neste mundo, hem, Sr. Cyrino? Quem _havéra_ de
dizer que este homem, que aqui chegou hontem por acaso e alta noite,
havia de trazer na canastra uma carta de um irmão que não vejo ha mais
de quarenta annos?!... Ora esta!... São voltas deste mundo... As pedras
se encontram... Foi em 1819 ... não, em 20... Mas ... depressa leia a
carta ... vamos ver o que me diz o Chiquinho... Da familia passava por
ser o de mais juizo tambem era o mais velho de todos nós... O Roberto o
caçula... Seja o senhor muito bemvindo nesta casa... Depois de tantos
annos, trazer-me noticias da minha gente!

Cortou Meyer aquelle movimento de effusão que promettia ir longe,
começando a ler com todo o vagar ou, melhor, a soletrar a carta, cujos
garranchos, que não letras, por vezes se viu obrigado a encostar aos
olhos para poder decifrar.

«Martinho, dizia a despretenciosa epistola, dirijo-te estas mal
traçadas linhas só para saber da tua saude e dizer que o portador
desta é um senhor de muita leitura e vae para os sertões _brutos_,
viajando e estudando paizes e povos. Veio-me do Rio de Janeiro muito
recommendado. Peço que o agasalhes, não como a um _transuente_
qualquer, mas como se fosse eu em pessoa, teu irmão mais velho e chefe
da nossa familia...»

--Pobre mano! exclamou Pereira meio choroso.

«É homem, continuou Meyer, de bastante criação. Adeus Martinho. Eu
estou estabelecido na Matta do Rio, numa fazendola. Tenho cinco filhos,
tres machos e duas _familias_[66], estas casadas, e que me deram netos;
já faz bastante tempo. Não estou muito quebrado de forças. Ha mais de
oito annos que não tenho noticias tuas. Soube que o Roberto tinha
morrido no _Paranan_...»

--Roberto?!... Coitado do Roberto! atalhou Pereira com voz angustiosa.

E repentinamente, representando-lhe a memoria os tempos da infancia,
arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas.

«Sem mais _aquella_, concluiu Meyer, adeus. Felicidade e saude. Teu
irmão, Francisco dos Santos Pereira».

--Deveras, disse o mineiro depois de breve silencio adeantando-se para o
allemão e apresentando-lhe a dextra aberta, o Sr. me deu um fartão de
alegria. Toque nesta mão e, quando ella se levantar para bulir num só
cabello de sua cabeça ou de alguem da sua familia, qualquer que seja o
aggravo que me possam fazer, seja ella logo cortada por Deus, que nos
está ouvindo.

--Obrigado, Sr. Pereira, respondeu com animação o outro, retribuindo o
aperto de mão e corroborando-o com um concerto de garganta.

--Sim, senhor, continuou o mineiro. Esta carta vale, para mim, mais que
uma letra do Imperador que governa o Brazil. É o que lhe digo, Sr.
_Maia_...

--Meyer, corrigiu o allemão apoiando com força na ultima syllaba,
Meyer.

--Ah! é verdade. É preciso traduzir Meyer, Meyer. Agora já atinei com
a cousa. Mais como ia lhe dizendo, esta casa é sua. Meu irmão, o meu
irmão mais velho deu-me ordem que eu o recebesse como se fosse elle
mesmo em pessoa, o Chico; ... acabou-se. O Sr. é como se fosse dos
meus. Não ha que ver, é o que elle quer. Entendi logo; o mais é ser
muito bronco e, com o favor de Deus, não me tenho nesta conta. O Sr.
ponha e disponha de mim, da minha tulha, das minhas terras, meus
escravos, gado ... tudo o que aqui achar. Parta e reparta... Quem está
falando aqui, não é mais dono de coisa nenhuma; ... é o Sr.... Meu
irmão me escreveu, é escusado pensar que não sei respeitar a vontade
de meus superiores e parentes. É como se recebesse uma ordem do punho
do Sr. D. Pedro II, filho de D. Pedro I, que pinchou os _emboabas_[67]
para fora desta terra do Brazil e levantou o Imperio nos campos do
Ypiranga, lá para os lados de S. Paulo de Piratininga, onde houve em
seu tempo collegio de padres e fradaria _grossa_[68], e d'onde os
_mamalucos_ sahiam para ir por esses mundos fóra bater indios _brabos_
e caçar onças, botando bandeiras até na costa do Paraguay e no salto
do Paraná, tanto assim que deram nas reducções[69] e trouxeram de lá
uma _immundicie_[70] de gente amarrada, por signal que muitos amolaram a
canella em caminho, e só chegaram uns cento e tantos, tão magros
que...

Enfiava Pereira todas estas phrases com suprehendedora rapidez, ao passo
que Meyer o contemplava extatico, á espera que a torrente de palavras
lhe desse tempo e occasião de exprimir algum vocabulo de agradecimento.

Só, porem, minutos depois, e a custo é que elle pronunciou um aspero e
retumbante.

--Obrigado!

E accrescentou em seguida:

--Mas o senhor falla que nem cachoeira. E não cansa?

--Qual! replicou o mineiro com ufania. A gente da minha terra é de seu
natural calada; eu, não; mesmo porque fui criado em povoados de muita
civilidade...

Tomando esse novo thema, começou novamente a discorrer, mostrando
visivel contentamento por achar na estimavel pessoa do Sr. Guilherme
Tembel Meyer um ouvinte de força, incapaz de pestanejar e cuja fixidez
de olhos era prova evidente de que tomava interesse por todos os
assumptos possiveis de conversação.


[Nota 66: Filha.]

[Nota 67: Portuguezes.]

[Nota 68: Em qualidade.]

[Nota 69: _Reducções_ era o nome que tinham as aldeias, formadas pelos
padres Jesuitas no Paraguay. Pelo anno de 1630 subiam a 20 com 70,000
habitantes.]

[Nota 70: Grande quantidade. Montoya, no seu livro--Conquista
Espiritual--conta que 140 _castelhanos_ do Brazil com 1,500 tupys, todos
muito bem armados com escopetas, e em boa ordem militar, entraram pela
povoações e levaram 7,000 prisioneiros, numero evidentemente
exagerado.]



CAPITULO XI

O ALMOÇO


    Comam e bebam; nada de cerimonias
    commigo. Minha casa é franca; eu
    tambem. Façam provisão de alegria e
    de mim disponham sem constrangimento.

    PLAUTO.--_Miles Gloriosus._


Levantou-se de repente Cyrino da marqueza em que se sentara.

--Tenho vontade de amanhã seguir viagem...

--Que, doutor? protestou Pereira, Partir já? isso nunca... Vosmecê
ainda não curou de todo minha filha. Pago-lhe todos os prejuizos da sua
estada aqui ... se fôr preciso.

--Oh! Sr. Pereira, reclamou por seu turno o joven, isso quasi me
offende...

--Desculpe-me, e muito: mas, antes de duas semanas, não o deixo sahir
daqui...

--Porem...

--Doentes não lhe hão de faltar. A minha rancharia vae ser visitada
como se fosse casa de presepe, e o senhor não poderá dar _vasão_ aos
que o vierem procurar. Olhe, hoje mesmo mandei avisar o Coelho, e daqui
a pouco está elle cá, rente como pão quente. Atraz do primeiro, virá
uma chusma dos meus peccados... Então quer deixar _Nocencia_ como ainda
está?...

--Verdade é, balbuciou Cyrino.

--Pois então? Nem pensar nisso é bom. Deixe tudo por minha conta;
vosmecê hade aqui arranjar os seus negocios.

--Já que o senhor o diz... Eu tinha receio de vexal-o. Uma vez que até
cá venham doentes...

--Hão de vir, esteja socegado...

--Ficarei, decidiu Cyrino, quanto tempo for do seu agrado.

--Ora, muito que bem, exclamou Pereira esfregando as mãos com sincera
satisfacção, estou como quero. Quanto ao Sr. _Maia_ ... Meyer, quero
dizer, este ha-de crear raizes nesta casa...

--Isso tambem não: tenho tempo marcado pelo meu governo...

--Bem, bem; mas em todo o caso, fará uma boa temporada comnosco. É
pena que o Manecão não chegue, porque apressavamos o casorio, e
arranjavamos uma festança como nunca se viu nestes matarrões... Mas
estou aqui a dar com a lingua nos dentes, sem pensar que os nossos
estomagos ainda esperam sua _matula_[71]. O almoço não pode tardar; é
um pulo só... Se consentem vou ver lá dentro.

Ao dizer estas palavras saiu da sala voltando pouco depois acompanhado
de Maria, a velha escrava que trazia a toalha da mesa e a competente
cuia de farinha.

--Á mesa! gritou Pereira. Almoço hoje com vosmecês. Sr. Meyer o
senhor comerá d'ora em deante commigo e com a menina, lá no interior
da casa; ouviu?

E, voltou-se para Cyrino.

--Bem sabe, explicou logo, é como se fosse o Chiquinho.

Depois de prompta a mesa, sentaram-se os tres alegremente.

--Olhe, Sr. Meyer, disse o mineiro servindo o allemão, isto é
feijão-cavallo e do melhor. Misture-o com arroz e hervas; deite-lhe uns
salpicos de farinha...

Começou o naturalista a mastigar com a lentidão de um animal
ruminante, interrompendo de vez em quando o moroso exercicio para
exclamar:


[Ilustração: Delicioso com effeito! Muito delicioso.]


--Delicioso, com effeito! Muito delicioso.

Comia Cyrino pouco e em silencio.

--Na Allemanha, observou Meyer contemplando um grão de feijão, a maior
fava não chega a este tamanho. Aqui a fava de lá teria pollegada e
meia pelo menos. Um almoço, assim, havia de custar na Saxonia dois
thalers, ou pelo cambio que deixei no Rio de Janeiro, dois mil e
quinhentos réis...

Interrompeu-o Pereira com gesto comico.

--Dois mil e quinhentos? Ora, que terra essa! Como é que se chama?

--Sac-sonia, respondeu o allemão com gravidade.

--Saco-sonha! exclamou Pereira. Não conheço... Mas, então, lá muita
gente ha-de andar a morrer de fome...

--Pelos ultimos calculos, replicou Meyer com várias pausas durante as
quaes introduzia enormes colheradas da mistura que lhe aconselhara o
amphytrião, é sabido que em Londres morrem no inverno oito pessoas á
mingua, em Berlim cinco, em Vienna quatro, em Pekim doze, em Ieddo sete,
em...

--Salta! atalhou Pereira exultando de prazer, então viva cá o nosso
Brazil! Nelle ninguem se lembra até de ter fome. Quando nada se tenha
que comer, vae-se ao matto, e fura-se mel de jatahy e mandory ou
chupa-se miolo de macaúbeira. Isto é cá por estas bandas; porque nas
cidades, basta estender a mão, logo chovem esmolas... Assim é que
entendo uma terra ... o mais é desgraça e consumição...

--De certo! corroborou o allemão, o Brazil é um paiz muito fertil e
muito rico. Dá café para meio mundo beber e ainda o ha-de dar para
todo o globo, quando tiver mais gente ... mais população...

--Bem eu sempre digo, acudiu Pereira tocando no hombro de Cyrino e
deitando-lhe uns olhos de triumpho. Lá fóra é que nos conhecem, nos
fazem justiça. Não acha patricio? Homem, agora reparo ... vosmecê
está tão calado! ... meio casmurro, que é isso? sempre aquelle
negocio?

De facto, Cyrino, depois que ouvira o convite a Meyer para conviver no
interior da casa de Pereira, tornara-se sombrio, inquieto, meditabundo.
O corpo ali estava, mas a sua imaginação vigiava zelosa o quartinho
onde repousava aquella menina febricitante, tão bella na sua fraqueza e
pallidez enferma.

--Se são mulheres, ponderou Pereira, deixe-se disso: não ha maior
asneira... É fazenda que não falta.

No meio dos exercicios mandibulares, julgou Meyer que o seu hospedeiro
considerava o sexo feminino do ponto de vista meramente estatistico e
acreditou conveniente assentar melhor a idéa, um tanto vagamente
aventada.

--Na raça slava, disse dogmaticamente, a proporção é de duas
mulheres para um homem; na germanica, ha approximadamente numero
equivalente, na latina de dois homens para uma mulher. Na França, a
proporção para o lado masculino é de...

--Mas o senhor contou? interrompeu Pereira. Deixe-lhe dizer uma cousa:
eu cá não engulo araras...

--_Ni_ eu, affirmou Meyer com alguma surpreza e energia, nem sei como o
senhor me vem falar nessas aves agora... Se as considera como caça.
deve saber que os trepadores têm a carne dura, preta e...

Riu-se Pereira do equivoco e, explicando-o continuou a discutir com o
seu interlocutor, que não discrepava uma linha dos seus principios de
methodo e escrupulosa polidez.

--Póde o senhor falar um anno inteiro, disse o mineiro para concluir;
mas quanto a mim, não entendo patavina das suas contas e _gigajogas_.
Quem me tira da taboada, bota-me no matto... E agora, vamos agradecer a
Deus Nosso Senhor Jesus Christo o ter-nos dado esta comida, ainda que
insufficiente e mal temperada.

E, unindo o exemplo á palavra, levantou-se e, de mãos postas ao peito,
orou em voz baixa com uncção, no que foi imitado pelos dois hospedes.

--Esteja comvosco o Senhor, disse ao terminar em voz alta,
persignando-se.

--Amen, responderam Cyrino e Meyer.

--Agora, annunciou o mineiro sahindo da mesa vou dar um giro pela minha
roça, onde estão na capina tres negros _cangueiros_[72] um dos quaes
é o meu _fazendeiro_[73]: depois, hei-de visitar uns conhecidos meus,
avisando os da sua chegada, doutor. Ah! acrescentou todo desfeito em
amavel sorriso, falta-lhe mostrar minha filha, Sr. Meyer.

--Sua filha! exclamou o allemão. Então tem filhos?

--Sim, senhor. Não se lembra que o seu _vulto_[74] é o do mano
Chiquinho? Pois então? Que maior prova lhe posso dar de confiança e
amizade?... Não é verdade, Sr. Cyrino?

--Sem duvida, balbuciou a custo o mancebo.

--Minha filha chama-se _Nocencia_ e só hoje é que se levantou da
cama... Esteve doentinha ... Assim mesmo, não sei se as maleitas a
deixaram... O corpo é ás vezes _caroavel_[75] dessas malditas e...

--Isso está ao meu cuidado, atalhou Cyrino com alguma pressa. Ainda ao
meio dia hade tomar quina...

--Vosmecê faça o que for melhor... Quer vir Snr. Meyer?

--Pois não! pois não! respondeu amavelmente o allemão.

--É a unica pessoa da familia que tenho aqui alem de um _marmanjão_
que está agora na carreira[76]? por essas estradas, agenciando a
vida... Então, vamos! Venha tambem, continuou elle voltando-se para
Cyrino, um cirurgião é quasi de casa.

Sahiram, pois, os tres. Pereira na frente, seguiu o oitão da direita,
e, abrindo uma tranqueira do cercado dos fundos entrou pela cozinha,
onde a velha preta Conga estava lavando pratos e arrumando louça numa
prateleira.


[Nota 71: Matolotagem.]

[Nota 72: Sem prestimo.]

[Nota 73: Fazendeiro, no sertão de Matto-Grosso, é, não o
proprietario das terras, mas o capataz, o feitor.]

[Nota 74: Pessoa.]

[Nota 75: Acostumado, affeito.]

[Nota 76: Trabalho.]



CAPITULO XII

A APRESENTAÇÃO


    Quem, porém, mostrava mais surpresa
    e admiração, era Sancho Pança.
    Nunca, em dias de sua vida, vira perfeição
    egual.

    CERVANTES.--_D. Quixote_, _CXXIX._

    Ao balsamo, fazem as moscas que
    nelle morrem, perder a suavidade do
    perfume. Uma parvoice, ainda que pequena
    e de pouca dura, dá motivo a
    não se ter em conta nem sabedoria
    nem gloria.

    ECCLESIASTES.--X.


Depois de atravessarem um quarto bastante escuro, chegaram os visitantes
á sala de jantar, vasto aposento ladrilhado, mas sem forro, a um canto
do qual estava a filha do mineiro, mais deitada do que sentada numa
especie de canapé de tacuara.

Tinha os pés sobre uma bonita pelle de tamanduá-bandeira, onde se
acocorara, conforme o habito, o anão a quem Pereira chamara Tico.

Ao ver chegar tanta gente, abriu a formosa menina uns grandes olhos de
espanto; quiz toda enleada erguer-se, mas não poude e, corando
ligeiramente, teve como que um deliquio de fraqueza.

Approximara-se logo Cyrino com vivacidade.

--A dona, disse elle para Pereira, está tão fraca que mette dó.

Chegou-se o pae juntamente com Meyer e, tomando as mãos da filha,
perguntou-lhe com voz meiga e inquieta:

--Sente-se peior, meu bemsinho?

--Nhôr-não, respondeu ella.

--Pois então!... É preciso não entregar o corpo á molleza... Abra os
olhos... Olhe... está aqui este homem (e apontou para Meyer) que é
_allamão_ e trouxe uma carta do tio de mecê, o Chico, lá da Matta do
Rio. Quero mostrar que, para mim, vale tanto como se fosse esse proprio
parente tão a nós chegado. Por isso é que venho apresental-o...

Ella nada articulou.

--Vamos, diga... Tenho muito gosto em _lhe_ conhecer ... diga.

Com vagar e acanhamento, repetiu Innocencia estas palavras, ao passo que
Meyer lhe estendia a mão direita, larga como uma barbatana de cetaceo,
e franca como o seu coração.

--Gosto, muito gosto tenho eu, disse elle com tres ou quatro sonoros
arrancos de garganta. Só o que sinto é vel-a doente... Mas o doutor
não nos deixará ficar mal; não é Sr. Cyrino?...

E apoiou esta pergunta com um hen? que ecoou por toda a sala.

--A senhora, respondeu o interpellado, precisaria tomar por alguns dias
um pouco de bom vinho do Porto, em que se puzesse casca de quina do
campo... Mas, onde achar agora vinho? Só na villa de Sant'Anna...

--Vinho? perguntou Meyer.

--Sim.

--Vinho do Porto?

--Melhor ainda.

--Pois tudo se arranja, na minha canastra tenho uma garrafa do _mais
superfino_ e com a maior satisfacção a offereço á filha do meu _pom_
amigo o Sr. Pereira.

--Oh! Sr. Meyer, agradeceu este com effusão, não sabe quanto lhe
fico...

--Qual! não tem obrigação, não, senhor. Além do mais, sua filha é
muito bonita, muito bonita, e parece boa deveras... Ha-de ter umas cores
tão lindas, que eu daria tudo para vel-a com saude...

Que moça!... Muito bella!

Estas palavras que o innocente saxonio pronunciara _ex abundantia
cordis_ produziram extraordinario abalo nas pessoas que as ouviram.

Tornou-se Pereira pallido, franzindo os sobrolhos e olhando de esguelha
para quem tão imprudentemente elogiava assim, cara a cara, a belleza de
sua filha; Innocencia enrubeceu que nem uma romã; Cyrino sentiu um
movimento impetuoso, misturado de extranheza e desespero, e, lá da sua
pelle de tamanduá-bandeira, ergueu-se meio apavorado o anão.

Nem reparou Meyer e com a habitual ingenuidade proseguiu:

--Aqui, no sertão do Brazil, ha o mau costume de esconder as mulheres.
Viajante não sabe de todo se são bonitas, se feias, e nada pode contar
nos livros para o conhecimento dos que lêem. Mas, palavra de honra, Sr.
Pereira, se todas se parecem com esta sua filha, é cousa muito e muito
digna de ser vista e escripta! Eu...

--O senhor não quer retirar-se? interrompeu Pereira com modo aspero.

--Pois não! replicou o allemão.

E como despedida accrescentou, dirigindo-se para Innocencia:

--Chamo-me Guilherme Tembel Meyer, seu humilde criado, e estimo muito
conhecel-a por ser a senhora filha de um amigo meu e prender a gente com
o seu lindo rosto...

Estendeu então a mão, fez um movimento de cabeça, e acompanhou ao
mineiro que já ia sahindo branco de colera concentrada.

--E que me diz o Sr. deste homem? perguntou a Cyrino a meia voz e
puxando-o de parte.

--Reparei muito nos seus modos, respondeu-lhe o outro no mesmo tom.

--Nem sei como me contenha... Estou cego de raiva ... Que presente me
mandou o Chico!... É uma peste, este diabo _melado_[77]... Vê uma
rapariguinha e enche logo as bochechas para lhe dizer meia duzia de
pachuchadas e graçolas... Não está má esta!... É um perdido.
Nada... Isto não me cheira bem: vou ficar de olho nelle...

--Faz muito bem, apoiou Cyrino.

--Vejam só, continuou Pereira retendo o seu interlocutor para deixar
Meyer distanciar-se, em boas me fui eu metter!... Se não fosse a tal
carta do mano o cujo dansava ao som do cacete... Malcriadaço! Uma
mulher que daqui a dois dias está para receber marido... Deus nos livre
que o Manecão o ouvisse... Desancava-o logo, se não o cosesse a
facadas... Vejam só, hen?... Sempre é gente de outras terras... Cruz!
Tambem vi logo ... um latagão bonito ... todo faceiro ... _havéra_ por
força de ser _rufião_[78].

Ouvia-o Cyrino em silencio.

--E mulher, proseguiu o mineiro com raivosa volubilidade, é gente tão
levada da breca, que se lambe toda de gosto com ditinhos e requebros
desta sucia de _embromadores_. Com ellas, digo eu sempre, não ha que
fiar... Má hora me trouxe este allamão ... Mil raios o rachem!... E
logo o Chico... Tenho agora que ficar de alcateia ... metter-me em
_tocaia_[79] e fazer fojos para que a _bracayá_[80] não me entre no
gallinheiro. Ora que tal!

--Tambem, breve se vae elle embora, lembrou Cyrino a modo de consolo.

Que o demo o leve quanto antes, replicou Pereira. Já estou todo
_enfernizado_[81] com o tal homem...

Neste momento, como que de proposito, voltava-se Meyer para os dois:

--Sr. Pereira, disse elle ficarei em sua casa talvez umas duas semanas.
Os burrinhos vão engordar no seu pasto e eu hei-de fazer compridas
viagens nesta sua fazenda, apanhando tudo o que nella encontrar...
Ouviu?

Reprimiu o interpellado um gesto de viva contrariedade e, levado pelo
instincto e dever de hospitalidade, de prompto respondeu, embora
seccamente:

--Fique duas semanas, ou dois mezes ou dois annos. Já lh'o disse: a
casa é sua, e palavra de mineiro não volta atraz. Quem está aqui,
não é o senhor é meu irmão mais velho.

Agarrando então com força na mão de Cyrino, accrescentou em voz surda
e angustiada:

--Olhe, doutor; veja só isto! Que lhe dizia eu?... Ah! meu Meyer, quer
se engraçar commigo, não é? Mas cá fico ... e, uma vez avisado, nem
dois, nem tres me botam poeira nos olhos... Não é com essa! _Nocencia_
nasceu filha de pobre, mas, graças a Maria Santissima, tem ainda pae
com braço forte e muito sangue nas veias para defendel-a dos
garimpeiros e cruzadores de estrada... Elle que não brinque com o
Manecão; é homem de cabellinho na venta e se lhe bota a mão em cima,
esfarela-lhe os ossos, como se fôra veadinho do campo enroscado por
sucury...

Ia comtudo Meyer, de todo ponto alheio ao temporal provocado por suas
inconsideradas palavras; e, sem duvida, estimulado em suas
reminiscencias pela vista da menina que acabava de admirar, cantarolava
entre dentes uma velha valsa allemã, dansada talvez com alguma loura
patricia em epocas remotas e de menos rigorismo scientifico.


[Nota 77: Chamam-se melados os animaes cuja côr é quasi assa.]

[Nota 78: Namorador.]

[Nota 79: Fazer esperas.]

[Nota 80: Gato do matto.]

[Nota 81: Encolerisado, frenetico.]



CAPITULO XIII

DESCONFIANÇAS


    Muitas vezes, somos illudidos pela
    confiança: mas a desconfiança faz que
    sejamos por nós mesmos enganados.

    PRINCIPE DE LIGNE.


Quando o nosso saxonio entrou na sala em que estavam as suas cargas,
vinha tão contente do gasalhado recebido, da firmeza do tempo, das
futuras caçadas de borboletas, que despertou a attenção do seu
camarada José.

Estava este encostado a uma canastra, a esgaravatar, de faca comprida,
em punho a planta dos pés, verificando se alguma pedrinha da estrada
não se havia encrostado na grossa e já insensivel sola.

--Homem, disse elle com familiaridade, _Mochú_ está hoje muito
alegre.... Viu passarinho verde?

--_Passarrinho_ verde? perguntou Meyer. Que é isso? Não vi
_passarrinho_ nenhum... Vi uma moça muito bonita...

--Olé ... melhor ainda... Conte-me isso ... e quem é ella

--É a filha cá do Sr. Pereira.

--Parabens! parabens! exclamou José com toda a indiscrição. Moça
bonita é fructa rara por estas mattarias e brenhas do inferno... Quanto
a mim, ainda não botei o olho senão em velhas _corcorócas_ e
serpentões... Outra coisa é no Rio... Não se lembra, _Mochú_, da
procissão de S. Jorge?... Ahi é que sae á rua uma tafularia de deixar
a gente tonta de uma vez, de queixo cahido. Umas tão alvas!... Outras
cor de café com leite ... fazenda fina ... creoulas chibantes.

--_Júque_, reprehendeu o allemão revestindo-se de ar severo, não tome
confiança com gente que não é da sua classe...

--Mas eu não disse nada de mau, _Mochú_, desculpou-se o criado
recolhendo-se meio enfiado ao silencio e voltando ao exame dos pés.

Quem estava em cima de um brazeiro, era Pereira. Decididamente, aquelle
hospede o punha a perder, proclamando assim com a trombeta da fama que
vira Innocencia e com ella conversara, que a achava do seu gosto ... uma
rapariga já noiva! Quantas incongruencias, que perigos, ó Santos do
Paraiso!

Tornava-se caso de muita prudencia. Qualquer passo menos pensado
acarretaria consequencias irremediaveis.

Necessario é penetrar-se a força dos sentimentos que sobresaltavam o
mineiro, para bem aquilatar os transes por que passava a achar, natural
que seguisse uma linha de proceder toda de duvida e vacillações.

Se, de um lado, creava involuntaria admiração por Meyer e, rodeando-o,
em sua imaginação, do prestigio de uma belleza irresistivel, via
augmentar o seu receio em abrigar tão perigoso seductor; do outro,
sentia as mãos presas pelas obrigações imperiosas da hospitalidade, a
qual, com a recommendação expressa de seu irmão mais velho, assumia
caracter quasi sagrado. Juntem-se a isto os preconceitos sobre o recato
domestico, a responsabilidade de vedar o sanctuario da familia aos olhos
de todos, o amor extremoso á filha, em quem não depositava, comtudo,
como mulher que era, confiança alguma, as supposições logo ideadas
acerca da impressão que naturalmente aquelle estrangeiro produzira no
coração da sua Innocencia, já quasi pertencendo ella a outrem, e as
collisões que previu para manter inabalavel a sua palavra de honra,
palavra dada em dois sentidos agora antagonicos--um mundo emfim de
cogitações e de terrores. E tudo isto revolvendo-se na cabeça de
Pereira, refletia-se com sombrios traços de inquietação em seu rosto
habitualmente tão jovial.

--Por que razão é, perguntou elle a José Pinho para desviar aquella
conversa que tanto o magoava, que vosmecê chama _Mochú_ ao Sr. Meyer?

Sorriu-se o carioca com ar de superioridade e respondeu
desembaraçadamente:

--Ah! É um modo de falar....

--Como assim?...

--Ja lhe ponho tudo em pratos limpos... Vosmecê não lhe chama Sr.?

--Chamo.

--Pois, então?... Eu tambem lhe chamo assim ... mas falo em francez.
_Mochú_ quer dizer senhor, nessa lingua.

--Ah! replicou Pereira dando-se por convencido, então é isso? Pensei
que fosse outra coisa...

--_Júque_, avisou Meyer que estava a remexer nas canastras, prepare
tudo; nós vamos ao matto agora mesmo....

--Venha commigo, propôz o mineiro com voz insinuante. Eu lhe apontarei
lugares onde ha dessa bicharia miuda, coisa nunca vista.

--Com muito gosto concordou o allemão.

E voltando-se para o camarada:

--Ande, _Júque_, ordenou elle, bote a pita para fóra, caixas de folha
de Flandres, chloroformio, rede prompta... Depressa homem, depressa!

José Pinho, instigado por estas palavras, entrou a voltear de um lado
para o outro, como que atarantado com o excesso de serviço.

--Minhas lentes, pediu o naturalista, o sacco para os bichos de casca
grossa.... Depressa.... Vou ajudal-o.

E, por seu turno, começou a tirar das canastras os objectos de que
necessitava, enfiando a tiracollo dois ou tres talabartes finos que
sustentavam umas caixinhas encouradas. Numa dellas, havia um copo de
prata com a competente corrente; noutra, um faqueiro de peças
dobradiças e de metal do principe. Tambem assentou ao flanco uma
frasqueira defendida de choques externos por fino trançado de vime e
que continha aguardente, comprada de fresco na villa de Sant'Anna do
Paranahyba.

Não contente com o peso de todos esses appendices á sua pessoa, cingiu
largo talim com uma especie de patrona de folha de Flandres e que
sustentava um grande facão inglez, um revolver e uma espada de caça.

Depois de ter vagarosamente arranjado sobre si cada uma destas peças
com grande espanto de Pereira e até de Cyrino, substituiu Meyer os
oculos habituaes por outros, de vidros afumados, muito grandes e
convexos, destinados a proteger-lhe amplamente os olhos dos ardores do
sol. Muniu-se, além disso, de outro singular meio de preservação: uma
rodella ampla de panno branco forrado de verde, que augmentava as abas
do chapéu do Chile, descansando em parte sobre ellas.

Com esse trajo ficou de certo a mais estapafurdia figura que algum
christão encontrar poderia naquellas trezentas leguas em derredor;
entretanto, Pereira offendido com aquelles cuidados de prevenção
meramente scientifica, que lá no seu bestunto qualificava de faceirice
feminil:

--Veja só, disse elle para Cyrino, como este _maricas_ gosta de se
enfeitar!... Você não me engana, não, Sr. _alla mão_ das duzias....

Mirava-se nesse momento o naturalista, para verificar se lhe faltava
alguma coisa.

--Estou prompto, exclamou afinal, e muito desejoso de entrar no matto.

--Ponham-te a tinir os carrapatos, resmoneou Pereira.

--Ah! disse Meyer, e as minhas luvas?... _Júque_ procure na canastra
n.° 2, á esquerda, no segundo canto.

Sacou o camarada umas grandes luvas de lã brancas, muito largas, já
usadas e sujas, nas quaes o allemão enfiou de um jacto as mãos
espalmadas.

--Agora, sim? annunciou elle com satisfacção.

E, dando um sonoro e prolongado hum! empunhou a rede de apanhar
borboletas.

Depois, levando um dedo á testa:

--Ah! exclamou, e o vinho! Não me ia esquecendo?... O vinho para sua
filha Sr. Pereira, sua linda filha.

Encolheu o mineiro com furor os hombros e disse em aparte a Cyrino:

--Fez-se de esquecido só para falar na menina.... Veja bem. Este
_calunga_ não me bota areia nos olhos.

E accrescentou alto, recebendo a garrafa que o camarada José Pinho
tirara de uma das canastras:

--Agradeço o seu presente, Sr. Meyer mas se ... lhe faz a menor
falta ... a menina hade curar-se sem isto....

--Não, não, não, não, respondeu o saxonio com uma serie de negativas
que pareciam não dever ter fim.

--Neste mundo, rosnou Pereira mais para si do que para ser ouvido,
ninguem mette prego sem estopa: mas com sertanejos ... não se brinca.

Cyrino tomara a garrafa.

--Isto, affirmou elle, acaba com certeza a cura.

E, esquivando-se de pronunciar o nome e a qualidade da pessoa de quem
estava tratando:

--Ella, hade ter hoje algum appetite e poderá levantar-se um pouco,
pois já tomou o seu caldinho.

--Então, ao meio dia, recommendou Pereira muito baixinho a Cyrino,
vosmecê mande chamar a nossa doente e dê-lhe a mézinha. Ouviu? Já
avisei lá dentro...

Cyrino abanou a cabeça, tomando ar mysterioso.

--Eu por mim estarei de olho vivo no bichão... Parece-me _çuçuarana_
á espreita de veadinhas campeiras... Não terá este vinho algum
feitiço?

Contestou o outro com energia tal possibilidade.

--Eu sei lá, insistiu Pereira. Estes namoradores são capazes de muita
coisa.... Nunca ouviu contar historias de _pirlas_[82] e beberagens ...
hen? diga-me, nunca?

--Socegue, Sr. Pereira, acudiu Cyrino, hei-de examinar o liquido ...
tenho certeza de que não haverá novidade.

--Muito que bem... Então, ao meio dia em ponto ... chame a Maria Conga
ou o Tico. _Nocencia_ hade arrastar-se até cá ... e o doutor lhe dará
a dose...

--Ella sahir já? objectou Cyrino com admiração. Não senhor; em tal
não consinto... Irei dar-lhe o remedio... Não me custa nada...

Pereira ficara meio perplexo.

--Não sei...

E com subita resolução:

--Pois bem, virei da roça ate cá... Se eu não apparecer, então o
senhor dê um pulo e faça-lhe tomar a poção... Quanto a este
_allamão melado_, levo-o para longe e não o trago senão bem tarde e
tão moido do passeio que só ha-de pensar em dormir.

Com Pereira se dava um facto natural e comezinho nas singularidades do
mundo moral.

Á medida que as suspeitas sobre as intenções do innocente Meyer iam
tomando vulto exagerado, nascia illimitada confiança naquelle outro
homem que lhe era tambem desconhecido e que a principio lhe causara
tanta prevenção quanto o segundo.

É que as difficuldades e collisões da vida, quando se aggravam, tão
fundo nos incutem a necessidade do apoio, das sympathias e dos conselhos
de outrem, que qualquer alliado nos serve, embora de muito mais proveito
fora bem pensada reserva e menos confiança em auxiliares de occasião.


[Nota 82: Pilulas.]



CAPITULO XIV

REALIDADE


    Cordelia--Hade o tempo desvendar
    o que hoje esconde a discreta hypocrisia.

    SHAKESPEARE.--_O Rei Lear_, Acto I.


Depois que Cyrino viu sumir-se Pereira com os dois companheiros além do
laranjal da casa, seguindo em direcção á roça por uma vereda
pedregosa e cheia de seixos rolados, nos quaes iam as patas dos animaes
batendo; depois que teve certeza de que ficara só n'aquella vivenda,
entrou em grande agitação.

Ora, passeava pelo quarto rapida e inquietantemente; ora, media-o com
passo lento em muitas direcções; ora emfim, sahia para o terreiro e
alli, com a cabeça descoberta, ficava a olhar attentamente para
diversos lados, abrigando com a mão aberta os olhos, dos vivissimos
raios do sol.

Promettia o dia ser muito calido. Por toda a parte chiavam as estridulas
cigarras, e ao longe se ouvia o metallico cacarejar das seriemas nos
campos.

Ás vezes, encarava Cyrino o sol; depois tapava os olhos deslumbrados e,
tomado de vertigem, voltava para a sala, onde recomeçava os seus
passeios.

Porque, porem não descansava o mancebo?

Entrando familiarmente pela sala dentro, os bacorinhos se haviam
abrigado dos ardores do dia e, deitados debaixo de uns giraus,
resonavam, presa de gostoso somno.

Tudo quando vivia appetecia a sombra e o repouso. Fóra, o sol
reverberava violento em seus fulgores, e as sombras das arvores iam cada
vez mais diminuindo. Até uma egua com o esguio e peludo poldrinho
deixara o distante pasto e viera abrigar-se, à protecção da casa,
junto á qual parara já meio a cochilar.

Á enervadora acção do calor estival, juntavam sua influencia as
monotonas modulações de umas chulas e modinhas, cantadas ao som da
viola de tres cordas pelos camaradas de Cyrino, accommodados no rancho
junto ao paiol de milho.

A tudo entretanto resistia o joven, e com ascendente desassocego
consultava o seu relogio de prata, tirando-o a cada instante do bolso.

Passaram-se segundos, minutos e horas. Afinal soltou elle um suspiro de
allivio:

--Meio dia!... Cuidei que nunca havia de chegar!...

Sahindo todo animado para o terreiro, chamou com voz forte:

--Maria... Ó Maria Conga!...

Ninguem lhe respondeu. Só do lado da cozinha ladraram uns cães.

Depois de esperar algum tempo, rodeou Cyrino toda a casa, como fizera
com Pereira e, encostando-se á cerca que impedia a approximação do
lanço dos fundos, tornou a chamar:

--Ó Maria?!... Maria!... Está dormindo, minha velha?

Vendo que os gritos ficavam sem resposta, saltou então o cercado e foi
caminhando para a porta da cozinha, de vagar porem, e como que a medo.

--Ó Maria?!... Minha tia!... Olá! Ó de casa! chamava elle.

Afinal appareceu não a velha escrava mas o anão Tico que pareceu, com
imperioso movimento de cabeça, indagar a causa daquelle intempestivo
alarma.

--Que é da Maria Conga? perguntou Cyrino chegando-se a elle.

Por meio de moderada gesticulação, mas muito expressivamente, deu Tico
a entender que a preta fora ao corrego lavar roupa.

--E não ha mais ninguem em casa? inquiriu o outro.

Mostrou o anão, com singular expressão de orgulho e despeito, que alli
estava elle e deitou um olhar de colera para o imprudente curioso.

--Bem, replicou Cyrino sorrindo-se, vá você então dizer á sinhá
dona, que já chegou a hora de tomar o remedio. Trago o vinho, e é
preciso quanto antes preparar café.

Desappareceu Tico, fazendo um aceno ao intitulado medico para que
esperasse fóra.

--Ora, exclamou este com aborrecimento e tom de chacota, aqui ao
sol?... Não está má esta!... E que tal o mestre _nanica_?...

Sem mais cerimonia entrou, pois, na casa, penetrando no quarto que
ficava entre a cozinha, theatro da actividade de Maria Conga e a sala de
jantar, onde se dera a apresentação de Meyer a Innocencia.

Dahi a pouco, ouviu passos arrastados e aos seus olhos mostrou-se
Innocencia embrulhada em uma grande manta de algodão de Minas de
variegadas côres e com os longos e formosos cabellos cahidos e puxados
todos para traz. Os grandes e avelludados olhos orlados de fundas
olheiras, e o quebrantamento do semblante, muita fraqueza denunciavam
ainda; entretanto, as setinosas faces como que se apressavam a tomar
côres, a semelhança de rosas impacientes de desabrochar e expandir-se
vivazes e alegres. Ao chegar à porta, não a transpoz; mas
encostando-se á grossa trave que fazia de umbral, alli ficou parada,
indecisa, com o olhar turbado e esquivo.

Ao vel-a, deu Cyrino com timidez alguns passos ao seu encontro; depois,
por seu turno estacou junto a uma cadeira de comprido espaldar, antigo e
solido traste trazido por Pereira da sua casa de Piumhy.

Após longa pausa, em que por vezes se cruzaram incertos os olhares,
perguntou com esforço:

--Então ... minha senhora ... como está?... Sente-se melhor?

--Melhor, obrigada, respondeu Innocencia com voz aflautada e muito
tremula.

--Comeu já alguma coisa?

--Nhôr-sim ... uma aza de frango, mas com ... bastante vontade.

--Sente o corpo abatido?

--A canseira está passando ... hontem muito mais...

A pouco e pouco, fora Cyrino recuperando o sangue frio e se approximando
da moça, que mais se apegou á umbreira, como que a procurar abrigo e
protecção.

De um lado da porta ficou ella; do outro Cyrino, ambos tão enleiados e
cheios de sobresalto que davam razão ás olhadas de espanto com que os
encarava Tico, empertigado bem defronte dos dois em suas encurvadas
perninhas.

--Pois chegou a hora de tomar o remedio...

--Já seu doutor implorou Innocencia.

--Nhã-sim.

--Eu não tenho mais nada...

--É para cortar de uma vez as sezões... Olhe, se ellas voltassem ...
era um grande desgosto para mim...

--Mas é tão mau, objectou ella.

--Não é bom _deveras_ ... mas _bem melhor_ é voltar à saude... Com
um bocadinho de coragem, a gente engole tudo sem muito custo... Já que
lhe amarga tanto ... beberei tambem um pouco...

--Oh! não! protestou Innocencia.

--É para lhe mostrar ... que quero sentir ... o que mecê sente.

Fez-se a menina da cor da pitanga, levantou uns olhos surpresos e voltou
logo o rosto para fugir dos olhares ardentes de Cyrino.

--A mézinha? pediu ella por fim toda commovida.

--Ah! é verdade! exclamou Cyrino. Ande, Tico: vá buscar café á
cozinha. Lave bem um pires ... percebeu?

O anão fitou o moço com altivez e não se mexeu.

--Você é surdo?

--Não, respondeu Innocencia. Tico ás vezes, por manha é que se faz
_ansim_ de mouco.

Voltando-se então para o homunculo, insistiu com voz meiga e carinhosa:

--Vai Tico; é para mim, ouviu?

Transformou-se repentinamente a physionomia do anão. Pairou-lhe nos
labios ineffavel sorriso, meneou a cabeça duas ou tres vezes com a
força de uma affirmação mas, colerico, enrugou a testa e moveu olhos
inquietos e duvidosos.

Innocencia teve que repetir o recado.

--Já lhe disse, Tico: vai buscar o café.

A esta quasi ordem não ousou elle resistir mas sahiu devagarsinho,
voltando-se várias vezes antes de entrar na cozinha, onde muito pouco
se demorou.

Neste entrementes tomara Cyrino o pulso de Innocencia e, sem pensar no
que fazia, quebrando a debil resistencia da menina, cobrira-lhe de
beijos o braço e a mãosinha que havia segurado.

--Meu Deus! balbuciou ella, que é isto?... Olhe ahi vem o Tico.

Recuou então o mancebo e, para melhor disfarçar a commoção
adeantou-se para o anão que vinha trazendo na mão direita uma vasilha
de folha de Flandres, e na outra um pires com colher.

--Muito bem, disse elle, ponha tudo em cima da mesa.

E preparando rapidamente o medicamento, apresentou-o a Innocencia, que
sem hesitação o sorveu todo.

--Deixe-me um pouco, exorou com ternura Cyrino, um pouco só ... Se é
tão mau ... soffra eu tambem.

--Não, respondeu ella com alguma energia, porque _havéra_ de mecê
soffrer?

E, ou por effeito do inexprimivel e desconhecido abalo que experimentara
no estado de debilidade a que chegara, ou por ser aquella a hora em que
costumava a febre salteal-a, o certo é que teve de encostar-se ou
melhor, agarrar-se ao umbral para não cahir a fio comprido no chão.

--Oh! exclamou com angustia Cyrino, a senhora vae desmaiar.

Transpondo então o limiar da porta, tomou nos braços a pallida
donzella, sem reluctancia encostou a desfallecida cabeça ao seu hombro
e, com o hálito offegante, aos poucos lhe foi fazendo voltar ás faces
o precioso sangue.

--Estou melhor, balbuciou ella procurando afastar a cabeça de Cyrino.

--Não faça de forte á toa, acudiu este. Vamos até aquella cadeira.

E, com toda a lentidão e cuidado, foi levando a convalescente até
sental-a, desembaraçando-a depois dos muitos cabellos que, todos
revoltos, lhe haviam invadido o collo e se esparziam sobre o rosto.

--Quanto cabello! exclamou Cyrino meio risonho.

Com muita attenção seguira Tico as peripecias de toda aquella scena.
Ao ver Innocencia perder quasi os sentidos, soltou um grito surdo de
desespero; depois, foi seguindo-a até a cadeira e, ajoelhado deante
della, contemplou-a com inquietação.

Cyrino quiz aproveitar a occasião para um congraçamento.

--Então está com cuidado, Sr. Tico?... Não é nada ... sua ama fica
boa logo... Não é o que você quer?

Ao ouvir esta interpellação, levantou-se o anão e correspondeu ao
sympathico annuncio do moço com um olhar de desprezo e pouco caso, como
que a dizer:

--Não se metta commigo, que não quero graças com você, medico de
arribação!

--Agora, disse Cyrino voltando-se para Innocencia, vae mecê beber dois
goles deste vinho... Verá logo, que _sustancia_ hade sentir dentro do
corpo.

Desarrolhou, então, com a ponta da comprida faca que tirou do cinto, a
garrafa de vinho offerecida por Meyer, e num caneco de louça branca
apresentou á moça um pouco do roborante liquido.

Molhou a doentinha os labios e gratificou o obsequioso mancebo com um
sorriso encantador.

Decididamente lhe agradava aquelle medico: curava do seu corpo enfermo e
entendia-lhe com a alma. Raros homens que não seu pae e Manecão, além
de pretos velhos, tinha até então visto; mas a ella, tão ignorante
das cousas e do mundo, parecia-lhe que ente algum nem de longe poderia
ser comparado em elegancia e belleza a esse que lhe ficava agora em
frente. Depois, que cadeia mysteriosa de sympathia a ia prendendo
aquelle estranho, simples viajante que via hoje, para sem duvida, nunca
mais tornar a vel-o?

Quem sabe, se a meiguice e bondade que lhe dispensava Cyrino não eram a
causa unica, desse sentimento novo, desconhecido, que de chofre nascia
em seu peito, como depois da chuva brota a florsinha do campo?

A muito obriga a gratidão.

Rapidos correram esses pensamentos pela mente de Innocencia, ao passo
que as suas pupillas se iam erguendo até se fixarem em Cyrino,
limpidas, grandes, abertas, como que dando entrada para elle ler claro o
que se lhe passava na alma.

--Sinto-me tão bem disse ella com metal de voz muito suave, tão leve
de corpo, que parece nunca mais hei-de ficar _mofina_.

--Não, não, de certo! exclamou Cyrino, nunca mais. Alem disso, aqui
estou e...

Com a sua chegada, interrompeu Maria Conga, a velha negra, aquelle
começo de dialogo. Vinha da fonte com volumosa trouxa de roupa que
entrou a estender em compridos bambús, assentes horizontalmente sobre
forquilhas fincadas no chão.

Despedindo-se então Cyrino de Innocencia:

--Agora, lhe disse elle risonho e pegando-lhe na mão, socegue um pouco:
depois tome um caldo e ... queira-me bem.

--Gentes! Porque lhe não _havéra_ de querer? perguntou ella com
ingenuidade. Mecê nunca me fez mal...

--Eu, retrucou Cyrino com fogo, fazer-lhe mal? Antes morrer... Sim ...
dona ... da minha alma, eu...

E, sem concluir, disse repentinamente:

--Adeus!

Depois, com passo lento, foi se retirando e passou deante da janella
junto á qual ficara Innocencia sentada.

--Olhe! recommendou elle recostando-se ao peitoril, cuidado com o
sereno...

--Nhor-sim...

--Não beba leite...

--Mecê já disse.

--Coma só carne de sol...

--Já sei...

--Então, adeus ... adeus, menina bonita!

E, a custo, despegou-se daquelle lugar, onde quizera ficar, até que de
velhice lhe fraqueassem as pernas.



CAPITULO XV

HISTORIAS DE MEYER


    Grande felicidade é ter um filho
    prudente e instruido; mas, quanto a
    filhas, é para todo pae carga bem
    pesada.

    MENANDRO.--_Os Primos._


Com a tarde voltaram Meyer, José Pinho e Pereira e, pouco depois
d'elles, tres avelhentados escravos; estes dos trabalhos agricolas,
aquelles de grandes excursões entomologicas.

Vinha o mineiro meio risonho e em altos gritos acordou Cyrino que
deitando-se a dormir, sonhara todo o tempo com a graciosa doente.

--Olá, amigo! olá, doutor! chamou Pereira com voz retumbante, isso é
que é vida, hen? Emquanto nós trabalhamos, eu e o _Mochú_ do José,
você está nessa cama de velludo!...

--É verdade, concordou o moço, apenas os Srs. se foram, estendi as
pernas e até agora enfiei um somno só...

--E o remedio da menina? perguntou Pereira abaixando a voz.

--Ora, Sr., e eu que me esqueci!... Não faz mal... se ella não teve
febre... Ah! espere ... agora me lembro!... Eu lh'o dei ... estou ainda
tonto de somno.

Riu-se Pereira.

--Estes doutores matam a gente, como se fosse cachorro sem dono.... Num
momento lhes passa da cachola se deram ou não mézinhas e venenos a
christãos...

Vendo que Meyer sahira da sala, mudou repentinamente de tom, proseguindo
em voz baixa e muito rapidamente:

--Então, sabe que o tal _allamão_ levou todo o dia, só querendo puxar
conversa sobre a menina?

--Devéras?

--É o que lhe digo... E ... eu com as mãos atadas por aquelle
offerecimento de leval-o a comer lá dentro!... Nada, nem que desconfie
e se arrenegue dos meus modos ... não me pisa em quarto de familia...
Deus te livre!...

Com effeito á hora da ceia, Meyer manifestou surpresa de comer na mesma
sala; não, que tivesse motivo para desejar outro qualquer local; mas,
methodico como era, gravara na mente a promessa de Pereira e, por
delicadeza, suppunha dever lembrar-lhe.

As desculpas que o mineiro apresentou foram arranjadas de momento e
ajudadas victoriosamente por Cyrino, carregando este com a
responsabilidade de haver recommendado á enferma muito socego, quasi
completa solidão.

De modo muito expansivo se manifestou tambem o reconhecimento de
Pereira.

--Estou conhecendo, disse elle em aparte e apertando a mão de Cyrino,
que o doutor é homem serio e com quem se póde contar... Deixe estar ... o
Manecão hade ser amigo seu... Isso hade sel-o... Pessoas de bem
devem conhecer-se e estimar-se... Ora, veja o tal _cujo_ ... que
temivel, hen?...--Não faz mal, hade ter o pago.

Se Pereira se mostrava contrariado e inquieto, muito pelo contrario
parecia o naturalista nadar em mar de rosas.

--Sr. doutor, declarou elle a Cyrino á mesa da ceia, por muitos
motivos, estou em extremo contente com a minha estada aqui... Hoje achei
mais bichinhos curiosos do que em todas as zonas porque tenho andado.

--Vosmecê nem imagina, interrompeu Pereira dirigindo-se para Cyrino, o
que faz este senhor quando está dentro do matto. Ainda hade quebrar o
pescoço n'algum barranco a que se atire, pois caminha com as ventas
para o ar... Não sei como não tem ambos os olhos furados ... não
repara em galhos nem em nada ... só o que quer é agarrar _anicetos_...
Já o avisei umas poucas de vezes; agora, sua alma, sua palma...

Judiciosas eram as advertencias do mineiro e bem cabidas; tanto assim
que numa das tardes seguintes voltou Meyer todo arranhado e com um
gilvaz tão grande, que immediatamente deu nas vistas de Cyrino.

--Que foi isso, Sr. Meyer? perguntou elle com admiração. O Sr. andou
por ahi fora aos trambolhões com alguma onça?

--Oh! não é nada, respondeu fleugmaticamente o allemão.

--E a sua roupa vem suja de barro ... toda rota...

Desatou Pereira a rir.

--Isto são historias deste homem... Bem lhe dizia eu que mais dias
menos dias isso havia de acontecer. Meu amigo não sabe do dictado:...
Fia-te na Virgem e não corras, verás o tombo que levas!... Tambem foi
um dia em que me ri a mais não poder. Tomei um fartão... Imagine
vosmecê que o tal Sr. Meyer, como ja lhe contei, anda pulando dentro da
matta como se fosse veado mateiro... O José Pinho, que é mitrado, vae
sempre pela estrada limpa...

--Preguiçoso, atalhou Meyer a modo de observação.

--Juizo tem elle, proseguiu o mineiro: mas, como ia dizendo cá, o Sr.
com seus arrancos e saltos parece anta disparada. Em apparecendo
bichinho voador, zás trás que darás, lá vae elle logo sem olhar para
os paus, podendo pisar em cobras e espinhos, com aquella rede na mão, e
tanto faz que engalfinha sempre algum animalejo... Hoje fui para a
roça, e o homem furou o matto, emquanto José buscou uma sombrinha e
entrou logo a roncar como um perdido...

--Eu, não Sr., protestou José Pinho que queria ouvir a historia.

--_Vóce_ sim, corroborou Meyer com severidade, preguiçoso!... Ande ...
dê cá a pita.

--Pois bem, continuou Pereira, dahi a duas horas voltou _Mochú_ neste
estado pouco mais ou menos; mas trazia uma caixa cheia de bichos do
matto...

--Oh! perguntou Cyrino, e são bonitos?

--Não ha mais nada, suspirou Meyer com tom dolente, o trabalho ficou
perdido!... Eu tinha apanhado cinco especies novas... Uma queda...

--Deixe-me contar o caso, atalhou Pereira. Oh! eu ri-me ... ri-me...

E, para confirmar a asserção, pôz-se novamente a dar gargalhadas, que
foram acompanhadas por José Pinho e até por Meyer, da parte deste com
menos expansão comtudo.

--Appareceu-me o _Mochú_ muito contente com a sua caixa, como se
tivesse o rei na barriga. Era uma _immundicie_ de besouros, cascudos e
cigarras, que o Sr. nem póde imaginar... Havia de tudo; depois, quando
voltamos da roça, enxergou elle num pau podre um _aniceto_ vermelho e
foi correndo a apanhal-o. Eu bradei-lhe:--Olhe, que ahi tem barranco: a
arvore é podre e oca, e vosmecê rola pelo despenhadeiro, que nem a sua
alma se salva.--Qual! O homem é teimoso, como um cargueiro empacador...
Eu gritava-lhe:--Tome tento, _Mochú_!--Sem attender a nada, começou a
caminhar em cima da _cipoada_ que cobria a boca de um _percipicio_,
fundo como tudo neste mundo... Quando ia botar a mão no tal bicho
encarnado, encostou-se ao pau e ... zás! ... afundou-se, dando um grito
esganiçado que parecia de cotia. Mal teve tempo de agarrar-se aos
cipós e lá ficou entre a vida e a morte, chamando _Júque_,
_Júque_!... Eu quando vi isso, mandei a toda a pressa buscar á roça
uma vara comprida e, se ella não chega logo, o Sr. Meyer e toda a sua
bicharada rolavam de uma vez por aquelles fundões.

--Não, rectificou o allemão, bicho rolou; caixa abriu e tudo lá se
foi no fundão...

--Pois bem, o _Mochú_ segurou-se com unhas e dentes ao páo e nós
puxámos devagarinho, devagarinho, com um medo, um medo!... Maria
Santissima!...

Fazendo breve pausa:

--O mais engraçado ainda não chegou, avisou o mineiro: Ah! vosmecê
vae tomar uma boa _data_[83] de riso. Quando o _Mochú_ ganhou pé em
terra, pôz-se a pular como um cabrito doido, por aqui, por acolá, pulo
e mais pulo, e gritando como se o estivessem esfolando... Estava ... ah!
meus Deus! ... estava cheio de formigas _novatas_![84]

--Sim, exclamou Meyer com desespero, formiga de pau podre! ... _mein
Gott_... Eu rasgo a roupa ... eu pulo ... eu gemo ... fico nú como
quando minha mãe me botou no mundo!... Horrivel... Formiga do diabo!...
Faz calombo em todo o meu corpo... Muita dor!...

Com reiteradas e estrondosas gargalhadas acolheram Pereira, Cyrino e
José Pinho essas energicas imprecações.

--Poderá isso, observou o mineiro, cural-o da mania de não ouvir os
outros que conhecem as coisas.

E voltando-se para Cyrino:

--Verdade é que o corpo delle... Que corpo. Sr. doutor, tão
_arco_! ... ficou todo empolado que foi preciso esfregal-o com folhas
de fumo. Depois, tomou um banho no ribeirão...

--Tudo estava muito bom, observou Meyer, se caixa não abre e atira no
buraco meu trabalho...

--Ora, ficará para amanhã, consolou philosophicamente o camarada.

Pereira, acalmado o frouxo de riso, approximara-se de Cyrino e lhe
falava a meia voz:

--Ah! doutor, tive uma vontade de deixar este _allamão_ sumir-se no
socavão!...

Se não fosse meu hospede, emfim, e recommendado de meu mano, palavra de
honra pinchava-o de uma vez no inferno...

Não sou nenhum _pinoia_[85]...

--Mas porque? indagou Cyrino simulando admiração...

--O Sr. ainda me pergunta?... Porque o homem não me faz senão falar em
_Nocencia_... Outra vez me disse que ella era muito bonita e mil
cousas ... perguntou se estava casada, se não; que era preciso casar as
mulheres para bem dellas... Eu lá sei o que mais?... Isto é um bruto
perdido ... um namorador!...

--Qual, Sr. Pereira!...

--É o que lhe digo!... Por acaso sou cobra de duas cabeças[86] que
não veja?!... Ah! que peso uma filha! Ah! E então uma menina que já
está apalavrada... Isto é uma anarchia[87]! Que diria meu genro, o
Manecão?...

--Não poderá dizer nada, retrucou o moço. E que diga, não faltará
quem queira sua filha...

--Louvado Deus, não de certo! Eu é que não quero que ella ande de
mão em mão... Ou casa com o Dóca ou...

--Ou ... o que? perguntou Cyrino com inquietação mas fingindo pouca
curiosidade.

--Ou mato a quem lhe vier transtornar a cabeça... Commigo ninguem hade
tirar farofa!... E não hei de ter mil cuidados, quando vejo este
_estranja_ estar com suas macaquices a dar no fraco das mulheres?

Por ora, nada fez elle...

Por ora ... só leva a falar na pobre menina, que a Sra. Sant'Anna
guarde de todo o mal!... Podesse eu advinhar e macacos me mordam, se
punha os olhos em cima de _Nocencia_. Nem que viesse com cartas e ordens
do Sr D. Pedro II....

Chamei o José Pinho, proseguiu elle em voz baixa, e dei-lhe uns
toques.--Então, disse-lhe eu, seu amo é o diabo com mulheres hen? Elle
que é muito _ladino_[88] respondeu-me logo.--Nhôr não.--Assumptei a
_embromação_[89],--Qual, você, carioca, tem levado areia nos
olhos.--Eu? ... não é capaz... Então você não tem visto o que faz
seu amo?--Tem sido um santo, retrucou o espertalhão. No Rio, sim--Na
Côrte?--Nhôr-sim, na Côrte. Ia todas as noites a uma casa de bebidas,
assim uma especie de venda de muito luxo e lá estava horas perdidas
petiscando e conversando com senhoras damas, muito bonitas, bem
_limpas_ ... algumas com o pescoço e os braços todos á mostra...

--Contou-lhe isso? atalhou Cyrino com alguma duvida e sobresalto.

--Contou, affirmou Pereira com furor.

Vejam só que homem, hen? É um mequetrefe!... Esta noite e d'ora em
deante, venho dormir nesta sala a ver se elle se mexe da cama. Ah! se eu
pudesse! ... cahia-lhe de _cala-bocca_[90] em cima, que lhe deixava as
costellas em lascas.

Acabavam as imprudentes historias de José Pinho de por a ultima pedra
ao edificio da desconfiança que tão depressa erigira a imaginação
de Pereira em desconceito de Meyer. O que nellas havia de verdade, eram
apenas algumas horas de lazer, consagradas, durante a estada no Rio de
Janeiro, pelo naturalista ao consumo de grandes copazios de cerveja no
café _Stadt Coblenz_, e nas quaes entretivera risonhos, bem que
innocentes colloquios, com pessoas do sexo amavel, frequentadoras
daquelle estabelecimento e de costumes não lá muito rigorosos.


[Nota 83: Porção, quantidade.]

[Nota 84: A dentada dessas formigas é em extremo dolorosa. Provêm
o seu nome, de que novatos são os que se deixam morder por ellas.]

[Nota 85: Homen fraco.]

[Nota 86: É crença popular que umas cobrinhas que vivem dentro
de terra fofa tem duas cabeças e não tem olhos.]

[Nota 87: Desmoralisação.]

[Nota 88: Qualificativo muito usado em todo o interior do Brasil.]

[Nota 89: A mentira, o engano.]

[Nota 90: Em Minas assim chamam um cacete curto e grosso.]



CAPITULO XVI

O EMPALAMADO


    Ao homem não faltam importunações;
    quanto à vossa capacidade,
    nem a conhecemos.

    MOLIÈRE.--_O medico á força._


Conforme o promettido, trouxe Pereira a rede para a sala dos hospedes e,
encetando um modo de vigilancia muito especial, ainda que perfeitamente
inutil em relação á pessoa suspeitada, associou os sonoros roncos do
valente peito á ruidosa respiração de Meyer.

Se, comtudo não tivessem seus olhos a venda da confiança ou, melhor,
se o somno não os acommettesse sempre com tamanha imposição, de certo
em breve houvera estranhado a cruel agitação em que vivia Cyrino e que
este não podia mais encobrir.

Na verdade, o modo porque o infeliz mancebo passava as noites era de
fazer nascer suspeitas no espirito mais indifferente e desprevenido. Ou
se revolvia na cama, dando mal abafados suspiros, ou então sahia para o
terreiro, onde se punha a passear e a fumar cigarros de palha uns após
outros, até que os gallos, alcandorados na cumieira da casa e nas
arvores mais proximas, annunciassem as primeiras barras do dia.

Desabrida paixão enchia o peito daquelle malsinado; dessas paixões
repentinas, explosivas, irresistiveis, que se apoderam de uma alma, a
enleiam por toda a parte, a prendem de mil modos, a suffocam como as
serpentes de Neptuno a Laocoonte. Conhecedor, como era, dos habitos do
sertão, do jugo absoluto dos preconceitos, do respeito fatal á palavra
dada, antevia tantas difficuldades, tamanhos obstaculos deante de si,
que, se de um lado desanimava, do outro mais sentia revoltado o nascente
e já tão violento affecto.

--Deus me ajudará, pensava comsigo mesmo: o que só quero é a amizade de
Innocencia... Ha dias que não a vejo ... se não puder mais vel-a ... dou
cabo da vida...

Sublevava-se o seu coração, gyrava-lhe o sangue com vertiginosa
rapidez nas veias e vinha toldar-lhe a vista, trazendo ondas de rubro
calor ao descorado rosto.

--Nossa Senhora da Abbadia, implorava elle puxando os cabellos com
desespero, valei-me neste apuro em que me acho! Dae-me pelo menos
esperanças de que aquella menina poderá um dia querer-me bem... Nada
mais desejo... Possa o fogo que me consome abrazar tambem o seu peito...

Costumava a fervorosa prece dirigida á Santa da especial devoção de
toda a provincia de Goyaz acalmar um pouco o mancebo, que alquebrado de
forças pegava no somno para, instantes depois, acordar sobresaltado e
cada vez mais abatido.

Tambem estava sempre de pé, quando Pereira costumava saltar da rede.

--Oh! observou elle da primeira vez, isso é que se chama madrugar.

--Pois é contra o meu costume, replicou Cyrino, todas estas noites
tenho passado mal...

--Na verdade vosmecê não está com boa cara...

--Creio que me entraram no corpo as maleitas.

--Essa é que é boa! Então o doutor foi _emprestar_[91] da doente a
molestia?...

Olhe, é preciso pôr-se forte, porque hoje mesmo ha-de lhe chegar uma
boa _machina_ de doentes...

--Melhor...

--Já está tudo espalhado por ahi da sua chegada e a romaria não ha de
tardar.

--Cá a espero...

--Naturalmente virá primeiro o Coelho... É boa occasião de pagar a
sua divida... Não tenha receio de puxar mais no preço...

--Daqui mesmo pretendo despachar um proprio para me ver livre dessa
obrigação...

--Isso mostra que o Sr. é pessoa de brio... Não é como certa gente
que conheço...

Ao dizer estas palavras, voltara-se Pereira para Meyer a contemplal-o
attentamente.

Estava na verdade o allemão digno de exame, posto ainda de parte outro
qualquer motivo que não o de simples curiosidade.

Dormia com as pernas e braços abertos e cahidos para fóra do estreito
leito das canastras: tinha o queixo muito levantado pela posição
incommoda da cabeça, deixando a boca meio aberta ver uma fieira de
magnificos dentes.

--Está roncando, hen? murmurou o mineiro. _Cavouqueiro_ ... a mim você
não engana ... mas é o mesmo!

Iam as prevenções de Pereira tomando proporções de idéa fixa, e
Meyer, na simplicidade da ignorancia, como que de proposito ministrava
elementos para que ellas mais e mais se fossem arraigando.

Assim, ao almoço, lembrou-se de perguntar entre duas enormes colheradas
de feijão:

--Sua filha, Sr. Pereira? Como vae? _É_ melhor?

--_É_ melhor o que, _Mochú_? exclamou o pae com modo esquivo.

--A saude della _é_ melhor?

--Está melhor; está, está, respondeu Pereira muito seccamente. Está
boa ... vae fazer uma viagem...

--Viagem; para onde?... Até á villa?

--Homem, _Mochú_, observou o mineiro um tanto desabrido, vosmecê está
que nem mulher velha, tudo quer saber...

Meyer, nessa reprehensão que lhe causou vexame e alguma admiração,
só enxergou censura justa à sua curiosidade, falta que confessou com
toda a nobreza, bem que aggravando a situação.

--É verdade, Sr. Pereira, concordou elle. A boa educação não manda o
que eu fiz ... mereço porém desculpa, mereço... Sua filha é tão
interessante ... que me lembro sempre della... Tenho commigo uns
presentesinhos...

--Guarde-os, rosnou Pereira abafando a reflexão num accesso de tosse.

E para evitar o proseguimento de semelhante assumpto, deu por finda a
refeição, levantando-se da mesa.

--Ahi vem o Coelho, doutor, exclamou elle olhando para fóra. Chi! como
esta amarello!... Ha tempos que o não via ... já parece alma do outro
mundo... É do tal em quem falamos... Aperte-o, porque é _mofino_ como
tudo...

E, interpellando a quem chegava gritou:

--Bons olhos o vejam!... Se não fosse, amigo Sr. Coelho, ter medico em
casa, nunca _havéra_ de vel-o por cá; não é verdade?

--Ora, respondeu o outro com um gemido, ando sempre tão doente. Nem faz
gosto viver assim... Mas qu'é delle, o homem?

--Está aqui...

--Já me disseram que faz milagres. Deixou nome para lá das
Parnahybas...

Sabia?

--Lá que tivesse deixado nome, não; mas que é _cirurgião_ de
patente, tenho certeza, porque, num abrir e fechar de olhos, me pôz de
pé uma pessoa cá de casa.

--Se elle me curar ... não sei mesmo como lhe agradecer.

--É pagar-lhe, concluiu Pereira tratando logo de advogar os interesses
do hospede.

--Sim, hei-de ... pagar-lhe, confirmou o outro com alguma hesitação.

--Em todo o caso, desça do animal.

Pouco depois, entrava na sala e comprimentava a Cyrino e a Meyer a
pessoa a quem o mineiro chamara Coelho. Era homem já de edade, muito
mais quebrantado por enfermidades que pelos annos; tinha a testa
enrugada, as bochechas meio inchadas e balofas, os labios quasi brancos
e os olhos empapuçados.

--Qual dos senhores é o doutor? perguntou elle.

--Sou eu, respondeu Cyrino revestindo-se de convicto ar de importancia,
emquanto Meyer apontava para elle, cedendo direitos que talvez pudesse
contestar.

Interveio Pereira com amabilidade:

--Sente-se, Sr. Coelho, sente-se. Não se ponha logo a falar de
molestias... Isto não vae de afogadilho... Descance um pouco... Olhe,
já almoçou?

--O pouco que como, retrucou o outro, já está comido.

--Pois bem, ponha-se primeiro a gosto: depois então, converse com o
doutor... Diga-me: que ha de novo pela villa?

--Que eu saiba, nada.... Tambem ha mais de anno, que de lá nenhuma
noticia tenho... Já não se me dá do que vae pelo mundo... Quem não
goza saúde, perde o gosto de tudo... É mesmo uma calamidade...

Emquanto Coelho, em toada monotona, desfiava outras queixas no mesmo
sentido, tirara Cyrino da canastra o seu Chernoviz e algumas hervas
seccas que depoz em cima da mesa.

--O senhor, declarou elle voltando-se para o doente, está empalamado.

--É verdade, Sr. doutor.

--Eu, que não sou physico, observou Pereira, diria logo isso...

--Chi, compadre! atalhou Coelho com impaciencia e pedindo silencio.

--O senhor, continuou Cyrino com entono, teve maleitas muitos annos
_afios_[92] depois, começou a sentir fastio e o estomago embrulhado;
inchou todo e em seguida definhou... Aos poucos, foi perdendo a
sustancia e o _talento_[93].

--Tal qual! murmurou Coelho seguindo com cautelosa attenção a marcha
do diagnostico.

--Agora, o Sr. não póde comer que não sinta affrontação, não é?

--Muita, Snr. doutor.

--Este homem, disse Pereira para Meyer, leu bastante nos livros....

--Veio-lhe depois uma canseira, e, quando o Sr. anda, dão-lhe uns
suores e tremuras por todo o corpo... O baço está engorgitado e o
figado tambem... De noite fica o Sr. sem poder tomar respiração, mais
sentado que deitado... Ás vezes tosse muito, uma tosse sem escarrar,
como quem tem um pigarro secco...

--Tal qual! repetiu o enfermo com uncção e quasi enthusiasmo.

--Pois bem, terminou Cyrino, como já lhe disse, o Sr. está
_empalamado_.

--E não ha cura? perguntou Coelho meio duvidoso.

--Ha, mas o remedio é forte.

--Comtanto que faça bem...

--Muita gente, replicou Cyrino, tenho já curado em estado peior que o
Sr.; mas, repito, o remedio é violento...

--Tomarei tudo, affirmou Coelho: ha annos que faço um horror de
mézinhas e de nenhuma dellas tiro proveito. Vamos ver.

Cyrino neste ponto mudou o tom de voz e olhando para Pereira:

--O Sr. sabe, observou elle que o meu modo de vida é este...

Com um movimento de cabeça applaudiu o mineiro aquella estrada em
materia.

O mesmo não pensou Coelho, que tartamudeou:

--Ah!... Estou prompto... Sou pobre muito pobre...

Piscou Pereira um olho com malicia.

--Costumo, continuou Cyrino, receber o pagamento em duas _ametades_...

Depois accrescentou, um tanto vexado:

Si falo nisto agora com esta pressa, é porque tambem tenho precisão
urgente de dinheiro... Não acha, Sr. Meyer?

--Pois não, pois não, concordou o allemão: tem todo o direito.

--Meu amigo, corroborou Pereira, o doutor não trabalha para o bispo;
tem que ganhar honradamente a vida.

--Então como lhe dizia, proseguiu o outro dirigindo-se para Coelho, o
senhor pagar-me-ha no principio da applicação e no fim. Assim, não ha
enganos... Serve-lhe?

--Que remedio! suspirou Coelho. Eu lhe darei ... até trinta mil
réis ... ou ... quarenta...

--Qual! retorquiu Cyrino. O meu preço é um só.

--E a quanto monta?

--A cem mil réis[94].

--Cem _mim_ réis! exclamou Coelho aterrado.

--Cincoenta no principio, cincoenta no fim.

Gemeu o doente lá comsigo.

--Ora o que é isto para você, compadre? interveio Pereira. Um atilho
de milho para quem tem tulhas cheias a valer[95]!...

--Nem tanto, nem tanto assim, objectou Coelho.

--Deixe-se de historias, continuou Pereira. Se vosmecê não tivesse
bons patacos, eu diria logo ao nosso amigo:--Olhe que este é dos
nossos, não tem onde cair morto--e elle o _havéra_ de curar de
graça ... não é?

--De certo, de certo, declarou Cyrino com muita promptidão.

--Mas com vosmecê o caso é _defronte_[96]. Doutra maneira, por que
razão havia um cirurgião de andar por estes _socavões_? Tambem quer
_bichar_ um pouco... É muito justo...

--Cincoenta ... mil ... réis balbuciava Coelho; assim de pancada...

--Se o medico o cura, disse Meyer intromettendo-se, é negocio da China.

Nada dizia Cyrino por dignidade propria. Estava folheando o Chernoviz,
cujas paginas mostravam continuo manusear, algumas até enriquecidas de
notas e observações á margem.

Assim no artigo _oppilação_ ou _hypoemia intertropical_ havia elle
escripto ao lado: «É o que se chama no sertão _molestia de
empalamado_.» E, no fim, abrira grande chave para encerrar esta ousada
e peremptoria sentença: «Todos estes remedios de nada servem. Sei de
um muito violento, mas seguro. Foi-me, ha annos, ensinado por Mathias
Pedroso, curandeiro da villa do Prata, no sertão da Farinha Podre,
velho de muita pratica e que conhecia todas as raizes e hervas do
campo.»

--Pois bem, disse Coelho depois de grande hesitação, está o negocio
fechado. Mas, olhe que entrará no pagamento o preço das mézinhas, e
as visitas hão de ser feitas em minha casa...

--Não ha duvida, concordou Cyrino; irei á sua fazenda todos os dias...
Não é longe daqui?

--Nhôr-não ... duas leguas pequenas, pela estrada.

--Bem. O senhor, em voltando á casa, metta-se logo na cama.

Coelho fez signal que sim.

--Amanhã, continuou o moço, deve tomar estes pós que lhe estou
mostrando. Divida isto em duas porções; hade fazer-lhe muito effeito;
depois descanse dois ou tres dias, se acaso se sentir muito fraco; em
seguida...

E parando de repente, encarou Coelho alguns instantes:

--O Senhor quer mesmo curar-se?

--Oh! se quero!

--E tem confiança em mim!

--Abaixo de Deus só mecê póde salvar-me.

--Então, tomará ás cegas o que eu lhe receitar?

--Até carvão em braza.

--Olhe bem o que diz... Não gosto de começar a tratar para depois
parar...

--Não tenha esse medo commigo... Viver como vivo, antes morrer...

--Então, continuou Cyrino com pausa, acabados os dias de socego, hade o
senhor engulir uma boa _data_ de leite de jaracatiá.

--_Jaracatiá_?! exclamaram com assombro o doente e Pereira.

--_Jarracatiá_?! gaguejou por seu turno Meyer arregalando os olhos, que
é _Jarracatiá_?

--Mas isso vae queimar as tripas do homem, observou o mineiro.

Cyrino replicou um tanto offendido:

--Não sou nenhum creançola, Sr. Pereira. Sei bem o que estou dizendo.
Este remedio é segredo meu, muito forte, muito damninho; mas não é
nem uma, nem duas vezes, que com elle tenho curado _empalamados_. A
coisa está no modo de dar o leite e na quantidade: por isso, é que
não faço mysterio, avisando comtudo que com uma porçãosinha mais do
que o preciso, o doente está na cova...

--Salta! atalhou Pereira, tal mézinha não quero eu ... antes ficar
_empalamado_...

--Que é _jarracatiá_? tornou a perguntar Meyer.

Coelho abaixou a cabeça e parecia estar reflectindo na resolução que
havia de abraçar.

Depois, com voz melancolica:

--O dito, dito, declarou, aceito tudo o que vosmecê me der. Agora,
quanto fizer está bem feito... Como é que devo tomar o jaracatiá?

--Em tempo lhe direi, replicou Cyrino. Fazem-se tres cortes no pé da
arvore e deixa-se correr o primeiro leite: eu mesmo hei de recolher o
que for bom. Tenha toda a confiança em que o senhor ficará são... Bem
sabe, ninguem em negocio de doença, mais do que outro qualquer, póde
nunca dizer: isto hade ser assim ou _assado_... Todos estamos nas mãos
de Deus. Só Elle póde saber se a molestia nos sahirá do corpo ou nos
hade atirar á sepultura. Todo o bom christão conhece isso e deve
conformar-se com a vontade divina... O que o medico faz é ajudar a
natureza e dar a mão ao corpo quando elle póde ainda levantar-se...

--Justo, justo! apoiou Meyer, então todo empenhado em picar um formoso
coleoptero.

--Assim tambem é que eu entendo disse o mineiro.

--Mas, o que é _jarracatiá_, Sr. Pereira? insistiu o allemão.

Voltou-se o interpellado com impaciencia:

--É uma arvore, Sr. Meyer, arvore grande de folhas cortadas, que dá
umas especies de mamõesinhos. Deitam leite muito grosso e queimão os
beiços quando a gente não tem cuidado. É uma arvore ouviu? Uma
arvore[97]!

--Ah! exclamou o allemão concertando a garganta.

Nesta occasião sacou Cyrino da canastra outros remedios e passou-os a
Coelho, dando-lhe minuciosas informações sobre o modo por que havia de
usar delles.

--Tem muito enjoo, quando come? perguntou o curandeiro.

--Muito Sr. doutor.

--Assim é, mas deixe estar; depois do leite de jaracatiá, volta-lhe a
appetencia. Nos primeiros tempos, o senhor só hade beber claras de ovos
bem batidas. Depois, irá a pouco e pouco tomando mais alimento.

--Deus o ouça...

Levantou-se Pereira e, chegando-se á porta, annunciou:

--Ahi vem gente... Estou ouvindo passos de animal montado... Sem duvida
é algum pobre _engorovinhado_ de doença. Isto de molestias, não
faltam no mundo. Tambem ha tanta maldade, que não poderá ser por
menos.

Depois de ligeira pausa, acrescentou em tom de surpresa e aborrecimento.

--Hi! meu Deus!... Nossa Senhora nos soccorra... Sabem quem vem
chegando?... É o Garcia; está com o _mal_[98]?! ha mais de dois annos
e não quer crer na desgraça... Pobre coitado, sem duvida vem comprar o
desengano... Tenho muita pena dessa gente ... mas, devéras, não a
quero ver em minha casa... Vamos, Sr. doutor, despache o Garcia
depressa. Com lazaros não se brinca. A Senhora Sant'Anna de tal nos
livre! Nem olhar é bom.

E, Pereira, voltando-se para dentro, pediu apressadamente:

--Não deixe o homem _desapear_, doutor: ficava-me depois o desgosto de
ter que lhe fazer alguma mácreação. Pelo amor de Deus, vá lá
fóra... Veja o que elle quer ... e dê-lhe boas tardes da nossa
parte... Olhe, está chamando... Saia, doutor saia!

Ouvia-se, com effeito, uma voz perguntar se estava em casa o Sr.
Pereira.

Este vendo que Cyrino não se apressava á medida dos seus desejos, ou
temendo que o recem-chegado lhe entrasse na sala, sem demora appareceu
á soleira da porta e, com manifesta sequidão, respondeu ao humilde
comprimento de chapéu e á meiga saudação que lhe era dirigida.


[Nota 91: Emprestar de alguem, por tomar emprestado ou pedir emprestado,
é locução muito corrente em todo o sertão de S. Paulo, Minas Geraes
e Matto Grosso. É legitimo gallicismo, que corresponde exactamente ao
verbo _emprunter_.

Recordo-me da admiração com que ouvi uma pessoa da villa de Miranda,
aliás de alguma leitura, dizer-me. Venho ter com o Sr. para lhe
emprestar 20$000.--Mas não preciso, retorqui-lhe.--Não; quem precisa
sou eu. Eu empresto do Sr.--Ah! o Sr. vem pedir-me 20$000, não
é?--Pois foi o que eu lhe disse desde o principio.--Não querendo
encetar uma discussão philologica, saquei do bolso o dinheiro pedido, o
qual, para fazer justiça a quem _emprestava_, foi pontualmente pago no
prazo promettido.]

[Nota 92: Emprega-se, ás vezes, no sertão em lugar de a fio.]

[Nota 93: Como já dissemos, talento é empregado como synonimo de
força physica, robustez.]

[Nota 94: É o preço por que um curandeiro queria curar um empalamado,
por cuja fazendola passámos em Julho de 1867, nesse mesmo sertão de
Sant'Anna.]

[Nota 95: Corresponde ao dito popular no Rio Grande do Sul: Que é um
boi para quem tem uma estancia?]

[Nota 96: Differente.]

[Nota 97: A receita do leite de jaracatiá para a cura de hypoemia
intertropical é veridico e causou-nos grande admiração, quando a
ouvimos aconselhada por um medico do sertão.

Pareceu-nos tão absurda e violenta, que dissuadimos a pessoa que devia,
conforme a sua resolução, pol-a em pratica dahi a dias. Entretanto, um
profissional abalisado a quem contamos o caso, declarou-nos que fôra de
proveitosa applicação naquella molestia.]

[Nota 98: Mal de S. Lazaro; lepra.]



CAPITULO XVII

O MORPHETICO


    O leproso.--Interesse?! Ah! nunca
    inspirei senão compaixão....

    O militar.--Quão feliz fora eu, se
    pudesse dar-vos algum consolo!....

    XAVIER DE MAISTRE.--_O leproso de Aosta._

    Não devo ter sociedade senão commigo
    mesmo; nenhum amigo, senão Deus.
    Generoso estrangeiro, adeus, sê feliz.

    Adeus para sempre!....

    _IDEM._


A pessoa que chegára, bem que tivesse descavalgado, não se adeantou ao
encontro do dono da casa. Pelo contrario como que recuou, conservando-se
depois immovel, encostado a um burrinho, cujas redeas segurava.

De seu lugar perguntou-lhe Pereira com expressão não muito
prazenteira:

--Então, como vae, Sr. Garcia?

--Como hei de ir, respondeu o interpellado. Mal ... ou, melhor, como
sempre.

--Pois esteja na certeza de que muito sinto.

--Está ahi o cirurgião? indagou Garcia.

--Não tarda a vir vel-o ahi fóra... Olhe, é um instantesinho.

Palavras tão crueis não pareceram fazer mossa no desgraçado.

--Esperal-o-hei com toda a paciencia, replicou melancolico.

--Já sei que volta hoje para casa, affirmou Pereira.

--Volto. Se a noite me pegar em caminho, ficarei no pouso das Perdizes.

--É verdade: lá ha uma tapera. Mas o Sr. não tem medo de almas do
outro mundo? Dizem que o tal rancho velho é mal assombrado.

--Eu?! exclamou o infeliz. Só tenho medo de mim mesmo. Quizesse um
defunto vir gracejar um pouco commigo, e de agradecido lhe beijava os
dedos roidos dos bichos. Olhe, Sr. Pereira, continuou com voz um tanto
alta e agoniada, não levo a mal o senhor não me convidar para entrar
em sua casa; não, no seu caso, havia de fazer o mesmo.

--Oh! Sr. Garcia! quiz protestar Pereira.

--Nada;... digo-lhe isto do coração... Na minha familia, sempre
tivemos nojo de lazaros... Sou o primeiro... O Sr. nem imagina... Vivi
muitos annos meio desconfiado... A ninguem contei o caso... De repente,
arrebentou o _mal_ fóra. Já não era mais possivel enganar nem a um
cégo... Ah! meu Deus, quanto tenho soffrido!...

--Permitta Elle, interrompeu Pereira em tom compassivo, que este doutor
tenha algum remedio... Bem vê ... ás vezes...

--Curar a morphéa?! replicou Garcia com sorriso pungente de sarcasmo.
Não ha esse _pintado_ ... que em tal pense...

--Então para que quer ver o medico?

--Só para uma coisa... Saber pelos livros que elle tem lido e pelo
conhecimento das molestias, se isto pega... É só o que quero... Porque
então fujo de minha casa... Desappareço desta terra ... e vou-me
arrastando até tombar nalgum canto por ahi... Dizem uns que pega ...
outros que não ... que é só do sangue... Eu não sei.

E, abanando tristemente a cabeça, apoiou-se ao tosco sellim.

Depois, ergueu os olhos para os céus, e exclamou:

--Cumpra-se tudo quanto Deus Nosso Senhor Jesus-Christo houver
determinado!... Se o medico me desenganar, não quero que a minha gente
fique toda ... marcada... Irei para S. Paulo...

Pereira cortou este doloroso dialogo:

--Está bem, patricio Garcia, disse, vou já mandar-lhe o homem ...
espere um pouco...

E, entrando, reiterou o pedido a Cyrino, que se demorara a receitar a
Coelho umas beberagens de _velame_ e _pés de perdiz_, plantas muito
abundantes naquellas paragens, de grandes virtudes diureticas e que
deveriam ser empregadas um mez depois da applicação do leite de
jaracatiá.

--Ande, doutor, instou Pereira, vá lá fóra ver o coitado do outro e
despache-me depressa. Estou todo _enfernizado_ por vel-o no meu
terreiro.

Cyrino sahiu então e, caminhando com lentidão, parou a alguns passos
do malaventurado Garcia, cujo rosto repentinamente se contrahiu emquanto
tirava o chapéo com submissão e receio.

Vinha então a tarde descendo, e a luz do crepusculo irradiava por toda
a parte, tão melancolica e suave que, sem saber por que, a alma de
Cyrino de repente se confrangeu.

Com assombro o encarava o lazaro. Deante delle se erguera quem lhe ia
apontar o caminho da eterna proscripção. Dos seus labios ia cahir a
sentença ultima, irremediavel, fatal!

Quanta angustia no olhar daquelle homem! Que pensamentos sinistros!
Quanta dor!

Tambem ficara alli attonito, boquiaberto, á espera que a palavra de
Cyrino lhe quebrasse o horroroso enleio.

--Então, disse este depois de breve pausa, que me quer o senhor?

--Doutor, balbuciou Garcia ... primeiro que tudo
quero ... pagar-lhe; ... trouxe algum ... dinheiro ... mas,
talvez ... seja ... pouco.

Interrompeu-o Cyrino:

--Não recebo dinheiro para tratar ... da sua molestia.

--Quer isto dizer, replicou com acabrunhamento Garcia, que ella não tem
cura... Eu bem sabia, mas ... é tão duro ouvir sempre isso!... Olhe, o
meu mal é de pouco ... está em principio. Quem sabe ... se o Sr. não
conhecerá alguma herva?...

--Infelizmente, respondeu Cyrino, nem eu, nem ninguem conhece essa
planta...

--Emfim!

E Garcia, fechando os olhos como que para concentrar as forças,
continuou:

--Ah! doutor, eu sou um pobre homem ... velho já cansado... Porque não
me veio a morte em lugar desta podridão que me está comendo as
carnes?... Muito tempo a senti dentro de mim... Disfarcei, disfarcei,
até ao dia em que minha neta ... a filha do meu coração ... a
Jacyntha ... ella mesma, mostrou certo receio de me abraçar... Ah!
senhor, quanto se soffre nesta vida!

E Garcia parou offegante, empallidecendo muito.

--Dê-me agua, exclamou elle, agua ... pelo amor de Deus!... Pudesse
agora ... ser o meu dia. A minha garganta ... está que nem fogo!...

E agarrou-se aos arreios para não cahir no chão.

Cyrino correu a buscar agua.

--Onde hade ser? perguntou Pereira.

--Onde queira, respondeu o outro com pressa, veja que aquelle christão
está soffrendo...

--Ah! leve a caneca de louça... Depois a quebraremos...

Com sofreguidão tomou o lazaro o vaso, bebeu de um trago e pareceu
melhorar.

--Foi um vágado, disse reassumindo aos poucos a calma. Mas, como lhe
contava, certeza tinha eu do mal. Agora, só quero saber uma coisa e
vou-me de partida. Este mal ... pega, doutor?

--Pega, affirmou Cyrino com tristeza.

--E que me resta fazer?

--Pedir á Senhora Sant'Anna paciencia e a Nosso Senhor Jesus-Christo...

Garcia abanava a cabeça acabrunhado.

... que o proteja na sua vida de desgraças.

--Meu Deus, balbuciou o morphetico a meia voz, dae-me forças ...
coragem para que eu faça o que devo fazer.

E, com subita resolução:

--Cumpra-se a vontade do Altissimo! exclamou emfim. Doutor, obrigado! O
pobre lazaro hade pedir ao Todo Poderoso que neste mundo e no outro lhe
pague as suas palavras de homem de letras... Adeus! Eu me vou para as
terras de S. Paulo ... talvez me junte á gente da minha especie.
Adeus...

E, a custo montando a cavallo, voltou-se para as pessoas que tinham de
longe vindo assistir á consulta.

--Adeus, disse elle acenando com o chapéu, gente e patricios. Senhor
Pereira, Sr. Coelho, mais senhores, adeus! Eu me _bóto_ de uma feita
para _lá_ das _Parnahybas_[99]... Este sertão não me vê mais
nunca!...

Acolheu o silencio essas palavras de eterna despedida.

Garcia então, esporeando com o calcanhar o ventre da cavalgadura, a
passo tomou rumo da estrada geral e sumiu-se numa das voltas do caminho,
quando ja vinha a noite estendendo o seu lugubre manto.


[Nota 99: Isto é, para lá do rio Paranahyba: _Para cá ou para lá das
Parnahybas_ é phrase muito usada no sertão em que corre aquelle grande
rio.]



CAPITULO XVIII

IDYLLIO


    Mas, que luz é essa que alli apparece,
    naquella janella? A janella é o
    oriente, e Julieta o sol. Sobe, bello
    astro, sobe e mata de inveja a pallida lua.

    SHAKESPEARE.--_Romeu e Julieta_, Acto II.

    Entretanto, desde algum tempo,
    sentia-se Virginia agitada de mal desconhecido... Em
    sua fronte, não pousava
    mais a serenidade, nem o sorriso
    lhe pairava nos labios... Pensa ella na
    noite, na solidão, e fogo devorador a
    abraza toda.

    B. DE SAINT-PIERRE.--_Paulo e Virginia._


Decorreram sem novidade dias e dias uns após outros; Cyrino
diagnosticando e curando ou melhor, receitando; Meyer augmentando cada
vez mais a sua bella collecção entomologica, sempre feitorisado por
Pereira, que cautelosamente tratava de mantel-o no suspeitoso circulo da
sua apertada vigilancia.

Confidente de todos os infundados e mal empregados receios era Cyrino.

O _allamão_, dizia o mineiro, não me deixa pôr pé em ramo verde, mas
também trago-o vigiado que é um gosto... Se desconfiasse, teria medo
até da sua sombra... Estou em brazas... Não sei porque não chega o
Manecão Dóca... Quero arriar a carga no chão... Agora, mais do que
nunca, devo casar _Nocencia_... Estas mulheres botam sal na moleira de
um homem. Salta! E ainda isto tudo não é nada.

--Então espera muito breve o Manecão? perguntou o outro com anciedade.

--Não pode tardar ... por estes dois ou tres dias quando muito... Vem
de Uberaba e sem duvida por lá arranjou todos os papeis... Dei a
certidão do meu casamento ... a do baptismo da pequena ... e adeantei
dinheiro para as despezas ... bem que elle refugasse meio vexado.

--Então está tudo decidido? perguntou Cyrino com vivacidade.

--Boa duvida!... Já lhe tenho dito mais de uma vez. Hoje é coisa de
pedra e cal... Se até trato o Manecão de filho... A honra desta casa
é tambem honra delle.

--Mas sua filha?

--Que tem?

--Gosta delle?

--Ora se!... Um homemzarrão ... desempenado. E, quando não gostasse é
vontade minha, e está acabado. Para felicidade della e, como boa filha
que é, não tem que piar... Estou, porem, certissimo de que o noivo lhe
faz bater o coração ... tomara ver o _cujo_ chegado!

Já nesse tempo, como dissemos, Innocencia de todo se restabelecera,
ainda que Cyrino tivesse feito quanto possivel render a enfermidade.
Mas, quando o rubor da saúde voltou á assetinada cutis da sertaneja e
o vigor ao esbelto corpo, não houve pretexto a que se apegar, e as
entrevistas curtas e graves de medico foram cortadas, até mesmo para
não desviar a attenção de Pereira da pessoa de Meyer.

Com o coração, pois, partido de dor, declarou que os seus cuidados e
presença se tornavam completamente desnecessario.

Seguiram-se então semanas inteiras, sem que pudesse pôr os anciosos
olhos na formosa namorada, e por tal modo se exacerbou a sua paixão
que, para encobril-a e disfarçar a excitação nervosa, a falta de
appetite e pallidez extrema, teve que recorrer a desculpas de molestia;
cahiu realmente doente.

A incerteza em que se via, sem, pelo menos, saber se o seu affecto era
ou não correspondido, dava-lhe accessos de violenta angustia, que a
deshoras tocava ás raias da exasperação.

Uma noite, em que havia luar embaciado por ligeira bruma, tomou a sua
afflicção tal violencia que elle decidiu fugir daquelle local de
soffrimentos e incertezas, logo na manhã seguinte.

Assente uma vez nesta resolução, ergueu-se do leito em que jazia
prostrado pelo mais cruel desalento e, com algum custo, sahiu para o
terreiro, abrindo cautelosamente a porta da casa, afim de não acordar
os companheiros de quarto. Uma vez fóra, sentou-se num tronco de
madeiro o alli ao ar fresco e acariciador da madrugada, entrou com mais
tranquillidade a pensar no caso.

Seria uma hora depois de meia noite.

Estavam os espaços como que illuminados por essa luz serena e fixa que
irradia de um globo despolido; luz fosca, branda, sem intermittencias no
brilho, sem scintillações, e diffundida igualmente por toda a
atmosphera.

Haviam já os gallos cantado uma vez, e, ao longe, muito ao longe, de
vez em quando, se ouvia o clamor das anhumas pócas.

Levantou-se de repente Cyrino.

Depois de alguma vacillação, deu uma volta por toda a habitação,
pulando os cercados, e tomou o rumo do frondoso laranjal, a cuja espessa
sombra se abrigou por algum tempo.

Achegou-se, em seguida, á cerca dos fundos da casa o parou no meio do
pateo, olhando com assombro para uma janella aberta.

Um vulto alli estava!... Era o della; Innocencia... Não havia duvidar.

A principio, nenhum movimento fez; mas, depois, lentamente se foi
retirando e aos poucos fechou o postigo.

Cyrino deu um só pulo e de leve, muito de leve, bateu apressadas
pancadas na taboa da janella.


[Ilustração: Innocencia!... Innocencia!... chamou com
voz sumida.]


--Innocencia!... Innocencia!... chamou com voz sumida, mas ardente e
cheia de supplica.

Ninguem lhe respondeu.

--Innocencia, implorou o moço, olhe ... abra ... tenha pena de mim...
Eu morro por sua causa...

Depois de breve tempo, que para Cyrino pareceu um seculo, descerrou-se a
medo a janella, e appareceu a moça toda assustada, sem saber por que
razão alli estava nem explicar tudo aquillo.

Parecia-lhe um sonho.

Quiz, entretanto, dar qualquer desculpa á situação e, fingindo-se
admirada, perguntou muito baixinho e a balbuciar:

--Que vem ... mecê ... fazer aqui? ... já ... estou boa.

Da parte de fóra, agarrou-lhe Cyrino nas mãos.

--Oh! disse elle com fogo, doente estou eu agora... Sou eu que vou
morrer ... porque você me enfeitiçou, e não acho remedio para o meu
mal.

--Eu ... não, protestou Innocencia.

--Sim ... você que é uma mulher como nunca vi... Seus olhos me
queimaram... Sinto fogo dentro de mim... Já não vivo ... o que só
quero é vel-a ... é amal-a ... não conheço mais o que seja somno e,
nesta semana, fiquei mais velho do que em muitos annos havia de ficar...
E tudo, porque, Innocencia?

--Eu não sei, não, respondeu a pobresinha com ingenuidade.

--Porque eu amo ... amo-a, e soffro como um louco ... como um perdido...

--Ué, exclamou ella, pois amor é soffrimento?

--Amor é soffrimento, quando a gente não sabe se a paixão é acceita,
quando se não vê quem se adora: amor é céu, quando se está como eu
agora estou.

--E quando a gente está longe, perguntou ella, que se sente?...

--Sente-se uma dôr, cá dentro, que parece que se vae morrer... Tudo
causa desgosto: só se pensa na pessoa a quem se quer, a todas as horas
do dia e da noite no somno, na reza, quando se ora a Nossa-Senhora,
sempre ella, ella, ella! ... o bem amado ... e...

--Oh! interrompeu a sertaneja com singeleza, então eu amo....

--Você? indagou Cyrino sofregamente.

--Se é como ... mecê diz...

--É ... é ... eu lhe juro!...

--Então ... eu amo, confirmou Innocencia.

--E a quem?... Diga: a quem?

Houve uma pausa, e a custo retrucou ella, ladeando a questão:

--A quem me ama.

--Ah! exclamou o joven, então é a mim ... é a mim, com certeza,
porque ninguem neste mundo, ninguem, ouviu? é capaz de amal-a como
eu... Nem seu pae ... nem sua mãe, se viva fosse... Deixe falar seu
coração... Se quer ver-me fóra deste mundo ... diga que não sou eu,
diga!...

--E como ia mecê morrer? atalhou ella com receio.

--Não falta pau para me enforcar, nem agua para me afogar.

--Deus nos livre! não fale nisso... Mas, porque é que mecê gosta
tanto de mim? Mecê não é meu parente, nem primo, longe que seja, nem
conhecido sequer... Eu _lhe_ vi apenas pouco tempo ... e tanto se
agradou de mim?

--E com você ... não succede o mesmo? perguntou Cyrino.

--Commigo?

--Sim, com você... Porque é que está acordada a estas horas? Porque
é que não pode dormir? ... que a cama lhe parece um brazeiro, como a
mim tambem parece?... Porque pensa em alguem a todo o instante?
Entretanto, esse alguem não é primo seu, longe que seja, nem conhecido
sequer?...

--É verdade, confessou Innocencia com doce candura.

Depois quiz emendar a mão:

--Mas, quem lhe disse que vivo pensando em mecê?

--Innocencia, implorou o moço, não queira negar; vejo que sou amado...

--Sempre amar! observou ella, mais para si do que para quem a ouvia. No
anno que já passou e por occasião da Sra Sant'Anna[100], aqui vieram
umas parentas minhas e caçoaram commigo, porque eu não as entendia:
tanto assim que uma dellas, a Nhã Tuca, me disse: «Deveras, mecê
ainda não gostou de nenhum moço? E eu respondi: Não _assumpto_[101] o
que mecê estão a _prosear_.» Aquillo era certo, e tão verdade como
estar nosso Deus no paraiso... Hoje...

--E hoje?

--Hoje? repetiu a moça. Quem sabe se não era bem melhor não ter nunca
gostado de ninguem?

--Isso não está na gente... É ordem lá de cima...

--Emfim, se for destino, que se cumpra.

Conservava-se Innocencia ainda um pouco arredada da janella, de modo
que Cyrino, para lhe falar baixinho, tinha o corpo inclinado do lado de
dentro. Segurava as mãos da namorada e puxava com doce violencia,
quando mostrava querer afastar-se.

Era o ardente colloquio dos dois cortado de frequentes pausas, durante
as quaes se embebiam reciprocos os olhares carregados de paixão.

--Deixa-me ver bem o teu rosto, dizia Cyrino a Innocencia. Para mim, e
muito mais bello que a lua e tem mais brilho que o sol.

E, apezar de alguma resistencia, fraca embora, mas conscienciosa, que
lhe foi opposta, conseguiu que a formosa rapariga se recostasse ao
peitoril da janella.

--Amar, observou ella, deve ser coisa bem feia.

--Porque?

--Porque estou aqui e sinto tanto fogo no rosto!... Cá dentro me diz um
palpite que é peccado mortal que faço ..

--Você tão pura! contestou Cyrino.

--Se alguem viesse agora e nos visse, eu morria de vergonha. Sr. Cyrino
deixe-me ... vá-se embora! ... o Sr. me atirou algum quebranto ...
aquella sua mézinha tinha alguma herva para mim tomar ... e me virar o
juizo...

--Não, atalhou o mancebo com força, eu lhe juro! Pela alma de minha
mãe ... o remedio não tinha nada!

--Então porque fiquei ... _ansim_, que me não conheço mais?... Se
papae apparecesse ... não tinha o direito de me matar?...

Foi-se-lhe a voz tornando cada vez mais baixa e sumiu-se num golfão de
lagrimas.

Atirou-se Cyrino de joelhos diante della.

--Innocencia, exclamou, pela salvação de minha alma lhe dou juramento:
nada de mau fiz para prender o seu coração... Se você me ama, é
porque Deus assim mandou... Sou um rapaz de bons costumes... Até hoje
nunca tinha amado mulher alguma ... mas não sei como deixar de amar uma
moça como você... Perdoe-me; se você soffre ... eu tambem padeço
muito... Perdoe-me...

Alçara o mancebo um pouco a voz.

De repente Innocencia estremeceu.

--Não ouviu ruido? perguntou ella com terror.

--Não, respondeu Cyrino.

--Alguem acordou lá dentro...

--Pois ... então vá ver ... o que é ... e se não for nada, volte...
Aqui a espero, escondido á sombra da parede...

Minutos depois, reappareceu a moça.

--Não vi nada, disse.

--Então foi abusão.

--É melhor que o Sr. se vá embora.

--Não, Innocencia, tenha pena de mim... Eu não poderei vel-a tão cedo
e ... preciso conversar ... mesmo para arranjo da nossa vida... O
Manecão não tarda...

--Ah! exclamou ella com sobresalto, então mecê sabe...

--Sei; e desgraçadamente, breve está elle batendo aqui...

--Eu bem dizia que o Sr. me _havéra_ de perder... Antes de o ter
visto ... casar com aquelle homem, me agradava até... Era uma
novidade ... porque elle lhe disse que me levava para a villa... Mas agora
esta idéa me mette horror! Porque é que mecê mexeu commigo? Sou uma pobre
menina, que não tem mãe desde creancinha... Não ha tanta moça nas
cidades ... nos povoados?... Porque veio tirar o somno ... a vontade de
viver a quem era ... tão alegre ... que até hoje não pensou em
maldade ... e nunca fez damno a ninguem?

--E eu? replicou com energia Cyrino, pensa então que sou feliz?... Olhe
bem uma coisa Innocencia. Digo-lhe isto deante de Deus: ou hei de casar
com você ... ou dou cabo da vida... Quem arranjou tudo assim ... foi o
meu caiporismo... Se eu tivesse passado aqui antes daquelle homem, que
odeio, que quizera matar ... nada impediria que eu fosse hoje o ente
mais feliz do mundo!... Mais feliz aqui neste sertão, do que o
Imperador nos seus paços lá na côrte do Rio de Janeiro! Eu já lhe
disse ... culpa não tive...

--Não ha nada que me possa salvar, atalhou a moça.

--Nada?... Talvez...

Soou nesse momento e repentinamente do lado do laranjal um assobio
prolongado, agudissimo, e uma pedra, arremessada por mão mysteriosa e
com muita força, sibilou nos ares e veiu bater na parede com surda
pancada, passando rente á cabeça de Cyrino.

Deu Innocencia abafado grito de terror e fechou rapidamente a janella,
ao passo que o mancebo, esgueirando-se com celeridade pela sombra,
resoluto correu para o ponto donde presumia ter partido a pedra.

Não viu ninguem.

Por toda a parte, o ruido mysterioso e peculiar a uma noite calma de
verão.

Percorreu em todos os sentidos o pomar, e só ouviu a bulha dos seus
passos.

Afinal, de cansado, deixou o sitio e cautelosamente se dirigiu para o
terreiro da frente.

Quando lá chegou, parou attonito.

O mesmo assobio, prolongado e finissimo, desta feita talvez mais
estridente, feriu-lhe os ouvidos.


[Nota 100: Sc. da festa.]

[Nota 101: Não percebo.]



CAPITULO XIX

CALCULOS E ESPERANÇAS


    Apezar, porém, de joven, apezar da
    violencia do amor que a prendia a
    Julião, sabia ella conter os movimentos
    do seu coração e desconfiar
    de si mesma.

    WALTER SCOTT.--_Peveril do Pico._

    Lisa--Comtanto que tenhas bastante
    resolução...

    Lucinda--Que queres que eu faça
    contra a autoridade de um pae? Se
    elle for inexoravel aos meus pedidos?...

    MOLIÈRE.--_O amor medico._


Durante os dias de estada nas terras de Pereira, as quaes não tinham
limites nem visinhos dalli a muitas leguas, augmentou Meyer a sua
interessante collecção com extraordinaria variedade de bichinhos e
sobretudo borboletas.

Tal era a alegria de que se possuira por esse fausto motivo, que a cada
momento a manifestava num tom de franqueza capaz de por si só convencer
o mais descrente dos homens em questão de sinceridade.

--Sr. Pereira, dizia o naturalista, afianço-lhe que em parte alguma do
Brazil estive ainda tão bem como em sua casa.

--Eu te entendo, maroto, rosnava o mineiro.

--Devéras!... Só o que sinto é que sua filha não nos apparecesse
mais... Sinto muito, na verdade...

Sorriu-se Pereira com riso amarello e replicou, apertando os punhos de
raiva:

--_Mochú_ sabe ... isto são costumes cá da terra. As mulheres não
são feitas para...

--Para que? perguntou Meyer com pausa.

--Para _prosearem_ com qualquer um...

--Que é _prosearem_?

--É conversar, dar de lingua, explicou Cyrino.

--Obrigado, doutor, retorquiu Meyer, agradecendo mais aquella
indicação philologica que foi immediatamente enriquecer o seu caderno
de notas. _Prosear_ é conversar. Muito bem!... Pois é pena, Sr.
Pereira, porque sua filha é uma bonita senhora!

--Nesta arapuca não caio eu, seu tratante... Hei-de _toda a vida_ andar
com o olho em ti, murmurava o mineiro.

--É pena, confirmava Meyer duas e tres vezes ... é pena...

Por certo não era esta a linguagem mais propria para desvanecer as
prevenções e receios de Pereira; ao envez, mais e mais recrescia a sua
vigilancia sobre Meyer, o que proporcionava ao verdadeiro culpado a
liberdade de que carecia para tornar a ver o mal-guardado thesouro.

Não foi todavia sem custo a nova conferencia.

Ficara a pobre menina tão impressionada com o final da primeira
entrevista, que por alguns dias mal sahia do quarto.

Escrever-lhe Cyrino, era de todo inutil, por isso que ella nunca
aprendera a ler: e, depois, qual o meio de lhe fazer chegar ás mãos
qualquer papel ou recado?

Sobravam, portanto, razões para que o joven se ralasse de impaciencia e
quasi desesperasse da sorte.

Passava as noites em claro, mettido no laranjal e procurando uma
solução a tanta difficuldade; atordoavam-no ainda aquelles dois
assobios que não podia explicar e sobretudo aquella pedrada tão bem
dirigida, que por pouco talvez o houvesse estendido por terra.

N'uma dessas noites de anciedade, viu afinal reabrir-se a janella de
Innocencia.

A pobre coitada, abrazada tambem de amor, queria respirar o ar da noite
e beber na viração do sertão uma pouca de tranquilidade para sua alma
não afeita ao tumultuar dos sentimentos que a agitavam e, quem sabe?
verificar se por ahi não andava rondando aquelle que no seio lhe
inoculara tamanho desassocego, impetos tão desconhecidos e violentos,
superiores a todas as suas tentativas de resistencia.

Cyrino, rapido como uma seta, rapido como aquella pedra arrojada tão
vigorosamente, achou-se ao pé da janella e cobriu de beijos as mãos da
sua amada.

--O grito? balbuciou ella. Dois gritos ... e a pedrada... Que foi?

--Ah! não foi nada, respondeu apressadamente Cyrino; fui ver no
laranjal ... era um macauán[102] O que pareceu pedrada era um
noitibó[103] que frechou para mim e veio dar com a cabeça na parede.

--Devéras? perguntou ella incredula.

--Devéras. A principio tomei tambem um grande susto. Depois, verifiquei
que não passava de miragem. De noite, a gente em tudo vê maravilhas...
Para mim, a unica que vi era você, minha vida, meu anjo do céu...

Com este madrigal encetou Cyrino uma conversação como a da primeira
noite, como a que balbuciam duas candidas almas na eterna e sempre nova
declaração de amor, desde que Adão e Eva a trocaram, á sombra das
maravilhosas arvores do Eden.

Mostrou se o moço receioso da rivalidade de Meyer. Riu-se ella e
gracejou, com espirito e bondade, da figura do estrangeiro. Com toda a
confiança, chegou a idear planos de risonho futuro:

--Agora, que sei o que é amar, direi a meu pae que já não quero o
Manecão...

--E se elle insistir?

--Hei de chorar ... chorar muito...

--Lagrimas, muitas vezes, de nada servem.

--Mas tenho cá commigo outro recurso...

--Qual é? perguntou Cyrino.

--Morrer!...

--Não! Ha outros ... hei de dizer-lhe...

Tomou Innocencia ar grave e meio offendido.

--Escute, Cyrino, observou ella, nestes dias tenho aprendido muita
coisa. Andava neste mundo e delle não conhecia maldade alguma... A
paixão que tenho por mecê foi como uma luz que faiscou cá dentro de
mim. Agora começo a enxergar melhor... Ninguem me disse nada; mas
parece que a minha alma acordou para me avisar do que é bom e do que é
mau... Sei que devo de ter medo de mecê, porque pode botar-me a
perder... Não formo juizo como; mas a minha honra e a de toda a minha
familia estão nas suas mãos...

--Innocencia, quiz interromper Cyrino.

--Deixe-me falar, deixe contar-lhe o que me enche o peito... Depois
ficarei socegada... Sou filha dos sertões; nunca morei em povoados
nunca li em livros, nem tive quem me ensinasse coisa alguma... Se eu o
maguar, desculpe será sem querer...Lembra-me que, ha já um _tempão_,
pararam aqui umas mulheres com uns homens e eu perguntei a papae porque
é que elle não as mandava entrar cá para dentro, como é de costume
com familias... O pae me respondeu:--Não, _Nocencia_, são mulheres
perdidas, de vida alegre. Fiquei muito _assombrada_.--Mas, então,
melhor; se são alegres hão-de divertir-me.--Aquillo é gente airada,
sem vergonha, _secundou_ elle.--Tive tanto dó dellas que mecê não
imagina. Depois fui espiar ... cahiam tontas no chão ... _pitavam_ e
cantavam muito alto com modos tão feios; que me fizeram corar por
ellas! E são os homens que fazem ficar _ansim_ as coitadas!... Antes
morrer... Parece-me que Nossa-Senhora ha-de ter pena dos que amam ...
mas desampara com certeza os que erram... Se não houver outro remedio,
temos que nos lembrar que as almas, quando se acaba tudo neste mundo,
vão pelos céus cheios de estrellas, passeando como num jardim... Se eu
me finasse e mecê tambem, punha-se a minha alma a correr pelos ares,
procurando a de mecê, procurando procurando, e então nós dois,
juntinhos iamos viajando ora para aqui, ora para alli, ás vezes pelo
carreiro de S. Thiago, ás vezes baixando a este ermo a ver onde é que
botaram os nossos corpos... Não era tão bom?

Envolvida em sua pureza como num manto de bronze, entregava-se
Innocencia com exaltamento e sem reserva á força da paixão. E essa
natureza pudica e delicada a tal ponto dominava a Cyrino, que invencivel
acanhamento o prendia ante a debil donzella, alheia a todos os mysterios
da existencia.

Por isso, ao inflammado mancebo não acudia a idéa de saltar por
aquella janella e menos a de praticar qualquer acção desrespeitosa.
Consumia o tempo em beijos nas mãos da namorada, em tagarelices de
amor, protestos, juras, e illusões de futuro.

--Amanhã, dizia Cyrino, hei de com cuidado assumptar a seu pae ...
falando no seu casamento ... depois ... hei de virar a conversa para
mim...

--Papae, observou a menina, é muito bom, muito mesmo. Mas tenho um medo
delle! Tem um genio, meu Deus!...

--Quanto a mim ... heide falar bem claro e explicito... O que quero, é
que você me seja constante...

Mas do sentimento de temor, que sobresaltava Innocencia, tambem
participava Cyrino. Por isso, chegado o dia, não ousava tocar na
melindrosa questão, bem que as continuas queixas de Pereira contra
Meyer lhe dessem ensejo mais ou menos favoravel para desembaraçadamente
encetal-a. Com gosto adiava o momento decisivo e esperava perplexo
qualquer incidente, que melhor servisse a seus planos.

Entretanto, apezar de se accumularem os dias sem que trouxessem
modificação naquelle estado de coisas, doce esperança pairava no
fundo do seu coração, consentindo-lhe planos de venturoso porvir e
feliz desenlace ás duvidas e soffrimentos em que vivia.


[Nota 102: Especie de gavião.]

[Nota 103: Passaro da noite.]



CAPITULO XX

NOVAS HISTORIAS DE MEYER


    Disse-lhe Sancho: Cada qual abra
    bem o olho e fique alerta, porque o
    diabo entrou na dansa e se lhe derem
    ensejo, ver-se-hão maravilhas.

    Virae-vos em mel, e as moscas vos
    comerão.

    CERVANTES.--_D. Quixote._ Cap. XLIX.


Uma occasião, de volta do trabalho diario, attingiu a habitual
irritação de Pereira contra Meyer grande intensidade. Entrara
cabisbaixo, sorumbatico e fez gesto a Cyrino de que precisava falar-lhe
a sós. Dalli a pouco, saindo ambos, caminharam silenciosos pela estrada
até a um regato que ficava a meio quarto de legua da casa.

--Que terá este homem hoje? dizia Cyrino comsigo mesmo. Talvez vá
chegando o momento de tratar do assumpto.

Voltou-se de repente Pereira e, com voz alterada, prorompeu em
exclamações:

--Sabe, Doutor, que não posso mais aturar esse _allamão_?... Aquillo
é um _mandingueiro_, uma _çuçuarana_, vinda do inferno para me botar
a perder!... Meu irmão ... meu irmão, que presente me fez você!...

--Mas, que houve? perguntou Cyrino.

--Olhe ... se não fosse aquella carta, e a palavra que dei ao
maldito ... mil raios o partam, surucucú do diabo! potro melado!... já
um bom balazio lhe teria varado os miolos...

--Que novidades ha então, Sr. Pereira? tornou a inquirir Cyrino.

--Vim mesmo até aqui para tirar este peso do coração...

--Mas...

--Sabe o senhor que aquelle _Mochú_ é peor que um tigre preto?...
Parece homem á toa, um _punga_, incapaz de matar uma pulga, não é?...
Pois aquillo é uma alma damnada ... um _seductor_...

--Sempre as suas desconfianças! observou Cyrino.

--Desconfianças, não: agora, certeza. Pois o que quer dizer o homem
todo o dia ... estar a lembrar-se da menina é... Procurar trazel-a á
conversa?--Como está sua filha? pergunta-me elle sempre.--Está boa, de
uma vez para todas. E elle, _toda a vida_ a insistir... Isto me põe o
sangue a ferver, mas vou-lhe respondendo com bom modo... Hoje, saiu-se o
_cujo_ de seus cuidados e disse-me como quem _toma leite com farinha de
milho_[104]:--Sua filha vae casar?--Vae, respondi-lhe todo
trombudo.--Com quem? Tive vontade de lhe dizer: Não é da tua conta,
_seu_ bisbilhoteiro, _seu_ biltre, e atacar-lhe uma cabeçada, mas, como
é meu hospede, _secundei-lhe_ enfarruscado: Com um homem do sertão que
hade amolar a faca na pelle da barriga do mariola que vier mexer com a
mulher delle. O _allamão_ não se deu por achado e, com todo o
semvergonhismo, me retrucou: Pois o senhor faz mal. A sua filha é muito
mimosa e deveria casar com alguem da cidade.--Então, perdi a paciencia:
Mochú, lhe disse, cada um manda em sua casa como entende; eu na minha,
não quero ser _anarchizado_; elle, quando me viu fulo de raiva,
pediu-me mil desculpas, contou-me muitas historias, isto, aquillo,
aquillo outro, et cœtera e tal, que era para bem de minha filha e não
sei mais o que, numa lingua que pouco entendi...

--Não fez bem, atalhou Cyrino.

--Boa duvida! Aquillo é uma alma damnada ... boa para as caldeiras de
Pedro Botelho, um judeu ... emfim, um caçador de _anicetos_: está dito
tudo!... Mas ainda não lhe contei o mais... Parece que hoje estava
mesmo com o diabo no corpo... Metteu-se no matto perto da minha roça,
onde eu trabalhava com os meus _captivos_, e lá fazia um barulhão a
quebrar galhos e romper o cipoal como se fosse anta; de repente ouvi uma
gritaria muito grande; era o tal Meyer com o camarada José Pinho a
berrar como dois _minhocões_[105]. Corri a ver o que era e os achei
muito contentes a olhar para uma barboleta grande, já fincada num páu
de pita. O _allamão_ poz-se a pular como um cabrito.

É novo, me disse elle, é novo!--Novo o que, _Mochú_? Este bicho,
ninguem o descobriu antes de mim! É coisa minha... Entendeu? E vou
botar-lhe o nome de sua filha!... Quando ouvi aquillo, fiquei tão
passado, que não pude engulir o cuspo da bocca... Vejam só ... o nome
de _Nocencia_ numa bicharada!... Até parece mangação... Agora, quero
saber do doutor o que devo fazer... Venho pelo menos desabafar... Não
posso metter uma bala naquelle patife como bem merecia ... mas tambem é
demais tel-o em casa ... é demais! Peço-lhe um conselho... Felizmente,
sempre o trago arredado de casa, e a menina de nada desconfia; do
contrario, como mulher que é, _havéra_ de me dar que fazer... Tambem
não sei, porque é que o Manecão não chega ... só elle é quem havia
de me livrar destes apuros... Uma vez que o tal _allamão_ visse a
rapariga com o noivo, deixava-a socegada... Não acha? Olhe, palavra de
honra, isto _ansim_ não é viver! Fui feito para dizer o que penso,
tratar bem a todos ... mas estes modos que tenho agora, só Deus sabe
quanto me custam... Até o meu serviço vae soffrendo, porque muitas
vezes largo a roça e ponho-me a correr atraz dos bichinhos, só para
não deixar de olho o tal marreco, em lugar de feitorar o trabalho dos
negros... O meu fazendeiro é um diabo ruim e já velho... Ah! meu
irmão, que carga você me pôz em cima das costas! Eu então, que não
nasci para esconder o que sinto cá dentro!...

E Pereira, de tão attribulado que trazia o espirito deixou-se cahir num
comoro de terra.

Cyrino, defronte delle, ficara de pé e pensativo.

Afinal, depois de breve duvida, decidiu tentar fortuna e encetar a grave
questão que lhe importava a felicidade.

--Sr. Pereira, disse bastante commovido, acho que o allemão faz mal em
andar batendo lingua em pessoa da sua familia, e dou razão ás suas
inquietações...

--Ah! vosmecê é homem de confiança.

--Mas, continou o moço a custo e parando em cada palavra, penso que num
ponto tem elle alguma razão... É quando ... lhe deu ... conselho ...
que o senhor não casasse sua filha ... assim ... sem perguntar a
ella ... se ... emfim não sei ... mas talvez o Manecão lhe não agrade...

Ergueu-se Pereira de um pulo e, approximando a face, repentinamente
incendida de colera, junto ao rosto de Cyrino:

--O que? exclamou com voz de trovão, eu ... consultar minha filha?...
Pedir-lhe licença ... para casal-a?... O senhor está doido?... Ou
está mangando commigo?... Ai ... que tambem...

E vago lampejo de desconfiança lhe illuminou a chammejante pupilla.

Comprehendeu logo Cyrino a perigosa situação e, sem demora, tratou de
desfazer a má impressão que produzira.

--Ah! disse com fingido riso, é verdade... Isto são costumes da
cidade ... aqui, no sertão, ha outros modos de pensar... Desculpe-me, Sr.
Pereira, este Meyer é que está a confundir-me todas as idéas. Pois eu
julgo ... já que pede a minha opinião, que o senhor deve continuar a
ter olho no estrangeiro ... e eu heide ajudal-o, quanto estiver nas
minhas forças.

--Tambem agora, disse o mineiro depois de ligeira pausa, não hade ser
por muito tempo... Ha mais de um mez que elle aqui pára e já me ...
contou que breve seguia viagem para Camapuan... Desenganou-se afinal...
O tal _meco_ não chegará até lá ... mas é o mesmo. Um destes dias,
leva por ahi algum tiro para lhe botar juizo na cachola, ou alguma
facada que lhe ponha as tripas á mostra... Nem sempre ha de ter cartas
de irmão para sahir-se bem da _rascada_... O diabo o leve para
longe!... Voltemos, Sr. Cyrino... Já demais temos deixado o bicharoco
sósinho.

E encaminhou-se para a vivenda, acompanhado de Cyrino. Ia este
desalentado; na realidade, bem rentes lhe ficavam cortadas as
esperanças que haviam animado na tentativa de opposição ao projectado
casamento da amada com o terrivel e fatal Manecão.

Ainda a meio do caminho, voltou-se Pereira e disse-lhe peremptoriamente:

--Deveras, Sr. Cyrino, aquellas suas palavras me buliram com o sangue
todo... Ainda o sinto galopar nas veias... Que ideias esturdias!... Que
lembrança! Ah ... a tal vida das cidades ... cruzes!


[Nota 104: Como quem faz cousa muito simples.]

[Nota 105: Animaes phantasticos do sertão que, segundo a crendice, dão
gritos muito fortes. Acreditam alguns que sejam monstruosos sucurys.]



CAPITULO XXI

PAPILIO INNOCENTIA


    Considerae a arte da composição das
    azas da borboleta: a regularidade das
    escamas, cobrindo-as, como se fossem
    pennas; a variedade das cambiantes
    côres; a tromba enrolada, com que
    suga o alimento no seio das flores:
    as antennas, orgãos delicados do tacto,
    que lhe corôam a cabeça cercada de
    uma rede admiravel de mais de mil e
    duzentos olhos...

    BERNARDIN DE SAINT-PIERRE.--_Harmonias da natureza._


Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas
encolhidas, ergueu-se precipitadamente ao avistar Cyrino e correu ao seu
encontro.

Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triumpho.

--Oh, Sr. doutor, exclamou, todo risonho, venha, venha ver uma
preciosidade ... uma descoberta ... especie nova ... não ha em parte
alguma... Ouviu? Coisa assim vale um thesouro... E fui eu que o
descobri!... Nem sequer _Júque_ me ajudou ... pois estava deitado e
dormindo... Não é verdade, Sr. Pereira?

--Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz elle com o tal
_aniceto_... Ao menos, se fosse um animal grande!

--É uma especie ... nova ... completamente nova! Mas já tem nome...
Baptizei-a logo... Vou lhe mostrar... Espere um instante...

E, entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de
folha de Flandres, que trazia com toda a reverencia e cujo tampo abriu
cuidadosamente.

Da propria garganta sahiu um grito de admiração, que Cyrino
acompanhou, embora com menos enthusiasmo.

Pregada em larga taboa de pita, via-se formosa e grande borboleta, com
as azas meio abertas, como que disposta a tomar vôo.

Eram essas azas de maravilhoso colorido; as superiores, do branco mais
puro e luzidio; as de baixo, de um azul metallico de brilho vivissimo.

Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais bellos lepidopteros
das mattas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adonis, estes, azues
como ceruleo cantinho do ceu, aquelles alvinitentes como petalas de
magnolia recem-desabrochada.

Era sem contestação lindissimo especimen, verdadeiro capricho da
esplendida natureza daquelles páramos. Tambem Meyer não tinha mão em
si de contente.

--Este insecto, preleccionou elle como se o ouvissem dous profissionaes
na materia, pertence á phalange das Heliconias. Denominei-a logo
_Papilio Innocentia_, em honra á filha do Sr. Pereira, de quem tenho
recebido tão bom tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sabio
Linneu--e Meyer levou a mão ao chapéu--mas a sua classificação já
está um pouco velha. A classe é, pois, _Diurna_; a phalange,
_Heliconia_, o genero, _Papilio_ e a especie, _Innocentia_, especie
minha e cuja gloria ninguem mais me póde tirar... Daqui vou, hoje
mesmo, officiar ao secretario perpetuo da Sociedade Entomologica de
Magdeburgo, participando-lhe facto tão importante para mim e para a
sabia Germania.

Dizia Meyer tudo isto com legitima ufania e lentidão dogmatica.

Depois, com mais volubilidade e apezar de tropeçar amiudadas vezes em
palavras, o que, para commodidade dos leitores, temos quasi sempre
deixado de indicar, continuou:

--Reparem, meus senhores, neste lepidoptero com os olhos cuidadosos da
sciencia. Tem quatro pés caminhantes; as antennas de terminação
comprida, e oval, cavada em forma de colher; os palpares maiores do que
a cabeça e escamosos; tromba toda branca e labio quasi nullo. Não
perdi nem sequer um pouco do seu pó, porque o pó, um só grão de pó,
vale tanto como uma penna de passaro, e a comparação é perfeita,
visto como cada uma destas escamas, á semelhança das pennas, é
atravessada por uma trachéa, por onde circula o ar. Oh! que achado!
proseguiu elle. Que triumpho para mim! A Sociedade Entomologica de
Magdeburgo hade ficar muito orgulhosa... Sem duvida alguma, farão uma
sessão solemne, extraordinaria... Mein Gott!... Estou que não posso de
alegria... Tambem daqui, a tres ou quatro dias, vou-me embora desta
casa ... ainda que cheio de saudades...

--Devéras? atalhou Pereira, vai partir?

--Sim, senhor. O meu itinerario é para Camapoan; depois, vou a Miranda
e talvez Nioac... Heide subir até ao Coxim e ahi, ou embarco para
Cuyabá no rio Taquary, ou sigo por terra pelo Pequiry.

--E o senhor volta para sua patria?

--Boa duvida!... Daqui a anno e meio, pretendo apresentar a minha
collecção toda arranjada á Sociedade Entomologica...

--Homem, observou Pereira com intenção que seu hospede não podia nem
de leve perceber, eu quizera já estar nesse dia. Daqui a anno e meio,
que voltas terá dado o mundo?...

--Terá percorrido, respondeu Meyer gravemente, dezoito signos do
Zodiaco.

--Pois bem, eu queria ver isso... Já me tarda esse dia...

--Quando elle chegar, continuou o allemão com sinceridade e um tanto
commovido, heide lembrar-me com gratidão do tratamento que recebi ...
nos sertões do Imperio ... e heide dizer ... bem alto ... que os
brazileiros ... são felizes porque são morigerados e tem muito boa
indole ... hospitaleiros como ninguem.

--Accrescente, interrompeu Pereira com algum azedume, que zelam com todo
o cuidado a honra de suas familias.

Obedeceu docilmente Meyer e repetiu palavra por palavra:

--E zelam com todo o cuidado a honra de suas familias.

--Muito bem, replicou o mineiro, diga isso, e o Sr. terá dito uma
verdade.



CAPITULO XXII

MEYER PARTE


    Adeus, pois amigos; bella companhia!
    Aos lares distantes cada
    qual de nós, por caminhos diversos,
    deve um dia chegar.

    CATULLO.--_Epigramma_ XLVI.


Não haviam descontinuado as visitas feitas a Cyrino por enfermos de
muitas leguas em torno. Tão frequentes e teimosos eram os casos de
sezões ou maleitas, que a porção de sulfato de quinina que trouxera
em suas canastras estava toda esgotada, pelo que se vira levado a
substituir esse medicamento sem tanta confiança, porem, por plantas
verdes do campo ou hervas seccas, fornecidas por uns bolivianos que
encontrara em Minas, vindos de Santa Cruz de la Sierra em peregrinação
pelo interior do Brazil e a tratarem de doentes, sem Chernoviz em punho,
nem aquelles resquicios de conhecimentos therapeuticos que ostentava o
nosso doutor.

Entre os enfermos que o vinham diariamente procurar, alguns accusavam
molestias cujas qualificações eram complicadas e estramboticas: assim
declaravam-se salteados de _engasgue, espinhela cahida, mal de encalhe,
tosse de cachorro, feridas brabas, almorreimas erysipelas_, ou
até _assombração e mau-olhado_.

Quem se queixava de _engasgues_ era o capataz de uma fazenda chamada do
Váu, distante umas boas cincoenta leguas.

--Sr. doutor, disse o enfermo, a minha vida é um continuo lidar de
soffrimentos. Estou com este mal vae fazer cinco annos no S. João, por
signal que me veio com uma grande dor na bocca do _estómbago_. Vezes ha
que não posso engulir nada, sem beber muitos _gólos_ de agua, de
maneira que me encharco todo e fico que mal me mexo de um lugar para
outro.

--E a dor, perguntou Cyrino, ainda a sente?

--_Toda a vida_, respondeu o capataz... O que me _afflege_ mais é que
ha comidas então que não me passam na guéla... É um fastio dos meus
peccados... Boto uns pedacinhos no _bucho_ e parece-me que dentro tenho
um bolo que me está a subir e descer pela garganta...

Receitou o medico umas doses de herva de marinheiro como emetico, e fez
mais algumas prescripções que o enfermo ouviu com toda a
religiosidade.

No estado de perturbação moral em que se achava o joven facultativo,
natural é que fosse uma coisa por outra; mais importante, porem, era a
fé que suas indicações incutiam, a fé, essa alavanca poderosa da
medicina, esse contingente precioso que o espirito ministra aos ingentes
esforços da natureza na sua constante lucta contra os principios
morbidos.

O doente de _espinhela cahida_ accusava um peso muito forte e perenne no
peito e a impossibilidade de levantar as mãos juntas á mesma altura.

Prescreveu-lhe Cyrino amargo do campo, genciana e quina, e ordenou-lhe
certas cautelas firmadas na voz geral, mas com algum fundo de razão;
verbi-gratia: engulir sempre a saliva e sobretudo deixar de fumar depois
de comer.

O infeliz moço, ao passo que tratava de curar os outros, mais que
ninguem precisava de quem nelle cuidasse, pelo menos da alma.

Via não só Meyer fazendo os seus preparativos de partida, e em vespera
de deixal-o a sós com Pereira, podendo este descobrir afinal o engano
em que havia laborado, como tambem a clinica quasi esgotada,
aconselhando-lhe a conveniencia de transportar-se para outro ponto e
continuar a interrompida jornada.

Tudo isto, e o amor a augmentar, a tirar-lhe todo o socego, a consumil-o
a fogo lento...

Meyer, na realidade, desde o achado da sua magnifica borboleta, não
pensava senão em partir.

--Oh! dizia elle, eu quizera estar já em Magdeburgo... Quantas leguas,
_Mein Gott_!... _Papilio Innocentia_ ... a minha gloria! Que diz, Snr.
Cyrino?...

--É verdade ... mais quem sabe se o senhor não deveria ficar mais
tempo aqui?... Talvez achasse outra borboleta nova...

--Não, é impossivel... Era felicidade de mais... Além disso, o
dinheiro não me havia de chegar.

--Oh! posso emprestar-lhe...

--Muito obrigado ... mas é de todo impossivel a minha estada aqui...
Veja o senhor: tenho ainda que ir a Camapoan, a Miranda, a Cuyabá, para
então voltar... E só me restão poucos mezes... A Sociedade
Entomologica de Magdeburgo conta commigo na primavera do anno que
vem....

Mettida uma vez essa idéa na cabeça, Meyer não deixou mais de falar
na sua viagem um só instante e, para que a execução correspondesse ao
promettido, mandou na tarde seguinte, José Pinho, o camarada, alçar
cargas ás costas do burro, depois de as ter, elle proprio, arranjado e
revistado com toda a cautela.

Julgou o carioca nesse momento dever lavrar um protesto:

--_Mochú_, disse elle, vae recomeçar com o seu modo de andar por essas
estradas á noite... Afinal havemos todos de cahir nalguma _buraqueira_,
eu, o senhor, o burro de carga, e os bichos; e não chegaremos, nem eu
ao Rio de Janeiro, nem elles e o senhor á sua terra. Emfim, já estou
cansado de o avisar.

No momento da partida, apresentava o naturalista aquelle mesmo aspecto
da celebre noite da chegada: eram aquellas mesmas frasqueiras a
tiracollo, aquelle mesmo ar tranquillo e bonachão com que viera, fóra
de horas, pedir pousada á casa de Pereira.

Este, ao ver o hospede a cavallo e prestes a deixar para sempre a sua
morada, sentiu-se possuido de alegria, mesclada, sem saber porque, com
surpreza repentina e intima, de tal ou qual commoção. No fundo, achou
de si para si desconfianças mal empregadas, e deixou-se levar pela
sympathia que em todos incutia o caracter naturalmente inoffensivo e
meigo do saxonio.

--Chegou, declarou Meyer, a hora da minha despedida.

E, sacudindo com força a mão e o braço do mineiro:

--Sr. Pereira, meu amigo, adeus! ... nunca mais nos havemos de ver ...
mas hei de lembrar-me do senhor toda a vida... Quando eu estiver na
minha patria, daqui a milhares e milhares de leguas ... pelo pensamento
recordarei os dias felizes ... que aqui passei.

--Oh! Sr. Meyer, balbuciou Pereira.

--Sim, felizes, continuou Meyer com muita lentidão, felizes porque
correram ... sem eu perceber que O tempo estava caminhando... De todo o
Brazil fica em mim a lembrança ... mas desta sua casa ... essa
lembrança é mais viva e mais forte.

Acompanhara o allemão o seu pensamento com accentuado gesto, acenando
com o punho fechado para mostrar a lealdade daquellas impressões.

Voltando-se para Cyrino, acrescentou:

--Sr. doutor, as suas receitas estão todas marcadas no meu caderno...
O senhor póde enganar-se ás vezes ... mas as suas intenções são
sempre boas ... e isso basta para desculpal-o... Eu...

Interrompendo o que ia dizendo, ficou instantes a olhar para Cyrino e
Pereira, que estavam igualmente silenciosos, e uma lagrima comprida
deslizou-se-lhe pela face, sem que a physionomia mostrasse a menor
alteração.

--Adeus! concluiu elle de repente.

--Boa viagem, Sr. Meyer, boa viagem, disse Pereira ajudando-o a montar a
cavallo.

--Adeus! adeus ... repetiu elle.

E interpellando o camarada:

--_Júque_, vá na frente!... Toque pouco no burrinho... Nosso pouso é
daqui a meia legua...

Deu Meyer então de redeas e caminhou a passo, logo após de José
Pinho, este munido de cabeçudo cacete evidentemente hostil ás costas
do cargueiro entregue aos seus cuidados.


[Ilustração: Lá vae o homem, exclamou Pereira.]


--Lá vae o homem, exclamou Pereira ao ver a tropinha pelas costas. É
um allivio... Elle, coitado, não era mau ... mas não tinha modos...
Safa, heide me lembrar para sempre do tal Sr. Meyer! Foi uma campanha...
Ué... Olhe, Sr. Cyrino... não está elle de volta?... Teria esquecido
alguma bugiganga?

Com effeito reapparecia a trote o allemão em carne e osso, como quem
vinha procurar ou dizer coisa de importancia.

--Então que tem? perguntou Pereira adeantando-se e alçando a voz.
Deixou algum trem? Daqui a pouco é _escurão_[106].

Meyer, no emtanto, ia chegando e de certa distancia entrou a explicar a
razão da volta:

--Não deixei cousa alguma, Sr. Pereira. Tão somente faltei a um
dever...

--Qual é? indagou o mineiro.

--Não me despedi de sua filha...

--Ah! replicou Pereira com vivacidade ... não era preciso ... tanto
mais que ella ... esta dormindo ... meio adoentada... Ha pouco tinha
muito peso na cabeça... Eu lhe heide dizer... Não se incommode...

--Pois então, observou Meyer com muita gravidade, diga-lhe que tem em
mim um criado, em toda a parte onde esteja... O seu nome ficou para
sempre na sciencia e a estima em que a tenho é grande... É uma moça
muito bella ... digna de ser vista na Europa...

--Pois não, pois não, interrompeu Pereira, vá sem susto.

--Sim, eu me vou, adeus!

--Vá indo ... olhe que o sol _dobra_ de repente aquelle matto e a noite
cae logo...

--Sim, sim, adeus, disse elle despedindo-se de uma vez.

E na estrada arêenta, á luz do astro que descambava, foi-se tornando
comprida a mais e mais a sombra do bom Meyer, á medida que elle
marchava atraz do seu camarada, do cargueiro e da collecção
entomologica.


[Nota 106: Escurão é o finalisar do crepusculo.]



CAPITULO XXIII

A ULTIMA ENTREVISTA


    Está a mascara da noite sobre
    meu rosto: a não ser ella, verias
    as minhas faces tintas do rubor
    virginal.

    SHAKESPEARE.--_Romeu e Julieta_, Acto II.

    Mais cresce a luz, mais augmentam
    as trevas das nossas
    desgraças.

    IDEM, _Acto IV_.


Grave modificação trouxe a retirada de Meyer no systema de viver
daquella vivenda, onde se agitava um dos problemas mais comezinhos da
natureza moral, mas que alli apresentava cores algum tanto carregadas,
senão já sombrias.

Fora Pereira dormir no interior da casa, passando alli a maior parte do
tempo. Assim os encontros dos dois apaixonados tornaram-se de todo
impossiveis e, não tendo mais a attenção do mineiro o alvo que sempre
collimara durante a estada do allemão, começava como era de prever, a
voltar-se para Cyrino, a quem confessou ter tratado Meyer com injusta
prevenção.

--Hoje, dizia o mineiro dóe-me a consciencia do modo porque desconfiei
daquelle homem... Quem sabe se tudo que eu parafusei não foi abusão cá
da cachola?... Sr. Cyrino, quando a gente entra a dar volta ao miolo ... é
que vê que todos tem queda para malucos... Sim senhor!... Hoje
estou convencido que o tal _allamão_ era bom e sincero... Olhou para a
menina ... achou-a bonitinha ... e disse aquelle _despotismo_[107] de
asneiras sem ver a mal... Em pessoa que não guarda o que pensa, é que
os outros se podem fiar... Ás vezes o perigo vem donde nunca se
esperou... Emfim não me arrependo muito de ter feito o que fiz...
Recebi ... e tomei tento...

Amiudando-se estes e outros dizeres eguaes, deram que reflectir a
Cyrino. De uma hora para outra comprehendeu que as vistas inquisitoriaes
poderiam tornar a sua posição insustentavel.

Por emquanto, tratou de encontrar-se com Innocencia. Grandes eram as
difficuldades; o meio unico, tentar novamente as entrevistas nocturnas;
pelo que do laranjal não arredava pé, noites e noites inteiras,
ficando alli com os olhos presos á janella da querida do coração.

Certa madrugada, viu afinal a sombra de Innocencia.

Achou-se num apice o mancebo junto della e agarrou-lhe com violencia nas
mãos.

--Emfim, exclamou elle, eu a vejo.

--Meu pae, murmurou a moça com voz tão fraca que mal se ouvia, póde
acordar...

--Não importa, replicou Cyrino desabrido, descubra-se tudo ... não
posso mais viver assim...

--Chi! observou ella, cuidado!.. Se elle nos acha aqui, mata-nos logo...
Olhe, vá-me esperar junto ao _corguinho_[108] para lá do laranjal ...
daqui a nada vou ter com mecê... A porta está só encostada...

O moço fez signal que obedecia e sumiu-se incontinente na escuridão do
pomar.

Aquella hora dava a lua de minguante alguma claridade á terra;
entretanto, como que se presentia outra luz a preparar-se no céu para
irradiar com subito esplendor e infundir animação e alegria á
natureza adormecida. Nos galhos das laranjeiras, ouvia-se o pipilar de
passaros prestes a despertar, um gorgeio intimo e aveludado de ave que
cochila; e ao longe um sabiá mais madrugador desfiava melodias que o
silencio harmoniosamente repercutia. Riscava-se o oriente de dubias
linhas vermelhas, prenuncio mal percebivel da manhã; nos espaços
pestanejavam as estrellas com brilho bastante amortecido, ao passo que
fina e amarellada névoa empallecia o tenue segmento illuminado do
argenteo astro.

Não era mais noite; mas ainda não era sequer a aurora.

Tão commovido se sentia Cyrino, que teve de sentar-se, emquanto
esperava por Innocencia.

Esta não tardou: vinha vestida de uma saia de algodão grosseiro e, á
cabeça, trazia uma grande manta da mesma fazenda cujas dobras as suas
mãos prendiam junto ao corpo. Estava descalça, e a firmeza com que
pisava o chão coberto de seixinhos e gravetos, mostrava que o habito
lhe havia endurecido a planta dos pés, sem lhes alterar, comtudo, a
primitiva elegancia e pequenez.

Parecia muito assustada, e, mau grado seu, dos olhos lhe rolavam
lagrimas a fio.

O mancebo, apenas a avistou, correu-lhe ao encontro.

--Innocencia, exclamou elle notando um gesto de duvida, nada receie de
mim... Heide respeita-la, como se fora uma santa... Não confia então
em mim?...

--Sim! disse ella apressadamente. Por isso é que vim até cá...
Entretanto, estou com a cara ardendo ... de vergonha...

E levando uma das mãos de Cyrino ás suas faces:

--Veja, Cyrino, como tenho o rosto em braza... Porque é que mecê veio
bulir commigo?... Eu era uma moça socegada ... agora, se mecê não
gostasse mais de mim ... eu morria...

--Deveras?

--Eu lhe juro... É mais facil apagarem-se de repente estas estrellas
todas, do que eu deixar de amal-a...

--E Manecão? perguntou ella com terror.

--Oh! esse homem, sempre esse nome maldito!...

--Hade ser meu marido...

--Isso nunca, Innocencia... É impossivel!... E se fugissemos?... Olhe
amanhã a estas mesmas horas ou mais cedo, trago para aqui dois bons
animaes... Você monta num, eu noutro ... batemos para Sant'Anna e, a
galope sempre, havemos de chegar a Uberaba ... onde acharemos um padre
que nos case... Vamos, ouviu?

--E mecê havia de me estimar _toda a vida_?

--Sempre... Diga, sim ... diga pelo amor de Deus, e estamos salvos ...
diga!...

--E meu pae, Cyrino? Que _havéra_ de ser?... Atirava-me a maldição ... eu
ficava perdida ... uma mulher de má vida ... sem a benção de
seu pae... Não ... mecê está me tentando... Não quero fugir... Antes
a desgraça para toda a existencia ... mas fique eu sendo o que meu nome
diz que sou... Já muito pecco, fazendo o que faço... Mecê é moço da
cidade: não lhe custa enganar uma creatura como eu... Até...

--Pois bem, interrompeu Cyrino, você não quer?... não falemos mais
nisso... Não heide querer, senão aquillo que achar bom... E se eu, por
fim, me decidir a falar a seu pae?

--Deus nos livre! retorquiu ella aterrada. Pensei a principio que pudera
ser, mas depois vi que era peior... Mecê não conhece o que é palavra
de mineiro ... ferro quebra, ella não... Manecão hade ser genro
delle...

--Quem sabe, Innocencia? Heide falar tanto ... pedir com tanta
humildade...

--Ché, que esperança! ... de nada serviria...

--Então, que fazer? bradou o moço. A que Santa agarrar-nos? Porque é
que o céu nos quer tanto mal?

E occultando a cabeça entre as mãos, desatou a chorar ruidosamente.
Innocencia, por seu lado encostou a fronte ao hombro do amante, e ambos,
unidos, choraram como duas creanças que eram.

Foi ella quem primeiro rompeu o silencio.

--Ah! meu Deus, se o padrinho quizesse!...

--Seu padrinho? perguntou Cyrino. Quem é? ... quem é elle?

--Um homem que mora para lá das Parnahybas, já nos terrenos Geraes.

--Onde?... É longe?...

Meio longe, meio perto... Mecê não conhece o _Pauda_[109]?

--Conheço... A 16 leguas do rio Paranahyba...

--Pois é ahi que padrinho _pára_[110]... A esquerda da fazenda do
Pauda, n'umas terras de sesmaria...

--E como se chama elle?

--Antonio Cesario... Papae lhe deve favores de dinheiro e faz tudo
quanto elle manda... Se dissesse uma palavra, Manecão havéra de ficar
atrapalhado...

--Oh! exclamou Cyrino com confiança, estamos salvos então!... Amanhã
mesmo, monto a cavallo e toco para lá... Daqui á villa são sete
leguas... Até lá, umas dezesete... É um passeio... Chego ...
conto-lhe tudo ... ponho-me de rastos aos seus pés ... e...

--Mas, interrompeu Innocencia, não lhe falle em mim, ouviu? Não lhe
diga que tratou commigo ... que commigo _mapiou_... Estava tudo
perdido... Invente umas historias ... faça-se de rico ... nem de leve
deixe _assumptar_ que foi por meu _juizo_ que mecê bateu a porta
delle... Hi! com gente desconfiada, é preciso saber _negacear_...

--Oh! meu Deus, disse Cyrino no auge da alegria, estamos salvos!... Não
ha duvida... Vejo agora como hade tudo acontecer... Depois de um dia ou
dois de parada na casa, _desembucho_ o negocio. O velho escreve uma
carta a seu pae e, pelo menos, se não se arredar logo o Manecão ...
ganha-se tempo... Eu já quizera estar montado na minha besta tordilha
queimada, a bater a estrada por ahi _afóra_... Dois dias para ir, dois
para voltar, dois ou tres de pousada... Com pouco mais de uma semana,
estou de volta, trazendo ou a felicidade ou a _caipora_ de uma vez.
Não! Tenho fé em Nossa Senhora da Abbadia... Ella nos ajudará ... e
juntos havemos ainda de cumprir a promessa que já fiz...

--Que _permessa_ foi? perguntou Innocencia com curiosidade.

--Irmos nós daqui até a villa a pé, botar duas velas bentas no altar
de Nossa Senhora.

--Sim confirmou a moça com fogo eu juro... Fosse até ao fim do
mundo!...

--Oh! minha santa do Paraizo, exclamou o moço apertando-a de encontro
ao peito, quanto você me ama!!

E assim abraçados, quedaram elles inconscientes, emquanto a aurora
vinha clareando o firmamento e desferindo para a terra raios indecisos
como que a sondarem a profundidade das trevas; em quanto os passaros
chilreavam á surdina, preparando as gargantas para o matutino concerto;
emquanto o orvalho subia da terra ao céu molhando o dorso das folhas
das grandes arvores e suspendendo, ás das rasteiras plantinhas, gottas
que scintillavam já como diamantes.

Ao longe, á beira de algum rio, as aracuans levantavam a sonora grita,
e o macauan atirava aos ares os pios prolongados da aspera garganta.

--É dia, observou Innocencia desprendendo-se dos braços de Cyrino.

--Já?! exclamou este amuado.

--Meu Deus, e eu que tenho de ir até a casa ... vou-me embora...

--Então, partirei hoje mesmo, disse o moço.

--Sim...

--E na semana que vem, estou de volta...

--Pois bem... Leve com mecê esta certeza: a minha vida ou a minha morte
depende do padrinho...

--A minha tambem, replicou o mancebo beijando com fervor as mãos de
Innocencia...

Deixe-me ... deixe-me, implorou ella. Adeus, estou com um medo!...
Felizmente ninguem me viu...

Nesse momento e, como que para responder á asseveração, de dentro do
pomar partiu aquelle fino assobio que tanto assombrara os amantes na
primeira das suas entrevistas.

Innocencia quasi cahiu por terra.

--Meu Deus! balbuciou ella, que agouro!... Quem sabe se não é gente?

Ao assobio seguiu-se uma especie de gargalhada, que gelou o sangue nas
veias dos dois miseros.

Agarrou-se a menina a Cyrino.

É alma do outro mundo, murmurou ella persignando-se.

Não perdera o mancebo o sangue frio. Invocando a São Miguel, fez o
signal da cruz na direcção dos quatro pontos cardeais; depois suspendeu
a moça em seus braços e, transpondo a toda a pressa o pomar, foi
depol-a junto á porta que estava entreaberta, naturalmente pelo vento.

Quase desmaiara Innocencia; entretanto, reunindo as forças pode entrar,
e cautelosa correu o ferrolho interior.

Mais sossegado a esse respeito, voltou Cyrino ao laranjal e, como da
primeira vez, pôz-se a percorrel-o em todos os sentidos, indagando, á
nascente claridade do dia, se era ente humano ou fantasma quem delle
parecia fazer joguete.

No momento em que passava por junto de uma laranjeira mais copada, viu
de repente certa massa informe cair-lhe quasi na cabeça e no meio de
folhas e ramos quebrados vir ao chão com surdo grito de angustia.

--Cruz! T'esconjuro! bradou o moço.

E, como uma visão, passou-lhe por perto uma creaturinha, desaparecendo
logo entre os troncos das arvores.

Alli esteve Cyrino com os cabellos eriçados, os olhos fixos, os braços
hirtos de terror, os labios seccos a tartamudear um exorcismo, e as
pernas a tremer.

Uma voz, a certa distancia, arrancou-o desse espasmo.

Era Pereira; com a mão encostada á bocca, interpelava a um dos seus
escravos.

--Faz fogo, José!... Se for alma do outro mundo ou lobisomem, a bala
não pega... Se for gente, melhor.

E um tiro troou.

Sibilou uma bala aos ouvidos de Cyrino, indo cravar-se numa arvore
proxima.

Por outra, não esperou elle. Com o favor da escuridão que ainda
reinava, deslisou rapido e foi buscar a frente da casa, quando já iam
acordando os camaradas.

Mal chegara á sala, appareceu-lhe Pereira á porta.

--Que foi isso? perguntou Cyrino compondo a physionomia.

--Lá sei, respondeu o mineiro. Uma matinada de gritos no laranjal, que
parecia um inferno... A pequena ficou toda que parecia querer morrer de
medo. Desconfio que a alma do collector[111] andou hoje me rondando a
casa... Não seja presagio de mal... A Senhora Sant'Anna nos proteja...

--Pois eu cá dormi como um chumbo, disse Cyrino; acordei com um tiro...

--Não hade poder enfiar outra somneca; daqui a um nadinha, está o sol
batendo no terreiro.

Com effeito, depressa caminhara o alvorecer, e debaixo daquellas vivas
impressões acordaram aquelles que haviam conciliado o somno, na morada
de Pereira.


[Nota 107: Grande quantidade.]

[Nota 108: Corregosinho.]

[Nota 109: Talvez seja o nome deste fazendeiro Padua. Entretanto é
geralmente conhecido por Pauda.]

[Nota 110: Mora.]

[Nota 111: Esse collector, de que fala Pereira e cuja alma anda, no
dizer dos sertanejos, vagando pelas solidões de Sant' Anna, era um
empregado publico, que foi processado e preso depois de provada a
concussão praticada n exercicio das suas funcções. Falleceu na
prisão, e como o Estado lhe sequestrou todos os bens, cahiram em
abandono a excellente casa e fazenda que formara a umas trinta leguas da
villa.]



CAPITULO XXIV

A VILLA DE SANT'ANNA


    Debaixo do céu ha uma cousa que
    nunca se viu: é uma cidade pequena
    sem falatorios, mentiras e bisbilhotices.

    LAVERGNE.


Nesse mesmo dia, montou Cyrino a cavallo e despediu-se de Pereira por
uma semana ou pouco mais dando por motivo de tão inesperada viagem,
não só a necessidade de visitar alguns doentes mais afastados, senão
tambem procurar, quer na villa, quer mesmo nos campos da provincia de
Minas Geraes, uns remedios e simplices que lhe iam faltando.

--Daqui a um terno de dias estarei de volta, disse ao partir.

Desde a casa de Pereira até ao Albino Lata é tão ensombrada e
agradavel a estrada, que essas tres leguas lhe foram muito faceis de
vencer.

Alli, porem, começam campos dobrados e soalheiros que, num estirão de
quatro leguas, até á villa de Sant'Anna tornam penosa a viagem,
sobretudo quando são percorridas sob os ardentes raios do sol do
meio-dia.

Exaltam-se e irritam-se os incommodos de espirito, no momento em que o
physico começa a soffrer.

Quando Cyrino passou por aquellas campinas desabrigadas, abrazado de
calor, desaminou completamente do exito da empreza a que se atirara.
Tanta esperança o alvoraçara quando ia seguindo a vereda encoberta e
amena, quanto desalento sentia agora; e, descoroçoado, deixava que
deixava que o animal o fosse levando a passo vagaroso e como que
identificado com a disposição de animo do cavalleiro.

--Que vou eu fazer? pensava quase alto... Como encetar aquella conversa?

Tamanha era a duvida que o salteava que chegou quase a blasfemar contra
a amada do seu coração.

--Maldita a hora em que vi aquella mulher... Seguia eu sossegado o meu
rumo ... botaram-me a perder os seus olhos!... Depois, exclamou
contrito:

--Perdão, Innocencia! perdão, meu anjo! Estou a amaldiçoar a hora da
minha felicidade... Eu, que sou homem, posso fugir ... deixar-te ... mas
tu, amarrada à casa... Infeliz, fui o culpado!...

E, engolfado em dolorosa cogitação, alcançou a Vila de Sant'Anna do
Paranahyba.

De longe é summamente pitoresco o primeiro aspecto da povoação.

Ponto terminal do sertão de Matto Grosso, assenta no abaulado dorso de
um outeirozinho. O que lhe dá, porem, encanto particular para quem a
vê de fora, é o extenso laranjal, coroado anualmente de milhares de
aureos pomos, em cuja folhagem verde-escura se encravam as casas e
ressalta a cruz da modesta igreja matriz.

Transpondo limpido regato e vencida pedregosa ladeira com casinholas de
sapé á direita e á esquerda, chega-se á rua principal, que tem por
mais grandioso edificio espaçosa casa de sobrado, de construção
antiquada. Ornamenta-a uma varanda de ferro e um telhado que se adianta
para a rua, como a querer abrigal-a em sua totalidade dos ardores do
sol.

É ahi que mora o Major Martinho de Melo Taques, baixote, rechonchudo,
corado.

Na sua loja de fazendas, ao rez do chão, reune-se a melhor gente da
localidade, para ouvil-o dissertar sobre politica, ou narrar a guerra
dos farrapos no Rio Grande do Sul e a vida que se leva na côrte do Rio
de Janeiro, onde estivera pelos annos de 1838 a 1839.

De vez em quando, naquella silenciosa rua em que tão bem se estampa o
typo melancolico de uma povoação acanhada e em decadencia, apparece
uma ou outra tropa carregada, que levanta nuvens de pó vermelho e
atrahe ás janellas rostos macilentos de mulheres, ou á porta creanças
pallidas das febres do Rio Paranahyba e barrigudas de comerem terra.

Tambem aos domingos, à hora da missa, por alli cruzam mulheres velhas,
embrulhadas em mantilhas, acompanhando outras mais mocinhas, que trajam
capote comprido até aos pés e usam daquelles pentes andaluzes, de moda
em tempos que já vão longe.

Atravessou Cyrino a vila, e passando por defronte do Sr. Taques saudou-o
com a mão, e sem parar.

Estava o major, como de costume, sentado ao balcão, de chinelos, sem
meias, e rodeado das pessoas gradas do lugar, a contar não só as
proprias proezas, que muitas tinha aquelle estimavel cidadão, senão
tambem as façanhas dos antigos sertanejos, historias que sabia na ponta
da lingua.

--Lá vae o doutor, disse um dos presentes á palestra da loja.

--Oh Sr. Cyrino! interpelou o major correndo para a porta. Então que é
isso? Por aqui?

--É verdade, respondeu Cyrino, e vou de passagem; tambem por pouco
tempo; talvez nesses oito ou dez dias esteja de volta.

Tudo quanto enchia a salinha havia sahido para a rua, de modo que o
moço ficou logo cercado. Recostavam-se uns quasi á anca do animal;
afagavam-lhe outros a pá do pescoço ou brincavam com o freio.

Achava-se a curiosidade aguçada: era preciso dar-lhe pasto.

Comprehendeu o major o alcance da situação.

--Cada qual tem os seus negocios particulares, disse logo para começar;
mas, se não ha segredo que quer dizer esta sua volta?

--Já devia estar bem longe de _acá_, observou um sujeito. Ha quasi
dois meses que _parou_ aqui na _cidade_ e...

--Espere, interrompeu o vigario, não ha tal dois mezes. O doutor passou
por esta rua ha um mez e vinte dois dias, ás oito horas da manhã.

--Pois bem, continuou o major, tinha tempo de sobra para estar já por
bandas de Miranda...

--Isso, se fosse escoteiro, replicou Cyrino, reparem que levava
cargas ... e, demais, viajava curando...

--É verdade! confirmou o collector (homem esguio, que trazia um chapéu
muito alto e afunilado), não pensam nisso. O que querem é falar ...
falar...

--Creio que o senhor não atira a mim, observou o vigario com ar
rusguento.

--Quem em tal cuida, senhor padre? protestou logo o outro. Estou dizendo
em geral... Em geral. Eu não...

--Mas, doutor, atalhou o major, onde esteve o senhor de molho este
_tempão_ todo? ... nalguma fazenda?

Prometia ir longe o interrogatorio.

--Eu já estava quase perto do Sucuriú, disse Cyrino meio perturbado,
no...

--Não é tão perto assim, objectou o vigario. Uma vez...

--Ouçamos, senhor padre, atalhou o collector denunciando rixa velha com
o clerigo. O moço não disse que seja perto daqui...

Repetiu o major as palavras de Cyrino, acentuando-as de certo modo:

--Então o doutor já estava quasi perto do Sucuriú, não é?

--De facto. Alli encontrei uma pessoa que me devia, há mezes um
dinheiro...

--Um dinheiro? perguntou o vigario. Uma pessoa?... Que pessoa? Quem
será?

--Homem, quem poderá ser? indagaram a um tempo vozes sofregas.

Prosseguiu o major implacavel:

--Deixem o doutor explicar-se... Vocês fazem logo uma algazarra!...

Foi quasi a balbuciar que Cyrino procurou continuar:

--Sim ... certo tropeiro ... mandou ordem para _mim_ cobrar ... de um
parente uma _bolada_... Tambem eu tinha que ... pagar outra pessoa ...
que...

--Espere, espere, interrompeu o major, então o senhor veio receber
dinheiro ou desembolsar? Não é uma e a mesma coisa...

--Por certo, apoiaram os circunstantes.

Cyrino fez repentina parada nas suas explicações.

--Tambem, disse com alguma volubilidade, muito breve estarei voltando
cá. Tenho de ir para lá do rio...

--Vai até as Melancias? Indagou o collector ageitando o nome de um
pouso para ver se acertava.

--Mais adiante, respondeu o moço. E vendo a impossibilidade de escapar
de tão terrivel inquirição, mudou de tactica.

--Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas
fazendas...

Na volta, disse ele dirigindo ao major, hei de lhe comprar algumas
fazendas...

--Já adivinhei, exclamou o vigario cortando a palavra a Cyrino, o
doutor vae casar.

--Ora, chasquearam alguns, para que tanto segredo?... Ninguem lhe vae
roubar a noiva!...

--Sobretudo quando as coisas têm de me vir parar ás mãos, ponderou o
padre.

Por instante, deram o acanhamento e o silencio de Cyrino azo a muitas
observações.

--Parabens! dizia um.

--Quem é essa feliz sertaneja? perguntaram outros.

--Juro-lhes, meus senhores, protestou o moço, não ha nada...

Prosseguiu o padre:

--Pois, se quer um conselho, apresse isso; de uma cajadada matarei dois
coelhos... É o senhor e o Manecão.

--Na verdade, concordaram os presentes.

--Mas, onde se metteu elle? perguntou um delles.

--Ha pouco estava aqui...

--Quem? o Manecão?

--Sim...

--Alli vem elle! anunciou alguem

No fim da rua, apparecia, com efeito, um homem montado em fogoso cavallo
que sofreava com firmeza e mão adestrada.

Era a personificação do capataz de tropa.

Cabellos compridos e emmaranhados, ar selvatico e sobranceiro, tez
queimada e vigorosa musculatura constituiam um tipo que atraia de
prompto a attenção.

Mettidos os pés numa especie de polainas de couro cru de veado, grandes
chinelas de ferro, lenço vermelho atado ao pescoço, garruchas nos
coldres da sella e chicote de cabo de osso em punho, tudo indicava o
tropeiro no exercicio da sua lida.

--Nosso Senhor ... comvosco, disse ao chegar erguendo ligeiramente a aba
do chapéu com a ponta do dedo indicador.

--Bons dias, Sr. Manecão, respondeu por todos o major, ou melhor, boas
tardes. Já sei que desta feita vae de batida..

--Boa duvida, grasinou o vigario, vai ver a pequerrucha.

Sorriu-se o capataz com melancolia:

--Não é por isso Sr. vigario. Não me deixo _anarchizar_[112] por
mulheres; mas, emfim a gente deve um dia deitar a poita... A vida é uma
viagem...

Haviam Cyrino e Manecão ficado no meio dos curiosos.

Fitaram-se: um, indifferente e altivo no modo de encarar; outro,
descorado meio tremulo.

--Este _cujo_ é o _cirurgião_? Perguntou à meia voz Manecão
adernando no sellim para o lado do collector. A Cula[113] da venda me
disse que tinha chegado... Tem-me cara de _enjoado_[114].

--Chi! retrucou o outro, mas _tem cabeça_[115]. Por ahi fez um
_despotismo_ de curas.

Cyrino, notando que tratavam delle, comprimentou com um sorriso de
amabilidade.

--Boa tarde, patricio.

--Ora viva, correspondeu o tropeiro em tom aspero.

E, olhando para o sol, acrescentou:

--Vejam lá o que é um homem estar como mulher ... a bater lingua... A
tarde vem descendo, e muito tenho hoje que palmear... Minha gente,
adeus... Sr. major, até mais ver... Sr. vigario, breve estou por cá...

Esporeou o animal o circulo abriu-se, e Manecão partiu em boa marcha.

Aproveitando, por seu turno, aquella sahida rapida, que rompera a cadeia
dos que o rodeavam, apertou Cyrino a mão do major e tomou rumo do Rio
Paranahyba, em cuja margem contava passar a noite.

Mal desapparecera, e choveram commentarios que nem saraiva.

--Notou o senhor, disse o vigario para o major, como esta mudado? ... todo
_jururú_...

--Nem tanto, contrariou o collector, nem tanto...

O Sr. Taques, major e juiz de paz, tomou ar de profunda meditação.

--Hão-de os senhores ver, disse por fim levantando um dedo para o ar,
que ahi ha dente de coelho...

Durante aquella noite e muitos dias subsequentes, repetiu a villa todas
estas celebres palavras.

--Foi o major quem o disse, asseveravam convictos, alli há dente de
coelho.


[Nota 112: Dominar, desmoralisar.]

[Nota 113: Modificação familiar de Clotilde.]

[Nota 114: Enjoado é qualitativo muito usado na provincia de Goyaz. Tem
muitas accepções, desde engraçado, tolo, até impostor, vaidoso.]

[Nota 115: Tem muitos conhecimentos.]



CAPITULO XXV

A VIAGEM


    Ás vezes sinto necessidade de
    morrer, como pessoas acordadas
    sentem necessidade de
    dormir.

    MME DU DEFFAND.

    Encantador paiz! Teu aspecto,
    teus solitarios bosques, ar puro
    e balsamico, tem o poder de
    dissipar toda a sorte de tristezas,
    menos a da perda da
    esperança.

    CARLOTA SMITH.


Cyrino em pouco mais de uma hora, transpôz a distancia da povoação ao
rio. Tambem, na legua e quarto que até lá medeia, só ha de ruim o
trecho em que fica a floresta que borda as margens da magestosa
corrente.

Nessa matta, trazem os troncos das arvores vestigio das grandes
enchentes; o terreno é lodacento e ennatado; centro de putrefacção
vegetal donde irradiam os miasmas que, por occasião da retirada das
aguas, se formam em dias de calor abrazador e suffocante.

Abundam alli coqueiros de stipite curto e folhuda corôa chamados
_aucurys_, a que rodeiam numerosas lagoinhas de agua empoçada e coberta
de limo.

Em nada é, pois, aprazivel o aspecto, e a lembrança de que alli
imperam as temidas sezões faz que todo o viajante apresse a travessia
de tão tristonhas paragens.

Ouve-se a curta distancia o ruido do rio que corre largo, claro e com
rapidez.

Como duas verdes orlas reflectem-se no espelhado da superficie as
elevadas margens, a cujo sopé moitas de _sarandys_, curvadas pelo
esforço das aguas e num balancear continuo, produzem doce marulho.

Causa-nos involuntario scismar a contemplação de grande massa liquida
a rolar, a rolar mansamente, tangida por força occulta.

Bem como a ondulação incessante e monotona do oceano agita a alma,
assim tambem aquelle perpassar perenne, quasi silencioso, de uma
corrente caudal, insensivelmente nos leva a meditar.

E quando o homem medita, torna-se triste.

Franca e espontanea é a alegria, como todo o facto repentino da
natureza. A tristeza é uma vaga aspiração metaphysica, uma elação
inquieta e quasi dolorosa acima da contingencia material.

Ninguem se prepara para ficar alegre. A melancolia, pelo contrario, aos
poucos é que chega, como effeito de phenomenos psychologicos a
encadear-se uns nos outros.

De que modo nasceu aquella enorme móle de aguas? Donde veiu? Para onde
vae? Que mysterios encerra em seu seio?

Largo tempo ficou Cyrino a olhar para o rio. Em sua mente tumultuavam
negros pensamentos.

Já se havia diffundido o crepusculo, e bandos folgazões de
_quero-queros_ saudavam os ultimos raios de sol e despertavam os écos
em descommunal gritaria. De vez em quando, passava algum pato selvagem,
batendo pesadamente as azas; sobre as aguas, adejavam garças estirando
e encolhendo o niveo collo e pombas, aos centos, cruzavam de margem a
margem a buscar inquietas o pouso de querencia.

Foi a luz gradativamente morrendo no céu, seguida de perto pelas
sombras; e o rio tomou aspecto uniforme; como se fora immensa lamina de
prata não brunida.

--Emfim, conheci o Manecão! pensava Cyrino. E para esse é que reservam
a minha gentil Innocencia?!... Bonito homem para qualquer ... para mim,
para ella, horrendo monstro!... E como é forte!...

Digamol-o, sem por isso amesquinhar o nosso heróe, a idéa de força no
rival acabrunhava-o.

--Se eu pudesse ... esmagava-o!... E que ar sombrio e desconfiado!...
Meu Deus, dae-me coragem ... dae-me esperanças... Nossa Senhora da
Abbadia!... Nosso Senhor da Canna Verde ... valei-me!...

E o mancebo, deante daquella natureza acabrunhadora a quem tanto
importava a paixão que lhe atenazava o peito, como o insecto a chilrar
debaixo da folha de humilde herva, cahiu de joelhos, orando com fervor
ou, melhor, desfiando automaticamente as preces que sua mãe lhe havia,
em pequeno, ensinado.

E o rio lá se ia sereno; e uma onça ao longe urrava, ou algum passaro
da noite soltava gritos de susto, esvoaçando ás tontas.

     *     *     *     *     *     *     *

Transpondo, na manhã seguinte, o rio Paranahyba, pisou Cyrino
territorio de Minas-Geraes.

Depois de legua e meia em matta semelhante á da margem direita,
abrem-se campos dobrados, um tanto crestados do sol, de aspecto pouco
variado, mas abundantissimos em perdizes e codornas.

Tão preoccupado levava o moço o espirito que, nem sequer uma só vez,
imitou o pio daquellas aves; distracção, a que aliás não se furta
quem por lá viaja, tão instantes são os motivos de instigação.

Foi com impaciencia mais e mais crescente que percorreu as dezeseis
leguas intermedias á fazenda do Padua.

Ia com o coração cheio de aprehensões e os olhos se lhe arazavam de
lagrimas, de cada vez que contemplava o melancolico bority. Então pelo
pensamento voava á casa de Innocencia. Tambem, alli junto ao corrego em
cuja borda se déra a ultima entrevista, se erguia uma daquellas
palmeiras, rainha dos sertões.

Que estaria fazendo a querida dos seus sonhos?

Que lhe aconteceria? E Manecão?! Já teria lá chegado?

Ao pensar nisto, augmentava-se-lhe a agitação e com vigor esporeava a
cavalgadura.

Transformava-se para elle o caminho em dolorosa via, que numa vertiginosa
carreira quizera vencer, mas que era preciso ir tragando pouso a pouso,
ponto por ponto.

A magestosa impassibilidade da natureza exasperava-o.

Quando o homem soffre devéras, desejara nos raptos do allucinado
orgulho, ver tudo derrocado pela furia dos temporaes, em harmonia com a
tempestade que lhe vae no intimo.

--Meu Deus! murmurava Cyrino, tudo quanto me rodeia está tão alegre e
é tão bello! Com tanta leveza voam os passaros: as flores são tão
mimosas; os ribeirões tão claros ... tudo convida ao descanço ... só
eu a padecer! Antes a morte... Quem me dera arrancar do coração este
peso! esta certeza de uma desgraça immensa! Que é afinal o amor!...
Daqui a annos talvez nem me lembre mais da pobre Innocencia... Estarei
me atormentando á tôa... Oh não! Essa menina é a minha vida! é o
meu sangue ... o meu pharol para os céus... Quem m'a rouba, mata-me de
uma vez. Venha a morte ... fique ella para chorar por mim ... um dia
contará como um homem soube amar!...

Levantara Cyrino a voz. De repente, deu um grande grito, como que o
suffocava:

--Innocencia!... Innocencia!

E as sonoridades da solidão, doceis a qualquer ruido, repetiram aquelle
adorado nome, como repetiam o uivo selvatico da çuçuarana, a nota
plangente do sabiá ou a martellada metallica da araponga...

Como tudo, afinal, tem termo, alcançou Cyrino, no quarto dia, a casa de
Antonio Cesario. Acolheu-o este com toda a amabilidade e franqueza.



CAPITULO XXVI

RECEPÇÃO CORDIAL


    Assignalemos este dia entre
    os mais felizes; não se poupem
    amphoras; e, como Sabios,
    descanso não demos aos
    nossos pés.

    HORACIO.--_Ode XXVI._


Em breve chegara Manecão á casa do futuro sogro.

Não é grande a distancia de Sant'Anna até lá, e entretanto o animal
brioso e descansado que montava o tropeiro viera sempre estimulado do
ferreo acicate.

Batia de impaciencia o coração do capataz, e a lembrança da formosa
noiva que o esperava, enchia-o de desconhecido alvoroço. Tambem, por
vezes, fugia-lhe do rosto o toque habitual de severidade, e tenue
sorriso afastando a custo os densos bigodes, lhe pairava nos labios.

Acolheu-o Pereira com verdadeira explosão de alegria.

--Viva! viva! exclamou de longe acenando com os braços, seja bemvindo
neste rancho... Ora, até que afinal!... Faltam _rojões_ para festejar
a sua chegada... Que demora!... Pensei que não topava mais com o
caminho da casa... _Nocencia_ vae pular de contente...

Emquanto o mineiro enfiava estas palavras quasi em gritos, apeou-se o
sertanista que, de chapéu na mão, veiu pedir-lhe a benção.

--Deus o faça um santo, disse Pereira abençoando-o com fervor. Você
não queria chegar...

--Como vae a dona? perguntou Manecão.

--Agora, muito bem. Teve sezões; mas já está de toda boa...

--E lembrou-se de mim?

--Olhe, que _enjoado_!... Pois se elle enfeitiça a gente... Eu mesmo só
pensava em você... Quando estará por cá aquelle marreco? dizia eu commigo
mesmo ... e botava uns olhos compridos por essa estrada a fora ... quando
mais, mulher! Isto é um não acabar nunca de saudades. Mas,
observou elle, estamos a bater lingua e não o faço entrar...
_Agorinha_ mesmo, _Nocencia_ foi para o corrego... Desensilhe o _pingo_
e deixe-o por ahi...

Fez Manecão o que disse Pereira. Tirou os arreios, não de subito, mas
com cautela e lentidão para que o animal, encalmado como estava, não
ficasse _airado_: deixou sobre o lombo a manta e, apanhando um sabugo de
milho, esfregou de vagar a anca e o pescoço.

Depois de dar termo áquelles cuidados, penetrou na casa fazendo soar
ruidosamente as esporas, que pelas dimensões desproporcionadas o
obrigavam a caminhar firmado nos dedos do pé e com a planta levantada.

O mineiro não cabia em si de contente.

--Então, está tudo arranjado? perguntou alegremente.

--Tudo. Os papeis já foram tirados... Tive que ir até Uberaba, e foi o
que me atrazou... Quando mecê queira ... botamo-nos de partida para a
Senhora Sant'Anna... Amanhã cá chegam os cavallos que comprei... Está
falado o Lata ... o vigario avisado; só ... falta o dia...

--Nestes casos, quanto mais depressa melhor... Não acha?

--Certo que sim...

--Então, se quizer, daqui a dois domingos...

--Como queira... Eu, cá por mim... Bem sabe, isto de _casorios_, o que
custa é ... tomar resolução ... depois ... deve-se _pegar_ na
carreira... A rapariga está prompta?...

--Não sei ... hade estar... Vejo-a sempre cosendo... Quero ficar bem
certo do dia, porque mando chamar a gente do Roberto... Afinal, é
preciso matar a porcada e mandar buscar _restillo_[116]. Quando
se casa uma filha e ... filha unica, as algibeiras devem ficar
_velleiras_[117]... Já estão todos combinados ... é só dar o
signal... Tudo se arma logo... Aqui, em frente da casa, faz-se um grande
rancho... A latada para a _janta_ hade ser no oitão direito... Já
encommendei de Sant'Anna alguns rojões, e o mestre Trabuco prometteu-me
uns que deitam lagrimas... Depois, tiros de bacamarte e _ronqueiras_
hão de troar...

--Eu, interrompeu Manecão, mandei com a sua licença vir da _cidade_
duas duzias de garrafas de vinho da casa do major...

--Olaré! Você metteu-se em gastos!... Duas duzias de garrafas de
vinho?

--Nhôr-sim...

--Pois essas, meu caro, hão de ser reguladinhas da _silva_... Para o
vigario ... para o major ... o collector ... o professor ... emfim,
gente de alguma representação, porque com ella conto, sem falar na
_arraia miuda_. Isso ha de haver um _despotismo_. Quero que, dez dias
antes da _fonçonata_ venha a comadre do Ricardo com o seu povaréu para
prepararem sequilhos, tarecos, bróas, biscoitos de polvilho e
_brevidades_[118]. Haverá regalo de _chicolate_[119] todas as manhãs...
Você verá que desta festa falarão... E o _sapateado_ á noite? Os
descantes?... Talvez se possa arranjar um _cururú_ valente...

--Mas, perguntou Manecão, qu'é de sua filha?

Riu-se Pereira.

--Maganão! não pensa noutra coisa, hen? Tambem fui _ansim_ ... cada
qual tem o seu tempo... Isto é regra de Nosso-Senhor Jesus-Christo.

E, sahindo para o terreiro, gritou com força, fazendo das mãos buzina:

--_Nocencia_!... _Nocencia_!...

Não teve resposta.

--Coitadinha da pequena, disse elle, ha de saltar que nem veadinha,
quando voltar do rio.

E accrescentou:

--Já que ella não vem ... entremos. Você é de casa: tome por cá e
chegue até o meu quarto... Rede e pelles macias não faltam.

Ao dizer estas palavras, Pereira bateu amigavelmente no hombro de
Manecão e fel-o seguir para o lanço do fundo da casa.


[Nota 116: _Restillo_ é a aguardente distillada. No interior
empregam-se estas palavras como synonymas.]

[Nota 117: _Velleiras_, isto é, faceis no abrir.]

[Nota 118: Especie de pão de milho em que entram claras de ovo.]

[Nota 119: _Chicolate_ é café com leite e ovos batidos.]



CAPITULO XXXVII

SCENAS INTIMAS


    Santa Maria, advogada nossa,
    ouvi nossos rogos. Virgem
    pura, ante Vós se prostra uma
    infeliz donzella.

    WALTER SCOTT.--_Os dois desposados._


Descrever o abalo que soffreu Innocencia ao dar, cara a cara, com
Manecão fora impossivel. Debuxaram-se-lhe tão vivos na physionomia o
espanto e o terror, que o reparo, não só da parte do noivo, como do
proprio pae habitualmente tão despreoccupado, foi repentino.

--Que tem você? perguntou Pereira apressadamente.

--Homem, a modos, observou Manecão com tristeza, que metto medo á
senhora dona...

Batiam de commoção os queixos da pobresinha; nervoso estremecimento
balanceava-lhe o corpo todo.

A ella se achegou o mineiro e pegou-lhe no braço.

--Mas você não tem febre?... Que é isto, rapariga de Deus?

Depois, meio risonho e voltando-se para Manecão:

--Já sei o que é... Ficou toda fóra de si ... vendo o que não
contava ver... Vamos, _Nocencia_, deixe-se de tolices.

--Eu quero, murmurou ella, voltar para o meu quarto.

E encostando-se a parede, com passo vacillante se encaminhou para
dentro.

Ficara sombrio o capataz.

De sobrecenho carregado, recostara-se á mesa e fôra, com a vista,
seguindo aquella a quem já chamava esposa.

Sentou-se defronte delle Pereira com ar de admiração.

--E que tal? exclamou por fim... Ninguem pode contar com mulheres,
_iche_!

Nada retorquiu o outro.

--Sua filha, indagou elle de repente com voz muito arrastada e parando a
cada palavra, viu alguem?

Descorou o mineiro e quasi a balbuciar.

--Não ... isto é viu ... mas todos os dias ... ella vê gente...
Porque me perguntas isso?

--Por nada...

--Não:... explique-se... Você faz assim uma pergunta que me deixa um
pouco ... _anarchizado_. Este negocio é muito, muito serio. Dei-lhe
palavra de honra que minha filha _havéra_ de ser sua mulher ... a
_cidade_ já sabe e ... commigo não quero historias... É o que lhe
digo.

--Está bom, replicou elle, nada de precipitações. _Toda a vida_ fui
_ansim_... Já volto: vou ver onde _pára_ o meu cavallo.

E sahiu, deixando Pereira entregue a encontradas supposições

Decorreram dias sem que os dois tocassem mais no assumpto que lhes moia
o coração. Ambos, calmos na apparencia, viviam vida commum, visitavam
as plantações, comiam juntos, caçavam, e só se separavam a hora de
dormir, quando o mineiro ia para dentro e Manecão para a sala dos
hospedes.

Innocencia não apparecia.

Mal sahia do quarto, pretextando recahida de sezões: entretanto, não
era o seu corpo o doente, não; a sua alma, sim, essa soffria morte e
paixão; e amargas lagrimas, sobretudo a noite, lhe inundavam o rosto.

--Meu Deus, exclamava ella, que será de mim? Nossa-Senhora da Guia me
soccorra. Que pode uma infeliz rapariga dos sertões contra tanta
desgraça? Eu vivia tão socegada n'este retiro, amparada por meu
pae ... que agora tanto medo me mette... Deus do ceu, piedade, piedade.

E de joelhos, deante de tosco oratorio allumiado por esguias velas de
cera, orava com fervor, balbuciando as preces que costumava recitar
antes de se deitar.

Uma noite, disse ella:

--Quizera uma reza que me enchesse mais o coração ... que mais me
alliviasse o peso da agonia de hoje...

E, como levada de inspiração, prostrou-se murmurando:

--_Minha Nossa Senhora_ mãe da Virgem que nunca peccou, ide deante de
Deus. Pedi-lhe que tenha pena de mim ... que não me deixe assim nesta
dor cá de dentro tão cruel. Estendei a vossa mão sobre mim. Se é
crime amar a Cyrino, mandai-me a morte. Que culpa tenho eu do que me
succede? Rezei tanto, para não gostar deste homem! Tudo ... tudo ...
foi inutil! Porque então este supplicio do todos os momentos? Nem
sequer tem allivio no somno? Sempre elle ... elle!

Ás vezes, sentia Innocencia em si impetos de resistencia: era a
natureza do pae que acordava, natureza forte, teimosa.

--Hei de ir, dizia então com olhos a chamejar, á igreja, mas de
rastos! No rosto do padre; gritarei: Não, não!... Matem-me... mas eu
não quero...

Quando a lembrança de Cyrino se lhe apresentava mais viva, estorcia-se
de desespero. A paixão punha-lhe o peito em fogo...

--Que é isto, Santo Deus? Aquelle homem me teria botado um mau olhado?
Cyrino, Cyrino volta, vem tomar-me ... leva-me! ... eu morro! Sou tua,
só tua ... de mais ninguem.

E cahia prostrada no leito, sacudida por arrepios nervosos.

Um dia, entrou inesperadamente Pereira e achou-a toda lacrymosa.

Vinha sereno, mas com ar decidido.

--Que tem você, menina, perguntou elle, meio terno, de alguns dias para
cá?

Innocencia encolheu-se toda como uma pombinha que se sente agarrar.

Puxou-a brandamente o pae e fel-a sentar no seu collo.

--Vamos, que é isto, _Nocencia_? Porque se _socou_ assim no quarto?...
Manecão lá fóra a toda a hora está perguntando por você ... isto
não é bonito... É, ou não, o seu noivo?

Redobraram as lagrymas.

--Mulher não deve atirar-se á cara dos homens ... mas também é bom
não se _canhar_ assim ... É de _enjoada_... Um marido quasi, como elle
já é...

De repente o pranto de Innocencia cessou.

Desvencilhou-se dos braços do pae e, de pé deante delle, encarou-o com
resolução:

--Papae sabe porque tudo isto?

--Sim...

--É porque eu ... não devo...

--Não devo o que?

--Casar.

Arregalou Pereira os olhos e de espanto abriu a boca.

--Que? perguntou elle elevando muito a voz. Comprehendeu a pobresinha
que a lucta ia travar-se. Era chegado o momento.

Revestiu-se de toda a coragem.

--Sim, meu pae, este casamento não deve fazer-se...

--Você está doida? observou Pereira com fingida tranquilidade.

Prosseguiu então Innocencia com muita rapidez, as faces incendiadas de
rubor:

--Conto-lhe tudo papae... Não me queira mal... Foi um sonho... O outro
dia, antes de Manecão chegar, estava sesteando e tive um sonho... Neste
sonho, ouviu, papae? minha mãe vinha descendo do céu... Coitada!
estava tão branca que mettia pena... Vinha _bem limpa_, com um vestido
todo azul ... leve, leve!

--Sua mãe? balbuciou Pereira tomado de ligeiro assombro.

--Nhôr sim, ella mesma...

--Mas você não a conheceu! Morreu, quando você era pequetita...

--Não faz nada, continuou Innocencia, logo vi que era minha mãe...
Olhava para mim tão amorosa!... Perguntou-me: _Cadê_ seu pae? Respondi
com medo. Está na roça; quer mecê, que elle venha?--Não, me disse
ella, não é _perciso_; diga-lhe a elle que eu vim até cá, para não
deixar Manecão casar com você, porque hade de ser infeliz ...
muito!... muito!...

--E depois? perguntou Pereira levantando a cabeça com ar sombrio,
gyrando os olhos.

--Depois ... disse mais... Se esse homem casar com você, uma grande
desgraça hade entrar ... nesta casa que foi minha e onde não haverá
mais socego. Bote seu pae bem sentido nisso. E sem mais palavra,
sumiu-se como uma luz que se apaga.

Cravou Pereira olhar inquiridor na filha.

Uma suspeita lhe atravessou o espirito.

--Que signal tinha sua mãe no rosto?

Innocencia empallideceu.

Levando ambas as mãos á cabeça e prorompendo em ruidoso pranto,
exclamou:

--Não sei ... eu estou mentindo ... Isto tudo é mentira! É mentira!
Não vi minha mãe!... Perdão, minha mãe, perdão!

E, cahindo de bruços sobre a cama, ficou immovel com os cabellos
esparsos pelas espaduas.

Contemplou-a Pereira largo tempo sem saber que pensar, que dizer.

Subito se inclinou sobre o corpo da filha e ao ouvido lhe segredou com
muita energia:

--_Nocencia_, daqui a bocadinho Manecão chega da roça... Você hade ir
para a sala ... se não fizer boa cara, eu a mato.

E erguendo a voz:

--Ouviu? Eu a mato!... Quero antes vel-a morta, estendida, do que ... a
casa de um mineiro deshonrada...

Ás pressas sahiu do quarto, deixando Innocencia na mesma posição.

--Pois bem murmurou ella, já que é preciso ... morra eu!



CAPITULO XXVIII

EM CASA DE CESARIO


    Ah! a perspectiva que pode
    mais docemente sorrir ao meu coração
    é a do aniquilamento.

    KLOPSTOCK.--_A Messiada._


Cyrino logo que se estabeleceu em casa do seu novo hospedeiro, tratou de
lhe captar as sympathias. Medicou um escravo que estava de cama, fez
valer o conhecimento e amizade que tinha com Pereira, conversou muito a
respeito delle e incidentemente deu noticias de Innocencia.

Atalhou-o Antonio Cesario neste ponto.

--Mecê a viu? perguntou elle.

--Pois não, respondeu o moço, por signal que a curei de sezões.

--Ah! É uma guapa rapariga...

--Parece-me...

--Isso é ... falo assim, porque afinal ... daqui a poucos dias está
casada ... não sabe?

--Ouvi contar.

--Pois é verdade. O noivo passou por cá e levou a minha licença. É
homem de mão cheia. A pequena deve estar contente. Ah! nem todas no
sertão são felizes assim. Tem-se por aqui o mau vezo de arranjar
casamentos ás cégas, e ás vezes, se _encambulha_ um mocetão com uma
fanadinha ou então uma sujeita de encher o olho com algum rapaz todo
engorovinhado... Cruz! E, uma vez dada a palavra, acabou-se...

Achou Cyrino a occasião propria e redarguiu com vivacidade:

--Então o senhor não é desse parecer?

--Conforme, respondeu logo Cesario com reserva. Aos paes é que convem
_inziminar_ essas coisas.

--Boa duvida... Mas ... se ... sua afilhada ... não gostasse de
Manecão?

--Não gostasse?

--Sim.

--E que nos importa isso? Uma menina como ella não sabe o que lhe fica
bem ou mal... Ninguem a vae consultar. Mulheres, o que querem é casar.
Não ouviu já o patricio dizer que ellas não casam com carrapato,
porque não sabem qual é o macho?

E Cesario sorriu.

Depois, fechando de repente a cara, perguntou:

--Porque é que estamos a dar de lingua nesse particular? Não sou amigo
disso. Quer-me parecer que mecê é um tanto namorador...

--Eu? protestou Cyrino com vivacidade.

--Boa duvida. Eu cá nem falar nellas quero. Mulher é para viver muito
quietinha perto do tear, tratar dos filhos e creal-os no temor de Deus;
não é nem para _parolar-se_ com ella, nem a respeito della.

Sempre as mesmas theorias de Pereira: a mesma grosseria repassada de
desprezo ao sexo fraco, a mesma susceptibilidade para desconfiar de
qualquer pessoa ou de qualquer palavra que lhes parecesse menos bem
soante aos prevenidos ouvidos.

--Minha afilhada, continuou Cesario, deve levantar as mãos para o céu.
Achou um marido que a hade fazer feliz e tornal-a mãe de uma boa duzia
de filhos.

Estremeceu Cyrino, mas nada disse.

Por toda a parte esbarrava de encontro a preconceitos que nada podia
vencer.

Nessa mesma tarde quiz montar a cavallo e voltar para Sant'Anna;
entretanto, o pensamento da resistencia com que Innocencia encetara a
terrivel lucta com seu pae, actuou em seu espirito e o reteve.

Decidiu-se a atacar o touro pelas aspas.

Restar-lhe-ia ao menos o consolo do desabafo, e num jogo perdido
arriscava ainda ousado lance.

--Sr. Cesario, disse elle na manhã seguinte, preciso muito falar-lhe em
particular.

--A mim?

--Sim, senhor.

--Pois, estou aqui ás suas ordens.

--Quizera que sahissemos. O que lhe vou dizer ... ninguem pode ...
ninguem deve ouvir.

--Oh! O senhor me assusta... Então tem segredos que me contar?

--Tenho...

--Pois vá lá... _Mapiaremos_ fóra... Ao meio-dia esteja na minha
roça ... sabe onde é?

--Sei...

--Espere-me num pau de peroba secco que esta derrubado.

--Lá estarei.

Muito antes da hora aprazada, achava-se Cyrino no lugar indicado.

Devorava-o a impaciencia.

Resolvido a desvendar sem rebuço os seus amores a esse homem a quem mal
conhecia, que por elle não tinha senão razões de passageira
sympathia, e de quem, comtudo, estava dependente sua felicidade,
considerava decisivos os momentos.

Quem em taes circumstancias se acha, enxerga em tudo quanto o rodeia
symptomas de bom ou mau agouro, e nesse instante a Cyrino pouco parecia
sorrir a natureza.

Não chovia; mas o tempo estava carregado e sombrio.

Tinha o ceu cor acinzentada e do lado do poente linhas negras e
continuas denunciavam trovoada talvez para a tarde.

Era o local, além disso, tristonho. Enfileiravam-se numa grande área,
pés de milho já pendoados, dentre os quaes surgiam possantes madeiros
de tronco rugoso e galhada completamente despida de ramagem; uns, da
base á extrema ponta, lugubremente ennegrecidos pelo fogo lançado
antes da sementeira; outros perdidas todas as folhas em consequencia da
incisão profunda e circular com que o machado impedira a ascensão da
seiva. Esses quedavam vivos, mas de uma vida latente e esmorecida,
denunciada por entanguidos brotos no mais alto do tope.

Quando o dia é claro, aquelles gigantes da floresta, que pela robustez
do cerne haviam desafiado as chammas e os esforços do homem, servem de
poleiro a innumeros bandos de papagaios, periquitos araçaris, ou de
graúnas que formam concertos capazes de ensurdecer os écos.

Naquella occasião; porém, tudo era silencio.

Só de vez em quando se ouviam pancadas surdas e intermittentes dos
pica-paus de crista vermelha, agarrados aos troncos das arvores e a
explorar-lhes os pontos carunchosos, subindo em zig-zags.

Á hora ajustada, apresentou-se Antonio Cesario.

Por cautela vinha armado de uma espingarda de caça, que bem serviria
para derrubar alguma onça, ou animal damninho.

Seu rosto, habitualmente sereno, indicava certa inquietação, repassada
de curiosidade.

--Aqui me tem, doutor, disse elle descançando a arma sobre o páu
derrubado e sentando-se ao lado de Cyrino. Estou prompto para ouvil-o
quanto tempo queira...

Muito pensara Cyrino nesse momento a que devia chegar e, entretanto,
não pudera achar o modo por que encetasse as suas declarações.
Parafusara de continuo mil pretextos sem nada assentar.

Foi, pois, a balbuciar que respondeu:

--O Sr ... hade me desculpar ... o incommodo que ... lhe dou...

--Incommodo nenhum.

--E deve estar ... espantado do que lhe pedi ... vir falar commigo ...
em lugar ermo ... commigo que sou como qualquer hospede, como tantos que
a sua casa tão franca todos os dias recebe...

--Com effeito, confirmou Cesario.

--Pois bem, daqui a nada tudo lhe ficará claro e explicado... Se
emquanto eu falar ... o offender, perdoe-me, ouviu?

--Sr. Cesario, continuou Cyrino após breve pausa, se o Sr. visse um
homem arrastado numa _corredeira_[120] e pudesse atirar-lhe uma corda e
salval-o ... o faria?

--Boa duvida! replicou o outro com força. Ainda que corra perigo de
vida, não deixarei homem nenhum, branco ou preto, livre ou escravo,
rico ou pobre, conhecido ou não, sem o soccorro de meu braço.

--Pois bem, exclamou Cyrino arrebatadamente, sou eu esse homem que vae
morrer, que está perdido e a quem o Sr. pode salvar...

E respondendo á tacita suspeita de quem o ouvia:

--Não acredite que esteja doido ... não. Estou tão são de juizo como
o Sr. e falo-lhe a verdade. Uma palavra esclarece-lhe tudo ... eu morro
de paixão por uma mulher e essa mulher é ... sua afilhada!...
Innocencia!

De um pulo levantou-se Cesario. Seus labios tremiam, os olhos de subito
injectados de sangue. A mão procurou a arma que lhe ficava ao lado.

--Que é isso? balbuciou encarando fixamente Cyrino.

Adivinhara-lhe este todos os pensamentos.

Erguera-se tambem, cara a cara com Cesario:

--Mate-me, bradou elle, mate-me... É um favor que me faz... Dê cabo
desta vida desgraçada.

Já arrependido do gesto que fizera e um tanto corrido da sua
precipitação, replicou o outro todo sombrio:

--Não tenho razões para matal-o... O Sr. nunca me fez mal...

--Não, proseguiu Cyrino meio desvairado, peço-lhe por favor... Se o
Sr. tem caridade, e é bom, se gosta de seus filhos, se tem pae e mãe
no céu ... por tudo isso eu lhe peço de joelhos! mate-me ... mate-me!

E deixou-se cahir aos pés de Cesario, occultando a cabeça entre as
mãos.

Contemplou-o largos instantes o mineiro com surpreza.

Inclinando-se para o moço, bateu-lhe no hombro e quasi com brandura lhe
disse:

--Que historia é essa, doutor?... Isso é loucura! Conte-me o que ha...
Quero saber se a sua bola está gyrando ou não. Sou homem do sertão,
mineiro de lei ... mas sei tratar com gente...

A estas palavras, recobrou Cyrino algum alento e pôz-se de pé.

Sentando-se então ao lado de Cesario, narrou-lhe tudo, o desespero que
o minava, a certeza que tinha do amor de Innocencia e a implacavel
sentença proferida por Pereira.

Ouvia-o Cesario attentamente. Só de vez em quando deixava escapar esta
exclamação:

--Ah! mulheres!... mulheres! É a nossa perdição.

Depois que Cyrino acabou de falar, encarou-o detidamente e, com ar
severo, perguntou:

--Fale-me a verdade, doutor, o senhor nunca trocou palavra com
Innocencia? Nunca esteve só com ella?

--Estive, respondeu o outro meio receioso.

As faces de Cesario subiu uma onda de sangue.

--Então, roquejou elle, a desgraça...

--Deus meu, atalhou Cyrino com fogo, caia a alma de minha mãe no
inferno, se Innocencia não é pura ... se...

Conteve-o Cesario com um gesto.

--Basta, moço: quem jura assim, não mente... Tambem no meu tempo tive
uma paixão infeliz ... e sei o que é soffrer...

--Oh! Sr. Cesario, salve-me!...

--Que posso eu fazer? Não sabe o senhor que ella hoje não pertence nem
mesmo ao pae, ao seu proprio pae? Pertence á palavra de honra, e
palavra de mineiro não volta atraz... Não sabia o senhor disso, quando
deixou que o amor lhe entrasse pelos olhos?... Mulheres não pensam ...
mulheres o que querem é ver os homens _derretidos_ por ellas ...
sacrificam tudo ... e por um requebro _pincham_ na rua a honra de suas
casas...

--Não, protestou Cyrino, ella não é assim...

--Então é melhor que as outras? objectou Cesario com desdem.

--Sim, sim, é melhor do que tudo deste mundo. Acima della, só
Nossa-Senhora!...

Ligeiramente sorriu o mineiro.

--Qual! observou elle, bem disse o _outro_: a paixão é um transtorno.
Fica um homem que nem uma miseria! É...

--Então? interrompeu Cyrino.

--Então o que?... Já lhe não disse quanto basta? Minha afilhada
pertença tanto a Manecão, como uma garrucha ou um _guampo
lavrado_[121] que Pereira lhe tivesse dado... Não ha meios e modos de
voltar atraz...

Não desanimou o mancebo.

Falou por muito tempo com verdadeira eloquencia, appellando
principalmente para a protecção que todo o christão tem obrigação
de dispensar ao ente que leva á pia baptismal, a seu segundo filho, ao
pagãosinho por quem o padrinho se torna responsavel perante Deus.

Feriu o sentimento religioso do mineiro e commoveu-o.

--Não me falle assim, contrariou este, o senhor quer ver se me puxa
para o seu lado... E quem me assegura que, _Nocencia_ gosta tanto da sua
pessoa?... Quem?

O coração está-lh'o dizendo baixinho, respondeu com calma Cyrino. O
senhor, que é homem de honra, acredita que eu esteja mentindo? Que tudo
isso é falso? ... diga, acredita?

Cesario tartamudeou:

--Sim... _Assumpto_ verdades, mas...

--Ah! exclamou Cyrino, o Sr. sente a consciencia bater-lhe que sua
afilhada está desamparada, que vae ser sacrificada ... e agora tapa os
ouvidos e diz: Não quero ouvir, não quero cumprir a minha palavra!
Porque a deu então o Sr ... essa palavra de honra de que tanto fala?...
Nossa Senhora que a proteja ... que a tire deste mundo... Isso ha de
pesar-lhe no peito ... e, quando um dia tiver noticia que Innocencia
morreu de desgostos, ha de dizer lá comsigo que ajudou a cavar-lhe a
sepultura.

Estava Cesario abalado: com verdadeira anciedade retorquiu:

Que historias me conta o Sr.? Eu mettido no meu canto ... vivendo tão
socegado ... não bulindo com ninguem, e agora _anarchisado_ por estes
mexericos!... Quem o mandou vir cá?

--Quem seria, retrucou Cyrino, senão Innocencia? Por ventura eu o
conhecia? ... algum dia o vi?... Não; foi aquelle anjo que me disse:
busca meu padrinho, é o ultimo recurso. Se elle não nos amparar,
então ... estamos perdidos de uma vez.

Estas palavras convenceram de todo Cesario.

Ficou em silencio, recolhido, a meditar; Cyrino o observava offegante.

--Pois bem, disse por fim o mineiro em tom grave e pausado, hei-de
pensar no que o Sr. me conta...

--Oh! Sr. Cesario!...

--Levarei dois dias a remoer sobre o caso... O que disse uma vez, não
digo duas... No fim desse tempo, monto a cavallo e appareço por casa de
Pereira...

--Sim, sim, balbuciou o moço.

--Amanhã mesmo, de madrugada, o Sr. sae daqui e vae esperar-me na
Senhora Sant'Anna.

--Irei ... salve-me...

Cesario parou um pouco.

--Agora, quero que o Sr. me faça um juramento ... pelas cinzas de sua
mãe.

--Estou prompto.

--Pela salvação da sua alma...

--Pela salvação de minha alma, repetiu Cyrino.

--Pela vida eterna...

Cyrino acenou com a cabeça.

--Jure!

O mancebo cruzou os dedos indices e beijou-os com uncção abaixando os
olhos e empallidecendo.

--O Sr., disse Cesario, jurou antes de saber o que era... Deu-me boa
idéa do seu caracter... Farei tudo por ajudal-o, mas exijo-lhe uma
condição... Se quizer aceital-a, fica valendo o juramento; senão ...
o dito por não dito...

--Que será, meu Deus? murmurou Cyrino.

--É ficar o Sr. esperando em Sant'Anna. Se eu apparecer por estes oito
dias, iremos juntos á casa do compadre. Se não, é que decidi o
contrario. Neste caso, virá o Sr. até cá e aqui esperará as suas
cargas que mandarei buscar. Será signal de que, nunca mais ha de
procurar botar as vistas em Innocencia ... nem sequer fallar nella.
Acceita?

--Aceito, respondeu o moço com exaltação; mas fique certo de uma
coisa: se o Sr., no tempo marcado, não estiver na villa, reze por alma
de Cyrino, porque elle terá deixado este mundo de afflicções.

Cesario meneou tristemente a cabeça e retirou-se, sem dizer mais
palavra.


[Nota 120: Trecho de rio encachoeirado.]

[Nota 121: Guampo é uma vasilha feita de chifre para tirar agua.
Chama-se lavrado quando tem desenhos de lavor.]



CAPITULO XXIX

RESISTENCIA DE CORÇA


    Acasto--Não póde ella falar?

    Oswaldo--Se ralar é tão somente fazer
    ouvir sons por meio da lingua e dos
    labios, é aquella creatura muda; mas
    se tão maravilhosa faculdade consiste
    tambem em tornar comprehensiveis os
    menores pensamentos por accionados e
    expressivos gestos, póde dizer-se que ella
    a possue, pois seus olhos brilhantes como
    estrellas do céu tem uma linguagem
    intelligivel, bem que falha de sons
    e de palavras.

    SHAKESPEARE.


Deixámos Innocencia tão abatida de corpo, quanto resoluta de espirito.

Presentia os choques que tinha de supportar, e robustecia a alma na
meditação continua e firme da sua infelicidade.

Estava de joelhos deante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de seu
pae a fez levantar.

--_Nocencia_! chamava elle.

Rapidamente passou a pobresinha a mão pelo rosto para apagar os
vestigios de copioso pranto, e com passo quasi seguro penetrou na sala.

Estavam Pereira e Manecão sentados junto á mesa. O anãosinho Tico
aquecia-se aos pallidos raios de um sol meio encoberto e, sentado á
soleira da porta, brincava com umas palhinhas.

--Estou aqui, papae, disse Innocencia em voz alta e um pouco tremula.

Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado.

Julgou dever dizer alguma coisa.

--Até que afinal a dona sahiu do ninho... É que hoje o dia está de
sol, não é?

A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistencia que fel-o
abaixar os olhos.

--Ella esteve doente, desculpou Pereira.

E voltando se para a filha:

--Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você
em negocios particulares...

--Bem percebe ella, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo
para risos.

Innocencia replicou em tom incisivo:

--Não percebo.

--Está se ... fazendo de ... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já ... se
esqueceu ... do que tratei com seu pae?... Parece que comeu muito
queijo.

Com a mesma entoação, e cortando-lhe a palavra retorquiu ella:

--Não me lembro.

Houve uns minutos de silencio.

Accumulava-se a colera no peito de Pereira: seus olhares irados ião
rapidos de Manecão á imprudente filha.

--Pois, se você não se lembra, disse elle de repente, eu cá não sou
tão esquecido.

--Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se á beira da
mesa para ficar mais chegado á moça, faz-se de _enjoada_ a tôa ... o
nosso casamento...

--Seu casamento? perguntou Innocencia fingindo espanto.

--Sim...

--Mas com quem?

--Ué, exclamou Manecão, com quem ha de ser... Com mecê...

Pereira fôra-se tornando livido de raiva.

O anão acompanhava toda essa scena com muita attenção. Scintillavam
seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo rachitico estremecia do
impaciencia e susto.

Á resposta de Manecão, levantou-se rapida Innocencia e, como que
acastellando-se por detraz da sua cadeira, exclamou:

--Eu?... Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero ...
não quero... Nunca... Nunca...

Manecão bambaleou.

Pereira quiz pôr-se de pé, mas por instantes não pôde.

--Está doida, balbuciou, está doida.

E, segurando-se á mesa, ergueu-se terrivel.

--Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva.

--Não, disse a moça com desespero, quero antes...

Não pôde terminar.

O pae agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.

Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe de encontro á parede.

Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra, amparando
o peito com as mãos. Mortal pallidez cobria-lhe as faces, e de ligeira
brecha que se abrira na testa deslisavam gottas de sangue.

Ia Pereira a precipitar-se sobre ella como para esmagal-a debaixo dos
pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, occultou as
lagrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.

Manecão não fizera o menor gesto. Extatico assistira a toda essa
dolorosa scena. A physionomia estava impassivel, mas, por dentro, seu
coração era um vulcão.

Lugubre silencio reinou por algum tempo naquella sala.

O anão chegara-se a Innocencia, tomando-lhe uma das mãos: depois, a
fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por signaes a
necessidade de retirar-se.

A custo pôde ella seguir aquelle conselho. Quasi de rastos e ajudada
por Tico é que saiu da presença do pae e de seu perseguidor.

Nenhum movimento fizeram os dois para retel-a. Calados como estavam,
deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela
grandeza daquella desgraça.

Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.

Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito.

Afinal, exclamou:

--É preciso que eu _desembuche_ o que tenho cá dentro, senão
estouro... Quem for homem que seja ... Manecão, _Nocencia_ para nós
está perdida ... para nós, porque um homem lhe deitou um mau olhado...

--E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.

--Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo metti o diabo em casa... Estive
alerta ... mas o mal já caminhava.

--Mas, quem é elle? tornou a perguntar com impaciencia Manecão.

--Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o
socego que Deus me deu...

Contou então ás pressas Pereira todas as tentativas do allemão Meyer,
tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos
assim suppunha, já haviam produzido os seus damnosos fructos.

--Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquelle cachorro, que tudo
era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?...
Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.

--Para que? interrompeu Manecão.

--Respondam os urubús...

--Para matal-o?

--Sim...

Houve breve pausa.

--Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe hade dar cabo da pelle.

--Porque?

--É negocio que me pertence. O senhor é pae ... eu porém sou ...
noivo. Mangaram com os dois ... mas o _allamão_ fica no chão.

--Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje ... agora, se
possivel fôr. Cão damnado deve logo ser morto, para que a baba não
dê raiva... Vá depressa e venha contar-me que aquelle homem já não
existe... Como velho, como pae ... abençôo a mão que o hade matar.
Caia o sangue que correr ... sobre os meus cabellos brancos...

Havia toda esta conversa sido attentamente ouvida por alguem; o anão
Tico.

Viera a pouco e pouco approximando-se da mesa com os olhos a fulgir.

De repente, collocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.

--Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.

Começou então o homunculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito
expressivos, que de tudo estava sciente, participando de todos os
projectos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia
os dois offendidos.

Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados,
fez ver que Pereira laborava em engano, tão somente quanto á pessoa.

Com muita propriedade de imitação e perfeita mimica, ora levantando o
braço para caracterisar as physionomias, tão exactamente representou
Meyer e Cyrino, que o mineiro logo os reconheceu.

--Bem sei, bem sei Tico, murmurou elle. Você fala do doutor e
daquelle...

Ahi o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de
Innocencia, indicou que nada tinha ella com o allemão.

Ficaram pasmos os dois.

--Então, balbuciou Pereira, quem será?... Cy ... rino, meu Deus?!

--Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas
vezes a cabeça.

--Qual! protestou Pereira, o doutor?...

Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.

Gesticulou como um possesso; correu para fóra de casa; denunciou as
entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cyrino: mostrou o
lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua
queda; repetiu o grito que dera; lembrou a scena da madrugada, findando
com aquelles tiros; exprimiu-se por signaes tão adequados e taes
movimentos de cabeça e physionomia, que toda a duvida desappareceu do
espirito de Pereira.

Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua colera subiu a
um grau de violencia inexprimivel.

Esteve a cahir fulminado.

--Infame murmurou roxo de ira, tu me pagas! Infame... Infame!

Depois voltando-se para Manecão:

--Dê-me esse ... eu o quero...

Abanou o capataz a cabeça.

--Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o
senhor ... e fez de mim chacota.

--Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje ... parta já... E
quando voltar, diga só: estamos desaggravados... Innocencia será
sua...

Parando um pouco concluiu tomado de enleio:

--Se quizer aceital-a.

--Havemos de conversar...

Teve o mineiro uma explosão de desespero.

--Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nós? Um homem entra
na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu tecto, bebe da
agua que, carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de
paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me
partam!... Não quero mais saber que esse miseravel respire o ar que
respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que
trouxe, gente do inferno como elle!... Heide cuspir-lhes na cara...
_Pinchal-os_ fóra como cães que são!.. Ladrões!... Eu...

Interrompeu-o Manecão com calma:

--Não faça nada... É preciso que ninguem saiba do que se está
passando aqui... Ninguem!... percebe?

--E então?

--Faça de conta[122] que recebeu uma _letra_[123] de Sant'Anna. O
_cujo_ foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no
Leal... Ouviu?

Pereira fez signal de tudo comprehender.

--Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.

--Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta
cabeça como um cortiço de guaxupés... É um zumbido!... Mostre que
já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e
mãos atadas a você... Tudo lhe pertence... Emquanto a honra do mineiro
não for desaffrontada ... não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus,
que vergonha!...

--Coragem, coragem, aconselhou o outro.

--Se este _socavão_ não chegar para esconder minhas miserias ... mudo-me
para as bandas do Apa... Parece que vou morrer ... sinto fogo dentro da
cabeça...

E vencido pela emoção encostou a testa á mesa, deixando cahir os
braços.

Bateu-lhe Manecão no hombro.

--Que é isso, meu pae? animo! De que serve ser homem?... Olhe, cara a
cara a sua desgraça ... que tambem é minha. Não o consola a certeza
de que aquelle homem brevemente...

--Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se
retirara, mas que faremos deste _tico_ de gente, que sabe tudo?

--Não o deixe sair mais de casa.

--Qual!... É que nem _mussú_. Quando a gente mal pensa, surge no
Sucuriú e até no Corredor.

--Pois bem... Ficará elle sabendo que ... um só piscar de olho ...
pode sahir-lhe caro ... muito caro.

--Então, implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquella
gente ... vá... Se eu pudesse ainda dormir ... esquecia um pouco,
mas...

Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.

Incontinenti foi Manecão despachar os camaradas de Cyrino, os quaes,
pouco depois sahiam com destino á casa do Leal.

Em seguida, montando o tropeiro a cavallo, partiu em carreira
desapoderada para a villa do Sant'Anna do Paranahyba, onde chegou alta
noite.


[Nota 122: Fingir.]

[Nota 123: Carta.]



CAPITULO XXX

DESENLACE


    Estão contados os grãos de areia
    que compõem a minha vida. É aqui
    que devo tombar. É aqui que ella
    hade acabar.

    SHAKESPEARE.--_Henrique V_, Acto I.

    Eis que vi um cavallo amarello,
    e quem o montava, era a morte.

    S. JOÃO.--_Apocalypse._


Durante tres dias, foi Cyrino rigorosamente espreitado pelo noivo de
Innocencia.

Com a cautela propria dos seus habitos esquivos, soube Manecão
acompanhar-lhe todos os passos sem ser presentido.

Assim notou que o rival montava a cavallo e ia até certo ponto da
estrada como que esperar por alguem que não chegava. Na ida, mostrava
impaciencia e inquietação; na volta vinha melancolico e curvado sobre
si mesmo, absorto em fundo meditar.

Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesario; mas este não apparecia.

Estava quasi expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do
completo desengano.

Oh! se elle pudera!... Agarraria com forças de Josué esse sol que lhe
marcava os dias e o deixaria immovel, até que o seu salvador se
resolvesse a estender-lhe a mão.

E já ia findando a semana!...

Completo o circulo de horas, se Cesario não apparecesse, começava a
imperar o juramento que dera, irrevogavel, implacavel!

--Matar-me-hei, dizia Cyrino; ficarão sabendo que não menti ás minhas
palavras.

Nessa firme resolução sahiu da villa; passou o rio Paranahyba e, como
costumava, caminhou pela estrada de S. Francisco de Salles, talvez tres
leguas. Contava pousar por aquelles sitios, de modo que alongava o seu
passeio.

Claro era o dia; lindo.

Por toda a parte cantavam mil passaros. Gritavam as gralhas nos
cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.

Cyrino ia muito agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na
frente, buscavam na estrada, anciosos o vulto de um cavalleiro.

Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.

Alguem vinha a galope.

Seu coração pulsou que parecia ter entrado tambem a galopar.

Mas o som partia de detraz.

Sem duvida, algum viajante vindo da villa.

Continuou Cyrino na vagarosa marcha.

O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve comsigo estaria
emparelhando, quem extravagantemente em hora tão impropria corria á
desfilada.

O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguem a trote
largo passara por perto de si, quasi a roçar animal contra animal.

Dalli a pouco, novo galope se fez ouvir.

Parecia que o mesmo cavalleiro havia dado de redeas, cortando o rumo que
levava.

Dessa vez, porem, Cyrino accordou do lethargo, esporeou vigorosamente a
sua cavalgadura e ... esbarrou com Manecão.

Instinctivamente empallideceu. O outro estava tambem muito descorado.

Estacaram elles os animaes e fitaram-se alguns minutos, de um lado com
desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.

--Patricio, interpellou por fim o capataz em tom provocador, que faz
mecê por aqui?

--Eu? perguntou Cyrino.

--Nhôr sim, mecê mesmo.

--É boa ... viajo.

--Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?

--Andejo, não, contestou Cyrino com força. Não sou nenhum bruto.

E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola,
fazendo menção de a sacar.

--Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é?

--Sou o que sou, não é da sua conta.

Contrahiu-se o rosto de Manecão.

De um tranco chegou o cavallo bem junto a Cyrino e disse-lhe em voz
surda:

--É um ladrão ... é um cachorro!

A esse insulto, puxou Cyrino a pistola.

--Mato-o já, bradou com violencia se continua a _destratar-me_...

Sorriu-se o capataz com desprezo.

--Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E
sabe manejar garrucha!...

--Acabemos com isso, gritou Cyrino.

--Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.

--Mas quem é o Sr.? perguntou Cyrino.

--Eu?

--Sim!... sim!...

--Então não me conhece?

--Não, balbuciou Cyrino.

--Conhece _Nocencia_? uivou Manecão com voz terrivel.

E de sopetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a á
queima-roupa em Cyrino.

Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.

Dois gritos estrugiram.

Um de agonia, outro de triumpho.

Ficara Cyrino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe
escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorompeu em
vociferações contra o inimigo, que o contemplava sardonico.

--Matador! ... vil! ... sim! ... conheço Innocencia... Ela é minha...
Infame!... Mataste-me... mas mataste tambem a ela!... Que te fiz eu?...
Deus te hade amaldiçoar ... sim, meu Deus, meus Santos ... maldição
sobre este assassino... Foge, foge ... minha sombra hade seguir-te
sempre...

--Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavallo, isso mesmo é o que
eu quero.

--Ah! queres? continuou Cyrino com voz rouquejante, não é?... Pois
bem!... De noite e de dia ... minha alma há de estar contigo ...
sempre, sempre!...

Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela
testa. Lentejava-lhe dos póros o suor frio e visguento da morte.

Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração
tornou-se-lhe mais difficil.

--Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer ... assim. Devo
sair desta vida ... como christão... Hei de saber perdoar... E reunindo
as forças, acrescentou com uncção e energia: Manecão ... eu te
perdôo ... por Christo ... que morreu ... na cruz, para nos salvar ...
eu te perdôo... Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo,
ouviste?

Á medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara
Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.

--Não quero o teu perdão, bradou elle a custo.

--Não importa, respondeu-lhe Cyrino com voz suave. Ele é ... dado do
fundo d'alma... Cáia sobre tua cabeça...

Quero, quero morrer como christão... Que me importa agora o mundo, a
vingança ... tudo?... só Innocencia!... Coitada de Innocencia... Quem
sabe ... se ... ela ... não morrerá? Manecão, dá-me agua. Agua pelo
amor de Deus!... Desce do cavallo, homem... É um defunto que te pede...
Desce!...

E com os braços erguidos acenava para Manecão.

--Agua, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me agua ... eu
te dou a salvação...

Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabellos. Queria fugir e
não podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo
a agonia da sua victima. Aquella scena se lhe afigurava um pesadello, e
completo torpor lhe tolhia os membros.

Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela
estrada a trote.

Ouvira tambem Cyrino o estrupido e arregalara com anciedade os olhos.

Desabrochou-lhe nos labios um sorriso de acre tristeza.

Alguem vinha chegando.

Esporeou Manecão com vigor o cavallo e, levantando uma nuvem de poeira,
desappareceu num abrir e fechar de olhos.

Nisto assomava um cavalleiro numa das voltas do caminho.

Era Antonio Cesario.

Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.

--O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorisado.

--Eu mesmo, respondeu Cyrino com voz fraca.

--Mas, quem lhe fez este damno, santo Deus?

E correndo para o moço, ajoelhou-se junto delle e levantou-lhe o corpo.

--Quem foi o assassino?

--Ninguem, rouquejou o misero, foi ... destino... Morro contente...
Dê-me agua ... e fale-me de Innocencia...

--Agua? exclamou Cesario com desespero, aqui no meio do cerrado?... O
corrego fica a tres leguas pelo menos...

--Ah! replicou Cyrino meio desvairado, se não ha ... com que estancar a
sêde do corpo ... estanque a ... da alma... Innocencia ... onde está?
quero vel-a... Diga-lhe que morri ... por causa della...

--Mas, quem o matou? bradou o mineiro.

--Não vale a pena dizel-o respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide
agora ... só de mim... Olhe ... nunca fui mau ... não tenho
peccados ... grandes... Acha que Deus me ... hade perdoar?

--Acho, respondeu Cesario com força...

--Que fiz eu ... na minha vida? Talvez ... enganasse os outros ... dizendo
que era ... medico... Mas ... tambem curei alguns... De nada mais
me recordo... Ah! sim ... uma divida de honra... Na minha carteira ... ha
uns seis centos mil reis; pague ... trezentos ao Totó Siqueira,
da villa; dê ... cincoenta mil reis ... a cada camarada ... meu ... o
mais ... distribua ... todo ... pelos pobres, sobretudo ... morpheticos ...
depois das ... missas ... que por mim ... mandar ... rezar ...
ouviu? ... ouviu?

Fez o mineiro signal que sim.

Vinha a morte desdobrando as suas sombras no rosto de Cyrino. Ia-se-lhe
empanando o brilho dos olhos; ficara a lingua tropega, afilara-se-lhe o
nariz, e sinistro pallor mais realçava a negra cor dos seus cabellos e
barbas.

Sentara-se Cesario no chão para segurar com mais geito o corpo do
moribundo. Duas lagrimas vinham-lhe sulcando as masculas faces.

Ligeiro estremecimento agitava o corpo de Cyrino.

--Agora, acrescentou com voz muito sumida, chegou ... o meu
dia... Mas ... eu lhe peço ... nada diga ... á sua afilhada... Não
consinta ... que case com ... Manecão.

--Então, interrompeu Cesario, foi elle quem?...

--Não, não, contestou Cyrino, mas ... ella havia de ser ... infeliz...
Ouviu? Promette-me?

--Prometto, respondeu Cesario com firmeza. Juro até...

--Pois bem, suspirou o agonisante, agora ... agradeço a morte... Quero
apegar-me ... ás Santas do Paraiso ... e chamo por...

E com esforço, no ultimo alento, murmurou mais e mais baixo:

--Innocencia!

     *     *     *     *     *     *     *

Na tarde deste dia, o viajante que passasse por aquelle sitio poderia
ver uma cova coberta de fresco, sobre a qual se erguia uma cruz tosca
feita de dois grossos páus amarrados com cipós.


[Ilustração: Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.]


Eram mostras da caridade do mineiro Antonio Cesario.



EPILOGO

REAPPARECE MEYER


    Possue-te de justo orgulho e coroem
    os louros de Apollo tua cabeça.

    HORACIO.


No dia 18 de Agosto de 1863, presenciava a cidade de Magdeburgo pomposo
espectaculo, ha muito annunciado no mundo scientifico da sabia Germania.

Era uma sessão extraordinaria e solemme da Sociedade Geral Entomologica,
a qual chamava a postos não só todos os seus membros effectivos,
honorarios, correspondentes, como muitos convidados de oceasião, afim
de acolher e levar ao capitolio da gloria um dos seus mais distinctos
filhos, um dos mais infatigaveis investigadores dos segredos da
natureza, intrepido viajante, ausente da patria desde annos e de volta
da America Meridional, em cujas regiões centraes por tal fórma se
embrenhara, que impossivel havia sido seguir-lhe o roteiro, até nos
mappas e cartas especiaes do grande colleccionador Simão Schropp.

Revestira-se de mil galas a sciencia. Todos os socios de casaca preta,
gravata e luvas brancas, alguns com discursos nos bolsos, enchiam a sala
das sessões muito antes da hora marcada: a orchestra executava a sonata
n.° 26 de Luiz van Beethoven, e senhoras ostentavam _toilettes_ ricas
e de aprimorado gosto.

De repente atroou um grito:

--Vivat Meyer!! Hurrah! Vivat! Hoch! Hoch!...

E, ao passo que todos os pescoços se estiravam para ver quem entrava
sacudiam-se no ar com enthusiasmo lenços e chapéus.

Acalmada a ruidosa manifestação, levantou-se o presidente da Sociedade
Entomologica, um presidente magro como um espeto e ornamentado de ruiva
cabelleira que lhe dava aspecto de um projecto de incendio.

--Sim! exclamou elle depois de ter bebido uns goles d'agua assucarada e
de haver preparado a garganta; eis emfim, aqui, no meio de nós, o
grande, o vencedor, o incomparavel Guilherme Tembel Meyer!...

E neste gosto falou duas horas seguidas.


     *     *     *     *     *     *     *

No dia seguinte, traziam as gazetas de Magdeburgo extensa relação da
festa, transcreviam o discurso do presidente e, como appendice ás notas
biographicas relativas a Meyer, enumeravam os prodigios entomologicos
que havia recolhido em suas dilatadas peregrinações.

«O que ha mais digno de admiração, dizia o _Tempo_ (Die Zeit), em
toda a immensa e preciosissima collecção trazida pelo Dr. Meyer das
suas viagens, é sem contestação uma borboleta, genero completamente
novo e de esplendor acima de qualquer concepção. É a _Papilio
Innocentia_... (Seguia-se uma descripção de minuciosidade
perfeitamente germanica).

«O nome, acrescentava a folha, dado pelo eminente naturalista áquelle
soberbo especimen, foi graciosa homenagem á belleza de uma donzella
(Mädchen) dos desertos da provincia de Matto-Grosso (Brazil), creatura,
segundo conta o Dr. Meyer, de fascinadora formosura. Vê-se, pois, que
tambem os sabios possuem coração tangivel e podem, por vezes, usar da
sciencia como meio de demonstrar impressões sentimentaes de que muitos
não os julgão susceptiveis.

     *     *     *

Innocencia, coitadinha...

Exactamente nesse dia fazia dous annos que o seu gentil corpo fora
entregue á terra, no immenso sertão de Sant'Anna do Paranahyba, para
ahi dormir o somno da eternidade.



FIM



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